05. Resumos de comunicações

Resumos de comunicações a apresentar nas sessões plenárias


El papel de la prensa en la transición española

Jaume Guillamet (Universitat Pompeu Fabra)

Resumo: 

El papel de la prensa en la transición española ha de ser contemplado desde varios puntos de vista:
a) La prensa protagonizó el único acto de apertura política del régimen de Franco, con la ley de 1966 que suprime la censura previa y establece una libertad de prensa vigilada por el gobierno, que nunca permitió la discusión sobre la necesidad de la democracia.
b) Tras la coronación del rey Juan Carlos, en noviembre de 1975, la prensa no tuvo plena libertad hasta las elecciones de junio de 1977 y la Constituición der diciembre de 1978.
c) No hubo cambios de propriedad ni de dirección en la mayoria de periódicos.
d) La prensa extranjera tuvo un papel importante, con una intensa cobertura.



Conflitualidade e combate político na imprensa portuense: o PREC e a luta pelo controlo da informação

Helena Lima (Universidade do Porto e CIMJ)

Resumo:

A Revolução de Abril trouxe aos jornais portuenses as problemáticas geradas em toda a Comunicação Social nacional. Os efeitos da liberdade de expressão fizeram-se sentir de imediato e a abolição da censura foi festejada com  euforia. As páginas dos três diários saudaram com entusiasmo o Movimento das Forças Armadas e retrataram a alegria popular.

As celebrações cedo deram lugar aos efeitos conturbados gerados pelo processo político-institucional. A politização dos conteúdos, as pressões sobre as redacções e os níveis de conflitualidade, associados a uma desarticulação da estrutura de chefias editoriais decorrente da transformação e enfraquecimento das administrações constituíram a tónica do período subsequente, que tendeu a intensificar-se a partir do final do verão de 1974. O clima político subiu de tom, o que afectou a vida das redacções. Os conteúdos tenderam a radicalizar-se e a luta pelo controlo informativo assumiu grande intensidade. Contudo, o processo não foi uniforme e, no Porto, o Comércio a Rádio Renascença constituíram-se baluartes de oposição à corrente dominante instituída pelo PREC e funcionaram como contraponto do discurso oficial.

A luta política pelo controlo da imprensa nacional foi o factor estruturante deste período, sendo a questão da propriedade uma das formas usadas para o assegurar. As nacionalizações afectaram praticamente todos os diários e o Jornal de Notícias e o Comércio do Porto sofreram também as suas consequências no plano da gestão, mas também no que toca ao processo de politização interna. A luta dos principais partidos que disputavam o poder, aliada às pressões das outras instituições de soberania, teve consequências a nível das redacções. O Primeiro de Janeiro permaneceu no sector privado mas não ficou imune à vaga revolucionária pelo que também sentiu  os efeitos das lutas partidárias, bem como a luta pelo controlo editorial.



Los medios de comunicación en el proceso democratizador español

Rafael Quirosa-Cheyrouze y Muñoz (Universidad de Almería)

Resumo:

En la intervención se abordarán las siguientes cuestiones:

1) Limitaciones de la Ley de Prensa de 1966. No debe ser considerada como un acto de apertura política porque la censura previa es sustituida por la autocensura, ante las represalias del régimen. Sí es cierto que el cambio normativo permitió que se publicaran informaciones y opiniones que en la etapa anterior hubieran sido más difíciles.

2) El doble papel de los medios de comunicación como notarios de la actualidad y como impulsores del propio proceso. Esa “complicidad” limitó también la propia labora periodística.

3) La falta de unanimidad en torno al proceso: hubo “parlamento de papel”, pero también “bastión de papel”; es decir, medios que apoyaron la democratización española, pero otros que se opusieron. Incluso, respecto a los primeros hay que matizar grados de compromiso y cronología.

4) El protagonismo de los medios a la hora de transmitir una determinada interpretación de la Transición: proceso eminentemente político, dirigido por las elites y planificado desde el principio, infravalorando el papel de los movimientos sociales.


 

Os jornalistas e o seu papel na transição para a democracia em Portugal

Ana Cabrera (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e CIMJ)

Resumo:

A fase final da ditadura em Portugal corresponde no campo da imprensa a um período de mudança de paradigma que se manifestou através de alterações nos corpos redatoriais dos jornais, na organização da informação, e que se consubstanciou na introdução de novos temas assuntos e abordagens na imprensa diária. (Cabrera,2006, Baptista e Correia (2007,2009), Lima (2009).

De facto o período marcelista tem sido considerado como um laboratório onde estas alterações estratégicas se construíram e os autores (repetir) sublinham a relevância das novas gerações de jornalistas, cuja frequência universitária e exposição às lutas académicas dos anos 60 proporcionaram mudanças nas redações. O impacto destas alterações foi mais evidente nos jornais onde o equilíbrio de forças mais se alterou em função do rejuvenescimento etário das redações (Cabrera, 2006) como foi o caso do Diário de Lisboa, República, A Capital.

A revolução do 25 de Abril de 1974 impôs uma mudança estrutural e radical na imprensa. Desde logo o fim da censura. Mas os poderes políticos, na busca constante do seu campo de atuação e na necessidade premente de angariar apoios populares, os poderes político partidários envolveram-se em tentativas sistemáticas de controlo de certos meios de comunicação social em particular dos jornais e da televisão.

O objectivo deste trabalho é conhecer e analisar o impacto na imprensa portuguesa da geração de jornalistas que transitaram nas redações, para a nova realidade política construída pela revolução de Abril.



O jornalismo durante o período marcelista: modernizar sem democratizar

Carla Baptista (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e CIMJ)

Resumo

Esta comunicação argumenta que a modernização do jornalismo português se iniciou antes da democratização política do país, que só ocorreu após a revolução de 1974. As mudanças ocorridas após a subida ao poder de Marcelo Caetano, em 1968, resultam de um processo de renovação do campo jornalístico em curso desde o início da década de 60, marcado pelo rejuvenescimento das redacções, pela diversificação dos perfis profissionais, pelo surgimento novos projectos jornalísticos, como A Capital, e fortalecimento de outros já existentes, como o Diário Popular, o Diário de Lisboa e A República.

O primeiro ano de governo marcelista, na sequência das eleições legislativas de 1969, que foram intensamente discutidas pela imprensa nacional, de uma forma inovadora e pouco habitual, intensificou a politização crescente da sociedade portuguesa e, por inerência, do jornalismo.

Aumentou a proximidade entre políticos e jornalistas, criando patamares de discussão política que não existiam no jornalismo, reduzido ao elogio laudatório da acção do poder. Por via de alguns secretários de Estado e ministros mais progressistas que integraram o executivo, das iniciativas legislativas dos deputados da Ala Liberal na Assembleia Nacional e do próprio Marcelo Caetano, que fez um esforço de abertura do país ao exterior e de credibilização da sua imagem interna e externa, o jornalismo ganhou alguma margem de manobra para incluir temas polémicos na sua agenda.

Alguns exemplos são as questões relacionadas com a liberdade de imprensa e de expressão, o direito à greve, os presos políticos, as reformas na educação e noutras áreas muito carenciadas do país.

Através da análise de alguns materiais de imprensa e testemunhos de antigos jornalistas, iremos demonstrar como este caminho ajudou a construir o modelo futuro de relacionamento entre jornalistas e fontes de informação na área política, que se prolongou (e prolonga) na época democrática.



O jornalismo colonial de expressão portuguesa

Antonio Carlos Hohlfeldt (PUCRS e INTERCOM)

Resumo: 

O trabalho parte do conceito de jornalismo, ampliado, segundo GUIRADO (2001), e de colonial, segundo TRIGO (1977), para acompanhar os desdobramentos vividos pelo jornalismo em terras de Angola, Cabo Verde, Goa e Moçambique, a partir de 1836 quando o decreto de 7 de dezembro, firmado pelo Marquês de Sá da Bandeira, inverte completamente a política portuguesa até então adotada em face da imprensa. Se antes, ela era proibida, sendo os prelos descobertos destruídos e seus proprietários condenados severamente, pretende-se agora que todas as administrações coloniais portuguesas criem e desenvolvam um Boletim Oficial, o que ocorre a partir de 1842, em Angola, e 1854, em Moçambique. Goa, que já possuíra imprensa ainda no século XVI, retomara o processo em 1821. Cabo Verde vai fazê-lo bem mais tarde, por outras injunções. de qualquer modo, iniciada a imprensa oficial, nos moldes da "Gazeta de Lisboa" e da "Gazeta do Rio de Janeiro", logo se passa a publicar jornais independentes, o que expandirá rapidamente a imprensa colonial de expressão portuguesa. O artigo, além de fazer uma síntese histórica desse processo, busca identificar algumas das principais características de tais publicações. A pesquisa é parte do projeto pós-doutoral desenvolvido na Universidade Fernando Pessoa, em 2008, na cidade do Porto, junto à Biblioteca Pública Municipal, onde se encontra o acervo de jornais coloniais. No seu desdobramento, tem-se estudado diferentes periódicos e personalidades deste jornalismo, projetando-se para o próximo ano um livro a respeito do tema, abrangendo todas as antigas colônias e não apenas cada uma, isoladamente.

 

 

O século XIX como gênese: as primeiras gazetas brasileiras

Marialva Carlos Barbosa (UTP e REDE ALCAR)

Resumo: 

O texto procura fazer uma reflexão inicialmente sobre a idéia de gênese que governa a maioria dos estudos históricos, inserindo na análise algumas construções sobre o início da imprensa no Brasil e sobre as razões para o surgimento tardiamente em solo brasileiro das primeiras gazetas. Num segundo momento, mostraremos o sistema de comunicação que existia na cidade do Rio de Janeiro quando da circulação do primeiro jornal impresso no Brasil – a Gazeta do Rio de Janeiro – procurando mapear o percurso da notícia, que “corria léguas”, “andava em passos largos”, “corria de boca em boca”, até se transformar em notícias sob os olhos atentos do redator daquele jornal que circulou de setembro de 1808 a dezembro de 1822.

 

 

As origens do jornalismo em Espanha e Portugal: uma perspectiva comparativa

Alberto Pena Rodríguez (Universidade de Vigo)

Resumo:

Esta comunicação pretende estudar os elementos mais interessantes das origens do jornalismo em Portugal e na Espanha para estabelecer uma comparação sobre alguns aspectos do fenómeno nos dois países ibéricos. Tentaremos apresentar quais foram os primeiros jornais diários nos dois países, quais foram os primeiros empresários jornalísticos, etc. O objectivo fundamental da comunicação é estabelecer as semelhanças e diferenças entre o jornalismo espanhol e português.

 

 

A xénese do xornalismo en Galicia: do nacemento serodio á eclosión finisecular

Xosé López García (Universidade de Santiago de Compostela)

Resumo:

En 1800 nace El Catón Compostelano, obra de Francisco del Valle Inclán –bibliotecario da Universidade de Santiago de Compostela e devandeiro do pai literario do marqués de Bradomín- considerado o primeiro xornal galego. A publicación tiña periodicidade semanal, estaba escrita en castelán e abordaba múltiples temas da cultura e da sociedade dende o punto de vista do seu autor. Deixou de publicarse case catro meses despois do seu nacemento e logo de que viran a luz vintedous “discursos”, nome que recibía cada unha das edicións. Conforme avanzaba o século XIX, os homes e mulleres do Rexurdimento ían tomando conciencia de que a conservación e a normalización da lingua pasaban ineludiblemente pola modificación da súa condición social, e unha boa forma de conferirlle prestixio ao idioma empregándoo nun medio de comunicación. Así, o 7 de febreiro de 1876, naceu O Tío Marcos da Portela, o primeiro xornal escrito en galego e que promovía unha activa defensa da lingua.  Entre ambas as dúas datas (1800 e 1876), Galicia é testemuña da eclosión da prensa periódica, eses papeis d´emprenta condenada,  en denominación do considerado primeiro xornalista galego, Manuel  Pardo de Andrade. Así, en 1853 prodúcese o nacemento da cabeceira decana do xornalismo galego, Faro de Vigo, da man de Ángel de Lema y Marina. Logo virían xornais cun grande enraizamento no modelo comunicativo galego e que continúan vixentes aínda hoxe: El Correo Gallego (1878); Diario de Pontevedra (1887); El Progreso (1908), La Región (1910) ou El Ideal Gallego (1917). Durante o longo camiño do século XIX, a sociedade galega viviu unha extraordinaria transformación parella á que se estaba a vivir en toda Europa. A participación, cada vez máis activa e o crecente protagonismo dos cidadáns na irregular xeografía política de inicios de século, converte a información nun valor de suma importancia. Os novos cidadáns reclaman o coñecemento, queren tomar a palabra es medios de comunicación serán fundamentais nesta encrucillada histórica. En Galicia, o devalar do século XIX tráenos o asentamento e transformación veloz dunha prensa que nace ao abrollar o século e que en poucas décadas pasa de ser un exemplo de vocación de autor a un traballo plural e moderno que trata de informar e influír sobre a realidade colectiva. De como foi ese tránsito –non exento de dificultades e de logros- tentaremos falar nesta intervención.

 

 

A introdução do periodismo em Portugal na primeira metade do século XVII: Das publicações ocasionais às periódicas

Jorge Pedro Sousa (Universidade Fernando Pessoa e CIMJ)

Resumo:

Como foi introduzido o periodismo em Portugal? Quais as características dos primeiros jornais portugueses? Quem foram os primeiros “jornalistas” portugueses, aqueles que na primeira metade do século XVII iniciaram a actividade jornalística em Portugal? Sobre o que escreviam? Quais as suas fontes? Quais os seus processos (rotinas) de trabalho? Quais os constrangimentos que enfrentavam? Este trabalho visa dar resposta a essas questões, socorrendo-se da pesquisa bibliográfica e documental e da análise do discurso, quantitativa e qualitativa, das duas Relações impressas de Manuel Severim de Faria (1626-1628) e dos primeiros periódicos portugueses, a Gazeta “da Restauração” (1641-1647) e o Mercúrio Português (1663-1667). Conclui-se que, na maioria dos casos, os primeiros “jornalistas” portugueses eram clérigos ou nobres letrados para os quais a redacção de folhas periódicas ou ocasionais seria mais uma “ocupação” do que uma “profissão”, que exerceriam quer por auto-satisfação e motivação pessoal, quer ainda por obrigação, quer mesmo para obterem lucros. As notícias que redigiam eram sujeitas a dupla censura, civil e religiosa, e os jornais estavam comprometidos com o Poder Régio, mas isso não afectava determinantemente a intenção de verdade e o apego à factualidade nas notícias. Por outro lado, os jornais eram obrigados ao pagamento de taxas que encareciam o seu preço final e os tornavam uma mercadoria cara e rara, elitista – embora o povo tomasse contacto com as notícias através da leitura pública de jornais.

Os jornais seiscentistas portugueses falavam, principalmente, da guerra que dilacerava a Europa e, entre 1641 e 1642, das guerras da restauração da independência de Portugal, que subtraiu o país aos domínios de D. Filipe IV (D. Filipe III de Portugal). No entanto, nos jornais da época também havia espaço para os assuntos públicos e a administração do território, para os temas sociais e religiosos, para os crimes e para a justiça, para os acontecimentos insólitos, etc. A semelhança entre as notícias de ontem e as de hoje prova, aliás, a constância dos critérios de noticiabilidade, fenómeno que é explicável (1) pelo facto de existirem invariantes culturais que radicam nas preocupações humanas, em particular nas preocupações pela sobrevivência, que promovem a sinalização noticiosa do perigo; e (2) pelo impulso “genético”, profundamente entranhado na condição humana, à conservação da sociedade, o que leva à sinalização e condenação do desvio.

Nos jornais seiscentistas de Portugal surgiam notícias de produção própria, resultantes da observação pessoal dos acontecimentos e de entrevistas a marinheiros e outros viajantes; (2) notícias extraídas de cartas enviada pela rede de correspondentes que os jornais implantavam, e que copiavam as redes nacionais e internacionais de correspondência que, em especial desde o Renascimento, alimentavam os letrados europeus de notícias; e ainda (3) notícias traduzidas de jornais estrangeiros. Essas traduções alimentavam um fluxo considerável de informação internacional, que aproximava, simbolicamente, os países e cidadãos europeus.




Resumos das comunicações a apresentar nas sessões de tema livre

 

6 de Outubro de 2011

15 horas – 18 horas

 

Mesa 1

Sala a designar 1

Moderador: Ana Cabrera (FCSH-UNL e CIMJ)

Comunicações:

1. Maria Inácia Rezola (Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL; Escola Superior de Comunicação Social): Justiça transaccional no Portugal Revolucionário: o caso da Comunicação Social

Resumo

Ao prefaciar um estudo comparado sobre justiça transicional, o académico britânico Laurence Whitehead observa que a ampla variedade de experiências nele descritas revela que cada nova democracia gere de forma diversa e encontra a sua própria solução para as “exigências” de verdade e justiça na relação com o seu passado ditatorial (Whitehead: 2001). Assim, enquanto umas optam por um “silêncio comunicativo”, noutras prevalece a exigência de “purgas higiénicas”.

Relativamente ao caso português, e apesar da ideia generalizada de que o processo de “purgas” terá sido limitado, três décadas depois do 25 de Abril de 1974, são ainda escassos os estudos que nos permitam conhecer em detalhe a forma como a Democracia lidou com o seu passado repressivo. A par dos trabalhos pioneiros de António Costa Pinto (Pinto: 1998 e 2008), apenas são conhecidos alguns estudos sectoriais e lacunares incidindo sobre a Polícia Política (Raimundo: 2007), Educação (Serra: 2008) e Justiça (Rezola: 2008). Pouco ou nada se sabe sobre o que efectivamente se passou na Comunicação Social, sector consensualmente considerado como fundamental para a definição da natureza do novo regime político.

Estudos como os de Mário Mesquita tendem a acentuar a luta então travada entre os “herdeiros do antigo regime, que procuravam retardar o pleno desmantelamento dos mecanismos censórios”, os “defensores de teses revolucionárias e vanguardistas” que “paradoxalmente”, eram favoráveis “à adopção de forma de censura a posteriori” e os “partidários de concepções pluralistas do sistema de comunicação social”, preconizando o fim da repressão administrativa e censória (Mesquita: 1994, 361). Pouco ou nada é dito sobre a extensão e impacto dos saneamentos no sector, reflexo das tensões e lutas políticas que o percorrem mas também da forma como os centros de poder político-militares percepcionaram a sua importância.

Neste sentido, com a presente comunicação, propomo-nos analisar os processos de saneamento desencadeados na Comunicação Social durante o período revolucionário, pretendendo assim dar um contributo para o estudo dos media e da justiça transicional em Portugal.

 

2. Pedro Marques Gomes (Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa e Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL): Um conflito no Diário de Notícias: o «Caso dos 24» em 1975

Resumo

Esta comunicação tem como objectivo abordar o caso dos 24 jornalistas saneados do jornal Diário de Notícias, em Agosto de 1975, na sequência da publicação de um comunicado em que questionam a orientação do jornal.

A pertinência deste trabalho deriva do facto de os média terem estado no centro de alguns dos mais duros confrontos do processo de democratização português e, por isso, em nosso entender, afigurarem-se como uma peça fundamental para a sua compreensão. O caso em estudo é particularmente revelador nesse aspecto, com implicações não só a nível social mas também a nível político.

É importante referir que o Diário de Notícias, nacionalizado desde Março de 1975, teve, no período em que ocorre o acontecimento estudo, como director o jornalista Luís de Barros e como director-adjunto José Saramago. Este último defendera, no seu discurso de tomada de posse, que o DN iria ser ““um instrumento nas mãos do povo português, para a construção do socialismo” e que quem não estivesse “empenhado nesse projecto seria melhor abandonar o Diário de Notícias”.

Por último, note-se que, apesar da relevância salientada por diversos investigadores em relação papel dos meios de comunicação social neste período, são ainda escassos os estudos específicos sobre o tema. Saliente-se, porém, os artigos precursores de Mário Mesquita (1994) e Francisco Rui Cádima (2001), imprescindíveis ao estudo deste período. A nível internacional destaca-se o trabalho coordenado por Kenneth Maxwell (1983), no qual reúne textos pioneiros sobre a imprensa na transição para a Democracia em Portugal e Espanha.

 

3. Paula Borges Santos (Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL): A caminho da democracia: o «caso Rádio Renascença» na definição política do novo regime (1974/1975)

Resumo

A 30 de Abril de 1974, os trabalhadores da Rádio Renascença (propriedade do Patriarcado de Lisboa e da Conferência Episcopal Portuguesa) iniciaram uma greve e entraram em autogestão, após a administração da empresa ter proibido a transmissão das reportagens sobre o regresso de exilados políticos e músicos de intervenção. O conflito gerado entre trabalhadores e entidade patronal, desde Setembro de 1974, ultrapassaria o âmbito da empresa, para se transformar num processo indutor de forte perturbação na vida nacional. O confronto prolongar-se-ia até Dezembro de 1975, quando a RR foi oficialmente devolvida às entidades proprietárias pelo VI Governo Provisório. Durante o período revolucionário, o processo ocorrido em torno da rádio católica tornou-se o fulcro da relação triangular entre a sociedade, a Igreja Católica e o Estado. Em causa estiveram questões como o controlo ideológico dos media, os direitos à liberdade de informação e de expressão, as nacionalizações, o papel da Igreja na sociedade e a liberdade religiosa. O conflito que envolveu a RR cruzou-se com a luta política em torno do problema da definição do tipo de regime a instaurar no País, evidenciado a concorrência entre os defensores da democracia representativa de tipo ocidental ou do modelo democrático de tipo popular.

 

4. Cândida Emília Borges Lemos (Centro Universitário UNA):Os semanários Expresso e O Jornal na Constituinte 1975/76 em Portugal

Resumo

Este trabalho analisa o desempenho jornalístico dos semanários portugueses Expresso e O Jornal, no período da Assembleia Nacional Constituinte (ANC),  1975/76, em Portugal. O universo político desenhado na ANC estabeleceu as regras formais da democracia e os atributos das instituições na arena política. Aborda as características do processo de democratização, no ambiente em que floresceram os marcos constitucionais da democracia. A imprensa é integrante da cultura política e social das sociedades. Portanto, é geradora de opiniões e visões de mundo, ao mesmo tempo, reflete a dinâmica social e política. É a síntese de um tempo histórico, como também contribui para a formação dele, ao veicular referenciais de ideologias e de mentalidades. O estudo apresenta-se em perspectiva comparada entre os dois jornais. Parte da memória das culturas políticas e instituição que registra os factos históricos, a imprensa o faz ao definir enfoques, hierarquia de importância dos factos, enfim, estabelece o que será notícia, o que deverá ser registrado ou esquecido. Ao recortar a realidade, emite opiniões e ideias. O objetivo deste trabalho é contribuir para a compreensão histórica do desempenho institucional dos media e de sua inserção para a formação de vontades e de tendências políticas na construção das esferas democráticas da sociedade em tela. Na pesquisa, há o recorte de como Expresso e O Jornal abordaram a ANC. Para tanto, pesquisou-se os originais dos semanários (acervo da Biblioteca Pública do Porto) no período de instalação da Assembléia, 2 de Junho de 1975, até a promulgação da nova Constituição, 2 Abril de 1976. O Jornal, lançado em Maio de 1975, é fruto da própria Revolução e da pluralidade ideológica que emergiu no Portugal revolucionário, sob a marca da liberdade de expressão e de imprensa. A publicação foi fundada pela editora Projornal, composta por grupo de jornalistas se afirmava não-alinhada aos agrupamentos partidários. Por sua vez, O Expresso, criado um ano e quatro meses antes da Revolução por Francisco Pinto Balsemão propôs-se interlocutor da sociedade civil e defensor das liberdades de expressão e de opinião. Os dois semanários objetivavam a elaboração de um jornalismo investigativo e interpretativo e se proclamavam independentes frente ao poder político e aos governos provisórios que se sucederam no período revolucionário. Portanto, busca-se aferir até que ponto estes dois media conseguiram retratar o momento político, dar voz à multiplicidade de opiniões circulantes no tecido social e na própria ANC. Para tanto, se fez necessário comparar as notícias e artigos e os Anais Legislativos acerca de temas que resultaram mais polêmicos. Sobre a imprensa na revolução portuguesa, a maioria da produção acadêmica versa sobre os veículos que foram estatizados e os organicamente alinhados aos partidos. Os media ditos independentes ainda são pouco analisados e problematizados, daí a importância desta pesquisa para a história do jornalismo português dos anos 1970.

 

5. Rita Luís (Universitat Pompeu Fabra): A imprensa escrita e os processos de transição democrática ibérica no século XX: aparelhos de censura, leis de liberdade de imprensa e estruturas empresariais – Uma perspectiva comparativa

Resumo

Tanto o Estado Novo, em Portugal, como o Franquismo, em Espanha, basearam o seu controlo da sociedade através do controlo da imprensa. A limitação da informação é, de resto, uma característica comum aos regimes autoritários, sobretudo naqueles cuja maioria da população é iletrada (BRIGS e BIRK,2010), como era o caso de ambos os países ibéricos à época. 

Em Espanha o chamado Quarto Poder foi concebido como apenas mais um serviço público sob a custódia do Estado e que a este devia servir (BARRERA, 1995). Esta concepção estava reflectida no decreto de lei de 1938 elaborado em tempo de guerra, mas que se manteve vigente até à publicação da lei de imprensa e impressão de 1966 (GUILLAMET, 2003), também conhecida por Lei de Fraga, nome do ministro que a promulgou.

Em Portugal a censura foi decretada em plena ditadura militar – com um cariz igualmente transitório, ou pelo menos assim aspirado pelos meios – e reforçada por Salazar com a criação do Secretariado de propaganda Nacional. A nova Lei de Imprensa de 1971, já com Marcelo Caetano no poder, mudou-lhe o nome para exame prévio.

Ambos os países encontraram fórmulas de transição distintas que se irão reflectir na forma como irão desmantelar os respectivos aparatos censórios: em Portugal a democracia foi instaurada por meio de uma revolução; em Espanha, esta foi chegando lentamente através de sucessivos decretos-de-lei.

Esta comunicação tem como objectivo comparar as trajectórias de Portugal e Espanha, após a queda de ambas as ditaduras, em direcção às respectivas leis de liberdade de imprensa.

Além disso analisar-se-ão as mudanças a nível de propriedade empresarial que o sector da informação, nomeadamente a imprensa escrita, foi sofrendo ao longo dos respectivos períodos ditatoriais e consequente instalação de censura, até à abolição da mesma com as transições democráticas de 1974-1976 em Portugal e 1975-1978 em Espanha.

 

6. Pedro Belchior Nunes (Universidade Aberta e FCSH-UNL): Das ideologias políticas às ideologias de gosto: o discurso no jornalismo sobre música pop em Portugal antes e depois da Revolução de 1974

Resumo

Iremos analisar a construção do discurso jornalístico sobre a música pop em Portugal no período de 1985-1988 estabelecendo uma comparação com o tipo de discurso encontrado no início da década de setenta, antes da Revolução de 1974. Para tal, apoiamo-nos na análise de textos do periódico especializado em música, Blitz  (1984-     ) e do suplemento Revista do semanário generalista Expresso comparando ambos com o discurso verificado no periódico Mundo da Canção (1969-1985). Relacionaremos as mudanças ocorridas no discurso sobre música popular com o contexto mais abrangente da indústria musical em Portugal e da relação do jornalismo com as editoras fonográficas e promotores de espectáculos. O estudo comparativo será enquadrado pela noção, proposta por outros estudos científicos, de “gatekeeping” (Lewin, 1947; Shuker, 1994, Nunes, 2004, 2010) e pela abordagem de Jon Stratton ao jornalismo musical em que este considera que a intrusão da emoção no discurso sobre música contribui para uma falsa consciência do leitor acerca da independência do jornalismo em relação à indústria (1982, 1983).

De acordo com a tese que defendi em 2004 sobre jornalismo musical e a sua relação com as editoras (Nunes, 2004, 2010), os jornalistas de música tiveram um papel significativo enquanto “opinion-makers” e “gatekeepers do gosto” no decurso da década de oitenta (Shuker, 1994). Em periódicos como o Blitz, o Se7e e o Expresso, encontramos linhas editoriais que permitem grande liberdade aos jornalistas e críticos para escreverem sobre o que consideram estética e, por vezes, ideologicamente importante na música popular. Num período em que a indústria fonográfica transnacional se expandia em Portugal e a imprensa era ainda secundária nas estratégias das editoras face aos meios de comunicação, o surgimento do Blitz (1984), em par com a consolidação do Se7e e do Expresso como jornais de referência na área da cultura e espectáculos, veio ocupar um espaço importante no acompanhamento da actividade musical do país. Uma nova cena musical emergiu nos dois grandes centros de Lisboa e Porto enquanto uma geração anterior de músicos permaneceu activa na edição discográfica, o que contribuiu para a constituição de um campo de produção musical diverso e competitivo. Consequentemente, novos discursos sobre música emergiram na esfera pública, em articulação com diferentes agendas de gosto.

Argumentamos que o discurso prevalecente no Blitz e no suplemento Cartaz do Expresso é enformado por valores ideológicos acerca das práticas musicais predominantes naquele período de tempo, encontrando muitos pontos de contacto com o tipo de discurso marcadamente ideológico e assumidamente político característico da Mundo da Canção. No entanto, o discurso do Blitz e do Expresso, embora mantendo alguns traços desse discurso de engajamento político-ideológico, não pode ser definido como resolutamente político, antes remetendo para o preenchimento de agendas de gosto e de um interesse estético que deve ser enquadrado com as transformações ocorridas no meio musical e na sua relação com o jornalismo sobre música.

 

7. Mónica Fernández Amador e Emilia Martos Contreras (Universidad de Almería): La prensa local como tribuna de las reivindicaciones ciudadanas: Almería, 1975-1982

Resumo

Tras la muerte de Franco, la sociedad española, con sus múltiples actores sociales, se planteó cuáles debían ser los parámetros del nuevo horizonte político y social que se estaba dibujando. La última década del franquismo, con el desarrollo económico y la propia dinámica interna del poder dictatorial, había abierto ciertas rendijas por las que la oposición al régimen había ido calando y construyendo un campo de cultivo propicio para la posterior democratización del país. Una de esas principales rendijas fue aprovechada, sin lugar a dudas, por los medios de comunicación, especialmente los medios escritos, quienes por sus características particulares tuvieron más oportunidad de escapar del centralismo y oficialismo informativo. De esta forma, especialmente en la prensa local, donde se seguía con rigidez en forma y fondo las noticias políticas, empezaron a proliferar las denuncias de problemáticas concretas, ya fuese el desastroso estado del urbanismo de algunas ciudades, como el saneamiento y el alumbrado, o las carencias en servicios básicos, como la sanidad y educación. Estos espacios de denuncias, aparentemente factuales y apolíticos, fueron aprovechados por las nacientes asociaciones, que empezaron a poner sobre la mesa la marginación que estaban viviendo ciertos colectivos sociales, ya fuese por su pertenencia a espacios geográficos más desfavorecidos o por otras cuestiones, como diferencias físicas o intelectuales. Esta tendencia se acentuó considerablemente a partir del fallecimiento del dictador. Los cambios políticos, especialmente los relacionados con la libertad de asociación y de expresión, crearon un nuevo horizonte sobre el que construir las luchas de estos diferentes colectivos ciudadanos. En este aspecto, la prensa local reapareció como una plataforma primordial en la que interactuaron los principales actores sociales. Los diversos colectivos buscaron llegar, a través de la prensa, tanto al ciudadano común, cuyo papel con la democracia se revalorizó, como a los nuevos actores políticos, en un intento de que sus reivindicaciones formasen parte de los nacientes programas electorales.

Sobre este horizonte se construye el trabajo de investigación que presentamos. Con él, pretendemos hacer un balance general de la presencia en prensa de diversos colectivos sociales, la mayoría de ellos constituido en asociaciones. Con el fin de poder aportar un ejemplo concreto y poder investigar las dinámicas de construcción de la democracia en el espacio considerado de base, hemos localizado la investigación en la provincia de Almería. Almería, situada en el sureste de la Comunidad Andaluza y por tanto muy alejada de todos los centros de poder, era a principios de los años de la Transición una de las zonas menos desarrolladas del país, tanto económica como culturalmente. En consecuencia, la provincia constituye un interesante ejemplo para evaluar el impacto de las reivindicaciones ciudadanas en la construcción política de la sociedad. En cuanto a las fuentes de investigación, el trabajo, enmarcado en la llamada Historia del Tiempo Presente, combina las fuentes clásicas de archivo y hemerográficas con las orales, en un intento de recoger las diferentes dimensiones que conforman un hecho histórico.


8. Carla Martins (Universidade Lusófona e CIMJ): Maria de Lourdes Pintasilgo: uma análise de género da estratégia de comunicação política da senhora “primeiro-ministro”

Resumo

A presente comunicação inscreve-se na intersecção da pesquisa desenvolvida no âmbito do projecto de investigação “Política no Feminino – Políticas de género e estratégias orientadas para a visibilidade das deputadas do Parlamento português” (PTDC/CCI-COM/102393/2008), financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia FCT, e no contexto da dissertação de doutoramento sobre “Media, Política e Género – Representações do espaço público feminino na imprensa portuguesa”.

Vários autores têm salientado o contributo da participação política feminina para a própria corporização do ideal de democracia e para a concretização da gramática da igualdade e da diversidade que aquele ideal comporta, não obstante os obstáculos que as mulheres vêm enfrentando para aceder aos cargos políticos e terem “voz” nos media (cfr. Ballington, Karam 2005; Sawer, Marian et al. 2006; Paxton, Hughes 2007; Norris, Inglehart 2001). Por outro lado, um vasto corpo bibliográfico, desenvolvido a partir das obras inaugurais de Gaye Tuchman, Arlene Kaplan Daniels e James Benet, nos anos 70, aponta o papel decisivo dos media na moldagem das percepções públicas, da agenda política e da vida pública em geral, e a tomada progressiva de consciência pela mulheres de que muito do poder social e político se jogava na representação. Rapidamente se estabeleceram nexos entre os discursos de media, veículos privilegiados das representações públicas, e a construção das identidades sociais de género.

Os conceitos-chave que emergem do cruzamento entre as duas pesquisas acima referidas são os de “liderança política” e de “visibilidade mediática”, propondo-se, à luz deste enquadramento teórico-conceptual, realizar uma análise discursiva da cobertura jornalística do V Governo Constitucional e da sua “primeiro-ministro”, Maria de Lourdes Pintasilgo, nos jornais Expresso e Diário de Notícias, entre Julho de 1979 e Janeiro de 1980.

Os indicadores de participação feminina ao nível das instituições políticas são relativamente modestos em Portugal no período da I Legislatura (1976-1980) e do V Governo Constitucional (1979-1980), podendo qualificar-se o campo político como um “clube masculino”. Apenas o Partido Comunista quebrava uma lógica de secundarização das mulheres no recrutamento para as listas eleitorais e as posições elegíveis. Por outro lado, o jornalismo político constituía uma área especializada dominada essencialmente por homens jornalistas.

Trata-se de um momento excepcionalmente interessante para observar como aqueles dois jornais reflectiram a indigitação de uma mulher para a liderança do Governo, e o seu desempenho nesse cargo, num quadro em que era tangível a oposição entre política e o papel social das mulheres.

Os jornais analisados exploram uma perspectiva de género no enquadramento da designação de Pintasilgo para o cargo mais elevado do poder executivo e a ela associam uma agenda de género. Por outro lado, nomeiam Pintasilgo em termos masculinos – ela é “primeiro-ministro”, antigo “ministro”, “secretária de Estado”, “embaixador” –, revelando uma matriz ideológica que exclui as mulheres do político.

Os traços de liderança política que nos jornais analisados descrevem a chefe do Governo aproximam-na do estereótipo de uma líder feminina (Sreberny, van Zoonen, 2000; Paxton, Hughes, 2007; Eagly, Johnson, 1990; Wahl-Jorgensen, 2000; Ross, Sreberny, 2000). Porém, a conclusão mais surpreendente que resulta da análise empírica aponta para o facto de Maria de Lourdes Pintasilgo ter promovido uma apresentação de si exactamente como líder feminina, e não como procurando assemelhar-se a “um dos rapazes”. A estratégia de comunicação de mediática de Pintasilgo passa pela construção da sua identidade como mulher política, o que lhe confere um carácter pioneiro e tem como último objectivo o empowerment das mulheres na política e no jornalismo.

 


Mesa 2

Sala a designar 2

Moderador: Jorge Pedro Sousa (UFP e CIMJ)

Comunicações:

1. Maria João Silveirinha e Isabel Nobre Vargues (Universidade de Coimbra): Tão longe e tão perto: as mulheres no jornalismo português e americano na viragem para o século XX

Resumo

A viragem para o século XX é, tanto na Europa como nos Estados Unidos, um momento decisivo no contexto da evolução da profissão jornalística e no jornalismo propriamente dito – em termos do seu discurso, das suas estruturas organizacionais, na conquista de um lugar proeminente como elemento das novas sociedades e da sua afirmação perante o público. Ao mesmo tempo, este período é também importante na reconfiguração do tecido social, na afirmação de novos direitos políticos e na exigência de maior igualdade entre mulheres e homens.

Sabemos, no entanto, que são grandes as variações locais entre estas problemáticas – não apenas dentro da Europa, mas também entre a Europa e os Estados Unidos. Comparando o jornalismo francês e o anglo-americano na sua época de afirmação, Chalaby, por exemplo, defende que o jornalismo é uma “invenção anglo-americana”, tendo americanos e britânicos jornalistas americanos e britânicos inventado uma concepção moderna de notícia que perdura até hoje. Também em termos sociais, as diferenças não são negligenciáveis: a luta das mulheres pela igualdade, por exemplo, afirmou-se com apreciáveis variações em termos de aprofundamento, de activismo e de ganhos perante as sociedades americana e europeia em que as mulheres se inseriram.

O cruzamento da análise da afirmação do jornalismo como profissão e com o da entrada das primeiras mulheres nesta mesma profissão permite-nos conhecer as experiências que marcam as raízes das mudanças e continuidades históricas entre dois países separados pelo Atlântico – Portugal e os Estados Unidos - não apenas na afirmação das históricas diferenças e semelhanças de uma profissão emergente como destas mesmas diferenças e semelhanças no contexto vivido das desigualdades entre mulheres e homens em ambos os países.

Assim, no nosso texto, revisitaremos algumas das principais personagens femininas do jornalismo americano e português de final do século XIX e início do século XX, associando a essa revisitação um maior conhecimento do jornalismo e das condições históricas sociais e políticas dos dois países, numa perspectiva de género. Deste modo, procuraremos traçar, num quadro de grande afastamento geográfico, os percursos de mulheres que se afirmaram no jornalismo, não para neles encontrar as respostas definitivas sobre o que foram as bases do jornalismo americano face ao português, mas para procurar as experiências, os caminhos, as mudanças e as continuidades numa experiência vivida do lugar das mulheres no jornalismo, no contexto das transformações deste, em ambos os países.

 

2. Fernanda Lima Lopes (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Liliana Pacheco (ISCTE/CIES-IUL):Os jornalistas enquanto objecto de estudo – Uma perspectiva brasileira e portuguesa

Resumo

Partindo do cruzamento entre duas investigações sobre a identidade do jornalista - uma com cariz mais sociológico, realizada em Portugal por uma equipa do CIES-ISCTE/IUL, e outra sobre a realidade da profissão no Brasil, integrada num doutoramento da UFRJ -  procurou-se identificar-se neste artigo pontos de convergência e de dispersão entre a profissão de jornalista em Portugal e no Brasil. Foram tidos em conta aspectos como a questão identitária, as referências dentro do grupo,  a evolução do número de jornalistas ao longo do tempo em cada um dos países, a importância da formação superior enquanto veículo de acesso à profissão, a sindicalização, a obrigatoriedade ou não do diploma, etc…
Embora na pesquisa portuguesa exista um maior detalhe nos dados estatísticos – já que o universo é bem menor também, conclui-se que uma análise parecida seria oportuna no Brasil, tendo em conta os constrangimentos existentes e a dimensão do universo. Neste artigo, trabalham-se dados do universo jornalístico brasileiro, apresentando estatisticamente algumas análises possíveis. Também se concretizam determinadas comparações entre a realidade portuguesa e brasileira.
Simultaneamente, pretende-se refletir sobre desafios e possibilidades com que a comunidade académica e os jornalistas no Brasil se deparam para conhecer a realidade social da profissão, uma dimensão fundamental a ser estudada pelos que pesquisam a identidade do jornalista.

Vivemos um momento de acelarada transformação do mundo e do jornalismo, mas isso só vem reforçar a grande importância de perceber quem são estas pessoas e quais as dinâmicas de um grupo tão decisivo na construção da opinião pública.

 

3. Carlos Camponez (Universidade de Coimbra): Contributos para uma história da auto-regulação dos jornalistas portugueses

Resumo

É comum dizer-se que os jornalistas portugueses não têm uma verdadeira tradição de autorregulação (Maia, 2007) ou que os seus ímpetos autorregulatórios só se verificam episodicamente, em momentos em que veem a sua atuação fortemente questionada pela opinião pública e os seus direitos ameaçados pela intervenção do Estado (Serrano, 2007).

O presente estudo tem por base a investigação realizada pelo autor na sua tese de doutoramento com o título Fundamentos da Deontologia do Jornalismo – A autorregulação frustrada dos jornalistas portugueses (1974-2007). Propomo-nos dar uma panorâmica geral da autorregulação dos jornalistas portugueses, analisando o seu processo de estruturação, a partir do Sindicato Nacional dos Jornalistas, em 1933 –  organização que representará, até meados dos anos 90, a grande maioria dos profissionais –, até aos nossos dias.

Deste modo, distinguir-se-ão os períodos:

1. De 1933 a 1960, altura em que os princípios éticos do jornalismo se confundem com uma moral mais consentânea com a definição de um gentleman do que de um profissional;

2. De 1960 a 1974, uma fase marcada por uma maior consciência dos desafios éticos do jornalismo e pela tentativa de o Sindicato Nacional de Jornalistas assumir os destinos da sua autorregulação, num contexto de censura e controlo político da informação, dos media e dos jornalistas;

3. De 1974 a 1990, um período em que, quer o Estado quer os jornalistas assumem a iniciativa de lançar as bases da autorregulação, em torno do Conselho de Imprensa e do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas;

4. De 1990 a 2010, talvez as duas décadas mais paradoxais da história da autorregulação, marcadas pela liberalização do setor dos media, pela intenção do Estado de se desvincular das questões ético-profissionais, devolvendo-as à denominada sociedade civil, pela erosão da representatividade do Sindicato dos Jornalistas, e pela emergência de novos mecanismos reguladores do jornalismo, como a Entidade Reguladora da Comunicação Social e a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.

Os princípios teóricos que enquadram o presente artigo têm por base a relevância dos princípios éticos e deontológicos na estruturação do jornalismo como profissão (Delporte, 1999; Feyel, 2003), tendo sobretudo em conta as dificuldades de assentar legitimidade pública dos jornalistas num conhecimento científico e especializado (Lambeth, 1992; Merrill, 1974; Ruellan, 1993 e 1997; Traquina, 2007). Estas questões assumem uma particular relevância numa fase de mutações profundas dos media e do jornalismo, no contexto dos processos de desprofissionalização impostos pelo Novo Capitalismo (Sennett, 2006; Rifikin, 1996).

 

4. Jorge Pedro Sousa e Nair Silva (Universidade Fernando Pessoa e CIMJ): A contribuição dos jornalistas portuenses para a produção do Pensamento Jornalístico Português através da Gazeta Literária (1952-1971)

Resumo

Nos anos 50 e 60 do século XX, o jornalismo português atravessou um período de modernização das empresas, de rejuvenescimento e profissionalização de quadros e de mudança nos padrões de recrutamento, sendo notória uma melhoria do nível de escolaridade dos jornalistas (CABRERA, 2006; CORREIA E BAPTISTA, 2007; 2010; SOBREIRA, 2003; 2010).

O processo não foi fácil. As empresas jornalísticas eram débeis, a liberdade de imprensa era constrangida e os próprios jornalistas estavam divididos em questões como a liberdade de imprensa; a possibilidade – e eventual necessidade – de se aceder ao exercício do jornalismo através da frequência de um curso específico; ou a definição identitária do jornalismo (CABRERA, 2006; SOUSA, coord. et al., 2010, CORREIA E BAPTISTA, 2007; 2010; SOBREIRA, 2003; 2010).

Ao publicar-se entre 1952 e 1971, a Gazeta Literária, jornal da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, constitui um objecto de estudo relevante para se compreender o pensamento dos jornalistas portugueses dessa época.

Este trabalho teve, assim, por objecto o discurso metajornalístico da Gazeta Literária, entendido como discurso auto-referencial sobre o jornalismo feito por jornalistas. O seu objectivo foi, através de uma análise quantitativa e qualitativa, apreciar o discurso da Gazeta Literária. Prestou-se particular atenção ao enquadramento discursivo dado ao jornalismo e à actividade jornalística (“verdadeiramente”, quem é e o que faz um jornalista?), recuperando o papel da citada publicação na construção das bases do Pensamento Jornalístico Português. Testou-se a hipótese de que os jornalistas portuenses, através da Gazeta Literária, participaram na construção do Pensamento Jornalístico Português, discutindo os temas que Sousa (coord.) et al. (2010) afirmam terem sido os mais relevantes da teorização portuguesa do jornalismo anterior a 1974: conceptualização do jornalismo e da profissão de jornalista; liberdade de imprensa; ensino do jornalismo; história do jornalismo e dos jornalistas (tema importante para a definição da identidade profissional).

Concluiu-se pela aceitação da hipótese colocada – a consonância do discurso da Gazeta Literária com os temas do Pensamento Jornalístico Português até 1974, inventariados por Sousa, coord., et al. (2010). Os jornalistas portuenses dos anos 50 e 60 do século passado procurariam, efectivamente, um sustentáculo teórico e referentes identitários para a sua actividade, cada vez mais complexa e profissionalizada. Às vezes, divergiam no entendimento do jornalismo. De um lado, os herdeiros da tradição retórica e literária do período do periodismo doutrinário, que viam os seus referentes identitários cada vez mais ameaçados pelo triunfo do jornalismo industrial, e que defendiam a proximidade entre jornalismo e literatura e entre jornalismo e história. Para estes, o jornalista impor-se-ia quer pela sua capacidade retórica e literária, pelo que, assim, não necessitaria de aprendizagem específica do jornalismo, quer pela sua cultura geral, auto-adquirida. Do outro lado, os que encaram o jornalismo como uma profissão técnica – ainda que não como profissão liberal – que pode e deve ser ensinada e aprendida e que, sendo aparentada com a literatura ou até com a história, não se pode confundir com elas.

Os jornalistas portugueses tenderam, por outro lado, a defender a liberdade de imprensa e uma consequente ética jornalística assente no princípio da máxima responsabilidade para a máxima liberdade, que preconizava, também, a recusa do sensacionalismo e da mercantilização da imprensa provocados pela industrialização capitalista da comunicação social.

 

5. Patrícia Teixeira e Liliana Machado (Universidade Fernando Pessoa e CIMJ): A “luta” pela instituição do ensino do jornalismo em Portugal nas páginas das publicações do Sindicato Nacional dos Jornalistas (Boletim, 1941-1945, e Jornalismo, 1967-1971)

Resumo

O ensino do jornalismo em Portugal é recente, apesar de as tentativas para instaurar um curso superior para jornalistas serem antigas (CASCAIS, 2004; GRAÇA, 2007; SOUSA, 2008a; PINTO, 2008). No entanto, as opiniões sobre a sua pertinência sempre foram contraditórias, colocando, de um lado, aqueles que consideravam a formação superior essencial; doutro, os que viam nas redacções e no trabalho prático lá realizado a melhor forma de um jornalista se formar; e noutro, ainda, os que consideravam as capacidades do jornalista como inatas, passíveis, no entanto, se serem melhoradas na escola regular, pela prática jornalística e pela auto-aprendizagem. (CORREIA, 1998b; CUNHA, 1941; FREIRE, 1936; PINTO e SOUSA, 1999; QUADROS, 1949; ROCHA, 1949; ROCHA e SOUSA, 2008b; SOBREIRA, 2003)

Em Boletim (1941-1945) e em Jornalismo (1967-1971), as duas publicações do Sindicato Nacional dos Jornalistas (SNJ), foi possível assistir-se ao debate que alguns jornalistas portugueses travaram para ficarem mais perto de atingir aquela que era uma das ambições de uma parte da classe.

Assim, estas duas publicações constituem um objecto de estudo relevante e pertinente para se compreender como, em Portugal, parte da classe jornalística procurou instituir o ensino do jornalismo.

Este trabalho teve, então, por objecto o discurso metajornalístico de Boletim e Jornalismo, entendido como discurso auto-referencial sobre o jornalismo feito por jornalistas.

O seu objectivo foi, através de uma análise qualitativa, apreciar o discurso dos periódicos sindicais Boletim do Sindicato Nacional do Jornalismo e Jornalismo, prestando-se particular atenção ao enquadramento discursivo dado à questão do ensino do jornalismo.

Concluiu-se que os jornalistas portugueses que, de alguma forma, estavam ligados às publicações do SNJ, procuraram, efectivamente, instituir cursos de formação jornalística e/ou cursos superiores de jornalismo para a classe (importantes para afirmar o jornalismo como arte liberal que reúne um conjunto de conhecimentos e competências específicas passíveis de serem ensinadas e aprendidas), pese embora algumas vozes discordantes que ainda se faziam ouvir, recusando a ideia de que o jornalismo podia ser ensinado e/ou aprendido.

 

6. Renato Mendes (FCSH-UNL e CIMJ): A primeira licenciatura em Comunicação Social em Portugal (FCSH-UNL, 1979) - contributo para uma reflexão acerca do ensino do jornalismo

Resumo

A comunicação será escrita com base nos resultados apresentados na tese de mestrado, desenvolvida no âmbito do curso de Ciências da Comunicação – Estudo dos Media e Jornalismo, da FCSH-UNL. A comunicação terá como objectivo apresentar factos inéditos, que resultaram de um levantamento histórico pioneiro, sobre as tensões do campo jornalístico em torno da criação da primeira Licenciatura em Comunicação Social de Portugal, em 1979. O estudo baseia-se numa linha de investigação empírica. Utiliza entrevistas e fontes documentais sobre o ensino do jornalismo. Procura construir uma perspectiva histórica, com o objectivo de proporcionar um enquadramento sobre o objecto do estudo. As tensões em torno da criação da Licenciatura em Comunicação Social emergem de três esferas distintas: a sindical, a académica e a governamental. Entrevistas em profundidade foram conduzidas com os intervenientes que no passado pertenceram, ou ainda pertencem, a uma destas três esferas. As informações que surgem dos discursos foram utilizadas no sentido de contribuírem para a reconstrução do episódio histórico. Fontes documentais primárias, algumas inéditas, de arquivos diversos, além de contribuírem para essa reconstrução, tiveram um papel central na confirmação dos discursos e sua contextualização histórica. As perguntas originais que orientaram o trabalho foram: Tendo em conta a necessidade histórica dos jornalistas em alcançarem um maior grau de profissionalização e afirmação identitária, o que ocorreu no campo jornalístico, quando a primeira Licenciatura em Comunicação Social foi lançada em Portugal? Que tipo de tensões foram geradas em torno da Licenciatura, entre os jornalistas e os académicos que a instituíram e leccionaram?    A polémica fundamental e os seus desdobramentos a respeito do modelo de ensino do jornalismo mais adequado para a época, centrada na dicotomia entre a técnica e a teoria, operaram como elementos dinâmicos para a afirmação profissional. Segundo a abordagem interaccionista da teoria sociológica das profissões, subjacente ao processo de profissionalização, existem exigências de uma formação específica. Estas exigências são qualificadas como uma via para o processo de profissionalização, e não como um atributo a ser preenchido. “O aumento dos níveis de qualificação é fundamental nos conflitos de disputa de áreas de trabalho e respectivas ‘fronteiras’” (RUELLAN, 1997b apud FIDALGO, 2008:22). Subjacente às divergências ligadas ao ensino, estão temas relevantes que ajudam a contextualizar teoricamente as tensões: o processo de construção da profissão, e a afirmação da identidade profissional dos jornalistas e de um campo profissional autónomo. Os objectivos da comunicação são os seguintes: enquadrar o tema “ensino do jornalismo” numa perspectiva histórica, e descrever de forma sucinta as principais iniciativas em prol da criação de cursos e instituições que contribuíram ou poderiam ter contribuído para a institucionalização do ensino do jornalismo em Portugal; contextualizar a Licenciatura em Comunicação Social e por em perspectiva, as posições de académicos e jornalistas sobre o tema em questão; enumerar e analisar os eventos que precipitaram a aproximação entre jornalistas e académicos, os condicionalismos a que os profissionais estavam submetidos, as reacções e cedências que permearam a relação entre os agentes envolvidos e uma análise crítica sobre um evento central; descrever os elementos de tensão gerados ao redor das propostas de ensino que estavam em causa, além de analisar, sob a óptica das teorias da sociologia das profissões, a polémica de 1979.

 

7. Célio José Losnak (Universidade Estadual Paulista): A atuação jornalística na formação de cidades em São Paulo

Resumo

Esta apresentação é resultado de uma pesquisa na área de História, pertencendo a um grupo interdisciplinar, tem financiamento pela FAPESP e dialoga com a produção da História da Imprensa e do Jornalismo no Brasil. Partindo de pressupostos teóricos com foco nas representações sociais como elementos constituintes da realidade histórica (CHARTIER, 1990; WILLIAMS, 1988) e da obra jornalística como produto em perspectiva “construcionista” (TRAQUINA; SOUZA, 2002; DARNTON, 1995) esta pesquisa em andamento identifica estreita relação entre redatores e sociedade com um papel importante dos jornais locais no processo de debate político sobre a existência das cidades e seus problemas, apresentando-se como um interlocutor atuante no espaço público, ainda que sintonizado à perspectiva das elites (WALLACE, 2005). As notícias e textos dos jornais pesquisados pretendem informar sobre os acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais. A seleção dessas notícias indica critérios relativos ao universo dos redatores e leitores de cidades surgidas a partir do final do século XIX e início do XX em São Paulo, tais como: formação e transformação urbana; políticas da administração da cidade; sociabilidade, lazer, comportamento, estilo de vida e civilidade urbana; economia do município; os segmentos pobres e aqueles considerados perigosos; questões médicas e sanitárias; identidades da cidade; inserção em dinâmicas históricas mais amplas (regional, estadual, nacional); relação entre campo e cidade; o papel do jornalismo no seu tempo. O período tratado é o de formação da profissão jornalística no Brasil, e é possível identificar aproximações e distanciamentos em relação aos grandes periódicos da capital do estado; parte significativa dos redatores realizava outras atividades letradas paralelas e vinculava-se a grupos políticos (SHUDSON, 1978). Para esta análise, serão considerados periódicos produzidos, entre 1906 e 1940, em três cidades (Bauru, Lins e Penápolis) situadas à beira da linha da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.    

 

 

 

 

Mesa 3

Sala a designar 3

Moderador: Helena Lima (Universidade do Porto e CIMJ)

Comunicações:

1. Heloisa de Faria Cruz (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e Laura Antunes Maciel (Universidade Federal Fluminense): História da imprensa no Brasil: Entre marcos de memória e referências metodológicas

Resumo

As questões sobre as origens da imprensa e seu desenvolvimento e conformação na sociedade brasileira foram temas de destaque nas comemorações do Centenário e do Bicentenário da Imprensa no país, celebrados respectivamente, em 1908 e 2008. Com base em pesquisa sobre essas duas efemérides nacionais, nessa comunicação analisamos maneiras, espaços, personagens e o intenso investimento em rememorações e comemorações promovido naquelas ocasiões discutindo suas projeções na memória social e nos estudos sobre a história da Imprensa no Brasil. Problematizando os marcos de memória que ajudaram a instituir, apontamos invisibilidades e consensos que produziram na história da imprensa e no interior de instituições de preservação da memória nacional. Neste caminho exploramos algumas questões em torno da constituição de acervos e hemerotecas e de obras de referência para o estudo da imprensa.

Também apresentamos algumas questões sobre as pesquisas que desenvolvemos sobre imprensa e impressos populares em circulação nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, entre o século XIX e o século XX, nas quais procuramos investigar a relação entre o movimento mais amplo de expansão e massificação da imprensa e a intensa militância para criação de periódicos dissidentes e críticos e a constituição de novos espaços sociais de embate pela palavra e por meio da palavra impressa, que apontam para a constituição da imprensa como esfera significativa da luta social. Nesse sentido, nossas indagações deslocam-se da preocupação em evidenciar um tipo ou gênero particular de jornalismo – inventariando seus temas, linguagens ou formas narrativas –, e encaminham-se para a busca das razões pelas quais grupos diversos investiram na imprensa como instrumento privilegiado de sua ação social naquela conjuntura histórica, constituindo espaços alternativos e/ou dissidentes, reconhecendo-os como instrumentos de afirmação na luta política e na histórica.


2. Eurico José Gomes Dias (CEPESE, Centro de Estudos de População, Economia e Sociedade da Universidade do Porto): O impacto informativo e propagandístico do Mercurio Portuguez [1663-1667] no contexto da Guerra da Restauração

Resumo

Quinze anos após o estiolar do primeiro periódico português correntemente conhecido como a Gazeta da Restauração [ou o seu conjunto editorial, 1641-1648] surgiu, na mesma linha de expressão, o famoso Mercurio Portuguez [1663-1667], folha noticiosa dedicada à causa da Restauração, e cujos escritos em prol dessa demanda formam o seu manancial informativo.

Tendo sido o segundo periódico nacional a cumprir com os requisitos funcionais do Jornalismo moderno, o Mercurio Portuguez foi dirigido, entre outros directores e colaboradores, por D. António de Sousa de Macedo, Secretário de Estado de D. Afonso VI, terceira figura de Estado a seguir a D. Luís de Vasconcelos e Sousa, o Secretário da Puridade daquele monarca. Face à escala bélica entre as duas nações, este periódico teve um papel de elevada importância na estratégia informativa e de contrapropaganda e que importa rever e compreender.

Dado que D. António de Sousa de Macedo era profundamente conhecedor das problemáticas da sua actualidade, o Mercurio Portuguez recorreu a conhecimentos históricos directamente relacionados com a História de Portugal, optando por fazer quase inexistentes referências ao conjunto da História europeia. Opção eivada de patriotismo, como se poderá calcular. Importava dar a conhecer ao leitor interessado um retrato e a constatação de uma autoridade régia quase absoluta, ainda que mesclada numa praxis centralista, abusiva por vezes, para se legitimarem as iniciativas e os acontecimentos sucedidos no quotidiano do Mercurio Portuguez.

Além de ser um órgão periódico, o Mercurio Portuguez foi, na sua essência, um ‘tributo’ ao Soldado português, esse elemento anónimo que constituiu o suporte cimeiro da portugalidade. Glorificou-se a Guerra, mas aquela guerra por Portugal e pela Nação, oferecendo ao velho e torpe país a fama da Vitória – cumpria-se assim Portugal e, por esse tempo, foi o Mercurio Portuguez o seu mais incontestado Arauto.


 

3. Inês da Conceição do Carmo Borges (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra): A Actividade “jornalística” de António de Brito Freire num códice Setecentista da Biblioteca Nacional: Jornais de viagens realizadas entre a Índia e a costa oriental africana, e regresso a Lisboa, com passagem pela Baía (Brasil)

Resumo

Esta comunicação tem como intenção reflectir sobre o corpus textual de Antonio de Brito Freire na narrativa de viagem portuguesa setecentista de feição e génese “jornalística”. A viagem entre a Ásia (Índia), a África (costa oriental), a América (Baía/Brasil), e a Europa (regresso a Lisboa), é o tema do universo textual e estético-literário português do autor/cronista, e da sua elaboração imagética. A mundivivência, a visão do mundo, a prática de redacção, a panorâmica histórico-social-cultural, e o conhecimento pessoal deste, dá-nos um discurso, registo em significantes que podem ser contextualizados a um saber referencial, da génese da profissão / comunidade jornalística. É a sua própria criação discursiva que é convocada a sublinhar o estatuto de texto noticioso como linguagem “credencial” de imagens com conectividade ao texto jornalístico. Não podemos ver corroboradas as ilações retiráveis, à época na imprensa setecentista, dado que as não integravam: a verbalização da viagem só teria maior conectividade no texto jornalístico em trabalhos de reportagem posteriores em que a língua a indexicaliza.

O locutor viajante, Brito Freire, sujeito intratextual produz um registo iniciando com os termos “Jornal da Viagem, que hora vou fazer…”, onde convergem hipóteses de interpretação que são as de comentador, numa afinidade e proximidade com um conjunto de relatos subsequentes de travessias de África, e outros continentes. Porque optou por esta designação do corpus aqui delimitado para análise? “Jornal da viagem…”? Ter-lhe-á dado o sentido de diário, Diurnalis/Diurnãle do latim? Qual o significado que o termo tinha à época Setecentista? É esta escrita de viagem, o resultado de um acto que implica tê-la realizado efectivamente. Assim temos representado um enunciado discursivo em transitoriedade.

Podemos estabelecer uma correlação (numa área específica da Literatura Comparada), entre este escritor-viajante, e a contemporaneidade, das crónicas / reportagens de viagem em periódicos como a Grande Reportagem, na rubrica “Aventura e Viagem” e as do Expresso das quais resultaram obras como, “África Acima” (2007), ou “Nos Passos de Magalhães” (2008), do jornalista Gonçalo Cadilhe, assim como as do jornalista Tiago Salazar, “Viagens Sentimentais” (2007), “A Casa do Mundo” (2008), e “As Rotas de Sonho” (2010). Estes através da estrutura textual das suas crónicas marcam a acção em pontos de referências espaciais e temporais, focalizando fases progressivas da viagem. O mesmo pode estabelecer-se para as crónicas / “escritos de viagem contemporâneos” de José Manuel Barata-Feyo, as de Fernando Marques e de Alexandra Lucas Coelho ambos do Público, apesar de terem graus de valoração estética e comunicativa distintas. 

 A reportagem ou jornalismo de viagem é uma classificação do século XX, de que o texto de Clara Pinto Correia, “Alice no país dos Camelos”, publicada na Grande Reportagem, n.º 47 (Fev. /95), na rubrica “Viagem e Aventura” é também um exemplo.

 

4. Carla da Costa Vieira (FCSH-UNL): Animar a pátria, refutar Bonaparte. O Telegrafo Portuguez de Luís de Sequeira Oliva – um periódico patriótico em tempo de Invasões Francesas

Resumo

Nos primeiros anos do século XIX, a imprensa nacional entrou numa fase de mudança nos conteúdos impressos, nos géneros e na abordagem da informação transmitida. Por detrás, estava uma nova realidade política – a invasão do território nacional pelas tropas napoleónicas. A reacção às invasões francesas incutiu à imprensa portuguesa um pendor mais doutrinário e despoletou a emergência de escritos de cariz satírico e jocoso contra o invasor.

A historiografia não tem ignorado este facto. Vários autores como Georges Boisvert, Nuno Daupias d’Alcochete, António Pedro Vicente ou José Tengarrinha têm dedicado interessantes estudos à evolução da imprensa nacional no primeiro quartel do século XIX e ao papel que o texto impresso teve na construção de um ideário anti-napoleónico.

Luís de Sequeira Oliva e Sousa Cabral, jornalista e autor panfletário, foi um dos protagonistas desta viragem na imprensa nacional. 1º Tenente do corpo de engenheiros do exército, quando as tropas francesas entraram em Portugal pela primeira vez, Sequeira Oliva demitiu-se das suas funções militares para não ter de obedecer a uma autoridade estrangeira. Dedicou-se, então, à escrita. Em Novembro de 1808, saía o primeiro número de O Lagarde Portuguez ou gazeta para depois de jantar, um folheto satírico integralmente redigido por Sequeira Oliva. O título apenas se manteve durante oito números, tendo sido substituído, logo em Dezembro, por O Telegrafo Portuguez ou gazeta para depois de jantar. Até Junho de 1809, foram publicados 49 números, a um ritmo de dois por semana (passou a um a partir de Janeiro) e compartimentados em três secções: documentos, notícias e anúncios. Inicialmente, a sua essência era essencialmente satírica, de paródia à presença francesa na Península Ibérica, mas com o desenvolvimento da situação política e com a presença do próprio Sequeira Oliva no palco dos acontecimentos, combatendo ao lado dos resistentes portugueses, o Telegrafo tendeu a ganhar um carácter mais informativo. Então, a gazeta passou a ter mais um colaborador, Teodoro José Biancardi. O Telegrafo Portuguez tornara-se num veículo de informação dos patriotas, onde era exortada a defesa da independência portuguesa e o espírito combativo em prol da pátria.

Na presente comunicação iremos dissecar os conteúdos, a forma, a estrutura e o ideário d’O Telegrafo Portuguez. Através da análise dos 49 números da gazeta, estabeleceremos a sua linha evolutiva, comparando-a com o devir dos acontecimentos no cenário de batalha, com os avanços e recuos das tropas francesas em território português. Outro alvo do nosso estudo será o próprio autor, Luís de Sequeira Oliva – as motivações que o levaram a criar o periódico, a forma como o transformou num meio de comunicação dos princípios ideológicos que advogava, o uso da sátira e do humor como armas de ataque ao invasor francês e a tudo o que ele representava, ou seja, o imperialismo napoleónico, a Revolução.

Nos oito meses de existência, O Telegrafo Portuguez espelhou os anseios, os preconceitos e a necessidade de reacção de quem sentia próxima a ameaça à independência nacional e aos valores que eram então os mais caros ao povo português: Pátria, Coroa e Religião. Ao longo das suas páginas, emerge n’O Telegrafo Portuguez o espírito do tempo.

 

 

5. Arthur Barroso (Universidade Presidente Antônio Carlos e Universidade Fernando Pessoa): Correio Brasiliense: Até que ponto brasileiro?

Resumo

O objectivo deste artigo é levantar questões acerca do jornal Correio Brasiliense e a consideração que alguns pesquisadores fazem de tê-lo como o primeiro periódico brasileiro. Procura-se discutir quais os rumos tomados pelo jornalismo português da primeira emigração e a situação que levou à criação do Correio Brasiliense, comparando-o aos demais jornais editados em Londres. A análise, à luz dos eventos históricos que definiram a história de Portugal no século XIX, busca questionar os motivos que levaram o governo Fernando Henrique Cardoso redefinir a data do Dia da Imprensa no Brasil para 1 de Junho – início da circulação deste periódico – em lugar do 10 de Setembro e a vontade de transformar Hipólito José da Costa em um grande nome do jornalismo brasileiro. Ao fim deixa-se a pergunta: seria este mais um mito fundador do Brasil?

 

6. Péricles Pedrosa Lima (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): Duas faces do jornalismo português em um país dividido: Gazeta de Lisboa e Correio Braziliense (1808-1811)

Resumo

Esta comunicação tem por objectivo apresentar os periódicos Correio Braziliense e Gazeta de Lisboa que vieram a público entre 1808 e 1811. Em uma análise comparativa de suas edições, pretende-se demonstrar como o público em Portugal foi informado sobre a movimentação da Corte portuguesa fora do Reino, assim como as notícias sobre o cenário político e económico no Brasil. Procurar-se-á fazer uma comparação entre um periódico publicado no estrangeiro em língua portuguesa e livre de censura, com um outro submetido as “razões de estado” e publicado em Lisboa.

Entre 1807 e 1811 a ocupação das tropas napoleónicas gerou um período de instabilidade política, resistência e violência. A partida da corte, elemento essencial ao funcionamento da engrenagem do Antigo Regime, deixara Portugal numa situação inusitada. A decisão estratégica veio salvar a soberania portuguesa e a integridade de seu império, mas trouxe como consequência a duplicação do governo. O território ocupado foi transformado em campo de batalha para o exército francês e britânico. No Brasil o monarca realizou, entre outras coisas, a reconstrução dos espaços políticos da monarquia portuguesa. Por outro lado, e apesar da derrota do exército francês, o processo desencadeado pela invasão em Portugal acabaria por conduzir à difusão de uma nova ideologia liberal. O lisboeta Francisco Solano Lopes, doutor em medicina pela Universidade de Edimburgo e que veio para Portugal em 1800, assim comentava: “ A política, que nos séculos passados era ciência dos gabinetes e ocupação dos homens de Estado, se tem tornado nos nossos tempos o objecto da curiosidade de todos”. Portanto, tudo isso era o princípio do fim. As invasões, ao conduzir o país a uma profunda crise económica e financeira, tornando-o refém dos ingleses, iniciou uma convulsão que conduziu ao que designamos “crise do Antigo Regime”. No Reino o monarca havia deixado uma gestão, um governo de Regência que assumiu diversas formas, mas que se manteve até o retorno do monarca em 1821. No Brasil, como dito anteriormente, para agilizar o processo governativo foi necessário criar novos órgãos, muitos deles uma duplicação da estrutura política e institucional da monarquia.

Neste cenário transatlântico pouca influência terá tido a opinião pública. A população do país dividido, em sua maioria analfabeta, tomava conhecimento das notícias nas conversas de rua e nos cafés, onde por vezes os periódicos eram lidos em voz alta e em pequenos grupos. Enquanto isso, nos círculos políticos, os mesmos eram lidos regularmente e vendidos por assinaturas em Portugal e no Brasil. Até a chegada dos franceses o único periódico na capital era a Gazeta de Lisboa, mas a partir da invasão o jornalismo entrou em uma fase aberta com o surgimento de pasquins, panfletos e outras fontes noticiosas. Tal fato deve-se a uma liberdade proporcionada pelos poderes públicos incentivando a publicidade contra o invasor. A Gazeta de Lisboa, entretanto, não gozou desta liberdade, e como um órgão informativo do governo, esteve sob diferentes comandos. Nos meses iniciais da ocupação, os franceses apoderaram-se do periódico fazendo dele seu veículo de informação e de difusão de ideias. Entretanto, em Londres, o exilado José Hipólito da Costa produzia e divulgava o Correio Braziliense, considerado o precursor do jornalismo de emigração e que representava a liberdade de imprensa para a época.

 

7. José Augusto dos Santos Alves (FCSH-UNL): Para a memória do periodismo vintista: O Popular, Jornal Político, Literário e Comercial (1824-[1826])

Resumo

Iniciar esta comunicação com uma alusão à cultura portuguesa, que esquece o fenómeno do periodismo, como parente pobre, quando é, no século XIX, o viveiro mais rico de conhecimento dos povos, é uma necessidade impreterível. Há que recordar, revisitar, vitalizar esta memória para que não seja definitivamente rasurada. Deslembrado do passado, atraiçoando o presente, receando o futuro, Portugal cambaleia a cada passo, apesar das declarações esperançosas de alguns políticos, provavelmente para se iludirem a si próprios e a quem os escuta.

Revisitar a geração esquecida dos vintistas, os homens que emocionada e empolgadamente desejavam outro país, é uma urgência para se poder aquilatar o crédito que tiveram na produção de periódicos, que devem ser, obrigatoriamente, objecto de estudo.

É nesta perspectiva que trago à colação o periódico O Popular, jornal, politico, litterario e commercial. Londres: Impresso por L. Thompson, 1824-[1826], que se constitui, a meu ver, em manual do bom periodista, uma receita com todos os condimentos, na qual os meios indicam um objectivo superior: difundir as ideias.

Acabados de sair da “idade do ferro”, estes vintistas seguem, no quadro da produção periodística, o caminho traçado, com superior radicalidade, na defesa da imagética liberal, os seus princípios e valores. Os redactores sabem explorar as diferentes facetas da essencialidade no domínio da epistemologia, da política, da ética e da estética, um fenómeno inovador, que influenciou a maneira de governar.

No quadro da fusão conflitual, e produtiva, entre periódico e o “círculo de leitura” (leitor, auditor, espectador ou observador), os cidadãos, a quem o periódico se dirige, não constituem somente uma opinião pública, mais ou menos, insubmissa às operações de comunicação que lhe são dirigidas. Eles são igualmente os actores políticos que, de parte inteira, contribuem para a definição do interesse geral. É por isto que os cidadãos são, ao mesmo tempo, os destinatários e os autores da comunicação política, uma disposição que os redactores do periódico, aqui em apreço, não ignoram.

 

8. Heloisa de Faria Cruz (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo): Movimentos de popularização da Imprensa no Brasil: Revistas de São Paulo e os públicos urbanos - 1890/1920

Resumo

A expansão das revistas é uma das facetas da transformação da imprensa brasileira nas ultimas décadas do século XIX e décadas iniciais do século XX. O universo amplo e variado de publicações que buscam o formato de revista neste período articula –se aos novos sentidos e linguagens da vida urbana. Constituindo-se como gênero privilegiado de experimentação das novas formas de fazer imprensa, no espaço das revistas a cultura impressa passa a acolher novos grupos e personagens sociais que nelas assumem a identidade de editores, jornalistas, colaboradores, ilustradores, transformando socialmente o campo do jornalismo. Nessa comunicação, com base em pesquisa em um amplo conjunto de revistas culturais e de variedades que vieram a público na cidade de São Paulo/Brasil entre os anos 1890 e 1930, apresento reflexões sobre os processos de popularização da imprensa brasileira e suas articulações com o espaço do entretenimento, com as tensões e disputas sociais e com os novos sentidos do viver em cidade. Problematizando a noção da constituição do popular massivo como propõe Martin-Barbero, interessa refletir sobre os processos de renovação das linguagens e maneiras de contar na constituição de um estilo de fazer jornalismo que busca ampliar seu universo de leitores, expandindo-se para além dos espaços cultos das elites letradas. Interessa também, a partir da discussão mais detalhada de algumas destas publicações, analisar os sentidos históricos de diferentes projetos editoriais que ali se colocavam em disputa, pondo em evidência propostas dissidentes, ou de oposição aos modelos predominantes.

A intenção central é suscitar a discussão sobre a ampliação das pesquisas sobre a imprensa para além dos veículos mais estruturados e consolidados, propondo que os estudos tenham como foco também periódicos que se constituem de maneira mais intermitente e menos visíveis na vida social ou, ainda, que buscam afirmar um caráter de autonomia, de crítica ou que se constituam como veículo de vozes alternativas e/ou dissidentes, problematizando-os como indícios das muitas histórias e memórias da imprensa brasileira. Entende-se que ao ampliar possibilidades de dialogar com essa memória se investe na abertura de caminhos para avaliarmos trajetórias e perspectivas passadas, com vistas à construção de um futuro mais plural e democrático para a imprensa e o debate público no país.

 


Mesa 4

Sala a designar 4

Moderador: Carla Baptista (FCSH-UNL e CIMJ)

Comunicações:

1. Silvana Louzada (Universidade Federal Fluminense): A formação do fotojornalista e a modernização da imprensa brasileira

Resumo

O artigo examina a trajetória de um grupo de fotojornalistas que se destaca em meados do século XX, a chamada “época de ouro” do jornalismo brasileiro. A partir da década de 1940 o fotojornalismo ganha importância na revista ilustrada O Cruzeiro, que se tornaria célebre por suas fotorreportagens e pelas míticas duplas de fotógrafos e repórteres. Em 1951 surge o jornal Ultima Hora praticando um jornalismo popular de qualidade com destaque para a fotografia, além de valorizar o repórter-fotográfico com a publicação do crédito e salários acima do mercado. Ainda no final dessa década e nos anos 1960 têm lugar as chamadas “reformas do Jornal do Brasil” que transformam o tradicional periódico num veículo voltado para a classe média dialogando com o desejo nacional de modernização. A modernidade ansiada é materializada na construção de uma nova capital projetada nos parâmetros do moderno urbanismo, nas práticas e representações sociais, com destaque para o surgimento da Bossa Nova, assim como o Cinema Novo e em várias manifestações modernas nas artes e no teatro. O processo de modernização da imprensa reflete diretamente nos profissionais envolvidos e será decisivo para moldar um novo perfil do fotógrafo que passa a ocupar um novo papel nas redações, mudando significativamente o lugar de desvalorização profissional que antes ocupava.

A partir da memória desses indivíduos buscamos compreender como o campo do fotógrafo de imprensa se constituiu dentro do campo jornalístico e da sociedade. Através de entrevistas realizadas examinamos as trajetórias de vida, à luz da metodologia de Pierre Bourdieu e dos estudos sobre memória, visando entender como a linguagem fotojornalística, que se consolida naquele momento, colabora para a constituição da identidade do grupo e ajuda a criar os códigos deontológicos da profissão. De acordo com Bourdieu, as frações das classes sociais travam uma constante luta simbólica para impor a definição do mundo social que sirva aos seus interesses. A noção de campo representa o espaço social de dominação e de conflitos e cada campo goza de relativa autonomia sendo regido por regras próprias de organização e de hierarquia social.  É onde se avaliam as relações de forças e se desenrolam as estratégias de obtenção de poder. O campo da produção simbólica é um microcosmo da luta simbólica entre as classes, onde se trava uma luta pela “hierarquia dos princípios de hierarquização” no qual as frações dominantes buscam impor a legitimidade de sua dominação e a fração dominada busca valorizar o capital específico a que ela deve a sua posição. Segundo o autor a razão e a razão de ser de uma instituição não estão na vontade individual, nem mesmo na do grupo, mas no campo de forças antagonistas ou complementares gerados pelos interesses e o habitus de seus membros. É nesse campo, através da luta, que se define a realidade das instituições e seus efeitos sociais.

Os fotógrafos de imprensa brasileiros desse período experimentam uma inédita valorização profissional, ainda muito pouco examinada (LOUZADA, MAUAD, OLIVEIRA, PEREGRINO) e que viria a ser decisiva para a constituição do campo fotojornalístico e contribuiria decisivamente para a modernização da imprensa.

O presente artigo discute como, através da memória atualizada no presente, o grupo que se torna hegemônico, procura salvaguardar sua interpretação do passado do fotojornalismo brasileiro. Através da fala memorável desses fotógrafos procuramos entender os caminhos que fizeram desses fotojornalistas, na memória do grupo espraiada para além deles mesmos, uma “geração  de ouro”.

 

2. Ana Maria Maud (Universidade Federal Fluminense):O Olhar engajado – prática e autoria na experiência fotográfica contemporânea

Resumo

O trabalho analisa a construção da autoria na experiência fotográfica contemporânea, associadas às noções de trajetória, projeto e campo de possibilidades, na primeira fase do processo de internacionalização da cultura. Período, em linhas gerais definido entre as décadas de 1940-1980, no qual se delimitou o papel das mídias – imprensa, cinema, televisão, na elaboração do mundo capitalista, como comunidade imaginada. Os marcos temporais circunscrevem os processos propriamente fotográficos, tais como o predomínio da fotorreportagem na imprensa ilustrada, pelas mudanças estéticas no plano editorial das publicações ou ainda pela valorização da linguagem documental. Por outro lado, assiste-se, nesse momento, a ampliação das trocas capitalistas no mercado de indústria cultural, na produção de notícias como mercadoria, no engajamento da imagem fotográfica e o registro dos movimentos sociais, na participação da fotografia no campo da arte experimental e suas relações com a cultura pop.

O foco da pesquisa recai sobre a problemática dos usos e apropriações da imagem fotográfica pela imprensa e os debates suscitados pela discussão do crédito fotográfico; o processo de formação de agencias de fotografia e o seu papel na conformação de um olhar comprometido e engajado politicamente com os movimentos sociais contemporâneos. A metodologia adotada apoia-se na produção de fontes orais, com entrevistas na modalidade histórias de vida, com fotojornalistas que atuaram na imprensa brasileira entre os anos 1940-1980, bem como os aqueles associados ao movimento da agencias fotográficas, dos anos 1980. Paralelamente, se estuda a produção do fotojornalismo por meio da noção de fotos sínteses, imagens que agenciam a produção do sentido histórico e fundamentam a forma como as sociedades se projetam para a posteridade.

Dentre os objetivos propostos inclui-se a elaboração de um dicionário histórico biográfico sobre os fotógrafos que atuaram no Brasil no século XX; a elaboração de textos videográficos que possibilitem o cruzamento de palavras e imagens para a veiculação dos resultados da pesquisa e a consolidação, por meio da proposição de conceitos e estratégias de análise, do campo de estudos sobre história e imagem, no âmbito da história cultural.

 

3. Afonso Manuel Freitas Cortez-Pinto (FCSH-UNL): O Notícias Ilustrado – Uma Nova Forma de Jornalismo

Resumo

No fim da década de vinte, Leitão de Barros chega de uma viagem da Alemanha e dá início a uma nova publicação, O Noticias Ilustrado. Assumindo desde logo o cargo de director, apresenta-a desde logo como uma revista moderna que visava conferir, “à vida portuguesa a nota de civilização contemporânea e europeia que lhe falta”

Assente numa nova técnica, a rotogravura, já em prática no resto da Europa desde o inicio da década de 20, possibilitava a inclusão de fotografia e texto no mesmo cilindro. De mais fácil concepção, contrapondo aos habituais dois cilindros separados que restringiam a organização da página a horizontais e verticais, com ela estabelece-se uma nova concepção espacial que possibilitava arranjos gráficos inéditos. Passaria a revista, graças a estas técnicas tipográficas a conter toda uma série de elementos que podem hoje ser tidos como símbolos de modernidade: a grelha, a nova tipografia, a foto-reportagem e a fotomontagem.

Seguindo inicialmente a linha da anterior publicação que dirigia, o Domingo Ilustrado, Leitão de Barros no Notícias Ilustrado vai gradualmente arriscando, experimentando, tomando consciência das potencialidades que a nova máquina continha. Separava-se assim e imediatamente das restantes publicações de então, afirmando-se como se propôs: moderna, modernizadora e modernista. Um modernismo que de resto, os seus colaboradores iriam sublinhar. Fizeram parte da sua equipa, personalidades como António Ferro, Almada Negreiros e passaram pelas suas páginas autores como Stuart de Carvalhais, António Botto, Fernando Pessoa, José Gomes Ferreira, entre mais de uma centena de outros.

Mas foi pela consciência e trabalho da imagem que a revista se destacou e implantou no panorama editorial português.

Assim, aliando as possibilidades técnicas e conceptuais ao carácter jornalístico que pretendiam ter e, sobretudo, explorando o estatuto de veracidade e objectividade que a fotografia supostamente continha, Leitão de Barros e a sua equipa puseram em prática uma série de conceitos que se materializaram na fotoreportagem e na fotomontagem.

Através da combinação e sequência de imagens e da criação de diálogos entre a fotografia, grafismo e palavra a revista conseguiu ultrapassar o carácter meramente ilustrativo da fotografia que tinha até então, para lhe passar a ser conferido também um carácter narrativo. Era a imagem que a partir daí iria contar a notícias, dar conta das ocorrências, registar os factos.

Num país com uma elevada taxa de analfabetismo, a revista ilustrada tornar-se-ia imediatamente um meio de comunicação privilegiado, mudando toda uma forma de fazer jornalismo.

 

4. Paulo Roberto de Azevedo Maia (Universidade Federal Fluminense): O Abertura: A imprensa audiovisual no esforço da volta da democracia ao Brasil (1979-1980)

Resumo

O processo de abertura política iniciado em 1975  que deu fim ao regime civil-militar no Brasil, envolveu elementos diversos da sociedade como a Imprensa escrita e audiovisual. O programa Abertura, exibido pela Rede Tupi entre 1979 e 1980, teve importância no processo de abertura política no Brasil ao tratar, semanalmente, de assuntos variados relacionados ao fim da ditadura. A discussão política e cultural, afinada com a idéia de redemocratização, confrontava pensamentos progressistas e conservadores. O programa discutia a abertura no exato momento em que essa se processava e procurou desenvolver uma narrativa diferenciada ao propor uma reflexão jornalística audiovisual sobre a questão do fim do regime militar, onde a participação do cineasta Glauber Rocha se destacou como elemento de provocação da discussão da abertura política aliando imagens e narrativas. O programa Abertura pode ser visto como mais um exemplo da participação de jornalistas e intelectuais na luta democrática contra o regime autoritário brasileiro instaurado em 1964.

 

5. Eduardo Zilles Borba (Universidade Fernando Pessoa): Infografia de imprensa: do papel ao digital

Resumo

Este artigo é uma abordagem histórica à infografia de imprensa. Precisamente, é uma reflexão sobre a evolução técnica e tecnológica desta ferramenta na área do jornalismo. Desta forma, além de apresentar uma revisão bibliográfica em ordem temporal, pretende-se realizar uma análise qualitativa a três infográficos utilizados na imprensa em distintos períodos: protoinfográficos, infográficos lineares e infográficos multimédia (Teixeira, 2007; Rodrigues, 2009). O objectivo deste trabalho passa pela interpretação sobre as alterações/transformações da narrativa gráfica no jornalismo com base em recomendações de Cairo (2008), De Pablos (1999), Valero Sancho (2004), Zilles Borba (2008), Ribas (2004) e Gonçalves (2009).

Em suma, este cruzamento entre pensamentos literários e exploração a infográficos de distintos períodos históricos do jornalismo, da comunicação, da cultura e da sociedade, serve tanto de apoio à interpretação sobre o desenvolvimento das técnicas de produção por parte de designers e jornalistas gráficos, como serve de sustento para a compreensão do sentido de recepção da informação, especialmente por causa das constantes mudanças tecnológicas que buscam inovar, e por que não melhorar (?), a interação entre Homem e interface digital em plataformas cibernéticas (Levy, 1999; Negroponte, 1995; Kerckhove, 1995; Castells, 2001; Virilio, 1999).

Como resultado final, pode-se afirmar que a história da infografia na imprensa passa por distintas fases de maturação, com dois “booms” marcantes que estão intrinsecamente ligados a questões tecnológicas, como por exemplo: o alavancar do jornalismo e da computação gráfica nos anos 80, e, hoje, atingindo um estado da arte de carácter digital, portanto virtual: interativa, multimédia, hipertextual, ubíqua, global, etc. Atualmente, a infografia é uma narrativa apelativa cada vez mais presente em ciberjornais – com uma série de questões e características peculiares a ser exploradas, estudadas e testadas – que atende intencionalmente, ou não, as necessidades de leitura visual dos consumidores de informação, cada vez mais acelerados e com menos tempo para leitura de grandes reportagens descritivas e textuais por meio de plataformas telemáticas e de recursos antes inimagináveis no cenário físico (Schultz, 1999).

 

6. Ricardo Jorge de Lucena Lucas (Universidade Federal do Ceará): Primórdios da infografia na imprensa brasileira: o jornal Vida Fluminense e a Guerra do Paraguai

Resumo

O trabalho em questão é uma continuação de nossa tese de doutorado (defendida junto à Universidade Federal de Pernambuco em 2011) sobre o conceito de infografia jornalística. Este trabalho visa analisar alguns exemplos de um corpus de textos gráfico-visuais encontrados no periódico semanal brasileiro Vida Fluminense: folha joco-seria ilustrada, publicado no Rio de Janeiro (então capital federal) entre os anos de 1868 e 1875 e que tinha como proprietários uma sociedade formada pelo jornalista português Antonio Pedro Marques de Almeida, pelo jornalista brasileiro Augusto de Castro e pelo ilustrador italiano Ângelo Agostini. Esses exemplos de textos gráfico-visuais, a nosso ver, são relevantes no que se refere à história do jornalismo iconográfico praticado no Brasil. Com isso, não estamos querendo afirmar que esse material possa ser considerado como infográfico, uma vez que, na verdade, estamos diante de plantas topográficas e de reportagens ilustradas; porém, é possível encontrar, em alguns desses exemplos, elementos que nos permitem afirmar a importância do periódico na história da linguagem gráfico-visual como um todo na imprensa brasileira. Os nossos objetivos mais específicos são: mostrar a importância da linguagem gráfico-visual neste periódico em particular, dentro daquela época, e propor que ele seja considerado como um dos antecessores históricos do jornalismo brasileiro no que diz respeito à prática contemporânea da infografia jornalística; auxiliar na divulgação da história das práticas jornalísticas no Brasil, uma vez que as infografias ainda são um objeto de investigação bastante tímido em nosso país; apontar periódicos que possam, historicamente, se constituir em marcos importantes nessa discussão; e, finalmente, interessa-nos auxiliar na construção de uma “história brasileira da infografia”, tarefa tal que está em uma fase embrionária no Brasil (vide, por exemplo, Tattiana Teixeira). Chama a atenção em particular o material gráfico-visual (mapas, plantas topográficas) referente às batalhas que compuseram a Guerra do Paraguai (1864-1870); sob essa ótica, tal evento se alinha às ideias mais generalizadas (Jennifer George-Palilonis, 2006; Jose Luis Valero Sancho, 2001; Jose Manuel de Pablos, 1999; Susana Almeida Ribeiro, ano, por exemplo) de que essas formas gráfico-visuais de discurso jornalístico se acentuam em períodos de conflitos bélicos (como ocorreu, por exemplo, durante a Guerra do Golfo, 1991). Ao mesmo tempo, é possível verificar aspectos peculiares do habitus jornalístico no citado periódico, como, por exemplo, a necessidade de exaltar a “veracidade” do material gráfico-visual publicado, uma vez que o mesmo era, muitas vezes, resultado de informações repassadas às redações por oficiais do Exército brasileiro (o que contrasta visivelmente com a “invisibilidade” da Guerra do Golfo). Para tal empreitada, foi necessário definir um parâmetro metodológico que nos auxiliasse a definir as condições para que um dado texto gráfico-visual antigo e publicado na imprensa pudesse ser considerado infográfico; por um lado, tomamos livremente como base uma proposta feita por Tim Harrower (2002) de releitura e refeitura de uma página de jornal dos anos 1930; por outro, pesquisamos quais eram, na opinião dos estudiosos do assunto (Peter Sullivan, 1987; James Stovall, 1997, Gonzalo Peltzer, 1992; Alberto Cairo, 2008; Carlos Abreu Sojo, 2000, além dos autores acima citados), os mais antigos textos infográficos publicados na imprensa internacional e os aspectos pertinentes para uma comparação com o material de nosso corpus. A partir da inter-relação desses critérios, nos foi possível definir os textos gráfico-visual publicados em Vida Fluminense como estando potencialmente entre os primeiros antecedentes da infografia jornalística no Brasil.

 

7. Ricardo Augusto Orlando (Universidade Federal de Ouro Preto): Do jornal pós-internet ao pós-televisivo: comparação de características atuais dos jornais mineiros Estado de Minas, Hoje em Dia e O Tempo com modelos do diário pós-televisivo

Resumo

Este trabalho é parte de um estudo maior que busca mapear a configuração do jornal impresso no Brasil após o início da internet de acesso amplo (1995), a emergência da web como fonte de informação jornalística (por volta de 2001) e especialmente depois da fase que é chamada de web 2.0 (2005). A ideia do projeto é identificar, descrever e analisar as transformações pelas quais os diários passaram nos últimos anos, fazendo uma trajetória retrospectiva de comparação, de modo a observar essas mudanças ao longo do tempo. A proposta é seguir as transformações, tomadas principalmente nos momentos de grandes reformulações do jornal impresso, retrocedendo durante o século XX, que coincide, no Brasil, com a fase em que predomina o chamado jornal-empresa. Outro aspecto importante é que, embora a pesquisa procure identificar o jornal impresso e as suas condições de produção de modo global, um dos pontos de maior interesse são as alterações visuais: como o jornal foi concebido como produto em suas características gráfico-editoriais em fases importantes do século passado, tomando como ponto de partida e referência o seu atual estado. Para tanto, a pesquisa se concentra em três jornais da capital do estado de Minas Gerais: “Hoje em Dia”, “Estado de Minas” e “O Tempo”.

O trabalho que aqui se propõe traz os primeiros achados da pesquisa, que dizem respeito à atual configuração desses três jornais, levantados nos seus projetos gráfico-editoriais em circulação nos primeiros meses de 2011. Os três jornais foram motivo de um inventário de suas características editoriais transpostas em sua configuração global e mapeadas por meio de fichas de leitura inspiradas na análise de conteúdo: aspectos gerais do produto, conteúdo editorial, uso de imagens e características do design de imprensa. Esses dados, sistematizados, apresentam três jornais com traços bem distintos em termos de perfil editorial, de abordagem do público, uso de fotografia, projetos gráficos, enfim, de pensamento sobre o que é o produto jornal hoje. Em alguns momentos, mostram em sua linguagem influências do que seria uma configuração midiática pós-internet, mas em outros também se apresentam distantes de traços que poderiam ser aproximados da ideia de convergência (Jenkins).

Os dados levantados sobre os jornais, como também as análises, ainda preliminares, são assim trabalhados comparativamente em relação ao que era o pensamento sobre o que um jornal devia ser no momento em que o principal meio de concorrência com o impresso era a televisão. São separadas caraterísticas editoriais e de design de imprensa que modelam o jornal atual e colocadas em contraste com questões similares dos jornais das décadas de 1970 (final), 1980 e 1990 (início). Nesse sentido, o trabalho propõe uma comparação com o chamado diário pós-televisivo, isto é, com alguns modelos principais que marcaram o jornalismo impresso após a televisão ter se tornado um importante meio informativo, conforme as características elencadas por autores como Mário Garcia, Kevin Barnhurst, Margarita Ledo Andion, Jorge Pedro Sousa, Robert Lockwood e Rafael Souza Silva, entre outros. Em outros termos, esse trabalho faz o cotejamento entre os dados encontrados na pesquisa preliminar com os três jornais citados e preceitos de concepção de jornais antes da internet que estão presentes em análises críticas sobre os diários do período pós-televisão e pré-internet, especialmente fazendo uso de procedimentos inspirados na análise de discurso para abordar os manuais de jornalismo e design de notícias que indicam caminhos que os jornais deveriam seguir, características que deveriam ter, enfim, que produto eles deveriam ser. Nesses manuais, principalmente, estão diretrizes que apontam a concepção de jornal e problemas a serem enfrentados e rumos a seguir pelos diários.


8. Maria Luisa Sánchez Calero (Universidad Complutense de Madrid): Método, rigor y técnica en la construcción de la entrevista

Resumo

Los  cambios que está experimentando el periodismo y  la estructura y composición de sus nuevas  organizaciones empresariales y editoriales está contribuyendo a  la proliferación de nuevos modelos y formatos  en la profesión periodística estableciéndose a su vez  nuevos modelos de negocio con la proliferación de nuevos canales de comunicación que están originando un  enfoque y percepción diferente de  la información.

En esta nueva era informativa también los géneros  tienen que adaptarse y es precisamente  la entrevista entendida en el sentido más amplio del diálogo, uno de los géneros que busca su sitio porque no desea perder su protagonismo, su atractivo  y  presencia  en la rutina profesional del periodismo y  en los medios  de comunicación escritos, audiovisuales y en la red.  

Un género que según dice J. Luís Borges en su libro Diálogos   “hace unos quinientos años antes de la era cristina se dio en la Magna Grecia la mejor cosa que registra la historia universal: el descubrimiento del diálogo. Dudaron, persuadieron, cambiaron de opinión, aplazaron”. Pero la primera entrevista moderna tal como hoy la conocemos alude Rosa Montero que fue publicada el 20 de agosto de 1859 en el New York Tribune por el periodista Horace Greeley. En el presente, la entrevista surge en la propia redacción del medio cuando existe el encargo de entrevistar a alguien.  Normalmente la elección del entrevistado resulta ser una elección meditada, pensada y reflexionada, pero siempre atendiendo a unos criterios claves: que interese el entrevistado, que sea noticia o que aporte alguna novedad al tema  que se va a  tratar, y que se realice la entrevista siempre pensando en el interés del público que la va a leer o escuchar.

La entrevista se ha convertido  en un género privilegiado apreciada por el público  ya que se leen o se escuchan con gusto; cuando realmente tienen algo que contar los entrevistados. Por ello no es nada extraño que prolifere cada vez más en los medios de comunicación donde en ocasiones se crean espacios para su propio lucimiento. Incluso aparecen con frecuencia en el  caleidoscópico espacio de Internet.

Pero no siempre la entrevista ha gozado de tanto privilegio, reconocimiento y atracción por parte del público y de los medios que la insertan en sus diferentes espacios. Hoy la entrevista se considera un género periodístico independiente y se encuentra incluida dentro de la categoría de los géneros interpretativos, pero se reconocen en la actualidad distintas técnicas que llegan a concebir modelos diferentes en la edición de estas en las publicaciones impresas. En este sentido son muchos los autores-periodistas que se  encargan en los periódicos españoles de  tener su propio espacio semanal para publicarlas. Y en este capítulo hablaré de la importancia y significado de la técnica de  este género en el aspecto metodológico de su construcción.   Siguiendo a  autores como Montse Quesada afirma “que  cuando toma fuerza el periodismo interpretativo que sigue imperando en los medios actuales es también el momento en que la entrevista periodística, entendida hasta entonces como una simple modalidad del reportaje, comienza a ser reconocida como técnica profesional con normas y procedimientos propios. Incluso destaca la idea que existen algunas entrevistas como las de creación que son, según la autora, género especializado”.

Este es un debate abierto entre muchos estudiosos del tema y sobre todo cuando se analizan los géneros desde una perspectiva únicamente normativa imponiendo reglas estrictas de confección a cada género. Analicemos pues algunos de estos modelos donde podremos ver su estructura y composición.  



Mesa 5

Sala a designar 5

Moderador: Francisco Rui Cádima (FCSH-UNL)

Comunicações:

 

1. Francisco Karam e Vanessa Hauser (Universidade Federal de Santa Catarina): Jornalismo, retórica e dialética: elementos para uma aproximação

Resumo

Ao lado da retórica, a dialética ocupava um lugar de destaque na cultura greco-romana, sendo considerada uma forma de argumentação por meio do diálogo e do confronto de idéias. O termo dialética vem do grego dialektike, que significa discussão, segundo Marcondes e Japiassu (1990). Também conforme classificação de Chaim Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca (1996), existem três formas de argumentação, distintas em função dos tipos de auditório: o auditório universal, formado por toda a humanidade e ao qual dirige-se a argumentação retórica; o auditório que é constituído apenas pelo orador e um interlocutor, através do qual se dá a argumentação dialética; e, por fim, o auditório formado apenas por um sujeito, que argumenta para si mesmo sobre seus próprios atos, através da lógica.

Neste sentido e, considerando a contribuição de autores como Jorge Pedro Sousa (2008) e Francisco Karam (2009) que referem-se, respectivamente, aos fenômenos pré-jornalísticos (ou seja, anteriores ao surgimento do jornalismo enquanto um projeto moderno) e às influências da retórica greco-romana para a formação das técnicas de produção jornalísticas, o objetivo do presente artigo é estender essa reflexão, abarcando também a importância da dialética (de origem Greco-Romana) para o jornalismo e estabelecendo, portanto, outras pontes entre o jornalismo greco-romano e o contemporâneo. Parte-se da idéia de que as técnicas e métodos do jornalismo têm uma memória, uma história, conforme observa Sousa (2008), proveniente de tempos anteriores ao que se localiza na história como o surgimento do jornalismo enquanto produto do sistema capitalista.

Assim como a dialética não pode ser reduzida a uma forma de argumentação, já que atualmente se constitui em um dos paradigmas do pensamento ocidental, também pretendemos abarcar a sua dimensão epistemológica a partir do pensamento marxista e, conseqüentemente, refletir sobre como é possível pensar o jornalismo a partir deste referencial. Neste sentido, autores como Sylvia Moretzsohn (2007) trazem uma contribuição importante ao problematizar os conceitos de aparência e essência no jornalismo. Já que a atividade trabalha com o imediato, com o cotidiano, como é possível que transcenda a aparência e encontre a essência da realidade? Moretzsohn propõe, neste sentido, que a atividade exercite permanentemente o senso crítico, suspendendo as certezas e a naturalidade da prática jornalística, num movimento dialético.  

Também é objetivo do artigo refletir sobre qual destas duas instâncias da dialética prevalece no jornalismo, a argumentativa ou a epistemológica? Reflete-se, ainda, sobre as possíveis influências da dialética (de tipo argumentativa) no jornalismo online, marcado pela possibilidade de participação dos leitores através dos comentários que estes deixam nas notícias, estabelecendo, por vezes, um diálogo ou debate.

 

2. Mário Pinto (Universidade Fernando Pessoa): A escrita de António Rodrigues Sampaio n’O Espectro e n’A Revolução de Setembro, arquétipo de prosa tersa

Resumo

Análise formal e conteudística dos textos de António Rodrigues Sampaio n’ O Espectro e n’ A Revolução de Setembro, tendente a demonstrar o virtuosismo da sua escrita, enfocada a partir de três ângulos de abordagem: o fónico-gráfico, o morfo-sintáctico e o léxico-semântico, completada pelo da estilística. No âmbito do primeiro, equacionamos as dificuldades hodiernas de descodificação decorrentes da grafia das palavras à época (e a sua alteração ao longo dos últimos dois séculos); no segundo disseccionamos o magistral aproveitamento da plasticidade da linguagem através da criteriosa utilização do verbo (em que além das conjugações, modos, tempos e aspectos são exploradas as potencialidades do gerúndio) e da adjectivação; no terceiro, debruçamo-nos sobre a rigorosa selecção vocabular, em que o léxico estritamente jornalístico, que pontifica, aparece amiúde mesclado com o de cariz religioso e com o político; e, por fim, a completar estilística: multitude de recursos que vão das figuras de sintaxe aos tropos, passando pelas de pensamento usados com parcimónia e mestria.

 

3. Ana Teresa Peixinho (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra): Para a edição crítica de O Distrito de Évora de Eça de Queirós

Resumo

No âmbito da Edição Crítica da Obra de Eça de Queirós, encontramo-nos neste momento a trabalhar na edição do Distrito de Évora, tentando determinar um texto fidedigno e o mais próximo possível das intenções do então jovem escritor-jornalista. Um trabalho de edição desta natureza, no entanto, exige não só um conhecimento linguístico profundo do estilo do autor mas também e sobretudo do contexto de época. Equivale este facto a dizer-se que, para elaborarmos uma edição crítica deste jornal, temos necessariamente de proceder a um estudo aprofundado de aspetos da realidade política e social portuguesa e europeia da altura, temos de compreender o jornalismo como prática eminentemente social que, nesta década de 60 do século XIX, iniciava um lento processo de industrialização, temos igualmente de nos munir de um conjunto de instrumentos metodológicos, essencialmente pertencentes aos domínios científicos da História do Jornalismo e da Análise do Discurso. Será este o objetivo axial desta comunicação: integrar o Distrito de Évora na irrupção de publicações impressas do século XIX português, analisando-a em termos semióticos e conteudísticos. Este trabalho será, portanto,  a base concetual de onde partiremos para a fase de fixação e de trabalho do texto.

Antes de apresentar o seu programa editorial, num breve parágrafo no 1.º número, Eça promete um certo tipo de jornalismo combativo que, para além de traduzir as carências da região, lute pelos seus direitos e acuse os seus males. Situando-se, portanto, numa esfera regional circunscrita, o jornalista delimita claramente os objetivos do seu periódico a um domínio local, embora transcendendo a ótica meramente informativa: o Distrito de Évora será um jornal interventivo, ativo e de compromisso. Quer isto dizer que, no sentido de fidelizar um certo tipo de leitores, ao construir uma espécie de estatuto editorial do jornal, Eça promete apostar em conteúdos que interessem ao público: notícias sobre a sua região, luta pelos interesses locais, preservando sempre “o Direito, a Justiça, a Razão, o Princípio, a Consciência moral” (Distrito de Évora, nº1, 6 de janeiro de 1867, p.1), valores que presidem à conceção de jornalismo defendida pelo escritor nesta época.

O Distrito de Évora era um jornal político, com um posicionamento e objetivos bem definidos, que Eça de Queirós tentou cumprir escrupulosamente: funcionar como órgão de oposição ao governo, num momento em que o país vivia sob pressão e em crise social, financeira e política. O jovem jornalista assumiu, com perfeição e fulgor, o papel de opositor e conseguiu transformar as páginas do seu jornal, sobretudo as reservadas à política nacional, em autênticos panfletos de um combate inflamado.

Longe estamos ainda, como já referimos, do jornalismo imparcial e informativo que começava a caracterizar a nova fase da imprensa nacional: as páginas do Distrito de Évora são páginas de denúncia, de crítica acérrima, de combate político, de polémica. Um jornalismo ainda muito combativo, na senda da imprensa liberal, mas não enfeudado aos espartilhos dos partidos políticos. Eça não se poupou a esforços para desmascarar o estado da nação, denunciando todos os vícios governamentais, desde as simples questiúnculas de bastidores, até a problemas de fundo: a corrupção política, a falência das finanças públicas, a polémica criação do imposto de consumo, a decadência da qualidade de vida do povo, o despesismo inútil, a ‘política-espectáculo’, o enfeudamento da imprensa.

Esta atitude de empenhamento cívico, que não surpreende num jornal regional de oposição e é consentânea com a visão ideal e romântica do escritor sobre a imprensa, é traduzida no Distrito de Évora por um discurso suficientemente versátil e literário, por um estilo irónico e metafórico, afinal o garante da sua perenidade e a justificação para a sua integração no cânone queirosiano.

 

4. Cristina Nobre (Instituto Politécnico de Leiria): A construção da figura mediática de Afonso Lopes Vieira (1899-1946)

Resumo

As múltiplas entrevistas, sobre os livros do poeta Afonso Lopes Vieira ou os diversos eventos em que participou ou a que deu a sua colaboração, mostram como as palavras do escritor adquiriram uma importância capaz de as transformar numa “naturalização” dos acontecimentos, um “efeito do real” bem aceite pelo público leitor e, provavelmente, provocando uma expectativa positiva nos leitores, como a grande procura dos testemunhos do escritor permite pressupor.

A visibilidade desta figura literária alcança uma dimensão sócio-cultural que revela aspectos importantes sobre o poder da imprensa na constituição, glorificação e memorização para a posteridade do escritor, no cânone cultural de uma época. Trata-se da construção da figura mediática de Afonso Lopes Vieira.

Assim, podem encontrar-se três grandes fases: um 1.º ciclo, lento e demorado, embrionário, a que corresponde uma primeira e única reportagem de Albino Forjaz Sampaio, em 1907, subordinada ao tema “Como trabalham os nossos escritores”, coincidente com o primeiro sinal de fama reconhecido por uma obra literária jovem e emergente no panorama nacional; um 2.º ciclo, condensado, de apogeu e glória, com o maior número de entrevistas e reportagens (dez, no total), entre 1920 e 1932, coincidente com a fase do nacionalismo literário, correspondente à maturidade literária e à recepção valorativa do público pela construção de uma obra adulta; e um 3.º ciclo, inesperado e inovador, correspondente à fase final e provocatória do exílio voluntário e de ligação às novas artes como o cinema, com uma entrevista em 1931 e a última, dez anos depois, em 1942.

 

5. Liliana Mesquita Machado (Universidade Fernando Pessoa): Marcas de enunciação literária na reportagem política e político-social: os casos do Jornal de Notícias, O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro (1974/2004)

Resumo

Este trabalho teve por objectivo determinar, através de uma análise qualitativa do discurso, baseada na proposta de Sousa (2006), qual o rumo discursivo adoptado pelos três diários do Porto nas reportagens políticas e político-sociais, entre 1974 e 2004. Procurou-se dar resposta às seguintes questões: 1) Como evoluiu estilisticamente a reportagem política e político-social na imprensa do Porto, entre 1974 e 2004? 2) Quais as marcas e modalidades de enunciação literária presentes nessas reportagens, ao longo do tempo? 3) Quais as finalidades do recurso às técnicas de enunciação literária nas reportagens, em cada momento contextual? 3) Poderá falar-se de uma “escrita de sedução” nas reportagens jornalísticas de cariz político e político-social inseridas nos diários portuenses entre 1974 e 2004? 4) Poderão, em algum momento, as estratégias de enunciação literária na reportagem ter descaracterizado o discurso das mesmas enquanto discurso jornalístico? 5) Pôde, em algum momento, a tentativa de seduzir o leitor pela escrita subverter, de algum modo, a finalidade informativa das reportagens? A investigação atentou, predominantemente, em dois pontos: análise do estilo dos elementos estruturantes das reportagens (título, lead e corpo do texto); e análise do recurso a técnicas literárias de enunciação (figuras de estilo, adjectivação, adverbiação…). Concluiu-se que, nas reportagens estudadas, existe, sem grande variação ao longo do período de trinta anos em que o estudo incidiu, uma aproximação entre a enunciação jornalística e a enunciação literária, embora contida. Esta contenção enunciativa e estilística deve-se ao facto de a temática das reportagens que foram objecto de estudo ser de cariz político e político-social. Trata-se, efectivamente, de uma temática sensível e potencialmente polémica, que exige uma dose de seriedade e gravidade que nem todos os restantes temas exigem. Portanto, os textos são escritos com uma dose de criatividade temperada, que incita à curiosidade, mas que não é desregrada, quer para que os jornalistas possam exibir a sua imparcialidade quer, sobretudo, para não permitir duplos sentidos, que poderiam ser perigosos quando se trata de política.

 

6. Vera Lúcia Magalhães (Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto): A imprensa periódica em Viseu na segunda metade de Oitocentos

Resumo

Situar no tempo o arranque da imprensa periódica em Viseu apresenta-se como uma veleidade embaraçosa, na medida em que a perda sistemática de exemplares malogradamente conciliada com a parca edição de alguns títulos, cingida aos primeiros números e eclipsando-se logo em seguida, condicionam sobremaneira o descortino dessas raízes e, por conseguinte, entravam uma pesquisa eminentemente aprofundada e completa. Conquanto as contingências que se colocam, estudos pioneiros de Maximiano Aragão, seguidos de perto por António Xavier de Campos, baseados no testemunho do literato José Simões Dias, asseveram o ano de 1848 como data da introdução da imprensa periódica na cidade. Corroborando a informação veiculada, e na ausência de outras fontes que a refutem ou testifiquem, ensaiamos um estudo das publicações periódicas viseenses da 2.ª metade do século XIX, numa abordagem despretensiosamente plural: enquadramento tipológico, fixação de período editorial, elencagem de fundadores, directores e colaboradores, amostragem de tipografias, período de funcionamento, extinções e reactivações, patrocínios, entre outros elementos considerados pertinentes. O estudo mostrar-se-á revelador da confluência entre a natureza do periódico, afecto geralmente a uma elite local dominante com capital social, cultural e político, e as próprias ambivalências político-ideológicas da centúria, fazendo eco das cisões dentro do liberalismo, ramificado em progressista e regenerador, bem como do germinar de todo um ideário republicano. De entre o caudaloso universo de periódicos, relevamos, pela sua natureza ímpar, o Álbum Viziense, tematicamente vocacionado para a cultura literária e artística, assumindo-se como fonte incontornável em qualquer pesquisa sobre arquitectura religiosa e civil, ruas e logradouros, toponímia, história e etnografia locais. A sua singularidade reside também na rubrica biográfica de fecundo desenvolvimento, bebendo, assim, o espírito humanista das Luzes, que o século XIX explora e potencia.

 

7. Vicente Paulino (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): O jornalismo de expressão portuguesa em Timor

Resumo

Antes de os portugueses pisarem a ilha de Timor, os Timorenses já comunicavam entre si, quer através de palavras e gestos, quer através de canções e mensagens e através de símbolos. Usavam certos instrumentos feitos de chifre, tambores (baba) para facilitar a comunicação entre as comunidades (knuas), e formar os “guiri gon” (mensageiros) como emissores da informação. Outros meios de comunicação utilizados eram, por exemplo, a distribuição de sinais como colocar pedras, ramos de plantas ou de árvores ao longo do caminho; ou colocação de panos de cor.

As novas condições, criadas pela chegada dos portugueses a Timor, conduziram – quer portugueses quer timorenses – a uma adaptação à nova situação, abrindo-se dessa forma a possibilidade de cada um aproveitar conceitos e instrumentos que, viessem de onde viessem, enriqueciam, de uma forma nova e mais profunda, as sabedorias anteriores. Nota-se isso no aparecimento das primeiras publicações sobre Timor, em Macau. Propõe-se, portanto, uma contribuição teórica ao estudo das origens do jornalismo de expressão portuguesa em Timor para estabelecer um olhar sobre a presença portuguesa e as respectivas iniciativas na criação de alguns impressos jornalísticos nesta região asiática. Tentaremos apresentar quais foram os primeiros jornais diários criados em Timor, quais foram os primeiros impulsores jornalísticos, etc. O objectivo fundamental da comunicação é abordar a história do jornalismo em Timor que tem por base nos primeiros textos escritos sobre Timor em língua portuguesa. Contudo, importa afirmar que como foi introduzido periodismo em Timor? Quais as características dos jornais de expressão português em Timor? Quem foram os redactores e colaboradores dos primeiros jornais publicados em Timor? Sobre o que escreviam? Quais as suas fontes de informação?


8. Francisco Rui Cádima (FCSH-UNL e CIMJ): Reflexões sobre a problemática da censura no pós-25 de Abril

Resumo

Esta reflexão pretende, fundamentalmente, trabalhar dois objectivos: por um lado, sistematizar as principais análises feitas no pós 25 de Abril, sob um ponto de vista empírico, conceptual ou epistemológico, sobre a questão da censura - ou das novas formas de censura - ao longo da recente experiência democrática portuguesa; por outro lado, investigar que tipo de factos e casos foram emergindo nesse mesmo período que possam configurar situações de tipo censório, com evidente limitação da liberdade de expressão ou da liberdade editorial dos jornalistas e dos media.

Não há, por assim dizer, uma boa base bibliográfica como ponto de partida para esta reflexão. Refira-se, no entanto, o primeiro número da Revista de Comunicação e Linguagens, sob o tema "As Máquinas Censurantes Modernas", de 1985 (CECL-FCSH). E refira-se, também o trabalho pioneiro de J. M. Paquete de Oliveira, tese infelizmente não publicada, sob o título “Formas de ‘censura oculta’ na imprensa escrita em Portugal no pós-25 de Abril (1974-1987)", de 1988 (ISCTE). Alguns outros textos adquiriram entretanto uma importância assinalável, como procuraremos demonstrar na nossa comunicação, mas, de facto, o acervo é muito reduzido. O que não deixa de se estranhar. Mas também se compreende, dadas as características e impactos do tema.

É um tema complexo, muito sensível, mas cujo debate urge. Hoje, pode afirmar-se que essa "censura oculta", ou essas novas práticas censórias, não estando institucionalizadas numa perspectiva jurídico-política, metamorfosearam-se e adquiriram formas subtis e subliminares que, por regra, não são facilmente detectáveis, tendo emergido historicamente apenas um número reduzidos de casos. Procuraremos assim identificar algumas dessas disfunções específicas do sistema de media, de modo a contribuir para esse debate na agenda pública e mediática e também, claro, na própria academia. Simultaneamente, procuraremos actualizar um quadro epistemológico e empírico que faça sublinhar a necessidade de uma atenção e uma memória regular sobre este temática.





7 de Outubro de 2011

9h30 – 13 horas

 

 

Mesa 6

Sala a designar 1

Moderador: Francisco Rui Cádima (FCSH-UNL e CIMJ)

Comunicações:

1. Paulo Faustino (CIMJ) e Arons de Carvalho (FCSH-UNL): Mitos e realidades das políticas públicas para os media: Balanço e impactos dos apoios do Estado aos jornais regionais e rádios locais

Resumo

Este paper aborda as Politicas Públicas, Modelos  de Apoio e Impactos dos Incentivos atribuídos pelo Estado Português aos Media Regionais e Locais. Neste sentido,  são analisados, de uma forma transversal, aspectos críticos relacionados com os media regionais e locais, nomeadamente: impactos dos incentivos; utilidade dos incentivos; importância dos media regionais; modelos de apoios na Europa; pluralismo da informação; competitividade empresarial, entre outros. Em termos de metodologia, o trabalho apoia-se numa extensa revisão de literatura sobre as problemáticas das políticas públicas para o sector dos media, nomeadamente através dos incentivos directos e indirectos do Estado. As abordagens aqui apresentadas reflectem as realidades nacionais no contexto internacional, nomeadamente a identificação e tendências dos modelos europeus.  Como resultado das actividades de investigação documental e empírica, é possível  gerar informação, incluindo indicadores e outros elementos estatísticos, que possibilitam não só fazer um balanço critico dos impactos gerados por esses apoios, como também identificar alguns factores críticos de sucesso da aplicação desses apoios. Por fim, o trabalho apresenta recomendações para futuros incentivos do Estado em  função das mutações observadas na actividade jornalística regional e local e no comportamento do consumidor de informação.

 

2. Fernando Moura (FCSH-UNL e CIMJ): “A hora da saudade”: O primeiro contacto com a origem

Resumo

Nesta comunicação analisaremos a rádio como elo de ligação dos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo com a origem. Primeiro como meio de comunicação social, e mais tarde como fonte de união e reconhecimento da comunidade. Para isto, se desenvolverá a análise do programa «A Hora da Saudade», emitido na Emissora Nacional (EN) e que se transformou no primeiro elo de ligação entre a origem e a diáspora portuguesa espalhada pelo mundo. No seio da comunidade, analisaremos o que parece ter sido o primeiro de muitos programas de rádio produzidos pela comunidade.

“A hora da Saudade”, um dos programas mais significativos produzidos pela EN a partir de 1934, se transformou - como se tenta demonstrar na investigação de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa intitulada “A construção da identidade de uma comunidade imigrante portuguesa na Argentina (Escobar) e a comunicação social” – num ícone da rádio portuguesa na década de 1930 e um dos poucos programas realizados com real sentido diaspórico até hoje pelo Serviço Público de radiodifusão português.

Mediante este programa e algumas outras situações, o «Estado Novo» desenvolveu uma estratégia de territorialização das colónias e de expansão do conceito de Império português. Ideado pelo director da Emissora Nacional, Capitão Henrique Galvão, a emissão foi se espalhando a través da Onda Curta (OC) primeiro pelas colónias e mais tarde no resto do mundo chegando até a Argentina na década de 1940.

A comunicação tem relevância porque quase não existe bibliografia sobre o programa, sua cobertura e repercussões nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e porque, o pouco que está escrito, peca pela falta de certezas.

Sendo assim, parece imperativo analisar o programa e o que os meios de comunicação da época retratam dele já que os registos sonoros são mínimos, e como explicamos anteriormente, a bibliografia é pobre.

Uma vez analisado o programa da EN, a comunicação visa explicar como esta produção radiofónica terá influenciado os membros da comunidade portuguesa residente na Argentina e como esta, a partir da versão local da “Hora da Saudade” desenvolveu uma série de programas de rádio.

 

3. Pedro Jerónimo (Universidade do Porto): Ciberjornalismo de proximidade: Um olhar histórico à transição da imprensa regional para a Internet

Resumo

No decorrer do ano 2010 assinalaram-se 15 anos de ciberjornalismo em Portugal. Registam-se, a esse propósito, dois momentos: a realização de um encontro (Jornalismo na Web em Portugal, 15 anos) e o lançamento de um livro (Origens e evolução do Ciberjornalismo em Portugal: Os primeiros quinze anos (1995-2010)).

Com os estudos muito centrados na realidade dos media mainstream, importa olhar para a realidade local e regional, sobretudo quando cada vez mais se fala em globalização. Sobre esta linha de investigação destacam-se alguns trabalhos desenvolvidos por Pedro Jerónimo, no âmbito do seu projecto de doutoramento, como Da Imprensa aos Media Locais Digitais: O caso do distrito de Leiria (2010), A memória da imprensa regional: Análise crítica da preservação e ao acesso de conteúdos digitais (2010) ou Twitter e jornalismo de proximidade: Estudo de rotinas de produção nos principais títulos de imprensa regional em Portugal (Jerónimo e Duarte, 2010), bem como as teses de mestrado de João Ricardo Vieira (2009), O jornalismo de proximidade na Era Digital: Análise funcional da edição online do Jornal da Mealhada, e de Patrícia Couto (2010), Ciberjornalismo regional: Aproveitamento das potencialidades da web dos nove jornais regionais com maior audiência do distrito do Porto – defendida na Universidade do Porto; indisponível online.

Regista-se ainda a publicação do estudo A Imprensa Local e Regional em Portugal (ERC, 2010), que apesar de efectuar uma “radiografia ao sector”, assim apresentado pela Entidade Reguladora para Comunicação Social, não se debruça sobre a presença ou aproveitamento da Internet por parte destes media.

Assim, na linha do que observou Helder Bastos (2010), têm-se recolhido indicadores de que a imprensa regional em Portugal tem seguido as pisadas dos principais media. Se a mera transposição de conteúdos do papel para a Internet (shovelware) é a prática mais corrente, há porém quem esteja atento à realidade digital e faça uso de elementos do ciberjornalismo, como a multimedialidade e a interactividade. Neste processo, destaca-se o papel que alguns dos antigos leitores – agora utilizadores – assumem, na medida em que passaram do modo passivo, de meros consumidores, a activo, produzindo também eles (presumers). O desenvolvimento tecnológico, sobretudo ao nível das plataformas móveis, do qual se destaca o telemóvel, tem permitido uma maior participação do cidadão nas rotinas dos jornalistas. Acontecimentos hiper-locais começam a estar, cada vez com mais frequência e através das redes sociais (Twitter, Facebook…), na agenda dos meios regionais.

O presente trabalho, para além dos indicadores já registados, pretende, sobretudo através de inquéritos, perceber como foi o processo de entrada e de adaptação à Internet por parte das redacções regionais e as potencialidades que dela se tem aproveitado. Para tal, será utilizada uma amostra de 80 títulos, quatro por distrito e regiões autónomas.

 

4. Carlos Canelas (Instituto Politécnico da Guarda): Rádio Altitude: a emissora radiofónica local mais antiga de Portugal (1946-2011)

Resumo

A presente comunicação científica possui como principal objectivo apontar e destacar alguns traços históricos da estação de rádio de âmbito local mais antiga do país, ou seja, a Rádio Altitude, instalada na cidade da Guarda.

Com mais de seis décadas de existência, a Rádio Altitude constitui um marco de referência ao nível dos órgãos de informação de âmbito local, regional e, até, nacional. Por efeito, a história da Rádio Altitude faz parte, por direito próprio, da história dos media e do jornalismo em Portugal.

Ainda que a data oficial de início das emissões regulares da Rádio Altitude seja 29 de Julho de 1948, o nascimento desta emissora de rádio deu-se em 1946, onde as primeiras experiências de rádio contribuíram para o entusiasmo de alguns doentes pulmonares internados no Sanatório Sousa Martins, na Guarda, dos quais se destacou José Maria Pedrosa. Tanto mais que esta personalidade foi a principal dinamizadora de um projecto que constituiu uma brilhante página de solidariedade social e de vanguarda nas difusões radiofónicas.

Os resultados e as conclusões expostos nesta comunicação derivam de uma pesquisa e análise documental, recorrendo a livros e artigos publicados por Hélder Sequeira (autor de várias publicações acerca da Rádio Altitude) e a documentos escritos de caris jornalísticos disponíveis no arquivo da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço localizado na Guarda. Por outro lado, de forma a apresentar algumas das referências históricas mais recentes da Rádio Altitude, entrevistou-se Rui Isidro, na qualidade de actual director da Rádio Altitude.   

 

5. Luís Bonixe (Escola Superior de Educação de Portalegre e CIMJ): Do RCP à TSF: Um contributo para a história do jornalismo radiofónico português

Resumo

O Rádio Clube Português (RCP) e a TSF foram protagonistas, em épocas diferentes, de modificações significativas na forma de fazer jornalismo na rádio portuguesa. Em ambos os casos, o jornalismo radiofónico em Portugal beneficiou da criatividade, da estética e da introdução de uma nova linguagem, mais adequada ao meio rádio, que estes dois projectos trouxeram.

Esta nova forma de fazer jornalismo radiofónico teve um efeito de contágio a outras emissoras. Efectivamente, tanto o Rádio Clube Português como a TSF influenciaram, a seu modo, práticas e políticas no contexto da rádio informativa em Portugal.

No caso do Rádio Clube Português, o seu principal contributo foi a criação, nos anos 60, de uma redacção própria para a produção de noticiários radiofónicos. Apesar do momento politicamente conturbado que o país atravessava, o Rádio Clube Português inovou ao nível dos conteúdos e da linguagem radiofónica, criando um estilo próprio.

Num outro período, o aparecimento das rádios piratas, mais tarde legalizadas, significou um alargamento do sector dos média em Portugal com repercussões ao nível do jornalismo radiofónico e foi essa a oportunidade para o surgimento de centenas de emissoras um pouco por todo o país. Uma dessas rádios foi a TSF que se apresentou com um projecto totalmente diferente no panorama do jornalismo radiofónico em Portugal.

O aparecimento da TSF nos anos 80 representa a inovação e a criatividade ao serviço do jornalismo radiofónico português. Sob o signo da “rádio em directo”, a TSF criou um estilo próprio que acabaria por influenciar modelos e políticas na rádio em Portugal.

A presente comunicação pretende ser um contributo para a compreensão da história do jornalismo radiofónico português, partindo da caracterização e análise de dois dos projectos jornalísticos mais significativos no campo da rádio em Portugal. Analisaremos em concreto as condições e os contextos da criação no Rádio Clube Português, na década de 60, de uma redacção própria para a edição de noticiários e do aparecimento, nos anos 80, da TSF.

A metodologia passou pelo levantamento da bibliografia existente sobre a história da rádio portuguesa, cruzando com fontes orais (entrevistas a jornalistas da rádio portuguesa e programas de rádio) e documentais das referidas épocas em análise.

 

6. Felisbela Lopes, Carlos Tourinho e Phillipe Vieira (Universidade do Minho): Da paleo à hiper TV: percursos da televisão em Portugal e no Brasil

Resumo

À entrada da segunda década do século XXI, no limiar da era da televisão digital, importa saber que modelo de TV existe. Tendo como referência o Brasil e Portugal, traçamos aqui o percurso do audiovisual em cada um destes países, detendo-nos de modo especial na fase da hipertelevisão, a actual. Queremos aí ponderar que tipo de participação e interactividade as televisões de ambos os países oferecem aos respectivos públicos. Dos estudos feitos por esta equipa neste âmbito, tem sobressaído um modelo de televisão que inviabiliza qualquer pretensão em se falar numa terceira fase da TV. Em ambos os países, o panorama audiovisual está mais próximo daquilo que Umberto Eco definiu como neo-TV, sendo ainda pouco permeável à participação do público e às modalidades de interactividade.

Quando pensamos num novo modo de equacionar a participação do telespectador na informação televisiva, temos em mente uma televisão que colabore na formação de uma cidadania mais efectiva e responsável, que acentue o carácter democrático deste meio de comunicação de massa. Algo que reforce a natureza do vínculo social própria da televisão. Percorrendo actualmente as emissões de informação dos canais portugueses e brasileiros, confrontamo-nos com um modelo muito próximo daquele que Umberto Eco desenhou para a neotelevisão, uma televisão muito interessada em atrair audiência, mas sem preocupação em transformar o público num parceiro interactivo dos alinhamentos. Os limites e o papel da interactividade no futuro da informação televisiva são pontos que merecem reflexão urgente. Fazer perguntas disparatadas aos telespectadores ou, em contrapartida, pedir para que tomem decisões editoriais parece ser inútil. Participação assim entendida pode ser feita com TV digital ou analógica, indiferentemente. Tirar o telespectador da posição de “espectador” para torná-lo “parte” do processo é hoje o grande desafio. Olhando para a oferta informativa ddos canais da TV brasileira e portuguesa, constata-se que aquilo que existe não acrescenta muito ao processo da comunicação 2.0. Não há estimulação da capacidade bidirecional de comunicação.

Desde a sua génese, a televisão dos telespctadores foi, acima de tudo, uma televisão para os telespectadores. Era esse um traço estruturante da paleo e da neo-TV, como teremos a oportunidade de sublinhar tendo como referência os programas de informação dos canais portugueses e brasileiros, nomeadamente o telejornal, considerado o programa âncora de qualquer canal televisivo. Hoje, em ambiente tecnlógico favorável, quase nada mudou, como se poderá constatar através dos dados de um estudo desenvolvido por nós sobre a mediatização televisiva do Campeonato do Mundo de Futebol de 2010.

 

7. Valquíria Kneipp (Universidade Federal do Rio Grande do Norte): Trajectória do telejornalismo brasileiro: do improviso, nos primórdios, à digitalização, na actualidade

Resumo

Este artigo tem como objetivo apresentar como se deu o processo de desenvolvimento do telejornalismo brasileiro, através da cronologia dos principais telejornais exibidos em rede nacional, e também regional, desde 1950, quando foi implantada a televisão no país, até o ano de 2010. O instrumental metodológico foi composto por pesquisa bibliográfica, pesquisa virtual nos sites das próprias emissoras e também em sites especializados no tema, e contou, ainda, com depoimentos de 37 jornalistas orientados pelos preceitos da história oral, através de entrevistas em profundidade. A problemática desta pesquisa foi verificar se o telejornalismo brasileiro importou o modelo americano. A organização da pesquisa está dividida em cinco fases, devido às características e aos diferenciais que cada período apresentou, tendo também se inspirado no que Mattos apresentou anteriormente como as seis possíveis fases de evolução da televisão no Brasil.

Na primeira fase, nos anos de 1950, são apresentadas as primeiras emissoras da década: Rede Tupi, TV Paulista e Rede Record. Destaca-se, neste momento, o caráter de improvisação que pautou os primeiros telejornais brasileiros, com a participação dos radialistas nos primeiros telejornais. Este período também foi chamado de “rádio com imagens”.

A segunda fase abrange a década de 1960, quando chegaram ao cenário do novo veículo as seguintes emissoras: Rede Excelsior, Rede Globo e TV Bauru. As duas primeiras, no eixo Rio-São Paulo e a terceira, no interior de São Paulo, na cidade de Bauru, sendo considerada a primeira TV do interior da América Latina. Por este fato, é a única emissora regional abordada nesta pesquisa, devido à sua contribuição histórica e social ao processo de desenvolvimento do telejornalismo. Esta fase foi marcada pela condição política do país, através de censura prévia imposta pela ditadura militar, instalada em 1964, fazendo com que a televisão fosse um veículo sem conteúdo, com telejornais apresentando noticiários oficiais.

A configuração dos telejornais na década de 1970 deu-se com a chegada da TV Gazeta e da TV Bandeirantes, na terceira fase. Ambas com sede na capital paulista, representaram dois marcos no telejornalismo, tendo sido implantadas em pleno regime militar. Uma transformou-se em rede nacional e a outra manteve-se como uma canal local da grande São Paulo até os dias atuais. Algumas padronizações começaram a ser implementadas com base no modelo americano, mas ainda muito discretas.

Nos anos de 1980, duas novas emissoras chegaram ao cenário televisivo brasileiro: o SBT – Sistema Brasileiro de Televisão; e a TV Manchete. Ambas nasceram da massa falida da extinta TV Tupi, que foi cassada pelo governo, caracterizando, assim, a quarta fase desta pesquisa. Este período foi muito produtivo, pois o telejornalismo oficializou-se como um padrão informativo de referência, tendo como base a influência americana e a televisão não mais como um veículo sem conteúdo. Há indícios da introdução do jornalismo investigativo na televisão neste período.

Da década de 1990 até os dias atuais, algumas novas emissoras segmentadas foram implantadas no âmbito da TV a cabo no país. Entre elas estão a Globo News, a Band News e a Record News. Também houve a implantação da primeira TV da internet no país, a AllTV, e da transição da transmissão analógica para a digital. Neste período também houve a falência da Rede Manchete e a venda da concessão da mesma para um grupo empresarial, que criou a Rede TV, no sinal aberto. Fechou-se, assim, a quinta e última fase apresentada neste artigo.

Ao final deste trabalho foi possível observar que o telejornalismo brasileiro, mesmo seguindo o modelo americano desde a sua implantação, conseguiu, ao longo destes 61 anos, desenvolver características próprias, através da cultura regional e da adaptação das técnicas e, assim, compor o modelo brasileiro.

 

8. Emille Laís Cândido Gonçalves e Maria Érica de Oliveira Lima (Universidade Federal do Rio Grande do Norte): A comunicação que vem do legislativo: O nascimento do Canal Parlamento português

Resumo

Se comparada à história da televisão Mundial, as manifestações relativas à comunicação exercida pelo poder Legislativo representam um universo novo para a Comunicação Social. Esse campo, recente e ansioso por novas discussões, abriga um potencial adormecido para análise e estudo enquanto elemento básico na construção da democracia e no favorecimento do cidadão. O presente artigo está ligado a um estudo investigativo de âmbito nacional, que reúne vários investigadores brasileiros, a fim de analisar diferentes emissoras públicas.

 Inserido neste contexto, o Canal Parlamento (ARTV), emissora ligada a Assembléia da República de Portugal e principal TV de caráter Legislativo do país, protagoniza este estudo inédito, que visa o registro de seu processo de construção e fases de produção e organização, a fim de preservar a memória do canal e das comunicações portuguesa e mundial. Para tanto, revela inicialmente em caráter contextualizador, elementos históricos da evolução das TVs Legislativas, seus aspectos conceituais e, por fim, suas características fundamentais.

O suporte teórico-metodológico necessário foi direcionado para o resgate dos principais pesquisadores do campo, como Maria de Lourdes dos Santos (2006), Francisco Sant’anna (2009), Liana Vidgal Rocha (2006), Dulce Queiroz (2007) e Letícia Renault (2010). Privilegiando os fatores observados e analisados na documentação e nos acontecimentos durante sua evolução, foi possível responder à questões de investigação como: Qual o perfil do Canal Parlamento? Como aconteceu o processo de sua fundação? Quais são seus objetivos? Quais são seus acontecimentos mais relevantes? Como a Legislação do Canal está ligada aos procedimentos e decisões no decorrer do tempo? Que tipo de estrutura técnica e pessoal está disponível à emissora? Qual o seu planejamento para o futuro e como isto está associado a sua história? Qual sua importância no cenário português desde sua criação?

A hipótese proposta afirmava que o Canal Parlamento não apresentou mudanças relevantes em sua grade de programação e demais procedimentos desde sua concepção, além de apontar para um frágil e limitado modelo, com pouca variedade de gêneros, o que enfraqueceria seu papel enquanto TV Legislativa de fato. Com base nos dados levantados, foi possível concluir, inicialmente, que, embora ainda apresente um conteúdo restrito, o Canal Parlamento cumpre sua função como TV Legislativa e ainda apresenta real importância na comunicação e transparência entre a atividade parlamentar e o cidadão português. Por fim, foi possível perceber a evolução, em estrutura e conteúdo, do canal durante seus anos de existência, sua relação com a legislação, que limita a grade de programação, mas que já começa a abrir espaço para novos formatos, e detectar procedimentos capazes de otimizar e fortalecer sua grade e seu papel na aproximação do Poder Legislativo e da População. Resumidamente, esse artigo representa o documento com o maior banco de informações sobre a história da ARTV.

 

 

 

Mesa 7

Sala a designar 2

Moderador: Helena Lima (Universidade do Porto e CIMJ)

Comunicações:

1. Carmine Cassino (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): Unificação italiana e “Questão Romana” (1860 - 1871): desenvolvimento do debate ideológico na imprensa portuguesa

Resumo

Na recorrência dos 150 anos da unificação italiana (1861-2011), é particularmente interessante salientar o papel da imprensa portuguesa coeva e o desenvolvimento do debate político e ideológico entre posições do liberalismo laicista e do catolicismo intransigente. Falar do processo da unificação nacional italiano no decénio de 1860-1870 significa, de facto, prestar atenção de forma particular à (outrora) não resolvida “Questão Romana” (sobrevivência da entidade estadual pontifícia tendo Roma como capital, isto é, conservação do poder temporal do Papa).

Os jornais A Revolução de Setembro e A Nação, duas das principais edições diárias portuguesas do século XIX, são referências paradigmáticas do tema em questão.

A primeira torna-se uma proeminente publicação muito por força da argúcia de José Rodrigues Sampaio. Apesar de se encontrar filiado ao Partido Regenerador na década em análise, este jornal constitui a voz mais respeitável do liberalismo português. A Nação, pelo contrário, representa a frente política e “mediática” do catolicismo legitimista lusitano. 

Entre estes dois periódicos existe uma série notável de outras publicações cuja influência política é notória, relatando igualmente a temática em questão e tentando condicionar a opinião pública: exemplos disso são o Jornal do Comércio, a Gazeta do Povo e O Nacional (do Porto). Rápidas menções das análises surgidas nestes jornais acompanham, em subordem, o desenvolvimento do eixo central do trabalho apresentado.

A comunicação visa delinear as diferentes posições analíticas do tema socorrendo-se das crónicas e dos comentários (com atenção à utilização do desenvolvimento da linguagem jornalística) em relação aos seguintes nós históricos:

a) biénio 1860-61. Período substancial da unificação nacional com a criação da nova entidade estadual de Norte a Sul do país (com a excepção de Roma e Veneza) e proclamação do Reino. A “Questão Romana” surge em força aos olhos da opinião pública internacional;

b) 1864. Pio IX publica a encíclica Quanta Cura que inclui o célebre Syllabus (Complectens Praecipuos Nostrae Aetatis Errores), catálogo de condenações das “novas” linhas de pensamento político e filosófico e as “velhas” heresias que, na opinião do Pontífice, nelas se tornavam a propor. O Liberalismo é alvo da mais dura reprovação;

c) biénio 1870-71. O exército italiano ocupa militarmente Roma (Setembro de 1870), acto propedêutico à ocupação política daquela que será a nova capital do Reino (Fevereiro de 1871). O Papa declara-se “preso político” no restrito espaço do Vaticano, recusando a oferta de mediação diplomática e as reparações económicas do Estado italiano, concretizadas na Legge delle Guarentigie (Maio de 1871). O mundo católico revolta-se mas sofre divisões no seu interior.

Não obstante a análise de José Tengarrinha, que evidencia a perda de centralidade, ao longo do século XIX, da crónica internacional nos jornais portugueses em vantagem dos acontecimentos nacionais, a questão da independência do Papado adquire uma dimensão que ultrapassa a mera representação geográfica, tornando-se arquétipo da luta entre duas concepções, até dogmáticas (e com elementos de imprevisibilidade), da política, da fé e do poder. A imprensa portuguesa daquela época não se escusa ao fervoroso debate ideológico.

 

2. David Pontes (Faculdade de Letras da Universidade do Porto): A peste de 1899, momento decisivo para a imprensa portuense

Resumo

Em Junho de 1899, o Porto foi atingido por aquilo que muitos consideravam o epítome da catástrofe: a peste. Um Porto castigado económica e politicamente, remoendo a “salamancada” e o 31 de Janeiro, sofria a agora a catástrofe epidémica e com ela um novo cerco, desta vez sanitário, ditado por poder central contra o qual crescia o ressentimento.

Durante os eventos que se seguiram ao relatório de 12 de Junho de 1899, com que o médico municipal Ricardo Jorge diagnosticou a peste, a imprensa teve um papel determinante na contestação às medidas sanitárias, que culminaria com a fuga do médico da cidade.

Especialmente o Jornal de Notícias foi um ator importante no conflito e as suas posições acabariam por lhe granjear um significativo aumento de audiência.

Foi a política que moveu a imprensa ou, num período em que a imprensa doutrinal perdia significado, a vontade de se identificar com os seus leitores? Teria Ricardo Jorge, atuando como agente de um “biopoder” emergente, despertado a fúria dos que se revoltavam perante a sentença da ciência, preferindo acreditar do discurso popular das conspirações e dos envenenamentos premeditados? De que forma estes eventos ajudaram a desenvolver um discurso coletivo de oposição, mas também de impotência em relação ao poder central?

Esta comunicação propõe-se perscrutar o papel de alguns dos principais títulos da imprensa portuense na cobertura da epidemia de peste de 1899, avaliando paralelamente de que forma este se tornou num momento decisivo para a solidificação desta indústria.

 

3. Júlia Leitão de Barros (Escola Superior de Comunicação Social): O jornalismo político de Lisboa no dia 1 de Abril de 1906

Resumo

O jornal o O Mundo, orgão do Partido Republicano Português, era, no início do século XX, o terceiro jornal mais lido da capital, com tiragens próximas do  Século e do Diário de Notícias.

A historiografia política que se debruça sobre o fim do regime monárquico refere, abundantemente, as ligações dos políticos e dos partidos aos jornais, no entanto, o jornalismo é assunto lateral e excêntrico da história política. Quando nos aproximamos dos estudos jornalísticos portugueses e procuramos compreender o comportamento dos jornais e dos jornalistas face ao político na viragem do século XIX temos de imediato uma grelha interpretativa acessível e dicotómica: em Portugal existiria uma imprensa de opinião, partidária, apaixonada, e uma outra informativa e apartidária. A esta última caberia a fórmula do sucesso.

 A maior dificuldade para quem estuda os jornais da época contemporânea é o carácter gigantesco do acervo documental. O carácter serial dos periódicos, o seu ritmo diário, ao remeterem para rotinas, sugeriram-nos o presente trabalho: procurar surpreender na análise de um único dia convenções noticiosas presentes no jornalismo político. Neste sentido, o presente estudo procurará ser uma primeira abordagem focalizada na forma de tratamento e organização da “ notícia” política em nove jornais diários ( “ informativos” e de “opinião”)  no dia 1 de Abril de 1906: no Século, Diário de Notícias, Mundo, Vanguarda, Luta, Popular, Opinião, Novidades e Diário Ilustrado.

Através da análise desta amostra procuraremos  ir ao encontro das práticas jornalísticas e lançar algumas interrogações sobre a forma como cobriam os jornais diários a vida política portuguesa com base na sua organização e atitude face ao político.

 

 

4. Paulo Rodrigues Ferreira (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa): Iberismo, Hispanismo e Anti-Hispanismo na imprensa periódica portuguesa (1908-1931)

Resumo

O iberismo é um nacionalismo sem realização política que foi alvo de debates que se prolongam até ao presente (Campos Matos, 2007). Referindo-se a um iberismo cultural, conceitos como hispanismo, hispanidade ou peninsularismo foram usados por autores (influenciados pelo historiador Oliveira Martins) oriundos dos mais diferentes campos, desde Unamuno e Teixeira de Pascoaes (em A Águia) a António Sardinha. Para uns, a aproximação peninsular representou, desde finais do século XIX, uma resposta para as crises de 1890 e de 1898 (Portugal vira as suas colónias ameaçadas e a Espanha perdera-as) e uma forma de contrabalançar o poder de potências como a Inglaterra ou a França. Para outros, o iberismo era um ataque à pátria.

Para além da relevância de fontes como os Arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e de Espanha ou da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, que reúne vasto material sobre a Comissão 1º de Dezembro, congressos que tiveram lugar nos dois países, ou trocas epistolares, a imprensa periódica é fundamental para o estudo desta temática.

Muito do debate em torno das relações entre os dois países ibéricos teve lugar na imprensa. Por exemplo, as incursões monárquicas e os projectos de Afonso XIII de intervir em Portugal acentuaram em diversos periódicos portugueses os medos de invasão espanhola. Entre 1912 e 1915, autores espanhóis germanófilos como Luís Anton del Olmet, redactor do madrileno ABC, Nido y Segalerva, autor de Mi contestación à la prensa lusitana: la Unión Ibérica (1915), ou Vicente Gay, autor de El imperialismo y la guerra europea: los principios nacionalistas y el iberismo  (1915), manifestaram-se partidários de ideias imperialistas que tendiam para a anexação de Portugal. Em finais de 1914, também o germanófilo La Tribuna lançou uma intensa campanha iberista que teve uma grande repercussão no nosso país. Em 1915, como reacção, os integralistas deram uma série de conferências que tiveram lugar na Liga Naval. Tanto em Nação Portuguesa, órgão oficial do Integralismo Lusitano, como em A Monarquia, órgão principal de uma série de jornais ligados ao movimento integralista, estes nacionalistas portugueses participaram na imprensa contra o “perigo espanhol”. Em 1917, o madrileno El Imparcial, dirigido por Félix Lorenzo, autor de Portugal (Cinco Años de República). Impresiones de un periodista español (1915), assumiu uma campanha intitulada “Harmonia Ibérica”, que congregou políticos, directores de jornais, universitários, e deu origem a discursos, conferências e múltiplas reportagens e artigos e jornais.

Para resumir, se periódicos como A Manhã, A Noite, Acção Realista, O Dia, Diário Nacional, A Época, A Monarquia, Portugal ou O de Aveiro manifestaram-se, ao longo do período em análise, desconfiados dos interesses espanhóis em Portugal, temendo sempre um perigo de invasão ou de anexação, outros jornais, como O Século ou O Mundo, revelaram-se mais receptivos a ligações intelectuais culturais e económicas com o país vizinho.

É a partir desta multiplicidade de vozes que conseguimos extrair um diálogo intenso entre duas nações que ininterruptamente comunicaram uma com a outra.

 

 

5. Alzira Alves de Abreu (Fundação Getúlio Vargas): As “Cartas Falsas” e o jornalismo brasileiro dos anos 1920

Resumo

O objetivo do texto é o de examinar a atuação da imprensa durante os anos 1920 através de um acontecimento: As Cartas Falsas. Ele nos permite entender algumas características dos jornais e dos jornalistas nesse período. A posição dos jornais foi crucial para desencadear a crise política que levou às revoltas tenentistas dos anos 1920 e a Revolução de 1930.

Em 9 de outubro de 1921, o jornal Correio da Manhã publicou um artigo com o título “Injurioso e Ultrajante” e ao final do artigo aparece a reprodução da primeira das duas “cartas falsas”, supostamente escritas por Artur Bernardes, candidato à presidência da República, dirigidas ao senador Raul Soares, nas quais era questionada a integridade moral das forças armadas. No dia seguinte o jornal publicou a segunda carta com ofensas a Nilo Peçanha, candidato de oposição à Bernardes pela Reação Republicana. As cartas visavam incompatibilizar a candidatura de Bernardes com a oficialidade militar e lançar um candidato militar à presidência da República.

Os jornais a partir da publicação das cartas passaram a dar grande espaço ao assunto. Os jornais, de acordo com o seu posicionamento político, deram voz aos que eram a favor ou contra a veracidade das cartas.

Examinar o papel que a imprensa exerceu nesse acontecimento, nos permitirá também entender as mudanças que os jornais sofreram ao longo das décadas seguintes.

O escândalo que a publicação das “cartas” provocou, deve ser examinado pela forma como se deu a sua divulgação. Como mostra John B. Thompson (2002), os escândalos existem há muitos séculos. Mas foi a partir do final do século XIX e no século XX, com o desenvolvimento dos meios de comunicação que eles ultrapassaram o espaço local e atingiram o âmbito nacional. Agora o dominante são os escândalos midiáticos, isso porque escândalo vende e “como as empresas comerciais precisam gerar receita através da comercialização de formas simbólicas, a publicação de escândalos está presente de mais em mais na mídia” (Thompson, p. 59).      

Por outro lado, a posição da imprensa diante das “cartas falsas” é um excelente exemplo do partidarismo da imprensa e da violência da linguagem, nesse momento. Ela se identificava politicamente e ideologicamente com os partidos políticos e defendia claramente as posições dos partidos aos quais estava ligada, embora, normalmente, não fosse financiada pelos partidos.

 

6. João Paulo Avelãs Nunes (Faculdade de Letras e CEIS20 da Universidade de Coimbra): Jornais portugueses, o holocausto e o julgamento de Nuremberga

Resumo

No que concerne ao Holocausto e a outras formas extremas de violência concretizadas pela Alemanha ou por outros países do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, o Julgamento de Nuremberga pode ser encarado como um momento de explicitação de interpretações e de posicionamentos. Entre Novembro de 1945 e Outubro de 1946, o Tribunal Militar Internacional funcionou num contexto ainda marcado pelos elevados níveis de confrontação ideológica que caracterizaram o conflito militar de 1939-1945. Decorreu, no entanto, já depois de serem conhecidos muitos dos “crimes contra a humanidade” praticados, antes de mais, pelo Estado nacional-socialista.

Politicamente estruturado enquanto Estado Novo — ditadura de tipo fascista e cariz totalitário —, Portugal manteve o estatuto de neutralidade ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial. Essa capacidade de evitar o essencial das sequelas directas daquele conflito militar resultou de circunstâncias diversas. Mais do que apoiante dos Aliados ou do Eixo, o regime chefiado por António de Oliveira Salazar procurou contribuir para a concretização das suas próprias concepções estratégicas: continuidade do salazarismo; paz negociada entre o Eixo e os Aliados depois da destruição da URSS pela Alemanha; afirmação de um terceiro bloco de países com “Governos de ordem” (sobretudo localizados na Europa do Sul e na América Latina).

Apesar das limitações decorrentes da natureza tendencialmente totalitária do Estado Novo, das pressões exercidas pelos beligerantes, dos elevados níveis de analfabetismo e de absentismo cívico que condicionavam a “sociedade civil” portuguesa, nos anos de 1939 a 1945 é possível identificar um relativo pluralismo ideológico no universo dos jornais de circulação nacional. Mesmo tendo em conta a sistemática intervenção dos Serviços de Censura e a ameaça de outras formas de repressão (punitiva ou preventiva), para além das poucas publicações periódicas oposicionistas, deparamos com textos e imagens representativos de várias das correntes do regime, da Igreja e da “acção católica”; de posturas germanófilas ou anglófilas, antisemitas ou filosemitas.

Visa-se, assim, na presente comunicação, conhecer melhor as leituras sobre a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o Julgamento de Nuremberga apresentadas em alguns dos jornais de âmbito nacional que se publicaram em Portugal nos anos de 1945 e 1946. Observar-se-ão, para o efeito, editoriais, notícias, crónicas, ilustrações/legendas e publicidade. Procurarei identificar intervenções da censura do Estado Novo e aspectos relevantes da cultura organizacional das próprias publicações periódicas. Considerarei, também, resultados de investigação já realizada por historiadores como Fernando Rosas e António José Telo, Martin Gilbert e Eric Hobsbawm, Júlia Leitão de Barros e Manuel Loff, Avraham Milgram e Irene Flunser Pimentel, Marcel Ruby e Christopher R. Browning, Michael Phayer e Richard Breitman.

 

7. Nelson Ribeiro (Universidade Católica Portuguesa): Salazar e a BBC: A relação do Estado Novo com a Voz de Londres durante a II Guerra Mundial

Resumo

O trabalho aqui proposto visa abordar a importância e o impacto das transmissões em ondas curtas da BBC para Portugal durante o período da IIª Guerra Mundial, demonstrando igualmente de que forma o Estado Novo lidou com aquela que se viria a afirmar, no período em análise, como a principal fonte de informação sobre a guerra ao dispor da maioria dos portugueses.

Apesar do seu arranque tardio, quando comparado com as transmissões da Emissora de Berlim, a BBC apresentou, desde o primeiro dia, um trunfo que se revelaria decisivo para o sucesso da estação: a sua promoção como uma fonte independente. Ao longo de toda a guerra existiu a preocupação de promover a informação da BBC como sendo estritamente objectiva, o que levava a estação britânica a opor-se à estratégia adoptada pelas emissoras do Eixo cujo carácter propagandístico era então evidente.

A promoção da BBC em Portugal envolveu um investimento significativo com a publicação de anúncios em jornais e revistas, bem como a distribuição de panfletos e brochuras onde a independência e a objectividade da BBC eram altamente elogiadas. Na verdade, o ideal de objectividade jornalística - que resulta da aplicação de um conjunto de regras consideradas legítimas pela comunidade profissional” (Schudson, 1978: 7) - ganhou sobretudo visibilidade após a Iª Guerra Mundial, tendo-se tornando num "um axioma da propaganda britânica durante a (IIª) guerra" (Balfour, 1989: 171).

Não obstante a forma como a BBC exaltava a objectividade dos seus relatos jornalísticos, o trabalho aqui proposto revelará de que forma o conteúdo das transmissões da BBC para Portugal obedecia à estratégia imposta pelo Foreign Office e pelo Ministry of Information. Paralelamente, serão relevadas provas da forma como o próprio Salazar interferiu nas transmissões para Portugal no decorrer da guerra influenciando a contratação e a demissão de funcionários da Secção Portuguesa e garantindo a supressão de assuntos que não estavam em consonância com a ideologia do regime.

A presente proposta de comunicação resulta de uma pesquisa realizada em diversos arquivos localizados em Portugal e no Reino Unido, baseando-se em fontes que até agora não haviam sido utilizadas para o estudo da radiodifusão. Ao longo do texto serão apresentadas referência à forma como se procedeu à crítica e triangulação das fontes.

 

 

8. Nahuel Ribke (Universidad de Tel Aviv): Medios de comunicación de la corriente “nacional-desarrollista” en el Brasil pre-dictatorial (1964-1985)

Resumo

El golpe cívico-militar contra el gobierno de Joao Goulart el 31 de marzo de 1964 y el largo período dictatorial bajo la tutela del ejército brasilero interrumpieron el rumbo político y social previo al golpe. Destacados dirigentes políticos y figuras de la cultura debieron exiliarse y muchos de los que decidieron quedarse en Brasil, sufrieron persecuciones y dificultades para continuar con sus actividades (Skidmore, 1988: 23-27; Pereira, 1998: 43-66). A pesar de esto, es posible afirmar que gran parte de la producción cultural de estos años sobrevivió al golpe y continuó ejerciendo su influencia en la sociedad durante años posteriores. En el área de la música popular, se puede afirmar que muchas de las figuras y tendencias anteriores al golpe, crecieron y se consolidaron bajo las nuevas condiciones políticas, a pesar de la represión y la censura (Napolitano, 2001: 103-124).

Con los medios masivos de comunicación que representaban a la tendencia "Varguista" o "nacional – desarrollista" no sucedió lo mismo.  Sus medios de comunicación desaparecieron casi sin dejar rastro, sus fundadores y precursores cayeron en el olvido y los contenidos creados, casi desterrados de la memoria colectiva por los nuevos medios emergentes del proceso post 1964, principalmente en lo que se refiere a la Red Globo.

Muchas de las investigaciones que se hicieron sobre los medios de comunicación de la etapa pre-1964, tienden a resaltar la falta de profesionalismo de esta etapa, la escasez de recursos técnicos y la administración ruinosa de sus dueños como las principales causas de su desaparición. Estos estudios tienden a definir la televisión durante el periodo 1950-1964 como elitista o amateur, destacando los problemas de gerenciamiento, la falta de organización y las carencias tecnológicas. El mismo argumento suele extenderse también a la prensa escrita y la radio (Mattos, 2002: 79-88; Costa, 1986: 146-166). Otros estudios, resaltan los avances técnicos de algunos de estos medios, pero al mismo tiempo apuntan a la incongruencia entre la lógica comercial que los regía y los compromisos políticos a través de los cuales operaban (Goldenstein, 1987).

Esta ponencia va a tratar de rescatar la historia de algunos de los medios de esta época, destacando el entramado político y económico en el que surgieron y al mismo tiempo cuestionar la interpretación "modernizante" y "gerencial" como causa de su extinción. Por último, nos cuestionaremos hasta qué punto estos medios de comunicación se diferenciaban de los otros medios existentes en su época y hasta qué punto representaban un modelo de comunicación alternativo y articulado.

 

 

 

Mesa 8

Sala a designar 3

Moderador: Ana Cabrera (FCSH-UNL e CIMJ)

Comunicações:

1. Débora Dias (Universidade Federal do Ceará): Rotas de livreiros e seus Almanaques: intercâmbios luso-brasileiros nos circuitos do impresso

Resumo

Conjugando formato, conteúdo e linguagem de maior acesso, os Almanaques alcançaram largas tiragens e ampla aceitação do público luso-brasileiro especialmente a partir da segunda metade do século XIX, figurando como importantes aliados para o acesso à leitura. Esses impressos contribuíram para formação e ampliação do público leitor, promovendo intercâmbios culturais entre os diversos espaços das províncias brasileiras, com Portugal e outros países.

Na diversidade de tipologias, destaca-se nesta Comunicação de Pesquisa o caso de Almanaques vinculados a casas livreiras no Brasil e em Portugal até o começo do século XX. Guardavam em comum a possibilidade de comunicação direta da livraria com seus leitores, divulgando autores, livros, serviços, formando vínculos de leitura. O Almanach Bertrand, da livraria Bertrand de Lisboa, o Almanach Brasileiro Garnier, da Livraria e Editora Garnier do Rio de Janeiro e o Almanach Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul, editado na Livraria Americana, no Rio Grande do Sul, são alguns desses títulos de grande circulação. Os livreiros sabiam aproveitar as vantagens do gênero, cuja boa aceitação é demonstrada em tiragens que podiam ultrapassar facilmente a casa do milheiro, número considerado alto se comparado a edições de livros do período.

O Almanach dos Municípios do Estado do Ceará para 1908, editado pela Livraria Araújo, em Fortaleza, é um desses títulos editados por livreiros com vínculos luso-brasileiros. Impresso nas oficinas da Parceria Antônio Maria Pereira, em Lisboa, tinha seu público leitor nos diversos municípios do litoral e sertão cearense, Nordeste do Brasil. Nas páginas da publicação, o Ceará se afirma em imagens, dados geográficos e estatísticos, endereços e nomes dos municípios do Interior e da Capital. Em paralelo, a Livraria Araújo divulgava seus autores e livros disponíveis, alargando sua rede de contatos, que não se firmavam somente em termos comerciais.

O livreiro Araújo conhecia as qualidades do Almanaque para a promoção de outros impressos. Tanto que reserva as últimas trinta e uma páginas do Almanach dos Municípios do Estado do Ceará para a divulgação do Extrato do Catálogo da Livraria, com um conjunto de 329 títulos diferentes de livros. Há um duplo movimento. Os leitores buscam os conteúdos do Almanaque: textos em prosa, recreativos, poesias, informações sobre a cidade, calendário; e o Almanaque os leva a outras publicações, reproduzindo trechos de livros, contando sobre autores, oferecendo as leituras que estão disponíveis na livraria.

A partir dessa publicação, observam-se experiências de divulgação de impressos por meio do Almanaque no Brasil do início do século XX. Gênero editorial de ampla circulação desde meados do século XIX, o Almanaque é entendido como fonte e objeto de pesquisa, conectando-se à história do livro e da leitura no Brasil. É visto prescrevendo leituras, promovendo o livro, articulando circuitos do impresso, estabelecendo vínculos com o mundo editorial português.

 

 

2. Pedro Cerdeira (FCSH-UNL): Um projecto turístico na imprensa: a divulgação da Sociedade Propaganda de Portugal na Gazeta dos Caminhos de Ferro (1906-1910)

Resumo

A Sociedade Propaganda de Portugal (SPP) foi fundada em Fevereiro de 1906 como organismo pioneiro na promoção do país enquanto destino turístico. O projecto que levou à sua criação teve uma longa gestação e foi influenciado pelo impulso que associações do género ganhavam um pouco por toda a Europa no final do século XIX. O fundador e secretário-perpétuo da SPP, Leonildo de Mendonça e Costa (1849-1923), era um antigo funcionário superior dos caminhos-de-ferro, bastante viajado, que tinha uma longa carreira no jornalismo, tendo esta beneficiado a dada altura dos conhecimentos adquiridos na sua profissão. Em 1888, fundara mesmo a Gazeta dos Caminhos de Ferro, que desde então dirigia.

Provavelmente beneficiando do facto de ter como director o fundador da SPP, a Gazeta desde Fevereiro de 1906 que dá conta da actividade da nova associação, do seu projecto e das suas diversas iniciativas, numa tentativa de alargar a projecção da recém-fundada agremiação, sobretudo no primeiro ano de existência, quando a SPP não dispunha ainda de boletim próprio.

A nossa proposta é, a partir da análise atenta do espaço que a Gazeta dedicou entre 1906 a 1910 (correspondendo a cronologia aos últimos anos da Monarquia e simultaneamente à permanência de Mendonça e Costa na SPP) à SPP e à sua causa, entender de que forma a revista participou nesse esforço de criar uma associação com implantação à escala nacional que congregasse o máximo de colaboradores e vontades para dotar o país dos melhoramentos que lhe faltavam para atrair visitantes nacionais e estrangeiros. Que tipo de artigos lhe dedicava? E com que conteúdos? Para melhor avaliar a divulgação feita pela Gazeta, será útil o confronto com outro material, nomeadamente o Boletim da SPP para o mesmo período, o veículo por excelência da actividade da associação.

Em parte fruto da nossa tese de mestrado sobre estes primeiros anos da SPP, esta comunicação versará especificamente sobre o contributo de um jornal técnico bastante conceituado na época para a promoção, junto dos seus leitores, do organismo que de forma pioneira se ocupou do turismo em Portugal.

Outra hipótese de trabalho é ver até que ponto a divulgação da SPP nestes anos corresponde ao espaço que a Gazeta desde 1888 concedia a questões relacionadas com o excursionismo, onde eram formuladas opiniões e propostas em torno de passaportes, serviços alfandegários, hotelaria, etc. Foi a Gazeta um laboratório de ensaio das propostas que a SPP depois assumiu como bandeira?

A história do turismo em Portugal, nas suas várias vertentes, carece ainda de estudos de fundo. Algo que está por fazer é o levantamento e a análise da imprensa enquanto fonte para essa história: que papel teve ela na disseminação de comportamentos e na formulação de propostas, que imagens construiu do turismo em Portugal. O conhecimento sobre o papel da Gazeta dos Caminhos de Ferro na divulgação de práticas turísticas na transição do século beneficiou já dos trabalhos de Ana Cardoso de Matos e Elói Ribeiro. No entanto, a ligação específica entre a Gazeta e a SPP não tem sido contemplada. Pretendemos assim enriquecer o conhecimento sobre a SPP em concreto, mas também avançar algumas pistas sobre o papel da imprensa na difusão deste projecto turístico para o país, bem como dar a lume mais alguns elementos relacionados com a Gazeta e a vida de Mendonça e Costa, uma figura do jornalismo português ainda por estudar.

 

3. Dora Santos Silva (FCSH-UNL): Génese e evolução do jornalismo cultural em Portugal

Resumo

Encontrar as origens do jornalismo cultural em Portugal e traçar os principais marcos da sua evolução, como as célebres revistas literárias do princípio do século XX, as páginas culturais que existiam à margem da ditadura ou a eclosão de publicações culturais pós-25 de Abril, constitui uma tarefa científica essencial não só para compreender o impacto desta especialização no jornalismo em geral e na sociedade portuguesa do século XX, como também para reflectir sobre as suas possibilidades actuais. Esta comunicação torna-se ainda mais pertinente dada a falta de dados e de um estudo sistematizado desta área no contexto do jornalismo português.

 

4. Everton Terres Cardoso (Universidade Federal do Rio dos Sinos): Autoria e distinção em suplementos semanais de cultura: O Caderno de Sábado do Correio do Povo como lugar de legitimação para a intelectualidade de Porto Alegre no final dos anos 1960

Resumo

Os suplementos semanais de cultura são espaços em que o jornal concentra as artes e as letras, entre outros temas que estão menos atrelados ao ciclo de procução diária. Essa característica permite o aprofundamento crítico e analítico, aliado à oferta de leitura de textos literários e poemas. Por isso, tal como se configuraram no Brasil nos anos 1950, essas publicações são parte de que o jornal prescinde – suplementares – e que, para além do noticioso, preenchem o tempo livre do fim de semana com leitura inteligente.

Na interseção dos campos jornalístico e da produção cultural, os suplementos tomaram para si a missão formadora do jornalismo, aproximando-se das noções de cultura legadas pelo Iluminismo franco-inglês – o acúmulo de saberes enciclopédicos como forma de cultivar a mente – e pelo Romantismo alemão – a elevação do espírito por meio das artes, das letras, da religião e das humanidades.

Sendo lugares privilegiados de circulação de cultura, essas publicações estão inseridas em um processo intrincado em que a distinção social parece ser um capital a ser rateado entre os agentes envolvidos na produção, montagem e circulação do jornalismo cultural: o jornalismo toma para si o poder da assinatura de certos artistas e instituições para legitimar-se; artistas e instituições usam a visibilidade da mídia para dar maior alcance à sua assinatura; e o leitor/espectador busca prestígio ao obter a informação em determinados veículos especializados.

O surgimento o Caderno de Sábado (1967-1981) do Correio do Povo fez, então, chegar a Porto Alegre esse modelo de encarte de jornal diário que havia tido seu momento de maior destaque nos anos 1950 no centro do país e que já não tinha a mesma força da década anterior. No Rio Grande do Sul, no entanto, esse tipo de publicação que mesclava a divulgação de ideias e textos noticiosos encontrou uma intelectualidade ávida por fazer circular seu pensamento e sua produção literária. Essa conjunção permitiu a longevidade do Caderno de Sábado, cuja característica mais marcante em sua gênese foi o ideal de formação do leitor.

Ao constituir uma rede de sociabilidade ao seu redor, a publicação se relacionou com a intelectualidade local e permitiu o cruzamento de gerações em suas páginas, o que contribuiu para a configuração do campo intelectual sul-rio-grandense, tal como havia ocorrido com os suplementos do Rio de Janeiro na década anterior. É possível ver nas páginas do Caderno textos de autoria tanto de escritores e poetas pertencentes às gerações mais antigas, que estavam saindo de cena no fim dos anos 1960, quanto dos jovens que se formavam nas universidades e que iniciavam suas carreiras. Nesse contexto, o suplemento do Correio do Povo participou da formação e da legitimação da geração de intelectuais e jornalistas que galgava seu espaço no final da década de 1960.

O presente trabalho, portanto, usando técnicas de história oral temática e a partir dos depoimentos de cinco dos colaboradores mais frequentes, pretende aproximar-se do contexto cultural de Porto Alegre nesse período e compreender a relação do suplemento e de seus editores com a intelectualidade local. Além disso, o busca recuperar a história do Caderno de Sábado a fim de compreender o quanto esse suplemento semanal de cultura parece ter suprido a necessidade local de um “desaguadouro” para a produção intelectual ao mesmo tempo que fazia circular pelo estado uma parte do que se produzia em outros lugares.

 

5. Helena de Sousa Freitas (ISCTE): DN Jovem - Berço de talentos e tubo de ensaio na imprensa portuguesa

Resumo

O DN Jovem (DNJ) – descrito pelo ex-jornalista e escritor José Jorge Letria como “o mais importante espaço de revelação e de afirmação de novos valores literários em Portugal” depois dos suplementos juvenis do Diário de Lisboa e do República, e pelo sociólogo Paquete de Oliveira como “um caso ímpar no contexto do jornalismo português” e o “mais bem conseguido” de entre os projectos do Diário de Notícias (DN) pós-25 de Abril – foi idealizado em 1983 por Mário Mesquita, então director do DN, à imagem do antecessor DL-Juvenil mas procurando “um rumo que tivesse mais a ver com um certo jornalismo, jornalismo de investigação”, podendo “servir até um pouco de escola” e contando com textos produzidos por jornalistas do DN.

Todavia, a participação dos leitores (logo aí tornados colaboradores) ditou-lhe uma sorte distinta. Como descreveu o mais emblemático coordenador do suplemento, Manuel Dias, “o entusiasmo da rapaziada foi tal que a sua colaboração acabou por tomar conta do espaço”. Ao longo de 13 anos, este lugar único na imprensa portuguesa foi a rampa de lançamento de escritores entretanto reconhecidos, como José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto ou António Manuel Venda, divulgou os primeiros trabalhos dos cartoonistas e ilustradores Álvaro e João Fazenda e acolheu textos de José Mário Silva ou Pedro Mexia, hoje reputados críticos literários.

Mas, apesar do êxito cultural e do aplauso público de que o DNJ granjeava, que leitura do suplemento era feita pela Administração/Direcção e pelo departamento comercial do jornal que o publicava? Seria tido em conta o seu papel na formação de uma “cultura de escrita”, nas palavras da jornalista Diana Andringa, ou sobretudo o facto de se revelar, do ponto de vista financeiro, “altamente deficitário”, como nos descreveu Mário Bettencourt Resendes (1952-2010), que dirigia o DN quando o DN Jovem perdeu o formato impresso?

Escudado na emergência da Internet e na alegada apetência dos jovens públicos por este suporte, o DN tomou a decisão que o libertaria dos custos inerentes à impressão do caderno juvenil e fez migrar o DNJ do papel para a Net. Estava-se em Junho de 1996, altura em que a rede era inacessível à generalidade dos colaboradores e leitores do suplemento, que assim ficaram privados da sua montra semanal e da leitura das terças-feiras, dia de saída do caderno.

A transição serviu também, directa ou indirectamente, de tubo de ensaio sobre a aceitação da Internet enquanto novo suporte, uma vez que – dizia-se já então – o digital em breve ditaria a extinção dos órgãos de comunicação impressos. Uma ameaça que continua a pairar sobre a imprensa escrita e que foi utilizada como enquadramento para uma investigação sobre as dinâmicas, implicações e consequências desta transição do DN Jovem.

Foi possível concluir que, à migração para a Net, se seguiu um desinvestimento progressivo do DN no suplemento juvenil – evidente no subaproveitamento das ferramentas digitais, algo ainda hoje apontado à imprensa portuguesa online – e o consequente declínio daquele espaço. Ficou igualmente claro que o destino do DN Jovem não foi alheio à turbulência interna vivida pelo jornal que o acolhia, nomeadamente ao facto de o DN ter mudado do Grupo PT para a Controlinveste em 2005 e ter tido cinco directores entre 1996 e Março de 2007, data em que o DNJ sucumbiu definitivamente, a cerca de um ano de celebrar um quarto de século.

Realizada como tese de mestrado no ISCTE – IUL, a investigação da qual se extrai a presente comunicação recorreu à literatura sobre a dicotomia papel/digital existente – que, na ausência de bibliografia específica sobre suplementos juvenis na imprensa nacional ou estrangeira, nos permitiu elaborar o estado da arte –, a uma análise dos conteúdos do DNJ em quatro períodos distintos e ao exame de cerca de 20 entrevistas semi-estruturadas (modelo escolhido por permitir a condução do tema sem um guião rígido que perturbasse a evocação de memórias) a colaboradores e coordenadores do DNJ e a membros da Direcção do DN.

 

6. Álvaro de Costa Matos (Hemeroteca Municipal de Lisboa e CIMJ): Rir é o melhor remédio”: A Imprensa Humorística na I República Portuguesa (1910-1926)

Resumo

No ano em que se encerram as comemorações do centenário da revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 parece-nos pertinente revisitar o papel da imprensa, e concretamente da imprensa humorística, na implantação da República em Portugal, e do caminho que os jornais e as folhas humorísticas percorreram até 28 de Maio de 1926, quando outro golpe militar colocou um ponto final na I República portuguesa.

Algumas perguntas: O que era a imprensa em Portugal, na transição do século XIX para o século XX? Que jornais e folhas humorísticas existiam no país em Outubro de 1910? Que novos títulos surgiram até ao fim do regime republicano? Como explicar o novo fôlego da imprensa humorística e da caricatura na I República, numa altura que a fotografia começava a ocupar a maior parte dos jornais e revistas? Como é que as publicações periódicas humorísticas trataram a revolução republicana de 5 de Outubro? Qual a sua importância política, social e cultural na época?

A resposta a estas perguntas – que hoje parecem paradoxais, numa altura em que vivemos na era do digital, que por sua vez trouxe consigo o encerramento de vários jornais e a morte anunciada de outros –, repito, a resposta a estas perguntas serve de mote para uma incursão histórica pela imprensa humorística portuguesa publicada entre 1910 e 1926. Isto é, serve para aferir: i) da relevância deste tipo de imprensa como instrumento de crítica política e social; ii) do seu contributo para a formação duma opinião pública mais informada e esclarecida; iii) da sua diversidade editorial e ideológica, maior na I República quando comparada com o período precedente; iv) do seu papel na renovação da arte da caricatura e do desenho humorístico ou mesmo na introdução de novas correntes estéticas; v) e, por último, do relacionamento dos jornais e folhas humorísticas com as leis que tentaram controlar a liberdade de imprensa durante este período.

 

7. Cristina Ponte (FCSH-UNL e CIMJ): Para a história da imprensa para crianças em Portugal: Da instrução e boas maneiras dos finais do século XIX à condenação moral e visual dos comics dos anos 50

Resumo

Esta comunicação assinala três momentos de uma quase ignorada história da imprensa infanto-juvenil em Portugal: 1) o florescimento de jornais para crianças entre 1870 e 1900, orientados para crianças de famílias urbanas e abastadas e inspirados no modelo francês da boa literatura, com a valorização da instrução e das boas maneiras; 2) Os tempos de ouro dos suplementos infanto-juvenis dos grandes jornais, nos anos 1920, e as sinergias entre a imprensa e a rádio, nas décadas seguintes; 3) a primeira expressão do media panics em Portugal, em torno dos comics norte-americanos, cavalgando a onda mundial na viragem para os anos 1950, e as indicações dos Serviços de Censura combinando interditos e orientações ideológicas nacionalistas - porque “as crianças portuguesas mais tarde já não serão crianças mas continuarão a ser portuguesas”.

Tendo como base uma pesquisa documental relativa aos três períodos e revelando documentos pouco conhecidos, evidencia-se a importância das publicações periódicas infanto-juvenis, na diversidade das suas formas (jornais próprios, suplementos de grandes jornais, revistas de grande circulação e baixo custo) para a construção social da infância no nosso país. Ao registar as suas características em cada um destes momentos, procura-se chamar a atenção – não só de estudiosos do jornalismo mas também de historiadores, sociólogos da cultura, cientistas da educação, linguistas e especialistas em literatura e investigadores de outras áreas das ciências sociais e humanas – para o interesse em aprofundar o conhecimento de períodos que antecedem a explosão das indústrias mediáticas para a infância e juventude, a partir dos anos 1960. Por estranho que pareça, são muitas as continuidades e afinidades com o presente, num cruzamento de gerações, como As Lições do Tonecas, de José de Oliveira e Cosme, tão bem ilustram: programa de rádio em 1935, folhetim em jornal poucos anos depois, livro nos anos 1960 sucessivamente reeditado, série televisiva nos anos 2000, sempre com enorme sucesso.

Estimular desta forma à pesquisa sobre uma área de sombras, quase desconhecida mas fascinante nos seus conteúdos e formas, é o objectivo desta comunicação que rasga esse caminho na perspectiva dos Estudos dos Media e do Jornalismo. Para que se tornem mais claras as linhas de continuidade e de mudança em relação aos tempos presentes e aos seus produtos mediáticos.

 

8. Edgard Patrício (Universidade Federal do Ceará): As intenções educativas na implantação do rádio no Ceará/Brasil – um estudo sobre a implantação da Ceará Rádio Club (1934)

Resumo

A historiografia brasileira mais difundida sobre o surgimento do rádio em nosso país faz crer que o meio é implantado dentro de uma atmosfera educativa. Viviam-se os grandes debates em torno da Escola Nova, e as tecnologias eram encaradas com bons olhos pelos pioneiros da nova corrente. Assim, o rádio despontava como uma nova tecnologia que poderia servir à educação. Isso pelo menos estava nos planos de Edgard Roquette-Pinto, quando instalou a primeira emissora de rádio no Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com sede justamente na Academia de Ciências da Escola Politécnica, em 1923. Uma de minhas primeiras interrogações nasce exatamente dessa pretensa orientação educativa do rádio. Partindo-se da compreensão de que realmente essa orientação era verdadeira, no âmbito do Brasil, e aí mais especificamente do Rio de Janeiro, distrito federal à época, essa orientação teria influenciado o aparecimento do rádio no Ceará, onze anos depois (1934)? A hipótese é defensável, na medida em que o Ceará também experimentou os debates sobre a Escola Nova, com a reforma educacional de 1922, sendo um de seus protagonistas Lourenço Filho, adepto das novas idéias educacionais; o momento também era propício, pois em 1934 ocorre em Fortaleza a 6ª Conferência Nacional de Educação, evento que mobilizava as atenções dos educadores em torno de suas teses para a educação nacional; e no mesmo ano assume a pasta do Ministério da Educação e Saúde, do governo Vargas, o ministro Gustavo Capanema, com uma forte política de centralização e uma proposta de utilização dos meios de comunicação com o sentido educativo. No entanto, a atuação dos precursores do rádio fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, estados que concentravam o desenvolvimento, é uma história ainda por contar –falta bibliografia específica, de caráter regionalista. Esse trabalho é uma tentativa de começar a preencher a lacuna, ainda existente, sobre a história do rádio no Ceará. E tenta compreender como se deu a introdução desse veículo de comunicação no estado a partir exatamente da relação entre comunicação e educação. O elemento básico de análise sobre a relação comunicação e educação no limiar do rádio no Ceará é as grades de programação da Ceará Rádio Clube, acompanhadas através de sua divulgação pelo jornal Correio do Ceará. Foram selecionadas do jornal Correio do Ceará, a partir do ano de 1928, todas as matérias que tivessem alguma relação com a implantação do rádio no estado. Ao mesmo tempo, foram realizadas entrevistas com seis personagens que vivenciaram a época de implantação do rádio no estado. Cinco desses entrevistados na condição de radialistas (Valdemar Caracas, Eduardo Campos, Narcélio Limaverde, José Júlio Cavalcante, Santiago Freitas) e um entrevistado na condição de pesquisador sobre a história do jornalismo cearense (Geraldo Nobre). Os roteiros das entrevistas obedeciam duas orientações. A primeira, eram realizadas entrevistas para reconstituição de histórias de vida dos entrevistados, em que o rádio entrava como um dos elementos. A segunda orientação do roteiro de entrevista se fixava estritamente no rádio como elemento orientador da conversa. Foram gravadas cerca de 25 horas de entrevistas. O que se constata é que por trás da implantação do rádio no Ceará aparece uma diversidade de intenções, não apenas relacionadas à intenção educativa. São essas intenções que esperamos explicitar nesse trabalho.

 

 

 

Mesa 9

Sala a designar 4

Moderador: Carla Baptista (FCSH-UNL e CIMJ)

Comunicações:

1. Laura Antunes Maciel (Universidade Federal Fluminense): Para além da imprensa operária: testemunhos, dissidência e memórias

Resumo

Esta comunicação propõe uma reflexão sobre a diversidade e o número de pequenas folhas editadas por trabalhadores e outros grupos que se afirmam publicamente por meio da imprensa no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. Discutindo alguns dos múltiplos significados que o periodismo comportava para a diversidade dos trabalhadores urbanos – tanto em termos dos ofícios, atividades profissionais e orientações políticas, quanto pela abrangência étnica, regional ou nacional –, procuro sinalizar a emergência de novas formas de imprensa, que podem indicar não apenas articulações como possíveis tensões ou divergências nesse universo.

Outra dimensão a ser explorada nesta comunicação é a associação entre os processos de letramento e de formação da consciência social e a tomada de posição para ação política e/ou sindical que, ainda hoje, sustenta uma imagem de ‘vanguarda’ para alguns grupos de trabalhadores ao mesmo tempo que relega a maioria ao terreno do iletramento, da inconsciência e apatia social e política. Sugiro, ainda, pistas sobre rumos sociais diversos não só na expansão dos públicos leitores na cidade como da atuação dessa imprensa para a constituição de outras formas de unidade ou identidade, agregando diferentes grupos e múltiplos interesses.

Por último, problematizo a invisibilidade dos registros de dimensões significativas de sujeitos e memórias dissidentes, tanto na história da imprensa brasileira, quanto no interior de diversas instituições de pesquisa no Rio de Janeiro – expressa na constituição e organização de acervos e coleções da imprensa sindical ou operária –indicando algumas razões que engendraram e mantém essa exclusão.

 

2. Marco Gomes (CEIS 20 da Universidade de Coimbra): As 39 semanas do Esquerda Socialista: radiografia de uma concepção do mundo

Resumo

Esta proposta de comunicação pretende analisar as práticas jornalísticas e os estilos redatoriais do semanário Esquerda Socialista, o primeiro órgão de imprensa do Movimento de Esquerda Socialista (MES). Procurar-se-á delinear um retrato do jornal enquanto produto e produtor de eventos e doutrinas. Desprovido de máscaras cosméticas, partidário e não-isento, o Esquerda Socialista representava oficialmente as conceções do MES e o seu agendamento na ordem mediática. Defendendo, criticando, ordenando ou propondo, privilegia a eficácia da ação política e aspira reunir o assentimento do auditório com a sua objetividade dos factos. Refuta as tenuidades do não-dito e desempenha o papel de ator político ativo, disseminando valores e condutas, expressando soluções e referências de enquadramento (framing) que enformam a sua moldura do mundo social.

Publicado pela primeira vez em 12 de setembro de 1974, o porta-voz do MES enquadra-se num cenário caraterizado pela explosão de novos periódicos e grupos políticos decorrente da atmosfera que a Revolução de 25 de Abril proporcionou. Abolida a censura e instaurada a liberdade de expressão e pensamento, o combate ideológico constitui o aspeto fundamental do emergente quadro político. A partir do dia inicial inteiro e limpo de que nos fala Sophia de Mello Breyner surgem, no espaço de um ano, dezenas de publicações periódicas que assinalam uma seminal ordem comunicacional. Deste universo fazem parte oito novos semanários, dois diários e nove jornais partidários.       

O trabalho assenta em cinco objetivos: 1) elaborar a Ficha de Identidade do jornal; 2) identificar os balizamentos ideológicos e a carteira de intenções; 3) proceder ao mapeamento das temáticas abordadas; 4) compulsar os dispositivos cénicos (texto, imagem, linha gráfica) e os referenciais jornalísticos e organizacionais (géneros jornalísticos e mecanismos funcionais – Editorial, Nacional, Internacional…); 5) analisar as estruturas linguísticas enquanto elemento distintivo do sujeito político (abordagem ao nível do léxico e da sintaxe). 

Metodologicamente, o corpus da pesquisa inclui os 39 números saídos à estampa com o nome de Esquerda Socialista. O semanário passou a publicar-se, a partir de 23 de Julho de 1975, com a designação de Poder Popular. Adotar-se-á, por um lado, a fiche signalétique e o dossier d’identité, elaborados por Jacques Kayser (1963), para caraterizar sumariamente o jornal e, por outro, a análise quantitativa para o mapeamento temático. O corpus permitirá detetar continuidades e descontinuidades ao nível dos referenciais jornalísticos e organizacionais, disponibilizando ainda elementos que possibilitam individualizar particularidades em termos discursivos.     

A pertinência da investigação provém dos escassos trabalhos existentes sobre a imprensa doutrinária e partidária no período da transição para a democracia em Portugal. Afigura-se, no entanto, obrigatório mencionar as referências de Mário Mesquita (1996), César Príncipe (2009), João Figueira (2007) e, principalmente, o estudo de Pedro Diniz de Sousa sobre A Dramatização da Imprensa do “PREC”, não obstante outras reflexões do autor no contexto da temática. Os testemunhos de Eduardo Graça (http://caminhosdamemoria.wordpress.com), César Oliveira (1993), Paulo Bárcia e António Silva (2010) são, por razões óbvias de militância política, fundamentais para a resenha histórica que se pretende efectuar.

 

3. Adelaide Gonçalves (Universidade Federal do Ceará): Um estudo da imprensa libertária em Portugal e no Brasil

Resumo

Este trabalho resulta de estudo  mais geral sobre o intercâmbio intelectual dos grupos de afinidade libertária no Brasil e em Portugal, em vista da  difusão do pensamento de extração anarquista, no período compreendido entre os finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX.   A realização desta pesquisa, cujo foco é a produção e circulação das idéias libertárias pode alargar o campo do conhecimento sobre a cultura operária e as práticas de leituras na formação da consciência social dos trabalhadores, considerando a imprensa anarquista em sua dimensão de fonte, documento e memória. Recolho nesta imprensa a divulgação de um largo repertório de  informações acerca dos livros e folhetos editados seja através dos extratos traduzidos ou dos anúncios e das leituras recomendadas. 

No estudo da atividade editorial libertária em  Portugal e no Brasil, se constata que resultou em grande medida do ativismo militante influenciado pelo pensamento anarquista.  Durante a pesquisa empreendida junto ao Espólio de Pinto Quartim, sob guarda do Arquivo de História Social do ICS/Lisboa, uma farta documentação evidencia o intercâmbio entre os anarquistas portugueses e brasileiros. Como se observa também na pesquisa dos jornais anarquistas, o freqüente  anúncio de literatura libertária circulando entre os grupos de afinidade libertária nos dois países.

O estudo identifica a cooperação regular entre libertários de Portugal e do Brasil,  partindo de fontes impressas que evidenciam a colaboração de anarquistas brasileiros com subscrições para apoiar publicações portuguesas e a edição de folhetos ou a edição em Portugal de opúsculos de autores brasileiros, como noticiado na revista portuguesa A Sementeira em 1911.

 Esse intercâmbio resulta da afinidade entre os movimentos e grupos militantes nos dois países, como identificado na revista A Vida que na edição de 31 de janeiro de 1915, noticia a entrega para venda por Antonio Pinto Quartim,  expulso para o Brasil pelo governo português, de vários folhetos editados em Portugal. Outro foco desta pesquisa se dirige ao autodidatismo e à prática de leituras coletivas, ou da leitura ouvida, e do lector, nos centros de cultura social, bibliotecas operárias, escolas e universidades populares, lugares de difusão da cultura libertária.

O presente estudo se processa dentro de um quadro de deslocamento teórico e renovação analítica, fruto da cooperação interdisciplinar e da inspiração em estudos que revigoraram este campo. Essa renovação teórico-metodológica foi acompanhada da alteração de perspectiva em relação às fontes, ampliando o repertório ou oferecendo novas indagações àquelas fontes já incorporadas aos estudos compulsados. Nesse particular, os jornais operários constituem uma ampla possibilidade de novas pesquisas.

A pesquisa em periódicos do Brasil e de Portugal deveu-se em parte à sugestão metodológica de observar a trajetória militante de algumas personagens destacadas na produção de periódicos anarquistas em Portugal e no Brasil, como é o caso de Antonio Pinto Quartim. Neste sentido, este estudo se detém no exame de uma das mais significativas publicações portuguesas do campo libertário, a Revista Renovação, em circulação nos anos de 1925 e 1926.  

 

4. Márcio Cunha Carlomagno (Universidade Federal do Paraná e Universidade do Porto): A imprensa e a construção da cidadania: o caso brasileiro

Resumo

A construção da cidadania passa, invariavelmente, pelo conhecimento que os cidadãos dispõem sobre a res-pública. Conforme definição de Noberto Bobbio (O futuro da demoracia, 2000), o caráter público, isto é, visível, das ações de um governo é condição sine qua non para a democracia. Durante um longo período da história, essa definição de público, enquanto coisa visível, passou pela imprensa. A ela competia o tornar público e, consequentemente, parte da constituição dos cidadãos.

A imprensa, compondo o sistema de checks e balances (freios e contrapesos), é considerada uma das bases para o bom funcionamento da democracia. No entanto, o papel que a imprensa exerce na prática, comprova-se, é distinto dos nomeados “interesses públicos”.

Este estudo resgata, a partir de uma revisão de literatura, o papel que a  imprensa brasileira exerceu, desde a sua formação ainda no antigo regime colonial português, na constituição do sentido de público. Conforme os dados apontados por Raymundo Faoro (Os donos do poder, 2001), os primeiros jornais brasileiros pertenciam aos “amigos” do regime em vigor, contemplados pelas benésses do mesmo. O que se evidencia é que se imiscuem interesses, e uma esfera passa a servir à outra.

As vicissitudes do nascedouro se impregnaram no modelo jornalistico brasileiro que seria adotado nos séculos seguintes. Luis Nassif (O jornalismo dos anos 90, 2003) demonstra os modelos jornalísticos empregados na imprensa brasileira no século XX e podemos perceber que as relações estruturalmente se mantém as mesmas. A imprensa, privada, tende a se unir a determinados setores do poder político e econômico, em detrimento de sua função pública.

Contudo, a partir dos anos 1990 e sobretudo nos anos 2000, se evidencia uma alteração no cenário comunicacional. Com a ascensão da internet e das novas tecnologias da comunicação, o campo discursivo do jornalismo passa a ter a concorrência de novos players, o que inclui outras organizações interessadas em produzir conteúdo e os próprios cidadãos, que tem a possibilidade de produzir informação, sendo emissores e não apenas receptores. O uso de sites e blogs reduz o custo de produção da informação. O caráter de público, portanto, deixa de passar pelo crivo das redações. Altera-se o modo como se produz o conteúdo jornalístico e, corolário, o próprio jornalismo tende a mudar suas formas. A história contemporânea do jornalismo altera-se, a partir do momento em que se altera seu campo.

Este estudo integra um projeto de pesquisa voltado à compreensão da reorganização do campo comunicacional com a entrada de novos players. O foco principal da investigação se dá sobre a constituição da esfera pública e as condicionantes socio-historicas para esta construção.

 

5. Francisco Pinheiro (CEIS20 da Universidade de Coimbra): História da imprensa desportiva em Portugal (1875-2000)

Resumo

Em Portugal, os estudos académicos sobre a relação entre desporto e media não têm tido grande relevância, sobretudo no campo da história. Mas o caso português tem sido uma excepção no panorama internacional, sobretudo quando comparado com escolas historiográficas como a britânica, a norte-americana ou a francesa. Esta última, por exemplo, através da Société Française d’Histoire du Sport, organizou em 2008 um congresso dedicado ao desporto e media, do qual resultou o livro Sport et Médias, dirigido por Michael Attali (publicado em 2010). A sociedade portuguesa, no entanto, tem mantido uma extraordinária relação com o desporto, em especial com o futebol. Esta relevância social, sobretudo do chamado desporto-rei, fez com que a informação desportiva e os jornais desportivos ganhassem um papel extremamente importante na história dos media em Portugal ao longo dos séculos XX e XXI. Na primeira década de 2000, em média cerca de dois milhões de portugueses leram diariamente um jornal desportivo. Assim, fazer a história da imprensa desportiva portuguesa apresenta-se como um passo fundamental para entender melhor a história do jornalismo português, assim como a própria história do desporto e da cultura portuguesa.  

Metodologia

Entre 2004 e 2009, no âmbito de um projecto de investigação de doutoramento, foram analisados os catálogos de periódicos das principais bibliotecas, arquivos nacionais e distritais portugueses, assim como toda a bibliografia que pudesse contribuir para a criação de uma base de dados completa de periódicos desportivos portugueses.

Resultados

Foram encontrados 940 periódicos desportivos portugueses, publicados entre 1875 e 2000 em Portugal continental, ilhas e províncias ultramarinas (até 1974). Cada periódico foi algo de uma análise, enquadrando-se os periódicos em três grandes linhas editoriais: periódicos desportivos generalistas (analisavam todo o género de desportos); periódicos desportivos especializados (dedicados exclusivamente a um ou dois desportos); órgãos e boletins de instituições e clubes desportivos.

Conclusão

A construção desta história da imprensa desportiva portuguesa, de que resultou em 2011 o livro História da Imprensa Desportiva em Portugal, é um contributo importante para perceber a real dimensão desta área de especialização jornalística. Este estudo permitiu clarificar a importância social e jornalística do periódico desportivo, quantificando este campo jornalístico e dando contributos importantes para áreas como o associativismo dos jornalistas desportivos, o fotojornalismo desportivo, a profissão de jornalista desportivo ou questões éticas e linhas editorais, entre outros temas relevantes.

 

6. Leonel Aguiar (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e Luísa Prochnik (Universidade Estácio de Sá): A história da imprensa esportiva através das narrativas jornalísticas sobre o estilo brasileiro de jogar futebol

Resumo

Estudos históricos sobre imprensa esportiva demonstram a existência de uma participação ativa da mídia jornalística na construção e representação de um estilo próprio do brasileiro jogar futebol. Essa influência do jornalismo esportivo ganhou força a partir da Copa do Mundo realizada em 1938, quando a Seleção Brasileira teve seu melhor resultado até o momento: um terceiro lugar na competição. Este artigo tem por objetivo traçar um percurso cronológico, através de uma revisão bibliográfica, identificando e analisando a relação entre imprensa esportiva brasileira e as copas do mundo, buscando as origens e as peculiaridades na cobertura jornalística da Seleção Brasileira. Busca-se, também, entender se, ainda hoje, essa construção simbólica está presente na cobertura realizada pela imprensa, analisando notícias sobre a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010 em três websites de diferentes países, além de entrevistas com jornalistas desses veículos. Os jornais analisados são o brasileiro Lancenet!, o argentino Ole.com e o norte-americano Sports Illustrated.com. A escolha por esses três sites tem como base a ideia de contraste, já que há diferenças estruturais na concepção e na condução das reportagens entre o norte-americano, que se posiciona como veículo essencialmente focado na informação e provém de um país onde o futebol não está entre os esportes favoritos, e os sites brasileiro e argentino, com suas narrativas voltadas para alimentar a paixão de torcedores de seus países de origem. O estudo da história do jornalismo esportivo brasileiro mostra-se relevante devido ao fato de que, como o próprio epíteto “Brasil, o país do futebol” resume a discussão sobre futebol é tema de grande interesse da população e mobiliza parte dela na sua busca diária por informação e na sua relação com os meios de comunicação de massa. O jornalismo esportivo, muitas vezes relegado ao segundo plano por ser considerado apenas entretenimento, tem forte participação na construção de uma identidade nacional, ao se considerar que dois dos grandes pilares modernos e influenciadores da sociedade brasileira são, justamente, os meios de comunicação de massa e o futebol.

 

7. Felisbela Lopes e Phillipe Vieira (Universidade do Minho): Percursos dos programas televisivos de futebol feitos com adeptos

Resumo

Em Portugal, os programas de televisão feitos com adeptos notáveis de três grandes clubes de futebol correspondem a um formato com menos de uma década e meia de existência: apareceram primeiro na RTP2 e, logo a seguir, na SIC. Os canais generalistas rapidamente os adoptaram como conteúdos privilegiados para atrair audiência. Hoje constituem âncoras das grelhas dos três canais temáticos de informação, rivalizando entre si nos comentadores permanentes que conseguem fixar em estúdio. Apresentados por jornalistas, estes programas criam momentos de grande polémica e, com isso, marcam, de certa forma, a agenda do campo do futebol. Através de uma análise às grelhas de programação entre 1992 e 2011, propomo-nos explicar a génese destes formatos, traçando o seu percurso na TV portuguesa e, através de entrevistas aos seus responsáveis editoriais, analisamos a estratégia que seguem na construção do alinhamento, discutimos a distância que mantêm dos clubes que comentam e perspectivamos formas de evolução deste tipo de conteúdos televisivos. Uma linha sobressairá aqui: quem participa nestes programas é uma elite de comentadores que se apresentam como adeptos do Futebol Clube do Porto, do Sporting e do Benfica, mas que mais não são de uma confraria do comentário do futebol.

Percorrendo todos os programas emitidos na TV portuguesa que seguem este formato (apresentador/jornalista + adeptos notáveis de 3 clubes de futebol), sobressai um modelo de emissão estabilizado que continua a reunir audiências elevadas, o que os torna âncoras das respectivas grelhas de programação. Representando clubes com maior número de sócios (Benfica, Porto e Sporting), o painel de comentadores apresenta uma composição cuja renovação se vem revelando difícil. Promovendo a discussão acerca do que se passa nos ditos três maiores clubes de futebol, os coordenadores destes programas acreditam que o target audience se amplia. No que diz respeito à perpetuação de certos comentadores neste tipo de programas, uma das explicações será a respectiva adaptação aos códigos da TV e às exigências do formato, ou seja, falam ao ritmo da televisão, promovem uma acesa e musculada polémica, falam com emoção do seu clube, nem que, para tal, seja preciso prescindir de argumentos racionais. Outra variável importante reside no facto de integrarem uma espécie de confraria que lhes garante uma presença assídua neste tipo de plateaux. Hoje são convidados porque no passado o foram e isso terá rendido uma incontestada e disputada notoriedade mediática. Há uma espécie de lógica circular que torna estes lugares pouco abertos a outros convidados. Por outro lado, o facto de os principais clubes de futebol adoptarem uma política de comunicação que restringe o acesso dos dirigentes dos clubes e respectivos jogadores aos jornalistas potencia ainda mais a visibilidade destes adeptos. Num ambiente em que escasseiam fontes oficiais, desenvolvem-se fontes notáveis que representam a massa associativa dos clubes. Essa notoriedade é cada vez mais reforçada pela perpetuação de um formato que tem sido avesso à renovação.

 

8. Ana Paula Margarido de Azevedo (Universidade do Minho): A história do jornalismo de saúde e as histórias do jornalismo de saúde

Resumo

Não existe uma história do jornalismo de saúde. O que existe é a perspectiva de quem a observa. Assim, tanto a história do jornalismo de saúde no século XX bem como as histórias de saúde contadas através do jornalismo podem ser divididas em fases distintas.

Se a analisarmos a partir da 1950, teremos um jornalismo de saúde voltado, sobretudo, para a descrição das enfermidades derivadas de um mundo que acabava de sair de uma guerra. Nessa altura, quase não havia repórteres de saúde. O que havia eram médicos que trabalhavam como correspondentes e que, por força do ofício, acabaram por se ocupar a tempo inteiro da profissão de jornalistas. Nascia, então, do período pós-guerra, naqueles que foram considerados os anos dourados pela pujança tecnológica, os chamados médicos-jornalistas. Embora escrevessem para os seus pares, colegas de profissão, estes profissionais abordavam temas de largo interesse da população, tal como questões do aborto. Faltava-lhes, no entanto, uma linguagem que atingisse um público maior do que apenas os especialistas.

Na história do jornalismo de saúde, a linguagem foi, desde sempre, algo com que tanto os estudiosos de comunicação como os profissionais de saúde se preocuparam, devido ao grande número de termos técnicos e científicos desconhecidos dos leigos. Da tradução desse vocabulário deveria se encarregar o jornalista, sendo que a falta de formação específica sempre foi uma barreira.

Na década de 80, com o avanço dos números de casos de SIDA começa a crescer o interesse dos media pelas notícias de saúde e o jornalismo neste sector começa a ganhar um novo fôlego. Mas, desta vez, as histórias sensacionalistas tornam-se um problema agudo a enfrentar. Esse interesse também coincidiu com o aumento individual com a própria saúde, assim como também ocorreu. “A emergência da saúde como preocupação pessoal e a ascensão dos cuidados de saúde como maior instituição do século XX foram os factores que mais contribuíram para o crescimento do campo da comunicação de saúde (Thomas, 2006), no qual está inserido o jornalismo de saúde.

Já na década de 60, apesar do jornalismo orientado para saúde pública, o interesse pela saúde particular das celebridades e dos políticos também ganhavam espaço nos jornais, sobretudo nos Estados Unidos. Em 2001, um novo acontecimento dá a volta ao jornalismo de saúde. O ataque às torres gémeas faz emergir a preocupação. Começa a fase marcada pela ênfase nas histórias de bioterrorismo, sobretudo as ameaças e efeitos do Antarax.

Como se pode notar, o jornalismo de saúde divide-se em diversas das fases. Sobretudo com o advento das novas tecnologias, uma nova e distinta etapa de impõe à história do jornalismo de saúde. Azevedo (2009), ao analisar e comparar um jornal português e outro brasileiro, notou que as informações de saúde estão cada vez mais padronizadas. Em parte porque o acesso à informação se democratizou, mas também porque as organizações mediáticas tais como os jornais e revistas, mas também as televisões e as rádios podem receber um grande número de informação através de agências de notícias, cuja assinatura é, normalmente online. Um novo ciclo, portanto, se abre ao jornalismo de saúde.

 

 

 

Mesa 10

Sala a designar 5

Moderador: Jorge Pedro Sousa (Universidade Fernando Pessoa e CIMJ)

Comunicações:

1. Fernanda Castilho Santana (Universidade de Coimbra): Telenovelas brasileiras em Portugal: breve histórico dos anos 90

Resumo

O presente trabalho tem como objectivo estabelecer um breve histórico sobre a trajectória das telenovelas brasileiras em Portugal, em especial no que diz respeito aos anos noventa, período marcado pela entrada das redes de televisão privadas no país. Para tanto, optamos por iniciar a abordagem pelo advento que constitui a primeira fase da trajectória de exibição das telenovelas no país: a estreia do título Gabriela, em 1977. A segunda fase de mudanças no que diz respeito à exibição da ficção televisiva seriada no país decorre a partir de 1992, por conta das constantes mudanças no cenário dos media portugueses. A proposta deste trabalho, portanto, é apresentar um curto panorama de alguns dos principais acontecimentos relativos às telenovelas brasileiras, em especial no período abrangido entre 1992-1999.

A entrada das redes de televisão privadas, no início dos anos 90, marcou a história das telenovelas brasileiras exibidas em Portugal e alterou o panorama dos media no país. Em Outubro de 1992 iniciaram as transmissões da SIC no Canal 3, que investiu, desde o início, na exibição das produções de ficção brasileira. No ano seguinte, a TVI ocupa o Canal 4, figurando como o segundo operador privado e quarta emissora aberta do país a iniciar a disputa pelas audiências.

Até ao início dos anos noventa, as exibições das telenovelas revezavam-se entre a RTP1 e 2. Com a chegada das emissoras privadas, as telenovelas brasileiras deixaram de ser um produto exclusivo dos dois canais de televisão estatais. O início das emissões da SIC mudou este cenário, tendo em vista que a emissora investiu no segmento e firmou contrato com a Rede Globo de Televisão para exibir as produções brasileiras. Nos primeiros dois anos, RTP1 e RTP2 dividiram espaço, intercalando as transmissões com a SIC. Após este período de transição, a Globo fechou contrato com a SIC, cedendo o direito exclusivo de exibições deste género. Durante os anos seguintes, a SIC liderou os índices de audiência do prime-time.

Diante deste panorama, podemos dividir a história das telenovelas brasileiras em Portugal em três fases distintas. A primeira inicia-se com a estreia de Gabriela, em 1977 e decorre durante toda a década seguinte. A segunda caracteriza-se pela entrada das redes de televisão privadas no início da década de noventa. E a terceira ainda está a ser definida, mas o crescimento da produção nacional de ficção televisiva aponta novos caminhos para as telenovelas em Portugal.

2. Sebastião Guilherme Albano da Costa e Maria Érica Oliveira Lima (Universidade Federal do Rio Grande do Norte): Programas nacionalistas da literatura e da mídia latino-americana

Resumo

O ensaio, o romance e os gêneros midiáticos tiveram grande ingerência na formação

da sensibilidade, da imaginação e do pensamento social latino-americanos. Pode-se dizer que neles se consubstanciam o ethos e as particularidades históricas locais em relação à modernidade. Esse dado se manifesta especialmente na concomitância de epistemes que tais formatos e suas textualidades, mormente doxais, encerram em si e na sua potencialização entre nós, numa combinação de saberes tradicionais com a epistemologia ocidental, reunião que nos caracteriza (RAMA, 1984). Portanto, nossa problemática tange à possibilidade de explicitar que os gêneros aludidos ensejam, por si mesmos, essa convergência de séries formais e de conteúdo e, ademais, que boa parte das instituições modernas na América Latina tendem a naturalizar essa propensão e, dessa maneira, configuram-se não apenas como uma variação do modelo ocidental, mas como uma proposta de construção de outros paradigmas.   De acordo com Carlos Monsiváis (1976), José Murilo Carvalho (1996) e Túlio H. Donghi (1995), entre outros, a instrução formal, as ciências sociais, a literatura e os meios latino-americanos compõem-se de modos intelectivos que se reportam a essa circunstância de confluência de signos. Nosso intuito neste texto é descrever, mediante os métodos históricos e sociológicos, conjuntamente com a técnica bibliográfica, uma parte da emergência de algumas figuras ou pressupostos formais e de conteúdo que definem nossa inserção numa comunidade de reflexão moderna, por intermédio de sua projeção em expressões discursivas como o ensaio, o romance e os gêneros midiáticos. Por exemplo, os produtos da mídia (jornalismo, publicidade), mais no século XIX que agora, organizam-se por atores que desempenham mais de uma função na sociedade, isto é, magistrados/artistas, filósofos/párocos, médicos/sociólogos, a despeito da crescente divisão do trabalho físico e intelectual fomentado pelo capitalismo (SODRÉ, 1976). Destarte, uma das hipóteses do presente estudo estabelece que na América Latina historicamente a modernidade e a delimitação das identidades nacionais redundam em uma alternativa para os esquemas logocêntricos ocidentais, malgrado realizem essa espécie de crítica mediante uma atitude reflexiva, uma vez que os idiomas e boa parte dos costumes e da organização social advêm da Europa. Lilian Moritz Schwarcz (1993), por exemplo, recorda que a criação dos institutos históricos e geográficos no Brasil no século XIX foi um intento de buscar, cientificamente, um homem nacional, um sujeito coletivo brasileiro, à semelhança do ocorrido na Europa romântica e logo positivista, para usar a periodização histórica mais convencional. Já Regina Crespo (2005) enfatiza o caráter híbrido do ensaio como gênero e sua influência na construção das identidades nacionais. Por fim, Beatriz Sarlo (1989) e Martín-Barbero (1991) estabelecem as relações entre os programas de alfabetização na região ao início do século XX e seus vínculos com os discursos dos mass media, notadamente do rádio e do cinema.

 

3. Renata Suely de Freitas (Universidade do Minho): Percurso da comunicação publicitária: da mídia de massa para mídias segmentadas

Resumo

Este trabalho tem a intenção de refletir sobre o percurso da comunicação publicitária, que teve seus anos dourados relacionados com a ascensão de meios de comunicação massa, e hoje segmenta-se em mídias alternativas. Propomos a seguinte questão de partida: quais momentos históricos impuseram desafios e mudanças para a publicidade? A partir das respostas, pode-se traçar um panorama explicativo e reunir pistas sobre as funções que a publicidade assume na sociedade contemporânea.

A partir de uma metodologia teórica, que estrutura sistemas, modelos e estabelece relações, construiremos nosso quadro de referência para compreender a realidade social que envolve a publicidade (Correia & Pardal, 1995). Nesse enquadramento, temos a intenção de apresentar casos inspiradores a nível nacional, em que as estratégias criativas publicitárias adaptaram-se ao público português e valorizaram a marca ou o produto. As principais linhas de referências bibliográficas serão de McQuail (2003), Brochand et al. (1999) e Pereira & Veríssimo (2004).

O quadro teórico a ser traçado enfatizará que há mensagens e significados constantemente trocados na sociedade contemporânea, e que as novas tecnologias alteraram as ideias de produção e de transmissão de informações. Conceitos como instantaneidade e interatividade consequentes da internet influenciam cada vez mais as mensagens midiáticas e os modos de fazer publicidade. Além disso, é preciso ter em consideração que o público não é passivo, ele responde a estímulos dos meios de comunicação e interpreta significados pessoais sobre as mensagens.

Acredita-se que as novas conjunturas de produção de informações e de utilização de tecnologias de comunicação alteraram alguns paradigmas. Assim, tem-se modificado o papel da comunicação na construção de sentidos sociais com novas possibilidades de mediação e novos cenários que a sociedade conectada utiliza. Com os novos hábitos de consumos baseados em mobilidade, o discurso publicitário tende a ser cada vez mais um diálogo. Nesse contexto, é possível questionar quais os novos desafios da publicidade na atual sociedade da informação.

Temos o objetivo de reviver os pontos altos e baixos da história da publicidade, influenciada por períodos históricos notáveis como a revolução industrial, as guerras mundiais, a massificação do rádio e da televisão e grandes crises econômicas como a Grande Depressão (1929), as crises petrolíferas (década de 70) e as recessões recentes. Como contribuições para a área acadêmica, pretendemos esclarecer o papel que a publicidade vivencia atualmente na sociedade da informação e apontar tendências decorrentes das novas possibilidades de interação e novas formas de produção e disseminação de conteúdos. Estas apreciações podem ser consideradas uma pesquisa exploratória para construção de futuras propostas de investigação.

 

4. Maria das Graças Pinto Coelho e Cristina d’Oliveira Vidal (Universidade Federal do Rio Grande do Norte): Olá planeta! A mídia que transcende a informação: relatos de um tempo de formação social e da consciência ambiental em Natal (Brasil)

Resumo

Este trabalho reflete a abordagem midiática da temática ambiental, usando como referência relatos dos dois principais jornais de circulação na cidade de Natal, Rio Grande do Norte/Brasil. Na pesquisa em andamento, o recorte histórico se refere à década de 70 e início dos anos 2000, onde observamos que as questões ambientais têm abordagens relevantes na mídia e construíram novas práticas sociais em torno da temática na cidade do Natal. O relato empírico segue metodologias etnográficas, oferecendo dados de contexto que permitem interpretações densas de fenômenos sociais na tradição naturalista da escola de Chicago. Para explorar a base conceitual dos termos e protocolos que estabeleceremos no percurso, vamos seguir a perspectiva teórica de Erving Goffman, talvez o autor que maior atenção dedicou aos elementos formais da interação social, o domínio do conhecimento a que chamou de Ordem da Interação. Problematizamos interações simbólicas a partir de algumas questões: historicamente, como a mídia potiguar incluiu questões ambientais em seu cotidiano? E como esta abordagem é refletida na sociedade, de forma a mobilizar a população? E como a mídia estabelece conversações com setores políticos e institucionais que influenciam, ou podem modificar a legislação urbana visando colaborar com a preservação ambiental em Natal? Desde as últimas décadas do século passado, os veículos de comunicação da capital potiguar já abriam espaço para questionar ações que pudessem provocar danos ao meio ambiente na região metropolitana de Natal. Em alguns momentos, aparentemente como força aglutinadora principal, particularmente na reversão de uso e revisão do projeto da Via Costeira. No período assinalado entre os anos de 1975 e 1979, a construção da avenida foi levada à discussão junto à sociedade, uma vez que o projeto inicial previa construções no Parque das Dunas. A reserva de mata nativa foi preservada e hoje compõe parte integrante da Biosfera da Mata Atlântica Brasileira exercendo grande importância para a qualidade de vida da população da cidade de Natal. Em 2006, na Praia de Ponta Negra, um dos cartões postais mais conhecidos da capital potiguar, tivemos o debate em torno da construção de grandes edifícios nas proximidades do Morro do Careca. Neste caso, destacamos a atuação da internet através dos blogs, que pautaram os veículos de comunicação.

Justificamos este artigo pela importância crescente do jornalismo ambiental no espaço Ibero-Americano, sistematicamente referenciado como importante agente na divulgação da defesa do meio ambiente e das consequências negativas das práticas predadoras do mesmo ambiente. Fatos e exemplos considerados reafirmam uma atuação expressiva do jornalismo local nas questões relacionadas, reafirmando a pertinência deste estudo. Analisamos a mídia como estrutura de poder, instituinte e organizadora de processos societários nos contextos sócio-culturais do seu âmbito de repercussão. Nessa perspectiva, a mídia funciona como instância articuladora e estruturante de práticas sociais que se dão pela mediação de dispositivos sócio-técnicos.

 

5. Jormana Araújo (Universidade Federal do Ceará): Tessitura feminina em Fios da Meada

Resumo

O presente resumo tem por intenção suscitar reflexões acerca do impacto da construção e leitura de periódicos e panfletos “Fio da Meada” na constituição de um cotidiano feminino fabril têxtil marcado por conflitos e acomodações tangentes ao universo operário marcado pela dupla jornada de trabalho. Ainda que partamos de uma análise que privilegie uma escrita marcada pela intervenção sindical, não descartamos que sua elaboração adveio de mãos que vieram do chão da fábrica e que lá se dirigiam para a prática do ouvir as questões suscitadas no interior da fábrica Santa Cecília: a quinzena salarial atrasada, o supervisor que assediou sexualmente a trabalhadora que se mantém calada frente ao temor da perda do emprego, a operária grávida que necessita de um tratamento especial para constituir sua família, o domingo de trabalho que impossibilitou os afazeres domésticos. Várias são as vozes ali escutadas pelos homens e mulheres do Sinditêxtil, mas também serão várias as apreensões deste conteúdo materializados no Fio da Meada, que frente a pauta feminina faz florescer o “Espaço da Mulher”, um panfleto próprio às questões de gênero sobre um público feminino bastante amplo.  Ainda sob este aspecto, a quantas andava a produção e ressignificação dos sentidos suscitados pelas operárias grávidas, por exemplo, após a leitura do período que tratava da seguinte questão: Fica garantido a Mulher Gestante o direito de se transferida de setor quando necessário ou por recomendação médica”. Como deveria ser, para mulheres neste estado, a conquista de tal amplitude? E suas companheiras, como reagiam, teriam se erguido na busca de outras reivindicações: documentos de dissídio coletivo apontam a recorrência e ampliação de direitos femininos a cada ano. Como isto se insurge? Neste sentido, apontamos uma análise que privilegia as operárias de tecidos sob a dimensão da relação, contida aos demais trabalhadores operários, à fábrica Santa Cecília, à dimensão da família sob a metodologia da História do Trabalho, que articulando a perspectiva analítica da imprensa sindical com a “grande imprensa” através do jornal “O Povo”, ainda que este agencie os empresários têxteis em suas páginas, expõe uma possibilidade de análise ainda pouco efetiva na nossa historiografia. Nesta conjunção conflitiva, estabelece-se o reerguimento do setor têxtil para o Estado do Ceará onde a fábrica Santa Cecília ocupava a 13ª colocação entre as cem maiores indústrias recebendo grandes incentivos fiscais e estruturais pelo governo dito das “Mudanças” que, se por um lado dialogava com os empresários deste setor da economia por outro, partia em repressão quando os (as) trabalhadores (as) reivindicavam um mínimo de qualidade de vida e de salários, como ocorreu na “greve dos 23 dias” em 1988. Neste ínterim, as reivindicações femininas também se insurgem como sólidas pautas que vieram a se materializar após processo de dissídio coletivo. Entretanto, ainda que não tivessem uma característica grandemente revolucionária as conquistas foram bastante importantes enquanto ensaio de reivindicações conseqüentes assim como na prática da experiência feminina nas suas elaborações próprias.

 

6. Raquel Marques Carriço Ferreira e Matheus Pereira Mattos Felizola (Universidade Federal de Sergipe): A influência dos meios de comunicação social: breve história do desenvolvimento da literatura dos “efeitos dos media”

Resumo

A audiência do ponto de vista teórico deteve no senso comum acadêmico por um longo período, a simples designação de qualquer pessoa que em qualquer circunstância sofre de forma uniforme, as consequências dos meios de comunicação, noções estas que permaneceram fortemente difundidas até o início das investigações alternativas às ideias dos “efeitos ilimitados” dos meios.

Com a diversificação das perspectivas investigativas sobre o desempenho dos meios em seus usuários, novas formulações são desenvolvidas, estas, partindo não somente de concepções do conhecimento variado (sociologia, psicologia, antropologia, pedagogia, etc.), ou linhas e filiações ideológicas (funcionalismo, marxismo, estruturalismo), mas partindo, sobretudo, de enfoques diferenciados sobre o objeto investigado: os efeitos dos meios sobre os processos perceptivos e de interpretação, de mudança de opiniões e comportamentos.

O presente artigo traz uma revisão bibliográfica do desenvolvimento da literatura dos “efeitos dos meios” e determina uma história mais bem matizada do longo período de desenvolvimento dos estudos dos efeitos dos meios, mais ao menos, que a demarcação da clássica divisão literária da era dos (1) efeitos ilimitados, cujos meios têm total poder sobre seus receptores, do período em que os estudos (2) evocaram variáveis potencialmente intervenientes nos efeitos dos meios (na determinação de efeitos limitados), e da era (da volta), (3) dos efeitos significativos. 

Por consequência da revisão proposta, apresentamos não só os mais significativos conceitos trazidos pelos estudos dos efeitos do relacionamento da audiência com os meios, mas também, seis modelos descritivos da pesquisa acumulada (Neuman e Guggenheim, 2009), que identificam cinquenta anos da produção da literatura: (1) Modelo das teorias da persuasão, (2) Modelo da audiência ativa, (3) Modelo dos contextos sociais, (4) Modelo dos meios e sociedade, (5) Modelo dos efeitos interpretativos, (6) Modelo dos novos meios. No artigo, a narrativa histórica dominante da pesquisa dos efeitos dos meios em três estágios (efeito ilimitados, limitados e significantes) é revista por um contexto mais plural que transcende a concepção mais difundida da literatura em questão, mesmo sendo essa disposição tipológica inicial de três estágios, encontrada parcialmente nessa nova percepção histórica.

 

7. Monyse Ravenna de Sousa Barros (Universidade Federal do Ceará): Midia e Movimentos Sociais no Brasil - o MST em pauta

Resumo

É intuito deste trabalho discutir as estratégias do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra, o MST para se contrapor ao discurso da criminalização do Movimentos Sociais empreendida pela mídia comercial brasileira, com ênfase na construção de canais próprios de comunicação com a sociedade e na construção de uma política de comunicação e de cultura. A criminalização do MST não é fato recente no Brasil e parece atualizar-se ao longo da história de perseguição aos pobres, no campo e na cidade. A pesquisa em curso aponta que para o caso do MST, desde sua formação, setores da mídia difundem a palavra “invasão” como uma dura recriminação aos que se atrevem a atentar contra o que consideram sagrados, a propriedade da terra e o latifúndio. Ao mesmo tempo em que criminaliza, encobrem-se situações de violência contra os sem terra. Analisando o discurso da mídia comercial no Brasil observamos que algumas atitudes são comuns na tentativa de criminalizar as lutas dos movimentos sociais, com o objetivo de disseminar junto á sociedade posições contrárias às diversas formas de manifestação popular em busca de direitos. Parte da estratégia é também demonstrada no conteúdo convencional que personaliza e individualiza determinadas histórias de ascensão e conquista social, como histórias individuais daqueles que “venceram” por esforço próprio. A pregação das “virtudes” do individualismo, da competição colabora também no sentido de esvaziar os conteúdos da vida em comunidade, da luta coletiva, da aspiração de justiça social e igualdade. Omitir informações acerca dos conteúdos de violência cotidiana contra os Sem Terra também é uma prática da mídia empresarial brasileira, além de pautar o MST apenas nos momentos de ocupação, ou em sua linguagem amplamente disseminada, de invasões e ainda, quando da ocorrência de massacres. De certo modo, a questão social parece ser ainda, para o caso da mídia corporativa no Brasil, “um caso de polícia”, repercutindo as afirmações da elite proprietária da terra e dos negócios da política, desde o século XIX. Assim, os conteúdos ligados à experiência concreta da vida nos Assentamentos, o cultivo agroecológico, as escolas adaptadas à realidade do campo, à alfabetização de jovens e adultos, a universalização do acesso à educação, a valorização de matrizes da cultura original, o cultivo também da arte e da vida em comunidade, como valores de civilização e humanidade, não fornecem pauta à mídia empresarial. Essa estratégia de criminalização e invisibilidade social dos pobres em luta se estende no tempo e alcança diferentes sujeitos e experiências sociais. Também é objetivo deste trabalho investigar como os meios próprios de comunicação do MST dialogam com a sociedade. Entre esses instrumentos de comunicação destacamos o Jornal Sem Terra, a Revista Sem Terra e o sítio eletrônico (www.mst.org.br), observando sua qualidade de diálogo com a sociedade. Metodologicamente nos propomos a estudar estes veículos entre os anos de 1999 e 2002, em razão de uma conjuntura socioeconomica hegemonizada pelo programa neoliberal e de intensa criminalização dos movimentos sociais. Observaremos no Jornal Sem Terra, na Revista Sem Terra e na página eletrônica o discurso contra-hegemônico do MST pautando uma agenda ampliada de lutas sociais no Brasil em defesa da reforma agrária.

 

8. Wagner Cabral da Costa (Universidade Federal do Maranhão e Universidade Federal do Ceará): Quem com ferro fere, com lápis será ferido! A crítica caricatural das ditaduras do Estado Novo no Brasil e em Portugal

Resumo

A caricatura política tem sido, nas últimas décadas, simultaneamente fonte e objeto da historiografia contemporânea, a partir da crise dos paradigmas e metanarrativas e da renovação epistemológica da disciplina histórica. Assim, pensar as relações entre história e imagens se tornou fecundo e legítimo, ao mesmo tempo em que possibilitou lançar novos olhares sobre a história política, dissociando-a de uma perspectiva tradicional e permitindo o questionamento e redefinição da problemática do poder, absorvendo novos objetos, abordagens e metodologias.

Dessa maneira, a temática tem atraído a atenção de historiadores e outros estudiosos, com o surgimento de pesquisas inovadoras, com focos os mais variados: a trajetória de caricaturistas (ou humoristas desenhadores) e revistas de caricatura; a caricatura como experiência da modernidade; a imagem de políticos e episódios da vida nacional; o papel da representação humorística na história nacional e na construção de “tipos nacionais”, como o Zé-povinho (Portugal) ou seus “primos”, o Zé Povo e o Jeca (Brasil). No entanto, poucos foram os estudos dedicados a análises comparativas, buscando situar a ação (agency) e migração das imagens em contextos políticos específicos, na produção e difusão de contra-imagens do poder instituído, operando nas margens da política oficial, por meio do anonimato e do boato, do riso e do grotesco.

Em nossa pesquisa, trata-se de pensar a caricatura como um ato de imagem (acte d’image), analisando sua intervenção nas lutas simbólicas pelo poder a partir de um locus socialmente situado (a imprensa política e satírica de oposição), as disputas de sentidos e interpretações da realidade histórica, bem como sua colaboração para a formação de culturas políticas nacionais e democráticas; adotando-se ainda a metodologia de análise de séries iconográficas, em conjugação com a reconstrução do circuito de produção, circulação, migração, recepção e apropriação das imagens satíricas.

Assim, analisamos a inserção política e editorial de dois caricaturistas, o brasileiro Théo (Djalma Pires Ferreira) e o português Vasco (de Castro), num processo histórico vivenciado por ambos os países em momentos distintos (no Brasil, após o final da 2ª guerra mundial; em Portugal, com a Revolução dos Cravos), qual seja, a queda das ditaduras do Estado Novo e a transição para a democracia, com seus impasses e conflitos característicos. Em tais processos de redemocratização, configura-se uma agenda política marcada pelo debate sobre questões como: a) a reorganização do sistema partidário; b) as lutas contra a censura e pela liberdade de imprensa; c) a defesa de reformas sociais; d) o enfrentamento da herança da ditadura, presente por meio da continuidade de homens e práticas políticas; e) o reposicionamento do Estado Nacional no contexto internacional, marcado pela Guerra Fria e as guerras coloniais. Em torno dessa agenda nacional se delineiam as disputas políticas e simbólicas dos diferentes agentes e grupos sociais, cada qual procurando conquistar, no presente e no futuro, a hegemonia de seu projeto político específico. Agenda política para a qual se voltaram também as atenções dos desenhistas Théo e Vasco, os quais, com suas caricaturas e posicionamentos, abrem uma profícua possibilidade de análise comparativa sobre os dilemas da transição democrática no Brasil e em Portugal.