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          henry Henkels         

           ensaios


Móveis Cimo - sua História  

1ª Parte 

 © 2007 by henry Henkels

hhenkels@gmail.com  



Este texto é um excerto de uma pesquisa sobre a História Econômica de São Bento do Sul que estou desenvolvendo. Este trabalho ainda  não está finalizado. O trecho hora apresentado, sobre a CIMO, é uma avant-première, um capítulo do todo.

 


Primórdios – Serraria e fabricação de caixas

Sem dúvida que o maior impulso na modernização do quadro econômico de São Bento viria com a evolução dos empreendimentos desenvolvidos sob a liderança de Jorge Zipperer, que iriam acabar por se transformar numa grande indústria de móveis, a Móveis Cimo, como modernamente passaria a ser conhecida e que se consolidou no distrito de Rio Negrinho. Se considera esta empresa como a primeira industria na própria acepção moderna desse conceito a se desenvolver em São Bento do Sul. Pela sua importância relativa neste contexto analítico vamos detalhar sua trajetória. Nesse caso, vamos nos concentrar numa linha mais referente ao desenvolvimento local – São Bento / Rio Negrinho – que contextualiza o que se propõe aqui 

É interessante observar que este empreendimento se desenvolveu com base na administração de brasileiros, descendentes dos colonos da primeira leva que haviam se radicado quatro décadas antes na região. A Móveis Cimo em seu embrião foi uma iniciativa inovadora do ponto de vista comercial e tecnológico, embora se galvanizasse de uma atividade extrativista evoluindo para industrial, nesse caso uma serraria, para aproveitar o grande potencial madeireiro em substituição à erva-mate, cujo ciclo havia se exaurido irrevogavelmente antes de 1910. 

Em setembro 1912, Jorge Zipperer e Willy Jung, dois empreendedores são-bentenses, formam uma sociedade e estabelecem uma casa de comércio de secos & molhados na vila de São Bento. Já no ano seguinte adquirem um terreno de aproximadamente 110 alqueires num local chamado “Salto”, próximo a onde futuramente se situará a cidade de Rio Negrinho. Montariam ali uma serraria e fábrica de caixas para frutas, que começou a operar em março de 1914. Todo o sucesso do novel empreendimento estava indissociavelmente ligado à estrada de ferro, que começara a operar no ano anterior e que seria fundamental para o escoamento da produção. 

A companhia resultante desse esforço chamou-se Jung & Cia. tendo como cotistas apenas os dois fundadores citados. 

Jorge Zipperer nasceu em São Bento, no ano de 1879, filho do pioneiro Josef Zipperer Sênior, que havia imigrado seis anos antes, em 1873. Willy Jung nasceu no mesmo 1879 provavelmente nos arredores de Leipzig, na Saxônia. Imigrou com dois anos de idade, chegando ao Brasil em 1881, acompanhando seus pais.

O maquinário, caldeira e locomóvel a vapor usados nessa primeira serraria no rio do Salto eram de procedência alemã, de fabricação Maschinenbau R. Wolf, Magdeburg-Buckau, adquiridos da firma Carlos Hoepcke, de Florianópolis. Acoplou-se a esse equipamento também um gerador elétrico, que fornecia iluminação às residências dos trabalhadores e a casa de comércio que passava a funcionar anexa. Com o inicio da atividade madeireira resolvem vender o armazém de secos & molhados em São Bento, que acabou sendo absorvida pelo irmão de Jorge, Carlos Zipperer, em sociedade com Andréas Ehrl, o que se deu em 1915.



Novas serrarias e Estrada Irany

No ano seguinte, fevereiro de 1916, adquirem mais um grande terreno coberto de pinheiros e imbuias, na outra margem do rio Negro, no estado do Paraná, local que modernamente tem o nome de Lageado das Mortes, localizado a uns 12 quilômetros de Rio Negrinho. Montam ali uma segunda serraria, denominada “Encruzilhada”, um pouco maior que a primeira, que operava dois quadros “Tyssot-Sägegatter”, além de gerador elétrico. Os equipamentos desta serraria foram comprados da firma Peixoto & Cia., de Piraquara, no Paraná, eram baseados numa caldeira + locomóvel marca Heinrich Lanz - Mannheim. Compra-se nessa época muita madeira em pé também. Em 1917, por exemplo negociaram 3000 pinheiros e imbuias ao preço de 15 contos de Reis (15:000$000) localizados próximo à serraria do Lageado para o abastecimento desta de matéria prima. Em 1919 essa serraria vai ser transferida para outro local, mais próximo de Rio Negrinho, e em 1920 será desativada e vendida, como veremos. 

Para a operação dessa serraria havia a necessidade de uma estrada de rodagem viável entre aquele rincão e a estrada de ferro, para possibilitar o escoamento da produção. Ë feito um grande esforço político para a construção dessa estrada, que receberia o nome de “Estrada Irany”. Seu traçado iniciava na estação de trem de Rio Negrinho em direção ao Lageado, distrito de Rio Negro, no estado do Paraná. As obras começaram em junho de 1918. 



Jorge Zipperer em suas crônicas informa que não houve grande empenho das autoridades de São Bento para viabilizar a construção da estrada. O governo de Santa Catarina concedeu um aporte de 7:000$000 (sete contos de réis). O governo do Paraná colocou 3:000$000 (três contos de réis) em apólices de dívida pública, que foram vendidas por 2:100$000 (dois contos e cem mil réis). A municipalidade de São Bento acabou comparecendo com a pequena quantia de 250$000 (duzentos e cinqüenta mil réis) e a população do Lageado com cerca de 1.200$000 (um conto e duzentos mil réis), incluídos ai 500$000 (quinhentos mil réis) doados por Wenzel Kahlhofer, de São Bento, que tinha interesses em Lageado também. A obra completa da estrada teve um custo total de aproximadamente 20:000$000 (vinte contos de réis) [1] - ver notas no final da página - sendo que o restante dos recursos, cerca de 9:500$000 (nove contos e quinhentos mil réis), foram cobertos pela firma Jung & Cia.

Além de inúmeros pontilhões e bueiros, três grandes pontes tiveram que ser construídas. A primeira sobre o rio Negrinho, no mesmo local que hoje se situa a igreja matriz, que foi chamada “Ponte Fúlvio Aducci” tinha 22 metros de vão. A segunda sobre o rio Serrinha de 8 metros. A terceira sobre o rio Negro tinha 54 x 4 metros, foi chamada “Ponte Rodrigues”, nome do proprietário do terreno adjacente. Todas foram construídas com madeira de cerne. Em janeiro de 1926, numa grande enchente, a ponte sobre o rio Negro se perdeu e teve que ser reconstruída. As outras duas haviam sido acorrentadas em árvores e foram preservadas, naquela mesma cheia dos rios.

Além das pontes, a ocorrência de acidentes geográficos causaram dificuldades importantes na construção da estrada, como duas pequena serras, uma junto ao rio Serrinha e conseqüente descida ao vale do rio Negro e a outra já no Paraná, nos terrenos de Pedro Rodrigues da Silva e Augusto Wotroba. A conclusão das obras se deu ainda no final do ano de 1918. 



Novas instalações, uma fatalidade e novo sócio

Desde o ano de 1914 a empresa Jung & Cia. procurava, sem êxito, comprar uma área de terreno adequada mais próxima a linha férrea. É só em junho de 1918, durante a construção da Estrada Irany que é oferecido à venda um terreno, entre os rios Negrinho e Serrinha, exato local onde florecerá a cidade de Rio Negrinho. Este terreno tinha 25 alqueires e foi comprado de José Bley por pelo ótimo preço de cem mil réis (100$000) o alqueire. Ali foi construída nova e moderna serraria, residências funcionais e transferida a casa comercial do Salto, visto que esse local estava muito mais próximo estrategicamente da estrada de ferro. Seriam agora três serrarias operando. 

Mesmo com todos esses projetos sendo implantados, a fatalidade ronda a empresa.. Em janeiro de 1919 o sócio Willy Jung contrai a terrível febre “espanhola” que grassava no Brasil desde outubro do ano anterior, da qual viria a falecer em seguida. Dissolve-se a sociedade com Jorge Zipperer pois a viúva não tinha mais intenção de continuar nos negócios e se afasta, sendo indenizada em 68:000$000 [2], valor contábil da participação do finado. Recebeu parte do valor em terrenos divididos entre os filhos e parte em prestações pagas, num total de 40:000$000, em espécie. Para substituir essa baixa, ingressa na sociedade, no mês de junho de 1919, o sapateiro Andréas Ehrl, de São Bento, com um capital de 65:000$000 [3], passando a empresa a girar agora como A.Ehrl & Cia.



fig. 1 Transporte de toras por tração animal, em 1924 - Acervo Flávio Prüss - foto histórica autor desconhecido 


Os projetos de ampliação das serrarias continuam. Para Rio Negrinho trazem outra grande caldeira marca R. Wolf, Magdeburg-Buckau esta agora que desenvolvia a potência de 110 PS, adquirida de Alexandre Schlemm, de Joinville, mas que também era dono da concessionária de energia elétrica de Porto União. Esse equipamento, acoplado a um locomóvel e gerador de 120 PS, era o que fornecia toda a energia elétrica das cidades gêmeas de Porto União da Vitória, na divisa de Santa Catarina com o Paraná. Imediatamente toda a serraria, a casa de comércio, bem como na vila operária e residências à margem direita do rio Negrinho foram dotadas de luz elétrica fornecida por este aparato. 

Embora os negócios da firma estivessem fluindo bem desde as fases finais da guerra européia, grandes foram os investimentos em 1918, como a construção da estrada Irany, a transferência das serrarias do Salto para Rio Negrinho e de Lageado para junto à ponte Rodrigues, aquisição de duas caldeiras e equipamentos e finalmente a indenização das cotas de Willy Jung aos herdeiros. Isso tudo debilitou sobremaneira a situação financeira da empresa, que em 1919 se obrigou a contrair empréstimos bancários junto ao Banco Nacional do Commércio, filial Joinville, operação avalizada pelos empresários Alexandre Schlemm, considerado grande benfeitor da empresa, além de Wenzel Kahlhofer, Carlos Zipperer e outros, também avalistas. 

Nessa época, outro fator complicativo nas operações da empresa era o tratamento diferenciado na oferta de vagões ferroviários por parte da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande – EFSPRG. A empresa tinha seus escritórios em Curitiba e somente certos clientes obtinham vagões. Esses privilegiados eram chamados correntemente de “tubarões”, certamente proporcionavam vantagens aos dirigentes políticos que agora administravam a ferrovia. Todo o grupo Brazil Railway Co. que detinha o controle acionário da EFSPRG havia entrado em processo de autofalência em 1917, por dificuldades de aporte de capitais estrangeiros em função da guerra européia. A ferrovia passou a ser gerida então por juntas de administradores egressos dos quadros políticos ou protegidos por esse setor. De acordo com Jorge Zipperer era “a coisa mais vergonhosa que jamais verificou-se”. Só em 1924, quando o Dr. J. Moreira Garcez assumiu o cargo de diretor da EFSPRG, é que esses problemas de acesso aos vagões foram completamente sanados. 

Em setembro de 1920 a serraria junto a ponte Rodrigues, na margem do rio Negro, já havia exaurido todas as reservas de madeira nas regiões adjacentes e foi vendida, por 43.000$000, para Ludwig Schuster, que a pagou em três vezes, a desmontou e transferiu para o município de Campo do Tenente, no Paraná.

 


Fabricação de Móveis

Os negócios com madeira serrada e os preços praticados estavam muito desfavoráveis em 1921. Em viagem de negócios à São Paulo, Jorge Zipperer vai ter com seu irmão Martin, que nessa época administrava uma fábrica de móveis de propriedade de norte-americanos, chamada McDonald’s. Martin Zipperer havia freqüentado o curso de marcenaria do no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Antes de sair de São Bento foi aprendiz na marcenaria de Francisco Linke, indo depois aperfeiçoar o ofício em Joinville na marcenaria de Leopoldo Reu. Mais tarde passa pelas marcenarias de Heinrich Dittert, de Curitiba e pela famosa Móveis Blumenschein & Cia, de São Paulo. 

Dessa conversa entre os irmãos em São Paulo ficou decidido: abririam uma fábrica de móveis em Rio Negrinho, para contornar a má fase que passava o comercio de madeira bruta. Em outubro de 1921 Martin se desligou da firma de São Paulo e se transferiu para o sul, onde de imediato começaram a montar uma fábrica de cadeiras. Desmontaram o grande galpão da serraria que havia funcionado até o ano anterior junto a ponte Rodrigues, no rio Negro e o reconstruíram em rio Negrinho para abrigar o novo empreendimento. Ainda em dezembro daquele ano receberam o primeiro pedido de cadeira / poltronas para o Cine Seleta, de Santos, SP. 

Os negócios seguiam diversificados, pois as vendas de cadeiras não evoluíram com vigor esperado no início, de maneira que desenvolveram também projetos de casas pré-fabricadas, forneciam madeiramento para quartéis do exercito e madeiras diversas para a construção civil em geral. Além das caixas para laranjas, seu primeiro negócio. Ainda em setembro 1919, faleceu em Joinville Alexandre Schlemm, o protetor da empresa junto ao sistema bancário. Nos anos seguintes o Banco Nacional do Commercio começou a exigir a liquidação de todos os débitos que a Ehrl & Cia. tinha com aquela instituição, o que causou dificuldades consideráveis.

Em 1923, durante uma viagem de negócios à São Paulo, Jorge Zipperer contrai tifo, doença que quase o leva a morte e o obrigou a longa convalescença. Esse fato, embora completamente inusitado, também abalou a credibilidade financeira da empresa junto ao sistema bancário, obrigando o sócio Andréas Ehrl a contornar grandes dificuldades administrativas, o que acabou por desmotivá-lo e decidir por se afastar da sociedade, o que acontece em dezembro daquele ano. Recebeu 140:000$000 (cento e quarenta contos de réis) [4] por sua participação, de acordo com os levantamentos contábeis. Auferiu um lucro razoável sobre o capital que havia investido em 1919. De qualquer maneira, aparentemente a dissolução da sociedade se deu de maneira completamente pacífica e harmoniosa. Ehrl comprou uma casa comercial de Roberto Lampe, que já no ano seguinte revendeu aos seus antigos sócios e mudou-se para Curitiba, onde montou uma fábrica de artigos de couro, mais afinado com sua antiga profissão, que era de sapateiro. 

Ingressa na sociedade agora Nicolaus Jacob, alemão de nascimento, que era antigo funcionário.
Tinha sido gerente desde 1914 da primeira serraria do Salto. Mais tarde coordenou a construção da serraria da Encruzilhada, no Lageado e montou ali uma casa de negócio. Em 1921, demitiu-se da Ehrl & Cia. e montou sua própria serraria, em sociedade com Otto Rössler e João Treml, ambos de São Bento. Essa serraria funcionou até dezembro de 1923, quando foi vendida por 80:000$000 para Horácio Pinto Rebelo, que a transferiu para Bituva. Desfeita a sociedade com Rössler e Treml, Nicolaus Jacob ingressou com sócio na companhia rio-negrinhense com um capital de 57:000$000, dos quais 42:000$000 era dinheiro emprestado de colonos com aval de Jorge Zipperer. A empresa passa girar agora sob a razão social: N. Jacob & Cia., isso a partir de fevereiro de 1924. 

Os negócios da empresa evoluem bem. Finalmente a fabricação de móveis entra num ritmo bom, graças a qualidade ótima dos produtos. Em 1924 venderam aproximadamente 60.000 cadeiras e poltronas de cinema. Os negócios de caixas e de madeira serrada para construção civil também se desenvolvem favoravelmente. Problemas surgem em outra frente.

fig. 2 Poltrona de compensado de imbuia curvado - foto do autor

O novo sócio Nicolaus Jacob passa a se envolver em diversos atritos com funcionários antigos da empresa. Agora na condição de acionista deve ter se arrostado a pretensões descabidas e atitudes arrogantes perante os empregados, o que criou uma série de conflitos que os sócios tiveram dificuldades de contornar. No final daquele ano Jorge Zipperer chegou a conclusão que aquele estado de coisas não podia continuar, de sorte que propôs a dissolução da sociedade oferecendo 90:000$000 pelas cotas de Jacob. Este, por seu turno, pediu 150:000$000. As negociações se arrastaram até maio do ano seguinte, 1925, quando Jacob aceitou 120:000$000, retirando-se da empresa. Descontando os 42:000$000 de empréstimo dos colonos com fiança de Jorge Zipperer e os 15:000$000 que investiu efetivamente, auferiu um lucro de 63:000$000 [5] em pouco mais de um ano, nada mal.

Interessante é notar que até então Jorge Zipperer nunca comparecia com seu nome na razão social da firma. Isso deve-se ao fato de que o estatuto societário era de uma comandita por ações, onde ele era o comaditado, teoricamente o sócio capitalista sem direito a influência administrativa, enquanto o outro, o comanditário é que tinha essa prerrogativa e dava o nome ao empreendimento. Na prática sabe-se que não era assim que as coisas funcionavam nessa sociedade.  


NOTAS

[1] Em valores atuais (2007) esses 20 contos de réis representam cerca de R$ 230.000,00.

[2] Representa R$ 607.000,00 em valores atualizados (2007).

[3] Valor equivalente a R$ 580.000,00 atuais (2007).

[4] Equivalente a R$ 787.000,00 em valores atuais (2007)

[5] R$ 330.000,00 em valores de 2007

 

FIM DA 1ª PARTE  



                                                        2ª PARTE

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