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Sean Riley and the Slowriders

ENTREVISTA                                                                         
 
 
Há Folk à solta em Coimbra
 
Ecoam acordes tocados numa guitarra. Uma voz serena e suave. O toque ora calmo ora frenético das teclas, sejam elas de um hammond ou de um rhodes. O baixo e um modesto set de bateria marcando o ritmo.
 
Conselhos, sonhos, solidão, abandono, ilusões e desilusões. Histórias fragmentadas.
 

Subidas a montes e vales revivendo esses pedaços de vida. Uma viagem pela melhor tradição do rock norte-americano. Tudo isto é “Farewell”, o primeiro álbum dos Sean Riley And The Slowriders.

 

Somos guiados pela voz de Afonso Rodrigues (Sean Riley) e esta leva-nos ao encontro de pequenos enredos que com a sua consecutiva banda-sonora  preenchem o disco. À medida que somos confrontados com algumas personagens como “Harry Rivers” (ou se quisermos, o típico sonhador português) ou o taxista referido em “Lights Out” que conta os planos de Deus a troco de uma meia dúzia de pounds,  este registo começa a revelar-se também  como um pequeno espelho de Portugal.

 
Apesar do olho consciente do letrista, este trabalho tem também uma faceta emotiva que encontramos em temas como “Motorcycle Song” ou “Marble Arch”, estas até com um certo pendor romântico e ainda “Twenty Six-Years” ou “Lights Out” que reflectem uma nostalgia de diferentes tipos de abandono.
 
O conjunto de canções que fazem parte de “Farewell” deambula entre o rock, o blues e o folk, o que já de si demonstra que o grupo é dotado de uma tamanha versatilidade, criando ora ambientes mais explosivos (“Isolation pt.2” ou New Year’s Eve”), ora momentos mais brandos e harmoniosos, como é o caso de “Moving On”, o single de apresentação do álbum de estreia. Contudo, há um padrão comum a todas as canções que encontramos neste trabalho dos conimbricenses, que é a força extraordinária para nos moverem e para ficarem presentes no nosso dia a dia.
 
Influenciados pelos Velvet Underground e outros nomes relevantes da música como Young, Cash  ou Dylan, os Sean Riley And The Slowriders, que antes do lançamento do seu primeiro registo, participaram na compilação, “FNAC Novos Talentos 2007”, adquiriram uma enorme experiência ao vivo, pois tocaram em inúmeras salas do nosso país (das quais se destaca a primeira dos parte dos concertos de José Gonzáles na Aula Magna e Aimee Mann no Coliseu dos Recreios) e fora dele (Inglaterra  e Espanha).
 
Encontramos também este projecto encaixado no puzzle de pessoas que fazem algo pela música portuguesa em Coimbra, prova disso é a recente tour com os já experientes na estrada, Wraygunn e a consequente colaboração entre ambos num tema.
 
Já premiados pela Pop Eye (prémios espanhóis de música) como Melhor Banda Internacional, Filipe Costa (ex-Bunnyranch), Bruno Simões e Afonso Rodrigues partem agora em rumo da expansão das suas músicas para outros horizontes.
 
Numa breve conversa com Afonso Rodrigues e Filipe Costa no aeroporto de Lisboa foi-nos dada uma ideia mais clara deste seu projecto reflectindo o ontem, o hoje e o amanhã.

 

Francisco Manitto Torres: O vosso projecto seguiu sempre o mesmo fio condutor, em termos de influências ou essas influências foram-se modificando?

 

Afonso Rodrigues: Eu acho que não fomos sofrendo grande alteração a nível de influências, pois tem mais que ver com géneros do que com artistas, mesmo que se vá oscilando entre ouvir uns ou outros músicos, mantivemo-nos mais ou menos no mesmo género. O que foi acontecendo, foi a necessidade e vontade de experimentar outras abordagens e na maneira em que expomos a nossa música. Nesse sentido, fomos desbravando caminho, no início, começamos com menos instrumentos e com uma abordagem mais acústica, depois passámos a utilizar mais e os mais variados instrumentos eléctricos. Actualmente, temos até tocado com mais músicos, para além da formação original, e penso que é isso, que o futuro dos Sean Riley And The Slowriders passa um pouco por aí, trabalhar com mais músicos.

 

Francisco Manitto Torres: Um número considerável de pessoas considera este vosso primeiro registo, um álbum de qualidade distinta. Reflectindo sobre o que faz um bom álbum, gostava de saber como encaras esta realidade?

 

Afonso Rodrigues: Um grande álbum é feito única e exclusivamente de grandes canções, depois podemos considerar outras coisas, como a qualidade do som e a maneira como foi gravado, mas em última análise, aquilo que é essencial é que as canções sejam boas. Quanto ao nosso disco, não o descrevo como um grande sucesso, não ponho as coisas dessa forma, eventualmente conseguiu causar algum impacto e chamar a atenção de algumas pessoas e de alguma crítica por consequência da forma como o fizemos, pois não foi da maneira como é feito regularmente no panorama nacional, por isso algumas pessoas foram apanhadas de surpresa e foram confrontadas com um tipo de sonoridade que não é o mais usual.

 

Francisco Manitto Torres: Os Sean Riley & The Slowriders parecem ter sido encarados mais seriamente que outros projectos, devido ao seu estilo musical, imagem e o cariz realista das letras. Qual é a tua opinião em relação a isso?

 

Afonso Rodrigues: Não posso falar sobre as outras bandas, porque não faço a mínima ideia de quais as formas como esses projectos canalizam a realidade. Conheço alguns projectos e algumas pessoas, sei por conhecimento pessoal como é que a cabeça de alguns deles funciona, mas não quero entrar por aí. Penso é que desde o início, nas nossas músicas, das vezes em que eu pegava na guitarra e tocava com o Filipe (baterista/teclista) fosse num quarto ou num palco havia uma necessidade constante e uma intenção real  de que as coisas fossem sérias e que não era propriamente um hobbie. Sempre houve um sítio ao qual queríamos chegar com a nossa música e para alcançá-lo tínhamos de encarar a música da forma mais respeitosa possível e conseguir fazê-la da forma mais honesta, sincera e com a máxima entrega.

 

Francisco Manitto Torres: O ambiente de Coimbra foi transportado para o álbum? É possível identifica-lo com o “folk” e com guitarras acústicas?

 

Afonso Rodrigues: Sem dúvida que o ambiente de Coimbra foi transportado para o álbum, na medida em que quando tu escreves coisas que maioritariamente se passam na tua vida, estejam elas relacionadas contigo ou com outras pessoas, és influenciado pelo meio em que te inseres e neste caso este álbum foi escrito num altura em que estava a viver em Coimbra e como tal tem que reflectir o quotidiano de Coimbra. Julgo que, em relação à questão de Coimbra estar associada a uma sonoridade semelhante ao álbum, não concordo totalmente. Penso que há algumas influências em comum com outros projectos musicais locais, como a grande base de discos de rock e blues, literatura, mas acho que o resultado final é bastante diferente.

 

Francisco Manitto Torres: Sentiste que a ascensão deste projecto foi rápida em comparação com um projecto regular português? Visto que, vocês com o vosso primeiro registo conseguiram tocar nas mais variadas salas nacionais e até em algumas internacionais.

 

Afonso Rodrigues: Penso que talvez tenha sido uma ascensão um pouco facilitada. Talvez tenhamos tido alguma sorte, pois sei dos longos processos que muitos projectos estão subjacentes e da dificuldade de conseguir chegar a uma editora ou a um management. Conheço alguns grupos que só passados alguns anos conseguiram chegar ao patamar em que nos encontramos ou outros que ainda infelizmente não o atingiram. Portanto, julgo que essa ascensão terá que ver com algum valor que nós possamos ter, como é óbvio, mas também com a sorte de nos termos cruzado com as pessoas certas.

 

Francisco Manitto Torres: Em muitos comentários a vídeos de concertos vossos no youtube, encontramos a seguinte frase-chave: “Comprei o álbum logo naquela noite”. Sabendo que não são uma banda muito comunicativa e não têm um estilo musical que desempenhe o papel de festa, como vês as vossas actuações ao vivo?

 

Afonso Rodrigues: As pessoas devem sentir-se relacionadas ou de alguma forma interessadas por aquilo que deve interessar mais num concerto, que é a música.

 

Francisco Manitto Torres: Consideram o público estrangeiro (Espanha, Inglaterra..) diferente do público português?

 

Filipe Costa: Penso que não tivemos uma experiência assim tão vasta que permita enquadrar um público com um país, nem sei se isso nos dias de hoje acontece tão frequentemente, pois tem mais que ver com os sítios onde se toca e para quem se toca. A reacção que tivemos em alguns concertos que demos fora do país é bastante semelhante à que tivemos com o público português.

 

Francisco Manitto Torres: Como é que vês o futuro dos Sean Riley And The Slowriders?  Há sempre aquele cliché do difícil segundo álbum e vocês tem algumas músicas como a “Fisherman” que não estão presentes no primeiro álbum.

 

Afonso Rodrigues: Há sempre essa pressão de fazer o segundo álbum. As pessoas falam nisso no sentido de que, no primeiro não há grandes expectativas. Julgo que no nosso não haverá assim tanta pressão. Deixámos algumas canções de fora, já na altura deste primeiro registo, por opção e desde o seu lançamento até agora tenho continuado a escrever, algumas dessas canções que tenho escrito já foram arranjadas por nós e outras ainda não. Há planos para possivelmente começarmos a gravar o novo álbum ainda no final deste ano e nessa altura veremos o reportório que temos e veremos as músicas que surgirão entretanto.

 

Francisco Manitto Torres: O grupo de músicos de Coimbra, apesar de pequeno, parece bastante coeso. É isso realmente que acontece?

 

Afonso Rodrigues: Sim, as pessoas desse grupo que referes, gostam e respeitam o trabalho umas das outras, havendo uma ou outra excepção. Daí surge um espírito de comunidade e respeito mútuo pelo trabalho de cada um e a consequente colaboração entre os vários indivíduos. Por exemplo, o Toni Fortuna (“d30”) fez o nosso design gráfico, o Rui Ferreira que também é manager dos “d30” é também quem nos representa. Espero que num futuro próximo seja possível cruzar algumas dessas pessoas com novos projectos que venham a surgir.  

 

 

Francisco Manitto Torres
FOTOS                                                                                
Fotos: Tânia Nabais 
 
 
VIDEO                                                                                  
 
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AGRADECIMENTOS                                                               
 
Sean Riley & The Slowriders
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