CULTURA


AS LENDAS DO FUTEBOL AUSTRALIANO

NOVO - CAPÍTULO DEZ - DIZ-ME O TEU NOME, DIR-TE-EI QUEM ÉS

 

CULTURA

Nesta secção iremos explorar a cultura e o folclore que rodeiam o futebol australiano. Nos últimos anos, a AFL testemunhou uma transição que fez o desporto sair dos velhos campos suburbanos intimamente ligados a um só clube, com as suas bancadas expostas à chuva, as suas casas de banho permanentemente entupidas e os seus cachorros quentes húmidos e “baldes” de cerveja, para entrar num novo mundo de estádios ultra-modernos, dotados de todas as comodidades e partilhados por várias equipas, tudo como resultado de uma política de “racionalização”.

 

O que se perdeu? O que se ganhou? Há semelhanças com o “nosso” futebol e os estádios do Euro 2004? Iremos tentar descobrir.


Para além disso, vamos falar de capitães arrojados, jogos e treinadores lendários, de uma final que ainda hoje é conhecida por “O Banho de Sangue”, de jogos disputados no interior profundo da Austrália, em campos japoneses de prisioneiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial e em plena Europa, durante a Primeira. Explicaremos a origem da “Regra Pai e Filho”, apresentaremos as claques e mostraremos as bandeiras gigantes de papel que os jogadores atravessam antes de cada jogo. Contaremos a história das Medalhas Brownlow, Magarey e Sandover, que distinguem, respectivamente, os “melhores e mais correctos” jogadores da AFL, SANFL e WAFL.

 

CAPÍTULO DEZ -  DIZ-ME O TEU NOME, DIR-TE-EI QUEM ÉS

 

As alcunhas dos clubes são um aspecto importante do futebol australiano. Tal como sucede nos desportos americanos as alcunhas têm um carácter semi-oficial, sendo usadas para identificar os clubes praticamente em igualdade de circunstâncias com o próprio nome dos mesmos.

Os nomes oficiais dos clubes de futebol australiano são normalmente muito simples, e tradicionais – Richmond FC, Collingwood FC, North Melbourne FC, etc. No entanto, e usando os mesmos três clubes como exemplo, eles também são conhecidos por Richmond Tigers, Collingwood Magpies e North Melbourne Kangaroos ou mesmo, simplesmente, por Tigers, Magpies e Kangaroos. A utilização de alcunhas remonta aos primórdios do desporto, coexistindo clubes que mantiveram sempre a mesma com outros que mudaram várias vezes. Há alcunhas derivadas das cores, da mascote, de circunstâncias históricas ou até do desejo de alterar a imagem dos clubes.

Eis a história das alcunhas dos clubes da VFL/ AFL.

Adelaide – O apodo tradicional dos nativos da Austrália do Sul é “crow-eaters”, literalmente “comedores de corvo”, que na gíria local significa alguém que gosta de se gabar. Tendo o Adelaide FC sido a primeira equipa da Austrália do Sul a tornar-se membro da AFL, a escolha da alcunha “the Crows” ou “corvos” revelou-se natural, inspirando-se os fundadores do clube na designação tradicional das gentes do seu próprio estado.

Brisbane – A equipa nasceu com a alcunha de “the Bears” ou “ursos”, adoptando o coala como mascote. Esta opção foi considerada bizarra, pois o coala não é um urso. O coala é um marsupial, enquanto que o urso é um mamífero placentário, mas estas diferenças de ordem biológica não detiveram os fundadores do clube.

Depois da fusão com o Fitzroy em 1996, a equipa passou a adoptar a alcunha deste clube “the Lions” (leões).

Carlton – A alcunha do Carlton é a mais útil da AFL. O clube é conhecido como “the Blues” (os azuis) ou, mais poeticamente, “the Old Dark Navy Blues”, ou “os velhos azul marinho escuro”. A alcunha é útil porque o azul do equipamento dos “azuis” é tão escuro que à primeira vista parece negro.

Ainda no século XIX a equipa também era conhecida como “the Butchers”, “os talhantes”, porque o corte das calças usadas pelos jogadores em campo fazia lembrar o das que eram tradicionalmente vestidas por quem trabalhava nos talhos. A designação de “blues” surgiria em 1871, quando a equipa adoptou bonés azul marinhos (na altura era normal que os jogadores actuassem de cabeça coberta).

Collingwood – O nome original do Collingwood era “Collingwood Britannia” e o clube equipava de azul, branco e vermelho, as cores da bandeira britânica. Em 1892, porém, quando foi requerida a admissão à VFA, a liga fez saber que, a ser admitido, o clube não poderia continuar a usar as suas cores tradicionais, pois estas confundir-se-iam com as do Footscray. Foi assim que surgiram o equipamento preto e branco e a alcunha de “the Magpies”, “as pêgas”. Quem diria que foi por uma imposição da VFA que aqueles dois elementos essenciais da identidade do clube viram a luz do dia...

Essendon – O primeiro apodo dos rubro-negros digno de registo foi “the Same Old”, “o mesmo de sempre”. Este nome derivou do facto do Essendon ter gozado de uma época de domínio absoluto na VFA, que incluiu quatro títulos consecutivos na década de 1890. Outra das alcunhas do clube foi (e ainda é) “the Dons”, uma abreviatura do seu nome oficial.

O clube passaria a ser conhecido como “the Bombers” ou “os bombardeiros” no início da década de 1940, por o seu campo ficar próximo de um aeroporto.

Fitzroy – Primeiro foram “the Maroons”, “os grenás”, nome retirado da cor predominante no seu equipamento. Depois decidiram passar a ser os “gorilas”, ainda o eram quando ganharam o seu último título em 1944. Em 1952 o clube fartou-se de macacadas (aparentemente a designação “gorilas” era motivo de chacota entre os adeptos dos outros clubes) e decidiu adoptar a alcunha de “Lions” ou “leões”, alcunha que o clube transmitiu ao Brisbane quando se fundiu com o mesmo.

Paralelamente às outras alcunhas, foram sempre os “Roy Boys”, os “rapazes de ‘Roy”, sendo “Roy” o diminutivo de “Fitzroy”.

Footscray/ Western B. – Os “buldogues” têm uma história acidentada no que toca a alcunhas, tendo utilizado várias ao longo dos tempos. Foi conhecido por “the Tricolours” (os tricolores) por via das cores do seu equipamento. A equipa também teve a alcunha fabulosa de “the Prince Imperials”, “os príncipes imperiais”, em homenagem a um membro da casa de Napoleão que, alistado no exército britânico, morreu em combate contra os Zulus em 1879.

A alcunha “the Bulldogs”, “os buldogues”, surgiu em 1928, quando um exemplar desta espécie de cães veio, por acaso, colocar-se à frente dos jogadores quando estes entravam em campo.

Fremantle – a alcunha deste clube da Austrália Ocidental é prova de alguma “americanização” do desporto australiano. “Dockers” quer dizer “estivadores”, mas trata-se de uma expressão americana. Como alguém escreveu sobre o assunto, jamais se ouvira a palavra “docker” no porto de Fremantle, sendo a expressão australiana equivalente “wharfie”.

Tal como viria a suceder com o Port Adelaide na Austrália do Sul, a AFL decidiu imprimir ao segundo clube da Austrália Ocidental a entrar na Liga um cunho “proletário”, introduzindo assim um elemento sócio-económico na rivalidade com o West Coast Eagles. Daí a alcunha de “estivadores”, a adopção da famosa canção russa dos Barqueiros do Volga para formar parte do hino do clube e a introdução, aquando do lançamento do clube, dum grupo de “mascotes” humanas que imitavam os trabalhadores portuários.

A alcunha “Dockers” já não tem uso oficial, uma vez que a marca de roupa com o mesmo nome ameaçou instaurar um processo por violação de direitos de propriedade industrial e a AFL e o Fremantle decidiram não se arriscar a ter que pagar indemnizações. O clube, contudo, continua a ser conhecido universalmente como “os estivadores”.

Geelong – A primeira alcunha dos azuis e brancos foi uma das mais intrigantes da história da VFL – AFL: “the Pivotonians”. Como Geelong ficava na encruzilhada das principais vias de comunicação de Victoria, a cidade adquiriu ela própria a alcunha de “Pivot”, o pivô. Assim, a sua equipa passou a ser conhecida por “Pivotonians”, algo como pivôenses ou pivôeiros.

Este nome bizarro foi abandonado em 1923 a favor de “the Cats”, “os gatos”, devido ao facto dos jogadores do clube terem adoptado um gato preto como talismã.

Hawthorn – Os campeões de 2008 eram inicialmente conhecidos por “the Mayblooms”, o que significa, literalmente, “flores de Maio”, pois “Hawthorn” é a designação inglesa de uma planta da família das rosas que, na Austrália, floresce naquele mês.

Em 1942, o treinador do Hawthorn, Roy Cazaly, uma das grandes figuras da história do futebol australiano, considerou que “flores de Maio” não era uma alcunha apropriada, pois transmitia uma imagem de delicadeza de todo consentânea com o próprio desporto. Cazaly decidiu escolher uma nova designação que projectasse a ideia de um clube aguerrido e feroz e acabou por optar por “the Hawks”, ou “falcões”, substituindo assim a frágil flor pela ave de rapina.

Melbourne – Também o Melbourne optou por substituir uma alcunha floral por outra que atemorizasse os adversários. O clube fundador do futebol australiano foi durante muitos anos conhecido por “the Redlegs” ou “pernas vermelhas”, devido à cor das suas meias, mas a alcunha principal do MFC era “the Fuchsias”, “os fuchsias”, o nome de uma flor. Em 1933 o grande treinador “Checker” Hughes incitou os seus jogadores durante o intervalo de um jogo berrando-lhes “estão a jogar como florzinhas, voltem ao campo e joguem que nem demónios!”. Desde essa altura que a alcunha do clube passou a ser “the Demons”, “os demónios”, que foi imediatamente considerada muito mais apropriada para designar uma equipa de futebol australiano.

North Melbourne – Durante décadas e décadas a alcunha do clube do Norte de Melbourne foi “the Shinboners”, algo como “os homens da tíbia”. Esta alcunha terá tido origem ou no ardor com que os azuis e brancos disputavam os jogos, pondo em risco a integridade das canelas dos adversários, ou na prática dos talhantes do subúrbio de North Melbourne exporem orgulhosamente grandes ossos decorados com as cores do clube nas suas montras.

Esta expressiva alcunha viria a ser abandonada a favor de “Kangaroos” (cangurus) em 1954, sendo a nova denominação mais simples de compreender e de explicar. No entanto, o velho apelido de “Shinboners” ainda não caiu em desuso e se alguém o mencionar todos saberão a que equipa se refere.

Port Adelaide – Tradicionalmente, o Port Adelaide FC sempre foi conhecido como “the Magpies” (as pêgas), devido ao facto do seu equipamento ser preto e branco. Quando a equipa trocou a SANFL pela AFL foi confrontada com a recusa do Collingwood em permitir a existência de um segundo clube que usasse as suas cores e a sua alcunha (quem sabe devido a memórias da altura em que o próprio Collingwood teve que mudar a cor do seu equipamento quando foi aceite na VFA).

Devido ao veto dos alvinegros o PAFC teve que alterar as suas cores e a sua designação para ser aceite na AFL (a equipa do Port Adelaide na SANFL manteve, porém, o seu equipamento tradicional e a alcunha “the Magpies”). Nasceu assim o “Power”, o “poder”, que adicionou o azul celeste ao branco e ao negro e trocou os tradicionais ombros negros e riscas alvinegras por camisa negra com ombros azuis celestes, a que foram acrescentados pentágonos alongados que são negros na parte que se sobrepõe ao azul e brancos na parte que se sobrepõe ao negro.

Richmond – Os de Richmond são conhecidos como “the Tigers”, “os tigres”, desde 1921. O nome deriva do grito de guerra de um Mr. Miles, adepto incondicional do Richmond, que costumava incentivar a equipa gritando “eat’em alive, tigers” (comam-nos vivos, tigres), pois associava o negro e o amarelo das camisolas do seu clube às cores daquele felino. Mr. Miles era um homem com pouco dinheiro e por isso muitas vezes tinha que se empoleirar numa árvore que crescia junto ao campo para poder ver os jogos, pois não tinha o suficiente para pagar o preço do bilhete.

Antes da alcunha “os tigres” o Richmond usara outras, incluindo “the Yellow and Black Angels”, “os amarelos e negros”, e “the Wasps”, “as vespas”.

St Kilda – Embora o clube já tenha tido as alcunhas de “the Seagulls” (as gaivotas) ou mesmo “the Panthers”, “as panteras”, era mais ou menos inevitável que acabasse por ser conhecido por “the Saints”, “os Santos”.

South Melbourne/ Sydney – Este clube já teve uma das melhores alcunhas não só do futebol australiano, mas de todo o desporto mundial. Há muitas décadas atrás os alvirrubros eram conhecidos por “the Blood-stained Angels”, os “anjos manchados de sangue”. A outra alcunha do então South Melbourne era simplesmente “the Bloods”, “os sangues”.

Nos anos 30, porém, o clube do sul de Melbourne decidiu construir uma equipa capaz de conquistar o título comprando os melhores jogadores de toda a Austrália (o que lhe valeu, durante uns tempos, o apodo de “a legião estrangeira”). Vários desses atletas eram oriundos da Austrália Ocidental, tendo sido adquiridos a clubes da liga local. Ora, o emblema da Austrália Ocidental é o cisne negro, o que levou a que a equipa começasse a ser chamada “the Swans”, “os cisnes”, devido à presença de tantos nativos do estado do cisne nas suas fileiras.

A alcunha sobreviveu até hoje, tendo resistido à mudança do clube de Melbourne para Sydney. Aliás, durante o período de transição em que a mudança ainda era encarada como provisória ou, mais concretamente, como uma mera situação de facto, o clube chegou a chamar-se, simplesmente, “the Swans”, assim se deixando entender que não pertencia nem a Sydney, nem a South Melbourne, nome depois alterado para “Sydney Swans”.

Desaparecida a inimitável alcunha “the Blood-stained Angels”, fica pois a consolação da bizarria da actual designação do clube, que faz eco, sete décadas depois, da política de contratações adoptada pelos directores dos alvirrubros durante a grande depressão.

University – Devido às fortes ligações do clube com a Universidade de Melbourne, era mais ou menos inevitável que fossem adoptadas as alcunhas de “the Professors”/ “os professores” e “the Students”/ “os estudantes universitários”. Curiosamente, os relatos da época parecem indicar que ambas as alcunhas eram de uso comum, não tendo o clube chegado a optar por uma delas em definitivo.

West Coast – A alcunha “the Eagles” ou “as águias” terá sido escolhida devido ao facto de, pela sua localização geográfica, a equipa ser obrigada a fazer longas viagens aéreas sempre que joga fora de casa.

24/9/09

As fontes principais deste artigo foram os livros "100 years of Australian Football" e "The Clubs"


 

CAPÍTULO NOVE - O CLUBE ESQUECIDO DA VFL

A AFL e a sua antecessora, a VFL, são notáveis pela pouca variação dos clubes participantes. Sem subidas e descidas de divisão, como no futebol, e sem mudanças constantes de cidade, como sucede nos EUA, a constância é tal que oito dos dezasseis clubes que hoje disputam a AFL já integravam am VFL há cem anos atrás, tendo um deles mudado entretanto de cidade. Sete dos clubes estão na liga desde 1897, dez desde 1925.

Entre 1925 e 1982 não houve qualquer alteração e na segunda data apenas ocorreu a mudança do South Melbourne para Sydney. Desde então, a transição de campeonato do Estado de Victoria para competição nacional fez-se com um mínimo de sobressaltos, pela criação de cinco novos clubes (um deles, o Port Adelaide, transitou da SANFL) e pela fusão de um dos mesmos, o Brisbane Bears, com o um dos fundadores da VFL, o Fitzroy Lions.

A estabilidade tem sido tal que em 1989, quando se perspectivava a absorção do Footscray pelo Fitzroy (ver capítulos quatro e cinco), chegou a dizer-se que seria a primeira vez que um clube da VFL iria desparecer. Esta afirmação estava errada. Com efeito, 1914 testemunhou o ocaso de um clube da VFL, um clube cuja carreira não pode considerar-se um sucesso, mas que deixou a sua marca e foi o berço de uma das grandes dinastias do futebol australiano - o University.

Em 1908 a VFL efectuou a sua primeira expansão. Foi decidido que aos oito clubes fundadores seriam somados outros dois, de modo a elevar o número dos participantes para dez. Os escolhidos para a inclusão na Liga acabaram por ser dois clubes que representavam grupos sociais tão distintos que fica a ideia que se pretendeu manter o equilíbrio entre clubes "burgueses" e "operários", entre clubes "protestantes" e "católicos", entre clubes do "establishment" e das "margens".

Por um lado, admitiu-se o Richmond, radicado num subúrbio operário e católico, com adeptos conhecidos pelo seu fanatismo, e, por vezes, conduta "mal-comportada". O clube cujo "lema" viria a ser "comam-os vivos, tigres", eat' em alive tigers, o clube que viria a ter ídolos como "capitão sangue" Dyer e "esfomeado" Bartlett.

Por outro lado, foi acolhido o University, o clube que, como o nome indica, representava a Universidade de Melbourne, cujos jogadores só podiam ser licenciados ou estudantes, feroz defensor do amadorismo e respeitador das instituições. Em 1909, treze dos dezoito jogadores que conseguiram empatar com o Collingwood, o melhor resultado de sempre do University contra os Magpies, eram médicos ou estudantes de medicina.

Dois clubes, duas faces de Melbourne.

Com o seu equipamento elegante (camisa negra com "v" azul no peito e faixa horizontal azul na cintura), o University jogava no East Melbourne Cricket Ground. Em 1908 venceu oito jogos e perdeu dez, ficando em sexto lugar, uma boa prestação para um clube estreante, sendo certo que o Richmond apenas amealhou seis triunfos e perdeu doze partidas. não se sabe se o espírito cavalheiresco dos seus jogadores constituía uma vantagem ou uma desvantagem (sabe-se que a equipa e os seus adeptos eram considerados muito "bonzinhos", tendo sido definidos por um incondicional do South Melbourne como "o género de gajos que lava os dentes e usa pijama"), mas o certo é que após mais duas épocas com prestações respeitáveis (7V-9D e o 7º posto em 1909, 10V-8D e o 6º lugar em 1910), o clube cujas alcunhas eram "os estudantes" e "os professores" passou a ser o inquilino permanente da "cave" da VFL e possuidor incontestado da "wooden spoon" (ver a secção vocabulário), tendo ficado em 10º e último nas épocas de 1911, 1912, 1913 e 1914, com 1V-17D nos dois primeiros anos e 0V-18D nos seguintes, tendo perdido os últimos cinquenta e um jogos que disputou na VFL. A sua última vitória ocorreu na 3ª jornada de 1912, contra o Richmond, no MCG.

A época de 1914 seria a última em que o University Football Club participaria na VFL. Com o início da I Guerra Mundial, muitos dos seus jogadores acorreram aos postos de recrutamento, apressando-se a oferecer-se como voluntários para a defesa do Império Britânico (ver capítulo sete). Pelo menos catorze - Rupert Balfe, Arch Corbett, Jack Doubleday, George Elliott, Chris Fogarty, Richard Gibbs, Arthur Hinman, Fred MacIntosh, Stan Martin, Stan Neale, James Nicholas, Percy Rodriguez, Robert Seelenmeyer e Maldwyn Williams - morreram em combate e  outros faleceram pouco depois da Guerra terminar, em consequência de ferimentos sofridos.

A exigência da qualidade de estudantes ou licenciados para poder representar o clube sempre fora um entrave ao recrutamento de jogadores. Por outro lado, uma vez que o University não representava nenhum bairro ou subúrbio específico, caso único na Liga, não mobilizava um número significativo de adeptos, sendo de longe a equipa com menos simpatizantes da VFL.

Face à sangria de jogadores, o University ficou sem elementos suficientes para poder disputar o campeonato. Face a esta situação desesperada e aos sucessivos reveses desportivos, o clube optou pela integração no Melbourne, escolhido por representar as mesmas camadas sociais e por ser igualmente adepto feroz do amadorismo.

Assim, os poucos jogadores do University que restavam ingressaram no clube fundador do futebol australiano.

Impossibilitada de se fazer representar ao mais alto nível, a Universidade de Melbourne passou a participar do campeonato amador do Estado de Victoria - VAFA. A Universidade chegou a competir na VAFA com três equipas diferentes, o University Blacks, com uniforme igual ao do antigo clube da VFL, uma das formações com maior renome na VAFA, de cuja divisão principal foi campeão treze vezes e cuja segunda divisão disputa actualmente, o University Blues, que também usa o uniforme do ex-University FC, joga na primeira divisão da VAFA e foi campeão em 1952, 1960 e 2004, e o University Reds. Os Reds, cansados de ser a terceira equipa da Universidade de Melbourne, decidiram há poucos anos mudar-se para o antigo campo do Fitzroy (Brunswick Oval), cortando os laços com a "Uni" e passando a chamar-se Fitzroy Reds e a jogar com a camisa dos antigos Fitzroy Lions. Disputam a quarta divisão da VAFA.

O legado mais significativo do University, para além dos clubes da VAFA, foi a dinastia Cordner. Harry e Edward (Ted) Cordner eram irmãos e ambos alinharam pelo University. Harry transitou para o Melbourne após a fusão. Os quatro filhos de Ted Cordner, Don, Denis, Ted e John jogaram todos na VFL pelo Melbourne e todos eles ficaram conhecidos pela rectidão do seu carácter e pelo seu grande desportivismo. Don Cordner chegou mesmo a ganhar a "Medalha Brownlow", atribuída ao "melhor e mais correcto" jogador da Liga. A dinastia prosseguiu com David Cordner, filho de Ted Cordner Jr., que jogou no Melbourne entre 1983 e 1987.

Outros jogadores do University que se destacaram apesar dos fracassos do clube foram Jack Brake, que viria a ingressar no Melbourne, Tom Ogilvie, Dave Greenham, George Elliott, Burt Hurrey, Lester Kelly, Eric Wood e Roy Park, todos eles seleccionados para a equipa estadual de Victoria.


As fontes principais deste artigo foram os livros "The Clubs" e "100 Years of Australian Football" e os sites da VAFA e dos University Blacks.

 


CAPÍTULO OITO - O SENHOR FUTEBOL

Entre todos os ídolos do futebol australiano ao longo dos tempos, apenas um mereceu o título puro e simples e universalmente reconhecido de “Senhor Futebol”. Nascido no dia 27 de Julho de 1933 e crescido em Braybrook (Melbourne), Edward James (mais conhecido por E.J. ou por Ted) Whitten foi durante anos a fio o símbolo vivo não só do Footscray Football Club e da selecção do Estado de Victoria, “the Big V”, mas também da modalidade em si.

 

O jovem Whitten era adepto dos Bulldogs e ambicionava jogar pela equipa do Western Oval, mas as regras em vigor nos anos cinquenta sobre o recrutamento de jogadores, baseadas na atribuição de um “território” a cada um dos clubes, que passava a ter a primazia na contratação dos aspirantes a futebolistas da VFL que ali residissem, ditavam que o Collingwood tinha direito de preferência. Os Magpies não conseguiram discernir o enorme talento de Whitten e deixaram-no livre para assinar por quem quisesse. Foi quanto bastou para que E.J. ingressasse no Footscray, cumprindo assim o seu destino, que sempre fora o de se tornar uma lenda do clube do ocidente de Melbourne.

 

No seu primeiro jogo na VFL, em 1951, o adversário foi o Richmond. No futebol australiano, em menor grau nos tempos que correm, cada jogador é “emparelhado” com o adversário que ocupa a posição directamente oposta à sua (avançado centro com defesa central, médio ofensivo direito com médio defensivo esquerdo, etc.), somando-se assim dezoito duelos individuais ao confronto colectivo entre as duas equipas. O adversário directo de Whitten, que ainda não era o “Mr. Football”, que ainda não passava de um jovem desconhecido, era Don “Mopsy” Fraser, um defesa cuja menção era suficiente para provocar calafrios em muito veterano da VFL, de tal modo era temível e tal a sua reputação.

 

Tendo cumprido dezasseis jogos de suspensão ao longo da sua carreira na VFL, Fraser tornou-se um dos mais infames “duros”, um dos “hard men” mais lendários da história da competição. Antes do jogo começar, Fraser encarregou-se de informar o estreante que não lhe admitiria veleidades. E respondeu à tentativa de aperto de mão de Whitten com um pontapé. Da primeira vez que a bola chegou junto de ambos, Whitten adiantou-se a Fraser, conseguiu um “mark” em boa posição e fez o golo, juntando-se ao clube dos jogadores que conseguiram marcar um golo com o seu primeiro remate num jogo da liga. A reacção de “Mopsy” não se fez esperar. “Não devias ter feito aquilo”, sussurrou ele ao ouvido de E.J. Sendo homem de palavra, Fraser encarregou-se de pôr Whitten inconsciente antes que o jogo acabasse.

 

Mas não havia maneira de negar ou conter o talento do jovem E.J. Idolatrado pelos adeptos do Footscray, porque muito semelhante a eles próprios, Whitten desenvolveu uma personalidade cativante, discutindo com os árbitros constantemente, irritando os adversários, portando-se de modo irreverente dentro de campo, mas sempre com um sorriso nos lábios.

 

Tornou-se um dos principais protagonistas da época de ouro do Footscray FC, participando nas duas únicas Grand Finals da VFL que o clube atingiu até hoje: em 1954, quando os Bulldogs derrotaram a jovem equipa do Melbourne que viria a dominar a VFL nos dez anos seguintes, como jogador, e em 1961, quando perderam contra o Hawthorn, que se estreou a ganhar campeonatos, como jogador-treinador. Whitten foi, aliás, nomeado treinador do Footscray em 1957, aos vinte e três anos, em substituição de outro ídolo dos Dogs, Charlie Sutton, o treinador campeão de 1954, o que demonstra as suas grandes qualidades de liderança. Treinou o clube entre 1957 e 1966 e 1969 e 1971.

 

Whitten disputou o seu 321.º e último jogo em 1970 Na altura o recorde de presenças na VFL era 320 e o clube forçou Whitten a deixar a equipa logo após o ter batido, o que lhe causou grande amargura. A televisão encarregou-se de o acompanhar ao longo da sua deslocação ao Western Oval nesse dia. Antes de entrar no estádio, foi-lhe perguntado como se sentia. “Sinto-me horrivelmente, pá” (it feels bloody awful, mate) foi a sua resposta.

 

Entrou em campo ladeado por uma guarda de honra formada pelos companheiros e pelos adversários do Hawthorn. No intervalo entre o terceiro e o quarto quartos, na sua qualidade de treinador, motivou os colegas com um discurso que se viria a tornar um dos mais conhecidos da história do futebol australiano, pedindo um esforço pessoal aos seus colegas e pupilos, pedindo que o inspirassem com a sua actuação no último quarto do jogo. No final, após a vitória, discursou visivelmente emocionado perante os adeptos e recebeu um apito dourado da equipa de arbitragem, em tributo à sua determinação em “arbitrar” os jogos ao longo dos anos (Whitten tinha um conhecimento profundo das regras do futebol australiano, adquirido enquanto ainda era jogador, e nunca se coibiu de contestar abertamente as decisões dos árbitros que considerava erradas, designadamente as que prejudicavam o “seu” Footscray). Foi uma tarde memorável, na qual os “Footscrayites” demonstraram mais uma vez o carinho que sentiam por Ted Whitten.

 

Mais tarde, nesse mesmo dia, Whitten foi convidado para um programa televisivo, onde lhe ofereceram uma gravação do jogo e onde foi aplaudido, com visível sentimento, por todos os presentes, incluindo velhas lendas do futebol australiano tais como Lou Richards, um ex-jogador do Collingwood que veio a tornar-se um conhecido e popular apresentador de programas desportivos.

 

A outra “paixão” de Ted Whitten foi a selecção de Victoria. Desde o dealbar da modalidade que os jogos entre selecções estaduais foram disputados com regularidade. A princípio (e durante mais de cem anos) eram jogos entre selecções de ligas (Victorian Football League, West Australian Football League, Tasmanian Football League, South Australia National Football League, etc.), o que significava que quando um jogador se transferia para outro estado, passava a jogar pela selecção do mesmo. Isto significava que o estado com o campeonato mais “rico”, Victoria, cujos clubes recrutavam habitualmente os melhores jogadores das outras ligas, tinha normalmente a selecção mais forte, o que levou, nos anos setenta, à introdução do conceito do “State of Origin”, segundo o qual cada jogador se declarava originário de um dos estados da Austrália e passava a só poder jogar pela selecção do mesmo.

 

Apesar de desequilibrados em favor de Victoria e do facto de Queensland e New South Wales, estados onde o râguebi é o desporto mais popular, não terem grande interesse pelo futebol australiano em geral, quanto mais de selecções estaduais, os jogos entre essas selecções mantiveram grande popularidade ao longo das décadas, alimentada pelas rivalidades regionais e, sobretudo, pelo desejo que todos os outros estados tinham de derrotar Victoria. Os australianos do sul eram especialmente ferozes na sua antipatia pelos seus vizinhos e chegaram mesmo a usar o “grito de guerra” kick a Vic, dá um pontapé a um victorian. Whitten adorava estes jogos, que permitiam ver jogar lado a lado a nata da VFL. Segundo ele, os jogadores prefeririam ser seleccionados para os jogos interestaduais a ganhar a lotaria e não se importariam de gatinhar sobre vidros partidos para merecer o “Big V jumper”, a camisa da selecção do Estado de Victoria.

 

Enquanto jogador e depois treinador estadual, Whitten foi um lutador incansável pela promoção e manutenção dos jogos interestaduais, cuja popularidade se foi desvanecendo, ao contrário do que sucedeu no râguebi de treze, onde os confrontos entre New South Wales e Queensland são mais populares do que nunca. Mas Whitten nunca deixou de lutar pelo seu “state footy”, treinando a equipa de Victoria e gritando aos quatro ventos o seu lema, stick it right up’em, enfia-o por eles acima, para gáudio e ânimo de jogadores e adeptos.

 

Ted Whitten também participou na luta pela salvação do Footscray em 1989. A princípio, declarou-se devastado com as notícias da fusão do seu clube de sempre com o Fitzroy, afirmando que os adeptos mais idosos e mais leais “morreriam” caso os Dogs desaparecessem. Depois, num segundo momento, acabou por declarar que aceitaria a fusão como um “mal menor”. Mas mal se percebeu que havia uma possibilidade real de salvar o clube e mantê-lo como uma entidade independente participou activamente no “Fightback”, treinando até a equipa de velhas glórias dos Bulldogs que defrontou a sua homóloga do Collingwood num jogo de recolha de fundos.

 

Como Whitten morreu devido a um cancro na próstata em 1995, aos sessenta e dois anos de idade, poder-se-ia pensar que o seu fim foi triste. Porém, o eterno Bulldog encarregou-se de deixar de si uma imagem de alegria e coragem.

 

Dois meses antes de falecer, Whitten fez a sua última aparição pública, por ocasião de um jogo entre Victoria e South Australia no Melbourne Cricket Ground. Foi transportado num carro descapotável, ocupando a traseira com o seu filho Ted, Jr., também ele um grande jogador e ex-atleta do Footscray, cuja carreira foi encurtada por uma lesão, e levado a fazer uma “volta de honra” ao relvado do MCG. No banco da frente, ao lado do condutor, iam os seus netos, devidamente equipados à Footscray. Agora cego e moribundo, Whitten ofereceu aos adeptos do futebol australiano uma despedida à altura dos seus pergaminhos. Sorrindo e acenando, fazendo o seu tradicional “manguito” quando o seu filho lhe sussurrou que estavam a passar em frente à bancada dos sócios do MCG, onde se reunia a alta sociedade de Melbourne, o Senhor Futebol provou que, posto perante um adversário mais temível do que qualquer “Mopsy” Fraser, se comportava com a mesma coragem que o levara, tantos anos antes, a ganhar aquele “mark” e a marcar aquele golo no seu primeiro jogo na VFL, sem se importar com as consequências. A dado momento, agarrou a cara do filho e encostou-a à sua, chorando lágrimas de alegria e emoção.

 

Esse momento tornou-se um símbolo, de um homem que vivera a sua vida com grande paixão, um homem generoso, cativante, capaz de retribuir o afecto que recebia, que se tornou uma lenda. Ninguém que tenha estado no MCG nesse dia ou que tenha visto essas imagens ficou indiferente. Velhas glórias, treinadores, jogadores, adeptos, todos partilharam a emoção genuína sentida por Whitten. Quando morreu, a 17 de Agosto de 1995, foi-lhe concedido um funeral de Estado. O que foi adequado e não surpreendeu ninguém. Também foi nomeado para o “Hall of Fame” da AFL, fazendo parte do reduzido grupo a quem foi conferido o título de “lenda do jogo” – legend of the game.

 

Hoje, a Fundação Ted Whitten http://www.ejwhittenfoundation.com.au/

gerida por Ted, Jr., dedica-se ao combate contra o cancro da próstata. E a imagem que nos ficou do “Senhor Futebol” é a da sua juventude, pontapeando a bola, braços abertos, sorrindo. Tal como aparece na estátua que lhe é dedicada no ex-Western e hoje Whitten Oval (que contém a bancada “E.J. Whitten”). Tal como será lembrado para sempre.

 

2/10/08

As fontes principais deste livro foram o livro "Unleashed - A history of the Footscray Football Club", de John Lack e Outros, "The Clubs" e "100 Years of Australian Football", ambos de vários autores, e o DVD "100 Years of Australian Football".

 

 


 

CAPÍTULO SETE - JOGAR OU NÃO JOGAR?

Na Austrália, a Primeira Guerra Mundial é vista como uma espécie de epopeia fundadora da nacionalidade. A federação das várias colónias australianas num só país ocorrera em 1901, treze anos antes do início da guerra, e foi a participação das tropas australianas no conflito, especialmente na campanha de Gallipoli, que foi um fracasso do ponto de vista militar, mas que é vista como uma prova das qualidades de resistência perante a adversidade e de camaradagem que os australianos reclamam como suas, que deu origem ao sentimento de que a Austrália era de facto um só país. Ainda hoje a cada 25 de Abril (aniversário do desembarque em Gallipoli) milhares de australianos se deslocam à Turquia, ao local onde os soldados australianos desembarcaram, para prestar a sua homenagem aos homens de 1915.

Para a Victorian Football League (VFL), no entanto, a guerra foi a causa de um dilema: jogar ou não jogar? Estando o país em guerra, sendo os jovens necessários nos campos de batalha e não no terreno de jogo, não seria o mais correcto suspender o campeonato? Este dilema foi a origem de uma discussão que acabou por se espalhar a toda a sociedade e lembrar, mais uma vez, a existência de duas Austrálias, uma popular e uma "oficial", com aspirações diferentes e com modos e filosofias de vida igualmente diversos.

Para a Austrália "oficial", para o "establishment", não havia dúvidas, o campeonato deveria ser suspenso, não fazia sentido que jovens fisicamente aptos continuassem a jogar futebol australiano enquanto os seus pares se alistavam no exército e partiam para a guerra. Todo o país deveria dedicar-se unicamente ao esforço de guerra, sem excepções. A Austrália "popular", no entanto, discordava e lançava a acusação de hipocrisia. Se o problema era a prática de desporto durante a guerra, porquê então se reclamava apenas a suspensão da VFL? Porque é que ninguém pedia que se deixasse de jogar ténis, ou golfe? Para os "populares"  e para os clubes "operários" da VFL, na altura o Carlton, o Collingwood, o Fitzroy ou o Richmond, era claro que o que se pretendia, mais uma vez, era sacrificar a classe trabalhadora, privando-a do seu principal entretenimento, enquanto que os desportos "burgueses" do golfe e do ténis podiam continuar.

Se, por um lado, homens como o Dr. W.C. McClelland, presidente do Melbourne, afirmavam que alistar-se era um dever dos futebolistas, ou que, perante as baixas crescentes sofridas pelas tropas australianas, seria incorrecto continuar a praticar desporto, por outro lado o treinador do Carlton, John Worral, respondia que cabia a cada indivíduo definir os seus deveres morais e que a suspensão do campeonato levaria mais homens a embebedar-se do que a alistar-se. Para os clubes "populares", a questão não se punha em termos da existência ou não de um dever de auxiliar o esforço de guerra - o que era inaceitável era que se procurasse coagir as pessoas a fazê-lo, sem as deixar decidir por elas próprias. Para mais, a Austrália era totalmente alheia às disputas entre 
a Alemanha e a Grã-Bretanha, país cuja participação na guerra ditara a da própria Austrália, enquanto membro do Império. E nada opunha a Austrália à Turquia, o país que as suas tropas iam agora invadir.

Worral acabou por estar mais perto da verdade, pois foram os clubes quem, individualmente, optou por continuar ou não a jogar.  O University, admitido na liga em 1908, já nem disputou a época de 1915 - clube eminentemente de classe média e susceptível aos apelos da Pátria, muitos dos seus jogadores, todos eles licenciados, alistaram-se nas forças armadas, deixando o clube (que em 1912 ganhara um jogo e em 1913 e 1914 não ganhara nenhum) sem condições de continuar a disputar o campeonato. O University acabou assim por ser integrado no Melbourne, clube apoiado pela mesma classe social e representante do "establishment" por excelência.

Em 1915 o St. Kilda quis projectar uma imagem de patriotismo e abandonou o seu equipamento tradicional alvo-rubro-negro (as cores da bandeira do Reich alemão), adoptando uma camisa às riscas negras, amarelas e vermelhas, que simbolizavam a bandeira da Bélgica, o país cuja invasão pelos alemães desencadeara a guerra. Por coincidência, a primeira jornada disputou-se em 24 de Abril de 1915, ou seja um dia antes do desembarque das tropas australianas em Gallipoli. Durante a época de 1915 a discussão sobre se seria mais correcto continuar o campeonato ou suspendê-lo não cessou. L.A. Adamson, presidente da Associação Amadora de Futebol, chegou a afirmar que os vencedores do campeonato, em vez das tradicionais medalhas, deveriam receber a "Cruz de Ferro" alemã, tal seria a traição à Pátria cometida pelos que queriam continuar a jogar. A Victorian Football Association, liga rival da VFL, suspendeu a sua competição logo em 1915. 

O Essendon (clube ligado à classe média, o que se refere porque esta divisão social teve um papel determinante nos factos que se descrevem) propusera a suspensão do campeonato já em 1915, moção que fora derrotada na Assembleia-Geral Anual da Liga. A mesma proposta foi apresentada antes do início da época de 1916, tendo sido apoiada por cinco dos nove clubes (Essendon, Geelong, Melbourne, St. Kilda e South Melbourne), sem que, contudo, fosse atingida a maioria de dois terços requerida para a aprovação da proposta. No entanto, os cinco clubes que tinham votado a favor da suspensão da liga decidiram não participar na época seguinte, deixando sozinhos o Carlton, o Collingwood, o Fitzroy e o Richmond.

A época de 1916 acabou assim por ser a que foi disputada por menos clubes (quatro, a quatro voltas) e ficou célebre por ter sido a única em que um clube foi "lanterna vermelha" e campeão no mesmo ano. Com apenas quatro clubes, todas as equipas ficaram automaticamente apuradas para a fase final e a classificação final apenas serviu para determinar a posição de cada clube na mesma fase, sendo que o clube melhor classificado, caso não vencesse a fase final, teria o direito de desafiar o vencedor  para uma "grande final". No fim da época regular o Fitzroy era último com duas vitórias, nove derrotas e um empate. No entanto, na fase final o FFC superou todas as expectativas e derrotou o Collingwood por 9.9(63) a 8.9(57) na primeira meia-final e o Carlton (primeiro classificado) por 9.11(65) a 5.12(42) na final. Houve assim lugar a "grande final", com o Fitzroy a derrotar de novo o Carlton, desta vez por margem ainda maior, 12.13(85) a 8.8(56).

Em 1917 o Geelong e o South Melbourne voltaram à competição (vencida pelo Collingwood, que contou com um talismã feito a partir de munições alemãs enviado por um ex-jogador do clube que estava em França com a força expedicionária australiana, o que talvez indicará que os soldados que se encontravam na frente não se opunham a que o campeonato prosseguisse), em 1918 foi a vez do St. Kilda e em 1919 o Melbourne regressou finalmente, sem que o seu patriotismo fosse recompensado- perdeu todos os 16 jogos que disputou. 

Ficou a memória dos anos da guerra, dos anos em que os sargentos recrutadores eram convidados para ir pedir voluntários aos estádios, mas eram corridos (algumas vezes sob ameaças de agressão) quando iam aos campos do Collingwood ou do Carlton ou dos outros "populares", ou em que o Primeiro Ministro que pretendia introduzir o recrutamento compulsivo era recebido com palmas dos "cativos" e assobios das "superiores".

Hoje toda a Austrália honra os soldados de 1915 e a AFL disputa um jogo em sua homenagem (Essendon-Collingwood) a cada 25 de Abril. No entanto, ficou também para a história a determinação de alguns australianos que optaram por continuar a jogar o seu jogo e viver as suas vidas do modo que tinham escolhido, considerando que os sacrifícios que faziam no dia a dia eram mais do que suficientes para justificar que continuassem a poder praticar e assistir o seu desporto favorito. E ficou a lembrança das divisões latentes na sociedade australiana, trazidas à luz do dia pela experiência traumática da guerra.

  

29/6/08

As fontes principais deste artigo foram os livros "100 Years of Australian Football" (vários autores) e "Up Where, Cazaly?" de Leonie Sandercock e Ian Turner.



CAPÍTULO SEIS - O MAIS CORRECTO E MAIS BRILHANTE

 William Ashley Magarey nasceu em 1868 e faleceu em 1929. Os seus avós paternos eram naturais do território que hoje é a Irlanda do Norte. Em 1841 o seu pai e o seu tio decidiram emigrar, escolhendo a Nova Zelândia para fixar residência. Quatro anos mais tarde, optaram por mudar-se novamente, desta feita para a Austrália do Sul, onde prosperaram. O pai de William Ashley Magarey chegou a deputado no parlamento colonial.

O jovem Magarey frequentou o St. Peter's College, a mais conceituada escola da cidade de Adelaide. Ali jogou cricket, praticou remo, lacrosse e algum futebol australiano, para além de se dedicar ao boxe e à luta greco-romana. Com um metro e noventa e um de altura, tinha físico de atleta.

Findos os anos de escola, enveredou pela carreira de advogado e, em 1897 aceitou presidir à direcção (como "chairman") da South Australian Football Association (hoje South Australian National Football League), a principal liga de futebol australiano da colónia, com o mandato de um ano, tendo também a seu cargo a acção disciplinar sobre os jogadores. As penas que aplicava ficaram conhecidas pela sua severidade. Condenou um jogador do South Adelaide a 3 anos de suspensão por ter arremessado a bola contra o árbitro num jogo com o Port Adelaide e por ter, após isso, atirado o próprio árbitro ao chão. Magarey fez saber que a sua intenção fora irradiar definitivamente o atleta e que só aceitara limitar a pena aos 3 anos de suspensão perante o pedido de desculpas por escrito que o mesmo entretanto apresentara.

Em 1898 não aceitou ser reconduzido no seu cargo, mas deu a sua maior contribuição ao futebol australiano na Austrália do Sul ao criar uma medalha, que passaria a doar anualmente, destinada a recompensar o "fairest and most brilliant player", ou seja, o jogador mais correcto e mais brilhante do campeonato. Esta medalha, a Medalha Magarey (Magarey Medal) tornar-se-ia no mais importante galardão individual atribuído pela liga da Austrália do Sul, mantendo viva a memória de William Ashley Magarey, que ainda ocupava o posto honorífico de Presidente da Liga no dia em que morreu.

A início encarada com desconfiança, a medalha fora criada para combater a violência durante os jogos, encorajando o desportivismo, o que foi sempre um dos principais objectivos de Magarey enquanto dirigente.

A princípio a medalha pareceu estar amaldiçoada. O primeiro vencedor (1898) foi Alby Green, do Norwood FC, que terminou a sua carreira futebolística no final da época em que conquistou a medalha, embora tivesse apenas 25 anos de idade, por discordar de uma nova regra de distribuição dos jogadores pelos clubes que o obrigaria a abandonar o Norwood caso continuasse a jogar. 

O segundo medalhado foi Stanley Arthur Malin, conhecido por "sailor" (marinheiro), jogador do Port Adelaide FC. Também ele nunca mais jogou na liga da Austrália do Sul após ganhar a medalha, pois mudou-se para Sydney, na colónia de Nova Gales do Sul, onde viria a morrer de febre tifóide em 1903, aos 25 anos de idade. 

Não há registo da atribuição do galardão em 1900. Segundo o historiador John Wood, Magarey viajara para a Europa nesse ano e acabou por não estar em Adelaide para doar a medalha na altura em que a mesma deveria ter sido atribuída.

O terceiro vencedor (1901) foi Phillip Thomas Sandland, do North Adelaide. Apesar de ter somente 18 anos e 9 meses quando venceu o troféu, um recorde que duraria até 1982, também ele nunca mais jogou na liga após receber a medalha. A sua época de estreia foi também a da despedida. Foi Tommy MacKenzie, jogador do South Adelaide em 1898 e do West Torrens a partir de 1899, o primeiro vencedor que continuou a jogar depois de medalhado e o primeiro a vencer o troféu mais do que uma vez. Verdadeiro ídolo da sua era, foi considerado o "mais correcto e mais brilhante" em 1902, 1905 e 1906, as duas últimas duas épocas ao serviço do North Adelaide, onde jogou lado a lado com o seu irmão Edward, antes de voltar ao West Torrens em 1909. Gravemente ferido na Primeira Guerra Mundial, Tommy MacKenzie viria a morrer prematuramente em 1927.

Em 1904 a medalha voltou a não ser atribuída, em resultado de ainda ser encarada com reservas por muitas das pessoas ligadas ao futebol australiano na Austrália do Sul. Porém, ao longo dos anos, a atribuição da "Magarey Medal" foi-se tornando num dos pontos altos da época futebolística, sobretudo quando a criação de troféus equivalentes noutros estados, especialmente a "Brownlow Medal", atribuída pela VFL  a partir de 1924 ( hoje atribuída pela AFL), provou que Magarey e a Austrália do Sul em geral tinham sido visionários, antecipando-se aos rivais de Victoria no estabelecimento de uma importante tradição.

Desde 1897 muitos e famosos foram os jogadores galardoados. Falaremos agora sobre alguns deles. Homens como Dave Low, vencedor em 1912 e jogador do West Torrens, que acabaria por morrer em combate em 1916, Dan Moriarty, do South Adelaide, único a vencer 3 medalhas consecutivas (1919-1920-1921) ou Walter Scott, do Norwood, vencedor em 1924 e 1930, um dos jogadores mais galardoados da história da SANFL, vencedor do prémio de "melhor e mais correcto" do seu clube em 1920 (com 18 anos, na sua primeira época), 1921, 1926, 1928 e 1930, escolhido para integrar a selecção estadual em 1921, 1922, 1924, 1925, 1926, 1927 (ano em que estabeleceu um recorde australiano ao jogar 28 jogos consecutivos pela selecção estadual), 1929 e 1930, vencedor, ainda, de diversos outros troféus a nível de clube, capitão do Norwood e da Austrália do Sul.

Bruce McGregor,  do West Adelaide,  foi outro vencedor de mais do que uma medalha (1926-1927) e era considerado um desportista modelo. Jack Sexton, também do West Adelaide, seria outro vencedor (1929) a morrer demasiado jovem, aos vinte e nove anos de idade. Bob Quinn, do Port Adelaide, ganharia o troféu em 1938 e 1945 e demonstraria a mesma têmpera no terreno de jogo e no campo de batalha, tendo sido condecorado pelo seu papel num ataque a um posto fortificado alemão na Segunda Guerra Mundial. Um camarada, vendo-o ferido, disse-lhe que metade da sua cara parecia ter ido pelos ares. Quinn respondeu que qualquer mudança no seu rosto seria uma melhoria. Voltou à Austrália, voltou ao seu PAFC, para ser uma vez mais o "mais correcto e mais brilhante do campeonato".

Bob Hawk, do West Torrens, ganhou a medalha em 1946 e 1947 e foi considerado o melhor do seu clube em nove épocas. Ron Phillips (1948-1949), jogador do North Adelaide, foi o último a ganhar duas medalhas em anos consecutivos até Garry McIntosh em 1994 e 1995. Ficou conhecido por ter ganho em 1948 como médio defensivo (half-back) e em 1949 como médio ofensivo (half-forward), demonstrando assim a sua versatilidade.

Len Fitzgerald, natural de Victoria e jogador do Sturt, ganhou em 1952, 1954 e 1959, para além de ter disputado 97 jogos pelo Collingwood na VFL. Outro triplo vencedor foi Lindsay Head (1955-1958-1963), do West Torrens. Campeão ao serviço desse clube modesto em 1953, integrou a selecção estadual de futebol australiano e a de cricket.

O grande Barrie Robran, para muitos o melhor jogador da SANFL de todos os tempos e ícone do North Adelaide, venceu em 1968, 1970 e 1973. Num jogo de selecções contra Victoria teve a honra de ver uma sua jogada aplaudida por um adversário, Alex Jesaulenko, que foi ele próprio um dos maiores campeões da história do desporto.

Mas nem Robran conseguiria igualar o feito de Russell Ebert, do Port Adelaide, que venceu a medalha quatro vezes, em 1971, 1974, 1976 e 1980. Um campeão à medida do Port Adelaide, bateu todos os recordes de número de jogos disputados e ajudou os alvinegros a sagrarem-se campeões em diversas ocasiões.

O medalhado de 1972, Malcolm Blight, faria o inédito: transferido para o North Melbourne, ganharia também a "Brownlow Medal", em 1978. Conseguiu o feito de se tornar numa lenda em quatro clubes: Woodville Warriors, o modesto clube da SANFL onde jogou, North Melbourne, onde fez parte da "imortal" equipa dos anos setenta, Geelong,  equipa que levou a três "Grand Finals" da AFL/VFL já como treinador, e Adelaide Crows, equipa campeã da AFL sob o seu comando técnico.

John Platten venceria a medalha em 1984 pelo Central District e conquistaria a "Brownlow Medal" em  1987 pelo Hawthorn, tornando-se assim o primeiro de dois jogadores que imitaram o feito de Blight. O outro foi Nathan Buckley, vencedor da medalha Magarey enquanto atleta do Port Adelaide em 1992 e da Brownlow enquanto jogador do Collingwood em 2003.

Andrew Jarman, vencedor em 1987 pelo North Adelaide e em 1997 pelo Norwood é um exemplo de jogador da "nova era", após a entrada de clubes da Austrália do Sul para a AFL. Entre 1991 e 1996 jogou pelos Adelaide Crows, regressando à SANFL na época de 1997. Nesta "nova era" a SANFL viu-se subitamente reduzida à categoria de "2.º escalão", vendo grande parte dos adeptos desertar a competição estadual para passarem a dedicar-se exclusivamente aos Crows e ao Port Adelaide Power. No entanto, a SANFL manteve-se e a "Magarey Medal" também, assim se honrando a tradição e os atletas que tanto contribuíram para a popularidade do desporto na Austrália do Sul.

Em 1999 e 2000 o vencedor foi  Damian Squire, do Sturt, o último jogador a ganhar em dois anos consecutivos. E em 2003 ganhou  Brett Ebert, do Port Adelaide, o filho de Russell Ebert.

O método de atribuição da medalha é igual ao Brownlow, ou seja, após cada jogo os árbitros dão 3, 2 e 1 votos ao melhor, segundo melhor e terceiro melhor em campo, respectivamente, triunfando o jogador que tiver mais votos no final da época. A medalha é sempre diferente, não se repetindo o formato, ao contrário do que acontece com a maioria dos outros troféus.


27/5/08

As fontes principais deste artigo foram o livro "SA Greats - The History of the Magarey Medal", de John Wood, e a página "Full Points Footy".


 

CAPÍTULO CINCO - FILHOS DO 'SCRAY - PARTE DOIS 

Em Outubro de 1989 o futuro dos Footscray Bulldogs estava em dúvida. Ameaçados com uma "fusão" com os Fitzroy Lions (na verdade os Dogs seriam absorvidos pelos Lions, perdendo a sua identidade), os adeptosdo Footscray  processaram a liga e obtiveram dezanove dias para recolher um milhão e meio de dólares. Conseguido este prazo, começou a tarefa de reunir os fundos indispensáveis à sobrevivência do clube.
O primeiro passo foi convocar um comício/ manifestação/ reunião de adeptos para o dia 8 de Outubro, Domingo, a realizar-se no próprio estádio. O Sábado foi gasto em preparações frenéticas. Gordon obteve do treinador das reservas do clube, Terry Wheeler, a promessa de que treinaria a equipa principal na próxima época. Vários jogadores foram contactados, sendo-lhes perguntado se aceitariam dar a cara pelo clube e comparecer no evento de Domingo. Embora receassem represálias da liga, os jogadores aceitaram e garantiu-se a presença de uma equipa, a equipa de 1990, no comício. Os jogadores sabiam que muitos deles não conseguiriam lugar na equipa do novo Fitzroy Bulldogs e estavam revoltados com a liga por ter posto os seus empregos em perigo sem antes ter ouvido o que tinham a dizer. 
A VFL, num golpe baixo, fez publicar nos jornais de Domingo uma carta supostamente dirigida a Peter Gordon, que a leu pela primeira vez na imprensa, como toda a gente, na qual afirmava que seria necessário reunir cinco milhões de dólares australianos para impedir a fusão. Reunir cinco milhões seria impossível e a VFL esperava levar os adeptos ao desespero.
Cerca de trinta minutos antes da hora marcada (10 da manhã), apenas estavam umas 300 pessoas no Western Oval. No entant o, de repente começou a surgir gente vinda de todos os lados, gerou-se um mini engarrafamento em Barkly Street, junto ao estádio, as bancadas encheram e contaram-se cerca de dez mil adeptos presentes. A grande maioria eram adeptos do Footscray. Mas também havia gente de muitos outros clubes, incluindo as claques de Collingwood, Richmond e St. Kilda. Adeptos de outras equipas, mas com a clarividência suficiente para compreender que se os "Dogs" desaparecessem, os seus clubes podiam ser os próximos na lista da VFL. 
Gordon preparara bem o seu discurso, falaria ao coração dos adeptos. Começou por dizer "Penso que estamos cá todos porque acreditamos que é melhor morrer de pé do que viver de joelhos". Partilhou memórias dos "Doggies", lembrou grandes jogadores, homenageou Chatfield, Ginanne e tantos outros que tinham ajudado no processo contra a VFL. Apresentou (o que provocou grandes aplausos) o treinador e a equipa (25 jogadores, incluindo Rick Kennedy, Doug Hawkins, Brian Royal, Michael McLean, Stephen MacPherson, Peter Forster, Ron James, Phil O' Keefe, Mark Cullen, Mark Williams, Tony Liberatore, Darren Collins, Tim Harrington e Stuart Wigney) para a época de 1990.E foi directo ao assunto: "Esta pode ser a última vez que verão uma equipa do Footscray  reunida no Western Oval. É convosco. Peço aos membros da comunidade futebolística de Footscray que contribuam hoje com centenas de dólares. Peço que, quem possa, contribua hoje com mil dólares. A Câmara de Footscray garante que o dinheiro que entregarem vos será devolvido se falharmos. Compreendo que pedir a pessoas como vocês que entreguem tanto dinheiro nos tempos que correm é um pedido difícil de satisfazer. Vai doer. Mas quando pensarem nessa dor, pensem em como se sentiram na terça-feira. Pensem em como se sentirão daqui a quatro semanas quando for feito o sorteio da época de 1990 e o Footscray não participar. Pensem em como se sentirão no primeiro dia da próxima época quando o Footscray não jogar  e vocês souberem que nunca mais irá jogar." Não havia melhor maneira de resumir o que estava em causa.
Outros oradores seguiram-se a Gordon. Terry Wheeler, o novo treinador, disse que queria que os seus filhos também crescessem inseridos numa comunidade que os inspirasse a valorizar o Footscray, tal como ele fazia. "Acredito que não somos donos de nada nesta Terra. Apenas cuidamos de coisas em nome dos nossos filhos". Ron Coleman, editor do jornal Western Times, lembrou o lema do clube "aquilo de que o Ross Oakley se esqueceu foi do nosso lema: 'Cede Nullis'! Não cedas nada!". Muitas mais pessoas falaram. Uma das que mais impressionou os presentes foi um homem que trazia vestida uma camisa do South Melbourne, a equipa que tivera que se mudar para Sydney em 1982 em nome do plano de expansão nacional da VFL. "Salvem a vossa equipa agora, antes que seja demasiado tarde!", disse, "o tempo não sara as feridas - torna-as piores!".
Durante todo o evento as bancas que vendiam material do clube estiveram sem mãos a medir. Os adeptos pagavam muito mais do que o preço pedido e não aceitavam o troco. Foi doada comida e bebida para venda em prol do clube. Foram instaladas mesas para recolha de contribuições e entrega de recibos. Quando o dinheiro foi contado, no final de tudo, o júbilo foi enorme: 400.000 dólares australianos recolhidos, a promessa de mais 50.000 provenientes de grupos organizados de adeptos, a doação de um carro para ser rifado por um concessionário local.
Seguiram-se duas semanas de recolha de fundos. Com quartéis-generais no escritório de Gordon e no "Drill Hall", um barracão que pertencera ao exército mesmo junto ao Western Oval, que até contava com uma cela que foi decorada com a inscrição "para o Ross Oakley", os filhos e filhas do Scray espalharam-se por Melbourne com as suas latas e as suas credenciais de angariadores de fundos oficiais. As histórias e lendas dessas duas semanas são inúmeras. Desde pessoas com graves problemas físicos, alguns inválidos, que recolheram fundos por Melbourne fora quando mal conseguiam andar. Desde idosos a contribuir com metade das suas pensões e a dizer que só tinham pena de não poder dar mais. Desde os dois irmãos a quem foi pedido que contribuíssem na altura em que estavam a embalar as posses da Mãe, falecida no dia anterior, e que acabaram por dar cem dólares em nome da sua Mãe, grande adepta do Footscray, porque seria assim que ela teria desejado. Desde os adeptos dedicados que passaram dia após dia no Drill Hall, conhecidos por "Drill Hall Gang", recebendo contribuições, atendendo chamadas, oferecendo apoio psicológico. Foram procurados e encontrados patrocinadores, vários sindicatos contribuíram com dinheiro e a promessa de que os seus filiados se recusariam a trabalhar em obras da VFL caso os "Dogs" não sobrevivessem.
Em 23 de Outubro teve lugar uma sessão na Câmara Municipal de Footscray  para apresentação dos planos da direcção interina do FFC para a época de 1990. Os líderes do movimento de adeptos seguiriam depois da Câmara para a sede da VFL para tentar demonstrar a viabilidade do clube. Numa câmara municipal decorada com as cores do Footscray (azul, branco e vermelho), foi, entre outras coisas, anunciado que a firma ICI iria patrocinar o clube, ajudando a viabilizá-lo.
Na sede da VFL, foram apresentadas provas de que tinham já sido reunidos 1.150.000 dólares australianos, para além dos patrocínios obtidos. Uma vez que Ross Oakley estava em Londres, os representantes da liga iam saindo da sala para conferenciar com ele via telefone, regressando em seguida. A reunião acabou à meia-noite e meia. A VFL aceitou que o Footscray FC não renunciara à sua licença para participar no campeonato e reconheceu que o clube provara a sua viabilidade. Em três semanas, a espantosa mobilização dos adeptos salvara o clube. Até Ross Oakley reconheceu que tinha sido "um grande resultado... um feito assinalável".
Dia 28 de Outubro foi um dia de festa, tendo-se realizado o "desfile da vitória" e um espectáculo em que actuaram, sem cobrar nada, vários artistas, muitos deles adeptos do clube.
A batalha entre os adeptos do Footscray e a VFL inseriu-se numa "guerra" mais ampla, entre aqueles que pretendiam a modernização do desporto e os que acreditavam que era essencial defender as suas tradições. De um lado, o desejo de uma "competição nacional" gerida segundo critérios estritamente empresariais. Do outro, a ideia de que o desporto e os clubes faziam parte integrante da vida cultural e social de Melbourne e que deveriam ser mantidos. Dezanove anos depois, a liga conta com dezasseis clubes, nove de Melbourne, dois de Adelaide, um de Geelong, um de Sydney, um de Brisbane, um de Perth (West Coast Eagles) e um de Fremantle. O Fitzroy desapareceu, fundindo-se com os Brisbane Bears. O North Melbourne recusou-se, já em 2007, a mudar para o estado de Queensland (Gold Coast). A AFL irá expandir-se, admitindo duas novas equipas, uma de Sydney, outra de Gold Coast, na sequência do North Melbourne se ter recusado mudar para aquela cidade. A mudança de clubes de Melbourne para outras paragens continua a ser encarada como uma possibilidade. A AFL recusa-se em admitir uma equipa da Tasmânia na competição, embora o futebol australiano seja o desporto mais popular daquela ilha, cuja primeira liga organizada nasceu em 1879. A guerra continua...
 
7/5/08
 
As fontes principais deste artigo e do artigo anterior foram os livros "Too tough to die", de Kerrie Gordon e Alan Dalton, "Football, Ltd. - The inside Story of  the AFL", de Garry Linnell e "Unleashed - A History of the Footscray Football Club", de John Lack e Outros.

 
 

 

CAPÍTULO QUATRO - FILHOS DO 'SCRAY - PARTE UM
 
Os Bulldogs são a equipa preferida deste site. Não é por acaso que há um link para a página oficial do clube logo no início. Para este site, a mudança do nome do clube de Footscray para Western Bulldogs não se justificava. Teria sido melhor manter o nome antigo, que perdurou por mais de 110 anos.  Antes da mudança, o hino do clube começava com o verso "Sons of the 'Scray", filhos do 'Scray, sendo esse o diminutivo do clube. Segue-se o relato de como os filhos e filhas do 'Scray salvaram o seu clube em 1989.
A notícia rebentou no dia 2 de Outubro de 1989. Durante a cerimónia da entrega do prémio ao jogador melhor e mais correcto do clube (tal como as ligas, os clubes atribuem anualmente um prémio de "best and fairest" a um dos seus jogadores), um membro da direcção do Footscray revelou ao director executivo do clube, Dennis Galimberti, que no dia seguinte, às duas da tarde, seria anunciado que os Bulldogs se fundiriam com os Fitzroy Lions, nascendo os Fitzroy Bulldogs. Na prática, os Bulldogs seriam absorvidos pelos Lions, deixando de jogar no seu estádio e passando a integrar um clube que usaria o equipamento do Fitzroy, com poucas alterações, e que se chamaria para todos os efeitos Fitzroy FC.
Os Bulldogs estavam em crise, cheios de dívidas, e a VFL recusara garantir um empréstimo de 600.000 dólares australianos oferecido pela Câmara Municipal de Footscray para equilibrar as contas do clube, o que inviabilizou tal empréstimo. O director (anónimo, até hoje) pediu silêncio a Galimberti, mas este recusou-se e, mal a cerimónia acabou, dirigiu-se ao seu gabinete no estádio do Footscray, o Western Oval, onde telefonou ao jornalista do Sun e ex-jogador do clube Mike Stevens, pondo-o a par do que se passava. Além disso, enviou faxes a todos os meios de comunicação de que se lembrou, com a notícia da fusão e documentos que considerava demonstrarem a viabilidade do clube. 
Por último, escreveu a sua carta de demissão e levou consigo os seus objectos pessoais. Tinha decidido que não ficaria a assistir à morte do clube e que iria lutar contra ela como pudesse.
No dia 3 de Outubro a notícia espalhou-se por Melbourne, no dia 4 já as manchetes dos jornais anunciavam a "morte dos Bulldogs". O ocidente da área metropolitana de Melbourne iria perder a sua única equipa na VFL. Footscray, o subúrbio operário cujos residentes mais idosos ainda se lembravam das agruras da grande depressão dos anos 30, ficaria órfão do seu clube.
Tudo isto em nome da expansão da VFL, que pretendia fundar um campeonato verdadeiramente nacional. Os clubes criados para o efeito em Brisbane e Sydney tinham-se revelado um fracasso em termos financeiros e desportivos. No entanto, a liga ajudou-os e nunca pensaria em acabar com eles, pois representavam a vanguarda da sua expansão, o posto avançado nas terras povoadas por adeptos do râguebi. Quanto aos clubes de Melbourne, a liga não escondia que os considerava demasiados. Que se fundissem ou, como o velho South Melbourne, se mudassem para nova cidade.
A liga avançou com pacotes de incentivos à fusão, que incluíam apoio financeiro e auxílio no recrutamento de jogadores. Footscray, Fitzroy, St. Kilda, North Melbourne, Hawthorn, Melbourne, Richmond, todos estes clubes estiveram a um passo de se fundir. Mesmo o Hawthorn, com sete títulos de campeão nos anos 70 e 80, esteve quase a juntar o seu destino ao do Melbourne Demons. Juntar-se-ia, supostamente, a grande equipa dos "Hawks" à boa condição económica dos "Demons". A fusão acabaria por ser impedida pelos sócios do Hawthorn, que votaram contra ela.
Mas no caso do Footscray tudo fora feito para não dar aos sócios a oportunidade de se pronunciar. A fusão foi apresentada como um facto consumado. Ladeado pelos presidentes do Footscray e do Fitzroy, Nick Columb e Leon Wiegard, o Comissário da VFL, Ross Oakley, anunciou o nascimento "de uma nova força na VFL - os Fitzroy Bulldogs". Não contou com a determinação e amor ao clube de todos os filhos e filhas do 'Scray, pessoas como Cec Sargeant, cujo pai alinhara pelos "Doggies" em 1907. "Quando olho para ali" disse, referindo-se ao campo do Footscray, "vejo-o a ele". Para ele e para tantas outras pessoas, o fim do clube seria como um luto na família. Para Sargeant, seria uma segunda morte do seu pai. 
Em 1989 os Dogs tiveram um prejuízo de 800.000 dólares australianos, o seu passivo acumulado era de cerca de 1.400.000 dólares australianos. No entanto, o presidente Columb sempre dera a entender que tudo faria para manter a equipa no Ocidente de Melbourne, disse-o numa entrevista que deu em Agosto de 1989, o que aumentou a raiva e o sentimento de traição experimentados pelos adeptos quando souberam da fusão, que fora negociada em segredo, sem que fossem sequer consultados os próprios directores do clube, ou pelo menos aqueles que já se tinham declarado contrários à fusão. Aliás, quando os directores do FFC chegaram à sede da VFL no dia em que se iria anunciar a fusão, o Comissário Ross Oakley "ordenou-lhes" que votassem a favor da mesma. Três directores recusaram e foi-lhes dito que se a fusão não fosse avante, a licença do clube para jogar na VFL seria revogada e seria nomeado um administrador de insolvência para gerir o mesmo, isto para além de lhes ser relembrado que, como directores, eram pessoalmente responsáveis pelas dívidas do clube. Um dos directores não aguentou e começou a chorar. 
Era este o ambiente na sede da VFL. Entretanto, os vários notáveis do clube iam dando as suas opiniões. O maior jogador da história do Footscray, Ted Whitten, ele próprio à beira das lágrimas, disse, referindo-se aos adeptos mais idosos, "morrem. O clube era tudo o que eles tinham nesta vida. Levantam-se a cada dia e só pensam que estão um dia mais perto de ver jogar o clube".
Chegara a hora de organizar a resistência. Desde Agosto de 1988 que existia um grupo de adeptos, chamado "Save the Dogs" e dirigido pelo advogado Peter Gordon, que lutava para manter o Footscray a jogar no seu Western Oval e para planificar o futuro do clube. O mesmo Peter Gordon assumiu, em grande parte, a liderança da resistência à fusão. Já em Julho de 1989 lhe tinha sido pedido por alguns adeptos que concorresse à presidência do clube contra Columb. Rejeitara a princípio, por razões pessoais, mas em Outubro aceitou, quando a alternativa era ver o clube desaparecer. Em 4 de Outubro houve uma primeira reunião Western Oval, tendo-se decidido processar a VFL. Era necessário encontrar alguém que aceitasse figurar na acção como autor, algo mais complicado do que aparenta ser, pois caso o processo fosse perdido seria o autor a pagar as custas, que se previam muito elevadas.  Essa tarefa foi aceite por Irene Chatfield, uma pensionista e adepta dedicada do clube.
A acção foi preparada por Gordon, Galimberti e os advogados Stephen Palmer,  Tim Ginnane, Graham Robertson e Alan Vassie. Os fundamentos da acção: a) os administradores nomeados pela VFL agem sem poderes para tanto e de uma forma que prejudica o futuro do clube; b) nos termos do regulamento das licenças da VFL, a licença de um clube só podia ser cancelada trinta dias depois da nomeação dos administradores e se o clube não tivesse conseguido recuperar, sendo que no caso em apreço a fusão iria realizar-se dois dias depois de ser anunciada; c) o clube tinha possibilidades de sobreviver, tinha sido preparado um plano de negócios pela firma Coopers & Lybrand; d) o documento de fusão assinado pelos directores do Footscray durante a reunião com Oakley não era válido, pois não tinha sido precedido de uma votação dos sócios que o aprovasse.
A primeira audiência do processo Irene Chatfield contra Victorian Football League decorreu no Supremo Tribunal em 5 de Outubro de 1989. O advogado da VFL, Tony Nolan, declarou que a sua cliente aceitava não praticar actos com vista a concretizar a fusão até às 16h15 do próximo dia, sexta-feira 6 de Outubro. Nesse mesmo dia  6 de Outubro, alcançou-se um acordo. A VFL deu um prazo "a alguns adeptos do Footscray Futebol Clube" para reunir um milhão e meio de dólares australianos. O prazo terminava em 25 de Outubro, dali a 19 dias, e se os "alguns adeptos" fossem bem sucedidos, já não haveria fusão. Aparentemente, a VFL pensava que estaria a dar a Gordon e aos demais "corda para se enforcarem". No entanto, para os defensores do clube, esta era a oportunidade que esperavam - o futuro do FFC fora colocado nas mãos dos adeptos.
 
2/5/08 
 
A CONTINUAÇÃO SERÁ PUBLICADA EM BREVE 
 

 
CAPÍTULO TRÊS - O PRIMEIRO JOGO

Logo na página inicial deste site se proclama que 2008 será o ano em que se comemoram 150 anos do futebol australiano. Haverá celebrações de toda a espécie, foi já publicada uma mega-história do desporto, haverá um jogo entre a selecção do Estado de Victoria e uma selecção do resto da Austrália, etc. Vamos agora ver "como tudo começou".

No Verão joga-se cricket. Em Inglaterra, tal como na Austrália, esta verdade é incontestável. Este desporto de ritmos lentos necessita de relvados em perfeitas condições, para que a bola ressalte da maneira correcta. Impossível jogá-lo nos  campos enlameados de Inverno. Mas o que fazer para que os jogadores de cricket  se mantivessem em forma nos meses frios e chuvosos? No século XIX  descobriu-se a solução- jogar foot-ball. 

Foot-ball, o desporto de Inverno, descendente de jogos indisciplinados disputados por centenas de pessoas. No século XIX, vão começar a ser escritas regras para este jogo. Em 26 de Outubro de 1863 funda-se em Inglaterra a Football Association e nasce a versão moderna do "nosso" futebol. Anos mais tarde será a vez da Rugby Union codificar o râguebi, de seu nome completo "Rugby Football". Mas antes disso já havia foot-ball. Sem regras universais, já dividido entre os que preferiam pontapear a bola e os que gostavam mais de a agarrar e levar nas mãos.

Tom Wills (Thomas Wentworth Wills), australiano, estudara em Inglaterra, a "mãe-pátria" para os leais súbditos australianos do Império Britânico. Voltado à terra natal, tornou-se um jogador de cricket de renome, foi chamado à equipa da então colónia de Victoria. Mas ficara com o "bichinho" do foot-ball, do foot-ball que jogara no Colégio de Rugby, que se tornaria o berço do râguebi. Só que na altura não havia râguebi, nem futebol. Só o indistinto foot-ball, que assumia formas e regras diferentes consoante os locais onde era jogado.

Esse mesmo jogo incerto já era conhecido na Austrália desde a década de 1840. Mas ninguém se lembrara de fixar regras, criar clubes ou ligas. Era tão indistinto e maleável como em Inglaterra ou na Irlanda, donde eram nativos os jogadores. 

Em 10 de Julho de 1858, Wills decidiu escrever uma carta, a "carta fundadora do futebol australiano". Dirigiu-a ao "Bell's Life in Victoria", publicação recém-criada. "Senhor", começou, "agora que o cricket foi posto de parte por alguns meses e que os seus jogadores assumiram uma forma semelhante à da crisálida (só por algum tempo, é verdade), mas sendo certo que, em devido tempo, explodirão de novo em todas as suas cores variadas, em vez de permitir que este estado de torpor se apodere deles e entorpeça os seus membros ainda flexíveis, porque não poderiam eles, digo eu, formar um clube de foot-ball e formar um comité de três ou mais pessoas que elabore um código de regras? Se um clube deste género fosse criado, seria bastante benéfico para qualquer campo de cricket, pois a relva pisada tornar-se-ia muito mais firme e duradoura; além disso, impediria que aqueles com tendência para a corpulência  ficassem com as suas articulações envolvidas por carne superabundante e inútil". A carta continuava, sugerindo, em alternativa, a criação de um clube de tiro.

James "Jerry" Bryant, dono do Bryant's Parade Hotel, ex-cricketer do condado de Surrey (Inglaterra), o primeiro profissional a ser contratado pelo Melbourne Cricket Club, tinha ideias semelhantes e no dia 31 de Julho de 1858 fez publicar no mesmo Bell's Life um anúncio em que se informavam os leitores que Bryant, nessa mesma tarde, forneceria uma bola a quem quisesse jogar no parque de Yarra, em frente ao seu hotel. Parece que se seguiu um jogo bizarro, com ingleses, irlandeses e escoceses a seguirem cada um as suas regras.

As sementes do foot-ball tinham sido lançadas e em 7 de Agosto de 1858 foi disputado aquele a que se atribuiu o título de "primeiro jogo da história do futebol australiano". As equipas das escolas "Scotch College" e "Church of England Grammar School" (Melbourne Grammar), esta fundada em 7 de Abril do mesmo ano, precisamente quatro meses antes do jogo, defrontaram-se no parque adjacente ao Melbourne Cricket Ground, o Estádio de Cricket de Melbourne, também conhecido como "a casa do futebol australiano". 

A partida começou por volta do meio dia, jogando-se num terreno vasto e com uma elevação no meio, que impedia que uma das balizas fosse visível para quem estivesse junto à outra. Aliás, os "postes" não eram mais do que os gigantescos eucaliptos existentes no local. Antes do jogo começar, foram escolhidos dois árbitros, cada um representando uma das equipas. Tom Wills foi escolhido pela Melbourne Grammar,  o escocês John MacAdam, em honra do qual foram baptizadas as nozes de macadamia, foi eleito pelo Scotch College.

O jogo durou toda a tarde, até que o Sol se pôs por volta das cinco horas. Com três horas de jogo, a equipa de Scotch College marcou um golo e terá havido, imediatamente após esse acontecimento histórico, uma pausa para refrescos e comida. Findo este "intervalo", Melbourne Grammar conseguiu empatar antes que o Sol se pusesse.

A continuação do jogo foi aprazada para duas semanas depois e, ninguém tendo conseguido marcar, foi agendada nova continuação após outro intervalo de duas semanas, sem que alguma das equipas lograsse obter novo golo. O jogo foi então declarado findo e empatado.

Começara a história do futebol australiano. A partida disputada nessa longínqua tarde de há 150 anos atrás pouco tinha a ver com a versão moderna do jogo. Não havia "behinds", só um par de postes, se um adversário tocasse na bola antes dela entrar na baliza, não era golo (essa regra sobrevive ainda hoje, se a bola é tocada por alguém depois de ter sido pontapeada e antes de entrar na baliza, não é golo, mas sim "behind"), o número de jogadores era descomunal, etc. Embora as primeiras regras se tenham publicado logo em 1859, demoraria muito até que o desporto evoluísse até se tornar reconhecível aos olhos de um observador actual.

Nos primeiros tempos usavam-se bolas redondas ou ovais indistintamente, não havia as "marks" espectaculares que hoje tanto entusiasmam os espectadores, os campos podiam ser rectangulares ou mesmo desprovidos de qualquer forma regular, os jogadores deslocavam-se em formação, como no râguebi, com a bola algures no meio, sendo possível marcar golo se os jogadores conseguissem passar a linha de baliza com a bola perdida no interior da formação.

Mas fora dado o primeiro passo. Isolados do resto do mundo, os cidadãos de Melbourne dedicaram-se a inventar as suas próprias regras, apareceram clubes e, em 1877, as primeiras duas ligas organizadas, uma em Victoria, a Victorian Football Association, hoje Victorian Football League, outra na Austrália do Sul que, após muitas mudanças de nome, chegou aos nossos dias como South Australian National Football League.

150 anos depois, o jogo ainda continua.

(24/4/08) 

A fonte principal deste artigo foi o livro "A Game of our own" de Geoffrey Blainey.

 


CAPÍTULO DOIS - TAL PAI, TAL FILHO

Nas equipas das pequenas cidades do interior é comum que as equipas alinhem com os filhos, netos ou bisnetos de jogadores do passado. Nessas localidades onde só costuma haver uma equipa é de todo natural que as mesmas famílias forneçam os jogadores à medida que o tempo passa, de geração em geração.

No entanto, na "poderosa" AFL passa-se algo de semelhante: reunidos certos pressupostos, nomeadamente o pai ter jogado mais de 100 jogos por um clube,  um  jogador pode ficar excluído das regras normais do recrutamento (que passam pela inclusão num "draft" nacional, no qual os clubes que ficaram nos últimos lugares na época antecedente detêm o direito a escolher primeiro) e ser contratado pelo clube "paterno", desde que este renuncie a uma das suas escolhas no "draft". É a chamada "father-son-rule", a "regra-pai-e-filho", ao abrigo do qual se têm criado verdadeiras dinastias em algumas equipas. O ano passado os campeões Geelong alinhavam com os irmãos Gary e Nathan Ablett, filhos da lenda do clube Gary Ablett, Sénior. O mítico Ted Whitten, do Footscray, viu o seu filho Ted, Jr. jogar pelo mesmo clube. E estes são apenas dois exemplos.

Esta regra foi criada numa situação muito especial, permitindo àquele que viria a tornar-se um dos maiores jogadores de todos os tempos influenciar as regras do jogo quando ainda era uma criança e antes de ter, obviamente, alinhado por um clube da então Victorian Football League.

Em 1941 a Austrália estava em guerra. Como membro leal do Império Britânico, os seus soldados lutavam contra as forças do Eixo em todas as frentes. De Tobruk, na Líbia, chegaram um dia notícias tristes para o futebol australiano: o antigo jogador do Melbourne e campeão Ronald Barassi fora morto. Enquanto o toque de silêncio soava no Melbourne Cricket Ground e os ex-companheiros de equipa do falecido cumpriam um minuto de homenagem, uma questão assaltava já os dirigentes do clube: como ajudar a viúva e o filho do ex-jogador?

De acordo com as regras vigentes sobre o recrutamento de jogadores, caso o pequeno Ronald Dale Barassi quisesse jogar na Liga, teria que ingressar no Carlton FC, devido ao seu local de residência. O Melbourne não queria deixar que isso acontecesse e pressionou a Liga para passar a isentar os filhos de jogadores das regras do recrutamento. O jovem Ronald Barassi, Jr. teria que ser jogador do Melbourne, nem se podia imaginar outra coisa.

A VFL aceitou e criou a father-son-rule. Barassi cresceu e tornou-se, representando o Melbourne, um dos maiores jogadores de futebol australiano da história, ajudando a sua equipa a conquistar os campeonatos de 1955, 1956, 1957, 1959, 1960 e 1964.

Quando a sua mãe decidiu mudar-se para a Tasmânia, Barassi, então adolescente, passou a viver na casa do treinador do Melbourne, o incomparável Norm Smith. O mesmo Norm Smith que, após a época de 1964, aceitou que o seu pupilo se transferisse para o Carlton, que lhe oferecera o lugar de treinador-jogador e um salário muito mais elevado do que o que ganhava no Melbourne. Esta "deserção" causou escândalo, dizia-se que havia crianças inconsoláveis, outras que queimaram as suas camisolas com o n.º 31 de Barassi, outras que, mais económicas, se limitaram a descoser os algarismos. Mas Smith compreendeu que aquele seu "filho adoptivo" estava perante uma oportunidade única, que não podia desperdiçar.

No Carlton, Barassi conquistou os campeonatos de 1968 (o primeiro do clube em quase 30 anos) como treinador-jogador e 1970 (depois de o Carlton estar perder ao intervalo por 44 pontos) como treinador. Passaria em seguida para o North Melbourne, que nunca tinha sido campeão, mas que o foi sob o seu comando, em 1975 e 1977.

Em 1981, porém, voltou ao Melbourne , na altura uma dos clubes mais fracos da liga. Não foi campeão, mas construiu uma boa equipa. Afinal de contas, o bom filho à casa torna... 

(18/4/08) 

As fontes principais deste artigo foram os livros "The Clubs" e "100 Years of Australian Football" (ambos de vários autores)

 

 

CAPÍTULO UM - BEM-VINDOS À JORNADA DA RIVALIDADE! 

A terceira jornada da Australian Football League, a disputar entre os dias 4 e 6 de Abril de 2008, será a "Rivalry Round", a jornada da rivalidade. A Liga emparelhou as dezasseis equipas de modo a que cada uma delas defronte um rival tradicional (mais ou menos).

 

Os oito pares:

 

 

 

 

FOOTSCRAY (WESTERN) BULLDOGS

V

ST KILDA SAINTS

Estes clubes não são particularmente rivais um do outro. De certa maneira, "sobraram" e foram emparelhados um com o outro. Partilham, no entanto, duas características: ambos se sagraram campeões por uma só vez (os "Dogs" em 1954 e os "Saints" em 1966) e ambos têm adeptos particularmente fiéis e sofredores, que idolatram os seus heróis.

 



 


NORTH MELBOURNE KANGAROOS

V

HAWTHORN HAWKS

A rivalidade entre os "Kangaroos" e os "Hawks" foi forjada nos anos setenta, durante os quais ambos os clubes viveram uma época de ouro e disputaram entre si vários jogos decisivos, incluindo as "Grand Finals" de 1975 (ganha pelo North Melbourne), 1976 e 1978 (ganhas pelo Hawthorn). Eram os tempos de jogadores e treinadores lendários, tais como o campeão Malcom Blight, oriundo da Austrália do Sul e o super-treinador Ron Barassi, do North, e os "grandes" Leigh "Letal" Matthews e Peter Crimmins (que morreu tragicamente de cancro em 1976) dos Hawks.  

 

 

 

 


WEST COAST EAGLES
V
FREMANTLE DOCKERS


O "derby" da Austrália Ocidental, arduamente disputado, embora ambas as equipas sejam relativamente "jovens". Teoricamente, as "Águias" representam a cidade de Perth e as pessoas mais abastadas, enquanto que os "Estivadores" são a equipa do porto de Fremantle, vizinho da dita Perth, e da classe operária. Esta rivalidade dá continuação à tradição secular da Austrália Ocidental em matéria de futebol australiano.



 

 

BRISBANE LIONS

V

SYDNEY SWANS


 Os estados de Queensland e Nova Gales do Sul são tradicionalmente rivais... no râguebi. Nestes estados, é essa a modalidade preferida da população, quer na variante de 13 (rugby league), quer na variante de 15 (rugby union). Esta rivalidade também se transferiu para as equipas dos respectivos estados na AFL, os "Leões" de Queensland e os "Cisnes" de Nova Gales do Sul.

Convém lembrar que os "Lions" resultaram da fusão entre os Brisbane Bears e os Fitzroy Lions, equipa de Melbourne e rival tradicional dos seus vizinhos de Collingwood. Por sua vez, os "Swans" iniciaram a sua existência em South Melbourne, sendo então grandes rivais do St. Kilda.



ESSENDON BOMBERS


CARLTON BLUES

As duas equipas com mais títulos de campeão da VFL/AFL: dezasseis. Dois dos grandes do desporto e rivais tradicionais. Os "Azuis" de Carlton começaram como clube da classe operária, mas aburguesaram-se com os anos. Os "Bombardeiros" de Essendon sempre foram um clube "distinto". Os (muitos) adeptos de ambas as equipas são tradicionalmente protestantes. Dois clubes de respeito, embora os últimos anos tenham sido "de vacas magras". Algumas das maiores figuras da história do futebol australiano alinharam por estes emblemas, tal como o mítico John Coleman, dos "Bombers" ou o inesquecível Alex "Jezza" Jesaulenko, dos "Blues".

 

            

 GEELONG CATS

V

MELBOURNE DEMONS

Mais uma rivalidade que poderá ter sido "fabricada" especialmente para a "jornada da rivalidade". Estes dois clubes  são os mais antigos do desporto, fundados em 1858 (Melbourne, embora haja quem considere que o clube foi fundado em 1859) e 1859 (Geelong) e terá sido por isso que foram "emparelhados". Será uma das partidas mais desequilibradas, pois oporá a super-equipa dos "Gatos" de Geelong, campeões em título, aos muito pouco ferozes "Demónios" de Melbourne.

 


 

 

 

RICHMOND TIGERS

V

COLLINGWOOD MAGPIES

 Se o Carlton - Essendon é o duelo dos clubes protestantes e conotados com a classe média, o Richmond - Collingwood é um confronto entre clubes católicos e conotados com a classe operária. Quer os "Tigres" de Richmond, quer as "Pêgas" de Collingwood arrastam multidões e geram paixões desenfreadas. "Eat'em alive, Tigers" (comam-nos vivos, Tigres) é o grito de guerra de Richmond, enquanto que os "Collingwoodites" se gabam de ser o maior clube da Austrália, em qualquer desporto.

 Ambos os clubes forneceram grandes "lendas" ao desporto, incluindo o célebre "capitão sangue" do Richmond, Jack Dyer, que além de jogador de futebol australiano era... polícia, e o mítico Jock McHale, treinador do Collingwood durante 39 anos consecutivos.




 

 

ADELAIDE CROWS

V

PORT ADELAIDE POWER

É o confronto, o "Showdown", entre os dois clubes da Austrália do Sul, ambos muito recentes, mas ambos respeitados e temidos na liga. Os "Corvos" de Adelaide foram campeões em 1997 e 1998, o "Poder" de Port Adelaide em 2004, para além de ter sido finalista vencido em 2007.

 Tal como sucede na Austrália Ocidental, os adeptos dos dois clubes pertencem teoricamente a classes sociais diferentes, os "Corvos" à burguesia, aos "bebedores de Chardonnay", o "Poder" à classe operária. Os Adelaide Crows são o clube com mais sócios na AFL (cerca de 50.000), mas o Port Adelaide contra com uma legião de seguidores leais, para não dizer fanáticos. Toda a Austrália do Sul parará no Domingo, dia 6, às 4 e 10 da tarde, para ver o "Showdown".

(4/4/08)

 

Nota: os emblemas usados nesta página são emblemas antigos, que já não são usados pelos clubes.