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A Ética no Helenismo

escrito por Mike, da Elaion, traduzido por Alexandra Nikaios 

No mundo moderno, o termo "religião" tem sido rejeitado em lugar da "espiritualidade". As pessoas falam de forma tão injuriada sobre 'religião organizada' com tanta freqüência que há muito tempo eles pararam de se justificar. Nos termos deles, 'religião' significa fé cega, conflito e manipulação, enquanto a moderna 'espiritualidade' traz o auto-conhecimento, a paz e a compreensão. Nós inalamos, inteiro e sem mastigar, a crença de que o objetivo da vida individual é a auto-perfeição. E que o propósito da espiritualidade - é desemaranhar-se desse fascinante pequeno fardo do 'eu'.

Isso é irônico. O mal-estar da idade é o nosso isolamento uns dos outros, nossos descontentamentos com o mundo à nossa volta e nossa incapacidade de compreender nosso propósito na vida. E nossa 'solução'? Uma 'espiritualidade' que nos corta do compromisso significativo com o mundo à nossa volta e até mesmo nos retira pra dentro de si-mesmo.

Não é assim que funciona com o Helenismo, mas esta é a bagagem que muitas pessoas trazem pra cá. Elas estão preocupadas com seus relacionamentos com os deuses e o reconhecimento da sua escolhida condição no cosmo. É inegável que normalmente são os Deuses que nos arrastam para a religião do Helenismo. Quem pode negar a atração de brilhantes figuras como Apolo, Hécate segurando a tocha, Zeus com um largo tórax, ou a misteriosa Perséfone?

Entretanto, o culto aos Deuses não é a característica que define o Helenismo. Nossa religião é conduzida pela tensão e fluxo entre o indivíduo, a comunidade e o divino. Enquanto o movimento helênico cresce e se alarga, um de nossos desafios-chave é contextualizar o culto aos deuses dentro da religião como um todo, levando as pessoas de suas espiritualidades auto-absortas para um desenvolvimento religioso e social mais amplo.

No Helenismo, a espiritualidade é uma fusão dinâmica das necessidades transcendentais do indivíduo, as representações coletivas da comunidade, e uma outra essência, totalmente diferente e divina, que nós chamamos de Deuses. Nós podemos entender esta tensão com a dialética de Hegel quando ele fala sobre thesis, antithesis e synthesis. A espiritualidade é, essencialmente, um diálogo entre o si-mesmo, a comunidade e o divino, com este último sendo também uma união transcendental dos dois primeiros. Esta seqüência nos traça um mapa que mostra o caminho que leva para uma compreensão individual enriquecida e sofisticada. O divino não pode ser compreendido sem se entender à sociedade assim como ao individual, e, é importante dizer, a relação entre os dois.

As regras que governam a interação entre o indivíduo e a comunidade são chamadas de Ética. Isto foi o que se perdeu no discurso espiritual moderno. Enquanto nos debatemos por auto-conhecimento, nos esquecemos de nossas responsabilidades. Porém, se a espiritualidade depende de uma compreensão do relacionamento entre o indivíduo e a comunidade, então a ética é uma base fundamental para a compreensão religiosa do Helenismo. A ética nos mantém todos ligados: os próprios Deuses devem respeitar a themis (lei sagrada) e a moira (destino), sem mencionar o xenios (hospitalidade) e a chabris (reciprocidade). Estes são os valores do Helenismo que são transcendentes. Nossas responsabilidades uns com os outros são um espelho das forças maiores que agem em nossas vidas.

Defendemos uma compreensão do Helenismo que é ligada aos valores e princípios, conforme personificados e transmitidos pelo mito helênico, pela filosofia, pela poesia e pela arte helênicas. Isso implica em não ser nem estritamente 'ortoprático' nem 'ortodoxo', mas, mais que isso, enfatiza o princípio de 'viver direito': sempre procurar se comportar honradamente e piamente, aos olhos dos outros e dos deuses.
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