▪ A educação do homem antigo - Atenas

 1. Da comunidade primitiva para a antiguidade clássica

        A sociedade da antiguidade clássica traz consigo a novidade da sociedade dividida em classes.  A dualidade das relações de trabalho merece destaque, uma vez que estando a sociedade dividida entre aqueles que exercem o trabalho técnico ou manual e aqueles que dispõem do conhecimento liberal ou científico, todas as outras relações se moldam de forma a justificar e legitimar essa estrutura.

        O animismo, portanto, é substituído por uma religião de deuses (reproduzindo no mito a hierarquização dos seres humanos) e surge a sobreposição do homem livre, possuidor de terras e poderes sobre os demais.

        O homem a ser formado integralmente (ou seja, a paideia vigente) se torna dual tal qual a sociedade. 



2. A educação do homem ateniense


        Muito do material encontradob sobre esse período atende bem à finalidades didáticas, mas talvez peque por demonstrar uma visão demasiada simplista e (por que não?) "romântica" da antiguidade clássica.

        "Formar o homem das classes dirigentes, eis o ideal da educação grega", dirá Aníbal Ponce em seu livro "Educação e Luta de Classes", de maneira a apontar uma visão educacional que se preocupe menos em construir uma imagem idealizada da Grécia Clássica e mais em mostrar o desenrolar histórico-materialista das civilizações humanas.

       Atenas, a pólis da democracia e cultura era representada politicamente apenas por seus cidadãos - ou seja: homens livres, nascidos na cidade-estado e maiores de idade  (uma parcela da população que correspondia à ínfima quantia de 5% de todos os habitantes).

        Dessa forma, a educação voltada para as massas atendia a três finalidades :1ºdestruir vestígios de qualquer tradição inimiga,2ºconsolidar e ampliar a classe dominante e 3º prevenir uma  rebelião e a educação que conhecemos - a que abrange o ensino das artes, da oratória e das atividades físicas - era destinada apenas para os representantes da classe dominante.



2.1. - A velha educação

        A escola elementar fundada por volta de 600 a.C. visava ensinar os jovens a ler, escrever e o conhecimento básico que não poderiam adquirir por mera imitação dos mais velhos. Oras! Uma cidade-estado com uma administração tão mais complexa como Atenas, necessitava de um ensino que fosse coerente com esses homens dirigentes.

        Na ida à escola, os as crianças eram acompanhadas por um escravo (o pedagogo) até um lugar onde as crianças do mesmo bairro se encontravam e iam marchando para a escola, com passos rítmicos e olhos baixos. Havia o ensino da gramática, da música (ou seja: as artes inspiradas pelas musas) e dos esportes.

        Ao completar 16 anos, o jovem nobre ateniense era encaminhado para o ginásio e aos 18 para a efebia (uma instituição de aperfeiçoamente militar e cívico) para se tornar apto à vida pública.

       Esse rigor e essa educação estão bem ilustrados na obra "As nuvens", de Aristófanes. Segue abaixo um trecho que pode ilustrá-la ainda melhor:

   "E em todas as escolas de Atenas
Se seguia o regime dos três DD:
Disciplina, Decoro e Dever.
O programa era a Música e a Ginástica,
Ensinadas de acordo com o ditado:
“As crianças são vistas, não ouvidas”.
Este era o princípio cardeal.
Os alunos, em grupos divididos,
Conforme a região de onde vinham,
Em esquadras marchavam para a escola
Disciplinados e silenciosos.
E eram jovens bem fortes, resistentes.
Mesmo em manhãs de inverno, quando a neve
Caía, a sua única proteção
Contra o rigor do tempo era uma túnica
Muito leve e bem fina. E nas salas
De aula eram os alunos colocados
Em filas e de pé, e muitos atentos
Escutavam as lições e as repetiam
Muitas vezes, de cor, seguidamente.
A própria música era tradicional:
Entoavam-se, então, hinos e cânticos
Bem conhecidos, como, por exemplo,
O que começa: “Uma voz vem de longe”
Ou “Salve, Palas ultriz” e outros cantos
De uma simplicidade que encantava.
Brincadeiras na aula eram severa
E decididamente proibidas.
Aqueles que quisessem improvisar
Ou usar os torneios e trinados
Então em voga na degenerada
 E efeminada escola de Frinis,
Eram severamente castigados
Por ultrajaram as Musas. No ginásio,
Também todo o decoro era exigido.
Nus em pelo os alunos reunidos
Pudicamente as pernas estendiam
Para frente, dos olhos curiosos
Escondendo a nudez. Tão recatados
Eram os jovens então, que sempre tinham
O cuidado de bem limpo deixarem
O lugar onde tinham se sentado,
Para que acaso o traço sobre a areia
Por suas próprias nádegas deixado
Chegar não fosse a provocar desejos.
Era proibido ungir com óleo o corpo
Para cima do umbigo, e, em conseqüência,
O órgão genital era mantido
Com toda a exuberância juvenil.
Para os amantes o comportamento
De todos eles era bem viril.
Não eram vistos em pares aos cochichos,
Nem soltando gritinhos nem olhares
Provocantes lançarem, requebrando.
Na mesa, a educação e a cortesia
Eram cumpridas rigorosamente.
Nenhum jovem jamais se atreveria
A salada sequer provar, sem antes
Terem sido servidos os adultos.
Comida temperada era proibida.
Proibido também dar gargalhadas
Ou as pernas cruzar..."



2.2. A nova educação

        Vencida a Pérsia nas guerras médicas, o poderio grego sobre o comércio marítimo se estabelece e traz a ascenção de uma classe até então desprezada pelos eupátridas: os metecos.

        Esses novos ricos provocam uma transformação em diversos campos: a tragédia se substitui pela comédia, as crenças religiosas cedem lugar à um ceticismo irônico, a noção de dever pela de bem-estar, o ócio digno já não é mais a única representação de homens de poder.

        A figura do Sofista emerge como algo que mais se aproxima de um ensino superior: se propõem a oferecer ao jovem ateniense não apenas os conhecimentos para a vida política, mas também uma conduta independente da religião.

        Há um clamor por uma escola mais alegre e menos rígida, além de uma necessidade de um saber menos enfadonho. A oratória, a riqueza dialética, a desenvoltura e agilidade mental são colocadas sob um grau de importância jamais vistas antes.

        Outra vez, palavras de Aristófanes:

 "Muito bem. Pra começo de conversa,
Tenho de admitir que, entre os letrados
E os pedantes, costumo ser chamado
- Pejorativamente algumas vezes -
De Lógica Sofística, Imoral.
E por quê? Porque eu fui o primeiro
A construir um Método capaz
De subverter as Crenças Sociais
De há muito respeitadas e seguidas
E a Moral respeitada solapar.
Além de tudo, uso um certo truque,
Invençãozinha que a mim mesmo devo,
Que é o de utilizar um argumento
Que parece o pior dos argumentos,
E acabar vencendo, no entanto.
E essa minha invenção tem se mostrado
Extremamente lucrativa como
Fonte de rendimentos. Vede, agora,
Como eu refuto a vã Filosofia.
Prossigamos. Se quiseres
Considerar a nacional paixão
Pela política e pelo debate
Um mal, muito ao contrário eu a aprovo.
Se a política fosse razoavelmente
Tão nefasta e tão má como sustentas,
Então jamais o venerando Homero
- Nosso guia e mentor quanto à Moral -
Jamais, jamais teria retrato
Nestor e outros velhos respeitáveis
Como políticos. Não é mesmo claro?
Agora examinemos a questão
De estudarem os jovens a oratória,
Coisa que eu defendo e tu condenas.
Quanto ao Decoro e à Moderação,
Estas próprias noções são absurdas.
Acho mesmo difícil conceber
Preconceitos tão tolos, ou melhor

 Mais que tolos: prejudiciais.
Poderias, por acaso, me citar
O exemplo de um homem que lucrou
Com a moderação? Um só exemploEu te aconselho, jovem, a encarares
Com cuidado o caminho da Virtude,
Pois se acaso o seguires, não te esqueças:
Despedirás de todos os prazeres
Que hoje te deleitam. Por exemplo:
Sexo, glutoneria, jogatina
Badernas, bebedeiras etc.
O que farás na vida, jovem e forte,
Se deixares de lado tais deleites
Essas pequenas alegrias? Pensa
Em tuas naturais necessidades.
Supões que, sendo exemplo da virtude,
Cometas, algum dia, um pecadilho,
Uma seduçãozinha, um adultério,
E, por azar, tu sejas apanhado
Com a boca na botija. Que farias?
Tu estarias desmoralizado,
Não poderias defender-te, é claro,
Sem ter nunca aprendido como agir
Em tal situação imprevisível.
Segue, porém, os meus conselhos, jovem,
E faz o que te dita a natureza.
Goza a vida, diverte-te e te rias
Do mundo sem escrúpulos. Se acaso
Em flagrante tu fores apanhado,
Afirma simplesmente ao pobre corno
Que não tens culpa, e invoca como exemplo
O Zeus onipotente, que não pode
Ver mulher sem tratar de conquistá-la.
Se um tão grande e poderoso deus
Não pode resistir, como querer
Que um pobre mortal tenha a arrogância
De ministrar ensinos de moral
Aos deuses imortais? Não é possível.
A oposição entre os dois discursos é gritante: o primeiro, correpondente à nova educação, confere valor à vida medíocre, ao ócio digno, ao rigor e à obediência. Esse segundo exige mudanças radicais não apenas no âmbito educacional, mas em todos os segmentos sociais.



2.3 A educação da mulher


Trabalhando fundamentalmente com o caso ateniense, procuraremos apresentar alguns aspectos sobre a condição da mulher no Período Clássico. Observamos precipuamente que as mulheres gregas em geral eram despossuídas de direitos políticos ou jurídicos e encontravam-se inteiramente submetidas socialmente. A ateniense casada vivia a maior parte do tempo confinada às paredes de sua casa, detendo no máximo o papel de organizadora das funções domésticas, estando de fato submissa a um regime de quase reclusão.
        Mesmo antes do casamento, nem se pensava que a jovem pudesse encontrar-se livremente com rapazes, visto que viviam fechadas nos aposentos destinados às mulheres – o gineceu. Deviam lá permanecer para ficar longe das vistas, separadas até dos membros masculinos da própria família.
Sua educação, portanto, condizia com a sua situação social: seus ensinamentos se restringiam aos conhecimentos domésticos e a um mínimo grau de instrução.
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