O Decálogo no Éden - II

A descrença de que Adão e Eva tinham o pleno conhecimento da lei de Deus antes de transgredi-la, ocorre por desinformação ou por oposição intencional. Neste último caso, prevalece o intuito de combater a obediência universal exigida pela lei, pois, sendo ela transmitida desde o período do Éden, de imediato anula-se qualquer alegação de que teria sido entregue unicamente no monte Sinai e, destinada apenas para os israelitas(a).

Essa atitude mórbida de não suportar a onipresença da lei, além de acarretar cegueira espiritual, conduz os mais exaltados a confrontar abertamente o posicionamento oficial de suas respectivas igrejas, a saber: o ensino escriturístico da existência e vigência da lei de Deus (Dez Mandamentos) desde a fundação do mundo. Adiante a posição doutrinária de algumas delas.

Igreja Anglicana
"O pecado original não se detém ao lado de Adão (como os pelagianos(b) inutilmente dizem), porém ele é a culpa e corrupção da natureza de cada homem, que naturalmente procede da descendência de Adão; por meio dele o homem está muito longe da retidão original, e é de sua própria natureza inclinar-se para o mal, de modo que a carne sempre deseja contrariamente ao Espírito; (...) não está sujeita à lei de Deus."1

Igreja Assembleia de Deus
"O pecado atinge toda a raça humana, a partir de Adão e Eva (Gn 3; Rm 5.12). (...) O pecado originou-se nas regiões celestiais quando o Diabo, querubim que servia na presença de Deus, encheu-se de arrogância e desejou usurpar o trono do Criador (Is 14.13,14). Por sua livre vontade escolheu o caminho do pecado, o que motivou sua destituição das suas funções celestiais, condenação, e execração eterna. (...) 'Todo pecado é transgressão da lei' (1 Jo 3.4). Transgredir significa infringir, violar, quebrar a lei, passar dos limites. Todo e qualquer mandamento divino deve ser obedecido, pois, desobedecê-lo significa transgredi-lo. (...) Adão, como representante da raça humana, também sucumbiu diante do pecado, sujeitando todos os seus descendentes aos aguilhões do mal moral; tornando-o, portanto, universal a todas criaturas racionais, e afetando até mesmo a criação."2
"Como resultado da queda o homem teve: 1) Conhecimento do mal. Antes da queda o homem era capaz de pecar, contudo, desconhecia os efeitos que isso provocaria. Ao desobedecer, ele adquiriu esse conhecimento do pecado, e por essa razão foi-lhe proibido comer do fruto dessa árvore do conhecimento do bem e do mal. Gn 3.22. 2) A Perda da comunhão com Deus. Havendo quebrado à lei de Deus, o homem sentiu-se envergonhado na Sua presença. Essa vergonha destruiu a comunhão com Deus, causando grave prejuízo."3
"Os Dez Mandamentos foram pronunciados por Deus e escritos por Ele em duas tábuas de pedra, Êx 31.18. Foram escritos de ambas as bandas, Êx 32.15. Não se deve pensar que não existia nada destes mandamentos, antes de Moisés. Foram escritos nas mentes e nas consciências dos homens desde o princípio. Não há pecado que não é condenado por um dos Dez Mandamentos. A súmula do Decálogo é o dever para com Deus e o dever para com o próximo; melhor, é o amor para com Deus e o amor para com o próximo."4

Igreja Batista
"Acreditamos que o homem foi criado em santidade, subordinado à lei de seu Criador; mas por transgressão voluntária caiu desta condição santa e feliz. Por consequência todos os homens são agora pecadores, não por coação, mas por escolha; sendo por natureza completamente destituído da santidade exigida pela lei de Deus, inegavelmente inclinados para o mal e, portanto, sob justa condenação à ruína eterna, sem defesa ou desculpa."5
"A mesma lei que foi escrita no coração do homem, continuou a ser uma perfeita regra de justiça após a queda, e foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos escritos em duas tábuas, os quatros primeiros contendo nosso dever para com Deus, e os outros seis o nosso dever para com o homem."6
"Acredito que, a partir da mesma autoridade que Deus criou o homem à imagem de Seu próprio e glorioso caráter moral, um tema peculiar de Seu governo virtuoso, com disposições propriamente ajustadas à lei que ele estava subordinado e idêntica capacidade para obedecê-la ao máximo, contra todas as tentações em contrário, creio que, se Adão ou qualquer criatura santa, tivesse elaborado uma lei para si mesmo, ele teria feito uma precisamente como a lei de Deus; visto que seria uma enorme privação para um indivíduo santo, não ser permitido amar a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e todo o seu entendimento."7

Igreja Congregacional
"Deus entregou a Adão uma lei, como um pacto de obras, pela qual Ele o submeteu e toda sua posteridade, a uma obediência perpétua, pessoal, completa e perfeita; prometeu vida sob a condição de cumprir e ameaçou de morte em caso de violar a mesma, e dotou-lhe com poder e capacidade para guardá-la. Essa lei, após sua queda, continuou a ser uma perfeita regra de justiça; e, como tal, foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos, escritos em duas tábuas: os primeiros quatro mandamentos contêm o nosso dever para com Deus; e os outros seis, o nosso dever para com o homem."8
"Aprendemos com este assunto o absurdo do antinomianismo(c). Duas doutrinas antinomianas proeminentes são: que a lei de Deus não é um regulamento de dever para os cristãos; e que as transgressões dela pelos cristãos não são pecados.
Pecado, diz S. João, é a transgressão da lei(d). É uma forte afirmação; nesse caso, uma declaração exigindo justificação na qual nenhum homem pode pleitear: que não há tal coisa, ou, que não existe este assunto de transgressão da lei, que não é pecado. Por qual razão não seriam pecaminosas as transgressões dos cristãos? Seriam eles seres santos? Adão era perfeitamente santo, até sua transgressão arruinar o mundo. Anjos eram perfeitamente santos, em um estado muito superior ao de Adão, mas suas transgressões os afastaram do Céu! Porque estariam os cristãos liberados?"9

Igreja Luterana
"Estas foram as razões, porque, na descrição do pecado original fizemos menção também da concupiscência. (...) o pecado original também contém estas enfermidades, a saber: ignorância de Deus, desprezo de Deus, caráter destituído de temor e confiança em Deus, incapacidade de amar a Deus. Estas são as principais falhas da natureza humana, conflitantes especialmente, com a primeira tábua do Decálogo."10
"O primeiro pecado do homem, ou queda, foi a transgressão da lei do Paraíso, na qual os nossos primeiros pais violaram uma interdição divina que proibia-lhes de comer o fruto da 'árvore do conhecimento do bem e do mal' (...). Nossos primeiros pais, na queda, violaram diretamente uma lei positiva, porém de forma indireta e praticamente, através da desobediência deles, quebraram do início ao fim as limitações de toda a lei Moral(e)."11
"O catecismo luterano, fornece a seguinte definição: 'Pecado original consiste em uma propensão para as coisas proibidas pela lei de Deus e uma aversão à Sua vontade'. Na apologia da confissão(f), encontramos a seguinte definição: 'Pecado original consiste na primeira ausência de santidade e justiça no paraíso'."12

Igreja Metodista
"(...) a lei Moral, constituída por Dez Mandamentos e ministrada pelos profetas, Ele [Jesus Cristo] não removeu. Não foi o objetivo de Sua vinda, revogar qualquer parte dela. Esta é uma lei que jamais pode ser inutilizada; que 'permanece firme como uma testemunha fiel no Céu'(g). (...) surgiu desde o princípio do mundo, sendo 'escrita não em tábuas de pedra', mas no coração de todos os filhos dos homens, quando saíram das mãos do Criador."13
"(...) Se examinarmos a lei de Deus, assim como igualmente entregue a Adão, ou a Moisés, nós a encontraremos perfeita e sem defeito, respeitada em si mesma. Pois em verdade, 'a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.'(h) Procedendo de Deus, a fonte de santidade, justiça e bondade, ela deve necessariamente possuir estes atributos. Pode, portanto, ser justamente chamada de 'transcrição de Sua natureza'."14
"(...) É verdade, Adão não tinha a lei escrita em tábuas de pedra; mas ela foi escrita em sua mente. Deus imprimiu-a em sua alma, lhe estabeleceu uma lei em si mesmo (...). Todas as suas paixões, na verdade, todos os seus interesses e sensíveis impulsos eram subordinados à sua razão e vontade, as quais estavam de acordo com a vontade de Deus. Eram completamente, por consequência, puros de toda profanação, livres de toda desordem ou imperfeição; pois todas as suas atitudes estavam devidamente submetidas a sua límpida razão e sua santa escolha. Ele tinha também uma faculdade ativa, responsável por seu desejo, uma capacidade para fazer o bem que ele sabia que deveria ser feito, e se dispusera a fazer; exatamente para cumprir toda a lei de Deus. Se não fosse assim, Deus não teria requerido a perfeita obediência dele."15

Igreja Presbiteriana
A "The Westminster Confession of Faith"16 (confissão de fé adotada pela igreja Presbiteriana), defende integralmente a mesma doutrina apresentada pela "The Savoy Declaration of Faith and Order" em seus artigos I e II do capítulo XIX. Desde modo, para evitar redundância deste conteúdo, releia acima (caso haja necessidade) a citação de número 8, da igreja Congregacional.
O catecismo da igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, após revisão e aprovação feita pela Assembleia Geral (ocorrida em maio de 1829, na cidade de Princeton, Kentucky), expõem:
Pergunta: O que é pecado?
Resposta: Pecado é qualquer falta de concordância ou transgressão da lei de Deus.
Pergunta: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?
Resposta: O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados, foi a cobiça de comer o fruto proibido.
(...)
Pergunta: Qual é o dever que Deus exige do homem?
Resposta: O dever que Deus exige do homem, é a obediência à Sua vontade revelada.
Pergunta: O que Deus em primeiro lugar revelou ao homem como regra de sua obediência?
Resposta: A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência, foi a lei Moral.
Pergunta: Onde está a lei Moral resumidamente compreendida?
Resposta: A lei Moral está resumidamente compreendida nos Dez Mandamentos.17
"A confissão de fé, adotada tanto pela Antiga e Nova Escolas Presbiterianas, afirmam que 'todo pecado, tanto original e atual, sendo uma transgressão da justa lei de Deus e contrária a esta, produz em sua própria natureza a culpa sobre o pecador, por ele [pecado] está destinado à ira de Deus'."18

Igrejas Reformadas
"Por pecado entendemos a corrupção inata do homem que tem sido derivada ou propagada em todos nós a partir de nossos primeiros pais (...) Repletos de toda a maldade, desconfiança, menosprezo e ódio a Deus, somos incapazes de fazer ou até mesmo pensar algo bom por nós mesmos. Ademais, mesmo ao envelhecermos, através de maus pensamentos, palavras e atos praticados contra a lei de Deus, produzimos publicamente frutos corruptos digno de uma árvore do mal (Mateus 12:33 ss)."19


b. Adeptos do pelagianismo. Esta doutrina ensina que: o homem, em essência, possui uma natureza bondosa; a fragilidade humana não é fator de atos pecaminosos; o pecado de Adão não afeta seus descendentes; o homem é completamente responsável por sua própria salvação; e, que a graça divina apenas auxilia na santificação.
c. Movimento ideológico que vale-se da graça divina para defender a abolição de regras ou preceitos da lei; filosofia que confronta os padrões de conduta determinados pela lei de Deus; que desvia-se da lei divina.
d. Citando I João 3:4 (cf. Romanos 4:15; Romanos 7:7).
f. Apologia da Confissão de Augsburgo (The Apology of the Augsburg Confession).
g. Em referência a Salmos 119:89 (cf. Êxodo 34:28, Apocalipse 11:19).
h. Citando Romanos 7:12.
1. The Book of Common Prayer: The Sacraments, Rites and Ceremonies of the Church. (1853). New York: Printed by Appleton & Company, art. IX, p. 540.
2. Lições Bíblicas: Jovens e Adultos, Rio de Janeiro: CPAD, 4.º trimestre de 2006, lição 08 (O Pecado, a Transgressão da Lei Divina).
3. OLSON, N. L. (1994). O Plano Divino Através dos Séculos, 14.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 25.
4. BOYER, O. S. (1966). Pequena Enciclopédia Bíblica, 1.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 237; (verbete: "Dez Mandamentos").
5. The New Hampshire Confession of Faith (1833), chap. III (Of the Fall of Man).
6. The 1677/89 London Baptist Confession of Faith, chap. XIX, art. II.
7. MANLY, B. (1856). The American Baptist Memorial: a Statistical, Biographical and History Magazine, vol. XV, Richmond, Virginia: Printed by H. K. Ellyson, art. IV, p. 346; (transcrita de "Andrew Fuller's Confession of Faith". Esta obra foi entregue em 07 de outubro de 1783 pelo teólogo e ministro batista Andrew Fuller que, na ocasião, era pastor da Primeira Igreja Batista em Kettering, Northamptonshire).
8. The Savoy Declaration of Faith and Order (1658), chap. XIX, art. I, II.
9. DWIGHT, T. (1823). Theology Explained and Defended, vol. III, 3th ed., New-Haven: Printed by S. Converse, ser. XCI, p. 59-60.
10. The Apology of the Augsburg Confession, chap. I, art. II (Of Original Sin). In: JACOBS, H. E. (1911). The Book of Concord: The Symbolical Books on the Evangelical Lutheran Church, Philadelphia: The United Lutheran Press, p. 78.
11. KRAUTH, C. P. (1872). The Conservative Reformation and its Theology: As Represented in the Augsburg Confesssion, and in the History and Literature of the Evangelical Lutheran Church, Philadelphia: Printed by J. B. Lippincott & Co., art. IX (Original Sin), p. 377.
12. LOCHMAN, J. G. (1818). The History, Doctrine and Discipline of the Evangelical Lutheran Church, Harrisburgh: Printed by John Wyeth, art. II, p. 87.
13. DREW, S. (1829). Sermons on Several Occasions by the Rev. John Wesley, vol. I, London: Printed by Thomas Tegg, ser. XXVII, disc. V, p. 276-277.
14. SMITHSON, W. T. (1859). The Methodist Pulpit South, 3th ed., Washington, D.C.: Printed by Henry Polkinhorn, p. 164-165; ("The Perfect Law of Liberty").
15. WESLEY, J. (1828). The Miscellaneous Works of the Rev. John Wesley, vol. II, New York: Printed by J. Harper, part. VII (The Doctrine of Original sin), p. 353.
16. The Westminster Confession of Faith (1647), chapter XIX, art. I, II.
17. The Constitution of the Cumberland Presbyterian Church in the United States of America. (1843). Pittsburgh: Printed by Arthur A. Anderson, p. 83, 87-88.
18. PARK, E. A.; TAYLOR, S. H. (1863). Bibliotheca Sacra and Biblical Repository, vol. XX, London: Printed by Thübner & Co., art. III, p. 579.
19. The Second Helvetic Confession, chap. VIII: Of Man's Fall, Sin and the Cause of Sin; (esta confissão de fé foi escrita em 1562 por Heinrich Bullinger, sendo publicada posteriormente na cidade de Zurique em 1566 por Frederico III da Palatina e, adotada também pelas igrejas Reformadas da Suíça, França, Holanda, Escócia, Hungria, Polônia e Inglaterra).

Outros estudos:
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IASD On-line,
10 de set de 2013 16:00