Mandamento Negligenciado

Uma leitura simplista do diálogo entre Jesus e o jovem rico registrado nos Evangelhos,1 conduz a errônea e forçada conclusão de que o quarto mandamento foi extinguido. Embora Jesus não tenha citado este preceito na ocasião, isso não indica que ele foi anulado, pois apenas cinco dos Dez Mandamentos são mencionados:
- Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?
- Por que Me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe Um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
- Quais?
- Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mateus 19:16-19 RA).
Os seguintes mandamentos também pertencentes ao Decálogo não foram citados por Cristo:
  1. "Não terás outros deuses diante de Mim." (Êxodo 20:3);
  2. "Não farás para ti imagem de escultura [...]. Não as adorarás, nem lhes darás culto [...]" (Êxodo 20:4-6 RA);
  3. "Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão [...]" (Êxodo 20:7 RA);
  4. "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar [...]" (Êxodo 20:8-11 RA);
  5. "Não cobiçarás [...]" (Êxodo 20:17).
Estes cinco mandamentos devem ser considerados extinguidos porque Jesus não os citou? Certamente que todo aquele que professa seguir o exemplo de Cristo (João 15:10; Lucas 4:16), repudiará a ideia de: ter "deuses"; fazer imagens e adorá-las; blasfemar o nome de Deus; e, cobiçar. Então, por que o mesmo zelo não deve ser aplicado ao "lembra-te do dia de sábado, para o santificar"? Por que o mandamento iniciado com um impreterível "lembra-te" é rejeitado?

Verifica-se ainda que Cristo ao declarar ao jovem o que deveria ser feito para herdar a vida eterna, Ele menciona apenas o princípio (fundamento) de "amar ao próximo", Ele não faz referência ao princípio de "amar a Deus" (cf. Mateus 22:37-40). Esta "omissão" pressupõe que não devemos amá-Lo? Deve-se negligenciar o amor para com Deus?

Ao longo de Seu ministério na Terra, Cristo jamais ensinou a extinção de qualquer mandamento do Decálogo(a); pelo contrário, em Suas palavras e atitudes todos os preceitos da lei de Deus foram obedecidos e enaltecidos (Isaías 42:21; Isaías 53:9). Quando um dos escribas O questionou: "Mestre, qual é o grande mandamento na lei?"(b), Jesus respondeu:
"Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem[c] toda a lei e os profetas." (Mateus 22:34-40 RA).
Os escribas e fariseus conheciam estes ensinos (cf. Marcos 12:28-34). A verdadeira intenção desse questionamento era tentar obter alguma declaração que contrariasse as Escrituras. Jesus respondeu baseado em Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18 que dizem respectivamente: "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força" e "amarás o teu próximo como a ti mesmo". Estes dois mandamentos, "amar a Deus" e "amar ao próximo", são na verdade princípios bases (fundamentos) que dão valor e motivam a obediência à lei de Deus (Decálogo). E esta lei, por sua vez, é a base da lei de Moisés(d). Os rabinos ao receberem a resposta de Jesus, finalmente entenderam que Ele conhecia a lei em sua totalidade, desde os seus princípios básicos até o menor e mais simples mandamento. Assim, desistiram de questioná-Lo sobre temáticas que envolviam a lei (Marcos 12:34).

O amor a Deus está sintetizado nos quatro primeiros mandamentos do Decálogo e o amor ao próximo se resume na obediência aos seis últimos. Paulo também repassou este ensino em seu ministério: "[...] 'Não adulterarás', 'não matarás', 'não furtarás', 'não cobiçarás', e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: 'Ame o seu próximo como a si mesmo'. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei." (Romanos 13:8-10 NVI). O apóstolo João enfatiza está questão declarando que o mandamento (princípio) que instrui amar ao próximo não é novo(e): "E agora eu lhe peço, senhora - não como se estivesse escrevendo um mandamento novo, mas o que já tínhamos desde o princípio - que amemos uns aos outros." (II João 1:5 NVI cf. Levítico 19:18).

O jovem rico pensara que amava a Deus até que Jesus lhe revelou seu ídolo e demonstrou-lhe que estava fazendo de suas posses um deus. Ele viera a Cristo para perguntar: 'O que me falta?' A resposta foi: 'Vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos Céus; depois, vem e segue-Me.' (Lucas 18:22 KJV).2

Cristo queria que o jovem compreendesse que nada mais exigia dele senão que seguisse o exemplo que Ele mesmo, o Senhor do Céu, deixara. Abandonara Suas riquezas na glória, e Se tornara pobre, para que, pela Sua pobreza, o homem enriquecesse; e por amor dessas riquezas, pede ao homem que abandone as riquezas terrenas, a honra e o prazer. Ele sabe que enquanto as afeições estiverem voltadas para o mundo, serão desviados de Deus; portanto, disse ao jovem: 'Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu; e vem e segue-Me' (Mateus 19:21 KJV).

Como recebeu ele as palavras de Cristo? Regozijou-se por poder alcançar o tesouro celeste? Oh, não! 'Retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades' (Mateus 19:22 KJV). Para ele as riquezas significavam honra e poder; e o grande vulto do seu tesouro faz com que tal venda pareça quase impossível. Esse homem amante do mundo desejava o Céu, mas queria reter sua riqueza, e renunciou a vida imortal pelo amor ao dinheiro e ao poder. Oh, que infeliz troca! No entanto, muitos dos que professam estar guardando todos os mandamentos de Deus estão fazendo a mesma coisa.3

A capacidade do jovem de adquirir propriedade não conspirava contra ele, contanto que amasse ao próximo como a si mesmo, e a ninguém tivesse prejudicado na aquisição de suas riquezas. Houvesse essa mesma capacidade sido empregada no serviço de Deus, em procurar salvar almas da ruína, teria sido aceitável ao Divino Mestre, ele poderia ter se tornado obreiro diligente e de êxito para Cristo. Mas recusou o elevado privilégio de cooperar com Cristo na salvação de almas; afastou-se do glorioso tesouro que lhe foi prometido no reino de Deus, e se apegou aos tesouros transitórios da Terra.

Representa o jovem príncipe uma grande classe de pessoas que seriam excelentes cristãos se para elas não houvesse uma cruz a erguer, um fardo humilhante a carregar, nenhuma vantagem terrena a renunciar, e nenhum sacrifício de propriedade ou sentimentos a fazer."4


Vídeo relacionado: O Quarto Mandamento
b. Esta pergunta não se restringe apenas à lei de Deus (Dez Mandamentos), ela envolve também os preceitos contidos na lei de Moisés.
c. Categoricamente é dito que a lei "depende" e não que foi "substituída".
e. A crença de que o preceito, "amarás o teu próximo como a ti mesmo", originou-se com o Novo Testamento, ocorre pelo desconhecimento de Levítico 19:18, e pela interpretação equivocada das seguintes palavras de Jesus: "Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei [...]" (João 13:34 RA). Jesus não afirmou que este preceito era "novo" no sentido de "inédito" ou "recém estabelecido", mas, que era novo para aqueles que o ouviram na ocasião, pois eles desconheciam o mandamento anunciado. No idioma grego, a palavra "novo", pode ser escrita de duas formas: "neos" (quando algo é novo no sentido de: tempo recente; jovem; recém originado; que surgiu a pouco tempo), e "kainos" (quando algo é novo no sentido de: antes desconhecido; incomum; anteriormente ignorado; recém revelado). E João 13:34 utiliza a palavra "kainos", identificando que o mandamento já existia, porém, era desconhecido para os ouvintes de Jesus. Outros exemplos que utilizam o adjetivo "kainos": "Todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si: 'Que vem a ser isto? Uma nova [kainos] doutrina!' [...]" (Marcos 1:27 RA); "Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em Meu nome, expelirão demônios; falarão novas [kainos] línguas." (Marcos 16:17 RA).
1. Mateus 19:16-22; Marcos 10:17-22; Lucas 18:18-23.
2. Ellen Gould White, Carta 90 (1895). In: Olhando para o Alto, São Paulo: CPB, p. 23; (Meditações Matinais, 1983).
3. WHITE, E. G. Conselhos Sobre Mordomia, São Paulo: CPB, sec. IX, cap. 42, p. 211.
4. Ellen Gould White, Review and Herald, (march, 21 of 1878).

Outros estudos:
Ċ
IASD On-line,
16 de nov de 2013 11:55