IEAD: Jesus versus Fariseus - II

"Por isso os judeus perseguiam Jesus: porque fazia tais coisas no sábado. Mas Jesus lhes respondeu: 'Meu Pai trabalha até agora e Eu também trabalho'. Então os judeus, com mais empenho, procuravam matá-Lo, pois, além de violar o sábado, Ele dizia ser Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se, assim, igual a Deus." (João 5:16-18 BJ).
Estes versos são comumente aplicados às avessas por excêntricos dominguistas e anomianistas como subterfúgio de suas transgressões ao quarto mandamento. Isolando-os de seu contexto e de toda uma sucessão de perseguições farisaicas a Jesus e Seu ministério, esses indivíduos declaram veementemente que Cristo violava o sábado e, sem receio algum (alicerçados em suas próprias interpretações maléficas), O classificam como pecador.1 Duas considerações fundamentais de João 5:16-18 são irresponsavelmente desconsideradas pelos grupos citados:
1. Quais as "coisas" que Jesus realizara a ponto de despertar o ódio descomunal dos fariseus e ser acusado de profanador do sábado?

2. Os fanáticos rabinos associaram à incriminação de transgressor do sábado, a de blasfemador, por Jesus ter afirmado que era Filho de Deus e por ter Se igualado a Ele. Ambas as acusações partiram diretamente dos escribas e fariseus, na época, os piores perseguidores de Jesus.
Estes detalhes são ignorados propositalmente pelos atuais acusadores de Cristo, porque revelam a origem e a intenção das incriminações direcionadas a Ele. Nenhuma das "coisas" realizadas por Jesus eram ilícitas ou contrárias à observância sabática. Ele dedicava-Se aos sábados exclusivamente para: ensinar as Escrituras Sagradas; socorrer física e espiritualmente os necessitados; e, viajar entre as cidades para levar cura e esperança de salvação aos pecadores.2 Seriam estas as "coisas" que Jesus deveria evitar aos sábados? Ao praticá-las transgrediu o quarto mandamento da lei de Deus? De forma alguma. Não existe nenhum preceito bíblico que condene estas atividades aos sábados, pelo contrário, "contra essas coisas não há lei" (Gálatas 5:22-23 cf. Romanos 13:8-10).

Todavia, as leis e tradições criadas pelos rabinos condenavam o proceder de Jesus em vários aspectos. Além de não reconhecerem Jesus como o Filho de Deus e, repudiar os Seus ensinos e milagres, os escribas e fariseus baseavam-se em suas ridículas normas para condena-Lo. Diversos procedimentos de cura eram proibidos, inúmeras regras de conduta tinham que ser obedecidas durante as horas sabáticas segundo as exigências rabínicas. O sábado foi completamente desvirtuado pelos fanáticos líderes da nação de Israel.

A "Mishnah", obra literária judia, apresenta uma lista de 39 categorias de atividades que não deveriam ser realizadas aos sábados, e encontram-se minuciosamente detalhadas na "Mišna tractate Šabbat". Considerando ainda outros escritos judaicos como o "Livro dos Jubileus" e "Documentos de Damasco", no geral, há 70 discussões dispondo sobre os procedimentos que deveriam ser adotados aos sábados.3, 4 Adiante, algumas dessas orientações que ocasionaram os atritos entre Jesus e Seus opositores:
Quanto ao transporte de carga (cf. João 5:8-10): carregar um pão de grande dimensão em público era proibido, porém com ajuda de uma outra pessoa era permitido; carregar algo nos ombros era proibido, mas permitia-se transportá-lo no dorso da mão, no pé, na orelha, no cotovelo, ou seja, não seria culpado se carregasse tal objeto de maneira incomum; uma cama ou maca poderia ser transportada caso houvesse uma pessoa viva nela, porque a cama não era um objeto intrínseco a pessoa.

Quanto à cura (cf. João 5:15-16): era proibido o tratamento de doenças em fase crônica, mas permitia-se tratar àquelas em estado agudo; proibia-se procedimentos de cura da pele, como por exemplo, a raspagem (limpeza); era proibido jogar (por si mesmo) água fria sobre a mão ou pé deslocado, mas, poderia submeter a parte lesionada em água corrente; era proibido submeter um dente ao contato com o vinagre por motivo de dor, mas poderia fazê-lo se o motivo era degustação ou alimentação; a região lombar, dolorida, não poderia ser submetida ao vinho ou vinagre, mas permitia-se ungir com óleo, desde que ele não fosse originado de rosas.
Diante disso, era impossível os fariseus não investirem fortemente contra Jesus em decorrência de Seus ensinos e atitudes que contrariavam estas e outras orientações sem sentido. As palavras de Jesus: "Levanta-te, toma o teu leito, e anda!" (João 5:8 BJ), denunciara a inutilidade das tradições dos rabinos e demonstrara ao público os transtornos que elas acarretavam ao sábado estabelecido por Deus (cf. Marcos 7:7-9). Sobre estas questões, a literatura da igreja Evangélica Assembleia de Deus (IEAD), comenta:
"Essa cargas eram os detalhes que os fariseus acrescentaram à lei de Deus. Para o mandamento, 'lembra-te do dia de sábado, para o santificar' (Êx. 20.8), por exemplo, acrescentaram instruções relativas à distancia que uma pessoa poderia caminhar, que tipos de laços poderiam ser amarrados e quanto peso poderia ser carregado no sábado. Curar uma pessoa neste dia era considerado um trabalho ilícito, embora fosse permitido resgatar um animal desgarrado que estivesse preso (14.5). Não é de admirar que Jesus tenha condenado as adições que os fariseus haviam feito à lei."5

"Os líderes judeus viram um milagre poderoso de cura, mas segundo sua interpretação, uma importante lei [farisaica] fora violada. Eles colocaram o milagre de lado no momento em que enfocaram a violação de uma regra, porque, para eles, esta era mais importante do que o milagre. [...] Se Deus impedisse a realização de qualquer tipo de obra no sábado, a natureza enfrentaria um caos e o pecado poderia assolar o mundo. A passagem em Gênesis 2:2 diz que Deus descansou no sétimo dia, mas isto não significa que Ele parou de fazer o bem. Jesus queria ensinar que, quando a oportunidade para fazer o bem se apresenta, não deve ser ignorada, mesmo no sábado.
Jesus estava identificando-Se com Deus, Seu Pai. Não poderia haver dúvida quanto a sua afirmação de ser Deus. Jesus não nos deixa a opção de crer em Deus e, ao mesmo tempo, ignorar o Filho de Deus (5.23). Os fariseus também chamavam a Deus de Pai, mas perceberam que Jesus afirmava ter um relacionamento exclusivo com Ele. Em reação à afirmação de Jesus, os fariseus tinham duas escolhas: crer nEle ou acusá-Lo de cometer blasfêmia. Escolheram a segunda opção."6

"Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também (5.17). Que resposta para os ataques contra Jesus por curar no sábado! Deus não interrompe os processos da natureza por que é sábado! [...] Uma vez que o Pai realiza Suas obras de cura no sábado, como pode o Filho ser criticado por fazer a mesma coisa! Sejamos cuidadosos para que nossa convicção sobre o 'fazer' e 'não fazer' se baseie em uma melhor compreensão da natureza e das obras de Deus do que se baseavam os oponentes de Jesus no século I."7

"Eu trabalho (5.17). Jesus deixou claro que Deus não tira folga aos sábados, pois mantém o universo funcionando. É claro que Jesus também trabalha neste dia. Esta identificação de Si mesmo com as obras criativas de Deus era equivalente a uma declaração de divindade. Igual a Deus (5.18). Ainda hoje, há quem afirme que Jesus jamais teria declarado ser Deus. Essas pessoas simplesmente não leram cuidadosamente o Novo Testamento. Os inimigos de Jesus conheciam Suas declarações muito bem e com exatidão. Recusaram-se a crer e estavam determinados a matá-Lo."8

"No contexto da época de Jesus, portanto, estes versículos servem como uma poderosa afirmação da posição exclusiva de Jesus, e explicam Seu direito de atribuir uma interpretação solene da lei do sábado. Como o Filho de Deus, as curas de Jesus trazem a inconfundível marca da Palavra de Deus. [...]
Cristo continua, nesta passagem, a indicar 'maiores obras' (5.20) do que a recente cura que Deus Pai confiou às mãos do Filho. Ressuscitar os mortos (5.21), julgar os seres humanos (5.22) e 'ter a vida em si mesmo' (5.26), tudo isto são 'obras' que Cristo aprendeu com o Pai e que foram designadas a Ele. Jesus não é um 'aprendiz' religioso, mas, Suas ações estão em harmonia tão completa com a natureza e a vontade do Pai que o que Ele diz e faz são 'obras' que são indistinguíveis da obra do Pai. [...]
Os líderes religiosos do judaísmo tinham perdido a visão de perdão e misericórdia de Deus, cuja graça é exibida tanto no Antigo Testamento como também no Novo. De alguma maneira, eles o viam como o Criador de regras, como alguém que só poderia ficar satisfeito com a rigorosa observância do ritual e da observância infalível dos requisitos que a lei tradicional, e não a bíblica, decretava. Eles não conseguiam reconhecer a Jesus porque sua visão de Deus tornara-se distorcida e confusa."9
Considerações finais
Sem dúvida, Cristo foi acusado injustamente de ser transgressor da lei de Deus. Ele nunca contrariou o quarto mandamento do Decálogo, os escribas e fariseus de Sua época foram os responsáveis por tal difamação, pois tinham o objetivo de eliminar a influência de Seus ensinos, milagres e exemplo de vida. Para eles não importava a maneira que esse objetivo seria alcançado, se haveria de ser por meio de calúnia, zombaria, ameaça ou morte; esta última foi diversas vezes planejada. E como observado, a igreja Evangélica Assembleia de Deus defende estas verdades bíblicas em suas publicações, mesmo não reconhecendo o sábado descrito no quarto mandamento como válido para os cristãos(a).

Contudo, existem assembleianos que ignoram deliberadamente tanto o posicionamento da Bíblia, quanto a convicção doutrinária da própria IEAD sobre as questões expostas neste estudo. Ao sustentarem intencionalmente hoje, as mesmas acusações farisaicas contra Jesus, eles comprovam que se houvessem vivido naquela época, teriam unido suas vozes à da multidão possuída pelo ódio para pronunciar a sentença: "Crucifica-O, crucifica-O."


Vídeo relacionado: O Sétimo Dia - Programa 03
1. I João 3:4; Romanos 4:15; Romanos 7:7 cf. Romanos 3:19-20.
2. Marcos 1:21 cf. Lucas 4:31-37; Lucas 6:6-7 cf. Mateus 12:9-14, Marcos 3:1-6; Lucas 4:16; Mateus 4:23-25; Lucas 6:17-19.
3. NEUSNER, J. (1981). Judaism: The Evidence of the Mishnah, Chicago: University of Chicago Press, p. 55-59.
4. SALDARINI, A. J. (1997). Comparing the Traditions: New Testament and Rabbinic Literature, In: Bulletin for Biblical Research 7, (Institute for Biblical Research), p. 197-199. Referência complementar: Lawrence Schiffman, The Halakhah at Qumran, Leiden: Brill, 1975.
5. Bíblia de Estudos Aplicação Pessoal. (2004). Rio de Janeiro: CPAD, p. 1377; (comentários sobre Lucas 11:46).
6. Ibidem, p. 1425; (comentários sobre João 5:16-17ss).
7. RICHARDS, L. O. (2008). Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento, 3.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 208.
8. RICHARDS, L. O. (2006). Guia do Leitor da Bíblia, 5.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 682.
9. RICHARDS, L. O. (2008). Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento, 3.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 211.

Outros estudos:
Ċ
IEAD05.pdf
(116k)
IASD On-line,
1 de fev de 2014 05:27