home‎ > ‎

expedicoes


henry Henkels

ensaios

 Expedições & Aventuras

 © 2006 by henry Henkels Diário e Fotos

hhenkels@gmail.com

Expedição ao Salto do Yucumã 

14 a 18 de fevereiro de 2006

PARTICIPANTES: Arno Bender (48) e Henry Henkels (49)

EQUIPAMENTO RODANTE:

Moto1 Honda 900cc ano 1982, 4 cilindros – mod, Bol d’Or

Moto 2 Honda 125cc ano 2005, 1 cilindro – mod. Fan

LISTA DE MATERIAIS E EQUIPAMENTOS

NOTA: Os materiais selecionados estão em consonância com uma viagem como esta, de baixo índice de selvageria, um roteiro só por dentro do Brasil, por região dotada de civilização mediana. Passamos por cidades médias que permitiu contar inclusive com serviços de concessionárias Honda, para  troca de óleo e outros pequenos ajustes.

EQUIPAMENTO DE SEGURANÇA (por pessoa)  – Capacetes, óculos anti-embaçantes, roupa de chuva, luvas.

MATERIAL BÁSICO (por pessoa) –  1 barraca, 1 colchonete térmico, 1 saco de dormir, 1 travesseiro de campanha, 1 lanterna de cabeça, mudas de roupa, 1 camiseta (T-Shirt) p/ dia, 1 conjunto de moleton,  1 par chinelos havaianas, 1 par de sapatos extra ou tênis, 1 canivete suíço ou chino, talheres, cumbuca & xícara, kit básico de higiene (nécessaire), 2 toalhas, 1 toalha uso geral (waschlappen), mochila grande (min. 70 litros), sacolas plásticas em profusão, cintas de aperto, tiras e redes elásticas, cordas, kit de ferramentas básicas da moto.

MATERIAL DE APOIO (partilhado) – caderno de anotações, conjunto de mapas rodoviários (1 do Brasil e 1 Mercosul), 1 GPS, 1 telefone celular carregado, 1 lamparina a querosene + querosene, 1 fogareiro a álcool (espiriteira) + álcool, 2 panelas de campanha, 1 cantil de água, facão, máquina fotográfica digital, binóculo,  remendo interno rápido de pneu (TyrePando), 2 pilhas alcalinas novas, radinho receptor ondas curtas,  protetor solar (p/ mãos e rosto), repelente de insetos, fósforos, kit de primeiros socorros, kit sobrevivência (sal, fósforos isolados, 2 agulhas, manta de papel alumínio, 3m de nylon).

14 de fevereiro    

08:37 – Saída de São Bento do Sul – abastecimento. Seguir para Rio Negrinho, Mafra e Canoinhas – todas em SC. Rodovia BR-280. Tempo firme.

12:30 – Porto União da Vitória SC/PR – Almoço, comida em quilo. Sol forte. Seguir para BR-153 e depois para Bituruna PR. Essa cidade é um pequeno vilarejo de faroeste.

 Bituruna PR e seu velho posto Ypiranga

15:01 – Usina de Foz do Areia, no rio Iguaçu. Existem inúmeras placas alertando aos motoristas para não parar sobre a barragem, uma vez que a estrada passa sobre ela. Bem,  nós paramos para fotografar. Como está cheio de câmeras,  imediatamente um alto-falante começa a avisar que é proibido parar sobre a barragem. Deve haver um macaquinho em frente a um monitor de TV que vê de pronto se alguém parar. 

Rio Iguaçu


Barragem da Usina Foz do Areia

               

Seguimos para a cidade de Pinhão PR e dali para Reserva do Iguaçu PR. Aqui pegamos um trecho de 35 km de estrada de terra. Adiante da cidade, a uns 12 km, existe uma vila residencial para o pessoal da COPEL que trabalha nas hidrelétricas da região. Lá tem hotel e camping. A vila residencial fica num bonito bosque e deve ter umas 120 casas. É cuidadosamente ajardinada, ruas asfaltadas. Dispõem de posto de saúde, igreja, escolas, quadras esportivas, supermercadinho, posto de gasolina e outras facilidades, além do hotel. Abaixo desta vila, ficam duas barragens de hidrelétricas, do complexo Salto Segredo. Ao lado da barragem dessas usinas é que vamos acampar e pernoitar. Compramos o miojo, pão, mortadela e a cerveja no supermercado e seguimos até o local, que ainda fica a 10 km de distância.

 Estrada de terra em Reserva do Iguaçu

19:10 – Acampamento a beira do lago da Usina Salto Segredo. Banho na própria água da represa. A represa é vigiada por seguranças da COPEL, que vieram duas vezes verificar se tudo estava em ordem. Percorrem toda a extensão das margens num veículo Gol. Noite sem novidades e sem mosquitos.  – 443 km percorridos.

    Onkel Heni

Acampamento à beira do lago da Usina Salto Segredo

Benderiano 
Reservatório Salto Segredo 

15 de fevereiro          

8:40 – Saída, depois de levantar acampamento. Pretendemos tomar café na próxima cidade que é Mangueirinha PR, a 31 km de onde acampamos, por estrada de terra, mas que está em serviço de asfaltamento. O Bender teve que re-amarrar toda sua tralha que estava caindo de sua moto. Perdemos um tempão nessa operação.

10:20 – Mangueirinha PR – café e abastecimento das motos. Esta região do sudoeste do Paraná foi palco de muitos conflitos fundiários nas décadas de 1950/60. O dono da lanchonete conta histórias escabrosas de conflitos resolvidos à bala ainda na década de 1970, quando para cá veio do Rio Grande do Sul. Seguimos por Coronel Vivida, Itapejara d’Oeste em direção a Francisco Beltrão, tudo no estado do PR. Passa-se por dentro de uma reserva indígena Kaingang, coberta de matas e cercada de campos de soja. Os casebres dos índios são bem precários. Começa a chover.

12:40 – Francisco Beltrão PR – Almoço – como de praxe, comida em quilo. Aproveitamos essa cidade maior e fazemos troca de óleo do motor das motos na autorizada Honda. Seguimos via Marmeleiro PR e Flor da Serra do Sul PR em demanda a Dionísio Cerqueira SC. A chuva já passou. Nosso roteiro prevê as Missiones jesuíticas na cidade de Posadas, na Argentina e Encarnación, no Paraguai.

15:40 – Fronteira Brasil / Argentina. Aduana em Dionísio Cerqueira SC. Já havíamos comprado 200 pesos argentinos, por R$ 160. Passamos com as motos pelo cocho de líquido para desinfetar a febre aftosa e deram um borrifo em nossas botinas. Bom, agora vamos à documentação: precisa documento comprobatório de imunidade sanitária (vacuna de febre amarilla) – não temos. Precisa documentos de propriedade das motos, – OK,  temos. Precisa carteira de identidade, NÃO TENHO !!!!... Esqueci essa coisa preciosa na gaveta de minha escrivaninha do computador, lá em casa. Ai foi tudo pro brejo... não houve meio de nos deixarem passar só com a carteira de habilitação, que no Brasil também vale como carteira de Identidade, mas lá não aceitaram. O que faremos? Subimos nas motos, avançamos até um cone de borracha de sinalização já em território argentino, contornamos o dito cone e voltamos ao Brasil. Pelo menos saímos do território nacional, nem que fosse só para contornar aquele cone de borracha. Vamos tomar uma cerveja numa bodega e repensar o roteiro. Vendemos os pesos pro dono do boteco onde fomos tomar aquela famigerada cerveja que nunca acabava. Era uma garrafa de um litro, como é usual na Argentina. O dono do estabelecimento puxou conversa e ficamos sabendo que seu filho mora e trabalha numa fábrica de móveis (Artefama), lá na distante São Bento do Sul, nossa cidade.

 

 Perto de São Miguel d'Oeste

16:58 – Saída de Dionísio Cerqueira, na demanda de São Miguel d’Oeste. Passa-se por Guarujá do Sul, São José do Cedro e Guaraciaba, todas em SC, antes de alcançar aquela cidade. Em ali chegando fomos informados que havia uma estação de águas termais em São João do Oeste que tem um ótimo camping. É para lá que vamos então, 45 km até lá ainda.

19:10 – Camping e Clube de Campo, em São João do Oeste SC. Esta cidade é de colonização alemã e tem 3.500 habitantes, todos católicos, fazem questão de frisar. Foi desmembrada de Itapiranga em 1983. Falam bastante a língua materna entre si, mas não pude me entender bem com eles, pois são imigrantes originários da região do Hunsrueck, na Alemanha, e seu dialeto é terrível. Quase também não me entendiam quando a eles me dirigia, falando em alemão corrente (Hochdeutsch). São muito conservadores nos costumes e nos valores. A cidade é limpíssima e bem organizada. A economia é agro-industrial. De noite acabamos indo a um restaurante e comemos salame assado e queijo. Produtos produzidos na cidade, de ótima qualidade. Na volta para o acampamento vimos luz no bar a beira da piscina. Fomos convidados a participar de uma peixada com alguns moradores da cidade. Ótimo papo. Fomos dormir depois da meia noite. – 861 km até aqui.


Travessia do rio Uruguai SC / RS - balsa

16 de fevereiro

08:30 – Café da manhã na lanchonete do Clube de Campo / Camping. Choveu a noite e as barracas molharam bem, dando mais trabalho para desarmar. O Bender dormiu com a porta da barraca aberta, fechando só a tela contra mosquitos e seu material (que não é pouco – inclusive edredom ele traz) molhou tudo. 

10:00 – Saída do Camping. Nos cobraram só R$ 5,00 pelas duas barracas. Seguimos em direção a Itapiranga, na divisa SC/RS, que fica só a 21 km. Mas começa a chover forte, de sorte que temos que vestir o abrigo impermeável. Operação demorada. Há uma interrupção no trânsito por causa do asfaltamento de um trecho da estrada, em que perdemos mais 20 minutos.

12:07 – Itapiranga SC – Cidade bonita de colonização alemã mas com ar de cidade gaúcha, as margens do rio Uruguai. Não estamos com fome de maneira que resolvemos atravessar a balsa depois de percorrer a cidade para reconhecimento. A travessia custa R$ 9 por moto, mas quando fomos pagar, já no lado do RS, acabaram por nos cobrar só R$ 5 de cada. A balsa atravessou o rio só com as nossas duas motos naquela ocasião. No lado gaúcho a cidade chama-se Barra da Guarita. Parou de chover e o tempo abriu radiosamente. Dali até a cidade de Derrubadas onde estão os Saltos de Yucumã, nosso objetivo, são 23 km, mas como tivemos duas perdidas, deu 29 km, de modo que percorremos só 59 km hoje. Essa região é belíssima embora já esteja dominada pela soja.

 
O sol voltou às margens do Uruguai

 Missões das vacarias do Rio Grande  


13:10 – Derrubadas RS – Camping / Pesque Pague. Almoço: filé de peixe pescado na hora, a milanesa frito. Fantástico... Abrimos os materiais que ainda estavam molhados da chuva da noite anterior. Armei  provisoriamente a minha barraca, mas secou rapidamente no sol esturricante. Coloquei as coisas que também secaram rapidamente em seu interior. O Bender estendeu um varal e pendurou sua numerosa parafernália para secar e saímos para Parque Florestal Estadual do Turvo, onde se localiza o Salto Yucumã.

14:05    YUCUMÃ – Saímos com pressa, pois o parque florestal exige que se volte antes das 17:00, quando termina o horário de visitação. A entrada do parque fica a 5 km da cidade e dentro dele se percorre mais 15 km até chegar aos saltos, no rio Uruguai. Ao chegarmos, o guarda-parque olhou desconfiado para as motos e disse que com pára-lamas baixo é muito ruim quando chove pois a lama entope e trava a roda. Quis nos demover de entrar naquela hora, mas insistimos e acabou concordando. Cobram uma entrada de R$ 5,43 por moto. Não é R$ 5,00 nem R$5,50 ou R$6.00... é 5,43... gaúchos doidos. A estrada é precária e seus primeiros 2 ou 3 km estavam péssimos e lisos, depois melhorou com um ensaibramento razoável. Parece que vai chover e a coisa ficará bem divertida.

14:40 – Visitação ao fantástico Salto de Yucumã. Trata-se de uma fenda de 1,8 km de comprimento por 12 a 15 metros de altura em que o rio despenca lateralmente. O panfleto turístico informa que existem pontos na falha em que o rio tem até 90 metros de profundidade, o que não é possível verificar na prática. Quando o rio está com sua vazão normal grande parte da água corre só pelo lado argentino, sendo possível chegar ao lado pelo lado brasileiro que fica seco. Em situação de cheia do rio, a água corre também pelo lado brasileiro impossibilitando a visitação. Em pequenas corredeiras pode-se ver cardumes de peixinhos saltarem, subindo o rio na piracema.

   

   Benderiano  (rio abaixo)    <   jusante   -   montante >    (rio acima)  Onkel Heni


Peixinhos na piracema - só dois aparecem 

 Os peixinhos estão assinalados 

De onde os peixinhos vem...  

... e para onde vão.

Vista geral e rochas magmáticas - a outra margem é território argentino. Na cheia do rio, a água escorre pelo lado de cá também

Na parte superior das quedas uma pequena parte da água do rio desvia por um canal e desce pelo lado brasileiro. Acima desse canal há um remanso bem raso e calmo que permite banho. No nosso caso, como não havia nenhum outro visitante naquela hora e estava extremamente quente, pudemos tomar um banho refrescante sem roupas mesmo. Não havíamos trazido roupas de banho.

Canal secundário no lado brasileiroo

 Remanso bom para banho


16:20 – Na saída do parque, despencou o dilúvio. O guarda tinha razão. A lama que rapidamente se formou na estradinha dificultou nossa vida. Quando chegamos naqueles 3 km finais antes da saída, foi duro. A base ficou especialmente lisa e o Bender teve dificuldades para conduzir a sua pesada moto de 900cc de mais de 240 kg.  Eu com minha pequena 125cc estava um pouco mais tranqüilo, mas também não podia facilitar. A chuva era torrencial, uma super tempestade de verão. Até que, já andando a uns 20km/h, ainda dentro do parque, o Bender escorregou para fora do trilho da estradinha, foi para o barranco lateral e caiu, na lama, bem devagar e quase parando. Aquela máquina é pesada, tivemos que pegar em dois para levantar. Não houve nenhum tipo de dano na moto, só a lama. O problema foi que na queda, o Benderiano se protegeu com o cotovelo direito, mais tarde começou a se queixar de dor no ombro.

17:30 – De volta ao camping se tornou necessária uma lavação das motos pois estavam sumidas embaixo da lama vermelha. É uma argila super pegajosa. O Delmir Anklam, um dos sócios do estabelecimento tem um lava-jato. Aí sim... O Bender resolveu alugar um chalé, visto que seu material ainda estava úmido da chuva na noite anterior. Por sorte os responsáveis pelo camping recolheram as coisas que estavam secando no varal quando caiu a tempestade. De minha parte, dormi na barraca mesmo pois meu material já está bem seco e não molhou com a nova chuva. À noite, peixe frito com cervejinha, muitas... Ótimo... – 920 km até aqui, só 59 km hoje.

Camping e Pesque-Pague do Delmir


17 de fevereiro

10:20 – Saída do camping e de Derrubadas RS, depois de um lauto café da manhã, daqueles de colônia. Atrasamos bastante a saída pois a moto do Bender apresentou problema elétrico de não dar partida. Depois de muito procurar, descobrimos que um dos pólos da bateria, o que fica escondido atrás, soltou com a queda do dia anterior e passou a dar contato insuficiente. Tudo resolvido. Vamos para a estrada. Passamos pelas cidades de Tenente Portela, onde na praça central, há uma bonita estátua de um índio de 3,7 metros de altura toda feita ferro-velho de peças de automóveis, Dali segue-se para  Palmitinho e Frederico Westfalen, já na BR-158, tudo no RS.

Derrubadas RS - avenida central 

 Índio de ferro-velho em Tenente Portela RS


13:15 – Próximo à fronteira RS/SC paramos num restaurante de rodízio de peixe, no município de Irai RS. Comida muito boa a preço módico. Dali seguimos  já em SC, para Palmitos, São Carlos, Águas de Chapecó, Chapecó, Xaxim e Xanxerê de onde seguimos em direção norte na demanda de novo ao estado do PR.

Salto no rio Chapecó

16:00 – Abelardo Luz SC, chegada aos Saltos do rio Chapecó. O Bender conhecia essa cidade de sua infância, quando para cá vinha em piqueniques com os pais. Banhavam-se nesse rio.

16:40 – Camping - que chamam de Prainha, à beira do rio Chapecó, em Abelardo Luz. Tem boa infra-estrutura, restaurante, lanchonete, banheiros razoáveis, cabinas telefônicas e até posto policial. Parece que antes do posto policial o local era bastante freqüentado pelos amantes de uma charola de fumo. – 270 km hoje, 1190 até aqui.


NÃO DEU CERTO!....


18 de fevereiro

8:15 – Saída do Camping. Vamos tomar café em Clevelândia PR, que fica 36 km adiante.

9:50 às 11:17 – Clevelândia - Visita para rever antigos amigos e conhecidos do Bender, que passou sua infância nesta cidade. Voltava depois de 30 anos.

12:20 – Campos de Palmas, geradores eólicos da COPEL. Lanche rápido para  forrar o estômago. Dali para Jangada do Sul, General Carneiro e União da Vitória.


16:47 – Temporal em Mafra SC. Verdadeiro dilúvio bíblico.

17:44 – Chegada em São Bento do Sul – 1617 km de percurso total.

Comments