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Gomo no Cinema São Jorge

 
 

Os deuses (também conhecidos como Carris) não estavam a favor da repórter: cinco, dez, vinte minutos de espera, imaginando o ambiente à porta do S.Jorge. E a imaginar se Paulo Gouveia sentiria, nesse momento exacto, as borboletas na barriga. Afinal, Gomo iria finalmente ressuscitar.

Há já algum tempo que Gomo andava afastado do mundo da música. Tinha sido, até esse desaparecimento, uma figura pouco consensual, capaz de gerar amores e ódios com alguma facilidade. Mas, cinco anos depois, resolveu voltar para apresentar o seu novo disco, Nosy, na mesma noite em que comemoraria mais um aniversário. O concerto começou com um atraso de quarenta minutos, em parte para conseguir sentar toda a gente que estava no S. Jorge e também porque era importante estender o concerto para lá da meia-noite – Paulo Gouveia faria trinta e nove anos em palco.

Depois do público devidamente instalado, assistiu-se a uma série de testemunhos sobre alguns fãs do projecto, apontamentos humorísticos pouco surpreendentes se nos lembrarmos do sentido crítico e da capacidade de se rir de si próprio que Gomo já mostrava aquando da edição e promoção do se Best of. Esta pequena produção leva também a crer que há planos para expandir os conteúdos virtuais e manter o lado claramente conceptual do projecto. Depois das apresentações e das declarações de devoção incondicional, chega a banda – composta agora por seis músicos - e chega também Paulo Gouveia: o visual cuidado de todos os elementos reflecte a preocupação em criar uma identidade e uma imagem única. As hostilidades abrem com Still inside your mind e segue-se Spread the word, uma canção com um início a fazer lembrar os melhores anos de George Michael e a manter-se em território pop até ao final. Gomo está extremamente nervoso: confirma-se pelo suor que lhe cobre a cara ou nas palavras que às vezes lhe faltam entre músicas. Passa depois para Out of place cuja letra, juntamente com Quest for glory, foi escrita pela mão do irmão mais velho do cantor, a quem este parece prestar grande reverência.

O single de apresentação do disco, Final stroke, foi o tema que se seguiu e um dos temas que nos faz pensar que, a haver algo de muito positivo neste regresso de Gomo, é a sua maior aproximação a territórios pop, com alguma vontade de arriscar e soar às grandes bandas rock (U2 em Quest for Glory ou I won’t go back, em que nos lembramos dos James ou dos Travis). O que este Nosy nos traz de novo é a maior densidade das músicas, agora aparentemente mais trabalhadas e caminhando muitas vezes para o sentimento de estarmos a ouvir algo épico. Houve espaço no concerto para os temas mais antigos, como o incontornável Feeling alive, capaz de gerar a maior agitação entre o público que, caso contrário, não se manifestou tão efusivamente quanto esperado. De Best of, Gomo ainda resgatou I wonder, que apresentou como a música mais romântica do concerto e November 6th, que arriscou comparar à sonoridade mais pesada dos Vicious Five.

O falsete de Paulo Gouveia continua irrepreensível e mesmo alguns erros, motivados pelo enorme nervosismo que o cantor parecia controlar muitas vezes, se tornavam mais desculpáveis, tal era a forma desinteressada e descontraída com que o cantor discursava sobre eles. Mesmo nestas alturas, era o seu sentido de humor que o salvava e também a forma crítica como parece ler os acontecimentos actuais (mencionando a transferência milionária de Cristiano Ronaldo para Espanha, por exemplo). A música de Gomo também continua a fazer-nos sentir bem, a criar em nós a ilusão de que o Verão está aí continuamente, a fazer-nos esquecer as agruras quotidianas.

Depois de cantados os Parabéns pelo público e pela banda, Paulo Gouveia convida o público a subir para o palco, para poder comemorar o seu regresso e o seu aniversário com aqueles que são responsáveis pelo seu sucesso. Algumas dezenas de pessoas acedem ao convite e é assim que a comemoração chega ao nível esperado, todos dançando ao som de Feeling alive. Depois do encore, há ainda tempo para um bolo de aniversário gigante no foyer do S. Jorge para quem quiser comemorar com o músico. Este Gomo, agora regressado em edição de autor, promete que muita coisa boa vai acontecer ao som da sua música. Se nos sentimos vivos, mesmo depois do calor do S. Jorge, é porque esta frescura parece ter voltado para ficar.
Marisa Maurício
SETLIST                                                                              
 
1. Still Inside Your Mind 
2. Spread The Word 
3. Out Of Place 
4. Final Stroke 
5. Infactuation 
6. Can't Find You 
7. Feeling Alive 
8. Come Say You Love Me 
9. I Wonder 
10. Quest For Glory 
11. November 6th 
12. Won't Go Back
 
Encore
13. Final Stroke 
14. Feeling Alive
  
 
FOTOS                                                                                
Fotos:
José Eduardo Real
 
 
VIDEO                                                                                  
 
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AGRADECIMENTOS                                                               
Lisboagência
 
 
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