Meteoritos

 
Meteoritos caídos em Portugal
 
Mapa de Portugal e das Regiões Autónomas da Madeira e Açores

 
 
A primeira referência à queda de um meteorito em Portugal data de 1797 e deve-se a Robert Southey, um poeta e homem de letras britânico, que um ano antes tinha percorrido algumas regiões de Portugal e Espanha. A sua descrição é simples, esclarecendo-nos de que às 14 horas do dia 19 de Fevereiro de 1796, em Tasquinha, perto de Évora-Monte, uma pedra de cerca de 5 Kg caiu do céu limpo, tendo sido precedida por fortes explosões. Refere-nos ainda que "a sua cor era de chumbo", o que nos leva a pensar tratar-se de um siderito, sendo o paradeiro da amostra totalmente desconhecido, tratando-se inequivocamente do primeiro registo a um meteorito português.

Em finais de Setembro de 1843, próximo de Picote (Miranda do Douro) caíram três pedras meteoríticas, duas das quais foram descritas pelo Prof. António Macedo Pinto em 1845 num periódico local. Pesavam respectivamente 1125 g e 440 g, com a densidade 3,45 e 3,61, possuindo uma crusta exterior escura e rugosa, de "textura granosa" e de cor cinzenta carregada com algumas partículas de ferro metálico. Pela descrição dada, tratavam-se de meteoritos pétreos, não sendo possível porém saber se correspondiam a condritos ou acondritos, embora a observação de pequenas partículas metálicas advogue em favor da primeira hipótese. Também aqui, apesar de várias diligências feitas, desconhece-se completamente o paradeiro das amostras.

Em 1877, no decurso de trabalhos agrícolas, foi encontrado em S. Julião de Moreira, perto de Ponte de Lima, enterrado na camada superficial do granito desagregado, um meteorito ferro-niquélico que em 1883 foi levado para Lisboa. Com a forma mais ou menos esférica, tinha 0,91 m de circunferência mínima e 1,07 de circunferência máxima. A queda tivera, sem dúvida, lugar há muito, pois a parte exterior estava muito alterada, com aspecto ferruginoso. Quando foi descoberto e recuperado, o meteorito pesava 162 kg.

Desconhece-se o paradeiro da maior parte do meteorito de S. Julião de Moreira, encontrando-se diversas amostras dispersas por museus de todo o mundo. Em Portugal, existe no Instituto Superior Técnico um fragmento com 0,49 Kg, havendo ainda pedaços (granalha) com o peso total de 0,11 Kg. Embora sem etiqueta de identificação, existe um fragmento, em tudo semelhante ao primeiro, com pouco mais de 2 Kg.
 

A amostra foi estudada por vários especialistas. John Wasson, do Departamento de Ciências da Terra e do Espaço da UCLA, em 1969, efectuou uma análise detalhada do meteorito que possibilita classificá-lo na moderna terminologia dos sideritos. Obteve a percentagem de 6,1 de Ni e os valores, em ppm, de 46,2 para gálio, 107 para germânio e 0,012 para irídio, o que permite dizer que se trata de um meteorito férreo do tipo II-B. Na classificação estrutural de Buchwald, trata-se de um octaedrito grosseiro com bandas de kamacite de largura superior a 3,3 milímetros.

Um caso duvidoso é-nos relatado por Rui de Serpa Pinto em 1933 sobre a queda de um bólide na margem esquerda do Tejo. Cita Stanilas Meunier, autor de um livro sobre meteoritos, que reproduz uma carta de Paul Choffat na qual é dito que em 31 de Julho de 1884 caíra um bólide em Palença-di-Taixo (Palença de Baixo) na margem Sul do Tejo, dividindo-se em dois, de que não ficaram vestígios. Trata-se muito possivelmente da referência ao fenómeno meteoro ("bólide" significa simplesmente bola de fogo muito luminosa que se desloca velozmente no ar) sendo bem possível que se tenha volatilizado completamente sem atingir a superfície.

Em finais de 1924 ocorreu uma chuva de meteoritos na zona fronteiriça de Olivença. Alguns dos fragmentos caíram em localidades portuguesas, tendo um fragmento caído mesmo em Castelo de Vide, estando guardado no Museu Mineralógico da Universidade de Coimbra. Outros fragmentos menores encontram-se nos museus de Elvas, da Universidade do Porto e da Universidade de Lisboa. Os maiores fragmentos caíram em Espanha. Trata-se de um condrito ordinário do tipo LL 5, rico em hiperstena, olivina e feldspato sódico. Pobre em Fe-Ni, o meteorito possui, ainda merrilite e cromite. Os côndrulos são pouco distintos.

A 3 de Maio de 1925, em Vilarelho da Raia, cai o meteorito de Chaves, 8 Km a N desta cidade. Quatro fragmentos são conhecidos, numa massa total de 2900 gramas. A caracterização mineralógica e petrográfica efectuada por nós, assim como os estudos petro-químicos realizados, mostram-nos que o meteorito de Chaves é um acondrito do tipo dos howarditos. Trata-se de uma brecha com fragmentos pétreos distintos, possivelmente provenientes do mesmo corpo parental, aglutinados por uma matriz fina de natureza regolítica.
 

Os clastos mais abundantes são de uma rocha praticamente monominerálica, com a composição de um ortopiroxenito, no qual os valores de piroxena são extremamente regulares. Implicam uma origem em profundidade a partir da consolidação de um magma básico. São fragmentos típicos de diogenito. Outros clastos, pela textura e composição aparentam-se com alguns doleritos e mostram ter arrefecido relativamente depressa, próximo da superfície. A sua composição mineralógica filia-os nos eucritos. É possível que ambos os fragmentos tenham consolidado do mesmo magma, formando camadas superficiais e mais internas do mesmo asteróide. Foram os fenómenos de impactismo, bem evidenciados na textura cataclástica e na presença de vidros e veios vítreos de fusão, os responsáveis pela mistura das duas componentes que ficaram envolvidas por um material mais fino, de composição semelhante, que os aglutinou. Os estudos mineralógicos, químicos e a determinação da sensibilidade TL, mostram ainda estarmos na presença de um dos howarditos mais empobrecidos em alumínio o que implica um reduzido teor de feldspatos, isto é, uma grande "contaminação" da fracção diogenítica.

No dia 23 de Agosto de 1950 deu-se a queda de um meteorito em Monte das Fortes, no concelho de Santiago do Cacém. A queda foi acompanhada de forte explosão seguida de outras menores e deu-se uma hora antes do pôr-do-Sol. Possivelmente, em virtude do tempo nebuloso que se fazia sentir, não foram observados fenómenos luminosos. Os fragmentos do meteorito dispersaram-se entre Alvalade e Ferreira do Alentejo. Vários destes foram recolhidos na área entre Aldeia dos Ruins, Monte das Fortes, Boizão-Velho e Boizão-Novo, numa área de mais de 6 quilómetos quadrados, dos quais 5 fragmentos se encontram conservados no Museu dos Serviços Geológicos de Portugal, pesando no conjunto 4,885 kg. Os fragmentos estão recobertos por uma crusta negra, grumosa, com cerca de 0,5 mm de espessura. A densidade média é de 3,451.

Do ponto de vista mineralógico, o condrito do Monte das Fortes contém essencialmente olivina, bronzite, diópsido, clinobronzite e, como acessórios, plagioclase sódica, merrilite, cromite, troilite e Fe-Ni. De acordo com a composição determinada, é possível incluir este meteorito no tipo L dos condritos ordinários. Uma observação microscópica dos côndrulos e da quantidade de vidro presente leva-nos a pensar tratar-se de um condrito L-3, mas só uma investigação mais detalhada permitirá esclarecer o assunto.
 
Quadro síntese dos meteoritos portugueses
Nome Data Observações
Tasquinha 19 de Fevereiro de 1796 Queda; 4,8 kg; perdido
Picote Setembro de 1843 Queda, 3 peças; perdido
S. Julião de Moreira 1877 Achado; 162 kg; octaedrito
Olivenza 19 de Junho de 1924 Queda; várias; condrito
Chaves 3 de Maio de 1925 Queda; 2,9 kg; howardito
Monte das Fortes 23 de Setembro de 1950 Queda; 5 kg; condrito
Alandroal (Juromenha) 14 de Novembro de 1968 Queda; 25 kg; ataxito
Ourique 28 de Dezembro de 1998 Queda; 25 kg (?); condrito


A penúltima queda de um meteorito registada em Portugal deu-se a 14 de Novembro de 1968. Segundo um relatório do então Serviço Meteorológico Nacional, a queda deu-se na Herdade de Tenazes, concelho do Alandroal, a cerca de 3 Km de Juromenha. Segundo testemunhas da região, o meteoro que antecedeu a queda foi visto às 18 horas e 55 e o clarão luminoso durou de 1 a 3 segundos. O meteorito foi encontrado cerca de 10 minutos depois da queda, com dois pontos incandescentes, afastados 20 centímetros, que se extinguiram pelas 23 horas. O meteorito foi encontrado inteiro e retirado ainda quente no dia 15 de Novembro às 11 horas. A terra da cratera que cavou ao embater no solo também se encontrava quente. O terreno no local da queda era solo arável e tinha sido lavrado, existindo poucas árvores. A profundidade da cratera deixada foi aproximadamente de 80 centímetros.

A amostra tem a forma grosseiramente elipsoidal, um pouco achatada, com as dimensões de 30 x 20 x 10 cm e pesa 25,250 kg. A superfície é lisa a ondulada e apenas em parte se apresenta coberta por crusta. A mineralogia é simples, revelando kamacite, taenite e schreibersite. A análise química revelou 8,7% de níquel, 0,52% de cobalto, 0,3% de fósforo, 21 ppm de gálio, 40 ppm de germânio e 0,24 ppm de irídio, o que permite classificá-lo dentro do tipo III AB dos sideritos. O seu razoável teor em níquel e a ausência de uma estrutura macroscópica visível permite incluí-lo no grupo dos ataxitos.
 
 

Meteorito metálico do Alandroal: um meteorito que após a queda esteve preso na cela pelas autoridades locais, antes de ser transportado para o Centro de Geologia da Universidade de Lisboa (foto Fernando Barriga, MNHN).

 


No dia 28 de Dezembro de 1998, perto da uma hora da manhã ocorreu a queda de um meteorito no Monte Carapetel, Aldeia de Palheiros, a sul de Ourique, distrito de Beja. Muitos dos habitantes locais ouviram os estrondos e viram o clarão, quando da passagem do bólide, na baixa atmosfera e embate do meteorito no solo. Segundo relatos recolhidos no local por elementos da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores, o clarão iluminou o céu como se fosse dia durante uns 10 segundos, (indicador de uma magnitude superior a - 14, Lua Cheia), segundo uma testemunha que se encontrava no momento a entrar em casa. Foram numerosos os testemunhos de dois estrondos, um primeiro forte, seguido de outro mais fraco após alguns segundos, o que pode perfeitamente indicar o estampido na baixa atmosfera e o som do impacto. Não está, contudo, excluída a hipótese da queda de dois ou mais fragmentos, visto os dois sons terem sido ouvidos em localidades muito afastadas, desde Vila Nova de Milfontes até Ourique.
 
 
 
Meteorito de Ourique
 

No local da queda (estrada rural de terra batida) foi produzida uma pequena cratera alongada (60 x 30 x 15 cm) de azimute 115º (aproximadamente W-E). Após o impacto o corpo fragmentou-se em vários pedaços e muitas partes do meteorito ficaram expostas em leque, para Leste, até pelo menos 55 m, posição onde foi colhido o maior fragmento recuperado de 2,6 Kg. No interior da cratera ficaram alguns pedaços. O meteorito foi encontrado pelo Sr. António Silva, dois dias depois da queda, que estranhou aquelas pedras anómalas no caminho e um cheiro intenso a enxofre. Logo relacionou o achado com o evento que toda a população tinha ouvido e viu tratar-se de “pedras caídas do céu". Depois disso vários populares visitaram o local da queda e recolheram amostras como recordação.

Embora sendo difícil, se não mesmo impossível, um recenseamento de todos os fragmentos - alguns chegaram mesmo a ser oferecidos e vendidos a turistas que se deslocavam para o Algarve - calcula-se que o diâmetro original do corpo deverá ter sido da ordem dos 25 centímetros, o que corresponde a uma massa na ordem dos 30 Kg - possivelmente a maior queda registada no nosso país. O Departamento de Geologia da Universidade de Lisboa conseguiu recuperar quatro fragmentos significativos, sendo o maior (de 2,6 Kg) depositado no Museu Nacional de História Natural, por vontade expressa do Sr. Manuel de Brito, um habitante da Aldeia de Palheiros. Fragmentos menores - com menos de 1 cm - foram ainda recuperados no local da queda.

O meteorito mostra uma cor cinzenta, ligeiramente esverdeada, com a típica crusta de fusão negra, por vezes acastanhada e de aspecto vítreo. Nesta são visíveis estruturas de ablação em que se destacam as típicas formas em "impressões de dedos", conhecidas por regmaliptus, desenvolvidas durante o voo do meteorito na atmosfera. Macroscopicamente, são visíveis os côndrulos que não ultrapassam os 2 mm, as olivinas e ligas metálicas. O meteorito é facilmente atraído pelo imã. Nota-se ainda a textura em brecha, coexistindo clastos mais escuros no seio de fragmentos cinzentos mais claros - um aspecto típico dos condritos ordinários e correspondendo a brechas de rególito. A densidade de massa do meteorito é de 3,5 g/cm3.
 
 

Das quatro lâminas polidas estudadas em microscopia óptica de reflexão e de transmissão verificou-se estarmos na presença das características texturais do grupo 4 dos condritos ordinários: côndrulos bem desenvolvidos numa matriz opaca a muito fina, com matéria amorfa em desvitrificação, abundantes olivinas e ortopiroxenas do tipo bronzite. Os opacos encontrados são essencialmente troilite e ligas de Fe-Ni, sendo estas muito mais abundantes. Um estudo em microscopia electrónica de varrimento, com sistema de análise EDX, mostrou que algumas destas ligas apresentam teores variáveis de níquel, com uma zonação caracterizada pelo aumento deste elemento do centro para a periferia, um assunto que importa detalhar com vista a conclusões sobre as taxas de arrefecimento do corpo parental do meteorito.

Os côndrulos são abundantes e distintos, apresentando-se alguns bordeados por um fino anel de recristalização. Todos os tipos geralmente encontrados nos condritos ordinários estão presentes: porfiríticos, radiados, finamente granulares, barrados e vítreos. Alguns côndrulos apresentam bordaduras parciais de Fe-Ni.

Um estudo à microssonda electrónica mostrou que a olivina apresenta uma composição muito constante de (18 a 19% molar de faialite) e uma composição média da piroxena de 16% molar de ferossilite, permitindo classificar este condrito no grupo dos bronzíticos (tipo H). Com base nas características observadas classificámos o meteorito de Ourique no tipo H4 da classificação petrográfica de Van Schmus e Wood, que corresponde ao segundo grupo de condritos mais abundantes com as fronteiras dos côndrulos distintas a pouco apagadas, com vidro raro e silicatos próximos do equilíbrio. Estudos químicos e isotópicos, bem como uma detalhada descrição das populações de clastos estão ainda em curso pelo autor. Este meteorito associa-se aos asteróides do tipo S, uma população frequente na parte mais interior da cintura de asteróides e o grupo mais abundante dentro daqueles que se aproximam e cortam a órbita da Terra. A submissão do nome e apresentação das características e classificação com vista à sua aceitação internacional foi feita à Comissão do Meteoritical Bulletin no dia 4 de Fevereiro de 1999 às 12:46:5 UTC e confirmada a recepção, no dia seguinte, como "new meteorite fall", sendo, até agora, a primeira queda de um meteorito em Portugal a ser classificada por um geólogo português.

Bibliografia:

  • Galopim de Carvalho, A & Monteiro, J.F. (1999) A propósito do meteorito de Ourique. Museu Nacional de História Natural, Lisboa.
  • Hutchison, R. (2004) Meteorites: a Petrologic, Chemical and Isotopic Synthesis. Cambridge University Press, Cambridge.
  • Monteiro, J.F. (2003) El Vulcanismo en el cinturón de Asteroides. In “Crónicas del Sistema Solar” Ed. Francisco Anguita & G. Castilla. E. Sirius, Madrid.

    Fonte: Portaldoastronomo
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