Exploratório‎ > ‎

O que é um problema?

Autor:  Paulo Gomes

Na nossa vida quotidiana dizemos que temos um problema, quando nos surge uma dificuldade que nos impede de atingir um qualquer objectivo. Se estou a fazer um bolo, por exemplo (isto não é coisa que eu faça frequentemente, pelo que se o fizer, de certeza que me verei a braços com muitos problemas…), seguindo uma receita, posso descobrir que só tenho 6 ovos, quando a receita exige 8. Trata-se de uma dificuldade, certo?

Mas há dificuldades e dificuldades… Ora vejamos: se tiver muita confiança com os vizinhos do lado posso tocar-lhes à campainha e ver se têm dois ovos para me dispensar. Se não for esse o caso, sempre posso descer à rua e comprar ovos. Se estes passos forem possíveis, então a coisa fica resolvida por aqui, a dificuldade desaparece e deixa de ser um problema.

Mas, e se nada disto resultar? Se os meus vizinhos do lado não me falarem, ou se na casa ao lado não morar ninguém? E se à hora em que eu estiver entretido a fazer o bolo o comércio estiver fechado? Ou se nas lojas os ovos se tiverem esgotado? Como é? A simples dificuldade torne-se num problema maior, não é? O que fazer então?

Primeiro tenho que analisar a situação com o máximo de cuidado. Devo ler a receita para ver se os ovos são mesmo indispensáveis. A resposta é quase óbvia, pois nestas coisas da doçaria, não é preciso ser-se um entendido para se saber que se a receita não for seguida, as coisas têm uma grande probabilidade de correr mal… No caso de não poder dispensar os ovos, posso procurar outras receitas de bolos que dispensem os ovos ou permitam uma utilização de uma menor quantidade de ovos. Se isto funcionar, o problema foi solucionado. Pois sim, mas o mais certo é as novas receitas exigirem outros ingredientes, alguns deles exóticos e mais difíceis de encontrar do que 2 ovos…

O que fazer? Poderia desistir do bolo. Não resolvia o problema, mas deixava de estar metido numa alhada. Mas e se eu me tivesse comprometido a fazer o bolo? Teria que procurar uma solução. E como? Talvez inovando!

Ora se tiver todos os outros ingredientes em quantidades generosas, posso tentar remediar a situação, posso ver se posso substituir parte dos ovos por natas, por exemplo. E, para não arriscar demasiado posso pôr à prova a minha conjectura utilizando três ovos, deixando os outros para procurar outra solução, caso esta não surta o efeito desejado.

Delineado o plano de acção, resta pô-lo em prática. Se daqui resultar um bolo aceitável, então encontrei uma solução aceitável para o problema, ou seja, o que era uma dificuldade em alcançar um objectivo, não só foi ultrapassado com sucesso, como alargou a minha capacidade de resposta em situações análogas, agora posso escrever esta variante junto à receita antiga. Pode até ser que os meus convidados gostem tanto do resultado que me peçam a receita e esta passe de mão em mão como um bolo inventado por mim (como diz o adágio, a necessidade é a mãe da invenção). Mas é claro que a coisa pode não resultar, mas, como guardei 3 ovos por precaução, sempre posso procurar outra solução, quanto mais não seja procurando a receita de um doce que possa substituir o bolo.

Escusado será dizer que poderia ainda retirar vários ensinamentos deste episódio, como o de planear melhor as minhas compras, ou o de não me comprometer com acções para as quais eu não esteja bem capacitado. E este tipo de conclusão não deixa de ter suma importância, pois do simples acto de fazer bolos pude retirar ensinamentos úteis e importantes para a vida.

Ora, como este não é um site de culinária, esta referência à prática da doçaria só pode estar aqui a título ilustrativo. Em primeiro lugar, convém chamar a atenção que este exemplo pertence ao senso comum, ao nível do qual as dificuldades são relativamente fáceis de resolver, havendo um abismo entre este saber e a filosofia e a ciência. Contudo, temos no exemplo dado acima dados suficientes que nos permitirão compreender o que é um problema e como os saberes racionais tentam resolver problemas.

Como já foi dito, um problema é uma dificuldade em alcançar um objectivo. No caso da filosofia e da ciência, em suma dos saberes racionais, o objectivo é conhecer, explicar, interpretar e compreender a realidade. Pelo que os problemas surgem quando nos deparamos com o desconhecido. Mas a filosofia e a ciência resolvem os problemas de forma distinta, mas muitas vezes complementar.

No caso do exemplo dado acima, a filosofia interviria no momento em que o problema surge, colocando as possíveis questões que possam emergir da situação problemática, bem como, no fim, no retirar das consequências, digamos, existenciais de toda a odisseia. À ciência caberia o trabalho de análise profunda das informações concretas sobre a situação e do mapeamento de possíveis vias de solução, com vista à elaboração de hipóteses de resposta. Com estas hipóteses na mão, haveria que as testar experimentalmente. Em caso de sucesso, ter-se-ia aberto a via a um progresso do saber e a um recuo do desconhecido.

Mas o exemplo do bolo é muito redutor, pois há problemas tão profundos, tão profundos, que não há forma de lhes sondar o fundo. É como estar no mar alto com uma sonda que vá até aos 100 metros de profundidade. Enquanto o fundo se situa aquém desse valor, vamos conseguindo saber com rigor a profundidade, mas quando a profundidade do fundo for maior do que o comprimento da sonda, estamos face ao desconhecido, temos que procurar orientarmo-nos por outras vias e podemos até ficar com a noção de que temos que largar o nosso conhecimento, ou seja, nesse caso temos que abrir os cordões à bolsa e comprar uma sonda com mais alcance. Mas tudo seria simples se assim fosse, mas muitos dos problemas de que se ocupa a filosofia são insondáveis em toda a sua profundidade, ou seja, não há sonda que lhes apalpe o fundo. Só nos resta mergulhar nesses problemas tentando ir cada vez mais fundo. Mas, como é bom de ver, este procedimento tem riscos e não podemos levá-lo a cabo sem instrumentos que nos permitam aguentar a ausência de oxigénio e o aumento da pressão!

Pois é, em ciência utilizam-se instrumentos de observação e de medição que permitem chegar aonde nunca poderíamos ir só com os nossos sentidos, com a “vista desarmada”, como costuma dizer-se. Mas, e no caso da filosofia? Ela também utiliza instrumentos na sua busca da verdade?

É claro que sim! Em primeiro lugar, tal como o mergulhador tem que munir-se de equipamento que lhe permita ir ao fundo sem sofrer consequências irremediáveis, para a sua saúde, bem como deve estudar com profundidade o local que escolheu para o seu mergulho, assim também filósofo tem que se munir do equipamento que as ciências lhe fornecem, tem que estar a par do conhecimento científico do seu tempo, para evitar, pelo menos não cair no erro de pensar que o problema que o preocupa não tem respostas que permitam chegar o mais fundo possível.

É que a investigação científica está limitada pelo método científico, ao ponto de podermos dizer que um problema só é científico se puder ter uma solução alcançada através do método científico. Assim, os físicos podem investigar o problema acerca da origem do universo, porque podem observar fenómenos que os aproximam do instante inicial em que tudo começou, aplicando aos resultados da investigação a computação matemática que permite reconstituir, com um rigor apreciável, esse puzzle gigantesco. Já o problema de saber se há vida depois da morte, ou se Deus existe, está fora do âmbito da investigação científica, pois o método científico só pode ser aplicado em relação ao que é acessível através da experiência. Mas a filosofia não está limitada desta forma.

É que a reflexão é um dos principais instrumentos que o filósofo utiliza na sua exploração dos problemas. O filósofo interroga-se, procurando através da Razão, aplicada com método e rigor lógico, colocar em primeiro lugar questões que lhe permitam ir o mais fundo possível. E depois ensaia respostas que, mesmo que não possam ser provadas empiricamente, têm que ser logicamente válidas, e que devem caber dentro do horizonte do possível.

É que há uma diferença apreciável entre possível e o real. A ciência tem que se ater ao real, àquilo que é concreto, factual, que pode ser conhecido através da experiência, mesmo que essa experiência esteja muito longe da nossa experiência quotidiana. O real é o que acontece, aconteceu ou está a acontecer. O possível é o que ainda não aconteceu (é possível que o Sol nasça amanhã), o que nunca aconteceu mas que podemos admitir que venha a acontecer (por exemplo, nunca ganhei no totoloto, mas admito que no futuro isso venha a acontecer, mesmo que o grau de probabilidade desse acontecimento seja muito reduzido), o que nunca aconteceu e que consideramos que não acontecerá, mesmo que nada o impeça (Por exemplo, que a Lua se venha a despenhar sobre a Terra, ou que, de repente, tudo o que neste momento existe desapareça pura e simplesmente). Também há possibilidades que podem ser consideradas, mesmo contrariando as leis que, tanto quanto sabemos regem o funcionamento do universo, nesse caso essas possibilidades têm uma natureza meramente lógica, ou seja, podemos pensá-las, mesmo sabendo que, tanto quanto sabemos acerca do funcionamento do universo, elas sejam de todo improváveis. Por exemplo, posso imaginar uma situação em que consiga deslocar-me instantaneamente até um ponto distante daquele em que me encontro, embora isso me pareça fisicamente impossível.

Ora, ao explorar o possível para melhor explorar o real, a filosofia muitas vezes abre vias de investigação que mais tarde são percorridas pela ciência.

É, por exemplo, possível que Deus exista. Mas a sua inexistência também é uma possibilidade. Sendo assim, a filosofia pode explorar uma grande multiplicidade de possibilidades. E quem o faz está a libertar-se das limitações do seu ponto de vista sobre a realidade, está a alargar os horizontes do seu pensamento, ao levar a sua indagação até aos limites do pensável, ou seja, até ao rebordo mais extremo deste mundo que, como se adivinha pelos resultados da especulação filosófica, é apenas um limite provisório, porque é sempre possível ir mais longe.