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henry Henkels

ensaios

História resumida de algumas das 

Cervejarias Antigas de São  Bento do Sul

 © 2003 by henry Henkels

revisão 2010, 2016

hhenkels@brturbo.com.br 

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 Cervejaria Otto Zschörper 

A família Zschoerper tem antigo envolvimento com as cervejarias históricas de São Bento do Sul. O pioneiro foi Paul Zschörper, imigrante que chega ao Brasil no ano de 1883, natural de Wigensdorf, no condado de Chemnitz, na Saxônia.

A cervejaria Zschörper foi fundada em 1898 por Paul Zschörper, que já tinha participado, como sócio, de Bruno Ryssel, de outra iniciativa no ramo, entre1886 e 1888. Antes ainda, por volta de 1885, tinha sido funcionário na cervejaria do Capitão Adolph von Altrock, que ostentava o bonito nome de ‘zum Waldschlößchen’ (ao castelinho da floresta). O Capitão von Altrock era tido como o melhor cervejeiro dos tempos antigos de São Bento.

Em 1898 Paul Zschörper estabelece sua própria cervejaria no centro da vila, atual Avenida Nereu Ramos, próximo ao atual Edifício Bavária, no exato local onde hoje funciona um supermercado. Um dos filhos de Paul Zschörper, de nome Otto passa a participar no negócio nos anos seguintes e assume definitivamente a gerencia da firma por ocasião da morte do patriarca, que ocorreu em 1909. Na década de 1920 adotam o nome de Cervejaria Cruzeiro do Sul.

Em 1936, ante a concorrência cada vez maior das cervejas de fora da cidade, vindas de centros maiores como Curitiba, Joinville, mesmo São Paulo e Rio de Janeiro, a firma Zschoerper  promoveu uma reformulação geral em sua produção. O lançamento das novas marcas de cerveja “Cometa,  “Porter” (nova fórmula)  e “Especial” ocorreu com bastante alarde numa grande festa de casamento de Otto Rössler Fº com Amanda Telma. Ali foram servidas as primeiras rodadas do que diziam “ein Sonderbier vom Zschörper” (uma cerveja especial do Zschoerper). Mais tarde, na década seguinte seriam lançadas as marcas “Princesa” e  “Estrela” que hoje estão mais na memória das pessoas.

A fabricação de cervejas por parte da família Zschoerper continuou até a década de 1950, quando passaram a se dedicar à distribuição dos produtos da Cia. Cervejaria Brahma, descontinuando a produção própria da bebida. Não existe um registro definitivo estabelecendo exatamente o ano em pararam com a fabricação de cervejas. Seria a última cervejaria dos tempos antigos a encerrar suas atividade em São Bento do Sul. Como distribuidora Brahma, a firma Zschoerper funcionou até 1982.

 O rótulo que decorou o caneco do 23º Schlachtfest corresponde a uma cerveja escura de alta fermentação, localmente conhecida como Kulmbach. “Porter” era a marca utilizada comercialmente. 

Este rótulo que decorou o caneco da 24ª Schlachtfest é da Cometa, uma cerveja clara, do tipo Pilsener, do início da década de 1940.

 

 Cervejaria Guarany – Campo Alegre   


A Cervejaria Guarany, de Campo Alegre desempenhou um papel importante na história das cervejarias da região. Fundada por volta de 1923, por Adolph Friedrich, a cervejaria inicialmente não passava de uma instalação caseira. Mais tarde, já na década de 1930, construiu-se um prédio mais adequado para uma produção comercial, prédio este que ainda existe. Trata-se da última edificação usada nas antigas cervejarias que ainda não foi demolido. Naquele local existe uma fonte de água muito boa que brota numa fenda de rocha, que se mostrou excelente para fabricação de cerveja.

A Cervejaria Guarany produzia inicialmente só a cerveja preta “Kuhlbach” ou “Porter”. Com o falecimento do velho Adolph Friedrich, ocorrido em 1947, o negócio passou a ser conduzido por seu filho Ewaldo, que se associou a diferentes pessoas em diferentes épocas. Inicialmente quem se associou a Ewaldo Friedrich na cervejaria foi Carlos Brandes. Esse cidadão, mais tarde também prefeito da cidade, era gerente da fábrica de amido de milho Lorenz & Cia., de Blumenau, empresa que montou uma filial em Campo Alegre junto a cascata do rio Turvo, onde construíram uma pequena hidrelétrica para fornecer energia ao empreendimento. Mais tarde entram na sociedade da cervejaria  Arnaldo Duvoisin e Ernesto Friedrich, este último irmão de Ewaldo.

Nesse tempo toda a produção de cervejas e refrigerantes eram feitas pelo sócio Ewaldo Friedrich e um único funcionário, seu futuro genro Eugen Bartsch. Isso incluía lavar garrafas, produzir cerveja e refrigerantes, engarrafar, rotular as garrafas, carregar caminhões e as vezes fazer entregas nos bares e restaurantes da região. Muitos bares e vendas e quase nenhum restaurante. Era um serviço colossal para apenas duas pessoas, não raro entravam madrugadas adentro nas lidas da cervejaria .


O irmão Ernesto Friedrich, que era proprietário um grande moinho de cereais tocado por roda d'água nas margens do rio Turvo, no centro de Campo Alegre, se retira da sociedade após curto período vendendo seus interesses na firma para Atanagildo Schmidt, um cidadão que tinha vindo de Curitiba e que atuava na comercialização de erva-mate. Passado algum tempo, Carlos Brandes também se afasta e acaba por vender sua participação na Cervejaria Guarany para Otto Zschoerper, de São Bento. Isso ocorre no início da década de 1950. Um pouco mais tarde, por volta de 1955, muda-se a razão social para Cervejaria Serrana Ltda., adotando o nome de outra antiga cervejaria de Campo Alegre, que já havia fechado há muito. Modernizam um pouco a produção e passam a produzir três tipos de cervejas: “Serrana-Pilsen”, “Soberana-Kulmbach” e “Malzbier”, além de gasosas de gengibre e guaraná  “espumante”.

Com o passar do tempo, as relações entre os sócios Friedrich e Zschoerper se deterioram e a empresa entra gradativamente em dificuldades. No início da década de 1960, a cervejaria descontinua sua produção própria, que nos últimos tempos era ainda só da cerveja preta Soberana-Kulmbach, passando  então a distribuir produtos Brahma, como a firma Zchoerper já fazia em São Bento. Ainda produziam gasosa e engarrafavam aguardente de cana.

Com a situação financeira da empresa piorando rapidamente, Zschoerper contrata Lauro Lepeck, que até então trabalhava na Indústria Augusto Klimmek,  em São Bento, que passa a ser seu homem de confiança na firma afiliada, em Campo Alegre. Atanagildo Schmidt e Arnaldo Duvoisin vendem suas cotas aos Zschoerper mas Ewaldo Friedrich não queria essa solução para sí e se recusava a vender para este, por conta da encrenca não resolvida. A solução que se encontrou foi introduzir um agente estranho no negócio para o qual Friedrich concordou em vender sua parte, Alfredo Moeller, morador em São Bento do Sul. Parece que foi financiado por Otto Zschoerper para pudesse concretizar a transação, o que atualmente se conhece como “laranja”.

Surge por essa época em Campo Alegre um outro personagem que se introduz na sociedade da cervejaria alardeando que possuía recursos para sanar financeiramente a empresa. Seu nome era Saint-Claire Abel Fontoura Leite, um major reformado do exército. A intervenção desse cidadão foi só mais um prego no caixão, pois tomou algumas péssimas  medidas administrativas, endividando a empresa ainda mais, empurrando-a definitivamente para a insolvência. E o aporte financeiro de que falava, também parece que não apareceu.

A firma, agora com o nome mudado para  “Bebidas Campo Alegre Ltda.”, estava a ponto de ser leiloada em 1968, quando Zschoerper fez uma proposta a Lauro Lepeck: este assumiria as dívidas e se conseguisse levantá-las, coisa que parecia difícil, ficaria com o negócio, o prédio e a casa anexa. Este aceitou o desafio e acabou por se dar bem. Conseguiu sanar a dívidas e continuou a distribuir os produtos da Brahma em Campo Alegre por vinte e cinco anos ainda, até 1993, quando se transformou num atacado de bebidas, que distribuía produtos de vários fabricantes como Brahma, Skol, Antárctica, Schincariol, etc. negócio que só encerrou finalmente em 1998. Dessa forma a empresa sucessora das antigas Cervejarias Guarany e Serrana, de Campo Alegre, foi a última a encerrar suas atividades na região.


Cervejaria de Max Meyer


Esta cervejaria estava situada no bairro de Lençol, antigamente chamado de Reichenberg. Suas origens remontam ao século XIX. Foi fundada no ano de 1884 por Joseph Endler, um imigrante austríaco, natural do vilarejo de Marienberg, na Boêmia. Este estabelecimento manteve em atividade por vinte e quatro anos sob comando de seu fundador, até 1908, quando o mesmo vem a falecer. Sua viúva, Alvine Endler, não se interessou em continuar o negócio de maneira que vendeu as instalações da cervejaria e a casa de negócios anexa, casou-se com outro industrial sãobentense, Gotthard Käsemodel, e mudou-se para Joinville.

O comprador foi Max Meyer que tinha imigrado criança ainda, natural da Saxônia, do vilarejo de Crimmitschau. O novo proprietário dá prosseguimento aos negócios e moderniza parcialmente a fábrica de cervejas. Em 1922 Max Meyer também morre prematuramente, com 43 anos e os negócios são continuados pela viúva e seu filho Luiz Meyer. Mais tarde adotam o nome de Cervejaria Brasil. Por volta de 1927 a fabricação de cerveja é encerrada definitivamente por parte da família Meyer. Prosseguem só com a casa de comércio até 1938, quando vendem toda a propriedade no Lençol e se transferem definitivamente para o bairro de Oxford, onde Luiz Meyer abre outro botequim.  

 

 

 

Este rótulo que decorou o caneco do 23º Schlachtfest corresponde a alguma época da década de 1920, sendo impossível precisar o ano. Provavelmente a cerveja que era vendida com a marca “Pilsen” não era da variedade Pilsen que modernamente conhecemos, pois esse tipo de cerveja é de baixa fermentação. Para se produzir cervejas tipo Pilsen se tem a necessidade de fazer uso de resfriamento artificial para processar a fermentação que deve ocorrer em baixas temperaturas. Não existem vestígios históricos que a cervejaria de Max Meyer dispusesse de refrigeração artificial, de maneira que só usavam a palavra Pilsen como diferencial entre os vários fabricantes locais. A cerveja era muito provavelmente uma variedade de alta fermentação.

 

 

FIM 

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