Considerações Finais

Uma análise de um ano lectivo de Área de Projecto 

  E mais um ano passou... Como começar? Bem, é melhor começar mesmo pelo início.
           
Estávamos a iniciar a área-disciplinar de Área de Projecto e, devido à experiência de alguns de nós em anos anteriores, sabíamos de que estas três horas semanais se poderiam tornar num verdadeiro pesadelo, um espaço inútil que apenas serviria para ocupar uma parte da nossa preenchida semana. Havia assim a necessidade de trabalharmos com algo que nos motivasse e, ao mesmo tempo que aprendíamos, nos divertisse.
           
Foi com este espírito lutador que começámos por escolher o tema. Tinha de ser atractivo, útil e adequado a um projecto que levaria um ano lectivo a ser concluído. Tivemos sobre a mesa várias hipóteses, mas no fim, todos concordámos que apenas uma serviria todos os propósitos que tínhamos definido anteriormente. Estava escolhido o tema “Desenvolvimento do Ciberespaço” e para bem ou para o mal, era ele que no iria acompanhar nesta longa viagem...
           
As nossas razões eram válidas e bem justificadas. Não só é um tema actual e cada vez mais enraizado na nossa sociedade, como também abria um vasto mundo de novas possibilidades, não só em termos teóricos, mas principalmente para o projecto prático. Para além disso, a maioria dos membros do nosso grupo pretende seguir mais tarde ramos ligados à Engenharia Informática ou que dela se aproveitam.
          
Com o tema na algibeira, o que se seguiria? Temos de admitir que começámos pelo mais fácil, a pesquisa. Não que nunca tenhamos debatido durante o primeiro período o que seria o nosso projecto prático. De facto, até o discutimos assiduamente, sem no entanto tirar ideais conclusivas a partir destes pequenos debates. Tínhamos várias propostas, mas todas ou nos pareciam demasiado infantis para um trabalho desta envergadura ou então demasiado arrojadas para os nossos limites. Sem nunca ter conseguido encontrar um meio-termo, atirámo-nos de cabeça para um mar negro e desconhecido, ou seja, a segunda opção. Acabámos o primeiro período a concordar que um programa informático seria o ideal, não só porque se enquadrava no nosso tema mas principalmente porque a sua criação seria algo inovador, árduo e emocionante, os ingredientes essenciais para nos prender ao trabalho e esforço exigidos.
       
Apesar deste entusiasmo, logo de início encontrámos dificuldades e que, sem perder a modéstia, considerámos gigantescas. Tínhamos o ânimo, mas faltávamos o conhecimento e experiência para prosseguir a aventura. Tal como uma criança que olha para o rebuçado do seu desejo teimosamente colocado na prateleira dos doces proibidos, demasiado alto para o seu curto braço lá chegar, também nós tínhamos um sonho, mas necessitávamos das ferramentas para trazer esse sonho para o mundo real.
           
No entanto, essa criança respondeu às adversidades com o engenho. Não nos inibimos de admitir a nossa total ignorância, tal como também tivemos a lucidez e sensatez para procurar ajuda junto de quem sabia sobre o assunto. Desta maneira, falámos com a nossa professora e colocámos-lhe o nosso problema. Ela prontamente nos pôs em contacto com o Departamento de Física da Universidade, com vista num contacto posterior com o Departamento de Engenharia Informática.
         
Temos de admitir que este talvez tenha sido um dos momentos cruciais do todo o projecto. Poderia acontecer que ninguém nos ligasse, ninguém estivesse disponível. Poderia ter sido o momento em que a estrutura do nosso frágil edifício ruísse e caísse desamparadamente por terra. Mas não. Tivemos a felicidade de receber uma resposta positiva, de nos termos cruzado com alguém que estava a disposto a ajudar-nos. Esse alguém não nos conhecia de lado nenhum e não tinha à partida nenhuma vantagem em nos ajudar, mas fê-lo. Falamos obviamente do Professor Doutor Orlando Oliveira que nos introduziu no mundo da linguagem informática “Python”.
         
O engenho da criança permitiu que ela encontrasse uma cadeira que a elevasse um pouco mais alto, chegar um pouco mais perto do rebuçado tentadoramente a sorrir para ela. O Professor Oliveira foi a nossa cadeira, a primeira pedra da grandiosa obra que estava a ser erguida.
        
Começámos a sério com as aulas sobre “Python” no início do segundo período e a partir daí, o trabalho prático quase que foi posto de parte. O que estávamos agora a fazer era deveras mais apelativo. Ainda não tínhamos uma ideia bem definida do que seria o nosso programa informático, mas só pela possibilidade de o podermos fazer, era só por isso algo que nos captava toda a atenção.
         
Nunca pensámos que conseguíssemos realmente fazer um programa e talvez por isso, quando começámos com estas aulas, os nossos horizontes estavam encobertos por uma cinzenta névoa que toldava os nossos olhos. O Professor bem nos perguntou o que queríamos fazer, mas respondíamos-lhe sempre com um encolher de ombros insatisfatório. Numa pequena reunião, chegámos uma vez mais a consenso, desta vez em conjunto com o Professor Oliveira. O melhor era ainda começar a aprender a linguagem e à medida que íamos captando todas as suas potencialidades, delinearíamos que uso daríamos aos nossos novos conhecimentos.
          
Com sacrifício nosso e do Professor, todas as semanas lá nos deslocávamos ao Departamento de Física em horário extra-escolar. Era uma longa caminhada quando não apanhávamos um autocarro, mas isso nunca nos tirou a vontade e prosseguimos. Aprendemos os passos e códigos essenciais, as pequenas técnicas e truques que enriquecem o trabalho de qualquer programador informático. Passo a passo, fomos caminhando devagar, sempre com o Professor disposto a tirar as nossas maiores dúvidas (e as mais pequenas e insignificantes também), esperando pacientemente sempre que não entendíamos qualquer coisa ou nos atrasávamos. Graças a ele, depressa soubemos manusear e redigir linguagem “Python”.
     
Com o alargar das possibilidades e ferramentas, veio o alargar dos objectivos a que nos propúnhamos. Começámos a ganhar ideias cada vez mais definidas e então apareceu a operação “Shadow Hunter”, o nosso projecto prático. Queríamos um jogo que impressionasse toda a gente pela sua qualidade comparativamente aos meios disponíveis.
        
Quando tudo parecia correr às mil maravilhas, apareceu um outro obstáculo no meio do nosso percurso, que nos fez tropeçar mas não cair. Referimo-nos à impossibilidade de a linguagem “Python”, só por si, não possibilitar a realização de jogos gráficos. Falámos com o Professor e então sofremos um outro soco no estômago ainda mais pesado. Os seus trabalhos em “Python” nunca tinham tido esta vertente gráfica, uma vez que normalmente recorriam a cálculos físicos e utilizava os seus programas como uma ferramenta auxiliar no seu dia-a-dia, não como um meio de entretenimento. O céu sobre as nossas cabeças escureceu um pouco, mas não nos deixámos abater e persistentemente, continuámos em frente.
        O banco sobre o qual se apoiava criança balançou perigosamente de um lado para o outro, e tal como nós, andávamos sobre um chão de vidro que se poderia partir a qualquer instante. Recorremos à Internet à procura da solução para o nosso problema e rapidamente a encontrámos. Já houvera outros se tinham deparado com os mesmos problemas e esses programadores, com certeza mais experientes do que nós, tinham criado o Ovo de Colombo para os jogos em “Python”. Se a linguagem “Python” só por si não conseguia criar jogos, então porque não arranjar um suplemento que suplantasse esta lacuna?
        Foi através desta pesquisa que nos deparámos com o “Pygame”. Basicamente, este novo programa adiciona uma nova gama de códigos à linguagem “Python”, permitindo correr ambientes gráficos e sonoros, anteriormente impossíveis de executar. Tínhamos a chave na mão, mas e agora, como continuar? Era verdade que o Professor Oliveira nos dera aulas sobre “Python”, o que é sem dúvida indispensável para trabalhar com as inovações do “Pygame”, mas apesar disso, havia códigos que eram completamente novos para nós e a partir daqui, já não podíamos contar com tanta ajuda do nosso mestre.
       Havia uma única medida a tomar e mais uma vez, recorremos ao nosso engenho para continuar à frente do leme, cortando as tempestuosas ondas dos tenebrosos e impetuosos mares do desconhecimento que nos rodeava. Fizemos o descarregamento de inúmeros jogos e aplicações da Internet, procurando essencialmente programas simples a partir dos quais poderíamos perceber as funcionalidades de cada parte do código do “Pygame”. Desta maneira e depois de muitas horas perdidas e incontáveis tentativas, muitas vezes desastradas e falhadas, fomos aprendendo a inserir primeiro imagens, depois movê-las de um lado para o outro, coordenar sons, encaixar obstáculos com uma relativa autonomia e muito mais... Fomos assimilando estes novos conceitos cada vez mais depressa e em breve, pode-se dizer que dominávamos o “Pygame”.
        Dominávamos, mas apenas parcialmente. Houve muitas funções e animações que quisemos inserir no nosso jogo e que não encontrámos em lado nenhum como fazê-las. Consequentemente, podemos também dizer que a criação deste jogo foi um enorme exercício de ginástica mental para, a partir do que tínhamos, ou seja, códigos e condições já definidas, criar as tais funcionalidades para o nosso jogo. Podemos dizer que até agora, nunca abandonámos nenhuma ideia por não a conseguirmos realizar. É verdade que em muitos momentos perdemos horas e horas antes que conseguíssemos redigir o código correcto, mas no fim, foi ainda melhor saborear a sensação de vitória.
          O banco ainda balançava, mas cada vez menos. Agora, era tudo uma questão de tempo, de conseguir fazer tudo antes do prazo limite imposto pelo calendário escolar. Acabou-se o primeiro nível, partimos para o segundo e ainda conseguimos alcançar o terceiro, com outros tantos menus e aplicações de percalço. Durante as edições gráficas, tivemos a ajuda preciosa de outro colaborador, Martino Correia, o qual, tal como o apelido identifica, é irmão de um nos elementos do nosso grupo.
        Pois bem, o tempo corria contra nós e no terceiro período, ainda apenas com o primeiro nível concluído, começámo-nos a lembrar que ainda havia o trabalho teórico por concluir. A criação da página web já tinha sido realizada anteriormente, mas estava bastante incompleta, sem o tratamento gráfico necessário, para além da ausência dos textos que acabam por ser a essência teórica do nosso projecto. Mesmo com falta de tempo, foi preciso intercalar as duas vertentes do projecto. Fomos escrevendo os textos enquanto redigíamos o código, fazendo os máximos para que nenhuma parte do trabalho fosse prejudicada em detrimento da outra. Não queríamos só um excelente trabalho prático, desejávamos uma obra de arte completa!
        Sem espaço de manobra para falhas, foi preciso coordenar muito bem os esforços para alcançar este último objectivo. Se é um facto que a preguiça atacou alguns de nós em fases anteriores do projecto, nesta recta final todos mostraram o que valem e superaram as suas próprias barreiras em busca da causa comum.
        Hoje é dia dezoito de Maio. Amanhã será o dia da nossa apresentação e quando relermos este texto (ou muito provavelmente, quando qualquer outro leitor o olhar pela primeira vez), já saberemos o resultado da mesma, se correu bem ou foi pelo contrário, um desastre. De qualquer das formas, nunca ninguém vai poder dizer que foi tudo por água abaixo. Trabalhar no projecto só por si já foi uma experiência enriquecedora e não dizemos isto por ficar bem na conclusão de um texto deste género, mas sim porque o realmente sentimos. De hoje em diante, sempre que nos voltarmos para o passado, podemos ver o projecto “Desenvolvimento do Ciberespaço” e com ele, saber que nenhumas das adversidades com as quais nos atravessaremos jamais serão impossíveis de conquistar.
        Assim como a criança finalmente alcança a última prateleira do armário mais imponente lá de casa, nós também chegamos ao fim de um ciclo. É o fim de um projecto que nos deu gosto de fazer, é o fim de mais um ano, é o fim da Área de Projecto para nós. Não só esperamos que a leitura deste trabalho lhe tenha agradado a informado sobre os aspectos fundamentais relativos ao tema, mas também fazemos votos para que o nosso projecto possa servir como inspiração e base par futuros estudantes que, tal como nós, não tenham medo de desbravar o desconhecido, superar os seus limites e falhas, ir um pouco mais além. Fomos um grupo espectacular entre nós. Todos se ajudaram mutuamente quando era mais preciso e ninguém alguma vez procurou criar conflitos ou desentendimentos. Se isso se transpareceu para fora, não sabemos, mas provavelmente conseguimos mostrar que fomos um grupo coeso durante estes sensivelmente oito meses que nos unirem em torno de um projecto. A todos, um muito obrigado.