A Lei de Deus aos Romanos - I

O tema central da epístola aos romanos é a pecaminosidade generalizada da humanidade e a abrangência universal da graça de Deus, sendo esta o único meio pelo qual os pecadores obtêm o perdão e são restaurados à perfeição e a santidade. A graça é obtida unicamente pela fé em Jesus Cristo, que morreu, ressuscitou e vive eternamente para restabelecer o pecador arrependido aos propósitos originais instituídos na criação(a).1

Quando Paulo escreveu aos cristãos romanos, em sua mente sobrevinha os problemas que surgiram em seus conflitos com os judaizantes(b), apesar disso, ele centralizou sua mensagem no plano de Deus para combater o pecado. Pode-se afirmar ainda, que os versos de Romanos 1:16-17 apresentam o fundamento desta mensagem, sendo os demais uma dissertação sobre eles. Ao longo de seu discurso, Paulo demonstra que judeus e gentios pecaram e continuam afastados de Deus (Romanos 3:23-24), e que não há nenhuma razão para este afastamento, pois todos sem exceção tiveram a oportunidade de conhecer a Deus e Seus propósitos em algum momento de suas vidas (Romanos 1:18-21).

Portanto, todos estariam com devida justiça sob a condenação de morte eterna se não fosse a graça de Deus, pois não existe ninguém capaz de se libertar por si mesmo de sua condição pecaminosa; ninguém possui a vontade natural de obedecer a Deus (Romanos 8:5-9 cf. Gênesis 6:5-6, Romanos 7:15-18). Paulo destaca ainda que a tentativa legalista de seguir a lei resulta em fracasso, além de evidenciar arrogância ao buscar "justiça" própria sem o reconhecimento da debilidade e necessidade de um Salvador, Jesus Cristo (Romanos 9:30-33 cf. Isaías 8:14). Ao pecador, exige-se que exerça a fé que: o ajude a obter o perdão de seu passado pecaminoso e, o habilite a receber ajuda divina para desenvolver uma vida de retidão.

A carta aos romanos responde a pergunta dos séculos: "Como poderia o homem justificar-se diante de Deus?" (Jó 9:2 BJ). Ninguém pode julgar-se justo caso não se justifique com o Criador (Isaías 1:18; Isaías 43:25-26). E Paulo apresenta a maneira como Deus guia o homem na justificação através de Cristo; demonstrando ainda, paralelamente, a relação harmoniosa entre a lei de Deus e Sua graça (Romanos 3:31 cf. Romanos 2:13; Romanos 6:15). Deste modo, analisaremos alguns versos dessa carta dentro do contexto em que eles estão inseridos, diferentemente daqueles que os avaliam de forma isolada com o objetivo de manter a crença anomista de que lei de Deus foi anulada pela graça.

Romanos 7:6
"Mas agora, morrendo para aquilo que antes nos prendia, fomos libertados da lei, para que sirvamos conforme o novo modo do Espírito, e não segundo a velha forma da lei escrita." (NVI).
A expressão "libertados da lei" refere-se a absolvição da penalidade pela transgressão da própria lei.2 Este mesmo ensino é encontrado em Romanos 6:14-15(c). Em ambos os casos, declara-se que o pecador arrependido que abandonou a sua conduta pecaminosa ("aquilo que antes o prendia", Romanos 7:5; Romanos 6:12 cf. Ezequiel 33:15-16), ao dirigir-se a Cristo, não está sujeito a condenação por ter transgredido a lei de Deus (Romanos 6:23 cf. I João 3:4), pois a graça concedeu-lhe o perdão (Romanos 5:16; Miquéias 7:18-20; Hebreus 8:12). Entretanto, se o pecador beneficiado retornar a transgredir a lei, ela novamente mostrará o pecado cometido e o condenará. A lei exercerá o seu direito de cobrar justiça. O pecador estará mais uma vez cativo "àquilo que antes o prendia" (o seu pecado), e consequentemente sujeito a devida punição, a morte eterna. Ele novamente terá que recorrer a graça de Deus e ao auxílio do Espírito Santo caso deseje livrar-se novamente dessa situação (Romanos 6:22-23).

Romanos capítulo 7 descreve a luta contra as tendências maléficas que habita a mente humana e, a experiência da pessoa regenerada pelo Espírito Santo. Este capítulo demonstra a batalha incessante entre a velha e nova naturezas do homem (Romanos 7:15-25; II Coríntios 5:17). Muitos reconhecem a condição pecaminosa em que estão envolvidos, todavia, escolhem não passar pelo processo de conversão e mantêm a vida de pecados. Paulo, no capítulo 7, esclarece também a atuação da lei e as consequências de transgredi-la:
"Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: 'Não cobiçarás'. Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a lei, o pecado está morto. Antes eu vivia sem a lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte.
Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou. De fato a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom. E então, o que é bom se tornou em morte para mim? De maneira nenhuma! Mas, para que o pecado se mostrasse como pecado, ele produziu morte em mim por meio do que era bom, de modo que por meio do mandamento ele se mostrasse extremamente pecaminoso. Sabemos que a lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado." (Romanos 7:7-14 NVI).
Embora a lei seja espiritual (verso 14), o homem envolvido com seus pecados não se considera subordinado à ela. O homem transgride a lei porque a sua natureza é carnal, e a situação se agrava quando ele ignora as orientações do Espírito Santo:
"Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem vive de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus." (Romanos 8:5-8 NVI).3
Enquanto a lei de Deus diz: não matarás; não adulterarás; não dirás falso testemunho; lembra-te do dia de sábado, para o santificar; não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão; e etc. (Êxodo 20:3-17), o homem carnal seduzido por seus desejos pecaminosos infringe os mandamentos desta lei. No entanto, quando ele se submete a orientação do Espírito Santo, ele deixa de transgredi-la; há o abandono da antiga vida de pecado e, a partir de então, o envolvimento com os propósitos de Deus. Assim, ele estará livre da condenação da lei ("libertado" da lei) para que sirva conforme o Espírito (Romanos 7:6).

Romanos 9:30-33
"Que diremos, então? Os gentios, que não buscavam justiça, a obtiveram, uma justiça que vem da fé; mas Israel, que buscava uma lei que trouxesse justiça, não a alcançou. Por que não? Porque não a buscava pela fé, mas como se fosse por obras. Eles tropeçaram na 'Pedra de tropeço'. Como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma Pedra de tropeço e uma rocha que faz cair; e aquele que nEla confia jamais será envergonhado'." (NVI).
Confiante em mérito próprio, o povo de Israel buscava satisfazer a lei, mas não obteve sucesso. A razão desse fracasso é que a lei exige observância perfeita de seus preceitos e a natureza pecaminosa do homem não possui condição para isso. Os judeus tinham depositado em si mesmos a capacidade para satisfazer a justiça exigida pela lei (Romanos 10:1-3). Eles pretendiam ser justos confiando nas obras de suas mãos, e isso os conduziu a agir apenas por formalidade; perderam de vista a real justiça defendida pela lei quando negligenciaram a fé que os conduziriam à ela. Todavia, deve-se ter em mente que, embora a justiça seja obtida pela fé, esta não anula a lei:
"Anulamos então a lei pela fé? De maneira nenhuma! Ao contrário, confirmamos a lei." (Romanos 3:31 RA). "Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados." (Romanos 2:13 RA).
"De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? (...) a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. Mas alguém dirá: 'Você tem fé; eu tenho obras.' Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. (...) Você pode ver que tanto a fé como as obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. (...) Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé." (Tiago 2:14-24 NVI).
"Fé e obras" sempre estiveram juntas complementando-se (Tiago 2:22 cf. Hebreus 11:7-8; Hebreus 11:17-18). Então, aquele que tenta justificar-se meramente por obras, tropeçará, cairá e se ofenderá (I Pedro 2:1-8). Cristo veio para ensinar e conceder a justiça que procede de Deus, a qual deve ser aceita pela fé (Romanos 1:17). Os israelitas que procuravam outra forma de justiça escandalizaram-se com Cristo e Sua mensagem (Mateus 15:12-14 cf. Isaías 8:14-16). Eles estavam tão apegados no conceito deturpado de que a verdadeira justiça podia ser obtida unicamente por meio de suas obras que, abertamente, se opuseram contra Jesus e finalmente O assassinaram (João 6:41-66; Marcos 11:15-18).

A culpa não era da "Pedra" (Jesus Cristo), mas da atitude daqueles que interpretaram erroneamente as Escrituras; cegos espiritualmente por si mesmos, eles rejeitaram os ensinos que conduziam a Jesus (Isaías 53:1-3 cf. João 5:39). Cristo crucificado era um tropeço para os judeus e loucura para os gentios, mas era poder e sabedoria de Deus para os que O aceitavam (I Coríntios 1:22-25). Jesus é Pedra de tropeço para os soberbos e desobedientes, mas, Pedra preciosa para os que guardam a lei objetivando justiça baseada na fé (Apocalipse 14:12 cf. I João 2:1-7, I João 5:1-4).

Somente pela fé em Jesus pode o homem atingir verdadeiramente as exigências que a lei de Deus requer. Os judeus exaltavam a lei e não exerciam a fé em Cristo, e hoje, inversamente, os cristãos dizem que exercem fé em Cristo enquanto anulam de suas vidas a lei praticada e ensinada por Ele.4 E, nos "bastidores", está Satanás, aplaudindo judeus e gentios que aceitam seus enganos e diretamente lhe auxilia a promover a separação entre "fé e obras", "graça e lei" (Apocalipse 12:17 cf. Apocalipse 14:12).

Romanos 10:4
"Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê." (RA).
A palavra "fim" utilizada neste verso provém do substantivo grego "telos", que apresenta o significado de: propósito, objetivo, finalidade, meta. No caso em questão, ela não é empregada no sentido de: "cessar", "terminar" ou "abolir". A aplicação de "telos" indicando desígnio ou intenção é observada também em I Pedro 1:9:
"Obtendo o fim [telos] da vossa fé: a salvação da vossa alma." (RA).
"Pois que alcançais o fim [telos] da vossa fé, a saber, a salvação das vossas almas." (BJ).
"Pois vocês estão alcançando o alvo [telos] da sua fé, a salvação das suas almas." (NVI).
Obviamente que a salvação não anula a fé. Pedro demonstrou que a fé tem a finalidade (objetivo, intuito) de alcançar a salvação, assim como Paulo ensinou que a lei tem a finalidade de nos conduzir a Cristo para que possamos obter o perdão dos pecados, isto é, obter a graça através da fé (cf. Gálatas 3:24). Em Romanos 10:4, Paulo não afirma que a lei findou, pois ele mesmo disse que a fé em Cristo e a graça de Deus não invalidam a lei (Romanos 3:31; Romanos 6:14-15). Outro exemplo do uso da palavra "fim" (telos) com o sentido de propósito (intenção, objetivo), encontra-se em Romanos 6:22: "Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim [telos] é a vida eterna." (NVI).

Romanos 14:5
"Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente." (RA).
Este verso é usado de maneira indevida para confrontar a lei de Deus através do quarto mandamento (Lucas 16:17 cf. Tiago 2:10-12); por ele, comumente se apresenta a alegação de que não existe importância na guarda sabática (Êxodo 20:8-11; Gênesis 2:1-3 cf. Hebreus 4:9-10), ou, que não há necessidade de reservar o sétimo dia da semana exclusivamente para os desígnios de Deus (Isaías 56:2; Isaías 58:13-14 cf. Atos 16:13).

Quando Paulo mencionou em Romanos 14:5 que existem pessoas que julgam "iguais todos os dias", ele não estava dizendo que esses dias eram sem valor, mas incentivando que cada um examinasse cuidadosamente suas concepções a este respeito: "Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente".

O tema de Romanos capítulo 14 é o auxílio ao próximo sem promover julgamentos por suas crenças, e isso é exemplificado através de questões que envolvem "datas importantes" e "opções alimentares", tais como: dias de celebração(d) e jejuns(e) (Jeremias 36:6; Zacarias 8:19; Atos 27:9). Estas práticas causavam dúvidas e até mesmo desavenças, pois os cristãos judeus possuíam dias festivos e de consagração na qual os cristãos gentios poderiam optar em participar, assim como o próprio judeu tinha esta liberdade. E as recomendações de Paulo a este respeito era que cada cristão avaliasse por si mesmo o valor desses dias e, evitasse o desprezo e as críticas pelas decisões dos demais.

O verso de Romanos 14:6 auxilia a esclarecer este assunto ao dizer: "Aquele que considera um dia como especial(f), para o Senhor assim o faz. Aquele que come carne, come para o Senhor, pois dá graças a Deus; e aquele que se abstém, para o Senhor se abstém, e dá graças a Deus." (Romanos 14:6 NVI). E, associada a esta declaração, tem-se a seguinte exortação: "Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova." (Romanos 14:22 NVI).

Portanto, observa-se que Paulo não esta falando meramente de dias semanais. O que a quarta-feira, por exemplo, apresenta de especial para que um cristão devote-a ao longo do ano? O que a segunda-feira traz de importante para que alguém tenha que refletir e decidir algo sobre ela? O judaísmo (base do cristianismo) tinha ao longo do ano diversos dias especiais que eram optativos para um cristão estimá-los. E esta possibilidade de escolha é um dos pontos abordados em Romanos capítulo 14. Ademais, ao se considerar apenas os dias semanais, o único dia particular e especial para Deus é o Seu santo sábado - sétimo dia da semana (Êxodo 20:11; Isaías 58:13-14; Marcos 2:28), e Ele não atribuiu para este dia nada de optativo, assim como não deixou ao critério do homem a opção de obedecer ou não aos demais preceitos do Decálogo.

Cada cristão é responsável por si próprio perante Deus (Romanos 14:10-12). O que Ele espera é que cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente daquilo que acredita e segue, pois prestará contas por suas convicções (Eclesiastes 12:13-14; Hebreus 4:12-13). O cristão é orientado a proceder cuidadosamente de acordo com a luz que recebeu e entendeu, pois a sua fé deve está firmemente alicerçada em santa convicção (I Tessalonicenses 1:5). Entre os seguidores de Cristo nada deve ser feito pela força ou imposição. Sempre deve prevalecer um espírito de amor e tolerância compreensiva. Os que são mais fortes na fé devem suportar as fraquezas dos mais fracos (Romanos 15:1-2), seguindo o exemplo de Cristo que levou as fraquezas e debilidades de todos (cf. Isaías 53:4-6). Não há lugar para a crítica que emana de justiça própria e cujo ponto de vista e prática proporcione menosprezo.


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d. Acesse: Sábados Semanais e Anuais (em: "Sombra das coisas que haviam de vir").
e. Na Didaquê 8:1, documento apócrifo do século II, tem-se a seguinte advertência: "Vosso jejum não seja feito em comum com os hipócritas, porque eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; mas vocês jejuais no quarto dia e no dia da preparação [sexta-feira]." Sabe-se que o jejum era praticado nas segundas e quintas-feiras pelos judeus, especialmente nas sete semanas que decorriam entre a Páscoa e Pentecostes, e nos dois meses que separavam o fim da "festa do Tabernáculo" ao início da "festa da Dedicação" (Levítico capítulo 23:33-36; João 10:22). Alguns cristãos jejuavam nas quartas e sextas-feiras para não serem confundidos com os judeus que jejuavam nas segundas e nas quintas-feiras. Fonte: CBASD, vol. 5, p. 826.
f. A expressão, "considera um dia como especial" de Romanos 14:6 (NVI), provém da expressão grega "phroneo ho hemera". O verbo grego "phroneo" significa: dispor entendimento; refletir os próprios conceitos; apoiar algo (público); considerar algo importante. E, "hemera", significa: um período de tempo formado por "um dia" e "uma noite"; intervalo de tempo entre o nascer e o pôr do sol.
1. Isaías capítulo 53; Romanos 5:1-2; I João 2:1-4; II Coríntios 7:10 cf. Salmos 32:1-5.
2. Romanos 6:22-23; I Coríntios 15:56; Tiago 1:15 cf. I João 3:4, Romanos 5:13, Romanos 7:7.
3. João 14:25-26 cf. Isaías 30:21; Hebreus 10:16-17; I João 5:1-5.
4. Mateus 5-17-20; Mateus 19:16-19; Lucas 16:17; João 14:21.

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IASD On-line,
19 de set de 2013 12:37