Inclusão digital

matéria de capa da revista Nova Escola do mês de setembro de 2006


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Alunos de Joinville usam blog para conversar com estudantes de outras cidades. Interação é a palavra-chave dos projetos nesse estágio

 

 

 

Foto: Pena Filho

Amigos a distância: blogs e outros recursospermitem à tumar de Joinville conversar com...

 

Crianças e jovens em rede trocam informações e experiências ou simplesmente participam de conversas animadas graças ao projeto O Lugar Onde Moro, uma iniciativa do Caic Mariano Costa, de Joinville (SC),voltado para 3as e 4as séries. Assim, em Cataguases, na Zona da Mata mineira, Lorena Narciso de Oliveira, 9 anos, da 4a série da EE Guido Marliére, descreve o bairro onde vive e o compara com o de amiguinhos virtuais, não só de Joinville mas também de Fortaleza, Marabá (PA), Charneca de Caparica e Vila do Conde (ambas em Portugal). São alunos de escolas onde os computadores não constituem novidade e que já desenvolvem projetos interativos, trabalhando diretamente com publicação e edição de textos e imagens (fotos, desenhos e animações). É o que se pode chamar de estágio intermediário da utilização de tecnologia digital no ensino.

A garotada se sente estimulada a pesquisar, ler e escrever melhor com o bate-papo e uma farta produção de textos publicados em blogs - ferramenta do mundo virtual que permite aos usuários colocar conteúdo na rede e interagir com outros internautas,enriquecendo os relatos com links, fotos, ilustrações e sons.Mas só há ganho em aprendizado se os professores desempenharem seu papel de mediadores, isto é, se acompanham e sugerem atividades, ajudam a solucionar dúvidas e estimulam a busca de novos conhecimentos. É o que afirma Gládis Leal dos Santos, professora de Língua Portuguesa que coordena o laboratório de informática do Mariano Costa. Ela é autora dos projetos que formaram a rede de escolas interligadas. "Quando os alunos vêem que estão escrevendo para outros colegas lerem, e não só para o professor avaliar, preocupam-se mais com a qualidade e a precisão do texto", afirma.

Para elaborar essas experiências de escrita colaborativa, Gládis utiliza recursos gratuitos disponíveis na intenet. O projeto O Lugar Onde Moro é realizado como auxílio do Writely, editor de texto com recursos de formatação, além de inserção de imagens e tabelas.

Já o Palavra Aberta é um blog. Nele, grupos do Ensino Fundamental e do Médio comentam vídeos, animações e reportagens que Gládis seleciona. A reflexão sobre o preconceito é o eixo central dessa atividade. Um dos debates recentes foi em torno de uma charge animada. Nela, pessoas passam por uma rua indiferentes à visão de uma família miserável e, mais adiante, param para ver um jogo de futebol nas TVs de uma vitrine. "Existem pessoas que dão importância ao futebol, mas não aos pobres", comentaram no blog as estudantes Camila Jaini Schmidt e Morgana Floriano, ambas de 12 anos e cursando a 6a série.

 

Áneis de Saturno

 

Foto: Fernando Priamo
...crianças de Cataguases, que fizeram uma pesquisa sobre o bairro onde moram
Os participantes dessas atividades em rede perceberam que seu alcance vai aumentando como uma bola de neve de conhecimento. Fabrícia Ricobom, também professora de Língua Portuguesa do Mariano Costa, transportou a idéia do Palavra Aberta para trabalhar com classes de outra escola em Joinville, a EM Avelino Marcante, e montou o blog Mergulhando nas Palavras, com as turmas de 5a, 6a e 7a séries. "O blog é um ótimo complemento para as aulas", atesta Fabrícia. "Os alunos percebem a função social da escrita e entendem que escrever é comunicar."

Já a turminha de 4a série do Guido Marliére, de Cataguases - que não tem laboratório próprio, mas usa o da biblioteca digital do Instituto Francisca Floriano Peixoto, do outro lado da rua -, aproveitou a inclusão no projeto O Lugar Onde Moro para realizar uma grande pesquisa de campo sobre o entorno. Orientados pela professora Mônica Rodrigues, eles entrevistaram ex-alunos, antigos moradores das proximidades e funcionários da prefeitura e, entre outras coisas, descobriram a origem do nome da instituição, publicando em seguida o resultado na internet.

Mônica, que aprendeu a usar o computador há quatro anos, encontra na tecnologia um meio de ao mesmo tempo saciar e provocar a curiosidade da meninada. Para responder à pergunta dos estudantes sobre como são formados os anéis de Saturno, ela e a classe de 2a série escreveram um e-mail para o Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. O recurso das entrevistas virtuais passou a fazer parte de projetos de pesquisa posteriores.

 

 

De olho nas eleições

 

Hoje, além de manterem O Lugar Onde Moro, Mônica e seus alunos participam ativamente de um blog proposto pela biblioteca digital de Cataguases, em que escritores constroem histórias junto com as crianças. "É outro estímulo para a garotada escrever e ler, além do contato direto com os autores", explica a professora. "Com todos esses projetos, os estudantes ficam mais críticos e interessados nas aulas, além de escreverem melhor."

Em Joinville, Gládis ainda produz outros blogs, como o que registrou e discutiu a Copa do Mundo. No momento, as atenções estão voltadas para o que trata das próximas eleições. Alunos da 8a série estão recolhendo informações sobre os candidatos para conhecer suas propostas e fazer comentários. Nesse caso, eles vão pôr no ar diretamente seus textos, diferentemente de outras ocasiões, em que Gládis, detentora da senha de acesso aos blogs, recebe as colaborações e as publica.

Outro instrumento utilizado na escola é o wiki (palavra que vem da língua nativa do Havaí e significa rápido). É um modelo de programação de site que permite a atualização do conteúdo por qualquer usuário, sem necessidade de registro prévio. O conteúdo também não passa por revisão. O wiki é o instrumento que possibilita a escrita colaborativa livre. Na escola de Joinville, ele foi de grande utilidade na criação de roteiros de boletins e programas de rádio. Aí entrou outra ferramenta, o podcast, arquivo de áudio no qual qualquer pessoa pode gravar sua emissão radiofônica e deixá-la disponível na internet - para isso basta ter no computador um software adequado (o iPodder é um dos mais conhecidos). Os programinhas da rádio da Mariano Costa são curtos. Duplas se responsabilizam por buscar informações, fazer entrevistas, escrever reportagens, gravar e editar o material (usando o programa gratuito Audacity). Todo esse trabalho começou com discussões sobre o papel comunitário dos meios de comunicação.

 

 

http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0195/aberto/mt_161419.shtml