revista Educação

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  REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 119
Mestres no Ciberespaço

Blogs ampliam o espaço educacional de professores e alunos com possibilidade de partilhar informações de forma criativa e prazerosa
 
Beatriz Levischi

O exercício de "blogar" - postar mensagens nessa espécie de diário pessoal cibernético - permite ao professor refletir sobre sua atividade, trocar idéias com os colegas, oferecer referências interessantes aos alunos, ampliar os encontros presenciais e tornar suas iniciativas mais visíveis e prazerosas.

Quem defende a idéia é a educadora Betina Von Staa, doutora em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP e coordenadora da área pedagógica do Portal Educacional (www.educacional.com.br), do Grupo Positivo. "É possível, também, aproximá-los ainda mais dos meninos, por meio da descoberta de paixões em comum", completa.

No cotidiano escolar, os blogs - gratuitos e fáceis de usar - ganham variadas funções, como relatar trabalhos realizados em equipe, organizar conteúdos, reunir anotações de aula, discutir e elaborar projetos. "Por meio dos comentários, abre-se o diálogo entre educadores e educandos, que se revezam no papel de escritores, leitores e pensadores", conta Sônia Bertocchi, professora de língua portuguesa, com especialização em Literatura Brasileira.

Dona do Lousa Digital, blog destinado à formação de docentes, Sônia pesquisa desde 1997 maneiras de incorporar a internet à sua prática pedagógica. Garante que a vantagem é tornar o registro do processo mais completo, pois a ferramenta fornece espaço para publicar experiências, imagens e depoimentos, culminando numa espécie de "relatório detalhado de tudo". "Passamos, então, a construir saberes e redes sociais, a reinventar nossa atuação", diz.

As conquistas, segundo Betina, são várias. Os professores que se aventuram pela blogosfera sentem-se mais motivados e têm sua auto-estima elevada, pois se percebem capazes de criar algo novo. "Quando recebem mensagens de seus alunos, de outras escolas ou até mesmo de outros Estados, compreendem a verdadeira dimensão do seu trabalho. E dão aos estudantes a oportunidade de descobrir jeitos variados e produtivos de relacionar-se com o conhecimento, desenvolvendo um raciocínio mais complexo", relata.

Para detectar a influência das novas tecnologias na aprendizagem é necessário, por um lado, olhar as possibilidades que elas oferecem e, por outro, as habilidades que demandam do usuário para serem operadas. Mirna Feitoza, doutora em comunicação e semiótica e coordenadora do Grupo de Pesquisa Semiótica sobre a Linguagem dos Games, na PUC-SP, exemplifica: "Blogando, os jovens entram em contato, de forma autônoma, com ferramentas de publicação gratuitas; lidam com sistemas de busca para manter sua página atualizada; reinventam a própria linguagem verbal, burlando as regras estabelecidas; esforçam-se para usufruir os softwares de programação visual, incrementando uma ou outra coisa no design; capturam e manipulam imagens", resume.

O grande desafio está em equipar as escolas e formar os professores, evitando focar na parte estritamente técnica do processo: "As oficinas devem incentivá-los a navegar e a produzir seus próprios materiais. Os educadores que têm o melhor desempenho atuam de maneiras variadas, ao invés de optar apenas por aulas expositivas", justifica Betina.

 

Betina Von Staa, coordenadora do Portal Educacional: utilização de diversas estratégias enriquece o universo pedagógico do educador

 

 

 

Mas é preciso estar aberto para aprender com os próprios alunos e inverter uma relação de saber perpetuada há séculos. Afinal, muitas vezes, os jovens dominam o computador melhor do que os adultos. A "colaboração mútua", como define Claudemir Viana, doutor em Ciências da Comunicação, pode começar no laboratório de informática. "Depois, o professor passa a construir seu caminho exploratório e a planejar as situações que o auxiliem no processo educativo", sugere.

Integrar a tecnologia ao currículo de forma eficaz, tornando seu uso natural, por fim, mostra-se fundamental. "E por natural entende-se a possibilidade de ter acesso à máquina para consultas na hora em que surge a curiosidade, deixá-la fazer parte do dia-a-dia e não guardá-la para momentos especiais, do tipo 'agora vamos usar o computador'", defende Betina.

 

 

  Professores blogueiros

No "Escrevendo com Escritor" (http://escrevendocomescritor.zip.net),

Andréa Toledo, graduada em letras, com especialização em Informática na Educação, convida autores para iniciar uma história e propõe que os alunos da Biblioteca Digital Josué Inácio Peixoto, em Minas Gerais, a continuem.

Durante as postagens, as crianças interagem com o escritor, que fica responsável por finalizar o processo. A oportunidade de ver seus textos on-line, garante Andréa, incentiva a participação dos pequenos: "Atualmente, estão trabalhando com poesia, e a produção foi tanta que não consegui publicar".

Gládis  Leal dos Santos, especialista em língua portuguesa, atualiza o "Palavra Aberta"

(http://palavraaberta.blogspot.com) desde 2005. Busca promover o intercâmbio entre estudantes de escolas geograficamente distantes por meio da divulgação de textos produzidos a partir de um tema comum, debatido em sala de aula. "É interessante notar a preocupação com os erros de acentuação e com a ortografia. Muitos chamam o professor para dar uma olhada antes de apertar o botão", diz.

Além das funcionalidades comuns a todos os blogs, o "Palavra Aberta" oferece recursos como a gravação de comentários em áudio (destinado aos alunos com deficiência visual) e a realização de videoconferências. A iniciativa ficou em 3° lugar no Prêmio Blopes (categoria "Melhor blog feito por um professor"), que elegeu trabalhos relevantes de Portugal, Espanha e Brasil.

 

 

Marli Fiorentin, formada também em letras, decidiu criar seu primeiro blog em 2004, após conhecer a ferramenta num Seminário de Tecnologia na Educação. "Busquei tirar dúvidas e discutir o uso pedagógico da tecnologia junto a outros educadores da internet, em fóruns e listas de discussão", lembra.  

Blogs possibilitam que educadores e educandos se revezem no papel de escritores, leitores e pensadores, realça a professora Sônia Bertocchi

No "Ficção Versus Realidade" (http://ficrealidade.blogspot.com),

destinado aos alunos da 8ª série, a professora aborda tópicos estudados na escola, por meio de obras literárias. "Os adolescentes comunicam-se com os autores e com jovens de outras instituições, analisam os textos publicados e ganham espaço para divulgar suas próprias produções", explica.

A mudança em relação às atividades presenciais está na exigência de uma reflexão mais apurada, demandada pelo ato de escrever. "Quem não sabe se expressar pode gerar mal-entendido, já que o leitor não está presente para questionar", justifica. Aprender a aceitar as diferenças nos assuntos que provocam polêmica é outro desafio oferecido pelo blog. Ao longo da jornada, Marli ganhou uma infinidade de colegas virtuais, com os quais trabalha em rede, utilizando estratégias comuns.


 

Caminhos próprios


 

No Educacional (www.educacional.com.br), do Grupo Positivo, estimula-se que cada internauta descubra uma maneira pedagógica própria de usar o Blog do Professor, ferramenta que permite criar um espaço na Rede com título e apresentação (tanto do autor, quanto do blog), posts, contador de visitas e links interessantes.

"A idéia surgiu em 2004, após a experiência bem-sucedida do Construtor de Páginas, em que era possível montar sites com a assinatura automática do Portal, mas o projeto vingou no segundo semestre de 2005", conta Betina von Staa, coordenadora da área pedagógica. Quem navegar pelos inúmeros blogs publicados encontrará simulados, trabalhos a serem comentados e sugestões de links para pesquisa, misturados a fotos da turma, poesias, letras de música e notícias da atualidade.

Maria Izabel Schonardie, professora de geografia da Escola São João, no Rio Grande do Sul, dá preferência às novidades e curiosidades da área. "Apesar de terem seus próprios blogs, os alunos adoram, porque aqui as informações são direcionadas à disciplina. Quando menciono a história de uma data comemorativa, por exemplo, eles sempre querem saber mais", diz.

Para Flávio de Azevedo, professor de física e matemática do Colégio Isaac Newton, em Brasília, a ferramenta serve como complemento à aula presencial: "Minha primeira postagem foi o gabarito de uma prova, e o número de acessos surpreendeu". Os preferidos são os desafios com direito a prêmios. "Quem não tem acesso à internet em casa recebe a proposta numa folha de papel, mas sai reclamando", confessa.

A maior vantagem, para Maria Izabel, está em renovar continuamente sua formação: "Receber um número expressivo de comentários de outros profissionais da área enobrece meu trabalho e mostra que estou no caminho certo".

Para Flávio, apesar de toda novidade apresentar certa dificuldade inicial, um pouco de boa vontade e ajuda coletiva tratam logo de resolver o problema. "Agora, eu posso estender minha aula ao computador dos meninos. Quando falo sobre determinado assunto, digo para darem uma olhadinha no blog, que deixarei um texto, vídeo ou link, e no próximo encontro eles comentam".


O QUE É BLOG

Os blogs são um dos maiores e mais velozes fenômenos comunicacionais da área digital. Em menos de dois anos e meio - de outubro de 2004 a janeiro de 2007 - saltaram de 4 milhões de páginas ativas para 63 milhões. A aceleração da criação dos novos diários também foi grande: de 12 mil novas páginas por dia em outubro de 2004 a 63 milhões em janeiro deste ano.

Blog é a abreviação de weblog, palavra criada em 1999 para designar qualquer registro freqüente de informações na Web, apresentado em ordem cronológica decrescente - assim, no topo da lista aparece a mensagem (post) mais recente e abaixo dela vêm as anteriores.

Na época, a tradução do termo como "diário na internet" bastava para explicar sua natureza. De lá para cá, porém, eles deixaram de restringir-se a relatos de adolescentes sobre suas idas ao cinema, coletâneas de poesias e idéias de como dominar o mundo, para abrigar temas e gêneros discursivos variados.

Há blogs que são resultado da colaboração de um grupo de pessoas. Outros se voltam para o entretenimento. Vários internautas utilizam a ferramenta com objetivos profissionais. Jornais e colunistas famosos apostam neste formato, que tem constantemente dado furos na grande imprensa. Grandes corporações já aderiram à blogosfera, utilizando-a como ferramenta de relacionamento com clientes e funcionários.

A linguagem é coloquial, e os posts são breves. Há intertextualidade (ligações para outras páginas) e espaço para comentários dos leitores. Cabem, ainda, fotografias, vídeos e arquivos de áudio. Um dos principais desafios para atrair e manter visitantes é a atualização freqüente.

Por meio de softwares de edição on-line, é possível publicar conteúdo sem saber como são construídas as páginas na internet, ou seja, sem conhecimento técnico especializado - se ele existir, porém, o blog pode ser incrementado, ganhando design exclusivo.

 

fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12073