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henry Henkels

ensaios

   

Móveis Cimo - sua História  


2ª Parte 


 © 2007 by henry Henkels

hhenkels@gmail.com 

 

Este texto (em duas partes)  é um excerto de uma pesquisa sobre a História Econômica de São Bento do Sul que estou desenvolvendo. Este trabalho ainda  não está finalizado. O trecho hora apresentado, sobre a CIMO, é uma avant-première, um capítulo do todo.

 


2ª Fase – Empresa puramente familiar

Com a saída de Nicolau Jacob da sociedade decidiu-se transformar a empresa num empreendimento familiar. Os sócios doravante seriam Jorge Zipperer, o sócio majoritário,  seus irmãos Martin e Carlos Zipperer e seus genros João Malinowsky e Carlos Weber. Desses, só Carlos Zipperer não exercia funções diretas na empresa, visto que administrava sua casa de comércio em São Bento. A nova razão social passou a Jorge Zipperer & Cia – depois simplificado para  J. Zipperer & Cia. Assumia assim a condição de comanditário, deixando a condição de capitalistas investidores aos outros membros de sua família.

Inicia-se se um período de prosperidade e progresso continuo nas atividades da firma.  No que se refere à sua aquisição  e apropriação de suas matérias-primas, era totalmente verticalizada. Tudo se originou da própria aquisição das terras que tinham cobertura de reservas de madeira. Daí se evoluiu para uma primeira operação de beneficiamento – a serraria. Depois, numa fase posterior se iniciou a fabricação de produtos com maior agregação de valor – os móveis, em adição à atividade original. Com a consolidação da fabricação de móveis evoluiu-se lentamente afastando-se dessa verticalização extrema, mas sempre centrado ainda na produção da própria madeira serrada comprando-se árvores em pé.

Do ponto de vista tecnológico evoluíram muito logo no primeiro momento, inclusive instalando estufas de secagem artificial de madeira, que proporcionava uma diminuição dos estoques reguladores e conseqüentes valores de capital de giro embutido nesses estoques. Mesmo assim, como sua base de produção era a madeira de imbuia, de secagem lenta, e dada a sua grande necessidade de matéria prima, muito capital ficava atrelado a essa contingência dos estoques reguladores. Na fase em que passaram a  comprar apenas a madeira, sem as terras, muitas vezes negociavam em troca de vales compras nas cooperativas comerciais que mantinham. Isso causava algumas tensões que levaram a diversos atritos com aqueles vendedores, que quase sempre se sentiam prejudicados mais tarde quando seus créditos se esgotavam.


fig. 1 - Guincho de toras acoplado ao motor  e ao cardã do caminhão. Esse é um precursor, desenvolvido por Antonio Prüss, que prestava serviços à CIMO em 1943 - Acervo Flávio Prüss - foto histórica autor desconhecido

O escoamento da produção da J.Zipperer & Cia. era todo baseado na estrada de ferro e também pela navegação de cabotagem via porto de São Francisco. A empresa que se encarregava de  grande parte dos fretes para o resto do Brasil, desde 1921, era a ENNH – Empresa. Nacional de Navegação Hoepcke, de Florianópolis. Havia também cargas transportadas pelo Lloyd Brasileiro, que também operava neste porto catarinense. Em 1932, por exemplo havia uma conta em aberto da J. Zipperer & Cia. com a ENNH no valor de 134:100$000,[1] por conta de fretes, o que permite avaliar o volume que se transportava.

A cidade litorânea de São Franciscio do Sul, na primeira metade do século 20,  girava em torno de seu pequeno e então eficiente porto, tendo como pauta principal as madeiras nobres do estado – como imbuia, peroba, pinho de araucária e outras – para a indústria de móveis e de construção civil de todo o país, especialmente a de São Paulo.

Seria só na década de 1950 que as rodovias começariam a disputar as cargas antes movimentadas nos portos, e com o encarecimento crescente das madeiras de lei brasileiras, que se tornariam raras devido à extração descontrolada esse modelo também começa seu declínio.

Em 1932 a companhia foi organizada pelo formato jurídico de uma Sociedade Anônima de Ações, passando a girar como Cia. M. Zipperer – Móveis Rio Negrinho S/A.

A empresa era muito bem estruturada comercialmente na década de 1930, pois contava com bons representates nos principais centros de consumo do Brasil. Seu quadro de representações comerciais em 1939 era:

-          Rio de Janeiro – P. Kastrupp e Cia

-          São Paulo  P. Kastrupp e Cia (filial)

-          Florianópolis – H. Soncini

-          Curitiba – Raymundo Egg & Cia

-          Blumenau – Emílio Rossmark

-          Joinville – Theo Moertel & Cia

-          Bahia – Castro, Lima & Cia

-          Fortaleza – Lima & Albuquerque

-          Recife – J. Leite Basto

 

CIMO – Companhia Industrial de Móveis S/A

Depois de longa enfermidade Jorge Zipperer acaba por falecer em 31 de janeiro de 1944, com 65 anos. Pressionada pelas contingências comerciais a empresa dá um passo muito ousado e aceita a incorporação num conglomerado único uma vasta gama de empresas ligadas ao seu corpo de representantes e que teoricamente apresentam interesses comerciais afins. Nesta operação se incorporam à Cia. M. Zipperer – Móveis Rio Negrinho S/A, as seguintes empresas:  

-          Fábrica de Móveis Maida,

-          Oficina de Artes e Mobiliário Ltda,

-          Leopoldo Reu & Cia,

-          Schauz & Buchmann Ltda,

-          P. Kastrupp & Cia,

-          Raymundo Egg & Cia.

Essa corporação de sete fábricas de móveis acabam formando a Cia. Industrial de Móveis S/A, cuja abreviação passou a ser como a empresa seria conhecida doravante – CIMO, CIMO S/A ou “Móveis Cimo”. Em 1954 a empresa passa a se chamar  oficialmente Móveis CIMO S/A.

A Móveis Cimo caminha então para se tornar a maior fábrica de móveis da América Latina, embora com uma administração agora altamente descentralizada. Tem fábricas em Rio Negrinho (derivadas da M. Zipperer S/A e da Schauz & Buchmann, esta uma pequena fábrica, quase que de fundo de quintal, de Victor Buchmann, genro de Jorge Zipperer), em Curitiba (derivadas da empresa Raymundo Egg e da Móveis Maida), em Joinville (derivada de Leopoldo Reu) e no Rio de Janeiro (ligadas à família Kastrupp).

Inicialmente sua sede nacional se localiza no Rio de Janeiro à rua Debret, 79 – com representantes no Brasil inteiro e exterior. Num primeiro momento o controle decisório  majoritário do novo conglomerado industrial ficou ligado à empresa Kastrupp, que detinha grande prestígio comercial em todo o país.

A diretoria em 1947 era a seguinte:

-          Paulo Kastrupp – Diretor Presidente

-          Martin Zipperer – Diretor Superintendente

-          Paulo Kastrupp Fº, José Felix Maria Bianco e Raymundo Egg – Diretores

-          Hercílio Fronza – Contador (status de diretor financeiro)

Passados alguns anos a família e a empresa Kastrupp se afastou da sociedade, retomando seu rumo independente no Rio de Janeiro.


fig 2 - Detalhe do laminado estrutural de uma cadeira CIMO. As laminas externas eram de imbuia - Acervo do Arquivo Histórico de Rio Negrinho  -  foto de divulgação em catálogo
.


Com a saída dos Kastrupp a sede oficial da empresa foi transferida para Curitiba. O conglomerado Cimo produzia móveis para cinemas e auditórios, onde conquistou o monopólio do mercado. Diversificou com móveis escolares e linhas institucionais de escritório, de quarto, salas, etc. uma completa gama de produtos, sempre de alta qualidade. Tinham muita facilidade em vencer grandes concorrências governamentais para fornecer móveis escolares e institucionais em fantásticas quantidades. A diretoria durante todas as décadas de 1950 até 1970 praticamente não se alterou, e era assim constituída:

-          Raymundo Egg – Diretor Gerente

-          Martin Zipperer – Diretor Superintendente

-          Carlos Zipperer, Dr. Elizeu Miranda e Felix Brandão Sobrinho  – Diretores adjuntos

 

Com a administração corporativa e descentralizada, as grandes decisões ficaram cada vez mais distantes da sua origem em Rio Negrinho, embora Martin Zipperer ainda mantivesse um controle relativo sobre aquela planta, tinha pouca influência nas políticas gerais da empresa. O poder decisório passou para os administradores de Curitiba, mais ligados às equipes derivadas dos grupos paranaenses da corporação sob grande influência de Raymundo Egg e a história da empresa se afasta do mundo econômico de Rio Negrinho, São Bento do Sul e região.

Martin Zipperer ainda exercia certa influência na administração industrial da unidade de Rio Negrinho, mas, acumulando problemas pessoais, foi sendo relegado a uma posição marginal no quadro decisório, não obstante a família Zipperer tivesse ainda parcela importante do interesse acionário da companhia. Mesmo assim, a complexidade sucessória de uma empresa familiar no seu embrião não foi corretamente equacionada pelos diversos herdeiros que acabaram por se desviar por caminhos ditados por interesses difusos. Também havia em Curitiba,  junto ao centro decisório, uma plêiade de altos executivos que auferiam gordos honorários que viviam em disputa constante.



fig. 3 - vista da Moveis Cimo em Rio Negrinho SC,  por volta de 1967 - note os estoques de madeira. A chaminé ainda existe, em frente a atual prefeitura municipal. 

Acervo do Arquivo Histórico de Rio Negrinho  -  foto histórica de autor desconhecido 


Fase Terminal – Vícios, mudanças tecnológicas e derrocada final

No final da década de 1960 se instalam no Brasil duas grandes plantas para a produção de painéis de fibra de madeira aglomerada. Essa matéria prima desloca o eixo da produção de móveis e cria uma concorrência muito competitiva aos produtos fabricados pela Cimo. Como esta mantivesse sua produção verticalizada pelo uso da madeira maciça  e compensada, além disso não havia feito nenhum movimento para se adaptar ao uso do aglomerado, começam a experimentar afrontas  importantes de concorrentes em potencial que usavam essa nova variante tecnológica e produtiva.

fig. 4 - Escrivaninha linha reta CIMO de 1963 - Acervo do Arquivo Histórico de Rio Negrinho  -  foto de divulgação em catálogo


No início da década de 1970 já se manifestam sintomas de grave crise administrativo-financeira na empresa.  Com o desaparecimento de Martin Zipperer, cuja morte ocorre no dia 23 de novembro de 1971, as coisas passaram a se suceder rapidamente e em outro patamar. A unidade de Joinville tinha sido  completamente destruída por um incêndio ocorrido em 30 de novembro de 1971. De acordo com noticia publicada no jornal A Notícia de Joinville, edição de 01.12.1971, o sinistro, ocorrido no dia anterior, foi causado por um raio. Esse acontecimento se deu exatos sete dias depois da morte de Martin Zipperer. Estranhíssima coincidência.

Já em 1972, em assembléia se decide pela construção de uma nova e moderna unidade fabril, isso fica mais premente quando em abril desse mesmo ano a fabrica de Rio Negrinho também sofre um grande incêndio, na seção de estofaria e lustração. A unidade de Rio Negrinho, agora a segunda maior do grupo, tinha um padrão construtivo muito arcaico, pois era externamente de alvenaria e todas a divisões internas eram de madeira. Tecnologicamente essa fábrica também já era obsoleta.

A posição de alguns acionistas era que esse enorme investimento numa eventual nova unidade fosse alicerçado em capital próprio, que já então era escasso entretanto, defendendo então chamadas de aumento de capital para operacionalizar o aporte adicional.  Outros, uma boa parcela de acionistas da família Zipperer, temendo por sua posição acionária que se reduziria significativamente caso houvesse aumento de capital, boicotaram essa alternativa e a assembléia decidiu recorrer aos bancos de desenvolvimento para financiar o empreendimento.

Assim se fez, recorreu-se ao BNDES / BRDE que incentivou um grande projeto de expansão da empresa baseado no argumento do próprio diretor do BNDES: “...vamos fazer alguma coisa pelo Brasil de hoje”, visto que a época correspondia ao furacão do milagre econômico brasileiro. No ano seguinte, a Móveis Cimo S/A, representado por seu diretor-financeiro Dico Guimarães, vai participar do 1.º Seminário de Integração Nacional, ocorrido entre 02 e 05 de abril de 1973, no Rio de Janeiro. Apresenta ali seu arrojado “Projeto de Desenvolvimento e Viabilidade Econômica” que alicerçava seu ambicioso projeto de modernização, largamente centrado na nova unidade fabril projetada.

Antes disso, ainda no ano de 1972, a Cimo faz uma manobra de chantagem política com a prefeitura de Rio Negrinho, ameaçando abandonar o município caso não lhe fosse cedida uma área onde pretendia montar uma nova unidade industrial. Os políticos rio-negrinhenses se renderam e através de reuniões secretas e movimentações obscuras acabaram cedendo às vantagens pretendidas pela empresa. Achavam que não podiam correr o risco de perder o mais importante bastião econômico da cidade. Não foi suficiente para mudar o curso do desastre. A unidade fabril que se construiu a partir de 1974 na Vila Nova, às margens da então rodovia SC-21, modernamente BR-280, nunca chegou a operar para a Móveis Cimo com a capacidade que havia sido prevista.

No ano de 1976 a situação financeira da empresa estava tão precária que o BRDE, o principal credor, convocou uma assembléia de acionistas e destituiu a diretoria nomeando outra, de sua lavra. Impõe também a abertura de pedido de concordata preventiva. O Diretor destituído, o septuagenário Raymundo Egg não aceita essa afronta e vende a totalidade de suas ações e convence outros acionistas a fazerem o mesmo, inclusive alguns da família Zipperer.

Os interesses originais de Martin Zipperer estavam agora nas mãos do médico de Curitiba, Gustavo Keil, que era casado com a neta daquele, praticamente sua herdeira universal, visto que só teve uma filha e essa neta. Esses ativos, de Egg e Keil foram vendidos a Eduardo e Felipe Lutfalla, irmãos da esposa do governador do estado de São Paulo, Paulo Maluf. Estes já vinham comprando ações dos pequenos acionistas através do Banco Bradesco. Se comenta que foram correntemente usadas reservas de contingência financeira da própria empresa para operacionalizar essas compras de ações.

No final de1978, com a situação piorando irremediavelmente, o controle acionário  passa para o grupo Lutfalla,  que detém agora 62%, mas que não tinha um interesse real em reerguer a empresa, e sim rapinar o espólio e abandonar tudo ao ocaso depois, o que terminou por acontecer. Em fevereiro de 1982, é decretada a falência da Móveis Cimo S/A.

Termina assim uma era.

 


NOTAS

[1] R$ 773.000,00 em valores de 2007

 

 


FIM 


               

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