A sociologia do conhecimento científico

Aqui encontras os conteúdos do Powerpoint da aula de 24 de Abril de 2009. (rvc, 28/04/09)
 
A sociologia do conhecimento científico
- É levada a cabo por investigadores que estudam as comunidades científicas e que consideram estas como chave da interpretação das opções em favor de umas ou outras teorias.

- Opera uma viragem sociológica oposta à filosofia da ciência de corte racionalista e epistemológico.

- Caracteriza-se por insistir que a ciência é significativamente e constitutivamente social em todos os aspectos que afectam o seu núcleo teórico.

- “O próprio conhecimento científico deveria ser entendido como um produto social.” in A. Pickering (ed.), Science as Practice and Culture, Chicago, University of Chicago Press, 1992, p. 1, apud Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 267.
 
Algumas tendências de investigação na sociologia do conhecimento científico
1 - O programa forte em sociologia do conhecimento científico (strong program)
2 - O programa empírico do relativismo (EPOR)
3 - A etnometodologia e o programa construtivista
4 - Os estudos de ciência e género
 

1 - O programa forte em sociologia do conhecimento científico (strong program)

Surge na década de 70 do séc. XX, na Science Studies Unit da Universidade de Edimburgo, com autores como David Bloor.

David Bloor postulou 4 princípios fundamentais da sociologia da ciência.

 - Causalidade

        - Interesse pelas condições que suscitam crenças ou estados de conhecimento

 - Imparcialidade

        - Relativamente à verdade e à falsidade, à racionalidade ou à irracionalidade, o êxito ou o fracasso

 - Simetria

        - Nos estilos de explicação: os mesmos tipos de causas deveriam explicar as crenças verdadeiras e as falsas

 - Reflexividade

        - Os padrões de explicação deveriam aplicar-se à própria sociologia

 O programa forte tenta reduzir (explicativamente) o conhecimento científico às suas causas sociológicas. Outro tipo de causas são admitidas, em princípio, mas não são estudadas. Não há critérios puramente lógicos ou racionais para avaliar o conhecimento científico, porque este se desenvolve sempre num contexto social e os seus conteúdos sofrem a influência dos interesses subjacentes à actividade daqueles que os elaboram - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 269 e 270.

 “O sociólogo ocupa-se do conhecimento, o conhecimento científico incluído, simplesmente como um fenómeno natural […] em lugar de o definir como uma crença verdadeira – ou talvez como crença verdadeira e justificada – para o sociólogo é conhecimento qualquer coisa que o conjunto das pessoas considere como conhecimento […] Em particular, o sociólogo ocupa-se das crenças que se consideram garantidas, ou institucionalizadas, ou investidas de autoridade por grupos de pessoas. O conhecimento pode, por certo, distinguir-se da mera crença. O que pode ser conseguido reservando a palavra “conhecimento” para aquilo que é colectivamente apropriado, e remetendo para as simples crenças o que é individual e idiossincrático” in D. Bloor, Knowledge and Social Imagery, Londres, Routledge & Kegan Paul, 1976, p. 5, apud Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 268.

 
2 - O programa empírico do relativismo
EPOR (Empirical Programme of Relativism = Programa Empírico do Relativismo) foi desenvolvido na Universidade de Bath por autores como H. M. Collins e Pinch. Agrupou investigadores que se dedicaram a estudar exemplos e casos concretos da prática científica – mais do que as teorias e as grandes hipóteses, interessaram-se por acções de investigações concretas. - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, p. 269 e 270.
“A força motriz subjacente à abordagem relativista/simétrica é a ideia de que aquilo que conta como verdadeiro pode variar de um lugar para outro e de uma para outra época” – H. M. Collins, in “Un programa empírico de relativismo en sociologia del conocimiento científico”, in M. González, J. A. López Cerezo e J.L. Luján (eds.), Ciencia, Tecnologia y Sociedad, Barcelona, Ariel, 1997, p. 52, apud Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 273.

Collins radicaliza as teses de Kuhn e assume plenamente o relativismo cultural:   “As diferentes culturas, com as suas formas de ver e actuar dadas como evidentes, constituem paradigmas diferentes […] diferentes paradigmas produzem diferentes objectos naturais. O que poderá ser verdadeiro num deles poderá ser falso noutro.” – H. M. Collins, in “Un programa empírico de relativismo en sociologia del conocimiento científico”, in M. González, J. A. López Cerezo e J.L. Luján (eds.), Ciencia, Tecnologia y Sociedad, Barcelona, Ariel, 1997, p. 52, apud Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 273 e 274.

Collins destaca o papel da argumentação nas decisões científicas: o papel central do “campeão do encerramento”, ou seja, aquele que, pelo seu prestígio e pela sua reputação científica, encerra um dado debate científico e assim, decide enveredar por uma via em detrimento de outra. Exemplo: Garwin como um campeão de encerramento que, com um artigo de 1974, encerrou um debate acerca da detecção de ondas gravíticas - estas foram as palavras de alguns cientistas um ano após a publicação do artigo de 1974: “… tanto quanto a comunidade científica em geral é implicada, foi provavelmente a publicação de Garwin que fixou a atitude. Mas, de facto, a experiência que fizeram era trivial – era uma coisa frágil… O que foi importante foi o que escreveram… O resto das pessoas estavam tremendamente indecisas acerca daquilo… Reinava a hesitação… E então Garwin aparece com aquele brinquedo. Mas o principal foi a maneira como o escreveu”. Outro exemplo: as provas de Eddington acerca da decisão da Teoria da Relatividade de Einstein. Para Collins, Eddington decide em favor de Einstein não pela univocidade das experiências de 1919, mas porque esta época era propícia a um consenso pós-guerra entre a comunidade científica inglesa e um cientista alemão, como era o físico Einstein - in H. M. Collins, A comunidade científica em tempos de disputa, in A Ciência tal qual se faz, F. Gil (ed.), Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1999, p.53.

A principal contribuição destes investigadores terá sido chamar a atenção para as controvérsias e para os processos de consenso entre os cientistas, através dos quais se encerram os debates e se opta por uma interpretação canónica. As controvérsias encerram-se através de recursos retóricos, expositivos ou institucionais que pouco têm a ver com a contrastação empírica ou as experiências decisivas. Muito mais importante do que a lógica das ciências é a sua retórica, do mesmo modo que o contexto institucional é mais decisivo que o domínio empírico investigado. - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 274.
 
3 - A etnometodologia e o programa construtivista
A contribuição principal deste grupo de autores (Karin Knorr-Cetina, Bruno Latour, etc.) são os seus estudos de campo nos laboratórios científicos, que são para eles a autêntica fábrica onde se constrói a ciência, através de debates internos e processos de consenso. Os construtivistas dirigem-se ao lugar real do trabalho científico, que identificam com o laboratório, para investigar como se constrói o conhecimento científico, aplicando as técnicas de observação participante da etnometodologia. Um etnometodólogo assemelha-se a um antropólogo que investiga uma cultura diferente da sua, tentando compreender o que nela sucede. - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 277 a 279.

Bruno Latour fez uma investigação de dois anos no Instituto Salk de Estudos Biológicos (Califórnia) e concluiu que:

 - A actividade construtiva dos cientistas é, antes do mais, uma prática escrita (tomam notas, elaboram dados, desenham diagramas, etc.)

 - A actividade dos cientistas no laboratório é essencialmente agonística (i.e., discutem entre si, aliam-se, rompem alianças, tentam apresentar provas dos argumentos, etc.)

 - A actividade científica parte de um caos informacional e observacional e cria uma ordem que não existe não antes das manipulações dos cientistas.

Alguns construtivistas, como Latour e Woolgar, adoptaram posições relativistas radicais, defendendo não apenas um relativismo epistemológico mas chegando a defender um relativismo ontológico. - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 280 e 281

 
4 - Os estudos de ciência e género

Os estudos sobre ciência e género (Women's Studies) podem ser considerados como uma corrente específica no âmbito da filosofia crítica da ciência ou como uma variante dos estudos de sociologia da ciência. Os Women's Studies surgiram nos EUA nos princípios dos anos 60 do século XX. Relativamente à ciência, assentaram na constatação de dois factos:

 - A escassa presença das mulheres ao longo da história da ciência

 - Influência dessa discriminação no próprio conhecimento científico, através de um complexo sistema de conceitos, metáforas e valores

Autores que fizeram estudos sobre ciência e género, Helen Longino ou E. F. Keller, optaram por temas como a recusa do individualismo metodológico e a carga sexista de alguns conceitos da ciência. Em particular, foi muito abordada a dicotomia masculino/feminino, com as suas associações (o masculino sempre foi associado ao universal, à cultura, à objectividade, à racionalidade e ao público, enquanto o feminino esteve mais vinculado ao particular, à natureza, à subjectividade, ao irracional e ao privado) e a forma como estas associações ressurgem nos livros e artigos científicos - analisá-las e mostrar as suas consequências é uma das tarefas típicas dos estudos de ciência e género - in Javier Echeverría, Introdução à Metodologia da Ciência, Lisboa, Almedina, 2003, p. 283 e 284

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