REVISTA APRENDE BRASIL n° 14

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Comunicação

 

O lado educativo dos filmes documentários

 

 

Quando o polêmico Farenheit 9/11, documentário escrito, produzido e dirigido pelo cineasta americano Michael Moore, estrelou nas telas de cinemas em 2004, ninguém imaginava o sucesso que o filme alcançaria. Ao falar sobre as causas e conseqüências dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, relacionando o fato com a invasão do Iraque liderada pelos EUA e Grã Bretanha, e sem poupar críticas ao presidente George W. Bush, o filme bateu todos os recordes de bilheteria e tornou-se o documentário mais visto da história do cinema.

Repercussões a parte, o fato é que Farenheit 9/11 chamou a atenção para um gênero cinematográfico que andava esquecido do grande público: os documentários. Caracterizados pela exposição e representação da realidade, esse tipo de produção se diferencia por ter uma pretensão de verdade que os filmes de ficção não têm. A Doutora em Educação e professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, Rosália Duarte explica que os documentários foram criados, originalmente, como possibilidade de registro visual do real, como "cinema verdade". “Atualmente, porém, admite-se que tenham uma aproximação maior com a realidade, mas também considera-se que possuem uma perspectiva ficcional, na medida em que se trata ali do olhar de alguém (ou de um grupo) sobre um acontecimento, fato ou problema. Admite-se que a fronteira entre o real e o ficcional é difícil de ser traçada, mas, em princípio, o documentário se propõe  a ser, no mínimo, um olhar mais realista acerca de um dado problema do que o que é dado pelos filmes de ficção”, explica Rosália Duarte.

Apaixonada desde criança por cinema, Rosália Duarte lançou em 2002 o livro Cinema & Educação, fruto da sua experiência pessoal como espectadora, pesquisadora e professora. Na obra, a autora analisa como o cinema ajuda na construção da chamada "competência para ver", a qual possibilita analisar, compreender e apreciar tudo o que é contado em linguagem cinematográfica. “O cinema é muito mais do que um recurso didático para o ensino. É uma forma de socialização dos indivíduos”, diz. 

E dentro do universo cinematográfico, completa a professora, os documentários são os filmes que mais estão integrados ao ambiente escolar, sobretudo entre os professores de história. “É um tipo de filme imprescindível para o ensino”, ressalta.

Além de transmitir informação e conhecimento utilizando um , os documentários quebram a rotina das aulas, aumentando o interesse sto significa que os documentários podem e devem fazer parte  do universo escolar tanto quanto mapas, livros didáticos, embora não sendo e não devendo ter o mesmo tratamento que eles.  “Boa parte das escolas, públicas e particulares, dos grandes centros urbanos exibe documentários regularmente”, garante a professora, citando como exemplo a Escola Parque, O Instituto Metodista Bennett e
o Centro Educacional Anísio Teixeira (CEAT), todos no Rio de janeiro.

A educadora acredita o certo não é fazer com que os professores utilizem mais os filmes documentários em suas aulas, mas sim levá-los a se apaixonarem pelo cinema e  desenvolver o gosto por esta forma de arte, familiarizando-se com ela e com sua história. “Afinal, quem conhece e gosta de algo, tem mais facilidade de levar o outro a conhecer e a gostar também. É o mesmo que se propõe para as demais formas de arte. A inclusão da literatura na escola tem hoje, fundamentalmente, o sentido de ensinar crianças e jovens a gostar de ler; a presença do cinema na escola tem este mesmo sentido:  desenvolver o gosto, assim como critérios pessoais de avaliação de qualidade, para aprender mais com aquela linguagem”, compara Rosália Duarte.

 

Produções para a TV

 

Mas o uso de documentários como ferramenta de ensino não precisa se restringir as produções feitas para o cinema. Atualmente, muitos canais de televisão investem pesado na produção de documentários, que depois são exibidos em canais abertos ou fechados. Uma das vantagens é a variedade dos temas, permitindo que os documentários televisivos possam ser usados em praticamente todas as disciplinas. Portanto, documentários sobre a vida animal, sobre planetas e astros, dinossauros, grandes invenções e histórias de quotidianos distantes, ajudam a transmitir conhecimento de um jeito diferente, que foge do tradicional quadro e giz.

Nas aulas de História, por exemplo, os alunos podem visitar Machu Pichu, um patrimônio histórico mundial, conhecer mais sobre as Pirâmides do Egito, aprender sobre a vida de nomes importantes da História, assistindo biografias como de Alexandre - o Grande, Adolfo Hitler, entre tantos outros.  Nas aulas de Biologia, os documentários podem ser utilizados nos estudos sobre plantas, florestas, biomas, etc.

As alternativas de uso são grandes, da mesma forma que o seu potencial educativo, fato que resultou na criação do Discovery Channel Global Education Fund (DCGEF), uma organização sem fins lucrativos, ligada ao canal Discovery Channel, um dos maiores produtores de documentários do mundo.  A Fundação distribui documentários para escolas de nove países, incluindo África, Angola e Zimbabwe. O objetivo é levar conhecimento a lugares carentes, onde o acesso a meios tecnológicos e materiais de pesquisa é escasso.  Com isso, acaba beneficiando não apenas alunos, mas professores e a própria comunidade.

 

Produção própria

 

Em alguns casos, os documentários usados em sala de aula são produzidos pelos próprios estudantes, como é o caso dos alunos de escolas municipais de Cubatão que produziram em 2006 cinco filmes retratando a vida de jovens da baixada santista. Os vídeos mostram exemplos os de estudantes de baixa renda que são protagonistas de experiências bem sucedidas por participarem de programas de inclusão social nas áreas de cultura, esporte e educação.  Os curtas servem de base para a discussão de temas como os direitos dos adolescentes, protagonismo juvenil, condições sociais de pobreza, violência e exclusão social.

Outra experiência positiva vem de Santa Catarina. Uma série de documentários gravados para o Programa Conexão XXI, produzido por uma produtora local e que foi veiculado em 2005 pela Rede TV no estado catarinense e em algumas cidades do Rio Grande do Sul e Paraná chamou a atenção da professora Gládis Leal, coordenadora do Laboratório de Informática Educativa do Caic Mariano Costa, em Joinville/SC.

Os programas abordam temas como preconceito, sexualidade, voluntariado, drogas, comunidades virtuais, tribos urbanas, culto ao corpo, intercâmbio cultural e jovens pais. Os assuntos estão de acordo com a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que recomenda a sistematização do ensino de questões como ética, orientação sexual, meio ambiente, saúde, pluralidade étnica, integradas às matérias por meio da transversalidade. “Ao perceber que os temas e o formato do programa seriam excelentes para os professores em sala de aula, criei o blog Palavra Aberta para divulgar a iniciativa. Também criei uma proposta de uso pedagógico dos vídeos”, conta Gládis, que com isso acabou se tornando a coordenadora pedagógica do projeto educacional Conexão XXI. 

O sucesso dos documentários foi tanto que a professora teve outra idéia: criar um kit com 10 DVDs e um CD Room com explicações pedagógicas de como os professores podem usá-los em sala de aula. “O objetivo é tornar a idéia acessível para Secretarias de Educação para que estas possam distribuir os vídeos para as escolas”, conta Gládis. Uma das primeiras a adquirir o Kit foi a Secretaria de Educação de Itajaí, < xml="true" ns="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" prefix="st1" namespace="">em Santa Catarina, que em 2006 distribuiu kits com os vídeos para 39 Escolas Básicas do Município, além do Centro Municipal de Educação Alternativa (Cemespi),

Para divulgar a idéia e debater o conteúdo dos programas a professora Gládis criou um videolog na Internet (http://palavraaberta.blogspot.com). Além de  disponibilizar os arquivos com os programas, alunos e professores de todo o Brasil podem deixar suas opiniões e trocar idéias sobre o conteúdo de cada documentário.   

 

  

Para saber mais:

Discovery Channel Global Education Fund (DCGEF): www.discoveryglobaled.org."

 

Projeto Conexão XXI: http://palavraaberta.blogspot.com

 

 

 

Box:

 

Passo a passo

 

Confirma algumas dicas de como explorar os filmes documentários em sala de aula:

 - O primeiro passo é desconstruir a idéia de que o que está no documentário é exatamente o que o que ocorreu. É preciso sempre pontuar que se trata de um ponto de vista, entre tantos possíveis, a respeito do problema que está sendo tratado.

 - Conhecer mais sobre os filmes documentários, sua história, seus pressupostos narrativos e estéticos, as especificidades do uso da linguagem cinematográfica naquele formato de filme.

- Apresentar o filme antes de exibí-lo. Quando um professor traz um texto para ser discutido em sala de aula ele no mínimo precisa dizer quem é o autor e descrever o contexto em que o texto foi escrito e/ou publicado, do que ele trata, que impactos sua publicação causou etc.  O mesmo vale para o documentário: é preciso dizer quem fez, quando, a partir de que pressupostos etc.: retirar um filme de seu contexto de produção pode comprometer sua compreensão e sua apropriação por parte do espectador.   

 

Fonte: Rosária Duarte

 

Revista Aprende Brasil - Ed. 14