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Tiago Sousa no Teatro Maria Matos

Transporte Musical

 

À saída do concerto que Tiago Sousa deu no Teatro Maria Matos, comentava com um amigo meu o complicado que pode ser comentar música instrumental. “Quando há um vocalista, alguém que canta, é mais imediato; tens um refúgio, as letras e a voz. Quando é música instrumental, é tudo mais abstracto, e és obrigado a falar da música em si”, dizia ele. E tem razão. Porque a verdade é que o que se sente num concerto destes, como o que Tiago Sousa e os seus músicos (João Correia na bateria; Ricardo Ribeiro no clarinete baixo e clarinete soprano; Joana Guerra no violoncelo; e Rui Pedro Dâmaso nos efeitos, percussão e teclados) deram naquela que é (e foi) talvez uma das mais belas salas para os receber, o Teatro Maria Matos, sente-se algo que não pode ser propriamente descrito com frases como “o concerto foi cheio de energia” ou “o músico apelou à dança e o concerto foi óptimo do início ao fim”.

 

Porque o excelente concerto dado por Tiago Sousa foi algo que apelou, acima de tudo, aos sentidos e, tentando não ser foleiro, ao próprio espírito.

 

Efectivamente, por momentos durante o concerto achei não estar ali e estar antes noutro local. Passaram-me imagens pela mente, tinha um sorriso na face e o silêncio absoluto de toda a sala fez-me parecer que, realmente, nenhum de nós estava ali: estávamos todos noutro local, num qualquer sítio para onde a música nos levou. Porque boa música instrumental faz isso: leva-nos, transporta-nos. E a música de Tiago Sousa não é boa: é excelente. É talvez até mesmo algo de verdadeiramente genial. E, ao vivo, essa característica mantém-se.

 

O concerto começou com algumas músicas do último trabalho do músico, o espantoso Insónia, e rapidamente continuou com duas peças: Samsara, em estreia absoluta, e The Walden Pond’s Monk, peça em homenagem a Henry David Thoreau. A primeira é talvez uma peça mais exótica (é uma peça que tem como tema-base o conceito hindu do ciclo de vida e morte), de ambiente diferente de The Walden’s Pond Monk, mas ambas fazem parte de um mesmo universo e, ao vivo, em nada destoam (curiosamente, Samsara, foi a primeira peça tocada).

 

Ver os músicos em palco é fascinante. Tiago Sousa parece estar em transe, quer seja ao piano quer seja ao pequeno teclado, onde toca de cócoras, e os restantes músicos seguem-no. A certa altura, todos eles estavam como o público: hipnotizados, algures que não ali, levados pela música, movimentando o corpo ao som do que tocavam. Cada um parece tocar individualmente mas ao mesmo tempo admirando o que se faz em seu redor; e o piano, claro, é o principal, o instrumento que todos seguem.

 

Sousa estava rodeado de grandes músicos. João Correia, em particular (que já tinha participado em Insónia), é um baterista notável. A bateria é em si um instrumento frequentemente associado ao barulho puramente cru e rítmico, mas aqui Correia transforma uma simples batida num perfeito complemento de algo superior; aliás, transforma até o que se esperaria ser um som directo e bruto em algo de sensível e belo. E o mesmo se pode dizer dos restantes: de cada músico vinham sons que complementavam o que já se ouvia de uma forma perfeita e fluída. A relação entre o pequeno teclado de Sousa e os sons emitidos pelo de Dâmaso, por exemplo, pareciam por vezes fundir-se num único e indistinguível momento musical.

 

Mas, como já aqui foi dito, o piano era o principal. Tiago Sousa foi o primeiro a entrar em palco, e tocou a primeira música (a faixa-título de Insónia) sozinho, nesse instrumento. Imediatamente se sentiu que seria uma grande noite, e o silêncio absoluto e de pura devoção que se ouvia (e que se prolongaria por toda a noite) transmitia um espírito colectivo de pura admiração. À segunda música (Pendulo, também de Insónia), entrou João Correia, e entrou em cena aquele notável uso de bateria que se prolongaria por todo o acto. A dupla manteve-se também para a música seguinte: Folha Caduca. Estas faixas enormes abriram na perfeição o concerto e foram, além disso, escolhas acertadas: são talvez o que mais belo se pode ouvir em todo o disco.

 

De seguida, entraram os restantes dois músicos, e começou Samsara, bela e, como já aqui foi dito, até exótica, fluindo na perfeição do início ao fim. E de seguida, The Walden’s Pond Monk, mais melodiosa e de sensibilidade mais acentuada, que continuou a prender o ouvinte naquele universo para onde Sousa nos consegue levar. Ver e ouvir os músicos, também eles transportados, é uma experiência que tem tanto de memorável quanto fascinante. As palavras foram poucas e directas; os aplausos apenas se ouviam quando a sala estava em perfeito silêncio e a música tinha terminado.

 

O único defeito a apontar não é sequer um defeito: tinha sido bom ouvir mais. O concerto passou a correr e, no final, muitos comentavam que esperavam algo de maior longevidade. Mas os músicos saíram e voltaram depois, perante aplausos de pé e até mesmo assobios sem fim, apenas para agradecer, não para um encore. E isso percebe-se Não era um concerto de encore, um desses que se vêm tantas vezes. Foi, efectivamente, uma experiência emocional e sensorial. Tudo fluiu do início ao fim (Sousa não é um pianista tradicional, e as suas músicas têm uma estrutura de uma liberdade espantosa), e das músicas de Insónia às duas peças que se seguiram foi uma mudança natural. Um encore talvez tivesse estragado aquele espírito de união que caracterizou a música ouvida. E, afinal de contas, haverão sempre mais concertos deste grande músico (e graças a Deus para isso).

 

Ao conhecer a música de Tiago Sousa, entra-se num concerto deste à espera de algo tão fenomenal, único e transportador quanto a sua música. E, quem diria, este concerto foi exactamente isso que se esperava: algo de uma beleza inexplicável e hipnotizante, do puro início ao puro fim. Foi um concerto difícil de descrever, que transportou o ouvinte para um local indescritível, e lhe deu a sentir algo que tem tanto de belo e maravilhoso quanto de único e poderoso; um concerto que não se ouviu: sentiu-se. Dessa forma, apenas os sons e os sentimentos, não as palavras, o podem descrever.

 

E esse é, ao fim de contas, o maior elogio que lhe pode ser dado; um daqueles que não se estende apenas a um grande concerto: estende-se também a um grande músico.
 
 Gonçalo Trindade
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