Evangelho ao acaso

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Caibar Schutel

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 Cairbar Schutel irante

do

Espiritismo

Eduardo Carvalho Monteiro

Wilson Garcia



Conteúdo resumido

Cairbar Schutel foi um dos iniciadores e divulgadores da Doutrina Espírita no Brasil, sendo um homem de fibra, coragem e fé. E foi um exemplo vivo na prática da caridade, daí ter sido reconhecido como o "Pai dos pobres de Matão".

Sumário

Prefácio

Primeira Parte - Cairbar, O Homem e a Obra - Eduardo Carvalho Monteiro

I - Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo

II - Passagem por Araraquara

III - Os Schutel, uma família ilustre

IV - A Matão que Cairbar encontrou

V - O político Cairbar Schutel

VI - O casamento de Cairbar Schutel

VII - Cairbar Schutel enquanto católico

VIII - Como se deu a conversão

IX  - Schutel é testado pela primeira vez

X - A primeira polêmica quase termina em tragédia

XI - Nasce o Clarim

XII Curiosidades pinçadas nos 1.°s números de "O Clarim"

XIII - Seu tipo físico e personalidade

XIV - Cairbar e dona Mariquinhas

XV - O "Pai dos pobres de Matão"

XVI - Criação do Hospital de Caridade

XVII - Apreensão de "O Clarim" em 1913

XVIII - Visitas à cadeia pública

XIX - A cura dos obsidiados

XX - A mediunidade de cura de Cairbar

XXI - O apego de Cairbar aos animais

XXII - Uma herança para Cairbar Schutel

XXIII - A fundação da RIE

XXIV - Associação "São Vicente de Paulo"

XXV - Casos vividos por cairbar

XXVI - Fundação da "Associação Comercial de Matão"

XXVII - A posição de "O Clarim" quanto à "Constituinte Espírita Nacional"

XXVIII - A "Coligação Pró-Estado Leigo"

XXIX O Não de Cairbar à  "Ação Espírita Paulista"

XXX - Cairbar Schutel e Chico Xavier

XXXI - O Pioneirismo da "Assoc. de Prop. Esp. do Estado de São Paulo"

XXXII - Conferências Radiofônicas

XXXIII - As Crônicas no "Correio Paulistano" e "Gazeta de Notícias"

XXXIV - Uma sessão espírita com Cairbar

XXXV - O Desencarne: "Vivi, Vivo e Viverei"

XXXVI - O Sepultamento

Segunda Parte - Cairbar, o Escritor e o Jornalista - Wilson Garcia

I - "Nossa tarefa é divulgar"

II - O pensamento espírita de Cairbar Schutel

III - Cairbar Schutel e a fenomenologia espírita

IV - Por um espírito livre, consciente

V - Cairbar Schutel e seus livros

VI Cairbar: De farmacêutico a jornalista

Notas Bibliográficas

 

 

Prefácio

 

 

Dizer que uma editora espírita sente-se honrada e que tenha satisfação em apresentar um livro, pode parecer um lugar comum; aquele feitio de ser gentil e estimulador pela autoria da obra.

Tal, porém, não se passa com o lançamento de um livro do porte desta biografia, pela consciência profunda que se tem da importância da tarefa e do desempenho doutrinário do biografado.

É uma vida de integral exemplo à dedicação a um ideal apostólico, cuja imagem de indicador de rumos mostra-se como um caminho seguro que devemos trilhar.

Cairbar Schutel surge, de corpo inteiro, neste texto que deixa que vejamos o venerando fundador do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", de "O Clarim", da "Revista Internacional de Espiritismo" e da Casa Editora "O Clarim", com toda a expressão de seu espírito lutador de um dos mais fiéis pioneiros do Espiritismo no Brasil.

Talvez o amor explique este fenômeno, pois deve ter sido com imenso amor que a pesquisa de sua grande vida surge com todas as nuanças em um tão curto espaço de tempo. E antes que Cairbar Schutel venha a tornar-se um mito inatingível, mas muito pelo contrário, para que revele-se como um homem - um verdadeiro ser humano - para sugerir-nos que qualquer um de nós, em seguindo suas pegadas, concretize com amor os compromissos havidos com a Doutrina Espírita.

A fé, diz-nos Cristo, pode remover montanhas. E foram uma sucessão de dificuldades, de obstinadas pesquisas que, de pouco em pouco, surgiu O Bandeirante do Espiritismo, que leva o estudioso da Terceira Revelação a uma euforia e à necessidade de prosseguir no terreno da divulgação do ideal kardecista, nas pegadas mesmas do grande e luminoso doador das mensagens de consolo, de elucidação e libertação em face da Verdade a que dedicou a maior parte de sua grande vida.

Vi Cairbar Schutel de relance; vinha do agreste com minha querida mãe e o trem se deteve em Matão. Era o trem da noite que havíamos tomado com destino a Minas Gerais. Era uma criança de grupo escolar e vi quando aquele homem de traje impecável, de brim, porte esbelto, com um maço de jornais debaixo do braço, ia colocando um exemplar em cada banco vazio. Curioso, tomei um deles. Era O Clarim. Mais tarde, através de fotografia tomei conhecimento de que o homem do trem era Cairbar Schutel. Soube tempos depois que ele os esperava para distribuir a boa semente aos viajores fatigados que se destinavam às excursões mais distantes de São Paulo.

Posteriormente, já cursando o Ginásio, fiquei muito amigo de um jovenzinho que, insatisfeito, abandonara o Catolicismo e aderira à Mocidade Espírita. Um dia falei-lhe do episódio do trem e ele me narrou o seguinte:

Cairbar Schutel fazia conferências espíritas na PRD-4, Rádio Cultura Araraquara. Esse amigo era mariano e ouvia aborrecido as sugestões do pároco para que vaiassem o conferencista.

Entretanto, ao sair do recinto das transmissões, Cairbar Schutel se mostrava tão respeitável e digno que os moços marianos abaixavam as cabeças e por mais obstinados que se dirigissem à Rádio nas domingueiras, jamais conseguiram atender ao pároco.

Portanto, a biografia que oferecemos é um trabalho profundo, amplo, abrangente. E o fruto heróico de Eduardo Carvalho Monteiro e Wilson Garcia, confrades de São Paulo, que neste gênero a apresenta através de ótica cristalina e bem documentada, e que a gente como que a descobre em seu poder de síntese, e na qual inteligência e consciência tocam um algo de inesperado, como duas formas se justapondo: surgem em todo o seu perfil o homem e sua obra.

Pinçando os mais recônditos meandros de uma centena de memórias, num global de criticas firmes e serenas e de uma infinidade de boas ações, através do dia a dia numa pequena cidade - a sua querida Matão - que agora também ganha porte - pela "descoberta" de seu filho laborioso e honrado, e que um dia há de saldar a dívida de gratidão que tem para com ele - o grande amor do cidadão e do espírita Cairbar Schutel.

Tal é o conteúdo do que vamos ler em seguida!

Wallace Leal V. Rodrigues

 

Este livro surge para marcar um outro evento significativo do nosso movimento espírita: a realização do IX CONBRAJEE - IX Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, nos dias 18 a 21 de abril de 1986, na capital paulista, do qual Cairbar Schutel é o patrono.

 

 

Primeira Parte

 

Cairbar, O Homem e a Obra

 

Eduardo Carvalho Monteiro

 

 

I

 

Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo

 

 

Sob o título "A Grande Homenagem de Araraquara a Cairbar Schutel" (Impressionante Concentração Espírita) o jornal "A Comarca", de Matão, de 27 de março de 1938, em sua 1.ª página noticiava a justa homenagem que se prestava ao grande vulto do Espiritismo na Pátria do Cruzeiro: "Foi com emoção crescente que, partindo para a grande cidade, atualmente, depois de Santos e Campinas, a mais importante do Estado, fomos notando carros inteiros das composições da Estrada de Ferro Paulista, ônibus da zona araraquarense, automóveis de várias procedências repletos de passageiros, que afluíam à consagração, promovida, em 20 do corrente mês, pelos espíritas de Araraquara, ao grande pioneiro do Espiritismo no Brasil.

Não se pode dizer que essa consagração era à sua memória, porque os espíritas, convictos da imortalidade da alma ou do espírito humano, renderam a homenagem àquele que deixara o mundo físico em 30 de janeiro último, e, portanto, ao próprio Cairbar Schutel, espírito liberto no Espaço.

O Teatro Municipal de Araraquara, é um próprio do Governo do Município, fica no coração da cidade, e tem lotação para cerca de duas mil pessoas.

"A sessão estava anunciada para as 8 horas da noite. As sete, já se achavam tomadas as cadeiras. As sete e meia, a Casa repleta, os amplos corredores eram pequenos para comportar a massa de gente que se avolumava, minuto a minuto, ficando de pé." (...) (Ítalo Ferreira).

O que explicaria tal proporção de homenagem senão estarmos diante de um vulto de exceção? De um missionário voltado para os grandes problemas do destino humano? Não precisou Cairbar Schutel localizar-se num grande centro irradiador de cultura para projetar-se no cenário cultural, filosófico e religioso de sua Pátria. O pequeno palco que teve na cidade de Matão, interior de São Paulo, bastou para que escrevesse em tintas indeléveis sua trajetória no livro da História.

Este Bandeirante, quase um autodidata, transitou seu talento não pelo cultivo da estilística e da filologia, mas pela disseminação das idéias espíritas cristãs e em tal floração se fez mestre. Com o mesmo afã e amor com que fazia correr sua pena de jornalista e escritor, sobressaltou-se-lhe a obra da caridade cristã, razão pela qual, "A Comarca", jornal leigo, e muitas autoridades de nomeada da região, renderam-lhe homenagens por ocasião de seu falecimento.

Souberam reconhecer naquele homem íntegro e de inabaláveis convicções religiosas, sua importância para a comunidade e a grande perda que se faria sentir na sociedade local.

Mas, infelizmente, apenas os espíritas mais integrados ao movimento doutrinário poderiam vislumbrar, àquela época, a grande relevância do papel que desempenhou e desempenha até hoje a figura de Cairbar Schutel cujo exemplo e pensamento influencia e inspira várias gerações de espíritas reencarnados neste Planeta. Sim, porque essa influência não se restringe a nossos conterrâneos, mas já de há muito rompeu fronteiras e, mais precisamente, desde 1925, exerce seu fascínio sobre irmãos de outras terras com a extraordinária mensageira da Doutrina dos Espíritos, a "Revista Internacional do Espiritismo".

 

*

 

Cairbar Schutel teve por berço natal a cidade do Rio de Janeiro no terceiro quartel do século passado. Um excelente artigo de Wallace Leal Rodrigues na RIE de setembro de 1968, do qual reproduzimos um fragmento, retrata o cenário da época, o "modus vivendi" da família e os passos iniciais de Cairbar Schutel. Melhor não teríamos descrito:

"Cairbar de Souza Schutel nasceu a 22 de setembro de 1868, enquanto o Brasil envolvia-se na aventura que a História denomina a "Guerra do Paraguai". Estava com pouco mais de um mês quando chegaram à real cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro as notícias decisivas sobre a batalha de Tuiuti.

O casal Souza Schutel via nascer seu primeiro filho enquanto residia na famosa Rua do Ouvidor, 49, que, apesar dos terrores da guerra, dia a dia engalanava-se e resplandecia. O menino Cairbar transitava, pela mão de sua mãe, entre nada menos do que 23 casas de modistas, 4 de floristas, 77 ourives, 33 relojoeiros, 66 sapateiros, 8 retratistas - um dos quais retratou-lhe os pais no esplendor de sua beleza e juventude - e 24 fabricantes de carruagens.

Ali os hábitos eram complicados e nobres, o que pode explicar o fato do formoso Anthero Schutel ter-se tornado um "dandy". Na capital imperial proliferavam os grêmios de diversões e arte e o elegante filho de fazendeiros catarinenses não se importava em gastar fortunas no Cassino Fluminense, - de todos os mais aristocrático, - na Sociedade de Recreação Campestre ou mesmo nos Clubes de Petrópolis, na cidade dos reis.

Entretanto a esposa, a meiga Rita, não o acompanhava. Era dotada de um outro feitio e fora criada na religião brasileira do culto doméstico. As casas abastadas possuíam seus oratórios particulares e o menino gravou na memória a lembrança de sua mãe de joelhos, com ele ao seu lado e os escravos domésticos um pouco atrás. Desfiavam o rosário enquanto as velinhas faziam a ilusão de que os santos mudavam suas expressões faciais e moviam as vestes.

A religião enchia a vida monótona e triste de D. Rita, que amava intensamente o marido e esperava-o chegar; madrugada alta, insone e resignada. Schutel, anos mais tarde, contaria aos amigos ter visto, em certos dias, a casa se esvaziar de móveis, levados para saldar as contas de jogo de Anthero. Este, todavia, sempre terminava por trazê-los de volta. No fundo era bom, amável, e adorava a família. Mas sua vida desregrada deveria em breve levá-lo ao túmulo e a doce Rita não demoraria em ir fazer-lhe companhia. Por esse tempo, uma outra criança já nascera, um esperado irmãozinho que, entretanto, não partilharia com Cairbar, por muito tempo, as tristezas da orfandade".

O livro de Luiz Edmundo, "O Rio de Janeiro do Meu Tempo", revive o clima da famosa Rua do Ouvidor e suas lojas, onde nasceu e passou seus primeiros anos de vida nosso biografado:

"São rasgões claros em montras de cristal resplandecendo, faiscando ao sol, arcos de entrada em boa cantaria, de madeira envernizada ou mármore, conjunto dizendo certa distinção, capricho, destoando na linha geral do casario irregular e de vulgar arquitetura. Nelas vêem-se caixeiros e patrões dentro de uniformes de linho branco, muito limpos, muito bem barbeados, afetando maneiras, mostrando sorrisos e falando em francês".

Leopoldo Machado, amigo e biógrafo de Cairbar Schutel, relaciona a descendência deste com a missão que viria desempenhar nesta encarnação. Acredita Leopoldo, que estando a Suíça ladeada por três povos belicosos quais sejam, os alemães, os franceses e os italianos; ao mesmo tempo em que falando três idiomas; possuindo três religiões predominantes; sua história atesta ser o povo mais pacífico do planeta, onde toda a vizinhança ou as diferenças internas nunca levaram a nação a aventuras bélicas. Seria ideal, portanto, para sua missão, uma descendência e formação junto a esse povo, que lhe transmitiria, em seus primeiros anos de vida, sentimento de paz e fraternidade que ele haveria de cultivar e aperfeiçoar no decorrer de sua existência.

O Senhor Anthero de Souza Schutel, pai de Cairbar, era um negociante de móveis de relativo sucesso, mas como já foi dito, perdeu-se na vida desregrada e no vício do jogo.

Seu primeiro contato com D. Rita, natural de Tijucas - SC, deu-se quando ele convidou-a em sua casa para ir ao teatro e esta aceitou, trajando-se com o vestido listrado da moda. Do romance para o casamento passou-se breve tempo.

Em 24 de abril de 1878 falece o pai de Cairbar, repentinamente, aos 33 anos. Estava ele tomando banho num bacião, quando gritou e correram para chamar um médico, que não chegou a tempo.

Logo a seguir, em 12 de setembro, a esposa que havia enviuvado grávida, dá a luz a um menino, Antero, mas acometida de febre puerperal vem a falecer no dia 24 do mesmo mês. Antero só viveria por 4 anos.

Quando a mãe pressentiu a morte, chamou Cairbar à cabeceira, e este compareceu à sua presença desalinhado e de qualquer jeito, ao que ela retrucou: "Vai se arrumar, meu filho". Quando ele voltou, com sua roupinha de marinheiro; ela explicou-lhe o porquê do pedido: "É que eu quero que você seja assim toda a sua vida. Sempre bem alinhado e sem nunca dormir antes de limpar os sapatos para o dia seguinte". E de fato, assim o seria Cairbar para o resto de sua vida. Sempre elegante, boa postura, roupas da moda.

Segundo, também, Leopoldo Machado, o menino Cairbar foi batizado na religião católica, herdada da mãe, aos sete anos.

Morta a mãe, Cairbar, órfão, vai para a casa do avô, Dr. Henrique Schutel, que toma a si o encargo da educação do menino e o matricula no Imperial Colégio D. Pedro II, onde ele cursa até o segundo ano. Por algum tempo, também, viveu com uma irmã de criação.

Tornou-se, então, um menino insatisfeito, não se podendo precisar se pelas duras marcas que a vida prematuramente havia lhe imposto, ou se pela sua inadaptação ao colégio.

A vida rígida da Escola não o seduzia, levando Cairbar a abandoná-la e empregar-se numa farmácia na Rua 1.º de Março como aprendiz. A especialização veio rápida e, em pouco tempo, ele era um prático de respeito. Trabalhou em mais duas ou três farmácias e, no intervalo desses empregos, também foi ajudante de cozinheiro em restaurantes da moda.

Ao que tudo indicava, sob o signo das predileções noctívagas, e habitante de uma jovem cidade afeita aos prazeres, Cairbar parecia ter se tornado herdeiro do pai.

Em fins do século passado, o Rio, com seus 800.000 habitantes, era uma cidade envolvente por suas diversões e de fervilhante vida noturna.

Numa sociedade pouco industrializada, havia um comércio muito profícuo de ambulantes que oferecia todo o tipo de produtos, da verdura ao jornal, do mocotó às bengalas e guarda-chuvas. Eram também comuns os quiosques - armações de madeiras nas calçadas - onde o povo comia lascas de bacalhau, sardinhas e frituras, regadas a cachaça e vinho português. A higiene era péssima: a comida era feita na hora e os restos atirados no chão, atraindo moscas e vira-latas. Somando estes fatores à ausência de saneamento básico e ao relaxamento quanto à saúde pública, o Rio foi palco de várias epidemias e era conhecida como uma cidade empestada pela varíola, cólera, peste bubônica e, principalmente, a temida febre amarela.

As praias eram pouco freqüentadas, pouquíssimos sabiam nadar e, na Praia de Santa Luzia, os mais ousados penduravam-se em cordas amarradas em elevados diques de madeira vazada, ficando com parte do corpo metida dentro da água. Temia-se igualmente o sol, ao qual atribuía-se muitos perigos e, ao contrário dos tempos atuais, em que o conceito estético valoriza o bronzeado das mulheres, àquela época o charme estava no visual branco e etéreo cuidadosamente cultivado, inclusive através de produtos de maquiagem anunciados fartamente pela Revista Fon-Fon.

À noite, boêmios seresteiros invadiam as ruas com seus choros e modinhas até o dia raiar. Cairbar se fez um deles e, não raras vezes, amanhecia o dia na praia para, logo em seguida, às 7 horas, retomar o trabalho na farmácia sem dar o devido descanso ao corpo.

Quando não, empenhava-se em rodas de capoeira, de cuja prática era um simpatizante.

De espírito irreverente e ligado aos prazeres da vida mundana em sua juventude, Cairbar compôs-se na Sociedade "Clube dos Tenentes do Diabo", que rivalizava-se nos dias de folia de Momo com "Os Fenianos" e "Os Democráticos". Era o grande momento de Carnaval, quando a população aguardava durante horas nas ruas do Centro e depois na Avenida Central, atual Rio Branco, a passagem dos carros alegóricos puxados por cavalos ou pessoas dos três cordões.

Esse ritmo de vida, para um jovem em fase de desenvolvimento físico, acabou por torná-lo anêmico e debilitado nas funções pulmonares. A princípio, o recurso de se jogar mercúrio-cromo com guaiacol às costas amenizava e disfarçava sua precária condição de saúde, mas esse tratamento se tornou inócuo na medida em que Cairbar também não se esforçava para deixar seus hábitos noctívagos.

Só restou a ele, então, o recurso de consultar um médico, que foi incisivo em seu diagnóstico: "Sua saúde está precaríssima e você numa encruzilhada: ou sai do Rio imediatamente ou encomende já seu túmulo, porque você se encontra a um passo da tuberculose! Saia já do Rio".

E como naquele tempo, por ser fatal, temia-se muito a tuberculose, ele dirigiu-se no mesmo dia ao proprietário da farmácia, pediu para acertar suas contas e, baú debaixo do braço, despediu-se do avô e encaminhou-se a estação ferroviária D. Pedro II.

Certos rumos, aparentemente inexplicáveis que às vezes a vida de uma pessoa toma, são facilmente entendíveis pela influência que os compromissos reencarnatórios exercem sobre nosso íntimo. Muito embora conscientemente não entendamos o porquê daquele impulso que nos leva a tomar decisões drásticas e repentinas, é o inconsciente, através da lembrança desses compromissos nele gravados, que nos impele a tal.

Na estação, Cairbar Schutel, que não fazia sequer suposição para onde poderia ir, olha o mapa ferroviário e se fixa no final da linha: Araraquara.

"É para lá que vou" resolve. Compra a passagem, em São Paulo faz baldeação para a Cia de Ferro Paulista, e, no dia seguinte, se encontra intrepidamente num local em que a alguns dias antes nunca sonhara estar. Sim, era verdade. Num átimo de segundo houvera ousado trocar a encantadora Capital do País, com sua forte influência francesa do fim do século, por uma pequenina cidade, à época, do sertão paulista!

Descendo do trem, seu primeiro ato foi perguntar onde ficava a melhor farmácia da cidade. "É a Farmácia Moura", responde-lhe um transeunte. "Localiza-se na Rua do Comércio esquina com Avenida São Paulo. Seu proprietário é o Sr. João Baptista Raia".

Encaminhou-se para lá. Apresenta-se ao Sr. Raia como prático de farmácia, explica sua situação, e oferece-se para trabalhar com ele. Submetido a rigoroso teste, onde deveria aviar três difíceis receitas, desincumbiu-se perfeitamente da tarefa e foi contratado.

Corria, então, o ano de 1891 e naquela casa nosso biografado trabalhou por dois anos, aperfeiçoando seus conhecimentos da profissão na manipulação de xaropes, poções e essências, e na nomenclatura dos medicamentos.

Esta fase de sua vida interrompeu-se porque, melindrado por uma admoestação do patrão que achou injusta, e movido pelo orgulho que a Doutrina mais tarde viria a corrigir, Cairbar pediu suas contas ao Sr. Raia.

A contragosto, o patrão teve que concordar, embora declarasse:

"Um bom empregado, trabalhador e honestíssimo. Caráter, competência e dedicação ao trabalha. Mas é um poço de sensibilidade e saiu por orgulho e altivez. Não creio, porém, que resista por muito tempo, porque um lugar de gerente numa casa importante não se arranja facilmente. Aqui continuo aguardando-o, já que as coisas não andam muito boas e ele não tem de que viver..."

O então jovem Cairbar soube dos conceitos do patrão, mas seu orgulho falava mais alto e ele preferiu servir como humilde entregador de mercearia a curvar-se diante dele. Assim, não raras vezes era visto empurrando uma carrocinha em frente à Farmácia do Sr. Raia...

De Araraquara teve uma breve passagem por Piracicaba, onde empregou-se na Farmácia Neves, de propriedade de Samuel Castro Neves. Talvez aí possa ter tido um primeiro contato com o Espiritismo, através do Senhor Oseas de Castro Neves, tabelião de Piracicaba, irmão de Samuel e um dos primeiros estudiosos da Doutrina naquelas plagas, ao qual Cairbar dedicou boa amizade, conforme atesta-se no necrológio do mesmo que ele fez publicar em "O Clarim" de 07/12/1912:

"As 11,30 hs. da manhã de ontem, passou para as regiões do Além, o nosso prezadíssimo companheiro e amigo, Sr. Oseas de Castro Neves, 1.º tabelião desta cidade.

Conquanto enfermo já há longo tempo, seu passamento produziu profundo abalo na população piracicabana e indizível consternação entre aqueles que com ele privavam de perto (...)"

 

II

 

Passagem por Araraquara

 

 

Em 1894, ei-lo novamente em Araraquara, quando compra um pequeno sítio em que passa a cultivar frutas e verduras, além de estabelecer-se na cidade com um pequeno comércio de tabacaria e venda de bilhetes de loteria.

Nesta época, seu primeiro grande caso de amor. A moça, de nome Izaltina, pertencente à sociedade local, que por pressão da família, deixa de corresponder à grande paixão que nosso biografado lhe devota.

Mas o seu coração iria pender mesmo era para o lado de Maria Elvira da Silva e Lima, formosa jovem, cuja saga e caso com Cairbar Schutel relataremos adiante e com quem ele passaria a viver maritalmente.

O grande amigo de Schutel em Araraquara chamava-se Britinho, cuja amizade conservou mesmo após sua mudança da cidade, visitando sempre o amigo quando de suas estadas por lá.

Já ficara no passado os tempos de boemia do Rio de Janeiro. Cairbar Schutel, então, mais amadurecido e responsável, nem de longe lembrava o alegre folião do "Clube dos Tenentes do Diabo" ou o animado seresteiro das rodas noturnas cariocas.

O fato marcante de sua segunda passagem por essa cidade, foi o surto de febre amarela que assolou-a no ano de 1895, mas com casos conhecidos desde 1890 - 91. Logicamente, como prático de Farmácia, Cairbar Schutel atuou no combate à moléstia.

 

 

Cairbar Schutel, o jornalista

 

Bastante ligado às questões religiosas, católico praticante, Schutel freqüentava a Igreja da qual era vigário o Padre Luciano Francisco Pacheco e, posteriormente, Frei Daniel (capuchinho).

Em 1895 muda-se de Araraquara, mas não vai diretamente a Matão, como se supõe. Ele provavelmente terá tido uma breve passagem por Itápolis, vila das redondezas, hoje Município, antes de estabelecer-se na, também, vila de Matão.

Como curiosidade, conta-se que Schutel sempre citava, jocosamente, o fato de ter chegado a Matão em uma sexta-feira, 13, de 1896, ano bissexto. Pelo que vamos acompanhar de sua biografia, ficamos a matutar o que seria se superstição valesse...

 

 

III

 

Os Schutel, uma família ilustre

 

 

Demonstrando ser um Espírito altamente preparado para a missão a que foi chamado a desempenhar na presente encarnação, Cairbar nunca quis tirar proveito de sua descendência ilustre, os Schutel, freqüentadores da Corte do Império, e preferiu começar sua vida do nada a servir-se da influência de seus parentes para ganhar algum cargo ou função importante no Império.

No entanto, vale registrar aqui algumas informações sobre os imigrantes suíços Schutel, que servirão como subsídios históricos à trajetória de nosso biografado.

- Seu avô, João Carlos Luiz Henrique Schutel, foi casado em primeiras núpcias, na Itália, com Camila Strombio Schutel, de cujo enlace resultou o filho João Strombio Schutel que, por sua vez, foi casado com Custódia Cândida da Silveira, filha de Manoel Inácio da Silveira e Felicidade Cândida da Silveira.

- Sua avó, Maria da Glória Teixeira Schutel, também viúva, foi casada com o Major Francisco Machado de Souza, com quem teve o filho Francisco Damas de Souza, que mais tarde recebeu o sobrenome Schutel, sendo considerado por Henrique Schutel como seu próprio filho. Francisco foi casado em primeiras núpcias com Maria Amélia Tavares e em segundas com Rosa Jesus Bonsfield.

- Garcia Redondo, historiador e escritor, relata insólito caso ocorrido no fim da vida com Dr. Henrique Schutel. Realizava ele, em 1885, uma viagem no navio Rio Pardo para o Rio de Janeiro, quando apresentou sintomas de alienação mental, certamente já alcançado pela esclerose cerebral, tendo por diversas vezes tentado se jogar no mar. Não queria com isso se suicidar, mas chegar mais rápido a nado...

Dois senhores vigiavam Dr. Schutel tentando conter-lhe os ímpetos, quando este, num de seus momentos de lucidez, confiou-lhes ser amigo do próprio Garcia Redondo, residente em Santos. Uma vez passando por aquela cidade praiana, os três dirigiram-se à casa de Garcia que os recebeu com um almoço. Prevenido da situação do amigo, Garcia só se convenceu de suas alucinações quando, ao término da refeição, este solicita uma garrafa de champanha e durante o brinde revela o motivo de sua viagem ao Rio iria avistar-se com o Imperador, seu amigo, para concitá-lo a aceitar, sem derramamento de sangue, a República que ele proclamaria. O segundo brinde foi para um dos convivas, Marechal Deodoro da Fonseca (o outro era o engenheiro Honório Bicalho) que, por sugestão de Schutel deveria ser o Presidente da República. Os dois "anjos da guarda" de Schutel retornaram ao navio sendo ele convencido a ficar na casa do amigo santista. Este comunicou seu estado aos parentes que vieram buscá-lo, promovendo sua internação em clínica do Rio, onde veio a falecer alguns meses depois sem ter visto se realizar sua profecia, pois, como é de conhecimento geral, em 1889 foi proclamada a República, sem derramamento de sangue e tendo sido escolhido seu primeiro Presidente Deodoro da Fonseca. No ar, a indagação: Premonição? Atuação Espiritual? Coincidência? A conclusão deixamos a cargo do leitor, inclusive porque a própria doença esclerose ainda é uma incógnita para o Homem.

- Dr. Henrique Schutel fundou a Empresa Demaria e Schutel com Carlos Demaria, súdito inglês, genovês de origem a qual deveria colonizar 1.000 braças de terra, acrescidas mais tarde de duas léguas, na região então denominada Colônia Nova Itália ou Dom Afonso, nas proximidades de São João Batista. Cento e oitenta colonos sardos foi o máximo que conseguiram, tendo sido frustrada a pretendida colonização, inclusive pelo medo das investidas dos selvícolas. Em 1845 as terras foram declaradas devolutas e a concessão caducou.

- No livro "As Minhas Memórias", Garcia Redondo descreve Dr. Henrique Schutel como "O anjo Bom da Pobreza de Santa Catarina".

- Do mesmo Dr. Henrique Schutel, conta-se que aportou no Rio de Janeiro a convite de D. Pedro II para cuidar da saúde de sua Imperatriz.

- Amante da boa música, Dr. Henrique Schutel estudou violino com Paganini em Milão e tornou-se exímio violinista.

- João Strombio Schutel casou-se com Custódia Cândida da Silveira Schutel, brasileira, e tiveram os seguintes filhos: Henrique, João Pedro, Adelaide, Camila e Adalgiza. Esta última foi registrada no Consulado da Itália em 1879, já que seu pai era cônsul na época. Foi a única que se casou, isto com João Mathias da Silva. Foram seus filhos: Maria (Marieta, falecida em 1985), Oswaldo (falecido em 1978), Alice, Alaide e João (falecido em 6/1/86).

- Duarte Paranhos Schutel, tio de Cairbar, foi médico, político, jornalista e literato. Nasceu na cidade de Desterro em 8 de junho de 1837. Segundo apuramos, parece ter sido afilhado do Barão do Rio Branco, com cuja família viveu em sua mocidade. Habitou, na época de estudante, na mesma pensão que Joaquim Manoel de Macedo, autor de "A Moreninha" e "Moço Loiro", cuja personagem desta última obra foi inspirada no próprio Duarte. Colando grau em Medicina em 1861 no Rio de Janeiro, retornou à Província em 1865, ande teve atuação destacada tanto na atividade profissional como na vida política, tendo chegado à Vice-Presidência de Santa Catarina em 1878 pelo Partido Liberal. Faleceu em Florianópolis em 6 de outubro de 1901.

- O jornal "Argos" de 30/6/1860 noticia o grande incêndio havido no dia 25 no Hotel Vapor, quando da equipe de voluntários para se debelar as chamas destacou-se o sr. Anthero Schutel, pai de Cairbar.

- Henrique Jacques Schutel, tio Nhonhô, trabalhou nas questões de limites da Bolívia e na construção do Viaduto do Chá em São Paulo. Faleceu num convento no Rio de Janeiro.

- Cecília e Emília, filhas de Duarte Paranhos Schutel, tocavam piano com a Princesa Isabel, no Rio.

- Em 1872 aconteceu um dos mais violentos surtos de varíola que registra a história sanitária de Santa Catarina e o Dr. Duarte Paranhos Schutel destacou-se como um dos médicos mais dedicados no atendimento à população. O mesmo Dr. Duarte foi abolicionista da primeira hora.

 

 

IV

 

A Matão que Cairbar encontrou

 

 

De um excerto de texto de programa radiofônico, bem podemos ter idéia da cidade de Matão no fim do século passado e princípio deste, que Cairbar Schutel encontrou:

"Senhores ouvintes.

.....era uma vez, um pequenino vilarejo, cercado de gragoatás, guabirobas, indaiás, joás, ingás, marias-pretas, uriticuns, cobras, onças, macacos e mata virgem, com perobeiras, jequitibás, embaibás, cabreúvas, paus d'alho, cedros, jacarandás e uma imensidade de árvores seculares, servindo de trono às aves canoras, no despertar das madrugadas e cerrar das Ave-Marias, quando a tarde se escondia na boca d’oeste, sob o estribilho sonoro da passarada, saudando a glória inconteste da natureza, pela passagem de mais um dia nos tempos áureos, que ficaram feito lantejoulas no espelho alvinitente do passado. E, senhores ouvintes, esse vilarejo pequenino nos seus primeiros vagidos, por Mercê de Deus Todo Poderoso e de seu povo chamou-se: Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão (...)

Foi preciso sacudir a fisionomia da terra, com machadeiros broncos e valentes, derribando e fazendo estrondar no seio da floresta abrupta, árvores e mais árvores, até então, feitas sentinelas do Império agreste do sertão dos tempos idos, quando em 1895, precisamente no dia 25 de março, levantava-se o Cruzeiro no coração do Patrimônio, simbolizando o martírio de Jesus Cristo Nosso Senhor, e Fé Irredutível no destino triunfante, da Vila do Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão!

Em maio de 1900, já no limiar do século XX, a pacatez da vila nos primeiros formatos de cidade, ouviu sobressaltada o primeiro apito rouco da locomotiva de George Stephenson. Pequenina como um brinquedo de criança. Chamada "boneca". Soltando fagulhas. Rangendo as rodas sobre os trilhos da bitola estreita, puxando resfolegante dois ou três vagões do "lastro", carregado de progresso e esperanças, varando vales, promontórios; cerrados, matas e terras férteis de toda a Araraquarense, para presumivelmente entre 1910 e 1912, alcançar essa fábula chamada São José do Rio Preto, hoje Capital do Sertão, e Rainha da barranca do Rio Grande.

Eis, então..., senhores ouvintes, a necessidade natural da política administrativa, para a Matão crescente e desenvolvida no seu progresso preliminar, quando em 1897 o Deputado Dr. Francisco Toledo Malta, aos 27 dias do mês de agosto, consegue a promulgação do Decreto criador do Município de Matão".

Era, assim, Matão, no início deste século um pequeno burgo, de nome plenamente justificado, e é nesse ambiente pouco povoado e pacato, onde não havia nenhuma botica, que nosso biografado escolhe para aportar.

Nessa localidade, montou sua farmácia na Rua do Comércio, Bairro da Pedreira, em frente ao Juca Barbeiro.

 

 

V

 

O político Cairbar Schutel

 

 

E de grande valia a atuação de Schutel no cenário político local.

Numa sociedade reduzida como Matão, a figura do farmacêutico era bastante representativa, ainda mais que, de caráter ilibado e retendo forte magnetismo pessoal, era previsível que Schutel se fizesse uma das importantes personalidades locais. Nada mais natural, então, que inscrever-se na história política de sua terra adotiva.

Em 1895, Matão era Distrito Policial; em 1897, Distrito de Paz; e, em 1898, elevado a Município pertencente à Comarca de Araraquara.

Para tanto, muito contribuiu o farmacêutico Schutel, já, àquela época, preocupado com os destinos da comunidade. Por esse esforço, e, logicamente, pela capacidade que demonstrava, foi escolhido o primeiro Intendente do novo Município, cargo este equivalente ao de Prefeito em nossos dias.

Ocupou este cargo em dois períodos: de 28 de março de 1899 a 7 de outubro do mesmo ano, e, de 18 de agosto de 1900, a 15 de outubro também de 1900.

Hoje percorre-se a distância de Araraquara a Matão confortavelmente em 20 minutos ou pouco mais de automóvel, mas, naquela época, Cairbar Schutel fazia esse mesmo trajeto a lombo de burro, com chuva, frio ou sol ardente, sem titubear nem temer as estradas poeirentas, os picadões bravios e as imprevisíveis defrontações com animais ferozes ou forasteiros hostis, recortando horas e horas as entranhas da mata virgem. E de lá retornava, lépido e bem disposto, pela certeza do dever cumprido, após perfazer 14 léguas a serviço gratuito da então pequena Comuna do Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão!

Recorrendo novamente à "A Comarca", essa folha, em seu número de 6 de fevereiro de 1938, no necrológio de nosso biografado, assim se manifestou:

"É absolutamente impossível em Matão falar-se, quer da nossa história passada, quer da nossa história hodierna sem mencionar Cairbar Schutel. Cairbar Schutel foi, para Matão, um dínamo propulsor do seu progresso, um arauto dedicado e eloqüente das suas aspirações de cidade nascente. Mais do que isso foi o homem que, como farmacêutico, acorria com o seu saber e com a sua caridade à cabeceira dos doentes, naqueles tempos em que o médico era ainda nos sertões que beiravam o "Rumo", uma autêntica "avis rara".

Militando na política por algum tempo, a sua atuação pode ser traduzida no curto parágrafo que abaixo transcrevemos, fragmento de um discurso pronunciado em 1923, na Câmara Estadual, pelo Deputado Dr. Hilário Freire, quando aquele ilustre parlamentar apresentou o projeto da criação da Comarca de Matão. Ei-lo: "Em 1898, o operoso, humanitário e patriótico cidadão Sr. Cairbar de Souza Schutel, empregando todo o largo prestígio político de que gozava, e comprando com os seus próprios recursos o prédio para instalação da Câmara, conseguiu, por intermédio de um projeto apresentado e defendido pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, de saudosa memória, a criação do município de Matão".

No entanto, a bem da História, é discutível que Cairbar Schutel tenha realmente doado o prédio onde se instalou a Câmara de Matão, pois em consulta ao livro Caixa da Prefeitura da ocasião, fomos localizar apenas alguns lançamentos de despesas feitas por Schutel, como no dia l.º de abril de 1899, o recebimento da quantia de 1:060$000 (hum conto e sessenta mil réis) registrado como "dinheiro por conta de despesas de instalação da Câmara" (Desapropriações). Na realidade, o livro Caixa não registra essa doação que, logicamente, não passaria desapercebida a qualquer guarda-livros.

Eis o que relata a 1.ª ata do recém-criado Município de Matão, cuja própria história se confunde com a biografia de seu mais brilhante filho:

"Aos vinte e oito dias do mês de março de mil e oitocentos e noventa e nove, nesta vila de Matão, Edifício da Câmara Municipal, sala de seus trabalhos, às onze horas da manhã, presentes os membros eleitos da Câmara, abaixo assinados, sob a Presidência do cidadão José Hyppolito Fernandes, que escolheu a mim, Theóphilo Dias de Toledo, para o seu Secretário, foi declarada aberta a sessão.

O Presidente diz que tendo já todos os membros da Câmara prestado compromisso legal perante a Câmara de Araraquara, no dia de ontem, restava para a instalação do município, como última formalidade, que se procedesse à eleição do Presidente, Intendente e Vice-Presidente ".

Cairbar Schutel foi eleito Intendente por cinco votos. A sala achava-se "abrilhantada com a presença de diversas excelentíssimas famílias, pessoas gradas desta e de outras localidades, representantes da imprensa de Araraquara, os alunos da escola local e muitas outras pessoas".

Discursando, o cidadão Intendente Cairbar de Souza Schutel disse que, em nome do Diretório político do Município e como reconhecimento pelos reais serviços prestados pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, muito digno Deputado do Congresso do Estado, oferecia à Câmara Municipal o retrato - em tamanho natural - daquele eminente cidadão e, como Intendente, indicava que fosse ele colocado na sala de trabalhos da Câmara".

Estava assim, Matão, a postos para sua arrancada rumo ao progresso e aquele que mais contribuíra para essa transformação, sem o saber, preparava-se para, depois de cumprida a elevada missão neste campo, retirar-se do cenário político da terra. Outra grande missão e maior havia sido destinada àquele político extemporâneo...

No dizer de Leopoldo Machado, “Matão teria de perder, mais tarde, o político diferente, sem perder o grande benfeitor, para ganhar o Apóstolo”.

E também Leopoldo quem nos dá a única pista de como teria sido o político Schutel, descrevendo-o, não como o político comum do sertão, autoritário, vaidoso e monopolizador de poder, mas um homem público totalmente voltado à causa pública e aos interesses maiores da sua gente.

 

 

VI

 

O casamento de Cairbar Schutel

 

 

Episódio digno e belo envolve o caso de amor de Cairbar e Mariquinhas,

Residia a menina Maria Elvira da Silva e Lima junto com a família no vilarejo de Itápolis e sua beleza juvenil ressaltava aos olhos de vários pretendentes.

Logo se interessou por um deles e, enleada em seus sonhos de ventura e felicidade, foi por ele iludida e abandonada.

Uma história talvez corriqueira nos dias de hoje de moral mais aberta e liberal, mas sem dúvida alguma, uma tragédia e um escândalo para a época e o local em que ocorreu. Da infelicidade da moça veio o abandono e o desprezo da família, tendo ela ido morar em Araraquara, onde vem a conhecer Cairbar Schutel.

 Apaixonaram-se e Cairbar, desprendido e sem preconceito, acreditando profundamente na criatura humana, passa a viver maritalmente com ela, até que, depois de tornar-se espírita, resolve regularizar a situação do casal com a união civil.

E o fez condignamente. Não com festas, fartas comemorações, mas numa cerimônia civil simples, sem pompa, no vilarejo de Itápolis, onde sua esposa houvera sido tão maldosamente comentada.

 Não pudemos saber as causas por ele alegadas para esse desagravo, mas não temos receio em afirmar que muito deve ter pesado em sua decisão seu contato com os episódios evangélicos da adúltera e de Maria de Magdala.

Afinal, não estamos todos nós sujeitos a quedas? Não soube o Cristo convidar Maria de Magdala a participar de seu Reino mesmo sabendo quem era ela? E a adúltera? Alguém estava sem pecado para condená-la?

E fora de dúvida que o espírito cristão já envolvia Cairbar Schutel, e longe da atitude de altivez ou de desprezo à família de Maria Elvira, quis mostrar que ela continuava digna, com sentimentos nobres e reerguera-se moralmente.

Apesar de não ter filhos, o casal sempre viveu harmoniosamente e D. Mariquinhas foi para Cairbar uma companheira dedicada e leal que sempre o apoiou em sua missão.

O "O Clarim", de 15 de setembro de 1905, assim noticia, em sua página 2, o enlace:

"O nosso confrade Cairbar de Souza Schutel realizou no dia 31 de agosto passado, o seu enlace matrimonial com a Exma. Sra. D. Maria E. da Silva Schutel.

Serviram de testemunhas a Exma. Sra. D. Estephania Rezende, Dr. Marcondes Rezende, Dr. Josino de Quadros e João Rosa B, e Silva.

É desnecessário dizer que o fato foi meramente civil.

Coerente na Doutrina que professa, o nosso confrade não regateia esforços para mostrar a sua dedicação à Causa que com tanta abnegação tem defendido.

Rogamos ao Bom Pai Misericordioso baixe sobre o feliz par suas bênçãos".

 

 

VII

 

Cairbar Schutel enquanto católico

 

 

Como já foi descrito, Matão justificava o nome. Era um lugarejo de roça, muita caça, e densa vegetação.

Assim, quando lá chegou, Cairbar encontrou a cidade sem ao menos uma capela para os ofícios religiosos.

Empreendedor e resoluto que era, achou que a Vila Senhor Bom Jesus das Palmeiras do Matão não poderia continuar sem uma, e, juntando-se a Calixto Prado, que era carpinteiro, e outros habitantes, levantaram uma pequena Igreja, à qual denominaram Capela do Bom Jesus de Matão.

Para oficiar as missas, a seu pedido, o Padre Antônio Cezarino deslocava-se, uma ou duas vezes por mês de Araraquara para tal cometimento.

Vinha sempre aos sábados, de "Trolley", pequena carruagem rústica que era a condução da época, e hospedava-se no recém inaugurado Hotel Maccagnan.

Dele contam-se casos folclóricos.

Conta-se, por exemplo, que era chefe político temido em Araraquara e para precatar-se contra possíveis investidas de seus adversários, rezava a missa com dois revólveres nos bolsos da batina e muitas vezes viajava acompanhado de capangas.

Não admitia o mais leve ruído durante a celebração da missa e não vacilava em interrompê-la para colocar os desobedientes para fora da Igreja.

Como bom católico, Cairbar tinha inclinação especial por promessas e outros costumes da religião.

Uma promessa marcante das que fez, foi para o restabelecimento de D. Mariquinhas, que durante quarenta anos iria sofrer de uma doença de pele que, a princípio, foi diagnosticada como hanseníase, mas, na realidade, era lúpus. Consistia, a promessa, em benzimento de medalhas em Aparecida do Norte.

A outra foi para si próprio, quando quebrou o braço numa contusão séria e fez uma promessa, também para Nossa Senhora da Aparecida, de que, se ficasse bom, levaria um braço de cera em tamanho natural a Aparecida do Norte. Curou-se e cumpriu a promessa.

Como católico, ainda, Schutel puxava procissões e costumava colocar cruzes na estrada quando morria alguém no local.

Tudo isto aconteceu antes de se tornar espírita, pois, logicamente, a partir daí, suas atitudes em relação aos rituais e costumes da Religião católica mudaram.

 

 

VIII

 

Como se deu a conversão

 

 

Começou-se a dar a conversão de Cairbar Schutel ao Espiritismo quando ele passou a ter contatos com os pais durante o sono físico.

A principio eram aparições tímidas; mas depois os sonhos foram se tornando tão corriqueiros e vívidos, que ele resolveu consultar-se com o Padre Cesarino, que o advertiu:

"Schutel, deixe dessas coisas porque senão você vai acabar ficando louco. Esse negócio é perigoso e com alma do outro mundo não se brinca".

"Mas, vigário, não sou eu quem os procura. Eles é que vivem atrás de mim! Agora até deram para me dar conselhos"

"Então, Schutel, se o negócio está sério assim, precisamos rezar umas missas para seus parentes e acender umas velas para eles deixarem você em paz".

E missas e mais missas se sucederam e o fenômeno cada vez mais aumentava em freqüência e intensidade.

Era, então, princípio de 1904.

Comentando esses fatos com os amigos mais chegados, Schutel ficou sabendo que Quintiliano José Alves e Calixto Prado costumavam realizar sessões espíritas.

Foi ter com eles, mas Quintiliano lhe disse:

"De fato nós costumávamos mexer com isso, porém já há algum tempo não fazemos, porque da ultima vez ouvimos um forte estampido no ar, minha esposa desmaiou e se sentiu muito mal depois. Daí em diante nunca mais quisemos nos envolver com essas "coisas".

Ante a insistência de Cairbar, ansioso por ter alguma experiência no terreno da mediunidade, eles acederam e reiniciaram as sessões de tiptologia (1), também chamada mesa de responso ou trípode.

(1) Tiptologia - Linguagem de pancadas ou batimentos; modo de comunicações dos Espíritos. (Livro dos Médiuns, capítulo 32)

Inexperientes e desconhecedores das nuances dos fenômenos, os participantes faziam perguntas, principalmente sobre animais perdidos ou coisas fúteis.

Assim, um sitiante certa vez indagou dos Espíritos onde estava uma sua porca e seis porquinhos que haviam desaparecido já se passavam dois dias e ele não houvera conseguido localizar. Passados alguns minutos, os Espíritos responderam: "em tal lugar". No dia seguinte, bem cedo, Caibar não pestanejou: arriou seu cavalo e demandou ao sítio, antes mesmo que o dono dos animais, e lá os encontrou conforme os Espíritos haviam revelado. E assim o fez em diversas ocasiões. Era o lado "Tomé" que talvez todos nós tenhamos. Necessário se fazia, pensava o interessado Caibar, obter provas materiais de que as experiências realizadas revelassem a existência de seres inteligentes por detrás dos fenômenos.

Com a continuidade dos trabalhos, começou a ocorrer a vinda de diversos espíritos que davam o nome e, alegando estarem sofrendo, pediam para que se rezasse "tantas" missas e se acendesse "tantas" velas. Não havia sessão em que não surgisse dois ou três desses "pedintes" ao que o grupo, ingênua e caridosamente, atendia passando os nomes ao Padre para tal.

Até que, além de estar ficando pesado aos bolsos dos nossos iniciantes, tais peditórios começaram a cair no crivo e análise de Schutel, que comentava com os companheiros:

"Há alguma coisa de errado nisso tudo. Quanto aos animais está certo: eles indicam, nós vamos lá e achamos. Mas esse negócio de alma do outro mundo pedir missas e velas sem parar me intriga ... existe alguma coisa aí que ainda não percebemos e nos foge à compreensão..."

Foi quando comentando esses fatos com seu amigo João P. Rosa e Silva, também simpatizante do Espiritismo, morador em Itápolis, e caixeiro-viajante, este lhe presenteia com um exemplar de "O Reformador".

Caibar lê avidamente a Revista e no dia seguinte solicita pelo Correio as obras da Codificação Kardequiana e o livro "Estudos Filosóficos" de Bezerra de Menezes que apareciam anunciados na providencial publicação espiritista.

Chegando os livros, passa cerca de um mês estudando minuciosamente o conteúdo daquele manancial de conhecimentos, que viria a preencher integralmente sua alma sedenta de saber espiritual.

Estava completada a conversão.

Não foi necessário mais do que essa leitura para compreender que estava diante, não de conhecimentos novos para seu Espírito, mas rememorando um cabedal já familiar, o qual vinha de encontro às suas indagações mais íntimas desta encarnação.

O monumento de lógica apresentado pelo "Livro dos Espíritos" deu a Caibar respostas às dúvidas que se acumularam durante o tempo em que sua profissão de fé foi o catolicismo; o "Livro dos Médiuns" veio sanar as imperfeições do caráter amadorístico e curioso que imprimia às experimentações de tiptologia; e o "Evangelho Segundo o Espiritismo" tocou profundamente o coração daquele que viria mais tarde a ser chamado "O Pai dos Pobres de Matão".

Uma nova rota vislumbrava Caibar agora. Se o Pai o havia colocado a par de um patrimônio espiritual tão valioso, mister se fazia não se acorrentar ao imobilismo e à contemplação, mas anunciar a todos quantos pudesse a mensagem renovadora da Doutrina Consoladora dos Espíritos.

Muitos sonhos e perquirições agitavam a mente do jovem comprometido com a Verdade. O que fazer agora? Valeria a pena jogar fora as farandulagens do homem velho e assumir a roupa nova da Doutrina sem dogmas? O que diriam os amigos?

Não tergiversou. Estava decidido. O caminho agora era abrir picadas entre as florestas da ignorância espiritual de sua gente e desbravar os sertões do materialismo subserviente ao niilismo de então, importado da Europa. O Bandeirante do Espiritismo estava preparado para tal.

Antes de passarmos ao próximo passo de Schutel que foi a fundação do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", relataremos como terminou o caso dos "peditórios".

Depois da leitura das obras básicas, na próxima sessão de que participou, Caibar Schutel, agora com conhecimento de causa, disse ao primeiro Espírito que pediu missas:

"Olhe aqui, o que o irmão precisa é de preces. Como espírito desencarnado, você já deveria saber que o que vale é a oração, a vibração de amor que podemos oferecer a vocês através da prece sincera. Por isso, a partir de hoje, não atenderemos mais aos pedidos de missas e velas, mas oraremos pelos espíritos necessitados".

E assim desapareceram-se os pedidos de missas, e, mais tarde, o espírito de um padre confessou que era só ele "os espíritos" que faziam tais pedidos e que se divertia muito ao se ver atendido tão ingenuamente pelo grupo... Que (compreensível) fiasco...

 

 

IX

 

Schutel é testado pela primeira vez

 

 

O primeiro teste enfrentado por Cairbar Schutel foi com o folclórico vigário Antonio Cezarino, que, quando soube que seu "fiel" estava se envolvendo com Espiritismo, mandou um recado a ele através de Belarmino de Castro, proprietário da linha de "Trolley" que unia dois municípios:

"Diga ao Schutel que eu vou a Matão especialmente para lhe dar uma surra de relho e ensiná-lo a nunca mais se meter com esse negócio de Espiritismo”.

 Belarmino, receoso, mas sabedor da fama de valentão e cumpridor de ameaças do Padre, viu-se, constrangedoramente, obrigado a transmitir o recado do Vigário, ao que Schutel respondeu:

"Então, Belarmino, já que você trouxe o recado, você levará a resposta ao Vigário e diga que quem pode mais, chora menos. Você está vendo aquela tramela da porta? Pois bem, ela fica sempre ali atrás. Avise a ele que ela está preparada, e com o mesmo espírito com que vier, será recebido".

Passados uns quinze dias, o Padre calabrês foi de fato a Matão. Ao estacionar o "Trolley" em frente a farmácia, Schutel gritou para D. Mariquinhas:

"Mariquinhas, prepare-se que vai haver barulho. O Padre Cezarino está aí"

Ledo engano... O valente Vigário, solícita e prevenidamente gritou já de porta:

"Schutel, eu preciso que você me faça um curativo na mão. Acidentei-me na estrada e está sangrando muito".

Cairbar, antes de fazer curativo, ainda serviu um cálice de vinho do Porto ao gosto do Padre, e ouviu sua estória:

Ele vinha caçando pelo caminho, quando O "Trolley" parou num córrego para os cavalos beberem água e descansarem. Nisso, um barulho no mato assustou os animais, que deram um tranco na carruagem, e o Padre, que estava com uma das mãos apoiada no cano da espingarda e a outra com o dedo no gatilho, disparou acidentalmente a arma e feriu a própria mão.

No dia seguinte, o Vigário ainda passou na farmácia para mais um curativo, mas, o que conversaram, deixamos à conta da imaginação do leitor.

Teria sido uma providencial intervenção dos Espíritos para se evitar uma tragédia? Quem sabe...

Passado algum tempo, esse mesmo sacerdote foi ter com Schutel para contar-lhe que ia a Roma tratar de assuntos da Igreja e oferecer-se para algum assunto em que pudesse ser útil ao amigo por lá.

Cairbar pediu-lhe, então, que lhe trouxesse uma Bíblia Latim-Português, no que foi atendido pelo Padre.

Ao despedir-se do Vigário nesse dia, Cairbar quis presenteá-lo com um livro para sua distração no tombadilho do navio, ao que ele redargüiu com seu  português carregado de sotaque calabrês:

"Schutel, não me venha com livros espíritas, senão vão direto para o lixo!

Nosso biografado, então, perspicazmente, ofereceu-lhe os dois volumes de "Deus e a Natureza", de Camille Flamarion.

Ao que consta, o Vigário leu a obra, agora, se aproveitou ou não, absteu-se de alardear.

 

A fundação do centro espírita"amantes da pobreza"

 

Convertido à Doutrina dos Espíritos, era necessário fincar bases para uma melhor atuação na propagação e na prática do Ideal que abraçara.

Assim, cede, inicialmente, uma sala em sua própria casa para o início do funcionamento do Centro Espírita "Amantes da Pobreza", seguramente um dos primeiros a serem fundados no interior de São Paulo.

Acompanhemos a histórica ata de sua fundação a 15 de julho de 1905:

 

Ata da instalação do grupo espírita "amantes da pobreza"

 

No ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e cinco, aos quinze dias do mês de julho, em a Casa de residência do Cairbar de Souza Schutel, sala das Reuniões do Grupo, presentes os Srs. João Rosa Pereira e Silva, Manuel Bittencourt, A. Agrippino Martins, Gregório Perche de Menezes, Quintiliano José Alves, Calixto Nunes de Oliveira, Manuel Pereira do Prado, Miguel Abibe, Tudalízio Rosa Pereira e Silva, Alípio Rosa Pereira e Silva, José Maria Gonçalves, Guilherme Gaspar, Antonio Ramos, Manuel José do Aucovia e as Exmas. Sras. Das. Justina Alexandrina Pereira e Silva, Anézia Rosa Pereira e Silva, Volízia Rosa Pereira e Silva, Maria Gertrudes de Souza, Hortência de Campos Bueno, Maria Elvira da Silva e o humilde Secretário que esta está lavrando Cairbar S. Schutel; assumindo a Presidência, o irmão Manuel Bittencourt, (às 8 horas da noite) declarou os fins da reunião. Pelo irmão Schutel foi proposto que a eleição da Diretoria fosse feita por aclamação. Sendo aceito, foram aclamados, Presidente: Manuel Bittencourt; Vice-Presidente: João Rosa Pereira e Silva; Tesoureiro: Calixto Nunes de Oliveira; Secretário: Cairbar Souza Schutel. Para membros do Conselho Fiscal: Gregório P. de Menezes, Manuel José Amorim, Quintiliano José Alves. A nova Diretoria tomando posse pelo Presidente foi declarado instalado O Grupo Espírita "Amantes da Pobreza". Usando da palavra o irmão Schutel fez o histórico do Espiritismo, superficialmente e terminou pedindo a proteção do Misericordioso Onipotente e as bênçãos do seu Amado Filho Nosso Senhor Jesus para todos que naquele momento ali se achavam conjugados. O irmão Bittencourt leu um discurso demonstrando a superioridade da Religião Espírita sobre as demais religiões, cujos ambos discursos são transcritos abaixo. Pelo irmão Schutel foi apresentada a indicação seguinte: proponho que sejam submetidos a votos os presentes Estatutos e Regimento Interno da Sociedade hoje fundada. Depois de lidos, os Estatutos foram por unanimidade de votos aprovados. O irmão João Rosa indicou que os Estatutos ficassem transcritos e arquivados na Secretaria para daí saírem a fim de serem impressos cem exemplares que seriam distribuídos aos sócios do grupo. Foi indicado mais que se prosseguisse nos trabalhos, sem interrupções, ficando provisoriamente ao encargo do irmão Schutel as sessões teóricas e explicação dos Evangelhos, nos dias referidos nos Estatutos. Pelo irmão Calixto foi dito que via a conveniência de colocar-se a Associação debaixo da proteção das leis do país e para isso indicava que o mais breve possível se registrasse os Estatutos da Sociedade e fizesse-lhe a devida publicação no Diário Oficial. O irmão Schutel pôs à disposição dos seus irmãos gratuitamente os seus serviços em caso de moléstia de qualquer deles e autorizava também ao Grupo a dispor de seus fracos serviços, em prol dos enfermos de qualquer credo a que pertençam. Disse mais, que não se oferecia como médico, mas como um simples prático de farmácia e com alguma experiência de medicina - Os seus serviços e alguns medicamentos que tem em casa pertencem àqueles que deles necessitavam, embora não queira e até faça questão em não receber remuneração alguma - Os irmãos Calixto, João Rosa e Bittencourt disseram também ter em suas casas homeopatia que também se achava à disposição dos necessitados. O irmão João Rosa indicou que logo que as circunstâncias financeiras do Grupo permitissem mandaria vir do Rio ou São Paulo um conferencista para propagação da Doutrina. Foi lido um ofício da Federação Espírita Brasileira em resposta a um ofício de um irmão. Pelo irmão Gregório foi indicado que se oficiasse aos Grupos e Redações de Jornais Espíritas comunicando a Instalação do Grupo. Pelo irmão Schutel foi proposto um voto de louvor ao bondoso irmão Ernesto Penteado pelos relevantes serviços prestados aos Espíritas de Matão em seu simpático "Alvião"; assim como aos ilustres confrades Pedro Richard, Batuíra e Vieira de Macedo pelos seus serviços prestados aos enfermos nesta localidade por intermédio dos espíritas daqui. Pelo irmão Schutel foi proposto mais um voto de reconhecimento ao irmão Quintiliano pelos serviços prestados até aqui, pondo à disposição dos Espíritas sua casa onde até a presente, desde o dia 21 de Janeiro, tem-se realizado as reuniões práticas e teóricas. Convém notar que o nosso simpático amigo Agrippino Dantas Martins é livre pensador, não está filiado à doutrina e ciência Espírita pelo que não podemos deixar de demonstrar e aqui registrar as nossas admirações e simpatia por este jovem clínico. Ao clínico que rompendo os preconceitos sociais e debaixo da bandeira da liberdade veio honrar a nossa modesta reunião com a sua simpática presença; e elevando de coração uma prece ao Altíssimo pedimo-lhe luzes e mais luzes àquele adiantado Espírito entre nós encarnado. E para terminar o irmão Schutel pediu aos irmãos presentes para erguerem-se e acompanharem-no na prece em ação de graças em cuja, o irmão elevou de todo o seu coração acompanhando-o todos os irmãos ao Altíssimo e Bondoso Criador as suas graças as seus sinceros reconhecimentos por ter-lhe sido concedida a missão de serem ou fazerem parte dos cultivadores da vinha ao toda Poderoso e prosseguindo na prece agradeceu ao querido Jesus de Nazaré, por nomear-lhe o Batista ou os preparadores para a vinda do Espírito de Verdade que é o Consolador Prometido-Eu, Cairbar de Souza Schutel, Secretário escrevi esta e a assino.

aa) Manuel Bittencourt (Presidente)

João Rosa Pereira e Silva (Vice-Presidente);

Cairbar Souza Schutel;

Calixto Nunes de Oliveira;

Gregório Perche de Menezes;

Quintiliano José Alves;

Manoel Pereira do Prado;

Manoel José de Amorim;

Indalício Rosa Pereira e Silva;

Justina Alexandrina Pereira e Silva;

Antonio Ramos;

José Maria Gonçalves;

Guilherme Gaspar;

Maria Gertrudes de Souza;

Hortência de Campos Bueno;

Valízia Rosa Pereira e Silva;

Anézia Rosa Pereira e Silva;

Alípio Rosa Pereira e Silva;

Maria Elvira da Silva.

 

 

X

 

A primeira polêmica quase termina em tragédia

 

 

Já era de se prever um confronto ríspido entre católicos e espíritas quando selecionaram o violento Padre João Batista Van Esse para a paróquia de Matão. Mas por ironia do destino, pode-se dizer que o reverendíssimo Padre prestou excelente serviço à Causa espírita: aguçou o espírito inquieto e avesso às injustiças de Cairbar Schutel, que, provavelmente, extraiu do episódio a idéia de fundar um jornal para replicar as inverdades e ofensas do vigário.

Até que o Padre tentou, mas quem é que iria sabotar a Farmácia "Schutel e Cunha", se lá tinha o melhor farmacêutico da cidade?

A sorte estava lançada. Nascia aí o polemista vibrante e intransigente defensor da Doutrina Espírita.

A disputa entre os dois começou através das páginas de "O Mattão", jornal leigo da cidade, que publicou a polêmica religiosa, eivada de ofensas pessoais e tom agressivo por parte do Padre Van Esse. Vejamos como ele inicia uma de suas crônicas:

"O Grupo Espírita de Matão, sucedendo ao Sr. Schutel, que parece ser o cabo de esquadra de tal grupo, nada ganhou em publicar uma lenga-lenga no "Mattão" - 16 de julho vigente - ou antes, perdeu uma boa ocasião de ficar calado, pois o tal artigo revela supina ignorância, ou pior ainda, o Sr. Schutel, percebendo que pisava em terreno perigoso, empurrou toda a droga ao seu grupo que tem bom estômago. (...)" (27/07/1905)

Ao que Cairbar responde em 30107/1905 pelo mesmo periódico:

"O terreno em que pisam os espíritas é firme, firmíssimo, revmo. irmão; ele está regado com o sangue do Cordeiro de Deus, de quem os espíritas fazem todos os esforços para seguir as pegadas.

O segundo artigo foi assinado pelo Grupo, porque foi resultado dos estudos do Grupo, do qual eu também sou uma das "conspícuas" personalidades (...)"

O subserviente subdelegado Otávio Mendes, temeroso das conseqüências trágicas que tal confrontação poderia ter, dirigiu-se a Schutel e contou que o Padre havia combinado com seus fiéis conduzir a procissão de sexta-feira santa até à frente do Centro Espírita e lá atentar contra a Casa, incendiando-a.

"Por que?" - indaga Schutel.

"Não sei. Só vim aqui para prevenir o senhor que estão fazendo um complô para empastelar o Centro. Por isso, aconselho ao senhor não abri-lo nesse dia",

"Muito bem. Então agora eu vou dar um aviso ao senhor, Como autoridade policial dessa Comarca, o senhor tome todas as providências cabíveis, porque eu vou abrir o Centro à hora de costume e vou pronunciar a palestra que já havia sido marcada adredemente. Caso aconteça alguma tragédia eu responsabilizarei o senhor. Meu Centro não é clandestino, tem alvará, e vai continuar funcionando normalmente".

Em seguida, Schutel envia telegramas para o Governador do Estado, para o Chefe de Polícia e para o Comandante da 2ª Região Militar, dando conta do que se passava em Matão, exigindo também providências dessas autoridades.

Chegando o dia, ele abriu o Centro às dezenove horas e dispensou mulheres e crianças. Ficaram só os homens, já prevenidos do risco a que se exporiam e receberam uma ordem: quando Cairbar desse um alerta, todos deveriam se jogar ao chão incontinenti.

Abriram-se todas as portas e janelas do salão e teve início a conferência feita por Cairbar, que falava a todos os pulmões, num entusiasmo como poucas vezes se viu.

Um quarto de hora após, a procissão começa a se aproximar do "Amantes da Pobreza" com o Padre Van Esse na frente, secundado por seus fiéis. Entoavam suas cantigas e ladainhas, como de costume, com toda a certeza esquecidos que iriam cometer um ato indigno, em nome Daquele que nos houvera dito que somos todos irmãos e que, em sua sabedoria, só nos pediu que amássemos uns aos outros. As vestes "sagradas" serviam para ocultar punhais, porretes, pedras e revólveres. Talvez com isso imaginassem poder expurgar o demônio e seus seguidores malignos à comunidade...

Quase em frente ao Centro, a procissão, entre excitada e agitada, aumenta o vozerio sob a batuta do vigário e desperta a ira do advogado Abel Fortes, chefe político temido, que morava nos arredores, e cuja esposa convalescia de difícil parto acontecido naquele dia.

Apreensivo e indignado, o advogado sobe num muro, interrompe o orador, que já inflamava a turba para o deplorável cometimento, e fala, por sua vez, ameaçando responsabilizar o Padre e seus acompanhantes se algo acontecesse à sua esposa e filho, além de lembrar contundentemente o desrespeito que estava se perpetrando contra a Constituição de 24 de fevereiro de 1891. E reiterou, que embora não fosse espírita e não tivesse procuração de Schutel para defendê-lo, que ele estava com a razão, pois agia dentro de seu direito de liberdade de expressão e de religião.

E sua alocução foi tão violenta, exaltada e cheia de ameaças, que o povo, temeroso, começou a evacuar o local, a princípio calma, mas depois, tão atabalhoadamente como um "estouro de boiada", que muitos caíram, foram pisoteados e o Padre Van Esse... bem, o Padre teve sua batina enroscada numa cerca de arame farpado e quase volta à Igreja sem a dita cuja...

Enquanto isso, no "Amantes da Pobreza", quase que indiferentes à algaravia que se processava lá fora, prosseguia a bela preleção de Cairbar Schutel.

Mas o episódio não se findara aí para Cairbar.

No dia seguinte, durante a sessão, ele iria sofrer séria admoestação dos Espíritos: "Schutel, então que belo cristão você está pretendendo ser! Você confiou em um carabina e dois revólveres e se esqueceu de confiar em nós, aqui do Outro Lado, que estávamos dando toda a cobertura e proteção a você! Onde está a sua fé? Quando é que você vai aprender a confiar em seus guardiões?"

E o Espírito continuou sua descompostura em Schutel, que chorou muito, pediu perdão e desfez-se de todas as armas que tinha em casa.

A ordem que ele houvera dado para que todos se deitassem ao seu aviso, era devido a que, nas gavetas da mesa, ele trazia escondido armas para proteger o Centro na eventualidade de uma invasão. Caso acontecesse, ele pretendia defendê-lo até as últimas conseqüências.

Do lado da Igreja, o Padre Van Esse, depois do fiasco a que se expôs, foi transferido para Araraquara.

Foi protagonista, porém, de uma atitude digna e bela: procurou Cairbar Schutel para despedir-se e teve com ele o seguinte diálogo:

"Schutel, brigamos, e nenhum logrou convencer o outro. Eu, entretanto, estou convencido de que você é um homem de bem..."

"Pudera! Não fosse eu espírita"...

"... sincero na sua crença."

"Claro. Não defendesse eu a Verdade!"

"A Verdade penso estar comigo. Mas, não discutamos agora. Vou deixar Matão. Não quero levar nem deixar ressentimentos."

"De mim não haverá nenhum, porque o espírita perdoa sempre".

"Perdoemos-nos um ao outro, os nossos excessos".

"Por mim, tudo desculpado, embora os excessos não partissem de mim..."

"E fiquemos bons amigos".

"Bons amigos e irmãos em Cristo, embora cada um O procure por caminho diferente."

''Você é um homem de bem. Por isso vim despedir-me de você".

E trocaram um cordial abraço de despedida.

"O Clarim", de l.º de setembro de 1908, assim noticia o fato:

"Transferiu sua residência para Araraquara, o nosso amigo, rev. Padre João B. Van Esse.

Oxalá as luzes acumuladas em seu Espírito, após tantas polêmicas religiosas, se irradiem à população da velha cidade de São Paulo.

Aceite, senhor, os nossos augúrios de uma felicidade espiritual intérmina".

E lá se foi o vigário mal imaginando o bem que fizera ao Espiritismo...

No "Clarim" de 15/09/1907, Cairbar relembrava o episódio ao fazer o necrológio do confrade João Eid, que estivera presente naquele dia:

"(...) Ainda nos lembramos o dia em que João Eid esteve ao nosso lado, quando o então vigário desta paróquia, Van Esse, acompanhado por meia dúzia de inconscientes, tentou trazer a confusão ao nosso grêmio que comemorava a Paixão do Verbo de Deus. Não é um efeito de rancor pelo vigário de Matão que nos força lembrar aquele notável acontecimento, porque sinceramente não temos, mas um sentimento de gratidão ao Espírito livre dos grilhões da matéria, ao amigo desinteressado e leal. (...)"

 

Mais polêmicas

 

Antes de passarmos às outras polêmicas sustentadas na época por Cairbar Schutel, vamos transcrever um trecho do Editorial da Revista "O Reformador", da FEB, n.º 15, Ano XXIII, o qual revela a posição da Entidade, discordante desses debates:

"Carta que nos foi transmitida de uma das cidades do interior de São Paulo, nos informa ir ali uma renhida polêmica, a propósito de nossa Doutrina, entre confrades que ali sustentam galhardamente a sua propaganda, e o clero local por um de seus representantes.

Antes de tudo, seja-nos lícito insistir na opinião que nestas colunas mais de uma vez temos emitido, isto é: que reputamos inútil toda controvérsia com os sectários da Igreja de Roma; primeiro porque o Espiritismo repousa sobre fatos e sobre verdades, suficientemente demonstrados e demonstráveis, para se impor à aceitação de quantos não estejam obcecados pelo espírito de sistema ou de fanatismo, como de resto vai por toda a parte acontecendo, e daí, da certeza do seu triunfo e universalização inevitáveis, a tranqüilidade com que devemos nos conduzir em face de gratuitos adversários, para os quais só devemos ter um sentimento - o da indulgência pela sua voluntária ou involuntária cegueira; e, em segundo lugar, porque ninguém melhor que os membros da Igreja sabem, pelos estudos que têm ocultamente feito, que com o Espiritismo está a Verdade, que ele é o Consolador Prometido por Jesus. (...)"

Respeitamos a posição da FEB, mas não concordamos com a novel Entidade, pois acreditamos que as polêmicas no início da missão de Cairbar Schutel desempenharam um papel importantíssimo para ele, não só para forçá-lo ao estudo e à reflexão, como também para despertar-lhe no íntimo o sentimento de apego à Doutrina.

Pelas páginas de "O Alvião", de Taubaté, foi travada mais uma polêmica de Cairbar, desta vez com o Padre Antonio B. de Camargo, que "cutucou a onça com vara curta", como diria o matuto do sertão, ao enviar um folheto ao nosso biografado contendo críticas ao Espiritismo.

Como só podia acontecer, Cairbar publicou uma série de artigos fazendo luz às trevas que o Padre quis atirar à Doutrina dos Espíritos .

Outras numerosas polêmicas foram travadas por Cairbar com protestantes e católicos em jornais, praças públicas e recintos fechados, incluindo-se no rol dos opositores, D. Joaquim Domingues de Oliveira, de Florianópolis; Padre Bento Rodrigues, de São Carlos; - Monsenhor Nascimento Castro, de Rio Claro; Dr. A. Felício dos Santos, também de Rio Claro, e outros.

Estes debates públicos deram origem a diversos livros como "Imortalidade da Alma", "O Diabo e a Igreja", "Cartas a Esmo", e grande número de artigos publicados em jornais da Capital e Interior de São Paulo, que fizeram a Doutrina com toda a sua pureza ser conhecida por milhares de pessoas.

 

*

 

Mas talvez a polêmica que tenha tido mais repercussão tenha sido a com o Professor Faustino Ribeiro Júnior, um médium curador, que diz-se, tirava proveito material dessa mediunidade, e que, convertido ao Protestantismo, publicou uma série de artigos no periódico "Alpha", de Rio Claro, atacando o Espiritismo, mas todos eles brilhantemente refutados por Cairbar Schutel.

Dessa contenda intelecto-religiosa, surgiu a obra "Espiritismo e Protestantismo - em face dos Evangelhos e da Ciência".

Cairbar se empolgava tanto quando assacavam inverdades contra o Espiritismo, que chegou ao ponto de diversas vezes ficar aos domingos pela manhã do lado de fora da igreja escutando o sermão do Padre, para depois ir até o "Clarim", redigir a resposta a seus ataques, imprimi-la em Boletim e distribuí-lo à tardezinha na porta do Templo.

 

*

 

E é com ar de superioridade que ele anuncia que faria em seu sermão uma prédica contra a Doutrina Espírita e que ofereceria direito a réplica.

Cairbar preparou-se condignamente para esse dia, mas - pudera - doce ilusão! O direito lhe é negado, e ele se vê obrigado a responder com uma Carta Aberta à população duas horas depois da infeliz alocução do vigário.

"O Clarim" de 15/08/1914 reproduz esta Carta, que continha pontos de esclarecimento da Doutrina, e assim noticia o fato:

 

Os padres missionários em Festa

 

"(...) Não tendo sido, conforme a promessa que acompanhou o convite, concedida a palavra de defesa, e tendo sido o ataque feito com tanta deslealdade à nossa Doutrina, o Centro "Amantes da Pobreza" respondeu duas horas depois em Carta Aberta, que foi profusamente distribuída ao povo.

 

"O Clarim" na Festa

 

"O Clarim", com edição consideravelmente aumentada, circulou por toda a cidade, sendo distribuído a todos os romeiros que vieram assistir aos festejos católicos que se realizaram nesta cidade."

Em agosto de 1914, o Bispo de São Carlos envia a Matão um seu representante para uma comemoração religiosa, a qual encobria apenas uma artimanha para desfechar novos ataques ao Espiritismo.

 

 

XI

 

Nasce o Clarim

 

 

A conversão do ilustre católico Cairbar Schutel e a fundação de um Centro Espírita na pequena cidade de Matão causou furor e espanto à comunidade.

De início, pensou-se ser apenas uma fase daqueles respeitáveis senhores da sociedade local e que, fazendo-lhes uma oposição rigorosa e firme, logo eles retornariam ao aprisco católico.

Mas estavam redondamente enganados. Aquele edifício já havia sido levantado sob os alicerces sólidos de uma Doutrina lógica e coerente, e prova está que, oitenta anos já se passaram, e muito embora as borrascas, as chuvas e os ventos, ele ainda permanece de pé, espargindo luzes aos quatro cantos do mundo.

Era um caminho sem volta. Mas cedo o grupo percebeu que seria necessário lutar com mais armas para enfrentar a oposição e os ataques do Clero.

E deste sentimento surgiu a idéia de se fundar um jornal. Que melhor maneira de desfazer as diatribes ditas de cima do púlpito, senão através de um órgão de imprensa?

Sim, seria o ideal. Mas e o nome para ele?

"Não queremos um jornal para gritar de alto e bom som que nossa profissão de fé agora é a espírita?" obtemperou alguém - "Então chama-lo-emos "O Clarim".

E assim foi denominado. Com oitenta anos de vida independente ele continua dando suas clarinadas jornalísticas e preservando o Ideal de seu fundador e idealizador, Cairbar de Souza Schutel.

A fundação deu-se a 15 de agosto de 1905, um mês após a criação do Centro Espírita; e tornou-se tradição todo ano se comemorar a data, quando suas oficinas e Redação abriam as portas para receber inúmeros lidadores espíritas de projeção de outras plagas para um merecido festejo.

A próxima etapa a ser vencida, no entanto, passou a ser a impressão. Quem é que se arriscaria a desafiar o Clero e indispor-se contra uma sociedade inflexível, à época, como era a católica?

Cairbar descobriu essa pessoa. Era Francisco Veloso, um progressista intrépido, de Taubaté, que imprimia o jornal "Alvião", anarquista. Chamava-se a Tipografia "Norte de São Paulo", era localizada na Rua Piedade, n.º 30, e Cairbar sempre foi grato a este senhor, que rodou o jornal até que a primeira máquina impressora do "Clarim" fossa adquirida em 1907. O editor do jornal "Alvião" era Ernesto Penteado, também espírita, mas mais afeito à política.

Nos seus oitenta anos de existência, "O Clarim" apenas uma vez deixou de circular. A tiragem normal era de 10.000 exemplares semanais, mas em épocas de dificuldades o jornal circulava quinzenal ou mensalmente. De algumas edições especiais chegaram a ser tirados até 47.000 exemplares, principalmente na época de Finados, quando Cairbar os enviava a espíritas de diversas cidades de todo o Brasil e até mesmo do Exterior, para serem distribuídos gratuitamente nos cemitérios.

O número 16 do jornal, de 15 de maio de 1907, justifica a breve interrupção que sofreu em sua circulação sob o título "Nova Fase":

"Motivos que falaram mais alto que a nossa vontade obrigaram-nos a interromper a publicação de "O Clarim", mas os obstáculos tendem a desaparecer e a enorme falange de Espíritos luzeiros da Verdade nos dizem: "um novo arranco na senda do Dever, na Estrada do Progresso, em busca da Verdade", e essas vozes sublimes instigando-nos a tomar parte no combate da Luz contra as Trevas, do Amor contra o ódio.

Que o Bondoso Criador nos envie os instrumentos preciosos para o labor que, por sua Infinita Misericórdia, nos for concedido".

Para manter "O Clarim" e, posteriórmente, a RIE, Cairbar revelou-se, antes de tudo, um consciente empresário, montando uma boa equipe de representantes, todos espíritas, que viajavam e faziam a cobrança dos assinantes. Dentre esses colaboradores, estavam João Leão Pitta (Piracicaba), Mariano Rango D'Aragona (Rio de Janeiro), Umberto Brussolo e outros.

Um fragmento de correspondência sua para Onofre Dias, de São Paulo, retrata bem o esquema utilizado pelo Diretor da Casa Editora "O Clarim":

"(...) Você deve saber que o tempo da Reforma da Revista está passando, e nós, em vista de ter o viajante de percorrer os assinantes, não cortamos os que se acham em atraso. Mas para não acarretar prejuízos para a Revista e "O Clarim", necessitamos apressar o recebimento atrasado dos assinantes. E é este o motivo porque desejamos saber o que o amigo resolveu e se continua com as viagens.

Como temos de enfrentar grandes despesas, ora com o pagamento do papel importado, cujas partidas chegam este mês e porvindouro, ora com o pagamento da máquina, urge que se abrevie a viagem.

Cumpre-me ainda lhe fazer ver que para controlar estas despesas e poder manter a empresa com suas publicações, convém ficar estabelecida a porcentagem dos representantes em viagem, que resolvemos do modo seguinte:

Vinte e cinco por cento, seja no que receber "O Clarim" e da Revista. Para a venda de obras de nossa edição, o representante em viagem terá 30 por cento. Para a venda de obras que não são de nossa edição, como as de Allan Kardec e outras, 10 por cento.

As vendas de livros devem ser anotadas separadamente para facilitar a escrita.

Creio que assim ficará bem. E de se ver que as despesas de viagem são naturalmente por conta do representante.

Acho conveniente que as viagens sejam o mais rápido possível, porque assim a despesa ficará diminuída. As viagens demoradas prejudicam ao representante, que não se sente compensado de sua fadiga, assim como desequilibra o controle financeiro das publicações, que lutam hoje com grandes dificuldades para sua manutenção, visto retardarem muito os assinantes o pagamento de suas assinaturas e nós termos de enfrentar despesas mensais de operários e material que não são pequenas (...) "

Sobre as dificuldades que o jornal enfrentava, José da Cunha, tipógrafo deste por muitos anos, presta seu depoimento: "Muitas vezes o Schutel entrou chorando nas oficinas dizendo que talvez aquele fosse o último número do jornal, devido às dificuldades financeiras e aos entraves burocráticos para liberar o papel na alfândega do Rio. No entanto, a tristeza, sabíamos, era passageira- Ele nunca perdeu a confiança nos Espíritos e fiava-se na intervenção deles em favor da Obra".

É ainda Cunha quem fala das condições em que era impresso "O Clarim": "Eram muito difíceis as condições de trabalho naquele época. As máquinas, manuais e muito primitivas, não ofereciam maneira de o trabalho se desenvolver com presteza. A impressão era feita página a página, num processo rudimentar com muitas dobraduras. Muitas vezes tínhamos que trabalhar noite a dentro para o jornal não atrasar, e, na época de inverno, acendíamos fogo debaixo das máquinas, porque a sala era de chão batido e esfriava demais as pernas. Também criávamos certos expedientes como acender fogo perto das tintas para não secarem e não sair defeitos ou partes brancas nas páginas. Só mesmo muita criatividade, perseverança e vontade para cobrir nossas deficiências operacionais".

A partir de 15/05/1908, "O Clarim" passou a ter 6 páginas e a aceitar publicidade que não conflitasse com os princípios doutrinários.

Ao buscarmos avaliar as dificuldades e as inúmeras etapas a serem percorridas até que um jornal chegue às mãos do leitor, mesmo nos dias de hoje e mormente quando esse jornal é do interior, podemos aquilatar quais os obstáculos que o intrépido "O Clarim" teve de transpor, quais os óbices que foi forçado a vencer e a luta que enfrentou o órgão; pobre e espírita, iniciado por um editor sem a menor experiência do ramo, o que equivale dizer, uma aventura de finalidade nobre, mas onde o único vento a favor - e o que bastou - foi o amor à Causa Espírita.

Por isso, "O Clarim", um pequeno grande periódico, tão querido dos espíritas, representa um orgulho para a imprensa espírita brasileira, pelo exemplo extraordinário de pioneirismo, tenacidade e ânimo forte, que empolgou e espargiu luz a várias gerações de espíritas da Pátria do Cruzeiro.

Atualmente, ele sai do prelo com 8 páginas, é mensal, e tem tiragem de 4.500 exemplares.

 

 

XII

 

Curiosidades pinçadas nos 1.°s números de "O Clarim"

 

 

Negócio Importante

 

"O Comércio de S. Paulo", de 21 do p.p. em sua seção telegráfica escreve: "Roma, 22 - Corre como certo que está prestes a se realizar o acordo entre o Vaticano e o Quirinal. O Papa desistirá de suas pretensões sobre o poder temporal na Itália a troco de uma pensão anual de 3.800.000 Lm. pagas pelo Governo da Itália".

E o caso de Esaú e Jacob com o prato de lentilhas. Que fome." (1/6/1907).

 

Aos Confrades da Imprensa

 

"Agradecemos a todos os nossos colegas que não levando em conta a longa interrupção desta Folha, tem nos animado com suas assíduas visitas.

A "Aurora", o "Arrebol" e todos os demais colegas que dispensaram-nos palavras benévolas e carícias fraternais, nossos agradecimentos." (1/6/1907).

 

Conferência Pública

 

"Hoje, às 8 e 1/2 da noite, na sala do Centro, à Rua 7, sessão pública. São admitidos os contraditores, seja qual for o credo a que pertençam, desde que saibam portar-se debaixo das regras da civilidade. (...)" (15/6/1907).

 

"O CLARIM"

 

Assinaturas

 

- Por seis meses .........., 3$000

- Enviamos "O Clarim" gratuitamente a todos que não puderem pagar assinatura. (15/6/1907).

 

INVENÇÕES DO CATOLICISMO

 

"A água benta foi instituída no ano 120, a penitência em 157, a missa latina em 431, o purgatório em 593, os sinos no ano 1.000, o celibato dos padres em 1016, as indulgências em 1119, as dispensas em 1200, a confissão geral em 1215 e a infalibilidade papal em 1870" (1/7/1907).

 

Congresso Espírita no Brasil

 

"É com grande júbilo que reforçamos a idéia do nosso prestante colega de "O Mundo Oculto" sobre a Organização do 1.º Congresso de Espiritismo no Brasil.

Já é tempo dos espíritas do Brasil se reunirem para organizar as bases de uma propaganda mais acentuada e mais contínua, buscando desprezar os motivos que a todos os instantes interrompem a boa marcha da Doutrina em várias localidades (...)"

Divergindo, porém, da opinião do ilustrado colega sobre a época por ele determinada para a realização do referido Congresso, por achá-la demasiadamente afastada, propomos a sua mudança para Março ou Junho. "A noite vem, e é preciso que enquanto é dia façamos as obras ordenadas pelo Nosso Divino Mestre".

Por enquanto, é o que nos ocorre dizer" (15/8/1907)

 

João Eid

 

"Vitimado por um abscesso no fígado, desencarnou em São Paulo o Espírito que nesta existência tomou o nome que serve de epígrafe a esta notícia. (...)

Uma ocorrência digna de nota narra o nosso colega "O Jornal de Notícias" de Araraquara, que, com a devida vênia, transcrevemos:

"Muitos amigos quiseram mandar rezar uma missa de 7.º dia, o que não foi possível dada a circunstância de o falecido ter pertencido a uma religião contrária à Religião Católica". (era espírita)

Disseram-nos que o vigário da paróquia, ao ser lhe feito o pedido para celebrar a missa, disse:

"João Eid não precisa de missa para ir para o Céu!"

Parece que o padre Van Esse já está compreendendo que a verdadeira religião é a Caridade", C.S. (15/9/1907)

 

Ao Público

 

"As sessões teóricas da C.E. "Amantes da Pobreza" se realizam aos sábados às 8 horas da noite e são públicas.

O Centro mantém uma pequena Farmácia Homeopática, da qual se tem encarregado, obsequiosamente, o nosso irmão Calixto Nunes de Oliveira. Os medicamentos são distribuídos grátis a todos que deles necessitarem, seja qual for a sua crença ou posição social que ocupem.

A Biblioteca do Centro acha-se à disposição de todos aqueles que quiserem estudar Ciência Espírita independente de remuneração". (15/11/1907).

 

Sr. J.M. (Araraquara)

 

"Não podemos permitir que o amigo assista às sessões de comunicações, visto elas nada lhe adiantarem. Não é bastante ver, é preciso compreender, e para compreender, o amigo precisa tomar deliberação de estudar.

Estude o "Livro dos Espíritos" e o "Livro dos Médiuns", que não faremos questão de dar-lhe ingresso em nossas sessões práticas." (15/12/1907)

 

Entre Frades

 

"Os frades alemães franciscanos intimaram os seus colegas espanhóis domiciliados no Convento de Santo Antonio, em Santos, a abandonar a residência que será ocupada pelos primeiros.

E dizem que lobo não come lobo!.. " (10/02/1908)

 

Batina ao Lado...

 

"Do "Alpha", de 8 do corrente, transcrevemos a notícia que traz o título acima.

"Consta que o padre Pedro Saliva, vigário do Rio Grande vai abandonar o sacerdócio para se casar com a rica viúva Leal, mãe do engenheiro Arlindo Leal."

De nossa parte felicitamos ao Padre Saliva e fazemos votos para que seus colegas, quando não seja por outro motivo, pelo menos - por este, possam se ver livres da negra sotaina que tão ridículos os torna". (15/2/1908 )

 

Jardim Zoológico no Vaticano

 

"Roma, 28: Sabe-se que Sua Santidade, o papa Pio X pretende instalar um jardim zoológico em uma parte do Parque do Vaticano"

Quererá S. Santidade estudar a Evolução Anímica?!

Era mesmo o que faltava no Vaticano: um Jardim Zoológico!" (10/3/1908)

 

Em Araraquara, um novo mirante?

 

"Pessoa que nos merece todo o conceito informou-nos que o rev. o vigário de Araraquara estabeleceu uma taxa de 200 réis por pessoa para quem quiser subir na torre da Igreja Matriz daquela cidade.

Afirmam-nos que tem sido grande o número de curiosos visitantes da torre. Padres, padres...

Não haveria um imposto para esse nosso comércio clerical?

Ficam à disposição do vigário as colunas do nosso jornal para vs. rev.o desmentir a notícia. (10/4/1908) ".

 

Novas canonizações

 

"Segundo telegramas de Roma para jornais, o Papa vai promulgar os decretos de canonização de novos santos.

Preparem-se os escultores que novos altares vão ser erigidos". (15/5/1908).

 

União Espírita do Estado de São Paulo

 

"Do nosso confrade Raul Silva, digno l.º Secretário da União Espírita do Estado de São Paulo, recebemos uma circular comunicando-nos a unificação dos Grupos da Capital, a fim de ficar constituída a Federação Paulista que servirá de centro e sede à reunião de todos os Grupos do Interior.

Felicitamos os ilustres confrades autores da lembrança e fazemos votos para que suas tentativas dêem felizes resultados" (15/6/1908).

 

Palestra Semanal

 

"Embora com pouca concorrência, realizou o C. E. "Amantes da Pobreza", a sua 1.ª palestra deste mês.

A prosa versou sobre a União dos Espíritas, a fim de que possamos realizar as suas aspirações grandiosas, que outras não são que não o progresso da Humanidade. (...)" (11/5/1912).

 

Um Espírito adiantado

 

"Chateauneuf tinha nove anos de idade quando foi apresentado a um bispo que lhe perguntou:

"Meu amiguinho, diga-me, onde está Deus, que lhe dou uma laranja".

O menino respondeu:

"Diga, V. Rev., onde Ele não está, que lhe darei duas". (15/8/1913).

 

O Espiritismo na Academia

 

"O Comandante Darget, nosso ilustre confrade e dedicado trabalhador da Grande Seara, remeteu a M. Darboux, secretário perpétuo da "Academie des Sciences", uma memória sobre "Le Spiritisme e ses effets sur la plaque photographique".

Não há dúvida de que é chegado o tempo em que o Espiritismo bate às portas das Academias - e há de entrar com o nome: Espiritismo!" (04/04/1914)

 

Apontamento histórico

 

"Foi em 1829 que a Inglaterra concedeu o direito da dissecação de cadáveres, até então interdita pelos padres em nome da religião,"para que fossem mais fáceis as pesquisas de reconstituição dos corpos no Vale de Josaphat quando ressoassem as trombetas do Juízo Final" (10/4/1914).

 

Loteria de Almas

 

"A Imprensa mexicana noticiou que o Clero organizou no México loterias "para livrar as almas do Purgatório". Cada bilhete premiado dá direito à liberdade de uma alma pelo menos, e de quatro almas no máximo".

Eis, aqui, o resultado da última loteria do mês de dezembro: "Loteria das Almas: Os números seguintes sorteados, e os felizes que foram premiados podem estar seguros que os seus bem-amados ficaram livres para sempre do Purgatório.

N.º 41: A alma da srta. Calderon conhece os gozos do Paraíso.

N.º 762: A alma da viúva Francisconi ficou livre para sempre".

E digam que o catolicismo romano não vai em progresso. Já temos "igreja-automóvel" e agora loteria das almas. Só vendo-se... contando se ninguém..." (2/5/1914).

 

Curso de Esperanto

 

"Sob o título em epígrafe, "O Clarim", em 4/7/1914, iniciou o Curso desse idioma em capítulos, constituindo-se no 1.º jornal espírita a fazê-lo".

 

"O Clarim" em propaganda

 

"Com o intuito de concorrer com seus esforços para maior divulgação do Espiritismo, a redação O Clarim deliberou fazer distribuí-lo aos domingos na Estação da Estrada de Ferro aos viajantes". (19/7/1914).

 

As missões católicas em Matão

 

"Versou o sermão de quinta-feira, em grande parte, sobre os pecados da carne.

A alguns pareceu que, apesar de todo o cuidado do reverendo, no tratar tão difícil assunto, o sermão esteve um tanto escabroso, por isso não publicaremos aqui o seu resumo". (8/8/1914).

 

Victor Hugo e os cegos

 

"Passava um dia, o grande poeta e espírita convicto, pelo Boulevard dos Italianos, quando um pobre homem estendeu a mão segurando um cartão em que se lia: "É cego".

O Autor de "Os Miseráveis", tomou o cartão das mãos do cego, entrou num Café e escreveu o seguinte:

"É cego como Homero e Belizário. Tem por companhia uma pobre criança. A mão que socorrer este infeliz, ele nunca a verá, mas Deus a vê por ele".

Desnecessário é dizer que as esmolas caíam no chapéu do pobre cego em profusão". (10/12/1914).

 

Declaração

 

"Não se entenda como sendo a minha pessoa a publicação das graças concedidas a Benedito Pires do Prado. Naturalmente trata,se de indivíduo de igual nome ao meu.

Esta declaração tem o intuito de responder a todos que me perguntam se ainda uso fazer promessas. Benedito Pires do Prado, espírita, de S. João Baptista das Cachoeiras, Minas Gerais" (2/9/1916)

 

"O Clarim" em Finados

 

"O Clarim" circulará no dia 2 de novembro com uma Edição de 47.000 exemplares que serão distribuídos nas Necrópoles de diversas cidades dos Estados brasileiros e muitos exemplares em Portugal". (...) (14/10/1916).

 

"Uma missa em ação de graças peta entrada dos EUA na guerra"

 

Londres, 21 - Com a assistência do rei, da rainha e de todos os ministros de Estado, foi celebrado, na Capital de São Paulo, um serviço solene em ação de graças pela entrada dos EUA na guerra.

O pregador escolhido fora o Bispo americano das Filipinas." (12/5/1917).

 

O Espiritismo em Inhambupe-BA

 

"Cemitério espírita? - O núcleo "Verdade e Luz" acaba de inaugurar um Cemitério que fez construir com grandes sacrifícios para que os que não puderem "comprar o sagrado", para finalmente serem depositados os despojos de todos aqueles que não entrarem na "comunhão católica romana". O que motivou esse empreendimento, foi a existência de um único cemitério nesta povoação, e pertencente a uma Confraria Romana, presidida e dirigida pelo vigário da Freguesia. Está claro que neste local só são depositados corpos dos que são católicos, se puderem pagar o terreno para "sua eterna morada". Com o intuito de remover as dificuldades que pudessem surgir por ocasião de enterros de "não católicos", o Centro construiu o Cemitério aludido". (14/7/1917).

 

"As conferências do Padre Miguel Martins"

 

"Notícias de Bangu, dizem estar ocupando a tribuna sagrada da Matriz, o Pe. Miguel, que tenciona provar em suas conferências: 1.ª) Os absurdos do Espiritismo; 2.ª) A existência do Diabo; 3.ª) A existência das penas eternas do Inferno; 4.ª) a necessidade da confissão ao Padre e a importância da missa.

São uns patuscos esses padres. O que vale é que ninguém os toma mais a sério..." (25/8/1917).

 

"De estadista a frade"

 

"O Dr. Lucien J. Jerome, ex-embaixador da Inglaterra no Equador, renunciou a carreira diplomática e entrou como noviço num convento de frades.

Depois digam que o Espiritismo é que faz loucos..." (23/3/1918).

 

"Agradecimentos ao "São Carlos"

 

"O nosso colega "São Carlos", órgão do Bispado, passou para as suas colunas o substancioso artigo "O Crente", do nosso querido colaborador Vinícius.

Agradecemos ao órgão romano a gentileza; foi pena que ela não se completasse com a assinatura de Vinícius que o Bispo de S. Carlos suprimiu, talvez "por falta de espaço".

Em todo caso, se a lição Espírita foi boa que S. R. aproveite-a.

Nossas Felicitações." (15/6/1918).

 

Imprensa Espírita

 

"Entre jornais e revistas, estão em circulação no mundo 145, sem contar com as de psiquismo, metapsiquismo, ocultismo, etc... que tratam também de Espiritismo, e excluindo também, aqueles que não estão em atividade. (15/4/1918).

Pelas colunas de "O Clarim", sintamos nas palavras do próprio Cairbar, os tempos dificílimos que foram os primeiros anos de vida do jornal, numa matéria em que cita também os pioneiros que o auxiliaram:

"Em 15 de agosto de 1905, O Clarim circulou, pela primeira vez, com uma edição de 200 exemplares. A sua publicação era quinzenal, e o seu formato bem pequeno. Logo depois, fez breve parada para voltar à liça com o formato um pouco maior. O ano de 1910 foi para nós de grandes dificuldades financeiras que ameaçavam nova suspensão do jornal por tempo indeterminado. Entretanto, calamos essa dificuldade e a resolução que tínhamos de não prosseguir por falta de dinheiro.

Dia 9 de janeiro de 1911, o correio nos trouxe uma carta que capeava um cheque de três contos de réis. Era de um desconhecido para nós, com quem nunca tivemos relação nem mesmo por cartas; apenas sabíamos da sua existência pelo nome: Luiz Carlos de Oliveira Borges, membro de uma ilustre família de Dourado. Foi, então, que reatamos a velha amizade que em existências anteriores nos ligava e o parentesco em espírito que nos unia novamente.

Daí para cá esse grande amigo não mais se separou de nós e do nosso querido O Clarim, que cresceu, fortaleceu-se no grande campo do pensamento.

Revendo o passado, nossa alma se constrange relembrando aqueles que conosco palmilharam a estrada ainda difícil de transpor, do campo da propaganda, mas a tristeza se esvai quando eles se afirmam vivos ao nosso lado prosseguindo em sua tarefa. É que eram amigos certos e dedicados e a morte não mata a amizade nem separa os amigos.

E O Clarim, tirado até hoje desde aquela data, estendeu suas raízes pelo Brasil inteiro. As sextas-feiras lá vinha o nosso velho amigo (não era espírita, mas era amigo) Custódio de Freitas, com a carrocinha a transportar os pacotes para o Correio. E ai daquele que lhe quisesse tomar o privilégio!...

O velho Quintiliano, também intimo, mantinha vivo interesse pela nossa folha, Nos seus dois últimos anos de vida, o Chico Ferreira era o dobrador de jornais. Na tiragem de 50 mil exemplares, que fizemos em finados, ele teve tal dedicação que admira: fazia pilhas e pilhas de jornais que se elevavam quase à altura da parede.

Todos ales passaram, mas ficaram conosco. Desde o Vianna que, como o condor nos momentos de inspiração cantava rasgos da divina sabedoria elevando-se aos céus, até o Lucívio Novaes, que, em sentimentos vivos de amor, que lhe mostrava a nobreza da alma, se unia a nós".

 

 

XIII

 

Seu tipo físico e personalidade

 

 

Cairbar Schutel era um tipo imponente, altivo, sempre vestido no amanho, roupa primorosamente limpa e engomada.

Não usava ternos de casemira, só de linho, e invariavelmente portava gravata.

Se nas fotos existentes dele sua fisionomia parece carrancuda, séria, na intimidade, relatam os que com ele conviveram, era uma pessoa alegre, jovial e de boa prosa.

Não raras vezes ouvia-se dele uma piada, uma irreverência, mas, sempre muito respeitador, era, acima de tudo, um cultivador da disciplina para si próprio e para seus comandados.

O cavanhaque que usava tornou-se sua marca registrada, apreciava um cigarrinho e, quando na farmácia, trajava um paletó branco, sem nunca abandonar a gravata.

E para quem quiser ter uma descrição exata de seu tipo físico, fomos buscar num Salvo-Conduto por ele tirado em 1932, que o autorizava a fazer o percurso de Matão a Araraquara, por exigência da guerra, suas características exatas: altura, 1,70 mts; cabelos, grisalhos; barba, cavanhaque; rosto, oval; cor, branca; olhos castanhos; boca, regular; sinais particulares, defeito no dedo submédio direito.

José da Cunha, assim o definia: "Era honesto, muito trabalhador e sério, e percebia-se que era um trabalhador que gostava de tudo em que se envolvia, por isso o fazia com satisfação íntima e alegria. Essa alegria tinha seus momentos certos, quando ele gostava de contar suas piadas e ria a valer. Era muito carinhoso com as crianças e aos pobres nada negava. Era um caridoso por excelência, e, se alguma coisa dele mais se marcou, foi a caridade".

Abalizada para falar, D. Atonia Perche, escolhida pelo próprio Schutel para substituí-lo no Centro Espírita, também dá o seu depoimento: "O livro "Uma Grande Vida", de Leopoldo Machado, faz uma ótima descrição do "seo" Schutel. Ele era jovial, muito alegre mesmo, parecendo que para ele nunca houve tristeza. Era sempre animado com moços ou velhos, e os confrades que o vinham conhecer aqui em Matão hospedavam-se em sua casa e sempre o encontravam muito hospitaleiro e amistoso. Na farmácia ele dispensava atenção a todos e demonstrava uma fraternidade e um carinho para com os pobres todo especial. Conhecia sua profissão como ninguém e a farmácia dele era a farmácia dos pobres: se a pessoa não tinha dinheiro, não saía de lá sem o remédio que necessitava".

Juvenal dos Santos, que durante anos viveu o dia a dia da "Casa Editora" com Schutel, assim fala do patrão e amigo: "Conheci "seo" Schutel ainda meninote e já o admirava, mas foi trabalhando com ele, de 1935 até sua morte, que passeia admirá-lo ainda mais. Era um amor de criatura. Agente produzia sem pressão. Ele trabalhava demais, até altas horas e muitas vezes, quando voltava da cidade, eu o via às 1,30 ou 2,00 hs da manhã trabalhando na Redação, mas de manhã cedinho já estava na farmácia. Na Gráfica, ele trocava muitas idéias conosco e podia se perceber que ele não tinha só cultura, mas falava como um homem sábio.

Hugo Gonçalves, cuja família acompanhou Cairbar em seus primeiros passos no Espiritismo, desde jovem conviveu com nosso biografado e assim se refere a ele: "Falar de Cairbar Schutel para não dizer impossível, é muito difícil, porque ele foi, a meu ver, o expoente da verdade, da justiça e do amor. Um homem que soube ser grande dentro da sua humildade, que se escondeu atrás de seus feitos extraordinários com sua simplicidade, que soube se conduzir no mundo, defender a Doutrina e propagá-la com todo esforço, carinho, sabedoria e amor. Por isso é que digo ser difícil para não ser impossível, falar de Cairbar Schutel em uma linguagem à altura do que ele foi, do que ele representou e do que ele fez.

Quando começou a estudar a Doutrina, ele descobriu um mundo novo. Sentiu ele, a grande necessidade de externar seus conhecimentos elevar a Doutrina a todas as pessoas, principalmente à gente de sua cidade, surgindo a idéia da fundação do G.E. "Amantes da Pobreza" e, em seguida, do "Clarim". Havia gente que pegava o jornal com dois pauzinhos, senão com pano ou com papel para não contagiar as mãos, punha-o no meio da rua e botava fogo... Isso acontecia semanalmente em Matão.

Na tribuna Cairbar emocionava e empolgava, sua voz cativava, a par de uma dicção extraordinária. Tinha um conhecimento que a gente não sabe nem calcular, enfim, o dom da palavra e de arrebatar multidões.

Schutel reunia em si todas as qualidades de um verdadeiro cristão, sendo um gigante na defesa da Doutrina Espírita. Seria capaz de entregar sua camisa, até a própria vida, se preciso, em favor de alguém, de qualquer pessoa que precisasse dele, mas na hora em que dissessem algo que procurasse denegrir os princípios espíritas, ele era um gigante que se levantava e defendia, por todos os meios e com todas as forças, as idéias espíritas. Conheci nele o maior filantropo com quem convivi. Schutel se esquecia de si para servir a todos. O seu amor não se estendia só à Humanidade e às criaturas, como também aos animais e às plantas, principalmente às flores que ele mesmo cultivava.

Ele próprio dirigia um grupo de desobsessão, cujos doentes ficavam num quarto ao lado e aos domingos haviam os trabalhos públicos com palestras. Não havia, porém, os passes depois das reuniões. Eles eram aplicados em casos particulares. Cairbar desenvolveu as faculdades de psicografia, psicofonia, vidência, audiência e curas".

Por estes depoimentos, tem-se uma pálida idéia da grande figura que foi Cairbar Schutel: altruísta, dedicado, trabalhador, um exemplo de homem probo, correto, e que amou seus semelhantes até os extremos da renúncia de si próprio.

Além disso, foi um esposo amoroso, que soube compreender a doença insidiosa da esposa e durante quarenta anos em que ela assim esteve, tratou-a com tal desvelo e dedicação que só confirmariam o espírito cristão que o ilustre biografado albergava dentro de si.

 

 

XIV

 

Cairbar e dona Mariquinhas

 

 

Diz a sabedoria popular, que "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher" e o relacionamento do casal Schutel vem confirmar essa regra.

Soube, D. Mariquinhas, retribuir com muita dedicação, a confiança e o amor que Schutel lhe dedicou desde que se conheceram.

Dos tempos difíceis da juventude em Araraquara, ela transformou-se no arrimo de que o esposo necessitava para a consecução de sua grande obra em prol do Espiritismo.

Abraçou-se à Doutrina em igual tempo que o companheiro e embora não lhe tivesse o mesmo estudo e dedicação, foi na obra de caridade que mais se sobressaiu, engajando-se com Cairbar na luta por um mundo melhor para os desvalidos materialmente.

Numa estratégica e obscura retaguarda, mas porque não dizer, glorificada, fez-se a companheira ideal, a esposa desvelada e compreensiva, cuja felicidade era ver o desenvolvimento das tarefas altruísticas do esposo junto ao Ideal abraçado, muito embora isso lhe custasse a privação de momentos de convívio familiar. D. Mariquinhas teve um começo de vida difícil, sofrido, como já foi descrito, mas isso só teve o condão de lhe realçar as qualidades e méritos, pois conforme a sabedoria evangélica nos diz, "quem toma do arado, não olhe para trás".

Rompera com a família logo cedo, mas a postura cristã que assumira junto com o esposo não lhe permitiria sustentar tal situação e assim é que logo procurou promover uma reconciliação, no que foi coroada de êxito.

Seu pai, José Joaquim Silva, que teve três casamentos, viveu seus últimos anos na casa do casal Schutel. Cairbar lhe dedicava muita atenção e até brindava-o com algumas notas no "Clarim":

"Regressou de sua viagem a Mineiros, onde foi tratar de negócios, o Sr. José J. Silva, sogro do nosso companheiro C. Schutel". (01/06/1928)

Também os irmãos de Mariquinhas, Brasílio, Deolindo e Euclydes viveram por algum tempo na casa dos Schutel e estudaram na escola gratuita que o "Amantes da Pobreza" manteve por vários anos.

"O Clarim", inclusive, noticiou o prematuro desencarne de Euclydes Silva:

"Após longa enfermidade, desprendeu se dos liames carnais este nosso amiguinho, Euclydes, que contava apenas 18 anos. Era irmão da nossa prezada confreira D. Maria Silva Schutel e cunhado do nosso companheiro C. Schutel, que já tiveram a felicidade de saber do estado atual do ente caro, que prepara sua iniciação na Vida Espiritual. Os nossos queridos chefes que o iluminem e o Senhor Supremo tenha dele Misericórdia". (15/08/1919)

Dona Mariquinhas teve uma doença de pele, que provavelmente tenha sido "lupus", mas por bom tempo imaginou-se ser hanseníase. Dr. Agripino Dantas Martins, encomendando rigorosos exames, constatou que não.

Cairbar, preocupado com a moléstia da esposa, trocou correspondência com Eurípides Barsanulfo em Sacramento, para orientar-se com o amigo e confrade, que passou a lhe enviar remédios à base de plantas medicinais. Ela costumava tomar banho com esses produtos, sendo um deles à base de uma pimenta verde.

Eis o texto de uma das cartas de Schutel a Barsanulfo agradecendo os remédios e dando outras notícias:

"Matão, 27 de abril de 1918.

Meu caro Eurípides,

Paz em N.S. Jesus Cristo.

Muito lhe agradeço as atenções. O nosso "Clarim" muita agradece o auxílio. E que embora não começasse o uso dos medicamentos, sinto-me mais animado. Creio mesmo mais que é a ação benévola de tuas preces e da nossa boa irmã Amália, que produzem ação muito superior aos medicamentos. Por isso quero que todos os dias ao deitarem se peçam pela simples prece misericórdia do Altíssimo, os passes fluídicos do nosso Dr. Bezerra ou seu preposto.

Interrompi "O Clarim" por 15 dias para fazer entrar no prelo a "Interpretação Sintética do Apocalipse", que já está com suas primeiras páginas impressas. Mande-me sempre notícias do movimento. Se houver ocasião, chegarei aí, quando Deus quiser.

Abraça-o seu irmão

Cairbar"

Com a doença, D. Mariquinhas pouco saía de casa, senão para fazer as compras domésticas e as das distribuições do Centro. Essas compras eram feitas principalmente na Casa Kfouri, de propriedade do Sr. Jorge Kfouri que, mesmo não sendo espírita, admirava a obra caritativa do casal e sempre lhe concedia 20 a 25 por cento de desconto. Costumava dizer de Cairbar: "Esse homem merece que a gente queira bem ele".

D. Antoninha Perche fala da convivência do casal e de sua amiga Mariquinhas:

"O gênio dos dois era muito afim. Quando ela se deparava com uma pessoa pobre, fazia de tudo por ela. E quando saía para comprar fazenda, nunca comprava por metro, mas por peça. Ainda bem que "seo" Schutel encontrou a mulher certa, porque senão ele não poderia ter feito o que fez e talvez tivesse comprometido sua tarefa. Como o jantar na casa era muito cedo, às 16 horas, ela antes de se deitar preparava toda noite uma canequinha de leite morno com pão ou então sopa para os doentes e velhos que moravam na casa deles. Eu achava isso interessante e também observava como ela tratava os pobres que o dia inteiro batiam na porta: com carinho e consideração, nunca negando algum auxílio para eles. Ela nos agradava muito e gostava de fazer para nós, mocinhas, aventais de renda grossa na beirada, conforme a moda na épica".

Por influência de D. Mariquinhas, Schutel e seu grupo construíram a Vila Espírita, um conglomerado de seis casinhas na Vila Santa Cruz, onde eles abrigavam e cuidavam dos pobres atingidos pela epidemia de febre amarela.

Quem tratava de D. Mariquinhas em sua doença, além do esposo, era Maria Montes de Oliveira. Sua filha, Benedita, conta que Schutel gostava de ficar penteando os cabelos de Mariquinhas depois do banho até que D. Maria lhe preparasse a "toilette".

Nas fases agudas da doença de Mariquinhas, ciente de que ela não conseguia pregar os olhos à noite, Cairbar antes de dormir preparava dez cigarrinhos de palha para sua distração noturna.

A moléstia tinha períodos de esmorecimento, mas no geral, foram muitos anos de sofrimento, com manchas dolorosas espalhadas pelo corpo inchado e causando muitas dores e mal-estar à doente, que a tudo enfrentava sem uma queixa sequer. O Espiritismo havia lhe ensinado tratar-se de uma provação, à qual necessitava ser suportada com resignação.

Cairbar, em todos os momentos a seu lado, não se descurou um instante da presença da esposa, sendo lhe nessas horas o enfermeiro dedicado e o amigo reconhecido.

 

 

XV

 

O "Pai dos pobres de Matão"

 

 

Se os espíritas de todo o mundo reconhecem Cairbar Schutel por sua grande obra de divulgação, os habitantes de Matão, principalmente os mais desvalidos, o reverenciam por sua obra de caridade.

"Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará", diz a sabedoria evangélica, e este foi um homem que soube se fazer livre pela prática do amor. E como amava era livre: nunca experimentou a ambição que agrilhoa o homem ao egoísmo.

Não sem razão, foi chamado "O Pai dos Pobres de Matão" e este título tanto lhe é mais merecedor, porque não foi ofertado pela vaidade de seus conterrâneos, ou pela classe política, ou, ainda, por sua família humana, mas o foi pelos seus próprios amigos: os pobres. Que maior galardão poderia desejar este cristão, que fez de sua vida um ato de renúncia em favor de seus irmãos em Humanidade? O que o teria mais realizado em vida? Os louros passageiros das homenagens terrenas, ou o título que o imortalizou como o escravo dos desfavorecidos?

Esse "amigo dos que não tinham amigos", esse exemplo dos que sonham um dia serem soldados do Divino Condutor, chega até a ter sua obra de caridade ofuscada pelo trabalho de divulgação da Doutrina do Cristo. Mas é compreensível, porque, tanto em uma quanto na outra, ele foi dos maiores. "Conhecereis meus seguidores pelas suas obras" e este foi, sem dúvida, aliado a seu caráter impoluto, o motivo pelo qual até mesmo seus opositores se rendiam a seu magnetismo e deixavam a arena das disputas religiosas como seus amigos.

Não há o que negar. Este capítulo dará apenas uma pálida idéia do que representou para a sociedade matonense este Apóstolo da Caridade. O espaço é pouco para falar de seus quarenta anos de vida missionária junto à seara do Mestre.

 

*

 

"Tinha sempre alguém batendo à porta do sr. Schutel pedindo alguma coisa - alimento, roupas, remédios - e todos eram atendidos", relata Benedita Silvério, criada por Cairbar Schutel desde os primeiros dias de vida. "Quando ele não estava, era Dna. Mariquinhas quem atendia, que com igual amor e solicitude, fazia o que estava ao seu alcance para auxiliar os pobres de Matão".

Nos fundos da residência, Cairbar mandou construir um caramanchão e uma comprida mesa onde eram servidas as refeições para nunca menos de 14 ou 15 pessoas, chegando a extremos de 20 a 25 não poucas vezes. A única exigência feita por ele aos convivas era quanto à pontualidade: almoço 10 hs da manhã; jantar 16 hs da tarde. No final do almoço Cairbar costumava perguntar: "Estão satisfeitos? Tudo bem? Então está tudo bem!"

Também tinha no vasto quintal de sua casa três quartinhos onde recolhia e tratava pobres, idosos e doentes. Moraram durante muito tempo nesses quartos e até seus últimos dias, Antonio Felisberto Joaquim dos Santos, de Araraquara, que morreu com 110 anos, e participou de toda a guerra contra o Paraguai, e Jesuíno Celestino de Mendonça, um baiano que não tinha uma das pernas. Também conseguimos registrar que lá residiram a família Barbosa e um velhinho de nome Nhô Johnson que desencarnou com dupla pneumonia.

João José Aguiar, que trabalhou de 1929 a 1938 com Schutel na farmácia, relata como é que era o seu dia a dia no trabalho:

"Ele era muito enérgico, sistemático e disciplinador, mas muito bom. Um coração boníssimo. Chegavam àquelas pessoas doentes e diziam: - "Seo" Schutel está aí? Eu precisava falar com ele". "Seo" Schutel vinha, escutava das pessoas seus sintomas, ouvia delas que não tinham dinheiro para pagar, mas mesmo assim fazia a receita, dava para nós aviarmos, quando ele mesmo não o fazia, e punha embaixo: grátis. Isso acontecia 6, 8 vezes por dia.

A farmácia tinha seções de alopatia, ótica (ele fez o curso prático) e homeopatia, nesta vendendo glóbulos do Dr. Humphrey, Alberto Seabra e Almeida Cardoso".

José da Cunha, que iria tornar-se mais tarde grande colaborador de Schutel, foi por ele curado, e participou de muitas peregrinações do biografado pelo interior das fazendas em atendimento a doentes sem recursos. Eis parte de seu depoimento:

"Quando criança, eu o acompanhei muitas vezes pelas fazendas, pelas matas cerradas, locais de difícil acesso, para visitar os colonos, desde que seus patrões permitissem, e examinar suas dificuldades, cuidar de suas doenças. Eles até já ficavam esperando o "seo" Schutel. Nós íamos de "aranha",uma carruagem leve, na qual ele carregava muitos medicamentos e frascos de pílulas contra o amarelão, a anemia, a maleita, esta última, assaz proliferada na região naquele tempo, nitrato de prata, colírio para tracoma e vermífugos. Duas das fazendas, que eu me lembro ter visitado inúmeras vezes, foram a Palmares e a Piratininga.

Certa vez, fomos socorrer uma senhora idosa e só, e ele teve que ir à cozinha para esquentar água e fazer compressas. Lá verificou que sobre o fogão não havia sinais de uso recente de panelas, examinou em derredor e observou que não tinha comida. Então, tirou um dinheiro do bolso e muito cautelosamente o colocou debaixo do travesseiro da doente e não disse nada, pois não quis humilhá-la. Atitudes como essa eram comuns no seu cotidiano".

 

*

 

Três épocas do ano eram consideradas muito importantes por Cairbar: os Finados, já referida anteriormente, para a divulgação dos postulados espíritas, notadamente o da imortalidade da alma; a Páscoa, que por ser entrada do inverno, era feita uma distribuição de agasalhos e cobertores; e o Natal, quando era realizada uma vasta distribuição de gêneros alimentícios. roupas e brinquedos.

O Natal, desde a fundação do "Amantes da Pobreza" era realizado pelo grupo, tendo posteriormente, as damas de caridade e o Padre criado uma distribuição similar na Igreja.

Certa feita, foi convocado para cuidar da Paróquia o Padre espanhol Herrera, que logo fez forte amizade com Schutel, e passava muito lá nos fins de tarde para prosear juntamente com Gregório Perche de Menezes, Juca Costa, José Maria Gonçalves, José Bartolomeu Ferreira, que foi Prefeito, e outros. Pois este Padre, um dia foi ter com Schutel e disse: "Olha, Schutel, você faz essa festa de Natal todo ano, na Igreja nós temos as damas de caridade que também fazem, mas eu estou com vontade de falar com elas se aceitam promover o Natal da Igreja com o dos espíritas, porque assim os pobres vão num lugar só e já recebem tudo o que tivermos para eles, o que você acha?". Schutel não pensou duas vezes: "Perfeitamente". E foi, mas as damas recusaram peremptoriamente e, ao dar o resultado da consulta a Schutel, este lhe responde: "Não tem nada, Padre. A sua bondade e fraternidade já valeram muito".

Herrera gostava muito de conversar sobre religião com Cairbar e tinha idéias socialistas, no que foi repreendido pelo amigo antes que as confundisse com seu sacerdócio e criasse problemas para si próprio.

 

*

 

Em outra ocasião, estava no trem com compromisso urgente na agenda, quando encontra-se na classe com dois policiais que levavam algemado um obsidiado, irrequieto, exigindo muitos cuidados.

"Onde levam o homem?" - perguntou.

Iam levá-lo ao "Deus dará", à procura de um asilo ou cadeia próxima, mas Cairbar, esquecido de seu apontamento, toma a si o caso e retorna à sua casa com o obsidiado, curando-o depois de alguns dias de tratamento espiritual.

 

*

 

Contemporâneo de Cairbar, Hugo Gonçalves, relata outro caso:

"Schutel conduzia algumas vezes seus doentes numa carrocinha, onde ele colocava um colchão apropriado para melhor acomodar a pessoa a ser transportada. Jorge Cruz possuía uma dessas carroças, conhecida como a "ambulância de Cairbar Schutel". Era admirável ver com que carinho Schutel tratava daqueles doentes. Ele os tratava não só com remédios, mas os preparava igualmente para as verdades espirituais".

 

 

XVI

 

Criação do Hospital de Caridade

 

 

Matão desenvolvia-se celeremente e, com o progresso, as necessidades da cidade também cresciam.

Cairbar, sempre preocupado com a comunidade, e trazendo no coração aquela profunda compaixão pelos pobres e desvalidos, vislumbra a necessidade de dotar Matão de um Hospital.

Até então o atendimento médico era precário e, muito embora a cidade já contasse com um esculápio, Dr. Agripino Dantas Martins, casos de gravidade e internações tinham que ser transferidos para Araraquara ou São Paulo.

Assim, surgiu a idéia do "Amantes da Pobreza" fundar um pequeno Hospital, modesto como as suas possibilidades, mas que fosse um fulcro que pudesse resultar futuramente num nosocômio que atendesse às necessidades do lugar.

E mais uma vez, o Bandeirante, o desbravador Cairbar Schutel, com sua visão futurística e seu coração sensível, favorece a comunidade, que não lhe retribuía na medida de seu valor, com a fundação do Hospital de Caridade.

"O Clarim", de 2 de março de 1912, assim noticia o acontecimento:

 

Hospital de Caridade

 

"Desejando concorrer com a sua boa vontade para o amparo dos doentes pobres, o Centro Espírita "Amantes da Pobreza" resolveu fundar uma Casa de Caridade onde os desprotegidos encontrem a hospitalidade e os cuidados indispensáveis para o alívio dos seus sofrimentos.

A sua inauguração será a dez do mês corrente.

E uma casa pobre, arrendada pelo Centro, comportando apenas seis enfermos.

Embora sem os requisitos precisos para uma boa instalação, ela oferece, contudo, abrigo àqueles que melhor abrigo não encontrem.

O Hospital de Caridade é antes o resultado de uma vontade firme de desfraldar esse estandarte que tem por lema a palavra que lhe deu o título, do que uma de verdadeiro conforto para os enfermos.

Entretanto, o Centro Espírita faz o que pode e o que deve fazer.

Sem cogitar da crença, da nacionalidade ou de política a que pertença aquele que de um abrigo na enfermaria necessitar, as portas do Hospital estão abertas.

Convidamos o público para assistir, ao meio-dia, de dez do corrente, à modesta inauguração da Casa Hospitalar.

A Diretoria do Centro".

Modesto, mas cumprindo as finalidades para o qual foi criado, o Hospital continua merecendo notas de "O Clarim":

Hospital de Caridade

"Existiam 3

Saiu 1

Entraram 2

Existem 4

Foram aviadas por conta do Hospital 57 prescrições, sem contar os medicamentos homeopáticos e o tratamento magnético dispensado aos enfermos.

Digno de nota, e não poderíamos deixar de registrar nestas colunas, como prova da nossa gratidão ao ilustrado e nosso particular amigo, Dr. Agripino Martins, a inestimável oferta dos seus relevantes e desinteressados serviços ao Hospital, serviços estes que têm sido aproveitados desde a fundação deste Estabelecimento de Caridade". (11/5/1912).

Em "O Clarim", de 24 de dezembro de 1912, os progressos do Hospital:

"Correm animados os festejos em beneficio do Hospital da Caridade.

As prendas oferecidas à quermesse montam 2:500$000 e os objetos ofertados aos leilões atingem a soma de um conto de réis. (...)"

 

*

 

"Por indicação dos deputados Dr. Machado Pedrosa, Moraes Barros e Peixoto Gomide, vai ser incluída no orçamento do Estado uma verba de 6:000$000 para a fundação do Novo Hospital".

 

*

 

"O Popular", de Araraquara, trouxe um desenvolvido artigo sobre o Hospital da Caridade desta cidade em que faz lisonjeiras referências ao C.E. "Amantes da Pobreza", que penhoradamente agradecemos".

Boas notícias, mas queixas da população local, é o que traz a matéria de 10 de janeiro de 1913:

"Correram animadíssimos os festejos e quermesse em benefício do novo Hospital da Caridade. (...)

A comissão informou que o produto das quermesses atinge a soma de 5:000$000. Parece pouco, mas se levarmos em conta que esta quantia representa a boa vontade da população de fora do Município, principalmente da Capital, veremos bem correspondidos os esforços dos fundadores do Hospital.

Restam agora os srs. fazendeiros do município que, parece-nos, devem ter interesse direto na manutenção do Hospital e veremos se responderão com espírito de altruísmo aos apelos dos desabrigados e infortunados".

E assim, o Hospital ia ganhando a simpatia do Poder Público, pois, apesar do preconceito ao Espiritismo, ninguém poderia deixar de reconhecer naquela obra o valor inconteste que estava adquirindo para a cidade.

Em 15 de fevereiro de 1913, "O Clarim" noticia a doação da quantia de 200$000 (duzentos mil réis) anuais pela Câmara Municipal, ao mesmo tempo em que a Prefeitura cede, provisoriamente, ao Centro Espírita, a espaçosa casa do Largo Municipal de propriedade da Câmara, para onde o transferiram.

Em 11/5/1913 foi eleita a nova Diretoria do Hospital, que ficou assim constituída:

Presidente: Dr. Agripino Martins.

Vice: Francisco da Costa e Silva.

Tesoureiro: Dr. Gastão Laukner.

Secretário: Juvenal Moreira.

Membros da Diretoria: José Antunes da Silveira, Pedro Rossi, Leão Pio de Freitas, Francisco Correa, Manuel Correa de Araújo e Cairbar Schutel.

No entanto, as necessidades eram muitas e o número de doentes aumentava sem que o Hospital tivesse condições de atender. Essas dificuldades, porém, até que seriam contornáveis, mas o Hospital requeria muito tempo de Cairbar, prejudicando as tarefas espirituais e de divulgação da Doutrina, determinando com que o grupo optasse pelo fechamento do Hospital.

Some-se a isso a mágoa do "Bandeirante" de não ter encontrado ressonância na própria população da cidade, obrigando-o a buscar recursos fora, principalmente na Capital.

Em "O Clarim", de 22 de novembro de 1913, duas notas lacônicas e amargas anunciam:

 

Hospital de Caridade

 

"O Centro Espírita "Amantes da Pobreza" fechou o Hospital de Caridade, que durante o seu funcionamento foi mantido pelo mesmo Centro".

 

C.E. "Amantes da Pobreza"

 

"A Diretoria do C.E. "Amantes da Pobreza" deliberou, até nova resolução, limitar os seus trabalhos à propaganda pela palavra e pela imprensa.

As palestras semanais continuam a realizar-se no Salão da Associação aos domingos às 8 hs. da noite".

 

 

XVII

 

Apreensão de "O Clarim" em 1913

 

 

Cairbar Schutel tinha uma afeição especial pelo dia de Finados. Acreditava ele, que era nesse dia onde mais a propaganda espírita deveria ser feita, para levar o consolo que tanto precisavam as pessoas descrentes na sobrevivência do Espírito.

Assim, ele preparava com muito esmero todos os anos uma edição especial para essa data, e muitos exemplares extras para serem distribuídos grátis nos Cemitérios.

O ano de 1913, que marcou uma edição recorde de 40.000 exemplares, no entanto trouxe uma frustração, mas, se bem analisarmos, veremos que, guardadas as devidas proporções, assemelhou-se a um pequeno "Auto-de-fé de Barcelona", consoante à extensão da divulgação que logrou atingir para a Doutrina.

O acontecimento deu-se, por mais estranho que possa parecer, na capital cultural do País, ou seja, São Paulo, conforme noticia "O Clarim" de 8 de novembro de 1913:

"São Paulo, 3 - Meu telegrama de ontem - O delegado Dr. Rudge Ramos não consentiu na distribuição de "O Clarim" no Araçá e na Consolação, apreendendo uns tantos exemplares e nos ameaçando de prisão se insistíssemos. Mesmo assim foram distribuídos cerca de 1500 exemplares, e com felicidade indizível, pois, poucos foram os jogados à rua. A fim de não prejudicar a propaganda, dirigi-me ao Cemitério da 4.ª Parada, cuja afluência era enorme, quase como na necrópole do Araçá, e fiz toda a distribuição, de forma que às 4 hs. da tarde já não havia mais um "O Clarim" para remédio, tanto assim que aqueles jornais (pouquíssimos) que eram encontrados pelo chão, eram apanhados e lidos. (...) Dídymo Pereira"

A reação não se tardou por esperar.  Espíritas de todo o Brasil e a imprensa em geral, enviaram protestos veementes às autoridades de São Paulo. Os jornais exploraram e divulgaram bastante o fato, acreditando se daí, ter sido providencial o tiro arbitrário desferido pelo Dr. Rudge Ramos contra o Espiritismo, porque este lhe saiu pela culatra... Nunca se houvera falado tanto sobre a "diabólica doutrina"...

Vejamos alguns fragmentos das matérias:

"O nosso bom amigo e talentoso colaborador, sr. Cairbar Schutel, redator do "O Clarim", tirou uma edição especial de 40.000 exemplares para distribuir grátis nos cemitérios, no dia de Finados.

No Rio, Santos, Campinas, São Carlos, Dourado, Curitiba, e diversas cidades de todo o País, a distribuição foi feita sem o menor incidente; porém, na culta Capital, residência dos "pachás" desta feitoria, já não se deu o mesmo: O Delegado Rudge Ramos proibiu a distribuição nos cemitérios da Consolação e do Araçá!" ("O Alpha", Rio Claro).

 

"O Clarim" e a Polícia

 

"Expomos na nossa vitrine o n.° do jornal que se publica em São Paulo, "O Clarim", que nos foi remetido pelo sr. Lins de Vasconcelos.

Esse n.° de "O Clarim" foi em São Paulo proibido de ser distribuído no Cemitério do Araçá no dia 2 de novembro por um Delegado de Polícia, naturalmente influenciado pela arrogância do Clero ignorante". ("Diário da Tarde", Curitiba).

 

O Delegado proíbe a distribuição de um jornal

 

"O Delegado de São Paulo proibiu a distribuição de "O Clarim" nos cemitérios do Araçá e Consolação (...)"

("Gazeta de Notícias", São Paulo).

 

Censura jornalística em São Paulo

 

"Esteve ontem em nossa redação, uma comissão de redatores de "O Clarim", órgão de propaganda espírita que se edita em Matão, São Paulo.

Compunham a dita comissão os srs.: Dr. Vianna de Carvalho, José Tosta, Alcindo Terra, e Vicente Abreu Costa, os quais mostraram o seguinte telegrama: (...)" ("Correio da Manhã", São Paulo).

 

Atentado à Imprensa

 

"(...) acaba de ser vítima das façanhas de um Delegado da Capital que impediu que o mesmo fosse distribuído nos Cemitérios em Finados.

Admiramos que numa cidade adiantada como é São Paulo, hajam autoridades de tal ordem, que violam os sagrados princípios de liberdade da imprensa garantidos pela nossa liberal Constituição.

Proibir a circulação de "O Clarim" por que?

Onde achou esse Delegado arbitrário base para essa resolução? O sr. Chefe de Polícia não teria conhecimento de tal fato?

A "Atualidade" não pode deixar de consignar aqui o seu protesto contra esse ato ilícito daquela autoridade, contra esse ato atentatório aos princípios constitucionais, que verdadeiramente depõe contra os poderes policiais de S. Paulo.

Isso não pode ficar impune: resta que o Dr. Secretário de Justiça e Segurança Pública tome previdência acertadas, para proibir tal abuso de excesso de Poder. ("A Platea", de São Paulo).

 

A Arbitrariedade de um Delegado

 

"(...) Tratava-se de um órgão de propaganda espírita e, como tal, escrito em linguagem sã, elevada e inspirada na moral mais pura.

Doutrinário, "O Clarim" pregava a sua crença usando da liberdade de pensamento, segundo garante a Constituição em seu artigo 72.

O mesmo estatuto, estabelece que os Cemitérios terão caráter secular, sendo livres a todos os cultos religiosos, à prática dos ritos em relação aos crentes, desde que não atentem contra a moral pública e as leis.

Em Santos, a distribuição, que foi tão profusa, não encontrou óbice algum (...)

Em outras muitas localidades o modesto colega encontrou igual aceitação e circulou fartamente levando a muitos lares a sua frase de propaganda, que busca alcançar firmar-se não pela violência, pelo "PERINDE AC CADÁVER" do jesuitismo de Loyolla, mas pelo raciocínio, pela lógica; o colega pretende vencer com tais armas que nobilitam a quem as usa. (...)

Pedantesco o moço assim procedeu cerceando em sua liberdade uma folha cujo crime era pregar uma moral verdadeira.

Teria sido essa a causa de sua irritação?

Que lhe proste e caia o castigo de se ver apontado como o único a ter tal procedimento". ("A Tribuna", Santos).

E com toda esta grita, a Doutrina foi colocada tanto mais em evidência que se tal fato atentatório à liberdade não tivesse sido perpetrado.

Mas uma série de boas noticias também fizeram parte do episódio. Vejamos alguns dos telegramas dando conta da divulgação em outras cidades:

"S. Carlos, 3 - A distribuição de "O Clarim" foi feita com toda a regularidade e com a aceitação por parte do público que, confiamos em Deus, há de abrir os olhos à Verdade." Antonio Diniz.

"Dourado, 3 - Mandei distribuir cento e poucos boletins na cidade, setenta na Estação à passagem do Rápido; e o restante eu e um amigo distribuímos aos visitantes na necrópole municipal". Eurípides Rocha.

"Santos, 3 - E com satisfação que dou conta da tarefa que me foi confiada. Começarei dizendo que não me faltou o auxílio de Deus para o bom desempenho da missão de que fui encarregado. Acompanhado de dois amigos, fiz a distribuição de "O Clarim" que eram entregues sempre acompanhados de solicitações "para que lessem em casa com vagar e atenção". O povo, por sua vez, aceitava-o - notando-se no semblante de cada um - um misto de espanto e curiosidade. Assim, foram distribuídos os 3.000 jornais; penso ter cumprido meu dever". Gennaro Millas.

"Capivari, (E, do Rio) 8 - Fiz distribuir os boletins nos cemitérios daqui, de Rio Bonito e de Saquarema. Correu tudo bem". Columbano Santos.

"Jaboticabal, 12 - A distribuição de "O Clarim" aqui foi feita pela manhã, correndo tudo aos nossos desejos. Não vi um só avulso rasgado. Ao saírem do Cemitério, muitos dos que iam recebendo os impressos, os liam em voz alta à sombra das árvores plantadas em redor da necrópole". V. Tamarine.

"S. João Baptista Cachoeiros (Minas), 12 - Fiz profusa distribuição do Boletim que foi aceito com simpatia ou curiosidade". Benedicto Pires Prado.

"Bebedouro, 12 - Distribuí os Boletins no Cemitério, com ótimo resultado, pois o nosso trabalho mereceu a consideração do vigário, que num sermão na Igreja nos excomungou - "a quem fez tantas heresias, a quem distribuiu os impressos" - e, ainda sob pena de excomunhão, proibiu que fossem os jornais lidos. Por aí podemos calcular a salda que os mesmos tiveram e a sofreguidão com que eram lidos". F. Vellozo. (Os grifos são do Autor) .

"Descalvado, 13 - Os 300 Boletins foram insuficientes. Mandamos imprimir mais 650, no mesmo teor. Destes, o C. E. "Fé e Amor" remeteu 150 para Porto Ferreira, e os restantes foram distribuídos nesta cidade. Felizmente ninguém recusou receber os impressos, cuja idéia foi muito aplaudida". José Vitorino.

"Piracicaba, 12 - "O Clarim" aqui fui distribuído sem nenhuma nota desagradável e, penso, com bom resultado". Pedro de Camargo.

"Bahia, S. Salvador, 7 - Fiz a distribuição dos jornais. Não sei ainda o que produzirá as sementes. Aqui reina a indiferença como moléstia dos Tempos". B. Vargão.

Além desses, "O Clarim", também recebeu mais telegramas: "Revista Verdade e Luz", São Paulo; José L. Pereira, Taquaritinga; Raul Ciesta, Valença; Tomaz Aquino, Niterói; Augusto dos Santos, Itabuna; Abel F. Oliveira, Brotas; Elias M. Vargas, S. João do Ariranha; Antonio Alexandrino, Rocinha; Alexandre de Abreu, Ribeirão Preto; Henrique Macedo, São Paulo; Floriano Martins, Rio de Janeiro; Otávio Campos, Sertãozinho; e muitos outros não transcritos nas suas páginas por falta de espaço.

Outro costume do nosso Cairbar, era pagar passagens de trem de ida e volta a cidades perto de Matão para pessoas que iam distribuindo "O Clarim" gratuitamente aos viajantes; ou então, ele próprio ficava na Estação esperando as composições para distribuí-lo durante as paradas.

 

 

XVIII

 

Visitas à cadeia pública

 

 

Em julho de 1914 o C.E. "Amantes da Pobreza" estendeu suas atividades à Cadeia Pública de Matão, mais especialmente Cairbar Schutel, que passou a visitar os sentenciados semanalmente e promover comemorações na Páscoa e no Natal com eles.

Este costume, Schutel conservou até o fim de sua vida, sendo que os próprios policiais lhe solicitavam a presença sempre que lá era internado algum "louco", já que com a ausência de Hospitais Psiquiátricos na época, esses infelizes eram jogados nas Cadeias Públicas mesmo.

Benedita de Oliveira, afilhada de Cairbar - não precisamos dizer que batizada antes de sua conversão - e que serviu como sua trabalhadora domestica, conta que "ele gostava de tirar fotografia de gente meio "variada", o senhor sabe, meio louca", e se recorda de muitos casos semelhantes ao que relatamos a seguir.

"Um homem da cidade de Dobrada, que sempre fora normal, pai de seis filhos, vida regrada e sem vícios, um dia, aparentemente sem mais nem menos, largou a enxada, saiu correndo e escondeu-se no mato em posição catatônica.

"Seo" Schutel soube do caso e disse para Mariquinhas:

"Eu vou buscar ele, dar um "passe", para ver se ele fica bom".

"Schutel, você vai é procurar sarna para se coçar" - argumentou a esposa.

"Mas, "seo" Schutel foi e trouxe o homem. Tirou as algemas, D. Mariquinhas ofereceu um prato de comida para ele, que pegou e o atirou na cara dela. O padrinho, sem se abalar, bateu uma foto dele antes de dar um "passe" que, depois de revelada, mostrou nitidamente duas mãos do lado esquerdo do doente. Daí o padrinho fez uma prece, deu um "passe" e a polícia levou ele de volta à Cadeia".

Já apresentando visível melhora, o trouxeram no dia seguinte para outro "passe", e, no terceiro dia, o lavrador já pôde voltar curado para casa, sendo que não se lembrava quase nada do que havia se passado consigo".

D. Antoninha Perche, de quem falaremos adiante, traz boas lembranças dessas visitas:

"Desde a criação da Cadeia Pública, "seo" Schutel, que já era espírita, adquiriu o costume de ir visitar os presos. Ele fazia preleções evangélicas muito apreciadas, dava "passes" e nunca ia lá de mãos vazias. Sempre levava alguma coisinha para eles. Chegaram, essas visitas, a se tornarem famosas, tendo, inclusive, o sr. Martins de Castro, quando foi Prefeito, acompanhado "seo" Schutel em uma delas, ocasião em que foi tirada uma foto e distribuída a diversas pessoas da cidade, retratando o Prefeito, Schutel, o Delegado e os presidiários".

Também José da Cunha dá seu depoimento: "(...)

Muitas vezes ele era chamado pelos policiais para assistir pessoas obsidiadas e, não raras vezes, violentas. Ele fazia suas preces, pedia para abrir a porta e soltar os doentes. Os policiais refutavam, mas ele insistia e garantia que os doentes não iam fazer mais nada. Levava-os então para casa, chamava a médium, D. Sinhá Musa, fazia uma concentração e pedia aos Espíritos que se comunicassem por intermédio da médium. Doutrinava-os e eles voltavam bons para suas casas, para invariável espanto dos policiais".

Além desses, inúmeros outros casos são relembrados por pessoas da época, sendo que, também de outras cidades e até do interior de Minas, traziam obsidiados para serem tratados por Schutel.

 

*

 

A ação de Schutel junto a reeducandos não se limitou à Cadeia Pública matonense, mas às da região, conforme noticia "O Clarim" de 21 de julho de 1917:

 

Palestras espíritas aos presidiários de Araraquara

 

"Com a autorização do Exmo. Sr. Delegado Regional, Dr. Pedro de Oliveira Ribeiro Júnior, o nosso companheiro C. Schutel iniciou a série de Palestras morais com os presidiários que cumprem pena na Cadeia de Araraquara.

A primeira palestra, que foi levada a efeito quinta-feira última, versou sobre o tema "A existência da Alma, sua Imortalidade e seu Progresso Infinito".

Ao lado do nosso companheiro; assistindo à preleção que se prolongou por hora e meia; achava-se nosso confrade, sargento Fagundes, Comandante do Destacamento local, que ao encerrar a reunião, dirigiu aos detentos palavras de verdade e consolação. Depois da prece final, quando nosso companheiro 5chutel despedia-se de todos, reconfortando-os com palavras animadoras, foi lhe, por um dos presidiários, oferecido um belo ramalhete de violetas em nome de seus companheiros de exílio, que atingem quase ao número de oitenta (...)"

 

 

XIX

 

A cura dos obsidiados

 

 

Mas outros casos de cura de obsidiados ficaram famosos, como o que transcrevemos a seguir, relatado pelo jornalista José Romanelli:

"Do seu amor e devotamento aos seus semelhantes, eu relembro aqui a recuperação, por ele conseguida, do Martinho Rodrigues Alves, o Martinzinho, como era popularmente conhecido nas ruas da velha Matão do meu tempo de criança. Era o Martinzinho um pobre marginal sem eira nem beira. Tipo amulatado, de barbicha eriçada e rala, dado ao vício da embriaguez, era alvo da galhofa e do escárnio de toda a gente e, principalmente, dos garotos e dos rapazes que o apupavam formando círculo a seu redor, instigando-o a dançar e a cantar, como incontrolado débil mental que era, chamando-o em altos brados pelo apelido, respondendo o infeliz ao apelo com um característico: - Quióooo - que até hoje ressoa nos meus ouvidos.

E comumente era Martinzinho preso levado para a cadeia sob espadeiradas dos soldados (cenas comuns àquele tempo), todo ferido, vertendo sangue.

Um dia Schutel tomou Martinzinho sob sua guarda e proteção, e conseguiu com o seu carinho e a sua brandura, aquilo que os outros homens não conseguiram pela força e pela violência.

Do ébrio contumaz e inútil fez um homem bom, morigerado e trabalhador.

Nunca mais se viu Martinzinho atirado às sarjetas das ruas servindo de escárnio e de joguete; nunca mais se repetiram aquelas degradantes cenas em que, preso, era arrastado pelos soldados e desapiedadamente espancado.

E sabem todos os meus contemporâneos como terminou seus dias o popular Martinzinho.

Morreu de um colapso à porta da farmácia do Schutel, amparado nos braços do seu protetor e melhor amigo".

Numa sociedade pequena como Matão, esses episódios em pouco tempo corriam de boca em boca e ficavam na ordem do dia por muito tempo.

Isso também ocorreu com o caso da preta Quitéria.

Todos conheciam Quitéria, que por apresentar problema de obsessão, começou a freqüentar o "Amantes da Pobreza", mas por breve tempo, porque o marido deixou de acompanhá-la.

Um belo dia Quitéria sumiu. O marido procurou a por vários dias e não conseguiu encontrá-la, até que um dia apareceu um caçador na Delegacia e disse que tinha visto uma preta imóvel e em estado de inanição na floresta.

"Acho bom vocês irem buscá-la, porque senão vai morrer de fome" - disse a testemunha.

Os policiais foram de carroça no local indicado, viram o estado deplorável da mulher e, incontinenti, mandaram chamar o Schutel.

Cairbar para lá se encaminhou com José Maria Gonçalves e, prontamente, reconheceu Quitéria. A muito custo conseguiram levar a negra para a casa do Schutel.

"Veja a que ponto um Espírito pode deixar uma pessoa - comentou Schutel com Mariquinhas. - "Se não a encontrássemos iam fazê-la ficar assim até desencarnar!"

Aí Schutel chamou Dna. Elvira Perche, Dna. Conceição Ferreira e Dna. Sinhá Musa, a médium, para que viessem dar banho, trocar a roupa e aplicar remédio para mosca varejeira que empestiava a negra.

E assim ficou, Quitéria, muitos dias na casa de Cairbar, tomando "passes", tendo os Espíritos que a perturbavam sendo doutrinados, e, em menos de um mês, seu marido pôde vir buscá-la, totalmente sã e recuperada.

Viveu, ainda, muitos anos a negra Quitéria, sem que qualquer sinal de obsessão voltasse.

 

 

XX

 

A mediunidade de cura de Cairbar

 

 

Cairbar Schutel não fornecia apenas os remédios à cura das pessoas, mas ele mesmo, um predestinado nas questões do Espírito, oferecia através de sua mediunidade o tratamento providencial para os males físicos.

José da Cunha foi um dos beneficiados com a mediunidade de cura de Cairbar:

"Não só presenciei, como também fui curado de uma pneumonia dupla por "seo" Schutel, depois de estar desenganado pelos médicos. A doença aconteceu quando eu tinha 8 anos, e depois de 7 ou 8 dias, o médico disse à minha mãe que Eu não passava daquela noite e que ela já podia ir providenciando meu enterro. Depois que ele saiu, "seo" Schutel chegou em casa e minha mãe contou o que o médico havia previsto. Então ele disse: "Já que a ciência materialista se tornou impotente, vamos tentar a espiritual". Eu sentei sem camisa numa cadeira e ele começou a orar e me abanar de cima em baixo dando-me um "passe". Resultado: depois de uns quarenta minutos, a minha febre tinha desaparecido e o perigo de morte também. No dia seguinte, o médico, Dr. Agripino Dantas Martins, surpreendeu-se com minha recuperação e disse: "Tenho a certeza que o Schutel passou por aqui!"

A mãe do Cunha também pode ser citada como exemplo:

"Também houve o caso de minha mãe, que teve uma infecção muito forte e esse mesmo médico uma hora disse: "A ciência chegou ao seu limite". Corremos a chamar o "seo" Schutel, que encontrou-nos todos chorando. Relatamos o que o médico havia dito e contamos que minha mãe pedia insistentemente uma soda limonada bem gelada. Ele falou: "Já que a ciência deu sua última palavra, vamos fazer o tratamento espiritual e depois ela deve comer e beber o que lhe der vontade". Ele fez o "passe" nela e nós providenciamos o refrigerante conforme sua vontade, que ela sorveu com satisfação e adormeceu. Para nossa alegria e surpresa, no dia seguinte ela já estava de pé trabalhando".

Esses casos levaram os Cunha a aproximarem-se cada vez mais de Schutel. A mais relutante foi a avó do Cunha, que converteu-se depois de uma insólita ocorrência mediúnica conforme José da Cunha rememora:

"Minha avó, que era portuguesa, tinha três irmãos e um sobrinho padres, o que nos leva à dedução, portanto de como era difícil para ela compreender nossa ligação com o Espiritismo. Mas como ela tinha dois filhos que trabalhavam com Schutel, um no "Clarim" e outro na farmácia, um dia ela foi assistir uma sessão espírita. Muito desconfiada, sentou-se sozinha no fundo do salão, imaginando o engodo que seria aquilo. Num dado momento, inclusive para espanto de todos, ela recebeu um inesperado e forte tapa no rosto que ficou-lhe até a marca. Daí em diante ela tornou-se espírita e dizia:

"Só assim mesmo eu podia ter uma prova para me converter ao Espiritismo!" Posteriormente, ela tornou-se uma grande colaboradora do "Clarim".

 

 

XXI

 

O apego de Cairbar aos animais

 

 

Os Perche possuíam um cachorro de nome Pindão, que fora criado desde pequeno cercado de muito afeto. Quando já estava em idade bem avançada, Pindão apareceu com bicheiras nos olhos e estava sofrendo muito. Mariquinhas Perche, que estava doente com pleurite purulenta, viu o cachorro naquele estado e começou a chorar, inconsolável. Seu irmão Zeca, que era prático de farmácia, formado por Schutel, foi chamado para fazer um curativo em Pindão. Sentindo que o caso era sério, e condoído pelo sofrimento do cachorro e o desespero da irmã, Zeca foi até à farmácia do "seo" Schutel para consultá-lo sobre que atitude tomar: se tentava prolongar a vida do animal ou se lhe dava clorofórmio para abreviar o sofrimento. Schutel falou: "Olha Zeca, eu não vou dar palpite nenhum. Você decide o que achar melhor". Zeca, então, resolveu ministrar o clorofórmio.

Alguns meses depois, o casal Schutel, que tinha um gato rajado, de nome Nhonhô, que era o xodó de Dna. Mariquinhas por causa das brincadeiras que promovia com as roupas e novelos de lã da dona da casa, recebe o gato com os olhos pendurados e todo machucado por uma briga em que houvera se envolvido. Schutel pegou carinhosamente o gato no colo, tentou fazer um curativo, examinou a situação delicada do animal, e com muita tristeza no coração disse a Mariquinhas: "Veja como o destino nos prega peças. Ainda outro dia eu me esquivei de dar opinião no caso do Pindão e fugi do problema; hoje não posso e tenho de decidir na mesma situação. Eu sei que parece que não é justo isso, mas a gente não tem coragem de ver os animais sofrerem! Não consigo explicar isso!" E terminou por ministrar o clorofórmio ao bichano.

Nhonhô foi, inclusive, honrado na Revista Internacional do Espiritismo de fevereiro de 1933, que lhe publicou a fotografia com a seguinte legenda: "Nhonhô - nosso amiguinho e companheiro de escritório".

"E Cairbar era assim mesmo. Sensível até ante a dor dos animais. Tratava-os, à maneira de São Francisco de Assis, como se fossem seus irmãos menores" - compara seu biógrafo Machado.

Durante muitos anos quem transportou Schutel foi um burrico muito bem cuidado, e quando o muar caiu doente ele emprestou um guindaste para levantá-lo e poder medicá-lo.

A despeito de todos os esforços de Schutel "veterinário", o muar veio a falecer vitimado por uma generalizada paralisia. Enterrou-o, o dono, com muito pesar.

Com a morte do burro, Cairbar adquiriu um veloz cavalo tordilho a quem logo se apegou. Esse cavalo, que recebeu o original nome de "Cabrito", chegou a disputar parelhas e era muito mimado pelo dono.

Cabrito, que ficava solto no quintal da casa, acostumou-se a pôr a cabeça nas janelas pedindo balas ou açúcar cristal que Cairbar estava acostumado a oferecer-Ihe.

Algumas vezes, o traquino e jovem aprendiz de farmácia, João José Aguiar, trocava o açúcar cristal por algodão com amoníaco e o animal, então, começava a relinchar, focinhar o ar e dar voltas em torno de si mesmo. Cairbar, ingenuamente, comentava com os circundantes:

"Puxa vida! Olha como o Cabrito está alegre e brincando hoje! Que será que aconteceu com ele?"

E nunca descobriu que a "alegria" do Cabrito era com o amoníaco do Joãozinho, que ria-se a valer no fundo da farmácia...

Quando Cabrito começou a ficar velho e cansado, Schutel adquiriu, a muito custo, um Fordeco 28 e aposentou o cavalo.

Alguns anos depois, já muito doente, uma noite Cabrito bateu com as patas na porta da casa de Schutel e este lhe fala, fazendo carinho na cabeça:

"Calma, Cabrito, amanhã cuido novamente de você, está bem?"

No dia seguinte o cavalo apareceu morto e Schutel compreendeu, então, que ele houvera vindo se despedir dele na noite anterior.

 

*

 

Rolf era o nome do cão dinamarquês que Cairbar teve em seus últimos anos de vida terrena. Leopoldo Machado relata a amizade entre os dois em seu livro "Uma grande vida".

"(...) Era um cão de raça, todo negro, que um amigo lhe ofertara ainda pequeno.

Tornou-se um cachorro enorme, feroz e carrancudo para toda gente. Mas parecia sorrir para o dono, sentado como gente, a uma cadeira. Era doidinho por pastéis bem feitos, ovos cozidos e sorvete de qualquer espécie. Apreciava essas iguarias todas com intensa alegria de criança!

E como gostava de automóvel!

Passear no carro do dono, no assento traseiro, com garbo de fazer inveja, era o seu fraco. O dono podia ir a negócios - que lhe minguava o tempo para passeios! - mas, as saldas diárias do Cairbar Schutel valiam por excelentes passeios para Rolf.

Naturalmente por haver perdido o hábito de andar na rua, como os outros cães, certa vez um caminhão o pegou. Escadeirou-o, fraturando-lhe uma perna traseira. Schutel sentiu demais o desastre do amigo Rolf. Tratou-o durante meses, com os cuidados e os carinhos de gente boa para com as pessoas queridas. Rolf, tantos foram os zelos do patrão e amigo, que sobreviveu, embora ficasse manco. (...)

De acordo com que relata Juvenal dos Santos, funcionário da Casa Editora, Rolf morreu de tristeza e inanição logo em seguida ao dono.

 

 

XXII

 

Uma herança para Cairbar Schutel

 

 

"Mesmo morando distante, Schutel não perdeu contato com a família e, em 1920, ele é incluso na partilha de bens de uma herança de família. Eis o texto do testamento lavrado em Cartório do Rio de Janeiro:

"Líquido remanescente da terça. Importa o líquido do remanescente da terça a quantia de nove contos, trezentos e setenta e oito mil, quinhentos e setenta e um réis. Herança cuja quantia "ex-vi" da verba testamentária folhas vinte e nove, pertence ao filho do inventariador, Henrique Jacques Schutel e a seus netos a saber: Cairbar e Arthur, filhos do herdeiro falecido Anthero; Adelaide, filha da herdeira Dna. Maria Elisa; Henrique, Ernesto, Antero, Maria Elisa, Estanislau e Leonor, filhos do herdeiro Francisco Damas de Souza Schutel; e cabe a cada um a quantia de nove contos (937$897) e trinta e sete mil, oitocentos e noventa e sete. Foram 468.948 1/2 braças quadradas de terras avaliadas a 2 réis = 937$897 a cada um dos netos de Dna. Maria da Glória Schutel (10 herdeiros da terça, inclusive Henrique Jacques Schutel). Em tudo, 4.689,485.

Recapitulação:

restam a favor de H. J. Schutel 4.187,329

Quantidade para 10 herdeiros 4.689,485

Da meação do Dr. Schutel 16.797,804

Além do dinheiro recebido, constava da herança terras em Santa Catarina que, apesar de ter interessados em adquiri-las nessa época, só foram vendidas em 1934. Não conseguimos apurar se coube a Cairbar também uma parte das mesmas, porém foi ele o escolhido para procurador e para vender as terras, conforme se depreende de suas anotações de 24/09/34:

 

NOTA DAS DESPESAS PARA ESCRITURA DAS TERRAS DE SANTA CATARINA

 

CIZA .........................................................990$200

IMPOSTOS E MULTAS ............................316$600

CERTIDÕES E GUIAS .................................37$200

CUSTAS DE CARTÓRIO ............................56$000

QUITAÇÃO E SELOS ..................................26$000

PASSAGENS E VIAGENS ...........................30$000

ESCRIT. DISTR. E SELOS ...........................99$000

GRATIFICAÇÃO ARTHUR BECK .............. 50$000 =

                                                                    1:599$000

Dinheiro ONOFRE 

CLEU                                                           1:400$000

RESTA                                                            199$000

                                                                 C. SCHUTEL

 

 

XXIII

 

A fundação da RIE

 

 

Não diríamos ter sido mais um órgão de divulgação espírita no Brasil, mas a Revista Internacional de Espiritismo foi, na realidade, um capítulo todo da história do Espiritismo, já que representou um marco na proclamação das virtudes da nova Doutrina em seu tríplice aspecto: religioso, científico e filosófico.

Sua linha editorial era de sempre manter o alto nível dos artigos, que pendiam mais para o ramo cientifico e experimental dos fenômenos e, como o próprio nome já indicava, internacional, publicava em suas páginas colaborações dos grandes pesquisadores mundiais do Espiritismo e do Animismo da primeira metade do século.

Nome já respeitabilíssimo na Europa quando da fundação da revista, aquele homem simples e humilde do interior não tinha, em absoluto, qualquer ambição de projeção ou de elevar seu nome à fama além-fronteira, mas unicamente propagar a Doutrina do Consolador Prometido por Jesus e de "colocar a candeia à vista de todos". Sim, a luz tinha que brilhar e a R.I.E. seria uma oportunidade de levar aos cultos e poderosos, numa linguagem mais elaborada, as experiências que se realizavam no mundo para se provar a imortalidade da alma e a comunicabilidade dos Espíritos, objetivo este um tanto diferente de "O Clarim", que,como ele próprio definia, "era feito para os mais humildes e de menos cultura".

E o "sonho" vingou. Hoje já são mais de sessenta anos da Revista Internacional de Espiritismo circulando ininterruptamente, como a grande herança do mestre Cairbar.

A sua garra e pujança sem igual elevaram o nome do Brasil à galeria dos países reconhecidamente espiritualizados do globo e há seis décadas a R.I.E. tem sido a mensageira da Doutrina dos Espíritos pelo mundo.

De muitas lutas, porém, constituiu-se a concretização do projeto da revista.

Com a experiência adquirida, o sucesso e a sedimentação em bases sólidas de "O Clarim", Cairbar Schutel durante longos anos alimentou, no silêncio de sua intimidade, o desejo de editar uma revista nesses moldes.

Era muito arrojo sim, mas uma voz interior o fazia sentir que a obra não estava completa e que ele tinha que procurar atingir um público diferente que com "O Clarim" ele não estava conseguindo.

Foi quando, no início da década de 20, um assíduo leitor seu, Luís Carlos de Oliveira Borges, descendente de tradicional família paulista, Barões de Dourados, da cidade de Dourados, foi a Matão conhecer o editor do jornal que tanto apreciava.

Dessa primeira visita firmou-se uma amizade sólida, sincera, em que prevalecia um mútuo respeito e admiração, pois eram espíritos provindos da mesma forja, de caráter ilibado e idealistas.

Tomando-se de amores pela obra da Casa Editora, Borges principiou a auxiliá-la, reconhecendo em Schutel um espírita de alto coturno, merecedor de seu apoio, já que condições financeiras não lhe faltavam para tal.

Certo dia os dois foram fazer uma viagem a serviço da Doutrina, quando Schutel comentou descompromissadamente com Borges, de quem já era íntimo, do sonho há anos acalentado. O amigo interessou-se e tomou as rédeas da conversa:

"Mas essa propaganda junto a pessoas mais letradas não poderia ser feita através do "Clarim"?"

"O Clarim", Borges, foi feito para os simples. Eu gostaria de ter um material mais profundo, com boa apresentação, para poder chegar nos consultórios dos médicos, nos lares de pessoas ilustradas, enfim, conseguir atingir um público mais específico. E certo que com o "Clarim" já luto com muitas dificuldades, mas quando vejo o volume de correspondência do estrangeiro que recebo com um material tão bom, e que tenho que arquivar sem poder dar divulgação, isso me condói bastante".

"Pois, Schutel, eu vou ajudar você a fazer essa Revista".

"Ora, Borges, o investimento seria muito alto e não acho justo você arcar com essa despesa toda. Seria uma temeridade".

"Eu confio em você. Pelo que o conheço, você tem plenas condições de levar a idéia adiante se tiver suporte material para tal. Por isso, vamos amadurecer essa idéia com carinho".

"Eu recebo correspondência, jornais e revistas da França, E.U.A, Inglaterra, Alemanha, Espanha e inúmeros países com farto material, mas só extraio artigos sobre Espiritismo nas línguas espanhola e francesa, as outras tenho muita dificuldade em conseguir quem traduza, mas contatei com um confrade nosso, Ismael Gomes Braga, do Rio, que se interessou em traduzir do alemão, inglês e italiano. Com ele, já poderemos dar os primeiros passos na parte da Redação".

A conversa desviou-se para outros assuntos da Doutrina, mas o fato é que Luís Carlos Borges já havia encampado a idéia. Pela correspondência enviada por ele a Cairbar Schutel, depois da resolução de se editar o novo periódico, podemos reconstituir os primeiros passos da RIE:

13/1/1925: Luís Borges dá conta de que obteve preços da "Empresa" para a confecção da revista. Foi buscar as provas, porém "o sr. Carvalho respondeu não estarem prontas, só amanhã às 4 horas, apesar de no sábado um outro empregado dizer-me que as procurasse hoje; irei amanhã".

15/1/1925: "Ontem recebi as provas e originais, encontrando muitos erros achei melhor que esta revisão fosse feita por pessoa competente, mesmo pela urgência que temos. Este serviço fica pronto hoje e amanhã entregarei à Empresa M. Lobato. Como uma parte destas provas tem muitos erros, pedirei desta uma segunda prova salvo se o Sr. Carvalho me garantir, responsabilizando se pela boa execução do serviço. Tratarei de zelar o mais possível por tudo. Por estas coisas que estou vendo, calculo o que farão essas tipografias aí pelo interior; por isso se quiser que o segundo número da Revista seja, impresso aqui mande suas instruções que terei muito prazer".

19/2/1925: "Estive dez dias de cama com gripe. Anteontem foi despachado o papel, o conhecimento segue com esta. O clichê feito nas Oficinas do "Estado" custou 6$000 e as que você tiver de mandar fazer, mande-me as fotografias para serem feitas aqui; as encomendas devem ser feitas com antecedência".

5/3/1925: carta de teor íntimo.

      19/3/1925: "Fico ciente de que agora você está resolvido a comprar a máquina tipográfica e como sempre lhe falei, é preferível gastar um pouco mais para ficar bem servido. Eu pagarei a máquina; o dinheiro que você tem disponível deve guardar para outras despesas. Se quiser comprar a máquina aí lhe mandarei a importância e o mecânico para deixar a transmissão com comprimento suficiente para esse fim. O que for necessário fazer, desejava aprontar antes da máquina chegar, para não haver demora em seguir a pessoa encarregada de fazer funcioná-la. Recebi a Revista, achei muito boa.

27/3/1925: "Fez muito bem ter dado por mim 50$000 aos pobres, creia que foi distração minha nada ter mandado antes. Remeto-lhe um cheque de 500$000 para descontar aquele dinheiro e empregar o restante como entender. Estimo a velhinha ter passado melhor".

28/3/1925: Seria bom você tornar a falar em Araraquara com a pessoa que quer vender a máquina tipográfica, formato Germânica, máquina alemã adquirida antes da guerra por 12:000$000; você ofereceu 15:000000; quem sabe se por um pouco mais lhe vende; você com essa máquina poderá dispor da pequena que me disse estar necessitando de consertos".

14/4/1925: "O Bromberg recebeu diversas máquinas "Phoenix" de quem é representante e, pelas informações que tive de pessoa entendida sobre essas máquinas, resolvi não esperar mais tempo e comprei uma hoje por 8:550$000; paguei metade a vista e outra metade depois de estar assentada e funcionando, para o que seguirá para aí, quando chegar a máquina, pessoa competente para dar as instruções necessárias. Peço a você me avisar assim que chegue a máquina e achava bom não desencaixotá-la, para isso ser feito na presença da pessoa encarregada do funcionamento. Antes que chegue a máquina desejo mandar uma polia de diâmetro certo, para ser colocada aí na transmissão. Com essa máquina acho que você terá mais sossego. Recebi as "Vozes do Além pelo Telefone". E uma coisa extraordinária. Já li uma vez, vou ler outra e lhe devolvo".

16/4/1925: "Peço ver o lugar onde deve ser assentada a máquina e tomar medida do centro da máquina ao eixo da transmissão para lhe mandar a correia para a mesma. O João foi para o Rio com a família passar algum tempo, falei-lhe das comunicações dos espíritos pelo telefone, disse-lhe que procurasse o Oscar d'Argonnel que seria provável ele obter alguma comunicação".

19/4/1925. Recebi essa carta, mas por ser sábado e já tarde não houve tempo de comprar o papel glacê. Amanhã ou depois mandarei um mecânico aí estudar o meio mais fácil para assentamento da máquina".

21/4/1925: Comprei ontem na casa Júlio Costa & Cia, 12 resmas de papel glacê conforme a amostra. Vão lhe remeter como carga. Era o que tinham, disseram que nestes dois meses receberiam mais. O cheque de 2:200$000 que mandou-me dava para comprar 1.5 resmas e sobrava dinheiro. Vou procurar em outras casas para inteirar as resmas que faltam. Na casa Bromberg perguntaram me se você tinha massa boa para os rolos; se não tem preciso mandar daqui".

6/5/1925: "Os Snrs. Bromberg & Cia disseram-me que lhe remeteram massa para rolos, de uma só qualidade, da melhor, 19,200 Kg., tipo extra Leão. Soube que um redator da "Verdade e Luz" dissera que a Revista luxuosa como apareceu, não pode criar dentes, mas tenho fé em Deus que há de se desenvolver e melhorar cada vez mais e, para isso, Jesus será sempre consigo. Recebi aviso da Casa Bromberg pelo telefone, que a máquina de grampear chegou; hoje mesmo mandarei despachar e juntamente, os rolos de arame".

23/5/1925: "Recebi suas cartas de 8, 16 e 18 do corrente, que respondo. Realmente você é de uma energia rara, enquanto lhe escrevo uma carta recebo quatro e mais; deve se poupar mais, pois já tem tantos serviços inadiáveis. Logo que recebi sua carta de 18, fui à casa Bromberg & Cia. fazer a encomenda da sua lista de tipos, fios de latão e caixas, mas encontrei somente parte; o que não tinham pediram do Rio para remeterem como encomenda. Graças a Deus você conseguiu depois de muita labutação arranjar tipógrafos que sejam constantes e bons, para, ao menos, por esse lado, ter mais descanso. Hoje recebi seu cartão de 22 com mais dois números da Revista e a primeira impressão da inauguração da máquina; que seu funcionamento dê o resultado que necessitamos é somente o que desejo. Junto mando-lhe o clichê e a planta da máquina de grampear".  

25/5/1925: "Eu e Cota vamos passando regularmente bem. Bom mesmo nunca se está. Esse tempo já se foi, agora vai-se tenteando, desde que se consiga fazer o mais necessário devemos nos dar por felizes".

26/5/1925: "Junto uma nota do que ainda falta. Disseram-me agora que nem no Rio eles têm. Se você quiser, poderei comprar aqui o que falta. Queira dizer-me onde se encontra e explicar-me, que disto não entendo. Eles não podem avaliar o conserto das peças da máquina de "O Clarim" sem que estejam aqui. É melhor você despachar essas peças para a Casa e me avisar que eu tratarei disso. Mas você está ciente das peças que precisam conserto? ou será melhor ir o mecânico para desmontar a máquina e separar as peças que devem vir? Os clichês foram despachados e as provas seguem com esta. Aquele do Léon Denis achei que não ficou muito bom ".

7/6/1925: "Quando conversamos pelo telefone já estava ciente que Bromberg & Cia já tinham lhe remetido a encomenda que esperavam do Rio. Peço-lhe o favor de mandar a Revista registrada para o sr. Armando de Campos, rua Olga, n.° 51, nesta capital, começando pelo 5.° número, que os anteriores arranjarei dos que ainda tenho aqui e mandar também o "O Clarim", ambas assinaturas por um ano".

Esta carta traz um pequeno P.S.: - "Aqui amanheceu hoje chovendo e esfriou bastante. Recomendações ao pessoal daí".

Como pudemos tomar ciência, a primeira revista não foi impressa na Casa Editora, mas em São Carlos e só saiu em fevereiro de 1925, apesar de ser do mês de janeiro. A partir do 3.° número, a RIE passou a ser confeccionada nas oficinas da Casa Editora como o é até hoje.

Assim que saiu o número inicial da RIE, Cairbar acorreu pessoalmente, e muito entusiasmado, à casa de todos os médicos, engenheiros e advogados de São Carlos, Taquaritinga, Jaboticabal e outras cidades da região araraquarense divulgando a revista.

A maior parte de suas páginas eram ocupadas com transcrições traduzidas e autorizadas dos periódicos "Light", "La Revue Spirite", "Vie d'Outre Tombe", "Hoy"; "The Harbinger of Light" "City News", "Kalpale", "Luce e Ombra", "The Two Worlds", "Luz del Porvenir", "La Tribune de Genéve", "Ghost Stories", "Psychic Science" e assinavam esses artigos grandes pesquisadores do passado como Sir Oliver Lodge, Sir Arthur Conan Doyle, Camille Flamarion, Ernesto Bozzano e muitos outros, com os quais, em sua maioria, Cairbar Schutel mantinha correspondência direta.

Pouco depois da última carta, em junho mesmo, Borges foi acometido de uma grave enfermidade e em poucos dias desencarnou. Schutel, um tanto abatido, comentou:

"E agora? Nosso grande amigo partiu!"

Mas a situação não saiu do controle. Pouco tempo depois, a viúva, Dna, Maria Elisa de Oliveira Borges, envia 25 contos de réis de doação ao "Clarim" e assim o fez periodicamente até seu desencarne, apesar de sua situação financeira não continuar tão estável.

Com esse donativo e mais algumas arrecadações, Schutel reformou o prédio do Centro e construiu um salão para a gráfica, que ainda funcionava numa sala alugada e muito apertada. Essa construção foi feita num terreno que ele tinha vizinho à farmácia e à casa dele.

Do necrológio de Luís Carlos de Oliveira Borges, contido na Revista de julho de 1925, extraímos algumas palavras de Cairbar ao amigo:

"A Revista Internacional de Espiritismo acaba de perder um dos seus mais dedicados obreiros.

Há anos Luís Carlos de Oliveira Borges trabalhava, como um dos chefes de "O Clarim", na divulgação do Espiritismo.

A sua ação era constante, pode-se dizer ininterrupta, conquanto o seu nome não figurasse naquela folha, pois desejava que assim o fosse, não porque lhe faltasse a coragem da fé, mas pela natureza de seu gênio que assim o exigia.

Espírito culto, de virtudes ativas, e de um caráter fora do comum, a par da austeridade que o revestia, sabia ser bom, indulgente e caridoso, daquela caridade de que fala o Evangelho, de ignorar a mão esquerda o que faz a direita.

A ação, entretanto, mais acentuada do ilustre Espírito, se salienta com a fundação desta revista, para a qual ele dedicou todos os seus melhores esforços, a fim de dotar esta publicação de todos os melhoramentos indispensáveis à sua apresentação na arena da imprensa espírita mundial. (...)"

No Plano Espiritual, Borges permaneceu a postos na equipe que auxiliava a confecção da revista, conforme pudemos registrar por inúmeras mensagens psicografadas que se encontram no arquivo do C.E. "Amantes da Pobreza", e, em 20/10/1966, utiliza-se da pena mediúnica de Francisco Cândido Xavier para transmitir alento e coragem aos sucessores de Cairbar na Casa Editora:

"Antoninha, querida irmã.

Deus nos inspire e abençoe. Compreendemos a hora difícil. Hora de rearticulação do nosso trabalho espírita evangélico, para que a obra de Jesus, por nosso querido Cairbar, encontre atualização e sobrevivência.

Antes de tudo entrelacemos as mãos e os corações em serviço. Não esmorecer! Idéia positiva na ação reta e segura. O mundo precisa agora como nunca, do pão espiritual. Em toda parte o espírito humano surge desfalecente à míngua de entendimento e de amor.

Sustentar a divulgação do esclarecimento espírita é manter luz que dissipe as trevas.

Indiscutivelmente nada de bom conseguiremos sem sacrifício. Reconheçamos assim a necessidade de abnegação.

O "pouco" de "muitos" realiza o "máximo".

Sejamos um por todos e todos por um. Revigoremos quanto nos seja possível a seara do conhecimento superior que nos foi confiada.

Mais tempo, mais atenção, mais esforço, mais amor.

Não nos dirigimos com tamanha exigência ao seu coração generoso de missionária da verdade ou a companheiros outros de Matão.

Falamos a todos. Conversamos pelos fios da alma com todos aqueles amigos do nosso campo de bênçãos, a fim de que o serviço se eleve ao nível justo.

Auxiliemo-nos. Creiamos na Bondade Divina e na Bondade Humana. Na orientação suprema da vida, o Amor Infinito do Criador, na condução dos círculos de trabalho terrestre, o Poder da Fraternidade na criatura.

Ergamos o coração e defraudemos a bandeira de nosso programa renovador. Muitos ouvirão a nossa voz e, qual ocorria ontem, acontecerá o inesperado e, mais uma vez, observaremos a resposta da compreensão e do altruísmo, amparando-nos os braços.

Sem dúvida, o que tem sido feito é um prodígio de amor, entretanto, temos a realizar outros prodígios de trabalho para que os desígnios do Senhor se cumpram com segurança.

Para a frente! Novos dias raiarão oferecendo-nos mais amplas oportunidades de criar o bem e fazer luz,

Reunamo-nos todos no campo a lavrar os mais experientes e os mais favorecidos, os mais verdes na convicção e os que conheçam de perto a provação ou a dificuldade. Todos somos uma família só e, pela solidariedade, as riquezas de Deus serão eqüitativamente divididas por nossas mãos.

Daqui, do Mundo Espiritual, em que tantas conquistas nos reconfortam e tantas responsabilidades novas nos pesam nos ombros, rogamos a cada um de nossos companheiros para que a divulgação do Espiritismo Cristão nos mereça mais elevada quota de entendimento e de auxílio.

A idéia é como a planta nobre - cultivada, aperfeiçoa-se, enriquecendo pela produção mais intensa, a felicidade do mundo: mas se esquecida, será sufocada fatalmente pelo mato inculto.

Estejamos unidos na campanha da luz espiritual. Em verdade, sublime é o socorro às exigências do corpo, no entanto, é justo não esquecer que as exigências da alma se reportam à vida eterna e, por isso mesmo, são mais prementes.

Nosso Cairbar se mantém a postos - herói do ideal e da atividade, da pregação e do exemplo. Trabalhemos. Reunidos aqui nesta manhã de esperança e confraternização, saudamos em sua "presença-ausente" toda a nossa família de seareiros do bem, começando pelos mais experientes, em nosso Cunha até chegar, dentre os mais novos, ao nosso Wallace.

E daqui, do nosso painel espiritual, todos se nos associam aos votos de amor fraterno, iniciando, dentre os mais conhecidos, pelo nosso Campeio, e pelo nosso Costa, até encontrar, entre os obreiros anônimos aqui presentes, a personalidade de nosso irmão Benjamim Rachid desencarnado em Matão, e que amanhã, 20 de novembro, completará 35 anos de vida espiritual.

Todos nos envolvemos na onda de alegria e confiança, fé e paz, de maneira a proclamar a nossa confiança no futuro.

Querida irmã, Jesus jamais nos abandona. Dele, o Senhor, continuamos a ouvir, entre reconhecidos e renovados: - "Eis que estou convosco até o fim dos séculos".

Receba, querida irmã, com todos os nossos irmãos de ideal e de luta, o nosso abraço de carinho e gratidão.

Luís Borges"

Depois do desencarne de Cairbar, a família do Dr. Augusto Militão Pacheco fez um substancioso donativo com o qual foram levantados outros dois salões: um para o Centro, outro para a Oficina; o que foi muito importante, porque pôde-se estocar papel durante a guerra e assim a revista e o jornal não tiveram interrompidas as suas circulações. Outros confrades também foram bastante generosos, como Dr. Arnold de Mello que cooperava regularmente com a Casa Editora e o Centro Espírita.

As traduções da revista eram feitas inicialmente por Ismael Gomes Braga, do Rio de Janeiro e, posteriormente, por Severiano Ivens Ferraz, de São Paulo, e Watson Campello, de Monte Azul, além de Cairbar que fazia algumas delas.

Campello, após o desencarne de Cairbar, mudou-se para Matão, casou-se com Antoninha Perche e foi um dos esteios da revista a partir de então.

 

 

XXIV

 

Associação "São Vicente de Paulo"

 

 

Esta Associação, como o próprio nome já nos induz pensar, era de orientação católica, foi fundada em maio de 1907, e tinha por princípios estatutários o auxilio a pessoas carentes, idosas e doentes, principalmente os hansenianos (leprosos).

Acredite se quiser, mas Cairbar pertenceu a ela muitos anos e até o cargo de Presidente ocupou. Foi, sem dúvida, uma lição a toda a comunidade de que devemos exercer a caridade em qualquer circunstância sem nos preocuparmos com o rótulo. O "Pai da Pobreza de Matão" foi convocado a mais esta missão e, sendo ela de amor ao próximo, não titubeou em aceitá-la.

Não conseguimos apurar o que houve exatamente no histórico da entidade, mas, segundo soubemos, seus integrantes não estavam conseguindo cumprir com a finalidade primordial da instituição, que era a assistência aos hansenianos, sendo que o único a se "aventurar" ao relacionamento com eles era Cairbar.

Quem, então, convidar para participar da entidade? O Schutel, claro.

E, assim, parece que houve um desmembramento em duas entidades e Schutel foi galgando postos até chegar a Presidente de uma delas, por absoluta falta de quem quisesse assumir o encargo.

 "O Clarim" regularmente noticiava as atividades da Associação e o número de 7 de Junho de 1919 assim se expressou:

"Realizou-se domingo último, a constituição da nova Diretoria desta Associação, cujo mandato foi confiado aos srs.: Presidente, Professor Florestano Libutti; Vice, Dr. Agripino Martins; Tesoureiro, Martins de Castro; Secretário, Cairbar Schutel.

A Beneficente Sociedade está promovendo festejos populares, com o intuito de reforçar os seus cofres e estender mais a sua ação em proveito dos necessitados.

Já muitas prendas têm sido ofertadas e acham-se expostas na vitrine da Alfaiataria Vicente Luca desta cidade".

Em 20/08/1925, o jornal "A Comarca", de Matão, publicou o balancete e breve relatório das atividades da Sociedade:

Associação S. Vicente de Paulo

"O distinto farmacêutico Sr. Cairbar Schutel, operoso Presidente desta bela instituição de caridade, pede-nos a publicação do seguinte:

O balancete social do mês de Julho é o seguinte:

 

Déficit transportado do mês de Junho   464$380

Arrecadação deste mês                            75$000

Donativo de d. Dona Goulart                  10$000

Donativo do sr. Geraldo Tomaselli         10$000

idem do sr. Lindolpho de Carvalho        20$000

idem de um anônimo                                5$000 =

                                                                584$380

 

Distribuição a diversos                           122$000

Porcentagem ao cobrador                         10$500 =

                                                                 132$500

 

Pelo que se verifica, a Sociedade viu o seu déficit diminuído, mas ainda o mesmo se acha em 451$000.

O movimento social permaneceu intacto sem que pudéssemos contar um número a mais no quadro social.

A Diretoria da Associação, apesar de tudo, mantém a deliberação dos Estatutos, continuando a socorrer com 5$ mensais cada um dos morféticos pedintes que passam por esta cidade, prestando assim não só aos mesmos, como à população, esse serviço.

Pela Diretoria, Cairbar Schutel".

Cairbar Schutel tinha um carinho todo especial pelos hansenianos. Tratava-os de irmão para irmão sem o preconceito com que a sociedade lhes impinge desde tempos imemoriais.

Certa ocasião um doente de Hansen bateu à sua porta e ele atendeu:

"O que você quer?"

"Quero um calçado".

"Mas o meu não serve para o senhor".

"Como não serve?". E mostrando um arremedo de pé enrolado num desgastado couro, completou: "Esse aqui foi o senhor que me deu o ano passado!"

Cairbar deu um risadão gostoso pela arapuca que a si próprio armara, entrou em casa e pegando um par de sapatos novos que tinha comprado para sua próxima viagem a São Paulo deu para o pedinte, dizendo:

"Tome este também, quem tem dois tem um, quem tem um não tem nenhum".

E o doente saiu transbordante de felicidade.

Era assim como ele agia normalmente com todos esses doentes que andavam perambulando pelos arranchamentos fora da estrada, injustamente repelidos pela sociedade. Sabiam eles que no "seo" Schutel encontravam um amigo, alguém que os tratava como seres humanos.

 

 

XXV

 

Casos vividos por Cairbar

 

 

Cairbar costumava ir algumas vezes a São Paulo fazer compras e visitar amigos.

Estava sempre impecável, trajado com primor, cabelo e cavanhaque bem aparados, roupas da moda; além disso seu porte era altivo e sua fisionomia séria.

Assim é que, um dia, ele desceu do trem na Estação da Luz, todo elegante, de chapéu coco e sobretudo na mão, quando nota que por onde passa ensaiam palmas e batem-lhe continência... homenagem a ele? Não... apenas o confundiam com o Presidente Washington Luís.

Será que demoraram para lhe contar?

 

*

 

Em 1936 era Prefeito de Matão o Sr. Aparício da Silva Coelho, de família tradicional da cidade e irmão de Dna. Inês, uma senhora católica, muito caritativa e dedicada à comunidade.

Um belo dia resolveram formar uma comitiva e falar com Schutel, que os recebe na farmácia.

"Seo" Schutel, nós estamos aqui para fazer uma visita pro senhor".

"Que prazem Vocês querem ir até em casa tomar um cafezinho?"

"Não, obrigado - responde o Prefeito, com ar de sem jeito - nós viemos aqui para fazer um convite ao senhor. Como o senhor foi o fundador da 1.ª Capela de Matão, e nós estamos fazendo uma campanha para reformar a Igreja, que está caindo aos pedaços, gostaríamos de saber se o senhor pode contribuir com a campanha".

Schutel, surpreso pelo despropósito do pedido, responde:

"Olha, vocês não vão ficar contentes com a resposta que eu vou dar, por isso é melhor eu não dizer nada ".

Parecendo que ali estavam preparados para tudo, alguém da comitiva intercede:

"Pode dizer, "seo" Schutel, nós queremos ouvir".

"Querem ouvir mesmo?"

"Queremos".

"Pois bem, eu colaboro no que estiver ao meu alcance. Só que com uma condição".

"Qual?"

"Na frente da Igreja vocês colocam em dizeres bem grandes: "Esta Igreja é para analfabetos". É isso o que eu tenho a dizer".

"Ah! "seo" Schutel... que brincadeira... até logo"

E alguém que houvera escutado o diálogo na farmácia comenta:

"Seo" Schutel, que coragem do senhor!"

"Meu filho, falei isso com muito respeito e com a liberdade de quem já pertenceu àquela Igreja, mas disse exatamente o que penso, pois se eles lessem, estudassem de fato os Evangelhos, veriam que são analfabetos espirituais".

Não se tem mais notícia de outro pedido destes a Schutel.

 

*

 

Certa feita, era imperiosa a presença de Cairbar em Araraquara para solucionar um caso de falta de papel para as publicações da Casa Editora.

O tempo estava ameaçador e tudo levara a crer que forte tempestade se aproximava, porém se Cairbar não fosse naquele dia a revista sairia naquele número com grande atraso.

Não titubeou. Pegou o seu Fordeco 28, cor azul, que possuía para trabalhos da Doutrina e dirigiu-se para Araraquara. E saiba-se que em 36 ou 37 as estradas não eram asfaltadas e os automóveis não tinham a segurança que têm hoje.

No caminho, o previsível: violento temporal desabou. Relâmpagos, trovões e ventos fortíssimos faziam o Ford balançar como um pêndulo.

Chegou a Araraquara encharcadíssimo; lama por todos os lados, mas feliz por não ter tido acidente algum.

Resolvidos seus negócios, apressa-se em tomar o caminho de volta, sob o protesto dos amigos, que repreendiam-no pela imprudência, ao que ele justificou-se:

"No meio da procela eu tinha a vista e o pensamento voltados para Deus, grato por ter me proporcionado mais uma dificuldade a vencer no cumprimento do meu dever. Passei, por isso, pela tempestade, como se tivesse navegando num mar calmo, sob céu azul, sem nuvens carregadas".

 

*

 

Logo após Getúlio Vargas ter vencido a Revolução de 1930, Matão recebeu uma comitiva grande de São Paulo, integrada por elementos de proa do acontecimento, como Francisco Morato, Duque Estrada e outros, todos de lenço vermelho no pescoço, numa caravana de 4 ou 5 carros. A finalidade era a nomeação de Prefeitos para as cidades do Interior.

O primeiro lugar a irem em Matão foi à farmácia:

"Cairbar Schutel esta aí?"

"Não, está na casa dele" - responde João José Aguiar.

"Chame-o, por favor".

Schutel veio, surpreso com a visita, e Duque Estrada foi quem falou em nome do grupo:

"Temos ótimas informações a respeito do senhor, inclusive que foi o 1.° Prefeito de Matão, e por isso queremos entregar-lhe a Prefeitura da cidade. O senhor aceita?"

"Senhores, eu agradeço imensamente a visita e o convite, mas possuo um jornal, uma revista, a farmácia, e por isso não disponho de tempo para tal. No entanto, posso ficar como conselheiro para orientá-los no que for necessário e dar a minha contribuirão como cidadão. Sugiro que procurem outros correligionários, pois aqui em Matão existem muitas pessoas capacitadas para tal".

A comitiva então agradeceu muito, tomou nota de outros endereços e partiu.

O político há muito tempo já havia dado lugar ao missionário...

 

*

 

Depoimento de João José Aguiar:

"Minha família era muito católica. Um dia "seo" Schutel foi em casa me convidar para trabalhar com ele, mas meus pais me preveniram: "Olha, você vai trabalhar lá, "seo" Schutel é muito bom, mas não leia os livros dele e nem freqüente o Centro Espírita, porque aquilo é muito perigoso e deixa as pessoas loucas". As professoras de catecismo, Dna. Verônica e Dna. Vicência, me chamaram e disseram a mesma coisa. Eu, ainda infantil, deixei-me levar por essas advertências; mas, com o tempo, eu observava que ele só fazia o bem, só praticava a caridade, traziam doentes de longe, até de Minas Gerais para ele "tirar" espíritos. Se tinha um preso mais agitado ou obsidiado, o delegado mandava chamá-lo. Não negava nada para os pobres e um dia vi uma família de Carangola-MG viajar até aqui só para conhecê-lo. Sabe o que ele respondeu? "Ah! Então vocês não vieram conhecer ninguém". Então, que perigo poderia haver num homem desse? Nenhum, claro. Aí, pouco a pouco fui me interessando pelo Espiritismo até me tornar espírita, porque quem tinha um exemplo como Cairbar Schutel no dia a dia como eu, não poderia nunca ficar indiferente .

O mesmo João J. Aguiar tornou-se o parceiro de Cairbar em suas idas a Araraquara nas quartas-feiras. De 1935 a 37 eles faziam nesse dia esse roteiro: pegavam o "pé-de-bode" no fim da tarde, iam para o Centro Espírita dirigido por Silvio Goulart de Faria, às vezes o próprio Cairbar fazia as preleções, davam alguns "passes" e vinham embora; não sem antes passarem na Brasserie Esplanada para comer a apetitosa coxa de galinha tão a seu gosto e comprar doces para Dna. Mariquinhas.

Também no fim de noite era de seu gosto preparar ele mesmo uma sopa ou um engrossado de fubá com folhas de couve. E prosear informalmente. Dizem que era uma delícia. Os dois...

 

*

 

Certa ocasião Cairbar contou o número de pessoas à mesa: 13. E obtemperou, pilheriando: "Victor Hugo gostava do número 13, eu cheguei a Matão num dia 13 de agosto de ano bissexto, agora somos 13 comensais. Imaginem se eu e Victor Hugo fôssemos supersticiosos! "

Até alguns anos atrás, contava-se entristecedoramente, que quando um brasileiro chegava na Europa e perguntava a alguém se conhecia o Brasil, essa pessoa logo dizia: "Sim, Brasil, cuja Capital é Buenos Aires".

Se ainda hoje essa ignorância a propósito de nosso país permanece ou não, não sabemos, mas o fato é que desde o começo do século uma pequenina cidade do interior de São Paulo é conhecida na Europa: Matão. Por causa de quem? De Cairbar Schutel, naturalmente.

Atentemos para um breve trecho da carta que o Dr. Agripino Dantas Martins, então residente em São Paulo, envia a Schutel:

"Soube ontem, por conhecidos nossos, que ao Professor Briquet, que ontem voltou da Europa, perguntaram em Paris, se conhecia Cairbar Schutel, de Matão". (03/03/1937)

Menos ruim se confundissem Rio de Janeiro com Matão, mas, infelizmente, o era com Buenos Aires.

Antes da fundação do "O Clarim", Matão possuía apenas um pequeno posto do Correio; pós "O Clarim" o posto subiu três vezes de categoria até chegar a agência.

Pode-se ter desse fato um termômetro para se conhecer com exatidão a grande obra de Cairbar, segundo comentários encontrados em correspondência de Pedro de Camargo (Vinícius) a Angel Aguaroud do Rio de Janeiro.

 

*

 

Cairbar gostava muito de fazer experiências. Ele tinha vontade de fotografar os espíritos, mas nunca chegou a obter grande coisa nesse trabalho. Ele fazia suas experiências com dona Sinhá, que era uma médium excelente, Antonio Alves, José Dias, Quintiliano, Calixto, enfim, com todo aquece pessoal que formava entre seus primeiros companheiros. As fotografias eram tiradas no escuro e as máquinas movimentadas com magnésio. O local das sessões era uma casa que tinha sido uma relojoaria e possuía três portas com fechaduras enormes que davam para a rua. Sabendo que as experiências eram feitas ali, o padre reuniu os marianos, seus fiéis, para que fossem lá sondar e verificar o que é que eles estavam fazendo. Quando puseram os olhos nos buracos das fechaduras da casa, de repente, no meio da escuridão da loja, acendeu aquela luz intensa do "flash" e os fiéis saíram em disparada, indo contar ao padre o que tinham visto. O caso serviu como subsídio à intensificação das campanhas feitas pelo padre contra Cairbar, porque, na realidade, segundo os marianos "o diabo andava soltando faíscas de fogo na escuridão daquela casa..."

 

 

XXVI

 

Fundação da "Associação Comercial de Matão"

 

 

Conforme registra o periódico "A Comarca" de 05/05/1935, Cairbar Schutel, como o comerciante mais antigo de Matão, secretariou a reunião que fundou a Associação Comercial de Matão:

"(...) Aberta a sessão, o sr. Cairbar Schutel deu a palavra ao Prof. Victorino Prata Castello Branco que expôs os fins da reunião, discorrendo longamente sobre as vantagens da unificação das classes conservadoras.

Esclarecida a assembléia sobre os fins da reunião convocada, procedeu-se à eleição, por aclamação, de uma Diretoria provisória que dirigirá a organização e a legalização da futura "Associação Comercial de Matão".

Os trabalhos decorreram na maior cordialidade e animação, sendo aclamados os seguintes comerciantes:

Presidente, Abrahão José Kfouri; Vice-Presidente, Henrique Rodrigues Lopes; 1.° Secretário, Antonio Lian; 2.° Secretário, Jorge Cecchetto; 1.° Tesoureiro, José Martins Ribeiro.

Abrahão José Kfouri assumiu a direção dos trabalhos, mandando lavrar uma ata da referida reunião, ata esta que foi assinada por todos os presentes.

Foi aberta então uma lista para receber os primeiros donativos dos sócios fundadores, cuja relação publicaremos no próximo número.

A referida lista ainda está aberta e à disposição dos comerciantes locais, assim como do Turvo e de Dobrada, a fim de que todos possam contribuir com a sua parte em favor do patrimônio inicial da novel associação de classe.

É, pois, uma realidade a "Associação Comercial de Matão", órgão coordenador dos ideais dos comerciantes locais e defensora da classe em todas as ocasiões em que se fizer mister a sua interferência".

Fica, pois, a dever a nosso Cairbar, Matão, mais um reconhecimento pelo seu pioneirismo e seu interesse pela comunidade matonense.

 

 

XXVII

 

A posição de "O Clarim" quanto à "Constituinte Espírita Nacional"

 

 

O dia 31 de março de 1926 marcou a realização do Congresso Constituinte Espírita Nacional, no salão nobre do Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, sob o patrocínio da Federação Espírita Brasileira, e ao qual compareceram representantes de mais de 300 entidades espíritas e de toda a imprensa leiga carioca.

A intenção do referido Encontro era conseguir a adesão dos espíritas à idéia de se formar a Liga Espírita do Brasil, que passaria a orientar o movimento espírita nacional.

Se o conceito de união e fraternidade que poderia trazer ao seio da família espírita brasileira era bom, por outro lado talvez se tornasse um "Cavalo de Tróia" que contivesse em seu bojo pretensões de certas entidades em colocar o movimento espírita brasileiro sob sua tutela; possibilidade vislumbrada por Cairbar Schutel e seus companheiros de Redação do "O Clarim", que foram taxativamente contra.

Presidiu às sessões da Constituinte Dr. Gustavo Farnese, desembargador da Corte de Apelação, e tomaram parte nos trabalhos muitos nomes representativos do movimento espírita: Dr. Lameira de Andrade, Dr. Coelho Neto, Dr. Leal de Souza, Dr. Joaquim de Melo, Dr. Américo Werneck, Dr. Canuto de Abreu, Dr. Florentino de Abreu Ramos, Dr. Cândido Demazio Filho e outros.

"O Clarim" assumiu posição contrária à formação da Constituinte conforme se depreende do artigo publicado em suas páginas em 17/04/1926:

"Tão agradáveis nos são traçar as boas notícias, quão desagradáveis o são as más. Entretanto, as boas como as más precisam chegar ao conhecimento dos nossos leitores a quem temos obrigação de orientar em face de todo o movimento espírita que vem se operando no nosso país.

O assunto da atualidade, que é transmitido de jornal em jornal, repercutindo sob uma ou outra forma na imprensa espírita e que, como era de prever tem prejudicado por certa forma os créditos da nossa Doutrina, é o célebre Congresso para a formação de uma "Constituinte" que dirija todo o movimento espírita no Brasil.

Parece, segundo as notícias de "O Jornal" e da "Gazeta de Notícias" que esse "Congresso" tem sido o mais singular que a história registra.

Felizmente essa reunião não mereceu a aprovação dos espíritas orientados e folgamos imensamente ter nos precavido de tomar parte em tão heterogênea reunião (...)"

Em seguida, a reportagem prossegue transcrevendo notícias de outros jornais, dando conta do tumulto generalizado de que se constituiu as sessões do Congresso, e finaliza:

"Finalmente, é de se lamentar que todas essas ocorrências se verificassem em nome do Espiritismo, que é tão responsável por isso como a Medicina pelos que não a compreendem".

Talvez por prudência e por saber o peso que tinha no movimento espírita nacional, Cairbar não mais se manifestou pelas páginas do "O Clarim", quiçá para não criar uma cisão no seio do movimento doutrinário.

Sua atuação no caso, portanto, restringiu-se a essas declarações e à pequena nota na RIE no mesmo teor.

 

 

XXVIII

 

A "Coligação Pró-Estado Leigo"

 

 

"O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural e a reclama para si e para todo o mundo. Respeita toda a convicção sincera e pede a reciprocidade.

Da liberdade de consciência, resulta o direito de livre exame em matéria de fé. O Espiritismo combate o principio da fé cega que impõe ao homem a abdicação do seu próprio juízo. Ele diz que a fé inabalável é somente a que se conforma com a razão face a face em todas as idades da Humanidade.

Allan Kardec".

 

A "Coligação Nacional Pró-Estado Leigo" foi fundada em 17 de maio de 1931, tendo por sede o Rio de Janeiro, mas formada com o apoio de milhares de brasileiros congregados em um sem número de Igrejas, associações religiosas, humanitárias, culturais e filosóficas do país que visava, fundamentalmente, defender uma série de direitos dos cidadãos conquistados na Constituição de 1891, mas que com as mudanças políticas tendiam a ser derrubados, notadamente o estabelecimento do Catolicismo Romano como Religião Oficial do Estado.

Diante desta terrível ameaça, levantaram-se não só religiosos "não católicos", mas liberais, democratas, maçons, enfim, boa parcela da população brasileira para lutar contra à supressão do livre pensamento e de outros absurdos que se pretendia perpetrar contra as liberdades individuais dos cidadãos.

Um dos fundadores e Presidente da "Coligação" foi o espírita Dr. Artur Lins de Vasconcelos Lopes, secundado na Diretoria por um pastor Evangélico e por elementos das mais variadas tendências filosóficas e religiosas.

A Coligação era apolítica, não entrava em discussões religiosas e não atacava o catolicismo; apenas propugnava pelos direitos do cidadão de seguir a sua própria corrente de pensamento.

Sob estes maravilhosos princípios de liberdade repousavam os interesses da Coligação, que passou a ter Representações em todos os Estados e em centenas de cidades do país.

Assim é que os espíritas e outros religiosos da região araraquarense também se uniram e promoveram a formação de um Comitê abraçando a Causa.

A reunião aconteceu na cidade de São Carlos, e a RIE de 15 de abril de 1931, assim a noticia:

"A repulsa da oficialização da Igreja de Roma, que tem merecido a aquiescência dos maiores homens de nosso país e de todos os espíritos livres, que trabalham pelo progresso desta terra, vai crescendo todos os dias e constituindo um vibrante protesto contra as loucas pretensões do clero ambicioso de domínio e de tesouros.

E assim que mais de cem associações espíritas de São Paulo, e uma falange de livres pensadores, bem como representantes de várias Igrejas protestantes e Lojas Maçônicas, realizaram em São Carlos uma reunião, tendo sido aclamado o "Comitê" Central Pró-liberdade de Consciência", com amplos poderes de representar as classes liberais para que seja mantida a letra da Constituição que proclamou a Igreja separada do Estado.

O Comitê ficou assim constituído: Pres. Dr. Joaquim de Souza Ribeiro; Vice, Francisco Volpe; Secretário-Geral, Cairbar Schutel; Secretário, Antonio Basso; 2.°, João Fusco; 3.°, Pedro Brochieri; Tesoureiro, Francisco Crestana. Comissão Auxiliar: Francisco Caetano de Paula e Umberto Brussolo.

O Comitê Central já se constituiu com personalidade jurídica para ter ação livre".

Esta reunião teve uma nota desagradável que foi um diálogo ríspido entre Souza Ribeiro e Cairbar Schutel, porque este último discordava da coleta de fundos proposta pelo Presidente, já que "estariam cometendo os mesmos erros da Igreja Católica ávida de arrecadação". Se no momento houve um estremecimento no relacionamento entre os dois, dado ao ardor com que se empenharam na Causa, em pouco tempo se refizeram do entrevero e da diferença de posicionamentos.

Mas para que isso acontecesse, o episódio teve a providencial intercessão do então jovem Campos Vergal, que inteligentemente soube "colocar água na fervura".

Cairbar, como tudo que abraçava, empenhou-se a fundo na campanha, quer nas datas cívicas em que era chamado a discursar, quer em oportunidades que ele mesmo criava para defender a Causa do Estado Laico.

Em Dobrada, então distrito de Matão, certa ocasião marcou uma concentração no cinema local, onde falaria sobre a Liberdade de Consciência, juntamente com Leão Pitta e José da Costa Filho.

As 20,15 hs, 15 minutos após a hora marcada, no local estavam apenas os três e mais dois assistentes.

O que fazer? Desistir da conferência? Afinal, não se tratava de uma prédica doutrinária; se o fosse, tudo bem. Não se importaria em falar apenas para reduzido número de pessoas, mas o fato é que o interesse deveria ser quase geral, porque envolvia a liberdade do cidadão.

Matutou, matutou... e resolveu: mandou comprar uma dúzia de foguetes e soltou-os na porta do cinema.

Ao improvisado chamamento, acorreram inúmeras pessoas curiosas de saber o que estava se passando e em poucos minutos o cinema regurgitava de gente para ouvir a substanciosa conferência do nosso Bandeirante.

A Coligação teve vida longa, passou por momentos difíceis, mas enquanto não alcançou seus altos objetivos com a Constituição de 1946 não arrefeceu seu ânimo.

Tomemos contato com os magnos princípios defendidos pela Instituição:

O Estado deve adotar e fazer cumprir os seguintes princípios:

a) - Plena liberdade a todos os brasileiros de se associarem, de se reunirem e de expressarem seus pensamentos, pela imprensa, pela tribuna, pelo rádio, etc., dentro da ordem e da lei;

b) - Absoluta separação entre as igrejas e o Estado;

c) - Igualdade e liberdade de todos os cultos perante a lei;

d) - Laicidade do ensino em todas as escolas oficiais, de modo que qualquer faculdade de instrução religiosa não interfira com este princípio;

e) - Nenhuma interferência do Estado nas funções de qualquer igreja;

f) - Nenhuma intromissão de atos religiosos nas solenidades cívicas, a fim de evitar coação ou constrangimento;

g) - Nenhuma distinção, entre brasileiros, ou mesmo entre estrangeiros, em virtude de maioria de adeptos por parte de qualquer religião, visto que todas as igrejas são iguais perante a lei e funcionam dentro do direito comum, que não reconhece maiorias nem minorias em matéria espiritual;

h) - Será permitida a assistência espiritual, quando solicitada, nos estabelecimentos de internação coletiva, sem remuneração e contanto que não haja constrangimento dos favorecidos;

i) - Secularização dos cemitérios com todos os princípios decorrentes, ficando a cargo da autoridade pública.

Em mais esta ocasião nosso biografado marcou sua presença, desta vez empunhando a bandeira da justiça e da liberdade, tendo feito parte ativa da Coligação até seu desencarne em 1938.

 

 

XXIX

 

O Não de Cairbar à  "Ação Espírita Paulista"

 

 

Hoje, repassando-se os olhos na História do Espiritismo, vamos ver que até neste episódio Cairbar Schutel revelou-se um homem de visão e de profundo senso crítico. Enxergou longe, o nosso amigo.

Tratava-se, a "Ação Espírita Paulista", de um movimento visando agregar os espíritas a uma entidade que, além dos ideais doutrinários, tivesse uma atuação política.

Não que condenemos a política ou os confrades que nela atuam, absolutamente, mas acreditamos que esse movimento deveu-se muito mais aos arroubos da juventude de um Campos Vergal, de um Luís Monteiro de Barros e outros, além de seus apegos à Doutrina, do que propriamente a um rumo que o Espiritismo devesse seguir.

"A César o que é de César, a Deus o que é de Deus", o ditame é claro, e assim como Cristo não precisou ocupar cargos, reter poder ou ser abastado para deixar sua mensagem gravada à Humanidade, também ao Espiritismo está reservada a missão de reformar a Terra e restabelecer seus ensinamentos, sem que para isso necessite ascender ao poder. A missão da Doutrina é meramente espiritual.

E isso Cairbar soube compreender, e a prova de que estava certo e que hoje, passados cinqüenta anos do episódio, com a evolução do pensamento doutrinário, poucos há desejando misturar Espiritismo com política. Há os espíritas políticos, sim, mas com percepção suficiente para distinguir uma coisa da outra e não levar a política para dentro do Centro Espírita. O inverso sim, deve ser feito, pois o próprio Cristo nos alertou "Vós sois o sal da terra" e um político verdadeiramente espírita irá se distinguir dos demais em muitos aspectos.

Eis fragmentos de um manifesto da "Ação Espírita Paulista":

 

Aos espíritas e eleitores independentes do Estado de São Paulo

 

"A "Ação Espírita Paulista", constituída por um grupo de espíritas praticantes e militantes, resolveu lançar este manifesto ao definir sua atitude em face do pleito eleitoral a realizar-se em 03 de janeiro de 1938. Ao fazê-lo, declara que:

A) - se desinteressa pela sucessão presidencial, convidando todos os seus amigos e confrades a votarem livremente no candidato de sua simpatia; toma esta atitude visto serem ambos os candidatos à sucessão presidencial igualmente dignos de assumir a Presidência da República, tendo ambos programas semelhantes;

B) - se conservará fora e acima dos partidos políticos existentes, não mantendo com qualquer deles compromissos de nenhuma espécie;

C) - se interessa única e vivamente pela renovação da Câmara dos Deputados Federais, para a qual apresenta como seu exclusivo candidato o Dr. Joaquim Souza Ribeiro, médico e cirurgião-dentista, residente em 'Campinas. (...)

São Paulo, julho de 1937

Pela "Ação Espírita Paulista"

 

(aa) Dr. Campos Vergal, Dr. Augusto M. Pacheco, Dr. Luís Monteiro de Barros, Dr. Ubirajara Dolacio Mendes, Antenor Ramos, Caetano Mero, Farid Ignácio Mussi, José Garcia, Aurélio Pereira, Manoel Pinto Ribeiro, Constantino de Souza, O. Gomes Silva, José Péres, Constantino de Campos Vergal, Sérgio Leite, Jordão Tbibes, S. M. Fonseca, João Spinelli, Lino Costa, Dr. Marcílio de Freitas, João Baptista Agostinho, Benedicto Mascarenhas, Pedro Fernandes Alonso, Raul Soares, Germano Emílio dos Anjos, Benedicto Dias, Tertuliano T. Pereira, João Marchese e outros.

Agora vejamos como reagiu Cairbar a um pedido de seu grande amigo, Campos Vergal, para a publicação de uma noticia sobre a "Ação Espírita Paulista". Esta resposta a encontramos escrita de próprio punho por Schutel:

"Quanto ao modo de ver a política, sou muito infenso a essa megera. Acho que os espíritas políticos deveriam fundar um Departamento Político, ao qual deveriam fazer parte todos os que propugnam pelo Estado Leigo e determinações. É este o meu modo de ver. "O Clarim" não encampará questões políticas, mas noticiará todo o movimento que propugnar pelo Estado Leigo.

Do Cairbar"

Como pudemos observar, Schutel era intransigente no que julgava certo para a Doutrina e o movimento, e sincero ao extremo com os amigos.

Não adocicou e negou, peremptoriamente, colocar "O Clarim" a serviço da política, mesmo sob risco de magoar os amigos, principalmente a Campos Vergal, que liderava, e Souza Ribeiro, o candidato escolhido pela "Ação".

Cairbar Schutel se recusou, inclusive, a participar como Candidato Espírita na legenda da referida entidade.

 

 

XXX

 

Cairbar Schutel e Chico Xavier

 

 

Cairbar só teve oportunidade de encontrar-se pessoalmente com Chico Xavier uma ocasião. Porém, chegaram a trocar correspondência durante algum tempo, quando, relata Chico, os dois comentavam suas atividades. Dessas cartas Chico não se esquece que Cairbar sempre citava carinhosamente Dna. Mariquinhas, que, para ele, "era a alma e coração de seu trabalho".

É sugestivo o caso do único encontro dos dois baluartes do Espiritismo no Brasil. Chico, bem jovem ainda, iniciando sua carreira missionária; Cairbar, vivendo seus últimos anos de romagem terrena na presente encarnação.

Relatou-nos pessoalmente o médium mineiro que; quando trabalhava no Ministério da Agricultura na cidade de Pedro Leopoldo, seu superior, embora não esposando a fé Espírita, recebeu o pedido de um amigo de São Paulo que, interessado na mediunidade segura que espoucava, em Chico, gostaria de conhecê-lo e convidá-lo para uma semana espírita que se realizaria em São Paulo.

O chefe da seção "sugeriu", então, que seu comandado viesse a São Paulo para entrevistar-se com seu amigo paulistano, ao que, humildemente, Chico acedeu. Ingênuo, porém, e sem nunca ter saído dos arredores de sua terra natal, Chico descreve essa sua viagem como extremamente pitoresca, já que, imaginando ser São Paulo pertinho de Pedro Leopoldo, tomou o trem com a roupa do corpo pensando retornar no dia seguinte. Só que ninguém lhe avisou que só a viagem demorava trinta e seis horas...

Foi em São Paulo, então, que avistou-se com Cairbar Schutel, que o convidou para acompanhá-lo até a residência de Dna. Maria Elisa de Oliveira Borges para lhe ministrar um passe, pois a benfeitora da RIE encontrava-se muito mal de saúde.

Não puderam, no entanto, entrar no quarto da doente devido à precariedade de seu estado, mas realizaram uma comovida prece na sala. Chico se recorda bem deste dia, em que descreve a casa como sendo muito fria, triste, o que comoveu muito Cairbar.

 

*

 

Além de diversas psicografias recebidas de Cairbar, Chico relata que por volta de 1975, em sessão de materialização com a médium Dna. Hilda Odilon Negrão, ele voltou a conversar com o Espírito de Cairbar através do fenômeno da voz direta.

 

 

XXXI

 

O Pioneirismo da "Assoc. de Prop. Esp. do Estado de São Paulo"

 

 

Sempre preocupado com os destinos do movimento doutrinário espírita, Cairbar Schutel investe em outro projeto: a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo".

Folheando publicações do início do século até a década de 50, vamos notar o uso, amiúde, do termo "propaganda" para a divulgação doutrinária, um termo já um tanto esquecido no meio espírita, mas muito usado para outros fins. Por isso, não devemos estranhar a titulação da entidade, que teve em Cairbar um dos fundadores e seu 1.° Presidente, já que esta, na realidade, tinha em seus Estatutos finalidades que se aproximavam das diretrizes atuais de entidades federativas como a U.S.E. em São Paulo; daí não estamos incorrendo em erro se dissermos que a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo" pode ser considerada uma precursora da U.S.E. em nosso Estado.

E mais uma vez temos que render ao "Bandeirante do Espiritismo" nossa homenagem, não só pelo pioneirismo, mas pela visão de futuro que teve da necessidade de unificar o movimento espírita do Estado em torno de princípios doutrinários comuns a todos e promover uma maior confraternização entre as instituições.

Vejamos como a RIE de 15 de maio de 1931 noticia o acontecimento:

"Dia 24 último, em reunião efetuada em São Carlos, no salão do Centro Espírita local, presentes os representantes de diversas Associações Espíritas do Estado de São Paulo, deliberaram fundar a "Associação de Propaganda Espírita do Estado de São Paulo".

Foram por seus Presidentes e Procuradores representados os seguintes Centros: (segue-se lista com 83 entidades e respectivas cidades).

Para dirigir a "Associação Espírita de Propaganda do Estado de São Paulo" foi aclamado o seguinte triunvirato: Presidente, Cairbar Schutel; Secretário, João Fusco; Tesoureiro, Francisco Crestana".

Na RIE de 15 de novembro de 1931 temos mais explicações de como funcionava a idealística entidade:

"(...) Esta sociedade composta de Centros aliados está destinada a prestar ótimos serviços ao Espiritismo, porque o seu fim exclusivo é a propaganda espírita pela palavra e pela imprensa, e o esforço que expender é para orientar os Centros que lhe são aliados no estudo da Doutrina e no desenvolvimento moral e filosófico dos seus componentes.

A sociedade não admite para seus aliados Centros sem cultura, imbuídos de idéias pessoais e preconcebidas, dadas à prática de um charlatanismo deprimente que se põe como pedra de escândalo à marcha progressiva do Espiritismo. A sociedade prefere se manter com 10 Centros treinados nos princípios Kardecista, do que contar com 100 ou 200 que selecionem o estudo, o livre exame e a moralidade, deixando de obedecer estes princípios básicos da verdadeira regimentação espírita. (...)".

A Associação, como pode-se notar, tinha Centros adesos e representantes nas cidades ou regiões (à semelhança de UDES, UNIMES, etc..) que eram denominados Intendentes e selecionados pela Diretoria da Associação.

A esses Intendentes competia visitar os Centros adesos, fazer palestras, promover intercâmbio de oradores, orientar os Centros dentro das bases doutrinárias, enfim, eles realizavam uma série de atividades que hoje as Uniões Municipais Espíritas e outras subdivisões da USE promovem.

 

 

XXXII

 

Conferências Radiofônicas

 

 

Cairbar Schutel é tido por toda a família espírita como o precursor da divulgação espírita pelo Rádio, mas, a bem da verdade histórica, ele pode ser considerado um dos pioneiros, mas não o precursor.

Em carta ao próprio Schutel dirigida, Henrique Andrade, do Rio de Janeiro, além de animá-lo ao prosseguimento das palestras radiofônicas, faz um relato de sua experiência pessoal no campo da radiofonia já em 1932, quatro anos portanto antes de Schutel, e devido à importância do documento, que restabelece uma parte da nossa história, o reproduzimos na integra:

Rio, 10 de Maio de 1937

Meu Caro Cairbar.

Muita Paz.

Só hoje, aproveitando uma pequena folga, é que venho cumprir o meu dever de lhe agradecer muitíssimo a sugestão que me enviou para a formação aqui do "Departamento de Propaganda peio Rádio".

Como o meu bom amigo, eu também sustento a opinião de que o melhor meio de propaganda na hora agitada e rápida que vivemos é a que se faz através do Espaço, pelas irradiações radiofônicas.

Não há dúvida nisso.

Hoje, rara é a casa que não tem uma instalação de rádio: rara é a casa em que todas as noites, durante e após o jantar, não ouça pela transmissora de Rádio música, discurso, notícias sensacionais e outras vezes desagradáveis.

Assim, eficientíssima será sempre a propaganda da nossa Doutrina pelo Rádio, desde que ela seja feita, selecionadamente, com critério e versando assuntos que possam interessar aos que não são espíritas, despertando-os para o conhecimento da Doutrina.

Eu tive a grande ventura de ser o primeiro que assim trabalhou aqui na propaganda da Doutrina.

Falei durante dois anos consecutivos através do microfone da Rádio Educadora sobre Espiritismo.

Durante toda a Revolução de 1932, quando a censura sobre os Rádios era tremenda, eu não parei uma só noite de falar, a despeito mesmo das várias ameaças que recebia de ser assaltada a estação por dificultar a irradiação de São Paulo. Posso afiançar-lhe que falei mesmo entre metralhadoras e forca armada.

Depois a Direção da Educadora entendeu de não mais permitir que eu falasse gratuitamente, alegando dificuldades.

Consegui falar como parte de um programa particular, porém apenas três ou quatro vezes, porque a ordem superior era não falar. Tentei pagar o que me fosse exigido por 1/2 hora, mas tudo em vão.

Passados alguns meses fiz nova tentativa, mas ainda em vão.

Hoje, ainda há pouco tempo tive uma esperança, que logo se desvaneceu.

O Clero aqui tudo faz para evitar que a luz se levante. Certa vez o proprietário da oficina em que é impresso o nosso "Mundo Espírita" foi convidado por um ilustre reverendo a não mais imprimir "Mundo Espírita" sob a promessa de lhe ser dado novas impressões de maior valor e melhores resultados. Felizmente, o proprietário da Oficina soube responder que era negociante e não podia recusar trabalho que lhe compensasse o seu capital. Vê, pois, o meu querido amigo, que por enquanto nada poderemos fazer, mas espero e creio que em breve essa compreensão clerical arrefecerá, para permitir que possamos mostrar a luz a quantos nos queiram ouvir.

Aproveitando o ensejo, junto lhe envio Rs.. 24$000 para a reforma da minha assinatura da Revista, que cada vez mais se impõe como gênero de primeira necessidade em todas as boas bibliotecas.

Aceite o meu estimado confrade e muito amigo um afetuoso abraço do seu

Henrique Andrade"

Esse fato, no entanto, não obscurece o mérito de Schutel que, numa época de tanta tirania clerical, e nos primórdios ainda da radiofonia, compreendeu o instrumento valioso que eram as ondas hertzianas como meio de propaganda doutrinária.

Suas conferências radiofônicas "neo-espiritualistas" foram levadas ao ar pela Rádio Cultura Araraquara (PRD - 4), de 19 de agosto de 1936 a 2 de maio de 1937, num total de 15, enfeixadas posteriormente em livro sob o mesmo título.

Também realizou algumas conferências radiofônicas em Sorocaba e teve uma tentativa frustrada de realizá-las em São Paulo, juntamente com a reprodução de um disco em que foi gravada uma sessão de materialização com voz direta que ele recebera da Europa, conforme se deduz deste fragmento de carta enviada por Caetano Mero para Schutel em 21/10/37:

"Obediente ao seu pedido, procurei várias Estações de Rádio desta Capital. É uma lástima, meu amigo, estão todas sob domínio clerical. Não aceitam irradiações espíritas de jeito nenhum.

O gerente de publicidade da Rádio Difusora é nosso confrade, e tive o prazer de o saber agora, quando buscava alugar a meia hora para a irradiação do disco. Ele disse-me que o domínio clerical é completo e os proprietários das Estações mandam menos que o Clero.

Disse ele que o próprio Governo manda pouco, pois que também sofre influência clerical. Disse mais: que os candidatos precisam propagar aos quatro ventos que são católicos, que farão um Governo católico, pois, do contrário, o Clero os boicotam imediatamente. Boicotado pelos padres, o candidato não vai mais e isso é uma grande verdade.

Espiritismo, então, é taxativamente proibido de ser irradiado. (...)"

Nas primeiras vezes que foi à Rádio de Araraquara para apresentar seu programa, Cairbar sofreu um principio de oposição do Vigário local, que levava os marianos para vaiarem-no à saída da emissora. Porém, quando Schutel aparecia na porta, sua altivez, seu magnetismo e o respeito que despertava nas pessoas, fazia o grupo emudecer-se.

Para se ter uma idéia da repercussão que suas conferências obtinham, vejamos um trecho da carta de um ouvinte de nome Antônio Cruanes:

"(...) Meu amigo Schutel, quanto fiquei satisfeito de ouvir sua palestra pela Rádio de Araraquara, tanta foi minha alegria que parece ter sido um fortificante para meu corpo e para minha alma que se engrandeceu. Apesar de o tempo aqui estar feio, foi ouvida claramente. Que beleza será quando todas as estações nos forem franqueadas, meu caro amigo! Seu tema foi ótimo, instrutivo e belo.

Quem ouve sua palavra não diz que o meu amigo e irmão seja um homem alquebrado pelo trabalho insano de tantos anos, mas imagina pela voz que seja um moço cheio de vida que fala da vida; parece um jovem que está iniciando na pregação evangélica cheio de entusiasmo.

Saiba, meu amigo, que por isso é que readquiri minha coragem, já que permaneço fraco e doente de corpo (...)" (Dois Córregos, 24/12/37)

E de se registrar, também, que o horário na Rádio não era gratuito, mas pago por donativos de espíritas que, geralmente, não se identificavam.

 

*

 

Um fato assaz auspicioso aconteceu com relação a esses programas radiofônicos. As conferências na Rádio eram anunciadas na Revista Internacional de Espiritismo. Ernesto Bozzano, da Itália, recebendo a R.I.E. e vendo nela a noticia sobre a programação radiofônica espírita num pequeno lugarejo, à época, do Estado de São Paulo, mandou a Schutel um cartão de parabéns pelo trabalho. Mas não veio só um cartão; vieram dois, ambos com os mesmos dizeres. Isso foi providencial, porque naquela época estava no poder o Governo ditatorial de Getúlio Vargas e os Centros Espíritas estavam sendo ameaçados de fechamento. A própria Federação Espírita Brasileira foi ameaçada de ser fechada. Cairbar, ao receber os cartões de Bozzano, que era nome de muito prestígio naqueles idos, mandou um dos cartões para Getúlio Vargas, junto com alguns dizeres. E Getúlio, diante disso, se sensibilizou por ver que na Itália longínqua o maior dos seus cientistas estavam parabenizando um trabalho que ele, Getúlio, desconhecia. Tudo isso serviu para que o Centro não fechasse e ele continuasse seu trabalho de divulgação do Espiritismo.

 

 

XXXIII

 

As Crônicas no "Correio Paulistano" e "Gazeta de Notícias"

 

 

Por volta de 1935 a 1936, Schutel estendeu seus escritos à imprensa leiga da Capital, colaborando com o jornal "Correio Paulistano", por deferência do Superintendente e confrade, Antonio Herman Dias Menezes, mas que por imposição do Clero (sempre o Clero!) foi obrigado a suspender a coluna que saía às terças-feiras.

Os protestos se acumularam sobre a mesa do Editor. De todas as partes os espíritas protestaram e, se não surtiu efeito para a volta da coluna, o Espiritismo mais uma vez esteve em evidência, e muitos procuraram conhecê-lo por causa das discussões que se formaram em torno do caso.

Atentemos para alguns trechos de correspondentes de Schutel falando do assunto:

"(...) Aqui em Campinas houve espíritas que depois de terem tomado a assinatura do "Correio" devolveram o jornal declarar do que não queriam ter em casa um órgão que não sabia cumprir seus compromissos (...)". (Gumercindo, 21/03/1936).

"(...) Ultimamente o confrade vinha assombrando o mundo espírita através das colunas profanas do "Correio Paulistano" e eu, velho sonhador dessa maneira de dizer as grandezas e belezas da Causa que defendemos exultei de contentamento. Ao que parece, porém, as hostes de sotaina se moveram e já aquele órgão da imprensa indigna silenciou. Não faz mal: os jornais espíritas triunfaram, a tribuna triunfou, o Rádio está triunfando e na grande imprensa diária haveremos de triunfar também. Ao irmão que tem competência e amor à causa, como espírita, peço não desanimar nesse campo de sua valiosa atividade. 1...1". (S.M. Fonseca, 14/03/1936)

Vejamos como Cairbar Schutel se expressou em um de seus artigos pelo "Correio":

"No ano de 1857 foi lançado aos ventos da publicidade, na França, um livro denominado "Livro dos Espíritos". Esta obra produziu um sucesso verdadeiramente extraordinário, porque estabelece as bases de uma Ciência, ao mesmo tempo que enfeixa um Código de Moral só comparável ao Código do Cristianismo. Depois deste livro seguiram-se outros, mais outros, mais outros até que os diversos volumes se tornaram as primícias de uma grande Biblioteca circulante por todo o mundo e em todos os idiomas.

"O humilde escritor de tais livros, apresentou-os, não como obras suas, mas produtos de lições dos Espíritos que regem os destinos do Mundo, auxiliados por Espíritos de categorias várias, de cujas comunicações ele não foi mais do que Coordenador, Codificador. Para que seu nome não se salientasse, e não lhe atribuíssem o espírito de personalismo e cientícismo, julgou que deveria subscrever essas obras com um pseudônimo, para o qual adotou o de Allan Kardec. Mas esse homem cheio de humildade e desapego às glórias mundanas, era um douto: médico, bacharel, professor, discípulo e substituto do grande Pestalozzi. O seu nome real é Dr. Leon Hypolite Denizard Rivail.

"Lendo-se as suas obras fica-se, de fato, maravilhado e vê-se claramente que ele, longe de ser um cientista, tal a acepção vulgar da palavra, ou um literato, é mais do que tudo isso, é um Grande Missionário, verdadeiro Gênio.

"Basta para isso pensar que a "sua" Doutrina, ou seja, a sua coordenação, é um trabalho de finíssima confecção e se resume em demonstrar que a Religião tem por base a REVELAÇÃO, tal como o Cristo tomou-a e francamente declarou aos seus discípulos, segundo nos narra o Evangelista S. Mateus no Cap. XVI .

"A genialidade de ALLAN KARDEC mostra-se justamente na concepção de um fato existente desde o começo do mundo e que passou desapercebido pelas gerações e pelos maiores filósofos de todos os tempos: a Comunicação dos Espíritos, ou seja a Comunhão dos "mortos" com os homens.

"O realce da missão de Allan Kardec está nesta afirmação comprovada com fatos que se têm verificado em todas as épocas, em todas as nações, em todos os povos, fatos que se reproduzem hoje provocados ou espontâneos, com tamanha nitidez, tão objetivados que os próprios adversários do Espiritismo não têm coragem de negá-los, pois seria estultícia negar o que se pode verificar a qualquer hora. Acresce ainda que a verificação desses fatos tem sido feita pelos mais eminentes homens do velho e do novo mundo e trazem o testemunho dos mais acatados sábios.

"Não há dúvidas que as Igrejas, as "religiões" existentes proclamam, abertamente, esses fenômenos, mas os atribuem a causas sobrenaturais e miraculosas, desnaturando assim o seu caráter imortalista; que é justamente o que apresenta esses fenômenos como base demonstrativa da imortalidade da alma, e, portanto, da existência de Deus e existência de uma Religião Natural para reger os "vivos" e os "mortos".

"Não cabe neste relato mais nítidas exposições do Espiritismo. O nosso leitor fica convidado a ler, para melhor se identificar com a verdade, o "Livro dos Espíritos", e as demais obras que esclarecem bem o assunto.

"Limitamo-nos a transcrever os "Princípios Básicos do Espiritismo" em suas linhas gerais. Por eles se há de notar a grandeza da concepção Kardecista, que, pode-se dizer, é irrepreensível.

"1.° - Existência de Deus, Causa e Fator de toda a Criação - motivo explicativo da ordem, harmonia e beleza de toda a Natureza.

" 2.° - Existência e imortalidade da alma, sua sobrevivência à morte do corpo, conseqüência racional, lógica e clara dos fenômenos ANÍMICOS E ESPÍRITAS, constatados no mundo todo.

" 3.° - A CARIDADE, O AMOR AO PRÓXIMO, como base do aperfeiçoamento moral; a INSTRUÇÃO como meio de conquistas progressivas para a sabedoria; AMOR E VIRTUDE - duas que nos alçam à felicidade, que nos aproximam de Deus.

"4.° - A REENCARNAÇÃO - ou pluralidade das existências corporais, como fim de realização do progresso moral e científico, como FILOSOFIA explicativa das desigualdades sociais, físicas, morais e espirituais; teoria essa de pleno acordo com os atributos de Deus, de bondade, de misericórdia, de onisciência, de poder e de Amor.

"5.° - UNIDADE DO PLANO DIVINO; todos partiram do mesmo principio, todos atravessam a mesma rota, todos atingirão o mesmo fim: IMORTALIDADE, FELICIDADE, VIDA ETERNA.

"6.º - PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS, povoação de todo o Universo por seres inteligentes e racionais.

"7.° - COMUNICAÇÃO DOS ESPÍRITOS, quer como meio de estreitar os laços de amor que nos ligam aos seres amados que nos precederam na OUTRA VIDA, quer como condição de recebermos conselhos e ensinos que nos venham fortalecer a FÉ e a MORAL.

"8.° - CULTO DE ADORAÇÃO A DEUS em espírito e verdade.

PARADIGMA dos espíritas: - JESUS CRISTO, seja pela Palavra, seja pelo Exemplo, seja pela Ação - é o EXPOENTE MÁXIMO DA MORAL, DA RELIGIÃO E DA CIENCIA".

Algumas vezes os protestos eram mais veementes, inclusive do conceituado Pedro de Camargo (Vinícius), que em carta de 12.'11/1936 assim se dirige a Schutel:

"(...) Não me admira a decisão tomada pela redação daquela Folha. Antes, o que me surpreendeu, foi o ato de tolerância na cessão da coluna, ora suprimida, para as publicações espíritas. Os políticos do P.R.P. fazem muita zumbaia aos italianos e, conseqüentemente, ao fascio, porque hoje Itália, Fascio e Igreja Romana são três pessoas distintas formando uma só verdadeira. Os cabos eleitorais do P.R.P. na Capital são italianos, havendo um grande grupo de eleitores daquela procedência ou daquela linhagem filiados ao partido dos "saudosistas". Ora, entre o Fascio Mussolínico e o Espiritismo existe aquele abismo que medeia do seio de Abraão ao Hades, portanto... é isso mesmo, está certo, o Correio tinha que capitular. Eu nunca me simpatizei com esse jornal, outrora por ser jornal oficial do Governo, hoje, por ser mussolínico e fascista mascarado. Daí porque não o assinei, apesar de acompanhar as publicações espíritas que até há pouco agasalhava." (12/11/19361.

O mesmo Gumercindo, já citado, tentou, a pedido do próprio Cairbar, encaixar suas contribuições doutrinárias em outros jornais da Capital:

"Amigo e confrade Cairbar.

PAZ.

Escrevi a "NOTA" com relação à sua reclamação. Também tenho recebido com irregularidade esse jornal.

De acordo com sua penúltima carta, escrevi à "Gazeta" e ao Sr. Leal de Souza, de "A Nota", sobre a sua colaboração nos jornais em apreço. Não recebi, até agora, resposta. A "Gazeta", porém, aceitou, pois já publicou as duas crônicas que o Sr. enviou. Estou estranhando a atitude do Dr. Leal de Souza: não respondeu as nossas cartas, não publicou a crônica que o Sr. remeteu, assim como cessou com os artigos sobre Espiritismo que vinha publicando diariamente. Que teria havido? Intervenção do Sr. Geraldo Rocha, proprietário do jornal? Intervenção da batina? O fato é que há 20 dias mais ou menos "A Nota" ainda publicou duas comunicações do Espírito Emmanuel, guia do médium Chico Xavier. Esperemos mais um pouco que a verdade surgirá.

Acho bom o Sr. continuar com a colaboração na "Gazeta de Noticias", pois este jornal tem boa circulação no país (...)" (23/01/1937)

Como vimos; suas contribuições não se restringiram ao "Correio Paulistano", mas buscaram encontrar guarida nas páginas de outros jornais leigos, sempre visando a divulgação da Doutrina em que ele se fez mestre.

 

 

XXXIV

 

Uma sessão espírita com Cairbar

 

 

 

Cairbar Schutel com as irmãs Perche realizando sessão mediúnica de tiptologia

 

Da RIE de agosto de 1968 selecionamos um trecho da entrevista de Pedro Fernandes Alonso, notável médium, que iniciou-se no Espiritismo, como tantos outros, pelas mãos de Cairbar, em que descreve a uma das sessões de que participou com nosso biografado e que foi muito interessante:

"Não digo que seria esta a última vez que vi Cairbar Schutel, mas foi uma das últimas. Ítalo Ferreira, Watson Campello e as irmãs Perche insistiam para que o visitássemos. Fomos certo dia vê-lo e Cairbar improvisou uma sessão. Fui colhido de surpresa. Foi no Centro Espírita "Amantes da Pobreza", aí em Matão. Presentes várias pessoas. Veio "Tio Carlos", que outro não era senão o "Rústico" de antigamente." Nome? Que importa o nome? Eu tive tantos"... disse ele, "chamem-me como entenderem". Dentro em pouco as manifestações tiveram lugar. O pó de arroz de uma das Perche veio até a sessão. O Espírito disse que o encontrara atrás do espelho, na parede do quarto dela. Exato - respondeu a dona do pó. Vieram outros objetos da redação, do Centro e da residência dos presentes. No final vieram flores e coxinhas, empadinhas e outros comestíveis "que fui buscar no bar do japonês" disse "Tio Carlos". "Depois da sessão, vão pagar o prejuízo. Comam, é em homenagem ao Schutel, este "banquete", disse. Efetivamente, depois da sessão foram ao bar do japonês, que eu nunca havia visto,e pagaram o prejuízo. O japonês estava apavorado: "Sumiu tudo", disse, mas fez a conta e recebeu o dinheiro. Esta foi uma noitada, para mim também, pois a sessão fora em homenagem ao mestre. Depois dessa reunião outras visitas se deram até a última, no dia de seu falecimento. Nesse dia a cidade de Matão chorou. Acompanhou em massa o sepultamento do corpo do ex-Prefeito, que albergava, durante tantos anos, o maior Espírito que descera à terra de São Paulo e possivelmente do Brasil. Eu entendo que foi o maior, embora Cairbar se julgasse o menor".

 

 

XXXV

 

O Desencarne: "Vivi, Vivo e Viverei"

 

 

Quase setenta anos tinham se passado da data que o Senhor havia chamado seu soldado a descer ao Campo das Batalhas Humanas!

Agora Ele o solicitava de volta. As lutas haviam sido insanas, mas valera a pena. Quando se passa a vida no empenho de ideais nobres, a morte assume uma dignidade ímpar, e a devolução do corpo ao Criador nada mais é que o sono do Justo, o descanso aureolado do Servidor.

Cairbar Schutel houvera sido um dos muitos chamados e um dos poucos escolhidos. No íntimo ele sabia disso, e, por isso, a passagem lhe parecia apenas uma oportunidade a mais de provar sua fé na imortalidade da alma.

 

*

 

Aconteceu no dia 13 de janeiro de 1938. O corpo do lidador quedou-se doente e no peito um coração dá sinais de fadiga: o fim estava próximo, ou melhor, o começo, pois abençoada é a morte que é a entrada para a Verdadeira Vida, na libertação do Espírito que entrega seu corpo alquebrado à Natureza e ascende ao Solar dos Justos.

"Mas "seo" Schutel", exclama Antoninha, "o senhor que não consegue nem se deitar, está caminhando até a sala?" E era apropriada a pergunta, porque há oito dias ele estava dormindo sentado, numa cadeira de vime, sem reclinar a cabeça em razão do coração que doía muito.

Antoninha não havia se preocupado apenas pelo arrojo do adoentado, mas notara nele uma transformação, uma fisionomia e um estado de alma que nunca houvera sentido antes. Ele lhe responde, a princípio, com a mudez do coração. Sua expressão facial denotava uma emoção que os lábios não conseguiriam exprimir por palavras. Queria confidenciar algo à amiga, mas o pudor, ou quem sabe o medo de a iniqüidade humana tomá-lo por delirante, o fazia catarse. O silêncio ainda era sua linguagem. Não se sabe quanto tempo passou assim, até que rendeu-se à alegria que lhe corria por entre as veias e explodiu seu coração numa confissão à amiga:

"Antoninha, desculpe-me minha filha, mas você nem imagina o que vai pela minha alma! Estava aqui, relutando comigo mesmo, para resolver se me abria com você ou guardava só para mim, mas a você, que tem sido a amiga de tantos anos, não poderia me furtar a contar. Antoninha... eu vi Jesus! Não diga para ninguém, mas.., eu vi Jesus... e ele me consolou! Não quero que ninguém saiba, porque tenho consciência de que não fiz nada para merecer tanta graça, mas o fato é que Ele me apareceu!"

Antoninha compreendeu então o momento. Como é que poderia duvidar daquele que durante toda a vida houvera sido um exemplo de dignidade e honradez? Não, imaginava ela, os estertores da morte física não levariam um homem como aquele a descer ao degrau da fantasia, mormente com a consciência que ela tinha de estar diante de um verdadeiro apóstolo do Cristo. Quem, senão alguém que renunciara à sua vida por inteiro poderia merecer tal galardão? Quem, senão aquele que se fez pai de toda uma legião de órfãos da sorte material e elegeu-se o amigo dos infelizes, dos trôpegos e dos estropiados?

Sim, ela cria. Nem por um momento lhe passou pela mente que ele não houvera visto o Cristo. Nem uma visão delirante teria sido. O Cristo, naturalmente, houvera vindo, Ele próprio, buscar seu escolhido.

Este fato se passou a dois ou três dias de seu desencarne e, malgrado os esforços dos médicos, Dr. Agripino Dantas Martins e Dr. Hudson Buck Ferreira, a insidiosa moléstia consumia-lhe os últimos fios de energia. Na antevéspera de seu desencarne ainda recebeu a visita do grande amigo Sílvio Goulart de Faria e fez-lhe a mesma confidência. Só que não conseguia completar a descrição. A emoção era de tal ordem que as lágrimas lhe aljofravam abundantemente ante a recordação do fato. Não se soube que ele tenha relatado a outras pessoas a ocorrência, mas a realidade é que ele percebera que nada mais o prendia à Terra. A missão estava cumprida.

Se ele assim achava, seus amigos queridos a rodeá-lo, egoística e justificadamente, o queriam retê-lo por mais tempo.

E no dia 29, às 10 hs da manhã, Dr. Hudson veio visitá-lo e disse:

"Olhe, Schutel, você tem que tomar mais injeções. Seu estado não é muito grave, mas acho que você tem que tomar mais injeções''.

Enquanto o médico descia à farmácia para buscar o medicamento, Cairbar começou a expirar e D. Antoninha, sentindo a gravidade do estado do doente, apressou-se em chamar o médico de volta para socorrê-lo. Dr. Hudson, então, aplicou-lhe rapidamente a injeção. A cabeça de Schutel estava caída para o lado, parecendo haver ele deixado de respirar, mas lentamente ele volta a si e com muita dificuldade fala aos amigos:

"Eu tive de voltar. Tive de voltar porque vocês fizeram tanto empenho... parece que vocês não queriam que eu fosse embora. Eu voltei, mas fiquem sabendo que o desencarne é certo".

E virando-se para o Dr. Hudson dirige-lhe a palavra:

"Doutor, o senhor se empenhou com tanto amor para que eu ficasse aqui, mas não será possível. Chegou minha hora de partir. Eu já estava do Outro Lado da Barreira sem dores e sem aflição, mas eu voltei porque não pude deixar de atender às orações que estão fazendo para me segurar aqui. O senhor pode fazer a injeção, mas quero que todos saibam que, como espíritas, será necessário que dêem o testemunho do que têm pregado a vida inteira: a morte é uma libertação, por isso não devemos temê-la ou lamentá-la".

Sentindo, assim, estar Cairbar vivendo os últimos instantes de romagem terrena, começam a avisar os seus grandes amigos: os Volpe, de Jaboticabal; Urbano de Assis Xavier, de Santa Ernestina; João Leão Pitta, de Piracicaba; e outros que moravam na região, os quais apressaram-se em vir se despedir do amigo. Urbano ainda chegou a tempo de orar e dar um "passe" no companheiro de Ideal.

No domingo, dia 30, às 16,15 hs, a miocardose se torna fatal e provoca o desencarne do "Pai dos Pobres de Matão".

A PRD-4, Rádio Cultura Araraquara, passa a anunciar o passamento de seu querido conferencista, e automóveis de todos os lugares começam a chegar à cidade, juntamente com os trens lotados para o enterro do notável filho adotivo de Matão.

O velório foi feito na redação do jornal "O Clarim" e na rua, sentados à calçada, os grandes amigos do récém-desencarnado, os pobres, choravam sua perda: "Morreu o nosso pai! Que será de nós agora?"

Mas o destino ainda estava reservando uma bela surpresa para aquele grupo de amigos tão unidos e que enfrentaram tantas situações difíceis juntos, sem deixar claudicar a fé que os unia em torno do Ideal abraçado.

Eram aproximadamente 21 hs. do domingo quando junto aos pobres que lamentavam a morte de Cairbar estava uma menina de 4 a 5 anos chorando com dor de dente. O já farmacêutico João José Aguiar vai levá-la até a farmácia para um curativo, quando é interpelado por Urbano de Assis Xavier:

"O que a menina tem, João?"

"Dor de dente. Vou levá-la até a farmácia para medicá-la."

"Então, deixe comigo. Você é farmacêutico, mas eu sou dentista e sou eu quem deve tratá-la."

Já na farmácia, Urbano colocou-a no balcão, pediu instrumentos e ácido fênico, tratou-a e dispensou-a. Aí, foi lavar a mão e quando João foi entregar-lhe a toalha, ele virou-se e, num tom de voz diferente do normal, disse:

"Joãozinho, vá lá em cima na Redação e chame o Pitta, o Campello, o Zeca, a Zélia e o Dias, e diga para eles virem aqui".

"Mas, por que Dr. Urbano, se já vamos fechar a farmácia e ir para lá?"

"Não teime, João, é o Schutel quem está falando!"

"Sim, senhor. O senhor está bem, "seo" Schutel?"

"Muito bem, João".

"Então sente-se na minha cama enquanto vou chamá-los" - elevou o médium incorporado até seu quarto que ficava no fundo da farmácia.

Os convocados foram rapidamente até o local e Schutel, através do médium inconsciente e de excelentes recursos, Urbano, abraçou um por um emocionado e se expressou:

"A Misericórdia Divina é tão grande que me deu o privilégio de abraçar vocês neste momento de partida para a Verdadeira Pátria. Eu estou muito contente e sendo recebido com um banquete que não mereço, mas o Pai é tão bondoso que, na minha alegria e êxtase, não poderia partir sem comunicar isso a vocês".

E dirigiu palavras intimas a cada um dos participantes da reunião, como se a querer provar ser ele mesmo quem lhes falava. Mas não precisava, pois todos aqueles que ali estavam souberam reconhecer imediatamente a presença do amigo e irmão de Ideal. Completou, então, a reunião expressando-se a todos:

"Só que tem um detalhe. Vocês podem ficar zangados comigo, mas eu preciso falar-lhes o que sinto. Ainda há pouco vocês conversavam na redação sobre o túmulo que vão erguer para mim. Nada disso. Espírita não precisa de túmulo. Quero uma coisa simples, uma lápide apenas, e se vocês quiserem escrever algo nela, escrevam isto: "Vivi, vivo e viverei porque sou imortal".

 

 

XXXVI

 

O Sepultamento

 

 

Watson Campello, grande amigo e um dos continuadores da obra de Cairbar, emocionado e anônimo, ouve, logo que chega, uma declaração espontânea de um motorista:

"Morreu o Pai da Pobreza desta cidade".

Não poderia haver definição mais completa e sucinta do que se passava naquela segunda-feira na pacata cidade.

Carros de todas as procedências, milhares de pessoas andando de um lado para outro, buscando informações aqui e ali.

Partia o féretro. Tremeluziam lágrimas nos olhos de ricos, pobres, intelectuais, analfabetos, enfim, gente de todo jaez que para Matão se deslocou a fim de prestar a última homenagem ao "Bandeirante do Espiritismo". Como não o acompanhasse somente espíritas, não se pode dizer que não houvesse o burburinho das lamentações ou as cenas de choro convulsivo, mas o fato é que a vibração mantida no ambiente pelos grandes companheiros de Cairbar era tal, que rompantes extemporâneos de desespero eram logo ofuscados pela lembrança de que ali estava se enterrando apenas o corpo daquele que prodigalizara toda sua vida à imortalidade da alma.

Dentre muitos outros expoentes da Doutrina e seus amigos, estavam presentes: Pedro de Camargo (Vinícius), Waldemar Wenzel, Romeu A. Camargo, Boanerges de Medeiros, Souza Ribeiro, Onofre Dias, João Leão Pitta, Watson Campello, os Volpe, Sílvio Goulart de Farias, etc...

"O Clarim", de 12/02/1938, assim descreve o sepultamento:

"(...) Eloqüentes foram as manifestações de pesar e as demonstrações de solidariedade que lhe tributaram pessoas de todas as idéias, que a uma só voz proclamavam haver morrido um homem bom, um homem de bem, um grande homem.

O seu enterro foi uma verdadeira apoteose, tal o enorme acompanhamento que o seguiu. Espíritas e não espíritas de muitas e longínquas localidades a ele acorreram.

Diversos oradores falaram junto de sua câmara mortuária e ao baixar o corpo à sepultura, um deles, o denodado propagandista, Dr. Souza Ribeiro, ao realçar as qualidades do Espírito liberto, erguendo hosanas ao Senhor, afirmou que o lutador que tombara no seu posto recebia o prêmio do seu trabalho e continuaria a inspirar os seus companheiros, a fim de prosseguirem a jornada.

E nós, secundando-o, diremos aqui: continuemos a marcha para a frente, quantos nos identificamos com o grande amigo e com os seus ideais que ele jamais abandonará (...)

Digno de registro foi o gesto da Associação Comercial e Industrial de Matão, tomando a iniciativa de pedir o fechamento do comércio pelo falecimento do associado e fazendo o convite para o enterro, bem como o da Prefeitura Municipal, hasteando, em sinal de pesar, a bandeira nacional a meio pau, envolta de crepe (...)"

Uma verdadeira avalanche de telegramas e cartas de todo o Brasil e do mundo invadiu a Redação de "O Clarim" nos dias que se seguiram, que o espaço seria pouco para os citarmos aqui.

Também "A Comarca", de Matão, dedica sua primeira página ao acontecimento:

"Através das ondas do rádio, pelo telefone e pelo telégrafo, transmitiu-se na tarde de 30 de janeiro p. findo, aos espíritas de todo o Brasil a notícia profundamente contristadora: - Faleceu Cairbar Schutel.

Às 16,15 horas desse dia, uma lacuna que dificilmente poderá ser preenchida, abriu-se nas fileiras do Espiritismo mundial. É essa a nossa impressão e será por certo a de todos quantos conheceram a obra ciclópica desse homem superlativamente capaz, solidamente realizador.

E que Cairbar Schutel não era uma personalidade vulgar. O seu espírito altamente privilegiado, bem cedo elevou-o a uma posição de destaque no campo intelectual, em cujo âmbito nem sempre a entrada é franca, para o comum dos mortais. Tendo abraçado a Doutrina Espírita há já quase oito lustros, não se limitou a aceitá-la tacitamente; estudou-a, investigou os labirintos dos mistérios psíquicos, e fez do Espiritismo um apostolado. Escritor e jornalista de escol, esteta da clareza e da simplicidade, capaz de fazer se entender pelos humildes e de confabular com os mais doutos, Cairbar Schutel pôs a sua pena e a sua inteligência a serviço do Espiritismo, desenvolvendo e polindo as suas teorias da maneira mais brilhante que poderia ser feita em nosso idioma (...)"

Completamos aqui a transcrição, que principiamos por fazer no início deste livro, do jornal "A Comarca" de Matão, de 27 de Março de 1939, sobre "A grande homenagem de Araraquara a Cairbar Schutel":

"(...) Descerrado o velório às 8 horas precisamente, outro aspecto de grandeza se nos depara, ali aparecendo ao palco, oito oradores em torno da mesa da direção. O dirigente dos trabalhos, cercado de quatro filas de numerosos confrades espíritas militantes, notando-se entre eles grande número de senhoras.

Levanta-se no meio de palmas espontâneas e calorosas Nagib Borges, cirurgião-dentista, diretor da sessão que a declara aberta numa oração feliz e comovente, dizendo do valor do homenageado e passando a palavra ao Dr. João Baptista Pereira, advogado, residente na capital do Estado, que falou com a autoridade de Presidente da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, se espraiando em considerações incisivas sobre os fenômenos espíritas e a Doutrina deles decorrente, depois de tecer um hino à cidade - expressão de estética, de beleza, de cultura e de bom gosto afirmando: "Esta manifestação representa, para a história de Araraquara, a cravação do marco glorioso dos seus destinos futuros" e, além de outras frases, acrescenta: "é uma demonstração da coragem da fé e a afirmação de claras atitudes sociais".

Referindo-se ao homenageado, declara que ele foi o propulsor das mais arrojadas iniciativas em prol da propaganda espírita, tendo concorrido, com a sua "Revista Internacional do Espiritismo", para a fundação da Sociedade Metapsíquica, cujo objetivo é promover a verificação dos fatos cientificamente, a prova da sobrevivência do homem, após a morte do corpo, e da comunicação do mundo espiritual com o mundo material.

"A imortalidade", exclama, "é a grande questão! Provada que seja, a Humanidade marchará para a doutrina do Cristo e realizar-se-á, então, o vasto sonho de Cairbar Schutel, que, como o louco divino da lenda, que tentara esvaziar o oceano, para dele retirar, a pé enxuto, a pérola preciosa, tanto fez para extinguir as trevas do mundo, a fim de que nele resplandecesse a luminosa pérola de Jesus - a sua eterna doutrina!"

Palmas e aplausos vibrantes cobrem as palavras finais do orador.

Ergue-se, em seguida, o Dr. Calazans de Campos, também advogado, notável jovem orador Espírita da Federação Espírita de São Paulo, preclaro conhecedor da filosofia universal, delicado artista da palavra que, inspirado, comove o auditório falando das mortes gloriosas como a de Cairbar Schutel lesado no coração pelo qual viveu intensamente e elevado pela nuança da morte, a branca e suave companheira com que se empreende! a viagem para o Lado de Lá!

A dor é necessária ao aperfeiçoamento do homem, passando a dizer que quem mandou nas tribunas do mundo, como o Sinédrio, a Agra de Atenas e o Senado romano, que se calaram, esboroando-se, tal qual toda a obra humana, sempre frágil e inconsistente, apesar dos seus faustos ou prestígios transitórios, permanecendo de pé, somente, através dos séculos e da oposição da ignorância, a tribuna, imperecível e eterna de Jesus!

Voltando ao problema da vida e da morte, afirmando a existência espiritual, referindo-se ao labor e ao desaparecimento terreno de Cairbar Schutel, termina: "Bendita a terra que mata! Que suga a seiva à planta, mas que conserva a raiz!"

Orador preciso, impecável, eloqüente, vai sentar-se, entre ruidosas palmas.

A seguir, Itagyba Borges, que já havia lido um telegrama de Paulo Tacla, de Curitiba, congratulando-se com as homenagens, lê outro, no mesmo sentido, de Aureliano Botelho, de Bauru, e dá a palavra ao quarto orador da reunião.

É o Dr. Souza Ribeiro, médico, de Campinas, que se levanta. Foi o mais extenso de todos. Falou durante uma hora e vinte minutos, na meio de aplausos constantes, da Assembléia. Singelo, desataviado, grande na sua imensa coragem moral, impressionou vivamente, falando de Cairbar Schutel, de quem se diz discípulo, falando da imortalidade da alma, das provas da sobrevivência do Espírito, da reencarnação, da Justiça Divina e exclamando: "os bons espíritas, tais quais os bons cristãos, devem ser "mãos jogadoras de sementes!" Franco e sincero, conta fatos edificantes da sua vida e confessa: "só vim a conhecer o cristianismo depois que me tornei espírita! Enquanto bom católico que fui, como todo bom católico, nada entendia de Jesus!"

Fazendo a análise dos dogmas religiosos e destruindo a concepção da vida única, referindo-se, ainda, a Cairbar Schutel, finaliza seu extraordinário discurso, aplaudido intensamente pela assistência.

Eram já 10 horas e meia, quando passou a falar Pedro Alonso, jornalista, de São Carlos, representante da imprensa espírita e da Sinagoga Espírita de São Paulo. Orador fluente, surpreendeu com inspirada e delicadíssima oração, despetalando, como afirmou, flores da alma e da saudade sobre o Espírito lúcido e a memória suavíssima de Cairbar Schutel.

Recebe, ao terminar, palmas calorosas.

Segue-se na tribuna, Caetano Méro, da União Federativa Espírita Paulista, da Capital, que também em frases delicadíssimas exalta o homenageado batalhador de todos os setores do Espiritismo, na tribuna, na imprensa, no rádio e na caridade!" de maneira que Cairbar Schutel lhe dissera, certa vez, a propósito da necessidade de uma estação de rádio para os espíritas: "O Espiritismo não é para ficar entre quatro muros, mas deve abranger o mundo, fazendo-se ouvir em toda a parte!"

Perorando com rara felicidade, encerra a bonita oração, abafada por palmas prolongadas.

Usa da palavra, agora, José Dias, de São Carlos, que falou em nome dos espíritas de Matão, agradecendo as homenagens dirigidas ao seu querido chefe. Declarando-se também discípulo de Cairbar Schutel, e, caloroso, entusiasta, expressivo, sincero, diz agradecer aquelas vivas demonstrações de afeto e de carinho, em nome do próprio homenageado, que afirma, o inspirava no momento.

Passava das 11 horas, quando Itagyba Borges vai encerrar a brilhantíssima sessão e é interrompido por um dos assistentes, que, levantando-se no palco, pede que se proceda ao encerramento, com um "Pai Nosso", rezado pelo Presidente.

Não foi esta uma intervenção patente do espírito de Cairbar Schutel, no seio da assembléia? Ele que era tão amigo de Jesus e da prece, orando sempre ao abrir ou ao encerrar as sessões a que presidia?

E assim se procedeu. Estava realizada a homenagem magnífica ao apóstolo brasileiro do Espiritismo!

A assistência que se encontrava ali há mais de quatro horas, esperando, ouvindo, aplaudindo, parecia disposta a continuar.

Todos os oradores estiveram à altura da grandiosidade daquela verdadeira concentração Espírita, presenciada por uma multidão de pessoas de todas as crenças. Não houve maiores nem melhores. Com estilos e dons diferentes, todos agradaram profundamente.

Teve um cunho significativo e singular de grandeza tal consagração, que ultrapassou qualquer expectativa.

Não foi uma das reuniões comuns, de espíritas, geralmente pequenas e recolhidas. Ao contrário, foi uma assembléia enorme e expansiva. Foi mesmo intensamente vibrante aquela festa cristã, tão resplandecente de beleza moral.

Volvendo o pensamento ao passado, o cronista reviu todos os passos do homenageado, na sua marcha ascendente, desde os iniciais, há mais de 30 anos falando, obscuramente, a meia dúzia de amigos íntimos! Como frutificara a sua sementeira! Como a sua ação foi profícua! Como a sua obra crescera! Ali estava, no grande Teatro de Araraquara, aquela maré montante de gente, aquela verdeira preamar humana sequiosa de se sentirem continuadores do eminente apóstolo, fundador de "O Clarim" e da "Revista Internacional do Espiritismo" de Matão, e a força de uma idéia, que vai ganhando, velozmente, as consciências!

E, raciocinamos, ainda, esta é sem dúvida, a primeira grande demonstração da importância de um movimento social, de incalculáveis proporções, que se desprende da obscuridade e das indecisões do passado, para as arrancadas do futuro.

Era, mais do que a homenagem a um homem, a consagração de um Ideal, naquela realíssima e impressionante Parada Espírita!

Estão de parabéns os espíritas de Araraquara, do Estado de São Paulo e do Brasil.

Ítalo Ferreira – São Carlos, 23 de março de 1938”

 

Final da Primeira Parte

 

 

***

 

 

Segunda Parte

 

Cairbar, o Escritor e o Jornalista

 

 Wilson Garcia

 

 

I

 

"Nossa tarefa é divulgar"

 

 

Se, por um instante, alguém devesse buscar um exemplo de criatura que justificasse um processo reencarnatório assumido com consciência; que demonstrasse compreender as limitações intelectuais da própria existência; mas que, finalmente, a despeito de tudo fosse capaz de pensar - como diria Humberto Mariotti - "com evidentes profundidades metafísicas", esse homem seria, sem dúvida, Cairbar de Souza Schutel.

"Eu não conheço por grandes homens - disse Voltaire - senão os que têm feito altos serviços ao gênero humano". Esta lógica, todavia, não tem sido suficiente para evitar a subversão dos valores e impedir que parvos sejam exaltados e verdadeiras inteligências condenadas ao anonimato. Não obstante a fantasia da imortalidade na mente humana, que levanta monumentos à eternidade mas os constrói sobre o sangue dos fracos e uma miserável justiça, a figura de Cairbar Schutel existe no cenário da história exatamente por ser membro daquele grupo de grandes inteligências destinadas a mudar os conceitos do mundo.

Não é apenas o materialismo histórico que deve ser combatido. Tampouco o socialismo utópico, o capitalismo selvagem, a Religião sem espírito, a educação sem perspectivas. É necessário travar uma dura batalha contra os falsos conceitos de imortalidade. Encerrada nos museus e academias, nas sacristias e santuários, ela cheira a mofo e tem gosto de vela queimada. Imortalidade morta, presa, despojada de racionalidade, fonte de miséria intelectual e abandono moral.

"Vejo homens de fronte erguida para o alto, - disse Cairbar - vejo outros curvados em busca dos tesouros da terra; vejo bons, vejo maus; uns inteligentes, outros estúpidos; uns santos, outros diabos; vejo sãos, vejo enfermos, bonitos e feios; pergunto-lhes donde vieram, quem são e para onde vão, mas nenhum deles me responde." (1)

01. Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Espanta-se Cairbar. De que valeram, pergunta, séculos de história religiosa se o homem moderno não tem respostas para suas inquietações? Padres, pastores e sacerdotes de todos os cultos, onde as lições capazes de esclarecer a humanidade? Quem pode resolver as dúvidas da alma humana? Onde estão os ensinamentos cristãos legados pelo Filho do Homem? E corre Denis, arrisca uma resposta: "O verdadeiro Cristianismo era uma lei de amor e liberdade, as igrejas fizeram dele uma lei de temor e escravidão". (2)

02. Cristianismo e Espiritismo, 5.ª edição, 1952, FEB.

O dia de repor as coisas em seus devidos lugares não está longe. O início de Cairbar Schutel no Espiritismo coincide com o recrudescimento dos ataques dos adversários da doutrina. Ao contrário, porém, de assustarem o novo adepto, os adversários funcionam como uma espécie de adubo atirado à raiz da árvore em crescimento. Não poderiam saber eles que a semente lançada naquela mata virgem daria origem a um dos mais admiráveis espécimes. Notaram seu porte mediano, a alvura engomada de seu terno, o queixo alongado sustentando um cavanhaque bem cuidado. Misturaram-no à Doutrina Espírita na certeza de que a mistura correspondia a um guisado demoníaco. Mas foram enganados. Não perceberam que o demônio havia retornado ao inferno de Dante, donde, aliás, nunca deveria ter saído, como já disse alguém. Cairbar foi quem os enganou, com sua aparência frágil e o coração de aço.

Cairbar Schutel foi o iniciador de uma época fertilíssima de homens de fibra, coragem e fé. O seu tempo marcará a existência no Brasil de espíritas incapazes de ajustarem-se às "domesticidades convencionais", assinalada por Inginieros. Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy, Romeu Camargo do Amaral, Pedro Lameira de Andrade, o ítalo-brasileiro Mariano Rango D'Aragona, Arlindo Colaço, Deolindo Amorim, José Herculano Pires, Júlio Abreu Filho entre tantos outros.

Esse grupo vai dividir-se e combater em dois flancos: de um lado, os donos do poder religioso, católicos e protestantes, sempre dispostos a atacar o Espiritismo na vã tentativa de destruí-lo; de outro, os responsáveis pelos desvios doutrinários, resultantes dos preconceitos, dos falsos conceitos e - até mesmo - da inoperância. Ou seja, esses homens não se contentarão em responder às criticas sempre ferozes dos adversários declarados da Doutrina Espírita, mas se postarão atentos ao próprio movimento espírita para conter os excessos naturais da interpretação. E, verdade seja dita, não obstante à lisura com que agiam, muitos deles sofrerão dos próprios espíritas injustiça e incompreensão.

Cairbar Schutel cedo define sua linha de ação: "A nossa tarefa está limitada à divulgação da missão kardecista". (3) Assim, seu tempo será destinado ao trabalho de divulgar o Espiritismo. No entanto, o seu conceito de divulgação assume uma amplitude característica de um gênio; em Cairbar tudo é motivo para fazer propaganda da filosofia espírita; as críticas dos adversários religiosos, a ocorrência de fenômenos mediúnicos, as tradições sociais, etc.

03. Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Ao definir sua tarefa, Cairbar passa a dedicar tempo integral ao trabalho que ela exige. Poucas vezes ele discutirá com os próprios espíritas, mas, se o fizer, será franco.

E certo que sua época se caracterizava pelo combate sistemático de vigários e pastores à nova doutrina. Nesse particular, o início do século XX não diferia muito da segunda metade do século XIX, quando o Espiritismo surgiu na França e espalhou-se pelo mundo, alcançando também o Brasil. Tanto os meios científicos quanto os religiosos passavam por grandes transtornos no que diz respeito à transcendência do ser humano. A comprovação dos fenômenos mediúnicos levou inúmeros homens de ciência e de religião a aceitar a filosofia espírita, aumentando o furor dos ortodoxos de todos os lados. Havia, pois, uma guerra declarada unilateralmente e a Doutrina Espírita, sem pátria e sem fronteiras, via-se agredida impiedosa e não raro desonestamente.

Por isso, torna-se estranha e incompreensível a posição de certas instituições espíritas, que criticaram a ação destemida de Cairbar Schutel sob o pretexto de que as polêmicas religiosas não traziam benefício para o Espiritismo.

Cairbar não as ouviria. Não era de sua personalidade ouvir passivamente a mentira da boca daqueles que tinham o dever de falar a verdade. Não seria ele quem veria a Doutrina Espírita espoliada sem nenhuma ação de defesa. Temos nesse interior do Brasil inúmeras regiões onde o Espiritismo praticamente inexiste; teria faltado aí homens como Cairbar Schutel, para exigir que o clero romano respeitasse, no mínimo, a Constituição Brasileira?

O respeito que se dedica ao Espiritismo nos dias de hoje muito deve à ação desses homens corajosos, destemidos; essa ação foi desenvolvida numa época em que ser Espírita era motivo de cadeia ou de internação em hospício.

A pecha de "doutrina do diabo" era pronunciada nos confessionários, parlatórios e altares e transformada em livros. Avocar ao diabo a causa de alguma coisa hoje pode parecer estranho. Afinal, ele está totalmente desacreditado. Não naquela época, porém, quando os meios de comunicação de massa apenas se esboçavam.

O Espiritismo então se mantinha por si e por um punhado de homens de fibra. A situação de seus adeptos era muito parecida com a dos primeiros cristãos. Organizadas, as religiões ocidentais contavam com uma estrutura invejável; seu poder era sustentado pelo capital acumulado durante séculos de história. Os espíritas contavam apenas com a fé raciocinada. Algumas vezes, só com a fé; não dava tempo de raciocinar para conter a violência clerical...

A realidade tem soluções invisíveis não raro. Cada ataque sofrido pelo Espiritismo era compensado com o aparecimento de novos adeptos, saídos dos quadros materialistas e dos meios religiosos. A parcela de homens cansados do domínio clerical tinha na Doutrina Espírita oportunidade de raciocinar sem as pressões do modelo seminarista.

Ao Espiritismo acorrem não apenas os miseráveis do sistema, tantas vezes humilhados. Um grande número de intelectuais, amantes de liberdade, aderem à nova doutrina e far-se-ão ouvir pela liberdade de crença.

Assim como a fé, o idealismo nunca foi propriedade da igreja. Idealistas existiram sempre em todos os tempos e uma de suas características mais marcantes é a independência. As fogueiras da inquisição fizeram cinzas de muitos deles, mas multiplicaram-nos também ao infinito.

A seu turno, a ciência oficial, muitas vezes comprometida com o sistema econômico, incumbiu-se de procurar explicações extravagantes para os fenômenos mediúnicos. Teorias se acumularam na ânsia de condenar as conclusões apresentadas pelos espíritas. O preconceito era aí também muito forte.

Cairbar Schutel aparece no cenário em meio a esta realidade. Em pouco tempo revela-se um idealista puro, decidido a defender o último reduto livre do conhecimento. Livre, sim, porque enquanto as instituições culturais e religiosas sempre estiveram atreladas ao poder ou por ele eram manipuladas, o Espiritismo surgia sem nenhum vínculo. Podia, pois, optar pelos pobres numa época em que isto era arriscado. A opção, no entanto, não poderia ser mera ocupação de espaço ou intenção de recuperar o tempo perdido. Ela advinha exatamente de uma visão nova do próprio ser humano e interessada em fazê-lo livre pelo conhecimento, crente pelo raciocínio.

Cairbar, entretanto, estava destinado a ser mais do que um simples combatente. Na verdade, por sua forma de pensar, capacidade de ação, senso de responsabilidade, bravura e, acima de tudo, profundidade ao olhar o Espiritismo, ele foi um verdadeiro comandante, amado e seguido, um exemplo na Terra da "superioridade moral irresistível" natural entre os Espíritos.

 

 

II

 

O pensamento espírita de Cairbar Schutel

 

 

Não foi Cairbar Schutel um pensador no sentido estrito do termo. Dentre os livros que escreveu, nenhum há que demonstre qualquer preocupação acadêmico-filosófica. Não tencionou realizar perquirições profundas, questionamentos e abstrações metafísicas. Sua obra literária não possui liames previamente definidos, pelos quais se perceba a existência de um plano traçado com antecedência e a busca de objetivos em momentos que se sucedem em cada um dos seus livros.

Em Cairbar Schutel as coisas acontecem com uma rapidez inimaginável. Ele é ao mesmo tempo um instrumento dócil, entregue às forças da inspiração, mas também um homem de vontade própria e objetivos claros. Uma personalidade convicta.

Na Matão do início do século ninguém será filósofo. Cairbar se transformará num verdadeiro bandeirante, corajoso, audaz; fará entradas nos domínios mais fechados do pensamento dogmático e fincará as bandeiras de uma nova ordem espiritual.

Essa ação atrairá a fúria do clero romano e do protestantismo. Ambos se sentirão ofendidos pela presença impertinente de um homem que pensa em voz alta e fala aos sussurros com os Espíritas. Daí nascerá um embate que atravessará os anos e deixará atrás de si uma trilha de livros e obras sociais.

Cairbar Schutel concentrará suas forças na solidificação de uma entidade espírita voltada à propaganda da literatura doutrinária - "a nossa tarefa está limitada à divulgação da missão kardecista" - enquanto ele mesmo se dedicará a conquistar espaços entre os grupos sociais para a mensagem espírita.

Para tanto, constrói no seu íntimo uma convicção inabalável sobre a doutrina codificada por Allan Kardec. Em primeiro lugar, ele não tem dúvidas sobre os seus postulados, só certezas. O estudo dessas obras trouxe-lhe uma crença profunda nas realidades espirituais. Essa crença é a primeira conseqüência do seu encontro com a Doutrina Espírita.

Não surge pronta, entretanto, a crença. Ela sofre um processo de maturação, acelerado em virtude das circunstâncias excepcionais do ambiente social em que se situa. As criticas deflagradas pelos opositores do Espiritismo vão atingi-lo em cheio, porque serão dirigidas tanto à sua pessoa quanto à doutrina.

"E preciso - dirá Cairbar - que o espírito tenha uma caridade quase ilimitada para suportar com tranqüilidade o ataque desleal, injusto e sistemático, que contra o Espiritismo movem os sacerdotes de Roma e do protestantismo." (4)

04. Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

A caridade - hoje um termo tão desgastado - é uma segunda conseqüência em Cairbar Schutel. A convicção doutrinária junta-se um sentimento de solidariedade que não é novo nele, mas que encontra mais razões para tornar-se um fato real.

Os debates, mesmo nos momentos mais críticos e de emoção maior, levarão os contendores aos extremos, mas, pelo menos em Cairbar Schutel, as feridas jamais se transformarão em ódio. Um sentimento profundo de bondade leva-lo-á a superar a tendência natural de estender a mágoa da injustiça sofrida a tudo o que se refere ao adversário. Cairbar não odeia, ama.

Contudo, não tergiversa nem transige. "Amo - dirá - com todas as forças de minha alma a intransigência, que é, a meu ver, um dos apanágios dos espíritos fortes". (5)

05. O Clarim, 13/06/1914.

Em Cairbar todos os sentimentos se fundem para dar lugar a um espírito ao mesmo tempo caridoso e capaz. A coragem encontra nele uma expressão que raríssimas vezes se vê. Ele perdoa a tudo, menos à fraqueza dos homens, que põe em risco a verdade.

Poucas vezes Cairbar travará discussões com os próprios espíritas. Isso não significa que ele não mantivesse opinião divergente em relação a diversos aspectos doutrinários. Como o faz em "Médiuns e Mediunidades", onde afirma: "Não podemos compreender a atitude dos centros que resumem seus deveres ao exercício de uma ou duas sessões por semana".

Voltado para a divulgação, não encontra tempo para discussões internas. Entretanto, quando elas ocorrem, prevalece sempre sua postura de homem vertical, franco, extremamente fiel à causa, que não admite a fraqueza do espírito. Dizia ele: "da tolerância à transigência vai uma distância tão grande como da Terra a Marte." (6)

06. O Clarim, 13/06/1914.

Este traço é acentuado em Cairbar e ele tenta passá-lo àqueles com quem convive e faz escola. Inspira-se, certamente, na figura admirável de Paulo de Tarso, que, conforme diz, "era um moço vigoroso, de Espírito forte". (7) Nele encontra motivos para a conduta que determina para si próprio, com tanto rigor. "Paulo, diz, era um homem de grande instrução, racionalista, não se converteria sem um conjunto de provas que pudessem convencê-lo da Verdade Cristã." (8)

(7), (8) - parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Embora distanciados no tempo e no espaço, Paulo e Cairbar desenvolvem uma ação em muitos pontos semelhantes. Ambos são divulgadores de uma mensagem, que consideram de capital importância para a humanidade. Paulo viaja bastante, Cairbar não tanto, mas os dois possuem uma idêntica coragem para lutar contra o dogmatismo. Suas personalidades se parecem até na independência com que atuam: não se submetem a pressão de qualquer espécie e não vivem do sacrifício alheio. Paulo é tecelão, Cairbar farmacêutico.

O que Cairbar fala de Paulo vale para si mesmo: "Absolutamente independente, ele nunca se aproveitou de sua autoridade para receber o que quer que fosse para seu uso particular". E mais: "...homem severo, mas justo, intemerato, sábio, poliglota, orador..." (9)

(9) - parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Os maiores inimigos de um seriam, depois, os piores inimigos do outro. Embora distanciados no tempo e vivendo épocas distintas, tiveram ambos que travar suas mais duras batalhas com os representantes do poder religioso, estes sempre mais fortes e contando com maior apoio material. Lutaram, todavia, em prol da liberdade, sob a direção de uma consciência bem expressa nestas palavras de Cairbar: "Discutir idéias, expor argumentos às acusações infundadas que contra nós são atiradas, contestar as opiniões errôneas que contra nós são apresentadas, rebater as calúnias, apontar as mentiras, desmascarar a hipocrisia, tal deve ser o afã de todo espírito sincero, cônscio dos deveres que lhes são confiados". (10)

(10) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

As virtudes, pois, em Cairbar expressam-se nesta presença de um coração caridoso, sempre pronto a auxiliar ao necessitado e perdoar o ofensor. Nunca, entretanto, a permitir que a falsidade prejudique aqueles que buscam o conhecimento.

 

*

 

Um terceiro momento em Cairbar pode ser sintetizado na maneira como ele compreende a Doutrina Espírita. De fato, Cairbar não discute os novos conhecimentos; absorve-os como se os encontrasse após intensa procura. O fato de não discutir não significa a existência de uma crença cega. Pelo contrário, a nova doutrina é que vai favorecê-lo no uso da racionalidade. O encontro dele com a doutrina funciona como a descoberta do vírus para o cientista. A partir daí as hipóteses cedem lugar às certezas.

Mais tarde, dirá ele que "a obra de Allan Kardec é inexcedível. De todos os espíritos que têm vindo à Terra ele é o verdadeiro mensageiro de Jesus, sob cuja direção agiu".(11)

(11) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

O cristianismo, na sua forma primitiva, quando estava ainda isento das influências que viriam a modificar. substancialmente sua natureza, reaparece para Cairbar na inteireza da nova doutrina. Estão de volta, agora com a vantagem do progresso tecnológico de quase dois mil anos, os fenômenos mediúnicos, as curas, a reencarnação, a evolução do espírito, enfim todos aqueles conhecimentos muito cedo subtraídos das informações cristãs nascidas com a missão de Jesus.

A fé deixa de existir como dogma e retorna à sua origem. O Cristo perde a auréola de construtor de milagres e retoma as características de espírito evoluído. As leis naturais adquirem novas dimensões. Os homens são tratados como seres em evolução e não mais como espíritos de uma única existência. A vida além da matéria ganha perspectivas novas: deixa de ser uma esperança vazia para se tornar um fato dinâmico.

A crença e a caridade, os dois primeiros momentos de Cairbar, são alimentadas nele pelo conhecimento doutrinário. Este, ao mesmo tempo em que lhe garante energias para a luta, amadurece-lhe o espírito, permitindo-lhe uma compreensão do mundo superior à dos homens comuns.

 

 

III

 

Cairbar Schutel e a fenomenologia espírita

 

 

Ao contrário da tendência que se notaria mais tarde, entre os adeptos do Espiritismo, Cairbar Schutel consagrou aos fenômenos mediúnicos uma importância tão grande quanto aos aspectos morais e filosóficos da Doutrina Espírita. Para ele, a moral era tão importante para os homens quanto os fenômenos que comprovam a existência do espírito. Um complementa o outro.

Longe dele o deslumbramento do neófito; importa-lhe sobretudo não perder de vista os fatos, únicos capazes de vergar os negativistas. Assim, os fatos são o poderoso instrumento para convencer a opinião pública sobre a existência de uma outra vida além da morte. Com isto, ele vai realçar os fenômenos em toda a sua obra, utilizando-os ora como instrumento de combate às idéias dos adversários, ora como veículos de informação aos leitores de O Clarim e Revista Internacional do Espiritismo.

Fosse qual fosse o fato, sendo verídico, dele se servia Cairbar. "O Espiritismo, afirma, é assunto do dia e as curas Espíritas revolucionam os cérebros que engendram, cada qual, opiniões as mais desbaratadas, semelhantes as dos contemporâneos de Newton sobre a gravitação universal." (12)

(12) - Histeria e Fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Ao Espiritismo atribuía-se a causa de muitas loucuras humanas. Dizia-se que a nova doutrina era fábrica de doidos. O argumento utilizado pelo clero romano, ao qual agregava ainda a teoria demoníaca, tinha o endosso de alguns profissionais da medicina. Não importava nem mesmo a inexistência de provas científicas para embasar as acusações. Tenta-se a todo custo condenar o Espiritismo.

Contrariamente, porém, aos interesses dos adversários, as casas Espíritas se multiplicavam e nelas se operavam consideráveis curas de doentes não raros desenganados pela medicina. Era a essas curas que se referia Cairbar. Já na época ele acreditava no aparecimento de um comportamento mais positivo por parte da ciência: "...as curas espíritas estão se impondo à atenção de doutos e sábios de nossa terra e brevemente elas merecerão a sanção da ciência oficial, última sempre em abraçar as novas verdades que nos são reveladas". (13)

(13) - Histeria e fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Não poderia, porém, um homem racional a tudo aprovar sem qualquer análise. Ao mesmo tempo em que as curas atraíam a atenção de Cairbar, levando-o a delas se utilizar na divulgação Espírita, punha ele sentido na natureza humana, sempre muito pródiga na desonestidade.

Os farsantes existem em todos os lugares. Por isto, alertava Cairbar: "Há curas espíritas e há pretensas curas Espíritas ou pretensos médiuns que se intitulam curadores; discernir o falso do verdadeiro é dever de todos os homens que trabalham, que concorrem finalmente para o progresso". (14)

(14) - Histeria e fenômenos Psíquicos, 1.ª edição, 1911.

Cairbar Schutel tinha dos fenômenos mediúnicos uma visão muito segura. Podia medir-lhes a importância; conhecia-os por experiência própria, pois houvera sido intermediário em processos de cura.

"Hoje, afirma Cairbar, que a humanidade está cansada de especulações filosóficas que saem das forjas do sectarismo religioso, é preciso que as palavras se apóiem nos fatos". (15)

(15) -  Espiritismo e Materialismo, 1.ª edição, 1925.

Para Cairbar, não há dúvida de que o conhecimento oferecido pelo Espiritismo possui um extraordinário valor; ele alcança a razão das pessoas e por ali penetra. Mas o homem ainda e cada vez mais precisa de algo visível, palpável, para acreditar.

"As teorias proclamadas pelo Espiritismo - dirá - são de um valor incalculável, mas a incredulidade arraigou-se tanto no espírito humano que só mesmo os fatos (...) poderão convencer o homem de sua imortalidade". (16)

(16) - Espiritismo e Materialismo, 1.ª edição, 1925.

A mediunidade, séria e honesta, oferece tantas perspectivas de comprovação das teorias espíritas, que Cairbar Schutel não perdoa aqueles que se dizem espíritas mas são incapazes de olhar com proveito os fenômenos. Em "Médiuns e Mediunidades", ao analisar diversos ângulos da questão, diz:

"Como nos dói na alma saber da noticia de uma casa assombrada e lemos em seguida: "lá compareceram os Espíritas e os fenômenos cessaram!..."

"Não seria mais lógico - pergunta Cairbar - mais racional, mais religioso que os Espíritas, após a verificação da autenticidade do fenômeno, estimulassem a sua intensificação para que todos pudessem verificá-lo?" (17)

(17) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

O fato é que entre os próprios espíritas vigem certos preconceitos com relação à mediunidade, havendo até quem endosse a teoria, trazida naturalmente dos meios ignorantes, de que ela representa algum tipo de perigo para as pessoas. Isto deu origem a um movimento recente alertando contra a tentativa de implantação de um Espiritismo sem Espíritos.

Em Cairbar Schutel, "o uso da mediunidade não oferece perigo; o abuso, sim, é perigoso". (18) Daí porque se bate em prol de um tratamento mais adequado da questão.

(18) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

"A abstenção do estudo e da experimentação de um fenômeno - afirmará ele em 1923 - sob pretexto de perigo, não é consentânea com a razão, nem com a ciência, como também é um entrave à lei do progresso, da Verdade." (19)

(19) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Não faremos justiça se omitirmos um detalhe: em Cairbar Schutel a propaganda dos fenômenos não é a mesma coisa que a realização de reuniões práticas abertas ao público, com o intuito de fazer espetáculo. Cairbar nutre pelos espíritos uma atitude de profundo respeito e compreende o caráter privado que devem conter certas atividades.

"A divulgação do Espiritismo - diz - não está afeta a esses trabalhos práticos, mas sim a propaganda de sua doutrina racional, consoladora e que se arrima sobre os fatos verificados sob a mais rigorosa fiscalização". (20)

(20) Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Dar publicidade ao fato comprovado é uma necessidade. Negar ao fenômeno qualquer importância na modificação do comportamento das pessoas é não ver a realidade.

Cairbar vai mais além ao relacionar os fenômenos com o Cristianismo: "Não é o timbre moral da doutrina que faz os adversários curvarem a cerviz ante a palavra de Jesus, mas, sim, os fenômenos de ordem física e intelectual que reluzem nas páginas dos Evangelhos, fatos que, digamos de passagem, com maior ou menor intensidade, nunca deixaram de se produzir desde tempos imemoriais até à época em que nos achamos". (21)

(21) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O fato mediúnico está na base das revelações: aparece em Moisés, no Sinai; vem com Jesus, nos três anos em que noticiou as boas novas; ressurge, novamente, em Kardec, em meados do século XIX. Se em Moisés e Jesus o fato mediúnico funciona como elemento de atração e persuasão, em Kardec ele acabará se transformando no próprio canal da revelação.

"Na verdade, pergunta Cairbar, que seria do Cristianismo sem as curas, sem as manifestações diversas, sem as aparições?" (22)

(22) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A mediunidade alcança em Cairbar uma importância extraordinária. Não se trata de uma coisa banal, mas de algo que convive com a humanidade que está presente em todos os momentos importantes da vida na Terra, nos acontecimentos mais simples ou mais complexos.

Divulgar a mediunidade é mostrar os fatos e "os fatos são o 'tudo' da Religião, da Ciência e da Filosofia" (23) garante Cairbar.

(23) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O ideal de Jesus foi "demonstrar a existência do Espírito e sua sobrevivência à desagregação corpórea". (24) Longe, pois, da concepção mística que lhe foi atribuída.

(24) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

O fato busca a razão. Cairbar é um racionalista. Ele ama a Deus, crê-se um homem religioso, mas não se sente impulsionado a uma atitude mística, nem a um comportamento que traduza a existência de preconceitos castrantes. "É preciso construir a crença como se constrói uma casa". (25) Isto é, tijolo a tijolo, conhecimento a conhecimento, fato a fato.

(25) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

"Muitos missionários vieram à Terra, mas um só se conta que aliou a palavra aos fatos, os fenômenos conseqüentes e subseqüentes da vida eterna aos princípios da moral mais pura, mais tocante, mais elevada e, ao mesmo tempo, mais simples que se pode conceber". (26)

(26) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A sua visão das revelações é coerente: todas têm por base os fenômenos mediúnicos. A eles, portanto, o devido valor.

 

 

IV

 

Por um espírito livre, consciente

 

 

Cairbar Schutel é a demonstração evidente do poder do ideal. Quando o padre e o pastor o encontram na propaganda do Espiritismo e fazem-se seus adversários ferrenhos, despertam nele uma capacidade rara de analisar e julgar, com imaginação e praticidade, sem perder os mais simples detalhes. Surge, pois, o crítico obstinado, intransigente, que desce às minúcias dos fatos e as põe à mostra.

Abre-se para Cairbar um novo ângulo de análise: a parte moral da doutrina. Os representantes do poder religioso, sem o saber, fornecem-lhe motivação para o estudo da Religião, com o que se fechará o circuito em que transita o Espiritismo: filosofia, ciência e moraI.

"A Religião - dirá ele - não pode ser manifestação platônica a serviço dos cultos ou dogmas de qualquer Igreja; não é monopólio de determinado povo ou raça; é um apelo à razão e ao sentimento e conduz o Espírito a destinos ignotos, mas imortais". (27)

(27). Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

De fato, com o Espiritismo a idéia de Religião sofre uma mudança completa, aproximando-se da definição dada por Jesus, através da qual Deus deveria ser adorado "em espírito e verdade", portanto, dispensando o intermediarismo de qualquer espécie. Os cultos ritualísticos, os dogmas de fé são expressões simbólicas que tendem a substituir a realidade e a obliterar a razão. As imagens são outros tantos símbolos criados para satisfazer a necessidade do povo, enquanto se lhes subtraía a possibilidade de conhecimento das questões efetivas do espírito.

A Religião tornou-se instrumento de dominação; foi posta a serviço dos interesses econômicos. Ora, uma tal Religião não poderia ser tida senão como o tóxico que adormece as consciências.

"A Verdadeira Religião desperta altas aspirações e torna-se um liame entre as almas e Deus; por isso não pode deixar de ter caráter permanente, no tempo e fora do tempo, no espaço e fora do espaço!" (28)

(28) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Longe de dominar, a Religião liberta; ao invés de enganar, esclarece; não foge ao estudo da natureza espiritual das coisas, mas se debruça sobre ela para compreendê-la e desvendá-la. Estimula a fé, mas não a toma à custa dos dogmas.

"A fé sem conhecimento pode ser comparada a uma candeia mal provida, que à meia-noite não dá mais luz". (29) Isto é, a fé dogmática estremece, desmorona ao primeiro choque. A fé espírita não é produto da imaginação. Com e Espiritismo descobre o homem que a sabedoria é a maior aliada da fé. A fé Espírita é pois raciocinada.

(29) - Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

A partir do advento do Espiritismo, não se crê mais por medo; acredita-se apenas naquilo que pode ser explicado com lógica. A vida perde sua condição unitária, a morte deixa no túmulo apenas os ossos. O homem torna-se um ser evolutivo; sua individualidade mantém-se integra a cada desencarne e retorna sempre às experiências físicas.

A própria dor perde seu caráter de casualidade. "Neste mundo ainda atrasado, dirá Cairbar, onde viemos progredir, a dor parece ser a sentinela avançada a nos despertar para a perfeição". (30)

(30) -  Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Ao tomar conhecimento dessas novidades acenadas pela pena de Cairbar Schutel, os representantes do poder religioso ameaçam seus adeptos com castigos eternos, escancarando as portas do inferno. O Espiritismo é resultado da ação do diabo, garantem os padres do início do século em Matão. Todos, pois, que nele acreditarem serão condenados, sem direito a defesa. Sem apelação.

Cairbar responde: "O diabo é sempre invocado pelo Catolicismo para combater as idéias que vêm de encontro à sua teoria preconcebida". (31) O que os padres católicos não percebem é a ineficácia de tal expediente diante dos novos tempos. Há muito a Igreja Católica perdera o domínio sobre o saber. Decerto sua influência é ainda grande. Outros núcleos, porém, já se haviam libertado e dado início à formação de homens de consciência livre. Todos sabem que o diabo não passa de um pretexto intimidatório, a encobrir outros interesses.

(31) -  O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

E o que percebe Cairbar: "O diabo do sacerdócio romano está para o Espiritismo assim como o diabo do sacerdócio hebreu estava para o cristianismo: é o mesmo espírito de intolerância e aversão a todas as verdades que vêm libertar os homens do sofrimento e da ignorância". (32)

(32) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

A preocupação com o destino espiritual do homem era o disfarce que encobria o medo da perda de um rebanho tão lucrativo. Os cuidados com a conduta dos adeptos era outra falácia bem urdida pelos senhores vigários. Na verdade, "...a Igreja de Roma a ninguém condena por deixar de praticar as verdades verdadeiras, como o amar ao próximo; porque com isto pouco a igreja se incomoda; as labaredas eternas estão reservadas aos que tiverem a audácia de descrer dos dogmas - artigos de fé que dão o numerário para os seus ministros". (33)

(33) - O Diabo e a Igreja, 1.ª edição, 1914.

Outra seria a identidade da verdadeira religião. Sua face mais nobre consiste em instruir os homens sobre as coisas do espírito. Qual o que, a religião que herdamos dos nossos antepassados sequer nos pode dizer quem somos, de onde viemos e qual o nosso destino. Há um silêncio tumular pesando sobre nossas cabeças. De quando em quando um sussurro quebra essa horrível monotonia. De dentro dos seminários alguém sugere um símbolo qualquer, algo como que misterioso que a ciência nem o progresso aceitam.

Positivamente, "não é nos templos nem nas academias que encontraremos o registro da nossa individualidade...". (34) Vivemos quase dois mil anos sem nome e sem documento, perdidos nos prazeres que se esgotam e nos esgotam, vivendo repetidas experiências na crença de que jamais fomos ontem. Somos seres sem passado que pretendem ter futuro, como se a vida pudesse existir sem história.

(34) Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

A pergunta se renova: "onde está o sábio, onde o padre, que não esclarecem sobre o nosso passado? Onde a sabedoria da ciência e a luz da religião que não iluminam os primórdios do meu espírito, o nascimento de minha alma?" (35)

(35) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Como esclarecer sobre o ser superior da natureza se nem mesmo os mais simples podem ser explicados convenientemente. Ora, "as religiões parasitárias têm negado com a maior desfaçatez a alma dos animais. Fascinados pela vida material e seu bem-estar que visam usufruir, cerceados pelo dogma execrando que condena o raciocínio, oblitera a consciência e impõe a fé passiva, os sacerdotes presos às suas doutrinas pessoais trabalham para manter a ignorância do povo, negando-lhe o direito de pesquisa, de livre exame, condições indispensáveis para a conquista dos conhecimentos que acionam a evolução espiritual". (36)

(36) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Precisa o homem libertar-se desse jugo, que o ilude, e defender seus direitos, sua consciência. Nossa religião, herança do passado, nos atira no túmulo e fecha a gaveta sem maiores informações. É como se fôssemos jogados no nada do materialismo. Porém, "o nada não existe; trevas, morte, sepulcros não são mais que berços que acalentam variadas formas de vida para entregá-las à eternidade". (37)

(37) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

E com o Espiritismo alerta Cairbar Schutel: "A Lei de Evolução Anímica é a única que explica a origem da alma...". (38)

 (38) - Gênese da Alma, 1.ª edição, 1924.

Precisamos construir a nova Religião que respeita a realidade do indivíduo. "E preciso construir a fé, como se constrói a casa". O Espiritismo que aí está "é tolerante, não exige uma crença cega". (39)

(39) - Médiuns e Mediunidades, 1.ª edição, 1923.

Devemos buscar uma Religião que não negue os fatos mediúnicos e não os transforme em instrumento de dominação. Ao contrário, que os estude com rigor cientifico, porque "todos esses fatos, tidos como miraculosos pela ignorância popular e pelo autoritarismo clerical, não eram mais do que provas objetivas dos atributos do Espírito, magnificamente sintetizadas no Filho do Homem". (40)

(40) -  Parábolas e Ensinos de Jesus, 1.ª edição, 1928.

Precisa o homem de uma religião duradoura, que "desperte altas aspirações", sem dogmas, cultos, mistérios insondáveis, ritualismos, condicionamentos místicos. Uma Religião que una fé e razão, ciência e filosofia; que tenha por base a moral pura do cristianismo e por lema amar e instruir. Precisamos do Espiritismo, dirá Cairbar Schutel.

 

 

V

 

Cairbar Schutel e seus livros

 

 

Os livros surgem em Cairbar Schutel em decorrência de três fatores: em primeiro lugar, as polêmicas a que foi conduzido pela ação dos padres católicos e pastores protestantes; em segundo lugar, pela oportunidade de abordagem de determinados temas, que o momento oferecia; finalmente, para cumprir antigas aspirações que o autor alimentava.

Muitos desses livros tiveram sucessivas edições e foram estudados por diversas gerações, nas escolas e cursos mantidos por instituições espíritas. Eles ultrapassaram as divisas da pacata Matão e espalharam-se por todo o País, indo até o exterior. Inspiraram oradores, tornaram-se modelo para escritores espíritas, muitos dos quais posteriormente alcançaram grande projeção. Instruíram médiuns, colaboradores de instituições espíritas e dirigentes doutrinários.

Estas obras estão impregnadas do caráter do autor. Nelas não se percebe apenas o estilo vigoroso de Cairbar, mas também a sua forma de ser e agir.

Não são livros de expressão literária. Foram elaborados entre um afazer e outro, de modo despreocupado quanto ao apuro do estilo e ao esmero da linguagem. Cairbar não é um intelectual de formação acadêmica. E um autodidata. Seus conhecimentos foram acumulados através do esforço do dia-a-dia, entre a luta pela sobrevivência e o descanso. Considera-se ele um divulgador, aquele que tem a tarefa de levar a mensagem ao público e com ela exercer algum tipo de persuasão.

Sua linguagem é simples, direta, como convém ao jornalista que trabalha com a informação. Não podendo se aprofundar em pesquisas e pião dispondo dos recursos culturais dos grandes centros urbanos, vale-se muitíssimo da inspiração e da intuição, através das quais formula o plano dos livros, quando isto se faz possível. Afinal, está ele em contato com os Espíritos de modo constante e aproximado. Essa situação confere-lhe um poder extraordinário de bem utilizar o tempo. E só assim consegue desenvolver os diversos e simultâneos momentos de sua vida; é o farmacêutico, o amigo dos pobres, o diretor do jornal e da revista, o homem que deve responder às críticas dos adversários da doutrina; o orador, o marido e o administrador. O escritor, enfim, que não escreve apenas, mas deve coordenar a composição gráfica, efetuar as revisões, dirigir a impressão, distribuir os livros, cuidar da cobrança.

Fácil, pois, perceber as razões pelas quais escreverá obras despreocupado dos aspectos literários. Ele não deseja um lugar na academia, pois já se sente imortal; aliás, é possuidor de uma certeza, neste aspecto, de fazer inveja a qualquer titular da academia: a certeza da imortalidade.

Entre os livros surgidos em decorrência das polêmicas incluímos as primeiras quatro obras escritas e editadas por Cairbar Schutel: Espiritismo e Protestantismo (1911) , Histeria e Fenômenos Psíquicos (1911), O Diabo e a Igreja (1914) e Interpretação Sintética do Apocalipse (1918). Junte-se a estes os opúsculos Cartas a Esmo (1929), A Questão Religiosa, Liberdade e Progresso e Pureza Doutrinária, os três últimos sem registro de data de edição.

No segundo grupo, de temas oportunos, reunimos: Gênese da Alma (1924), Espiritismo e Materialismo (1925), Os Fatos Espíritas e as Forças X... (1926), A Vida no Outro Mundo (1932), Conferências Radiofônicas (1937) e ainda os opúsculos Preces Espíritas e Espiritismo para as Crianças, cujas datas de edição não foram localizadas.

Finalmente, chegamos aos livros resultantes de estudos mais demorados e profundos, que incluímos no terceiro grupo: Médiuns e Mediunidades (1923), Parábolas e Ensinos de Jesus (1926), O Espírito do Cristianismo (1930) e Vida e Atos dos Apóstolos (1933).

 

Ligeiros apontamentos de alguns livros

 

Espiritismo e Protestantismo encabeça os livros de Cairbar Schutel. Foi o primeiro de uma série que somará vinte títulos, aí considerados os opúsculos e, também, O Batismo, editado após a sua morte.

Espiritismo e Protestantismo é também o primeiro da relação dos oito que surgiram em decorrência das polêmicas. Reúne os debates travados entre Cairbar e o professor Faustino Ribeiro Júnior, um protestante que deu início à polêmica ao publicar um artigo no jornal O Alfa, da cidade de São Carlos, interior de São Paulo, no qual ataca o Espiritismo. O ano era 1908.

"O professor Faustino empregou todos os esforços para destruir em vez de edificar; esgotou os seus recursos intelectuais para demonstrar a falsidade da Doutrina dos Espíritos, mas, com franqueza, assentes em uma base frágil se esboroam e dissipam com o próprio fundamento que por momento lhe serviu de amparo".

Com estas palavras, Cairbar inicia sua réplica ao ataque. A polêmica, a partir daí, está estabelecida e só vai terminar com a desistência do protestante, completamente perdido em seus raciocínios.

Histeria e Fenômenos Psíquicos aparece em conseqüência dos fenômenos acontecidos no dia 15 de outubro de 1909, em São Paulo, relatados pelo jornal "Correio Paulistano", que envolviam o transporte de objetos e tinham por centro de atenções uma jovem. As interpretações dadas ao caso foram as mais disparatadas. Um médico, entre outros, que não chegou a assistir os fenômenos, classificou-os de histerismo. Cairbar pagou para ver, ou seja, entrou na disputa para interpretar o caso à luz dos conhecimentos espíritas.

O Diabo e a Igreja surge em resposta aos ataques que o padre Bento Rodrigues, através de artigos publicados no "São Carlos", jornal da cidade que lhe dá o nome e de propriedade do Bispado local, desferiu contra o Espiritismo. Como o padre reuniu os artigos em um livro, Cairbar responde-lhe com este O Diabo e a Igreja.

Interpretação Sintética do Apocalipse segue a mesma linha crítica. É uma resposta de Cairbar, principalmente às aleivosias partidas do clero romano.

"Mais de uma das conspícuas personalidades do mundo católico - afirma Cairbar - clérigos e leigos, têm tido a inaudita coragem de, sem mesmo conhecer a matéria de que tratam, afirmar que o Dragão e a Besta, caracterizados no Apocalipse de João, são representados pela Maçonaria, pelo Espiritismo e por todos aqueles que não participam de suas idéias dogmáticas". Cairbar vai, justamente, demonstrar que esses animais simbólicos se assentam perfeitamente ao catolicismo.

Cartas a Esmo, que inclui o discurso do Bispo Strossmayer pronunciado no Concílio de 1870 contra a infalibilidade papal que então se votava, responde às críticas do Bispo de Florianópolis, D. Joaquim Domingues de Oliveira.

Médiuns e Mediunidades constitui um esforço de resumir os principais aspectos da fenomenologia estudada no Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, para "orientar a todos aqueles que (...) procuram a Verdade..."

Gênese da Alma destina-se a "demonstrar com bases sólidas, fatos verificados e verificáveis, e argumentos irrefutáveis, a imortalidade da alma..."

Parábolas e Ensinos de Jesus, O Espírito do Cristianismo e Vida e Atos dos Apóstolos constituem o trio moral. Com eles, Cairbar Schutel realiza uma velha aspiração: debruçar-se sobre os ensinamentos cristãos e analisá-los com base na filosofia espírita.

Em Parábolas e Ensinos de Jesus, em agradecimento aos Espíritos, confessa: "Como poderia eu escrever os ditames contidos nesta obra sem o vosso paternal auxílio?".

Com O Espírito do Cristianismo prossegue os estudos morais, comentando as diversas fases da vida do Cristo narradas pelos evangelistas.

Vida e Atos dos Apóstolos completa a tríade. Trata-se de uma "compilação de 'Atos dos Apóstolos', comentada e ampliada com dados históricos que pudemos obter sobre a vida dos apóstolos e sua ação..." Foi escrito em apenas trinta e cinco dias.

A Vida no Outro Mundo resultou de uma conferência feita por Cairbar tempos antes: "Passados anos - ele afirma - verifiquei que a doutrina expendida nessa conferência não era uma ficção e nem uma mera fantasia de uma exaltação da Imortalidade..." Neste livro Cairbar procura estudar as formas de vida, constituição e disciplina dos mundos habitados, bem como das colônias espirituais existentes no espaço. Na época do seu lançamento o Brasil não conhecia ainda as obras de André Luiz, que vieram a tornar mais compreensível o "outro lado da vida".

Um livro há que alcançou sucessivas edições pela oportunidade do assunto mas não foi preparado pelo autor. Trata-se de O Batismo, que reúne páginas escritas por Cairbar Schutel, as quais foram recolhidas pela editora após a sua morte.

 

*

 

Cairbar Schutel nunca teve a si mesmo como escritor. Jamais se preocupou com a forma, o estilo e outras técnicas literárias. Seu objetivo era o conteúdo. Apesar disso, poucos autores brasileiros, no âmbito do Espiritismo, foram tão lidos e influenciaram tanto aos seus leitores. Escreveu com coração e coragem. Consolou, esclareceu e amou.

 

 

VI

 

Cairbar: De farmacêutico a jornalista

 

 

Deixamos propositadamente para o final esta parte importante da vida de Cairbar Schutel: o jornalista. Foi por ela que este grande homem iniciou suas atividades de divulgador. Não de espírita, claro, mas de jornalista dedicado a perpetuar pela pena as informações de cunho espiritual, fazendo-as chegar ao seu público.

As circunstâncias, já conhecidas, que o levaram à fundação do jornal O Clarim, em 1905, e da Revista lnternacional do Espiritismo, em 1925, revelam o grau das dificuldades enfrentadas e vencidas, bem como - e aí está um fato notável. - o aparecimento do jornalista que, a partir de então, passará a viver lado a lado com o farmacêutico.

A criação do jornal bem cedo - cerca de um ano após sua conversão ao Espiritismo - muda profundamente a situação. Cairbar não é mais e simplesmente o dirigente de um Centro Espírita; sequer o polemista. E também o jornalista, aquele que vai trabalhar com a matéria-prima chamada informação. Como tal, terá sua atenção voltada para detalhes, situações, fatos que antes poderiam passar despercebidos.

Como jornalista, Cairbar revela-se extraordinário. O fato de editar um periódico quinzenal - O Clarim - e outro mensal - Revista Internacional do Espiritismo - numa cidade de recursos limitados, condições de transporte difíceis e deficientes meios de comunicação, esse fato, repito, por si só já seria surpreendente. Mas o que espanta, verdadeiramente, é o tino jornalístico revelado em Cairbar. Se as polêmicas tiveram influência na criação de um canal de comunicação livre com o público, a existência desse canal só seria positiva se os veículos fossem produzidos com um mínimo de técnica e visão. Cairbar soube fazê-lo.

O Clarim nasce com uma linha editorial clara: falar de Espiritismo ao público mais simples, de poucos recursos financeiros e culturais. Sua linguagem deveria adequar-se a esse objetivo. Além do mais, já de início revela-se livre de determinados preconceitos, demonstrando opiniões abertas a respeito de fatos e situações existentes dentro e fora do movimento espírita. Suas fontes principais de informação são as correspondências e os amigos. Falta, muitas vezes, à informação alguns componentes importantes, como datas, locais, etc., mas isto se deve mais às deficiências da fonte, naturalmente compreensível.

O Clarim ganha rapidamente o respeito e a admiração do público e ultrapassa os limites da própria Matão. A personalidade de Cairbar está presente nele. E ela que o faz intrépido, corajoso, capaz de alcançar os redutos dos adversários da doutrina. E será ela ainda que o fará reportar-se aos fatos, onde quer que ocorram, transformando-os em meios de propaganda da mensagem espírita.

Anos depois de lançado O Clarim, o jornalista percebe que é preciso alcançar um outro tipo de público, mais culto e socialmente mais elevado. O veículo deverá ser outro, também. A visão é correta. Cairbar sabe que para cada tipo de público deve haver um veiculo específico. Neste caso, o tratamento da informação merecerá uma atenção especial, de modo a adequar-se aos objetivos. O jornalista, como sempre, não está preocupado com o esforço a desenvolver para que a doutrina seja divulgada. Um novo veículo não dobra o trabalho; multiplica-o muitas vezes, porque traz em seu contexto novas e diferentes exigências. Nada disso atemoriza Cairbar.

 

 

Mensagem Psicografada por Cairbar Schutel

 

Esse exemplo atravessará os tempos e chegará até os nossos dias. Trata-se de algo extraordinário, raro, só concebível no espírito daquele que incorpora decisivamente o ideal do bem. Muitos falam de um grande amor que sentem pela Doutrina Espírita. Cairbar, mais do que dizê-lo, demonstra-o com criatividade, trabalho, dedicação quase exclusiva. Tem o espírito do apóstolo, a coragem do bandeirante.

A Revista Internacional do Espiritismo, que surge em 1925, obedece em tudo aos planos traçados. Logo se transforma numa espécie de Revue Spirite brasileira. Nela aparecem colaborações das mais lúcidas inteligências do Espiritismo mundial. Cairbar dedica atenção especial aos fenômenos mediúnicos analisados à luz dos conhecimentos científicos e espíritas.

Autores do porte de Léon Denis, Ernesto Bozzano, Paul Gibier, Eugene Pelletan, Raul Montandor, entre outros, surgem constantemente em suas páginas ao lado de cronistas brasileiros.

A RIE, como se tornou conhecida a Revista, não publica apenas matérias nacionais; justificando seu título, mantém correspondência com várias partes do mundo e possui à época uma coluna fixa - "Crônica Estrangeira" - para divulgar os fatos e depoimentos de personalidades de outros países.

Seu programa prevê abstenção completa das discussões da questão religiosa: "...temos nos abstido de discussões religiosas, que não fazem parte do nosso programa..." Esta parte cabe a O Clarim. Volta-se especialmente aos fenômenos: "Na parte científica, que é justamente a que desenvolve o principal escopo da nossa tarefa, parece que temos sido pródigos..." As afirmações são sempre de Cairbar.

A RIE retoma, de fato, no Brasil aquele filão magnífico aberto por Allan Kardec com a criação da Revue Spirite.

Se o momento presente permite-nos medir o real valor da RIE, impressa no melhor dos couchês importados, variadíssima no noticiário que abrange a todos os continentes, isso nem sempre aconteceu à sua época. Como ocorre modernamente com certos livros Espíritas de produção esmerada, os conservadores da época criticavam a RIE, apontando a existência de um certo luxo em sua confecção, algo que julgavam incompatível com o Espiritismo.

Apesar disso, Cairbar não se abala e mantém firme o projeto do veículo: "...triunfamos da primeira prova e à medida que o tempo corre vão se desvanecendo as oposições e dentre os próprios que viam na nossa obra um objeto de luxo sem valor real (...) já começam anos fazer justiça..."

Esse Espírito conservador, avesso ao novo, incapaz de compreender o progresso, está nos "homens medíocres" de José Inginieros, cuja psicologia - diz este grande pensador - "caracteriza-se por um traço comum: incapacidade de conceber uma perfeição de forma, um ideal. São rotineiros, honestos, mansos; pensam com a cabeça dos outros, condividem a hipocrisia moral alheia e ajustam seu caráter às domesticidades convencionais".

Cairbar viu-se frente aos conservadores, foi por eles fustigado várias vezes. Seu ideal, porém, era mais forte: "...o Espiritismo precisava ter em nosso País, dirá, uma publicação que bem o representasse em suas manifestações - religiosa, científica, filosófica e artística".

Em Paris, a Revue Spirite prosseguia em sua existência, então sob a direção de Hubert Forestier, que, se não conseguia manter a mesma dinâmica de Kardec, era ainda um veículo voltado para as manifestações psíquicas. Mas no Brasil quem desejasse saber o que se passava no mundo em relação à fenomenologia mediúnica deveria ler, sem dúvida, a Revista Internacional do Espiritismo.

Ao completar seu décimo ano de existência, Cairbar comenta: "Dedicada de preferência à parte científica do Espiritismo, não tem ela, entretanto, deixado de abordar o lado moral, ou seja, religioso, mesmo porque é absolutamente impossível separar a ciência da religião, a sabedoria da moral, que é a arte do homem bem se conduzir para a perfeição".

Assim como ocorre na química, onde a adição de um novo elemento altera a composição original, o aparecimento do jornalista alterou profundamente a personalidade de Cairbar Schutel. Tornou-o um homem extraordinário, de uma visão grandiosa. Colocou-o, sem exagero, um passo à frente de seu tempo.

 

 

Final da Segunda Parte

 

 

 

ANTOLOGIA DE MENSAGENS ESPIRITUAIS

 

 

Presença de Cairbar Schutel na obra mediúnica de Chico Xavier:

 

- IDEAL ESPÍRITA - Ed. CEC (7.ª Ed. pesquisada) pg 103 - "Nas Culminâncias da Luta".

- VOZES DO GRANDE ALÉM - Ed. FEB (2.ª Ed. pesquis.) pg 65 - "Renovemo-nos Hoje" (15/09/55)

- LUZ NO LAR - Ed. FEB - (2.ª Ed. pesquis.) pg 52 - Cap. "O Berço" - (pensamento)

“O menino que agora enjeitamos à porta da tempestade será mais tarde um cultivador da tempestade no mundo”.

- SEAREIROS DE VOLTA - Ed. FEB - Waldo Vieira - (3.ª Ed. pesquis.) pg 67 a 74

"Partindo as algemas"

"Equação da Felicidade"

"Espíritas; meditai"

"Cristo e César"

- O ESPÍRITO DA VERDADE - Ed. FEB - F. Cx./W. Vieira - (2.ª Ed. pesq.)

"Médiuns e Mediunidades" (31/32)

"Filho do Orgulho" (84/86)

"Seja Voluntário" (136/137)

"Sê Compassivo" (214/215)

- PRAÇA DA AMIZADE - Ed. CEU - (l.ª Ed. pesq.)

"CANTADORES E MÉDIUNS" (item 5, pg 41)

"Não esperes dos médiuns, quaisquer que sejam, espetáculos de grandeza que, efetivamente, não te podem oferecer".

"CITAÇÕES DO RENASCIMENTO" (item 6, pg 48)

"Sem a reencarnação, na lei de causa e efeito, a cultura da inteligência, na Terra, será sempre um labirinto de indagações"

- "RECADOS DO PERDÃO" - (item 14, pg 100)

"Nunca revides. Aquele que te fere possivelmente estará sob a influência da enfermidade que o carreia para o extremo desequilíbrio".

- "CITAÇÕES DO PROGRESSO" - (item 15, pg 108)

"Não te lastimes quando as circunstâncias te exigirem esta ou aquela mudança; isso é sinal de que a vida te favorece a renovação".

- "DICIONÁRIO DA ALMA" - Ed. FEB (2.ª Ed. pesq.) "Cultivador" (pg 100). Idem em "Luz no Lar"

 

Presença de Cairbar Schutel na obra mediúnica de Eurícledes Formiga:

 

 - "Centelhas da Vida" - Ed. IDE (l.ª Ed.) pgs. 41 a 47

 "O dever do médium" (pg 41)

 "O médium" (pg 43)

 "Mediunidade" (pg 45)

 "Irritação" (Pg 47)

 

Presença de Cairbar Schutel na obra mediúnica de Divaldo Pereira Franco:

 

- "CRESTOMÁTIA DA IMORTALIDADE" (Alvorada Editora) l.ª Ed. 1969

"Suicídio" (pg. 44)

"Técnica de entender" (pg 122)

"SOL DE ESPERANÇA" - Alvorada Editora - l.ª edição - 1978

"Trabalho e Paciência" (pg 73)

 

Bibliografia

 

- Jornal "O Clarim" - 1905/1984

- Revista Internacional do Espiritismo - 1925/1984

- "Uma Grande Vida" - Leopoldo Machado - Casa Editora "O Clarim"

- "A Coligação Pró-Estado Leigo e a Constituição de 1891" (Publicação da Entidade do mesmo nome) - Rio de Janeiro - 1947

- Revista "Ação Laica" - Julho-Agosto-Setembro de 1947 - N.o 01

- Jornal "A Comarca" Matão-SP - coleção 1924/ 1940

- "Grandes Espíritas do Brasil" - Zêus Wantuil - Ed. FEB - l.ª ed. 1969

- "A Imprensa Espírita no Brasil" (1869 - 1978) - Clóvis Ramos Ed. Instituto Maria - 1979 - l.ª Edição

- "Grandes Vultos do Espiritismo" - Paulo Alves Godoy - Ed. FEESP - l.ª Edição - 1981

- Anuário Espírita 1968 - pg 32 - Ed. IDE

- Anuário Espírita 1972 - pg 74 - Ed. IDE

- Idéias e Reminiscências Espíritas - Deolindo Amorim - Instituto Maria - l.ª Edição

- "Revista Manchete" (02/02/ 1985)

-  "Livro dos Médiuns" - Allan Kardec

- "O Rio de Janeiro do Meu Tempo" - Luis Edmundo

- Jornal " O Imortal" - (Diversos) - Cambé - PR

- "História de Santa Catarina" - Volume 1 e 2 - Editor Said Mohamed El-Khatib - Ed. Paraná Cultural - 1970

- "História de Santa Catarina" Vol. 3 - 5.ª parte "Imprensa" por Martinho Callado Junior - Editor Said Mohamed El-Khatib - Ed. Paraná Cultural - 1970

- Idem, 3.ª parte, "A Música em Santa Catarina no Século XIX" por Oswaldo Cabral

- "Nossa Senhora do Desterro" - Vol. 2 - Oswaldo Rodrigues Cabral - Ed. Lunardelli -1979

- "Anuário Catarinense" - Diretor Gumercindo Caminha - 1954

- "História da Medicina no Brasil" - Lycurgo Santos Filho

- "Medicina, Médicos e Charlatães do Passado" - Oswaldo R. Cabral - Edição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de Santa Catarina - Publicação n.º 25 - 1942

- Jornal "O Argos" - Florianópolis - 30/06/1860

- Jornal " Estado" - Florianópolis - 08/02/1976

 

O presente trabalho foi reunido através de pesquisa de campo e entrevistas realizadas com as seguintes pessoas:

 

- Benedita de Oliveira     Matão-SP        18/07/81

- José da Cunha                Matão-SP       05/08/79

- Antoninha Perche da S. Campelo   Matão-SP  04/08/79 e 04/07/81

- Juvenal dos Santos                Matão-SP       17/07/81

- Benedita Silvério           Matão-SP

- Fuad Kfouri                   Matão-SP       04/10/84

- Genaro Gropa                Matão-SP       04/10/84

- Waldemar Wenzel         Rio Claro-SP  03/10/84

- Edo Mariani                   Matão-SP       03/10/84

- José Castro Freitas         São Paulo-SP  30/09/84

- Wallace Leal Rodrigues Araraquara-SP 05/10/84

- Belinha Perche               Matão-SP        04/10/84

- Geni Perche                    Matão-SP        04/10/84

- João José Aguiar            São Paulo-SP   26/01/85

- João Schutel Silva          SãoPaulo-SP    01/10/85

- Hugo Gonçalves (através do jornal  "O Imortal" em diversas datas)

 

Livros escritos por Cairbar Schutel

 

- Espiritismo e Protestantismo                setembro de 1911

- História e Fenômenos Psíquicos   dezembro 1911

- O Diabo e a Igreja                         dezembro 1914

- Médiuns e Mediunidades              agosto 1923

- Gênese da Alma                            setembro 1924

- Materialismo e Espiritismo          dezembro 1925

- Os Fatos Espíritas e as Forças X   maio 1926

- Parábolas e Ensinos de Jesus                janeiro 1926

- O Espírito do Cristianismo           fevereiro 1930

- A Vida no Outro Mundo               outubro 1932

- Vida e Atos dos Apóstolos            03/10/1932 (prefácio)

- Conferências Radiofônicas (16)   setembro 1937

- Interpretação Sintética do Apocalipse setembro 1918

- Cartas a Esmo

- O Batismo

- Preces Espíritas (compilação)

- Espiritismo para as Crianças

 

 

 

FIM

 

 

 

 

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