O existencialismo de Sartre e a condição do homem no mundo

O existencialismo de Sartre e a condição do homem no mundo

Em 1946, alguns anos após a publicação de sua obra mais importante e de carácter puramente filosófico, O ser e o nada, Sartre profere uma conferência intitulada O existencialismo é um humanismo, na qual pretende defender seu pensamento de uma série de críticas e explicitar com mais clareza suas ideias. Nesta conferência, ao colocar o homem como pura subjectividade, Sartre demonstra que sua filosofia tira todos os subsídios de uma postura absolutamente ateia, o que consiste em considerar que a existência humana precede sua essência. Para tal, Sartre cita o exemplo de um objecto fabricado, mais precisamente um corta-papel.

Ao concebermos um corta-papel, devemos admitir que esse objecto foi fabricado por um artífice, que já possuía uma ideia prévia, um conceito do que seria este objecto, pois é impossível imaginar a fabricação de algo sem saber exactamente para que irá servir. No caso do objecto, a sua produção precede sua existência, isto é, antes de o objecto ser fabricado, já possuíamos um conceito dele. Deste modo, quem crê em Deus, considera-o como um Artífice superior, no qual estaria implícito a noção do homem. De forma análoga, há alguns ateus que, como os do século XVIII, mesmo negando a existência de um Criador, admitem que o homem possui uma natureza humana, um conceito humano, que colocaria todos os homens numa mesma definição, pois são possuidores das mesmas características básicas. A essência, neste caso, continua a preceder a existência, e este é um princípio que podemos observar em quase toda a história da filosofia.

Sartre afirma o contrário. Dizer que a existência precede a essência não é simplesmente suprimir Deus e negar a natureza humana em função da realidade humana. Dizer que a existência precede a essência é colocar o homem como um nada lançado no mundo, desprovido de uma definição. O homem surge no mundo e, "de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo" (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 6.). Ora, isso implica também o fato de que o homem só se faz num constante projecto, num incessante lançar-se no futuro. Somente assim o homem irá se definir como ser existente e consciente de si mesmo.

O existencialismo impõe ao homem a inteira responsabilidade no exercício de suas acções. Ao escolher sua vida, o homem também escolhe todos os homens. O valor de sua escolha é determinado pelo fato de que ele não pode escolher o mal. Nas palavras de Sartre: "o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos" (idem, p. 7). A imagem que moldamos de nós deve servir, em última instância, para todos os homens. Nesse sentido, o homem não é só responsável por si, mas também pela humanidade inteira.

O existencialismo ateu de Sartre procura manter sua coerência atribuindo ao homem o compromisso de construir a sua própria essência. Lançado no mundo sem perspectivas, o homem determina sua vida ao longo do tempo, e descobre-se como liberdade, ou seja, como escolha de seu próprio ser no mundo. Ao falar da condição do homem, Sartre relaciona-o com a angústia, o desamparo e o desespero. Mas o que significa definir o homem nestes termos?

A angústia consiste simplesmente na descoberta de que o homem, quando escolhe, não é apenas o legislador de si mesmo, mas alguém que, ao mesmo tempo, escolhe a si mesmo e a humanidade inteira. O homem que descobre isso não consegue escapar de sua total e absoluta responsabilidade, que gera o sentimento original de angústia. Por isso é o próprio homem quem determina o valor de sua escolha, pois ele tem o constante dever de se perguntar: "o que aconteceria se todo mundo fizesse como nós?" (ibidem, p. 7) Assim, a acção do homem, vista como a escolha constante de seu destino, é propriamente constituída por angústia.

Ao falar de desamparo, Sartre quer simplesmente dizer que "Deus não existe e que é necessário levar esse fato às últimas consequências" (idem, p. 8). Desamparo significa que o homem não possui nada a que possa se segurar, nem dentro nem fora dele; não existem bases para direccionar suas acções, a não ser sua liberdade e responsabilidade. Não existem valores eternos preestabelecidos que impedem o homem de agir, nenhuma justificativa ou desculpa que o retire de sua escolha. Em qualquer situação, somos nós que escolhemos, subjectivamente, aquilo que provém de nossa própria vontade. O homem está só: "o desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia caminham juntos" (ibidem, p. 12). Não obstante, o desespero está ligado ao fato de que o existencialista não espera nada de um mundo transcendente. Se o desamparo é ausência de Deus, o desespero é não esperar por ele. As circunstâncias, deste modo, não podem servir como evasivas para nossos actos, nem como subterfúgios para nossos fracassos. Des-espero: o que torna nossa acção possível é apenas a nossa própria vontade. Por isso Sartre escreve: "o homem nada mais é do que o seu projecto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus actos, nada mais que sua vida" (idem, p. 13). Projecto, liberdade, responsabilidade, e existência que escolhe sua essência são termos constantes na obra de Sartre, e que também se interagem e são correlatos. Assim, podemos dizer que é inerente à condição do homem sua situação autêntica de angústia, desamparo, desespero.

 

Rogério A. Bettoni, «O Problema de Deus em Jean-Paul Sartre», disponível in http://criticanarede.com/html/rel_sartre.html

Comments