Jesus e o Sábado - II

"Então, lhe disse Jesus: 'Levanta-te, toma o teu leito e anda'." (João 5:8 RA).
O restabelecido paralítico curvou-se para apanhar seu leito que era apenas uma esteira e um cobertor e, ao endireitar-se novamente com uma sensação de deleite, olhou em volta à procura de seu Libertador; mas Jesus desaparecera entre a multidão. O homem temeu não O reconhecer se tornasse a encontrá-Lo. Ao ir apressado no seu caminho com passo firme, desembaraçado, louvando a Deus e regozijando-se no vigor que acabava de obter, encontrou vários dos fariseus e contou-lhes imediatamente sua cura. Surpreendeu-se da frieza com que lhe ouviam a história.

De sobrancelhas carregadas, interromperam-no perguntando por que estava conduzindo seu leito no sábado. Lembraram-lhe severamente que não era lícito conduzir fardos no dia do Senhor. Em sua alegria, o homem esqueceu de que era sábado; todavia não sentiu nenhuma condenação por obedecer ao mandado de uma Pessoa que tinha o poder de Deus. Respondeu ousadamente: "Aquele que me curou, Ele próprio disse: 'Toma a tua cama, e anda'." (João 5:11 KJV). Perguntaram quem havia feito isso, mas o homem não lhes sabia dizer. Esses rabinos sabiam que unicamente Um Se mostrara capaz de realizar esse milagre; mas queriam prova direta de que era Jesus, a fim de condená-Lo como violador do sábado. Em seu juízo, não somente havia quebrado a lei em curar o enfermo no sábado, mas cometera sacrilégio em lhe mandar que levasse a cama. (...)

Jesus encontrou no templo o homem que foi curado. Este viera trazer uma oferta pelo pecado e também uma de ações de graças pela grande bênção recebida. Encontrando-o entre os adoradores, Jesus deu-Se a conhecer com a advertência: "Eis que já estás são; não peques mais, para que não te aconteça alguma coisa pior." (João 5:14 KJV). O enfermo restaurado regozijou-se extremamente por encontrar seu Libertador. E, ignorando a inimizade que existia contra Jesus, disse aos fariseus que o haviam interrogado, que era este O que o curara. E "por esta causa os judeus perseguiam a Jesus, e procuravam matá-Lo porque fazia estas coisas no sábado." (João 5:16 KJV). Então Jesus foi levado perante o Sinédrio para responder à acusação de violador do sábado. Houvessem os judeus sido nesse tempo uma nação independente, tal acusação lhes teria servido ao desígnio de O condenar à morte. [Mas] sua sujeição aos romanos impediu isso. Os judeus não tinham poder para infligir pena de morte, e as acusações apresentadas contra Cristo não tinham peso num tribunal romano. Entretanto, outros objetivos existiam e esperavam consegui-los. (...)

Quem quer que ousasse condenar as exigências dos rabinos, ou tentasse aliviar os fardos postos por eles sobre o povo, era considerado culpado não somente de blasfêmia, mas de traição. Nisso baseavam os rabis sua esperança de despertar suspeitas contra Cristo. Representavam-No como procurando subverter os costumes estabelecidos, causando assim divisão entre o povo e preparando o caminho para a completa subjugação dos romanos.

Mas os planos cuja execução esses rabis estavam elaborando tão zelosamente, originaram-se em outro concílio, que não era do Sinédrio. Depois de haver fracassado em seu desígnio de vencer a Cristo no deserto, arregimentara Satanás suas forças para Lhe opor ao ministério, contrapondo, se possível Sua obra. Aquilo que não conseguira realizar por esforço pessoal, direto, decidira efetuar por meio de estratégia. Tão depressa se retirara do conflito no deserto, em concílio com os seus anjos confederados, amadureceu os planos para cegar ainda mais o espírito do povo judeu a fim de não reconhecerem seu Redentor. Planejou operar por meio de seus agentes humanos do mundo religioso, imbuindo-os de sua própria inimizade contra o Campeão da verdade. Levá-los-ia a rejeitar a Cristo e a tornar-Lhe a vida o mais amarga possível, esperando desanimá-Lo em Sua missão. E os guias de Israel tornaram-se os instrumentos de Satanás em combater o Salvador.

Jesus viera para engrandecer a lei, e a tornar gloriosa (Isaías 42:21 cf. Mateus 5:17-20, Lucas 16:17). Não haveria de lhe diminuir a dignidade, mas exaltá-la. Diz a Escritura: "Não desfalecerá nem Se apressará, até que estabeleça na Terra o juízo." (Isaías 42:4 KJV). Ele viera para libertar o sábado daquelas enfadonhas exigências que o haviam tornado uma maldição em vez de bênção. Por isso escolhera o sábado para realizar a cura de Betesda. Poderia ter curado o enfermo igualmente em qualquer outro dia da semana; ou simplesmente tê-lo curado sem lhe dizer que levasse a cama. Isto, porém, não Lhe teria proporcionado a oportunidade que desejava. Um sábio desígnio guiava todos os atos de Cristo na Terra. Tudo quanto fazia era em si mesmo importante, bem como na lição que comunicava. Escolheu, entre os sofredores que se achavam junto ao tanque o pior caso para exercer Seu poder de cura, e pediu ao homem que levasse a cama através da cidade a fim de publicar a grande obra de que fora objeto. Isso daria lugar à questão do que era ou não era lícito fazer no sábado, e abriria o caminho para Ele condenar as restrições dos judeus quanto ao dia do Senhor, declarando vãs suas tradições.

Jesus lhes afirmou que a obra de aliviar os aflitos estava em harmonia com a lei do sábado. Estava em harmonia com os anjos de Deus que estão sempre descendo e subindo entre o Céu e a Terra para servir à humanidade sofredora. Jesus declarou: "Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também." (João 5:17 RA). Todos os dias são de Deus, para neles se executar Seus planos para com a raça humana. Fosse a interpretação dos judeus razoável, então o Senhor estaria em falta, visto ser Seu trabalho vivificar e manter toda criatura desde que lançou os fundamentos da Terra; então Aquele que declarou boa a Sua obra, e instituiu o sábado para comemorar-lhe o acabamento, deveria acabar com Seu labor e deter a incessante rotina do Universo.

Deveria Deus impedir o Sol de cumprir sua missão no sábado, impedir seus fecundos raios de aquecer a Terra e nutrir a vegetação? Deveriam os sistemas planetários permanecerem imóveis durante o santo dia? Ordenaria às fontes que se abstivessem de regar os campos e as florestas, mandaria às ondas do mar que detivessem seus incessantes movimentos? Deveriam o trigo e o milho deixar de crescer, e o maturante cacho adiar seu belo colorido? Não pode as árvores florescer, nem desabrochar as flores no sábado?

Se fosse assim, os homens deixariam de ter os frutos da terra e as bênçãos que tornam desejável a vida. A natureza deve continuar seu invariável curso. Deus não poderia por um momento deter Sua mão, do contrário o homem desfaleceria e viria a morrer. O homem também tem nesse dia uma obra a realizar. Deve-se atender às necessidades da vida, cuidar dos doentes, suprir as faltas dos necessitados. Não será tido por inocente o que negligenciar aliviar o sofrimento no sábado. O santo dia de repouso de Deus foi feito para o homem, e os atos de misericórdia se acham em perfeita harmonia com seu desígnio. Deus não deseja que Suas criaturas sofram uma hora de dor que possa ser aliviada no sábado, ou noutro dia qualquer. No entanto, as solicitações para com Deus são ainda maiores no sábado do que nos demais dias; seu povo deixa a ocupação diária e passa mais tempo em meditação e culto. (...)

A obra no Céu não cessa nunca, e o homem não deve descansar de fazer o bem. O sábado não se destina a ser um período de inútil inatividade. A lei proíbe trabalho secular no dia de repouso do Senhor; o labor que constitui o ganha-pão deve cessar; nenhum trabalho que vise prazer ou proveito mundanos é lícito nesse dia; mas como Deus cessou Seu labor de criar, repousou ao sábado e o abençoou, assim deve o homem deixar as ocupações da vida diária e devotar essas sagradas horas a um saudável repouso, ao culto e as boas obras. O ato de Cristo em curar o enfermo estava em perfeito acordo com a lei. Era uma obra que honrava o sábado.

Jesus afirmou ter direitos iguais aos de Deus, ao fazer uma obra da mesma maneira sagrada e do mesmo caráter daquela em que Se empenhava o Pai no Céu. Mas os fariseus ficaram ainda mais exasperados. Ele não somente quebrantara a lei, segundo seu modo de ver, mas dizendo que "Deus era Seu próprio Pai", declarara ser igual a Deus. Toda a nação judaica chamava a Deus de Pai, de maneira que não deveriam ter se enfurecido ao Cristo Se colocar na mesma relação com Ele. Mas acusaram-No de blasfêmia, mostrando que compreendiam que Ele fazia essa reivindicação no mais alto sentido.

Esses adversários de Cristo não tinham argumentos com que enfrentar as verdades que lhes fazia penetrar na consciência. Não podiam senão citar seus costumes e tradições, e estes eram fracos e nulos quando comparados com os argumentos que Jesus tirava da Palavra de Deus e da vida natural! Houvessem os rabis experimentado qualquer desejo de receber a luz, teriam-se convencido de que Cristo dizia a verdade. Porém, evitavam os pontos referentes ao sábado e procuraram incitar ódio contra Ele, por declarar ser igual a Deus. A fúria dos líderes não conhecia limites. Não houvessem temido o povo, os sacerdotes e rabis teriam matado a Jesus ali mesmo. Mas o sentimento popular em Seu favor era forte. Muitos reconheciam em Cristo o amigo que lhes curara as moléstias e confortara as dores, e justificavam-No em curar o doente de Betesda. De modo que os guias se viram obrigados, de momento, a restringir seu ódio. (...)

Os guias judaicos tinham estudado os ensinos dos profetas a respeito do reino do Messias; haviam-no feito, porém, não com o sincero desejo de conhecer a verdade, mas com o desígnio de encontrar provas para apoiar suas ambiciosas esperanças. Vindo Cristo de maneira contrária a sua expectativa, não O quiseram receber; e para se justificarem a si mesmos, procuravam demonstrar que era enganador. Uma vez postos os pés nesse caminho, fácil era a Satanás fortalecer-lhes a oposição a Cristo. As próprias palavras que deveriam ter sido recebidas como testemunho de Sua divindade, foram contra Ele interpretadas. Assim tornaram a verdade de Deus em mentira, e quanto mais diretamente lhes falava o Salvador em Suas obras de misericórdia, tanto mais decididos ficavam para resistir à luz. (...) Não se repete o mesmo em nossos dias? Não há muitos, mesmo guias religiosos, que estão endurecendo o coração contra o Espírito Santo, tornando impossível a si mesmos o reconhecer a voz de Deus? Não estão rejeitando a Palavra de Deus, a fim de conservar as próprias tradições?

Jesus sabia que os sacerdotes e rabis estavam decididos a tirar-Lhe a vida; todavia, expôs-lhes claramente Sua unidade com o Pai e Sua relação para com o Mundo. Os rabinos viram que a oposição contra Cristo não tinha desculpa; todavia, o ódio assassino não se extinguiu. Deles se apoderou o temor ao testemunhar o convincente poder que Lhe acompanhava o ministério, mas resistiram a Seus apelos, encerrando-se em trevas.

Fracassaram assinaladamente em derribar a autoridade de Jesus ou dEle alienar o respeito e a atenção do povo, do qual muitos ficaram convencidos por Suas palavras. Os próprios líderes haviam sentido sob profunda condenação ao apresentar-lhes à consciência sua culpa; todavia, isso apenas os instigou mais amargamente contra Ele. Estavam decididos a tirar-Lhe a vida. Enviaram por todo o país mensageiros a advertir o povo contra Jesus, como impostor. Mandaram espiões para O observar e relatar o que dizia ou fazia. O precioso Salvador achava-Se agora, sem dúvida nenhuma, sob a sombra da cruz.


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Texto de: WHITE, E. G. Desejado de Todas as Noções, O; São Paulo: CPB, sec. III, cap. 21, p. 201-213.

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IASD On-line,
7 de nov de 2013 18:18