A MULHER AO LONGO DA HISTÓRIA DA INFORMÁTICA

A mulher ao longo da história da informática

Apesar da ideia preconceituosa de que as mulheres não possuem competência para a tecnologia, elas foram muito importantes para o desenvolvimento da informática, como pode ser visto pelo trabalho realizado pelas pioneiras, que tiveram uma importante participação no desenvolvimento da informática e, na maioria das vezes, permanecem invisíveis.

 

As pioneiras são Ada Byron (Lady Lovelace), a primeira mulher considerada programadora da história e Grace Murray Hopper pela sua contribuição no desenvolvimento da linguagem de programação COBOL, utilizada ainda nos dias de hoje e pelo desenvolvimento do primeiro compilador.

 

Augusta Ada Byron - Lady Lovelace (1815-1852)

Augusta Ada Byron nasceu em Londres, filha do famoso poeta inglês Lord Byron e de Ann Isabella Milbanke, uma matemática cujo título era Princesa dos Paralelogramos, que encorajou a filha a estudar matemática. A história de Ada está ligada à história de Charles Babbage e sua máquina de calcular. A primeira máquina de Babbage é o denominado Engenho Diferencial, cujo objectivo era computar tabelas aritméticas. Após a apresentação do Engenho Diferencial, ocorreu a Babbage que a sua máquina já estava superada, que era necessário construir uma nova máquina, pois o Engenho Diferencial somente podia realizar adições e era preciso uma máquina que realizasse todas as operações matemáticas, o que resultou na criação do Engenho Analítico, cujos conceitos são utilizados ainda hoje pelos computadores modernos. O Engenho Analítico fazia uso, na sua programação, de cartões perfurados, desenvolvidos pelo tecelão francês Joseph-Marie Jacquard.

 

Através de Mary Somerville, amiga de Ada e matemática responsável pela tradução do trabalho de Laplace (Mécanique Céleste) para o inglês, por volta de 1833, com 17 anos, Ada foi apresentada a Babbage e suas ideias sobre o Engenho Diferencial.

 

Em 1842, L. F. Menabreas escreveu um artigo sobre o funcionamento da máquina analítica de Babbage, cujo título era Notions sur la machine analytique de Charles Babbage. Aproximadamente dez anos depois, Ada traduziu o artigo de Menabreas, e suas anotações eram 3 vezes maiores que o artigo original. Nas anotações, utilizando os números de Bernoulli como exemplo, Lovelace desenvolveu conceitos e estruturas que se assemelham com as estruturas utilizadas na programação actualmente. O exemplo utilizado por Ada seria mais tarde considerado como o primeiro programa de computador da história, cem anos antes do primeiro hardware ter sido construído. Impressionado com as anotações de Ada, Babbage convidou-a para o ajudr no desenvolvimento do seu engenho. Ela participou do desenvolvimento dos exemplos para demonstrar o funcionamento do engenho de Babbage, fazendo desde cálculos até a produção de música. Todavia, o Engenho Analítico não foi construído, pois a falta de apoio público, de financiamento, as próprias excentricidades e falta de saúde de Babbage contribuíram para o abandono da máquina.

 

Ada também contribuiu financeiramente para o projecto, utilizando a fortuna da sua família após Babbage perder o financiamento do governo inglês. Porém, a maior limitação foi a capacidade técnica da época, pois não existiam máquinas capazes de produzir os componentes necessários para a construção do Engenho Analítico, fazendo com que o projecto ficasse somente no desenho. Durante grande parte de sua vida, Ada esteve doente, com diversas crises, desmaios, ataques de asma e paralisias, que na época caracterizavam a histeria. Ada em muitas ocasiões chegou a acreditar que a causa de sua histeria seria o uso de seu intelecto, e chegou a escrever: “numerosas causas contribuíram para produzir os desequilíbrios passados e, no futuro, vou evitá-las. Um dos ingredientes (mas apenas um entre muitos) foi excesso de matemática”.

 

Em 1852, com 36 anos, morreu de cancro. Para a homenagear, em 1979, o Departamento de Defesa Americano deu o seu nome a uma linguagem de programação, a linguagem ADA.

 

Ada é considerada como a primeira mulher programadora de computadores do mundo. Ela inventou inúmeras técnicas de programação, entre elas, o comando condicional IF-THEN, o conceito de tipos, operadores, matrizes e loops, assim como a utilização do sistema binário ao invés do decimal. Apesar da importância da sua contribuição para o desenvolvimento da informática como a conhecemos hoje, Ada é citada por ter ajudado Babbage na documentação das ideias. Ela é recordada como filha de Lord Byron, o poeta, e não de sua mãe que era uma matemática famosa. A família e a educação dos filhos afastaram Ada dos estudos matemáticos, ainda assim, ela é apresentada como uma mãe negligente cuja morte precoce interrompeu o seu percurso profissional.

 

 

Grace Murray Hopper (1906-1992)

 

Hopper nasceu em Nova York. Em 1928, formou-se em Matemática e Física no Vassar College, continuando seus estudos na Universidade de Yale, onde defendeu o mestrado em 1930 e o doutorado em 1934 em Matemática. No ano de 1943, Hopper deixa seu cargo de professora no Vassar College e entra para a Marinha, no WAVES (Women Accepted for Voluntary Emergency Service – Mulheres Aceitas para Serviço Voluntário de Emergência). Essa mudança não surpreendeu quem a conhecia, pois Hopper vinha de uma família com tradições militares. Após a sua saída da Marinha Americana, Hopper foi designada para o Bureau of Ordinance Computation Project na Universidade de Harvard, onde trabalhou na programação da série de computadores Mark I. Por seu pioneirismo e sucesso na programação de aplicações para os computadores Mark I, Mark II e Mark III, ela recebeu o Naval Ordinance Development Award.

 

Por volta de 1944, idealizou o conceito de sub-rotinas utilizado ainda nos dias de hoje, cujo objectivo era aproveitar módulos de comandos que fossem utilizados para diminuir o tempo e o esforço. Hopper é a responsável pelos termos bug e debug. Em 1945, enquanto escrevia um programa para o computador Mark I, este parou de funcionar. Ao tentar encontrar o problema, achou uma mariposa (bug) interrompendo os circuitos da máquina e, ao retirá-la (debugging), a máquina voltou a funcionar. O Mark I era uma máquina enorme, com três quartos de milhão de peças, oitocentos quilómetros de fios, várias rodas contadoras, mancais, garras de engate e relés.

 

A mariposa foi colada com fita adesiva no seu relatório, que hoje se encontra num museu. Até os dias actuais, sempre que há um erro num programa, diz-se que há um bug, e é necessário utilizar o debug para o resolver. Ainda desenvolvendo o seu trabalho em Harvad, Hopper concebeu a ideia de escrever um programa que criasse um programa, ou nos termos actuais, construir um compilador.

 

Em 1949 junta-se à Eckert-Mauchly Computer Corporation, cujo objectivo era produzir computadores comerciais. Em 1952, Hopper desenvolveu o primeiro de uma série de compiladores (A-0) que foi com sendo aperfeiçoado com o tempo, resultando em mais duas versões (A-1 e A-2).

 

Como fazia a grande maioria dos técnicos, os nomes dados aos programas não eram comerciais, e quando a quarta versão do compilador (A-3) foi finalizado, o departamento de vendas nomeou o compilador de MATH-MATIC. Hopper achava que as linguagens deveriam ser mais amigáveis e desenvolveu uma linguagem baseada no inglês, o FLOW-MATIC, que foi a primeira e mais utilizada linguagem da época. Hopper exerceu grande influência na formulação de uma linguagem comum orientada para negócios, que deu origem ao acrónimo COBOL (Common Business Oriented Language), linguagem utilizada ainda nos dias de hoje, e que foi baseada na linguagem FLOW-MATIC. Aos 85 anos, a 1 de Janeiro de 1992, Hopper morreu e o seu funeral teve honras militares. Para a homenagear, a Marinha baptizou um destroyer com o nome USS Hopper e uma moeda com sua esfinge foi produzida.

 

 

As Pioneiras do ENIAC

 

O ENIAC, localizado na Universidade da Pensilvânia, desenvolvido por John Mauchly e J. Presper Eckert, foi o primeiro computador electrónico do mundo e programado inicialmente por seis mulheres:

Kathleen (Kay) McNulty Mauchly Antonelli;

Jean Jennings Bartik;

Fraces Synder Holberton;

Marlyn Wescoff Melzer;

Fraces Bilas Spence;

Ruth Lichterman Teitelbaum.

 

Estas mulheres faziam parte do Corpo Voluntário Feminino para Emergências (WACS), durante a Segunda Guerra Mundial (1945), cujo trabalho era realizar cálculos balísticos, um trabalho difícil, dado que naquela época, ainda ninguém tinha programado um computador, então não existia nada e ninguém com quem aprender. A única ferramenta disponível era um diagrama lógico em blocos do ENIAC. É importante observar que esses cálculos eram considerados muito importantes para a guerra, e estas mulheres foram escolhidas pelas suas habilidades em matemática, além de entenderem que elas eram mais capazes e rápidas do que os homens para realizar os cálculos. Ao todo, 75 mulheres fizeram parte do projecto além dos homens, contudo as mulheres no projecto não possuíam o mesmo respeito que os homens.

 

O ENIAC ficou pronto somente no final da Guerra e, ao invés de ser utilizado para o cálculo balístico, o seu objectivo inicial, foi utilizado para realizar cálculos relacionados com os estudos secretos das reacções termo-nucleares, a bomba de hidrogénio. Sobre estas mulheres pioneiras que escreveram, ou melhor, programaram a história do ENIAC e da própria informática, assim como noutras áreas da ciência, as mulheres na informática permaneceram invisíveis e sua contribuição desconhecida. A óptica androcêntrica do campo científico não só dificultou a participação feminina como também manteve as mulheres fora das oportunidades favoráveis ao reconhecimento.

 

 

Outras mulheres que se destacaram na informática

 

Outras mulheres foram e são importantes para o desenvolvimento de várias ferramentas na informática, porém as informações sobre elas são escassas. Entre elas destacam-se:

 

Marina C. Chen: a sua pesquisa inclui o design e a implementação dos compiladores Fortran para plataformas de alta performance. Também foi Presidente da Cooperating Systems Corporation;

Adele Goldberg: trabalhou na criação do primeiro “window”, uma interface baseada em ícones;

Madge Greswold: ajudou no desenvolvimento da linguagem de programação ICON;

Lois Haibt: desenvolveu um analisador de expressão aritmética, componente essencial para o compilador FORTRAN;

Sister Mary Kenneth Keller: participou no desenvolvimento da linguagem BASIC. Foi também a primeira mulher a receber o grau de doutora em ciência da computação nos Estados Unidos;

Emmy Noether: pesquisou álgebra abstracta que forneceu os fundamentos para a criação da linguagem PROLOG;

Susan Owicki: pesquisou sistemas distribuídos, análise de performance e sistemas fiáveis para o comércio electrónico;

 

A falta de modelos femininos tem sido apontada como um dos factores que leva à pequena participação das mulheres nas ciências, principalmente nas ciências exactas. Desta forma, para a computação, que é uma ciência exacta, é também importante resgatar a história das mulheres que contribuíram para a evolução da informática, área que alguns acreditam não lhes interessar. A história das pioneiras evidencia o seu papel fundamental no desenvolvimento da informática, porém, os seus nomes nem sempre são lembrados, ou mesmo mencionados. A norma científica que vincula a produção académico-científica ao apelido dos/das autores/as dificulta a identificação das mulheres, uma vez que a cultura androcêntrica condiciona a pensar que o autor é do sexo masculino.

 

A ideia de que o invento teve autoria feminina muitas vezes nem sequer é tida em consideração. As pioneiras destacam-se principalmente na área de software, actividade que necessita de lógica matemática para o seu desenvolvimento, talvez por isso, as citadas eram quase todas matemáticas. E pensar que raciocínio lógico é uma das qualidades que nem sempre é dada a uma mulher. Como explicar este fenómeno? Determinação e gosto pela matemática. Sem estas características, nenhuma delas se empenharia na difícil actividade de trabalhar com software.

 

Talvez tenham sido incentivadas para a matemática pelas suas famílias, ou por professores que não criaram barreiras que ainda persistem, principalmente para as raparigas na escola, na família e na sociedade. Mesmo em número reduzido, as mulheres que se dedicaram à informática marcaram o desenvolvimento desta área do conhecimento e da sociedade como um todo. Se os obstáculos para que as mulheres sigam as suas carreiras profissionais forem reduzidos, se a família, os professores, a sociedade como um todo passarem a incentivar as mulheres a ingressar em carreiras científicas, num futuro próximo esta situação possa ser revertida e a participação feminina nas carreiras científicas em geral, e na informática especificamente aumente significativamente.

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