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henry Henkels

ensaios

INDUSTRIAS DE SÃO BENTO


 © 2007 by henry Henkels

hhenkels@gmail.com


  

Buschle Irmãos - Cia Fabril Polaris


 

Fatos  históricos da Economia Regional


Figura 1 - Vista Geral da Buschle Irmãos na década de 1960 - clique para ampliar 


Foto: acervo AHMSBS - foto histórica autor desconhecido 

 

Em 1918 é formada em São Bento uma empresa sucessora de Stephan (Estevão) Buschle, farmacêutico e químico. Essa empresa, estabelecida em 1911 com outra finalidade - pois atuava inicialmente na fabricação semi artesanal de medicamentos - passa agora a elaborar licores e bitters de forma comercial.  Stephan Buschle tinha chegado em São Bento em 1908, depois de passagens por Joinville e Campo Alegre. Após sua chegada da Alemanha, em 1894, residiu por três anos no Rio de Janeiro.

Com o desaparecimento de Stefan Buschle, que morreu justamente em 1918, vítima de uma doença não diagnosticada, sua viúva Emília consolida uma vitoriosa empresa que logo faria fama. A fábrica de licores iniciada pela viúva Buschle é a precursora da famosa fábrica de chocolates Buschle Irmãos que seria desenvolvida pelos filhos da pioneira. Sua lista de produtos, realmente admirável, incluía na época:

Licor de Rosas

Licor de Pimenta

Licor de Anis

Licor de Herva Matte

Aguardente Guarany

Benedictina

Creme de Cacao

Creme de Baunilha

Cognac Anisado

Bitter Hespanhol

Licor Cherry Brandy

 

 

Bitter Russo

Bitter estomacal Magenhell

Licor de Hortelã

Licor de Cominho

Licor Americano

Licor de Cognac

Boonekamp Bitter estomacal

Xarope de Limão

Xarope de Guaco

Xarope de Framboeza

 

Xarope de Laranja

Xarope de Abacaxi

Fogo Italiano

Creme de Framboeza

Creme Suzanna

Aguardente cem annos

Fernet Milano

Gengibre Ipipermãn

Creme de Leite

 Xarope de Groselha

 Creme de Ovos

 




Figuras 2 - Rótulo de uma beberragem "medicinal" à base de gengibre - Acervo do Autor

Creme de Ovos - Analysado e approvado pelo Laboratorio Bromatologico do Rio de Janeiro sob Nº2833 - Diploma de Honra do Instituto Agricola Brasileiro do Rio de Janeiro.


Em abril de 1929, com a  morte de Emília Buschle, três de seus filhos, Theodoro, Ewaldo e Alfredo, passam a administrar os negócios, admitindo agora um novo sócio no empreendimento: Wenzel Kahlhofer, passando a empresa chamar-se Kahlhofer & Buschle Irmãos – Companhia Fabril Polaris.

Wenzel Kahlhofer era um capitalista dos tempos antigos muito abastado. Era representante comercial local de muitas companhias de renome, agente de casas bancárias e proprietário de serrarias. Era forte no comercio de madeiras e erva mate. Na firma dos irmãos Buschle permaneceu por pouco tempo, até novembro de 1933.

 

             
     


Figuras 3, 4 e 5  - Rótulos de bebidas produzidas em diferentes épocas  - Acervo do Autor

Nessa época além de fabricar cerveja, nas instalações que tinham alugado de Ernesto Klaumann,  passam a produzir e engarrafar o refrigerante “Crush” a partir  do xarope de laranja que compravam do detentor da marca nos EUA. Usavam água de uma fonte que nascia nos pés do morro que ficava aos fundos da fábrica. Esse refrigerante de sabor laranja era muito famoso na primeira metade do século XX. Foi a primeira soda sabor laranja a ser introduzida no mercado americano, por J. M. Thompson, de Chicago, em 1906. A Crush perdeu mercado e desapareceu com a expansão da “Fanta” pela Coca-Cola, em 1960. Aqui em São Bento foi produzida por mais de uma década desde 1931, até 1942 pouco mais pouco menos, pois durante a guerra cessou temporariamente a importação do xarope dos EUA e depois a firma Buschle Irmãos não retomou a produção. A fabricação de cerveja foi descontinuada ainda antes, em 1932 ou 1933.

      

  

Figuras 6 e 7 - Refrigerante Crush sabor laranja, produzido em São Bento pela Kahlhofer & Buschle Irmãos entre 1931 e 1942   - garrafa da década de 1930, anúncio da década de 1950  -


Começa agora a fabricação de chocolates e bombons. Alguns produtos eram muito sofisticados na época e alcançaram relativa fama no mercado sul brasileiro, como os bombons de Rum, que tinham a bebida em seu interior ou o grandemente sofisticado “Torrão Milanês”, jamais igualado, até hoje. Produziam-se barras de chocolate muito bonitas, fundidas em formas com desenhos de temas natalinos e de páscoa, como papais Noel e coelhinhos, em relevo. Nenhum fabricante hoje em dia mantém essa tradição.

De maneira geral a firma Buschle Irmãos se dividia entre a parte comercial e a fábrica de chocolates e licores. O comercio era muito diversificado em todas a direções possíveis, pois ia da venda de secos e molhados a armarinhos, confecções,  utilidades domésticas e material de construção. A parte fabril foi se concentrando na produção de chocolates e bombons. A produção de licores foi diminuindo até que foi encerrada em meados da década de 1960.

Em 1940 a empresa encomenda ao renomado escritório de arquitetura de Simão Gramlich, de Blumenau, um arrojado projeto para sua nova sede comercial. Era o mesmo arquiteto que projetou a igreja matriz da cidade. O prédio em estilo Art-Decô é uma das jóias da arquitetura são-bentense e ainda se conserva em nossos dias.

A administração técnica da firma Buschle Irmãos,  desde o princípio, foi exercida por Alfredo Buschle, entre 1918 e 1973, sendo substituído dali por diante por Luis Hilgenstieler, este que ingressou  menino  na empresa, iniciando como ajudante geral na década de 1930. Hilgenstieler foi diretor técnico da empresa até o final, em 1995.

A administração comercial ficava a cargo de Theodoro Buschle, que exerceu a função entre 1929 e 1956. Depois o irmão Ewaldo Buschle passa a presidir a empresa até 1973 quando é substituído por Marcos Donato Buschle, da geração seguinte, visto que é filho de Alfredo Buschle.

Na década de 1970 a parte comercial de secos e molhados é transformada em supermercado. Ainda existe uma seção de materiais de construção, mas o comércio de armarinhos, confecções, utilidades, eletrônicos (basicamente rádios), bicicletas e eletrodomésticos é descontinuada. Administrada agora pela segunda geração a empresa passa a enfrentar problemas de gestão e males relacionados a uma estrutura tremendamente viciada.


Figura 8 - Mostruário de barras de chocolate Buschle Irmãos. Estes rótulos são da última fase da empresa.


 Detalhes de alguns deles podem ser ampliados da série de figuras abaixo


- foto do autor - Acervo do Museu Histórico Municipal Felipe Maria Wolff -

 

Toda a industria brasileira de chocolates passa a enfrentar provações terríveis. Essa tempestade vem da Bahia, principal centro de produção de cacau do país. Ocorre que uma eminência parda - conhecida como Ângelo Calmon de Sá, cacaueiro e banqueiro (Banco Econômico), foi guinado a Ministro da Indústria e Comércio. Guiado por seus próprios interesses, Calmon de Sá praticou uma modalidade terrivelmente predatória de dumping no mercado nacional de cacau. Através de seu Banco Econômico, arrematava enormes e caríssimos lotes de seu próprio produto para saturar o comércio de produtos com  preços artificiais muito abaixo dos praticados por seus concorrentes. Isso desestabilizou gravemente a maior parte da indústria de chocolates do Brasil, alguns até à insolvência.

A Buschle Irmãos, que ainda tinha uma cota adicional dos seus próprios problemas decorrente de uma administração temerária por parte de seu novo presidente, não resiste às adversidades e caminha célere para seu próprio ocaso. No final da década de 1970 problemas de inadimplência e falta de matéria prima para a fábrica de chocolates começam a se suceder. Existe agora uma crise de identidade entre a parte comercial – o supermercado – e a industrial. A empresa Buschle & Lepper de Joinville, cujo maior acionista é o filho mais novo de Estevão e Emilia Buschle - Baltazar Buschle - tenta interferir e salvar a empresa fundada por sua família, mas foi um esforço inútil.

Em 1º de março de 1983  é decretada a falência da Buschle Irmãos Ltda.  A massa falida é levada a dois leilões que acontecem em 1º de dezembro de 1995 e 20 de março de 1996. Neste último leilão a maior parte dos bens são arrematados pela família Rudnick, ligada à Móveis Rudnick, de Oxford.

Posfácio

Quando a firma Buschle Irmãos finalmente cerrou as portas as pessoas aqui de São Bento do Sul diziam: “Oh... que pena.... o chocolate era tão bom...  como vamos ficar agora?...”

Mas o que aconteceu? Pouco tempo depois surgiram diversas fábricas pequenas como sucessoras (Makrobom, Frantz, Duschle etc.), e que hoje no conjunto empregam até mais do que o Buschle originalmente empregava e mantém um padrão de qualidade similar, embora não mantenha toda a paleta de produtos. O Torrão Milanês, por exemplo, nunca mais voltou a ser produzido.

CLIQUE SOBRE AS FIGURAS PARA AMPLIAR




 

FIM

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