O SENSEI

O SENSEI

(O GRANDE MESTRE)

         

        Morihei Ueshiba nasceu em Tanabe (Prefeitura de Wakayama) no Japão, em 1883, e faleceu em Tóquio, em 1969.

       Costuma-se dizer que “filósofo” é aquele que conclui sua formação educacional através de um “curso de filosofia”. Este é, sem dúvida, um falso entendimento, uma vez que a filosofia pode significar, mais do que um conhecimento especial, um modo de vida que deve levar-nos à felicidade, objetivo de todo ser inteligente.

         E, neste sentido, no verdadeiro sentido, o fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, era um filósofo.

         Enquanto “conhecimento” (um conhecimento angustiante_ situado entre as fronteiras da religião e da ciência), a Filosofia significa “amor à sabedoria”.  É, então, muito mais uma procura (um “caminho” a ser percorrido) do que um encontro, um lugar de chegada.

        Morihei Ueshiba passou sua vida terrena percorrendo esse  caminho. A própria arte marcial que fundou _ AiKiDo _ literalmente significa “o caminho da harmonia do Ki”.

        Vivendo no Japão num tempo de guerras (e tendo em cumprimento de dever militar participado de algumas delas), Ueshiba era contra a prática guerreira, conforme se depreende de suas palavras:

         “Em minha opinião, pode-se dizer que o Aikido é a verdadeira arte marcial. A razão disso é que ele é uma arte marcial baseada na verdade universal. Este universo é composto de muitas partes diferentes e ainda assim, como um todo, é uno como uma família, e simboliza o estado último da paz. Por ter esta visão do universo, o Aikido não pode ser nada além de uma arte marcial de harmonia e de não violência. Por isso, pode-se dizer que o Aikido é mais uma manifestação do Criador do Universo. Portanto, no Aikido, o Céu e a Terra se tornam os campos de treinamento. O estado mental do aikidoka deve estar pacificado e totalmente livre da violência. É aquele estado mental especial que transforma a violência em um estado de harmonia. E acho que este é o verdadeiro espírito das artes marciais japonesas. Esta terra foi-nos dada para que a transformássemos num paraíso. A atividade guerreira é totalmente fora de contexto.”

        Morihei Ueshiba estudou e recebeu o certificado de mestre, entre 1901 e 1908, dos estilos: Tenshinyo Ryu, Kito Ryu, e Aioi Ryu de Jiu Jitsu (luta a mãos livres); Yagyu Ryu , e Shinkage Ryu de Ken Jitsu (espada), Musso Ryu Jo Jitsu (Bastão), além de Hozoin Ryu So Jitsu (lança), Kendo (esgrima com espada de Bambu), e até mesmo o Judo (com o professor Kiyoichi Takaji), com os quais, porém, não se sentia realizado. O Kaisso (fundador)treinou também o estilo Kashima Shinto-Ryu de Ken Jitsu.

        O descendente do clã Aizu, Sokaku Takeda, mudara-se para Hokkaido, onde passara a ensinar o Daito Aikijitsu (nesse tempo também já conhecido como Aikijiujitsu Daito Ryu).

          Em 1915, Ueshiba conheceu Takeda, e iniciou com ele o treinamento. Durante o ano de 1916, manteve o mestre Takeda em sua residência, construiu para ele uma casa, e pagou-lhe de 300 a 500 Yen (150 a 250 US$) para cada nova técnica que aprendia.

        Em 1920, passou a ministrar, em Ayabe, seus conhecimentos em Dojo próprio, com apenas 18 tatami, sob o nome Ueshiba Juku e, em 1922, sob a denominação de Aikibujitsu (mas _ conforme narrativa feita por Kisshomaru Ueshiba, filho do fundador _ as pessoas referiam-se a esse Budo como Ueshiba Ryu Aikibujitsu).

Em 1924, ao retornar  de uma expedição na Mongólia, o Kaisso foi provocado por um oficial da Marinha, estando este armado de espada, e entraram em combate. A mãos livres, Ueshiba enfrentou aquele espadachim, evitando, com movimentos circulares, todos os seus ataques, até que o agressor rendeu-se, exausto.

          Ueshiba conheceu, naquela oportunidade, o sumi kiri (a iluminação da mente e do corpo, pela unificação do ki individual e o ki universal): ao sair do Dojo, sentiu-se envolvido por uma imensa luz dourada e parte da própria natureza, compreendendo-a, portanto, a partir de uma visão de seu interior, logo devendo dedicar-se à sua proteção como um todo, e dos seres humanos especialmente.

          Foi este o marco do desenvolvimento espiritual de seu Budo, que o levou à seguinte reflexão:

o verdadeiro Budo é o caminho da grande harmonia e do grande amor por todos os seres.

Em 1930, Ueshiba recebeu a ilustre e honrosa visita de Jigoro Kano (fundador do Judo), que, após assistir a uma demonstração, declarou ser aquele o Budo ideal.

          Em 1936, o fundador concluiu ser necessário mudar a denominação de sua arte, visando acentuar a clara diferença entre ela e as antigas artes marciais, considerando a essência filosófica daquela. Suprimiu, então, o termo bujitsu, e deu-lhe o nome Kobukan Aiki Budo.

          Finalmente, em Fevereiro de 1942, denominou a arte que fundara, em caráter definitivo, como forma original e distinta de Budo, como Aikido.

        O Aikido é uma arte marcial defensiva, uma atitude filosófica diante da violência, e uma procura de autoconhecimento físico e mental.

         Como arte marcial, destina-se a proporcionar defesas em situações reais, distinguindo-se, consequentemente, das modalidades esportivas de combate, além de trabalhar com (e contra) espada (Bokken) e bastão (Jo).

         Como atitude filosófica, suas técnicas (quer em treinamentos, quer em situações reais) somente se iniciam após um movimento agressivo de outrem. É, consequentemente, uma luta contra a violência e jamais uma luta violenta.

         Finalmente, como procura de autoconhecimento, busca o desenvolvimento do “Ki”, a força integradora do espírito e da natureza.

        Eis o texto de uma das palestras do O Sensei:

 

Para descobrir a verdade e alcançar o poder supremo do universo

Ao longo das eras, inúmeros filósofos e mestres de religião transmitiram a mensagem da verdade e falaram do poder supremo da harmonia. Mas como se dá que os opositores da verdade e aqueles que lutaram empregando o poder destrutivo do Budo tenham vencido? Poucos mestres e filósofos conseguiram realmente encarnar a verdade e exprimi-la com todo o seu ser. Os seus ensinamentos, veiculados unicamente pelas palavras, só podia disciplinar a mente. Verdade e lógica são coisas diferentes.

         Para descobrir a verdade e alcançar o poder supremo do universo, há três formas de treinamento que devem ser empreendidas simultaneamente. Você precisa disciplinar a mente a fim de harmonizar-se com o movimento do universo; precisa exercitar o corpo a fim de harmonizar-se com o movimento do universo; e precisa treinar o ki, o poder do espírito que unifica a mente e o corpo, a fim de harmonizar-se com o movimento do universo.

         Para que sua mente entre em harmonia com o universo, as suas palavras também devem estar em harmonia com o universo. Essas palavras têm de ser uma só coisa com Kami. Em seguida, os movimentos do corpo físico e as ações têm de estar em harmonia com as palavras. Tal é o segredo a mim transmitido pelo Budo. Quando aprendi a essência do universo por meio do treinamento do Budo, descobri que, primeiro, o corpo físico e a mente precisam estar unidos por ki a fim de, juntos, associarem-se ao movimento universal.

         É graças à miraculosa função do ki que você conseguirá unificar mente e corpo, transformando depois essa união numa só coisa com os poderes do universo. Pelo correto adestramento, chegará naturalmente a compreender a verdade universal, a sua mente brilhará e o seu corpo se vivificará de saúde. Você achará possível solucionar todos os conflitos e transformar este mundo num lugar de paz completa. Entretanto, se a miraculosa função do ki for mal utilizada, corpo e mente desabarão na desordem e o universo se transformará em caos. É essencial que mantenhamos a mente, o corpo e o ki em harmonia com os ritmos do  movimento universal.

         O Aikido é o caminho da verdade. Seu treinamento destina-se a exprimir a essência da verdade a cada passo do cotidiano. É essa expressão que suscita o poder de Kami. Inútil teorizar: é preciso por em prática. O poder da verdade só se expandirá dentro do nosso corpo e mente se de fato nos exercitarmos. O Aikido unirá o corpo e a mente, por meio do ki, ao próprio universo.

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