Adão, Abraão e o Sábado

"Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no Meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse." (Isaías 58:13-14 RA).

No Éden, Deus estabeleceu o memorial de Sua obra da criação, depondo a Sua bênção sobre o sétimo dia. O sábado foi confiado a Adão, pai e representante de toda a família humana. Sua observância deveria ser um ato de grato reconhecimento, por parte de todos os que morassem sobre a Terra, de que Deus era seu Criador e legítimo Soberano; de que eles eram a obra de Suas mãos e súditos de Sua autoridade. Assim, a instituição era inteiramente comemorativa e foi dada a toda a humanidade. Nada havia de prefigurativo ou de aplicação restrita a qualquer povo.1

O sábado não se destina meramente a Israel, mas ao mundo. Fora tornado conhecido ao homem no Éden, e, como os demais preceitos do Decálogo, é de imutável obrigatoriedade(a). A lei, na qual o quarto mandamento é uma parte, declara Cristo: "Até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." (Mateus 5:18 KJV cf. Lucas 16:17). Enquanto céus e Terra durarem, continuará o sábado como sinal do poder do Criador. E quando o Éden florescer novamente na Terra, o santo e divino dia de repouso será honrado por todos debaixo do Sol. "Desde um sábado até ao outro", os habitantes da glorificada Nova Terra irão "adorar perante Mim, diz o Senhor." (Isaías 66:22-23 KJV).2

O primeiro sábado entre Criador e criatura
Após concluir a criação no sexto dia (Gênesis 1:31; Gênesis 2:1 cf. Êxodo 20:11), Deus conduziu Adão durante o sétimo dia para que contemplasse as Suas obras, e o encarregou de cuidar da vasta criação, especialmente do jardim do Éden (Gênesis 2:15-19). Adão recebeu também a instrução de que teria seis dias na semana (do primeiro ao sexto, de acordo com a ordem cronológica estabelecida em Gênesis capítulo 1) para realizar as suas atividades; mas, a cada sétimo dia, ele cessaria seus afazeres e reservaria este tempo exclusivamente para consagrá-lo ao Criador. Os motivos para este procedimento foram igualmente transmitidos (Gênesis 2:2-3).

Entretanto, o pecado arruinou a perfeição original (Gênesis capítulo 3), e Deus através de Sua onisciência sabia que, gradativamente, as futuras gerações do homem se envolveriam de forma mais acentuada com o pecado e renegariam os Seus propósitos para satisfazer a ambição e o egoísmo; que a instituição do sábado não seria poupada nesse percurso pecaminoso e destrutivo(b) (cf. Gênesis 6:5-7, Ezequiel 22:7-8 e 26, Romanos 1:18-32).

Com o intuito de combater a negligência e ataques que o Seu santo dia receberia ao longo dos tempos, Deus redigiu o quarto mandamento com um imperativo: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar", seguido da justificativa: "Porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou." (Êxodo 20:8-11 RA cf. Gênesis 2:1-3, Hebreus 4:4). A humanidade jamais deveria esquecer que, por intermédio de Deus tudo foi criado e a Ele, unicamente, deve ser direcionadas a adoração e obediência (Eclesiastes 12:13; I Timóteo 1:17). "Tivesse sido o sábado universalmente guardado, os pensamentos e afeições dos homens teriam sido dirigidos ao Criador como objeto de reverência e culto, jamais teria havido idólatra, ateu, ou incrédulo."3 Portanto, estes são os principais "motivos" que conduzem Satanás a atacar o quarto mandamento mais ferozmente: adoração exclusiva a Deus e obediência integral aos Seus desígnios (Isaías 14:13-14; Ezequiel 28:13-15; Apocalipse 12:17). O próprio Deus, a respeito desta questão adverte:
"Assim diz o Senhor: 'Mantende o juízo e fazei justiça, porque a Minha salvação está prestes a vir, e a Minha justiça, prestes a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que faz isto, e o filho do homem que nisto se firma, que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de cometer algum mal'." (Isaías 56:1-2 RA cf. Isaías 58:13-14).
Esta mesma mensagem de advertência sobre a justiça e soberania de Deus, e Seu inalienável direito de receber adoração (defendido pelo sábado), está registrada em Apocalipse 14:7: "(...) Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo; e adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas."(c). Compare atentamente as semelhanças entre Êxodo 20:11 e Apocalipse 14:7.

Ignorando estas revelações bíblicas e inquietos para se desvencilhar da observância sabática, os impetuosos violadores do quarto mandamento acusam até mesmo a Jesus de ser transgressor do sábado(d). E esta mesma incriminação é feita contra Adão e Abraão, porém, com a alegação adicional de que ambos nunca souberam da origem e propósito do sábado. Todavia, os denunciantes de Jesus e dos patriarcas nunca apresentaram nas Escrituras algo que sustente suas falsas condenações.

Jesus ao rebater as acusações farisaicas contra Seus discípulos a respeito da observância sabática, declarou: "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado." (Marcos 2:27 RA). Esta declaração foi motivada, entre outros motivos, porquê os fariseus consideravam o sábado mais importante do que o ser humano. Jesus refutou este engano ensinando que Deus tinha o homem como mais precioso, e que concedeu o sábado para o seu benefício. A palavra "homem" usada em Marcos 2:27 é traduzida do substantivo grego "anthropos", que por sua vez refere-se a homens, mulheres e crianças, ou seja, abrange qualquer ser humano. Neste ponto a acusação feita contra Adão é novamente anulada pois, sendo ele progenitor da raça "anthropos" (humana), o sábado, obviamente, também foi lhe designado. As palavras de Cristo são claríssimas: "o sábado foi feito para o homem", e não especificamente para o judeu (cf. Isaías 56:1-7).

Quanto a Abraão, Deus o defende com as seguintes palavras: "(...) Abraão obedeceu à Minha palavra e guardou os Meus mandados, os Meus preceitos, os Meus estatutos e as Minhas leis." (Gênesis 26:5 RA). Não havendo como ignorar esta declaração a favor deste patriarca, os seus acusadores elaboram desastrosas e capciosas interpretações alegando que: Deus estava valendo-Se de linguagem figurativa quanto à sua obediência; as palavras "mandado", "preceito", "estatutos" e "leis" são sinônimos; e que o sábado não estava incluído nas orientações divinas entregues a ele. Estas investidas além de serem inúteis e ofensivas contra Deus e seu seguidor, revelam completo desconhecimento linguístico pois em Gêneses 26:5 tem-se a palavra:
Mandado(e), traduzida do substantivo hebraico "mishmereth", que significa: ofício; serviço; função; obrigação.
Preceito(f), proveniente do substantivo hebraico "mitsvah", que significa: mandamento (coletivamente formam uma lei).
Estatuto(g), procedente do substantivo hebraico "chuqqah", que significa: decreto, resolução, conjunto de regulamentos; conjunto de ordenanças.
Lei(h), originada do substantivo hebraico "Towrah", que significa: instrução; orientação; lei deuteronômica ou lei mosaica; leis específicas, por exemplo: lei de oferta queimada; códigos específicos, por exemplo, o Decálogo. A "Towrah" por extensão de sentido abrange os ensinos proféticos.
Estas informações esclarecem (para o desespero dos oponentes) que: Abraão exerceu os mandados (ofícios, funções - mishmereth) que eram norteados pelos estatutos (regulamentos, resoluções - chuqqah). Ele obedeceu também as leis (conjunto de regras - Towrah) formadas pelos preceitos (mandamentos - mitsvah). Essas leis determinaram, por exemplo, as normas cerimoniais (como a construção de altar e ofertas de sacrifício) e, conduziram-lhe aos princípios e regras morais, como por exemplo, àqueles presentes no Decálogo.

A Towrah foi posteriormente proclamada em sua forma escrita no monte Sinai(i), sendo o Decálogo entregue em duas tábuas de pedra, e os demais códigos (leis) repassados para o livro de Moisés(j), alguns após serem atualizados e ampliados para atender a realidade do povo de Israel. E este povo, descendente de Abraão, tivera conhecimento das leis transmitidas por esse patriarca antes de chegarem ao monte Sinai (Gênesis 18:19; Gênesis 26:4-5); Deus inclusive realizou um teste quanto a sua lealdade através do quarto mandamento (Êxodo capítulo 16). Assim, surge a inevitável pergunta: Em meio a todas as leis e estatutos divinos, por que unicamente o mandamento do sábado estaria ausente para Abraão?

Considerações Finais
Muitos nunca obtiveram essas informações bíblicas por desinteresse e, ingenuamente, permanecem acreditando nas difamações atribuídas a Adão e Abraão quanto a observância sabática. Outros, embora cientes desses esclarecimentos escriturísticos continuam mantendo aversão pelo quarto mandamento, e até mesmo por todo o Decálogo enquanto professam seguir a Cristo (João 15:10; Lucas 4:16; Êxodo 20:8); tais indivíduos nutrem um orgulho semelhante àquele que conduziu Satanás a ruína.

Somente especulações maléficas, idealizadas para tentar anular a exigência da lei de Deus, promoveriam a degradante atitude de acusar a Cristo e os patriarcas de violadores do sábado. Os insubordinados que sustentam esta difamação não percebem que estão a transgredir toda a lei pela negligência sabática e por falso testemunho (Tiago 2:8-12 cf. Lucas 16:17). E certamente que, Satanás, valendo-se dos últimos momentos que lhe resta, atuará com os seus súditos de forma voraz para denegrir e perseguir aqueles que buscam obedecer "aos mandamentos de Deus e se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus." (Apocalipse 12:17 NVI cf. Apocalipse 14:12).


e-h. STRONG, J. (2002). Nueva Concordancia Strong Exhaustiva. Publisher: Thomas Nelson; (ref.: 04931; 04687; 02708 e 08451). GENESIUS, W. (1950). Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scripture, London: Samuel Bagster & Sons, p. 518b.
i. Paulo menciona esta questão ao dizer: "a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois" (Gálatas 3:17 NVI). A lei (Towrah) antes de ser entregue na sua forma escrita por Moisés, foi inicialmente repassada oralmente por Abraão. E esta maneira de transmitir a lei durou 430 anos, apesar das adversidades.
1. WHITE, E. G. Patriarcas e Profetas, São Paulo: CPB, sec. I, cap. 2, p. 48.
2. WHITE, E. G. Desejado de Todas as Nações, O; São Paulo: CPB, sec. IV, cap. 29, p. 283.
3. WHITE, E. G. Grande Conflito, O; São Paulo: CPB, sec. III, cap. 25, p. 438.

Outros estudos:
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IASD On-line,
13 de nov de 2013 10:41