Obediência por Interesse?

"Para os judeus, fiz-me como judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão sujeitos à lei, fiz-me como se estivesse sujeito à lei - se bem que não esteja sujeito à lei - para ganhar aqueles que estão sujeitos à lei." (I Coríntios 9:20 BJ).
Dois sofismas anomianistas(a) são associados ao verso de I Coríntios 9:20:
O primeiro sofisma, usa a afirmativa: "para os judeus, fiz-me como judeu, a fim de ganhar os judeus", para declarar que Paulo praticava a lei de Moisés com o objetivo de satisfazer ideologias judaicas.
O segundo sofisma, utiliza a expressão: "fiz-me como se estivesse sujeito à lei", para insinuar que as atitudes de Paulo não estavam subordinadas à lei de Deus e, que ele comportava-se apenas por conveniência evangelística. O segundo sofisma visa atacar o quarto mandamento do Decálogo.
Estas hediondas alegações anomistas são aniquiladas pela Bíblia ao descrever quem era Paulo e o seu real vínculo com a lei:
"Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade. Fui instruído rigorosamente por Gamaliel(b) na lei de nossos antepassados, sendo tão zeloso por Deus quanto qualquer de vocês hoje." (Atos 22:3 NVI).
"Todos os judeus sabem como tenho vivido desde pequeno, tanto em minha terra natal como em Jerusalém. Eles me conhecem há muito tempo e podem testemunhar, se quiserem, que, como fariseu, vivi de acordo com a seita mais severa da nossa religião." (Atos 26:4-5 NVI).
"(...) Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível." (Filipenses 3:4-6 NVI cf. Atos 23:6).
Paulo era filho de hebreus e fariseus, foi membro do sinédrio, conhecia e praticava irrepreensivelmente a lei de Moisés e a cultura judaica (deste que esta não conflitasse com aquela), e fazia estas coisas por causa de seu zelo com Deus. Portanto, ele vivera "natural", "doutrinal", "espiritual" e "culturalmente" como judeu. A expressão "fiz-me como judeu" não foi empregada no sentido de "satisfazer ideologias judaicas", esta alegação é completamente ridícula.

As prerrogativas de Paulo citadas em Atos 22:3, Atos 26:5 e Filipenses 3:4-6, facilitavam a sua aproximação aos judeus para pregar o evangelho, pois davam-lhe condições de entender e argumentar com as diversas classes da comunidade judaica.1 Ao dizer, "fiz-me como judeu", ele revelou que agiu respeitando as orientações da lei de Moisés e os procedimentos culturais judaicos sem sobrepujar os princípios do evangelho; ou seja, quando Paulo deparava-se com alguma prática restritamente judaica conflitante com o evangelho, ele não hesitava em preservar este último (Gálatas 2:14-16).

Paulo tinha conhecimento de que, para o evangelho, não importava se um indivíduo era judeu ou gentio;2 mas, comportava-se rigorosamente como judeu sempre que necessário (I Coríntios 9:20 cf. I Coríntios 10:27-33), e através deste proceder ele evitou intrigas e aproximou seus compatriotas de Jesus. Cuidado semelhante ele manifestou em companhia dos gentios, pois jamais exigiu que os mesmos praticassem coisais pertinentes exclusivamente ao judaísmo (I Coríntios 9:21 cf. I Coríntios 10:32-33). Apesar disso, ele era constantemente acusado por seus oponentes de que tinha rebelado-se contra a lei de Moisés e passado a viver de acordo com as diversas culturas gentílicas. Adiante alguns acontecimentos que comprovam estas afirmações:
Lei do Nazireu:
"Paulo permaneceu em Corinto por algum tempo. Depois despediu-se dos irmãos e navegou para a Síria, acompanhado de Priscila e Áquila. Antes de embarcar, rapou a cabeça em Cencreia, devido a um voto que havia feito." (Atos 18:18 NVI).
"Eles foram informados de que você [Paulo] ensina todos os judeus que vivem entre os gentios a se afastarem de Moisés, dizendo-lhes que não circuncidem seus filhos nem vivam de acordo com os nossos costumes. Que faremos? Certamente eles saberão que você chegou. (...)" (Atos 21:21-22 NVI).
Os votos citados em Atos 18:18 e Atos 21:23 (transcrito adiante) estão alicerçados na lei do Nazireu, que foi promulgada com o objetivo de orientar o proceder durante um determinado período de consagração determinado pelo próprio praticante (Números 6:1-5). E Cencreia era uma cidade portuária do golfo Sarônico (situada a oeste de Corinto), ela possuía uma população predominantemente gentílica de cultura grego-romana. Então, se Paulo estava vivendo conforme a cultura dos gentios, por que ele procedeu fielmente com a lei do Nazireu nas mencionadas cidades? Ou, se o intuito de Paulo era apenas agradar os judeus, por que ele praticou esta lei à centenas de quilômetros de Jerusalém, longe da observação de seus acusadores?
Ademais, essa consagração de Paulo foi uma excelente oportunidade para ele provar que os seus oponentes testemunhavam falsamente a seu respeito, visto que ele continuava preservando a lei: "Portanto, faça o que lhe dizemos. Estão conosco quatro homens que fizeram um voto. Participe com esses homens dos rituais de purificação e pague as despesas deles, para que rapem a cabeça. Assim, todos saberão que não é verdade o que falam de você [Paulo], mas que você continua vivendo em obediência à lei." (Atos 21:23-24 NVI).
Lei da Circuncisão:
"Querendo Paulo que ele [Timóteo] partisse consigo, realizou a sua circuncisão, por causa dos judeus que havia naqueles lugares. É que todos sabiam que seu pai era grego." (Atos 16:3 BJ). "Ora, nem Tito, que estava comigo, e que era grego, foi obrigado a circuncidar-se." (Gálatas 2:3 BJ).
E então, Paulo era discriminador? (Tiago 2:8-9). Por que ele aceitou a circuncisão de Timóteo e não a de Tito? Se Paulo satisfazia a lei de Moisés apenas para agradar os judeus, por que ele não aceitou que Tito fosse circuncidado, uma vez que um gentio poderia participar deste ritual? (Êxodo 12:48-49 cf. Ezequiel 44:7-8). Onde está o respeito pelo "aspecto ideológico" dos judeus, não era o seu intuito conquista-los?
Legalismo Judaico:
"Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face, por sua atitude condenável. Pois (...) afastou-se e separou-se dos gentios, temendo os que eram da circuncisão. Os demais judeus também se uniram a ele nessa hipocrisia, de modo que até Barnabé se deixou levar. Quando vi que não estavam andando de acordo com a verdade do evangelho, declarei a Pedro, diante de todos: Você é judeu, mas vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode obrigar gentios a viverem como judeus?" (Gálatas 2:11-14 NVI).
Se o propósito de Paulo era "fazer-se como judeu" de acordo com a lei, meramente para convencer os judeus do evangelho, por que ele agiu publicamente contra a atitude deles para com os gentios? Naquele momento, os judeus se baseavam em duas orientações para justificar o comportamento equivocado que mantinham: "É necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés." (Atos 15:5 NVI) e, "é contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo." (Atos 10:28 NVI). Fundamentados também neste acontecimento, insistimos: Perdeu-se o objetivo de Paulo em seguir a lei pela "ideologia judaica"?
Dentre os exemplos acima, o mais polêmico é o caso da circuncisão envolvendo Timóteo e Tito. Que motivos conduziram Paulo a agir diferentemente nos dois casos?

Timóteo era considerado judeu (nascido de mãe judia e pai gentio) e, conforme as leis judaicas,3 ele poderia ser circuncidado. Aliado a isso, Paulo tinha forte apreço por Timóteo e desejava tê-lo como auxiliar no seu ministério, pois ele estava sempre voltado às Escrituras com verdadeira fé.4 E, devido a vida pública que Timóteo desempenharia em favor do evangelho, Paulo concordou em sua circuncisão, visto que: a sua continua convivência com os judeus, associada a sua anterior condição incircuncisa, teria causado descrédito por parte deles; fatalmente não aceitariam Timóteo como instrutor cristão. Então, Paulo, para evitar que ele se tornasse motivo de constrangimento na comunidade judaica, concordou com a sua circuncisão.

Tito, por sua vez, era gentio e nada justificava a realização de sua circuncisão. Ademais, Paulo entraria em conflito com aquilo que ele próprio ensinava: "Porque em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm efeito algum, mas sim a fé que atua pelo amor." (Gálatas 5:6 NVI; Romanos 2:29 cf. Deuteronômio 30:6). Embora a circuncisão não tenha importância alguma para o evangelho, ela possui forte influência no judaísmo. Não obstante, Paulo não iria retomar algo que já havia sido resolvido no concílio de Jerusalém(c).

Assim, a circuncisão de Timóteo além de ter sido neutra para o evangelho, não confrontou um de seus princípios fundamentais, uma vez que ela não foi praticada com o intuito de obter justificação por obras (cf. Romanos 9:30-32, Gálatas 2:15-16). Deste modo, Paulo procedeu de acordo com a lei para atender uma particularidade na cultura judaica sem infringir o evangelho. Vale ressaltar ainda que a expressão "sujeitos à lei" de I Coríntios 9:20, refere-se a obediência integral da lei(d) de Moisés. Os judeus que ainda não tinham aceitado o sacrifício de Cristo acreditavam na completa submissão à ela, sobretudo aos preceitos cerimoniais (II Coríntios 3:14-15 cf. Atos 15:1).

Considerações Finais
Embora relutante contra o evangelho, a nação de Israel não havia sido esquecida completamente por Paulo (Atos 13:46 cf. I Coríntios 10:32-33, Hebreus 3:12-14). Em meio as dificuldades, Paulo mantinha a esperança de ver o seu próprio povo volvendo-se também com Cristo.

Ele realizou várias viagens evangelísticas para diversas localidades fora da Palestina e, consequentemente, teve contato com diversas culturas. Todavia, sempre buscou respeitá-las enquanto este respeito não confrontasse o evangelho e a lei de Deus. E o verso de I Coríntios 9:21 expõem nitidamente este comportamento:
"Para aqueles que vivem sem a lei, fiz-me como se vivesse sem a lei - ainda que não viva sem a lei de Deus, pois estou sob a lei de Cristo - para ganhar aqueles que vivem sem a lei." (BJ).
O texto de I Coríntios 9:21 é, inseparavelmente, complemento de I Coríntios 9:20. Contudo, ele é ignorado propositalmente por aqueles que defendem os sofismas apresentados no início deste estudo pelos seguintes motivos:
A expressão, "sem a lei" de I Coríntios 9:21, refere-se aos gentios que não conheciam em sua plenitude a lei de Deus, mas agiam em conformidade com os seus princípios(e) (Romanos 2:14-16).
A afirmativa, "para aqueles que vivem sem a lei, fiz-me como se vivesse sem a lei" (I Coríntios 9:21 BJ), demonstra a preocupação de Paulo quanto ao seu procedimento como judeu frente a cultura dos gentios, e atitude similar foi adotada com as questões legislativas e culturais dos judeus: "para os que estão sujeitos à lei, fiz-me como se estivesse sujeito à lei" (I Coríntios 9:20 BJ).
A declaração, "ainda que não viva sem a lei de Deus" (I Coríntios 9:21 BJ), pulveriza a insinuação anomista de que as atitudes de Paulo não eram subordinadas aos Dez Mandamentos(f) (cf. Romanos 7:22; Romanos 8:6-7, Romanos 13:8-10). Da mesma forma aniquila a alegação de que a sua observância sabática não era fundamentada pelo quarto mandamento(g).
Apesar de todo o seu conhecimento e zelo pela lei de Moisés, Paulo discernia as coisas que eram praticáveis com o advento da nova aliança: "Foi alguém chamado sendo já circunciso? Não desfaça a sua circuncisão. Foi alguém chamado sendo incircunciso? Não se circuncide. A circuncisão não significa nada, e a incircuncisão também nada é; o que importa é obedecer aos mandamentos de Deus." (I Coríntios 7:18-19 NVI cf. Hebreus 10:16-17); isto é, obedecer a lei de Deus(h).

Assim, nota-se claramente as falácias elaboradas por meio de textos bíblicos descontextualizados para atacar a lei e Deus. Igualmente, observar-se o motivo que conduze a este sórdido comportamento: satisfazer a consciência estagnada no erro.


a. Sofisma: argumento elaborado com o intuito de induzir ao erro; raciocínio capcioso alicerçado em ideia inconsistente; aquilo que foi elaborado para conduzir propositalmente ao engano. Anomista: pensamento ou indivíduo que rejeita os padrões de conduta determinados pela lei de Deus; aquele que defende que o comportamento humano não deve estar sujeito as regras de uma lei, sobretudo as divinas.
b. Gamaliel era fariseu, mestre da lei e respeitado por todo o povo judeu (Atos 5:34).
d. Alguns comentaristas interpretam a expressão, "sujeitos à lei" de I Coríntios 9:20, como sendo as leis rabínicas criadas a partir da lei de Moisés.
1. Atos 13:16-22; Atos 14:1-2; Atos 17:1-4; Atos 28:17-20.
2. Romanos 2:25-29; Romanos 3:29-30; Romanos 10:12-13; I Coríntios 12:13; Gálatas 6:15; Colossenses 3:11.
3. Babylonian Talmud: Tractate Yebamoth, folio 45(b).
4. Romanos 16:21; Atos 19:21-22; I Coríntios 4:17; I Coríntios 16:10-11; I Timóteo 1:1-2; II Timóteo 1:1-5; II Timóteo 3:14-15.

Outros estudos:
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IASD On-line,
19 de out de 2013 06:38