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henry Henkels

ensaios

 

O bostinha político

 © 2006 by henry Henkels

hhenkels@gmail.com


******* Dedico este ensaio a  James Henkels (1968-2008) – esteja em paz, meu irmão!... 


 

Os fatos narrados neste relato são reais

No ano de 1968, minha família se mudou de Blumenau para Curitiba. Fomos morar num loteamento recém aberto no bairro do Boqueirão, um pouco adiante do Quartel do Exercito, o  5º Batalhão de Artilharia, tecnicamente o 5º  Grupo de Artilharia de Campanha Auto Propulsado (5º GAC  AP).

O futuro conjunto residencial onde passei a morar ficava numa área de campo aberto em que nem as ruas ainda haviam sido abertas. Nossa casa ficava isolada no alto de um morro com outras poucas casas localizadas a certa distância. O local era muito bonito, os campos ficavam cobertos de geada para depois o sol brilhar radioso, naqueles dias de inverno de 1968.


Figura 1 - Avião Douglas DC-6 Cloudmaster  PP-YSI  - figura diária  nos céus de Curitiba em 1968


Uma das coisas mais legais na minha nova cidade eram os aviões, o que não tinha em Blumenau. Como o aeroporto de São José dos Pinhais não ficava longe, em muitas rotas os aviões ao decolarem passavam exatamente sobre nossa casa, voando baixo ainda. Também podíamos ver de longe as aeronaves taxiando no aeroporto, visto que nossa casa ficava bem no alto do morro como já comentei. Todos os dias pelas 12:45 passava um quadrimotor a hélice, da VARIG, prefixo PP-YSI. Aquele avião era o máximo. Muitos anos mais tarde, pela internet, fiquei sabendo que era um Douglas DC-6 “Cloudmaster” e fui conhecer a sua história. [1] ver notas no final da pagina

Aos fundos dessa área onde morávamos, havia uma pequena vila, umas cinco ou seis casas, de famílias de menonitas. Acho que eram canadenses. Como aquela gente criava vacas de leite, minha mãe fez um acerto para comprar leite deles. Ficou sendo minha responsabilidade buscar o litro de leite diário. Funcionava assim: eu levava a garrafa vazia, limpa, e trazia o litro cheio. Nessas famílias menonitas havia crianças, mais ou menos da minha idade, que falavam uma língua que eu não entendia. Era inglês. Mesmo assim conseguia me entender com alguns deles, pois também falavam alemão. Essas crianças tinham um pouco de inveja de nós, os outros, que brincávamos no campo soltando pipas (que eu chamava de pandorga), ou de “mocinho” (ou far-west como chamávamos) e tínhamos carrinhos de rodas de madeira para descer os morros e jogávamos peladas de bola. Os pais das crianças menonitas eram muito severos e não deixavam seus filhos se misturarem conosco naquelas brincadeiras. Ficavam frustradas. Na verdade era discriminação, pois havia dois ou três meninos pretinhos no nosso grupo e não deixávamos de ser os mais bem acabados protótipos de verdadeiros moleques. 

 

Figura 2 - Um Dart Herald igual a esse, da companhia Sadia, se acidentou no pico do Marumby em dezembro de 1967. Esses modelos eram comuns no aeroporto de São José dos Pinhais em 1968.


Numa outra direção,  havia uma casa isolada também, como a nossa, em que morava um casal de suíços de idade já avançada. Moravam sozinhos. A mulher, cristã fervorosa, adotou o nome de D. Luiza (seu nome verdadeiro era Louise). Falava com carregado sotaque francês visto que era da parte francesa da Suíça.  D. Luiza montou uma “escolhinha dominical” cristã na parte de baixo de sua casa, que minha mãe nos fazia freqüentar, visto que não tínhamos igreja luterana por perto, apesar de ser de orientação “pentecostal” segundo a idosa senhora sempre falava.

O marido da D. Luiza era um velhinho tudo de bom, de nome Jacó (Jakob). Quase não falava português, mais correntemente o alemão, pois  era da parte alemã daquele país europeu, de modo que com ele conseguia me entender, mesmo que precariamente, pois o seu dialeto suíço era muito diferente para mim. Criava coelhos como hobbie, o que é um delírio para qualquer criança. O “seu Jacó” fazia uma outra coisa ótima. Alguns dias da semana, especialmente aos domingos, comprava jornais, coisa que meu pai não tinha por hábito fazer. Talvez estivesse tentando se aprimorar na língua portuguesa, pois me parecia ser uma pessoa muito esclarecida e culta. Ali por terça ou quarta-feira o seu Jacó me emprestava seus jornais já lidos, conquanto que os devolvesse depois. Acho que os vendia para papel de embrulho. Comprava normalmente o Estado de São Paulo e Gazeta do Povo. 

Então, cá estou eu, aos 11 anos, em pleno louco ano de 1968, lendo jornais regularmente. Nenhum outro menino se interessava por aquilo, acho que achavam que eu era definitivamente fora-da-casinha. 

Nessa mesma época aconteceu outra coisa que me marcou. As contas de energia elétrica, as “contas de luz” como se dizia, passaram a ter que ser pagas em bancos. Até então o próprio funcionário da empresa de energia, no momento que fazia a leitura dos medidores, cobrava a conta anterior. Agora teria que ser pago nos bancos. 

Mas para nós, lá no fim do mundo do Boqueirão, isso era problema. Meu pai era representante comercial, chamavam “caixeiro-viajante”, por isso viajava muito. Minha mãe estava grávida do meu irmão caçula, que nasceria logo. Ai foi assim:  um dia, fui com minha mãe de ônibus até o centro de Curitiba pagar uma daquelas contas, depois ficaria comigo a responsabilidade por aquilo, afinal, me disseram, eu já era “grandinho”, coisa que eu próprio concordava plenamente. Decorei bem o trajeto entre a Praça Rui Barbosa (ponto final dos ônibus no centro de Curitiba) e a agência bancária para não me perder quando viesse sozinho.

No mês seguinte lá fui eu. Dinheiro contado para o ônibus e para pagar a conta no banco. Deu tudo certo. Cheguei no banco, vazio, fui ao caixa, coloquei o dinheiro e o papel da conta no balcão, o funcionário pegou, contou o dinheiro, carimbou, assinou, me devolveu um pedaço do papel e eu podia voltar. Não falei nada para o atendente e ele não falou nada para mim. Quando eu estava saindo do banco, aconteceu.

Ao sair do banco olhei para a direita, e vi: uma multidão vindo pela rua, com faixas e gritos de ordem  numa manifestação de protesto. Nunca pude saber quem eram aquelas pessoas, imagino que fossem estudantes da Universidade Federal do Paraná, mas isso não posso assegurar. Olho para outro lado, para a esquerda, e vejo os cavalos. E os soldados. Capacetes brancos alguns, escrito PE. Tinham cacetetes grandes também e vinham rápido. Encostei na parede do banco que tinha acabado de sair e fiquei observando aquilo. Fiquei assustado. Um pouco adiante, a uns 50 metros de onde eu estava, houve o choque. A multidão dispersou e os soldados desceram o cacetete nos que puderam alcançar. Pela minha frente passou correndo um manifestante, que sangrava bastante no rosto ou na cabeça. Eu, de minha parte, tratei de dar o fora dali rapidinho. Corri por uma rua, que hoje sei ser a Voluntários da Pátria, e voltei a Praça Rui Barbosa para pegar o ônibus de volta para o pacato bairro do Boqueirão. Não dormi bem aquela noite. [2] ver notas no final da pagina



Naquele dia eu decidi em que lado queria ficar. Eu, um “esclarecido” menino de 11 anos que lia jornais, acabara de me tornar um bostinha político.

Os negócios de meu pai no Paraná não evoluíram bem, de modo que no final daquele ano nos mudamos de Curitiba para São Bento do Sul. Fizemos a mudança numa sexta-feira, dia 13 de dezembro de 1968, dia de grande significação na história política brasileira. Mas naquele momento eu ainda não sabia disso.

 



NOTAS

[1] Douglas DC-6B: n.º 44166 PP-YSI da VARIG. Este avião foi adquirido inicialmente pela SAS - Scandinavian Airlines System, em 1953 (prefixo OY-KMI, da Dinamarca). Em 1961 foi vendido para Real Aerovias mas em seguida transferido para a VARIG, que tinha incorporado aquela companhia naquele ano.   Entre 1961 e 1974 a VARIG o utilizou, conjuntamente com outros quatro do mesmo modelo, como avião exclusivamente de passageiros. Esses aviões receberam o apelido de “Ursos Roncadores” pelo barulho que os seus motores faziam quando atravessavam uma turbulência. 

Foram fabricados 702  aviões desse modelo pela  Douglas Aircraft Company, entre 1946 e 1958. Era dotado de  quatro motores a pistão Pratt & Whitney R-2800-CB-17 Esses motores tinham 18 cilindros radiais (ou em “estrela” como se dizia) e desenvolviam 2.500 HP cada um.

Quando a VARIG parou de operar os aparelhos DC-6B, foram transferidos para a FAB – Força Aérea Brasileira, que em seguida vendeu três ainda operacionais para a Fuerza Aérea Paraguaya, entre estes o PP-YSI. Ai operaram até o final da década de 1980, como cargueiros mistos, de carga e de tropas. Por fim foram parar num cemitério de aviões em Asunción, onde suas carcaças canibalizadas se encontram até hoje.

CLIQUE AQUI PARA VER FOTOS 

O video abaixo mostra um DC-6 decolando. Há vários outros videos de DC-6s no YouTube, mas esse (entre o minuto 01:30 e 01:45) tem o barulho dos motores exatamente ao que eu me lembro do avião  PP-YSI da VARIG, em 1968.

Vídeo do YouTube



[2] - Esse fato ocorreu provavelmente no dia 12 de maio de 1968

Polícia do PR espanca e prende universitários      

Tribuna da Imprensa RJ - 13 de maio de 1968

Manifestação estudantil, de protesto contra a cobrança das anuidades na base de NCr$ 1.300 pela Universidade Federal do Paraná, foi dissolvida violentamente, ontem, em Curitiba: a Polícia Militar investiu contra os jovens, causando ferimentos graves em pelo menos cinco e prendendo 60, que foram posteriormente liberados.

 

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FIM

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