Textos Críticos

sobre o trabalho artístico de Hugo Fortes
 
Dúvida Líquida
por Nuno Ramos

 

Texto Publicado na exposição "Dúvida Líquida" na Galeria Valu Oria, São Paulo, 2001

 

(...)Afinal, a matéria que escolheu é um fluido, a água, que põe em suspensão as demais propriedades físicas – em especial aquela propriedade primeva – o peso. Tudo em seu trabalho, de fato, flutua, deve flutuar, e só funciona se alcançar esta flutuação – desde os aquários até as linhas de seus desenhos. Esta espécie de dúvida líquida contagia a própria posição do espectador, que olha os trabalhos de fora mas gostaria de conhece-los imerso, desde dentro.(...)


Hugo Fortes - Inventário de Horizontes

por Thaís Rivitti

 

Texto publicado no catálogo da exposição “Inventário de Horizontes” no

Centro Universitário Maria Antônia, São Paulo, 2002
Nos trabalhos recentes de Hugo Fortes o espaço é incorporado como matéria. Ele é evidenciado com a construção de cubos de vidro preenchidos com água e outros materiais, tais como chumbo e parafina. Esses ambientes, à primeira vista, parecem lugares sobre os quais o artista tem controle absoluto. Mas, conforme são iluminados, reproduzem-se desordenadamente. Quando colocados em relação uns com os outros este efeito é potencializado: as paredes de vidro, que serviam para conter, refletem-se expandindo o espaço numa progressão infinita. No interior dos aquários a água age sobre os materiais ora puxando-os para baixo, ora suspendendo-os. É através deste estranhamento provocado pela ação da água que nos damos conta do ar, de que a atmosfera também é preenchida por matéria e por leis próprias que constituem a forma pela qual vemos o mundo. O encontro da água com o ar, que compartilham os mesmos elementos, é o momento em que esta interferência mais se evidencia. Vistos de fora, os objetos (ou suas partes) imersos na água nos escapam. Não temos acesso senão a sua imagem. Em Inventário de Horizontes, a instalação em exposição no Centro Universitário Maria Antonia, Hugo coloca aquários nos pontos mais dissonantes da sala, tais como uma porta inutilizada, a janela situada de frente para a entrada e uma quina irregular. Lidando com elementos díspares, o artista cria um sistema integrado no qual sobressai-se um equilíbrio delicado. As linhas retas dos aquários e as formadas pela água em repouso indicam um horizonte aberto e em expansão.

A Arte Contemporânea busca a Imaterialidade
por Kátia Canton
 
Texto publicado no catálogo do "Projeto Nascente - Imaterialidades"
 no Centro Universitário Maria Antônia da USP, São Paulo, 1998
 
(...)Hugo Fortes transforma a sugestiva noção de um poço dos desejos em algo repleto de transparência, beirando a imaterialidade. Feitos com resina, telas metálicas e fios de nylon, sua instalação de poços d'água parecem demandar a manipulação do público para se realizarem como corpos materiais.(...) 

Por baixo do nome das coisas
por Tiago Mesquita
 
Texto publicado no catálogo da exposição "Ao Todo", no Espaço de Artes UNICID, São Paulo, 2001
 
(...) Já na escultura "Poço", de Hugo Fortes, exposta em 1998, a dificuldade da forma se manter de pé diante da explosiva velocidade da vida contemporânea, aparece trasladada no espaço. Trabalhando a seco, ele amarra um balde de tela metálica, corroído pela ferrugem e de aparência gasta, em cada extremidade de duas hastes de madeira suspensas no teto por cordas.
Movendo-se como quem molda, os baldes tentavam capturar no espaço as forças fugazes que agiam sobre a peça mas escapavam dela. Enquanto eram içados, eles se esforçavam para reter esta exterioridade incômoda, que aparecia como adversidade. Talvez pelo próprio material de que eram feitos, deixavam escorregar tudo o que haviam agarrado. Entretanto, os pêndulos insistiam no movimento , como se fosse possível criar uma contracorrente por teimosia.
Agora, nos seus pequenos aquários, o artista parte do fenômeno da refração da água, que, utilizado como elemento escultórico, atuaria limitando a atuação da forma. As interferências invisíveis que contaminavam a obra são materializadas e estetizadas.Tentam solidificar tudo que desmancha no ar.(...)
 

Everything is Transformation 
por Nathalie Jallet
 
Texto publicado na exposição "Discover Brazil", no Ludwig Museum Koblenz, Alemanha, 2005
 
Water flows. lt flows through landscapes and alters them.Without water a landscape would be a wasteland, without water it would remain immobile. Water moves. It moves icebergs, paper boats, commercial goods or river gravel. But what happens to water itself? How would things be if water did not flow and nothing moved? What would then remain of water?
Hugo Fortes encloses water.ln aquariums,where water manifests neither flow nor movement. But is it therefore not subject to change? To be found in the aquariums of the artist are paraffin shapes floating upon the water, and beneath the basin there is a photograph of water. What now happens in this narrow space to the water, or to the fragile image? This is the leitmotif investigated by the Brazilian artist. It is a matter of a public study of the element of water in a constricted space devoid of currents.
And even in this state, water is not protected from change.The chemical processes which now begin slowly dissolve the paraffin. The artwork changes and thereby makes the viewer aware of the fact that not even a complete standstill can avoid ongoing changes. Everything is subject to the laws of nature and accordingly finds itself to be in permanent transformation. Everything flows - panta rhei.

Os olhos de Tia Maria
por Fabiana Werneck
 
Texto publicado no catálogo da exposição "Os olhos de Tia Maria", no Centro Cultural São Paulo, 2003
 

O trabalho “Os olhos de Tia Maria”, apresentado em 2001 pela primeira vez em Araraquara, SP, cidade de origem do artista Hugo Fortes, é montado agora no Centro Cultural São Paulo. Esta instalação é uma homenagem à pessoa que o iniciou nos mistérios e deleites dos pincéis, das cores, da arte,ofício que permite a elaboração de novos mundos, novas linguagens, lição que o artista compreendeu tão bem.

O olhar é uma proposição clássica, tema recorrente (e querido) de muitos artistas e pesquisadores de diferentes épocas e geografias. Aqui são olhos da coro do mar que refletem o céu, com os da própria tia Maria. Um mar de olhos que nos lembram a importância do ver, do observar, do contemplar. Este trabalho de Hugo Fortes, diferente de seus anteriores – aquários que inventam mundos particulares, introspectivos e sinuosos – sugere que arregalemos nossos olhos para a vida, para dentro e para fora, párea a diversidade do universo no qual habitamos (e que construímos). Ou ainda, para os mundos de fantasia que devem sempre ser vistos com outros olhos.

O artista continua a trabalhar com os mesmos materiais: o vidro, a parafina, a água e o pigmento azul. Mas agora são diversas formas arredondadas ora em parafina, ora em vidro, com tamanhos desiguais, algumas com e outras sem água e a maioria com a presença forte do azul. Espalhadas pelo piso da sala, são formas côncavas e também convexas. Eventualmente, produzem pelo reflexo do vidro e do sutil movimento da água, outras manifestações visuais. São olhos-d’água, sendo a fonte, o artista e o seu solo, a arte.

Não há charadas, dogmas ou incompreensões em seu trabalho. Aqui, o que é relevante para o artista é chamar a atenção dos espectadores para o prazer do olhar. E que este olhar permita o descortinar tanto do mundo material em que vivemos, como dos mundos que existem dentro de cada um. Segundo Hugo Fortes, “cada peça aqui é um receptáculo para o olhar, um local para pousar a visão e mergulhar no seu próprio interior”. Hugo revisita sua infância para falar de seu presente, e nos convida a imergir em suas referências, em seu mundo, para nos sinalizar o nosso.


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