ISSO NÃO É IMOBILIZAÇÃO

Alcino Lagares Côrtes Costa*

Há alguns dias, num supermercado no Rio de Janeiro, foi filmada uma cena grotesca: um truculento vigilante estrangulava um homem inerte (aparentemente alguém em sofrimento mental), enquanto a mãe do infeliz implorava para ele parar. Não parou. A vítima morreu. Ao ser autuado em flagrante, o agente disse que apenas aplicara uma “imobilização”.

Em geral, as organizações policiais e as empresas recomendam equilíbrio e polidez a seus profissionais _ policiais e vigilantes _ e, sobretudo, que evitem qualquer forma de violência desnecessária.

Contraditoriamente, nalgumas dessas, tais agentes são treinados com técnicas extraídas de modalidades de esportes de combate, as quais incluem _ pasme leitor! _ socos, pontapés e estrangulamentos!

Se o agente de segurança _ vigilante, ou policial _ é condicionado a estrangular e dar socos e pontapés, de que adianta recomendar-lhe civilidade e complacência em suas intervenções? Ninguém pode dar o que não tem!

Em nosso cérebro, bilhões de neurônios interligam-se, quais “caminhos”: caminhos neurais.

A cada nova percepção, estabelecemos ligações neurológicas e criamos um novo caminho neural. Nas próximas vezes que tivermos a mesma percepção, nosso cérebro reacessará aquelas ligações neurológicas e, cada vez que nossos comportamentos se repetirem, serão reforçadas as ligações neurológicas associadas e acessaremos o “caminho” com mais facilidade.

Associação é, portanto, o resultado do estabelecimento de relações neurológicas entre dois ou mais distintos atos mentais, tornando-os neurologicamente semelhantes, através de processos de condicionamento e de reforço, já ensinava Ivan Pavlov (Prêmio Nobel em 1904).

Numa carreira de 30 anos na Polícia Militar de Minas Gerais, percebi que, na maioria das ocorrências com reação física à ação policial, os autores se encontravam embriagados, drogados, ou emocionalmente descompensados. Não eram “bandidos”. Deveriam ser controlados, não abatidos.

As pesquisas levaram-me ao “Aikido” (eficaz arte marcial japonesa fundada pelo filósofo Morihei Ueshiba, 1883-1969), cujos princípios implicam proteger também o agressor e, de 1995 a 2002, na Academia de Polícia Militar, pude ministrá-lo aos cadetes _ futuros comandantes da PM _, ensejando que esses tivessem oportunidade de refletir sobre sua filosofia e treinar técnicas que possibilitam assegurar a integridade física de uma pessoa _ mesmo infratora _ a ser colocada sob custódia do Estado.

Esportes de combate aumentam a autoconfiança dos praticantes. Isso, por si só, não os recomenda para defesa pessoal de profissionais de segurança. Numa competição, um contendor “eficiente” deve “derrotar” o outro (mas, sempre na presença do árbitro e conforme as regras).

Ao invés, um agente de segurança “eficaz” deve ser protetor e jamais vingador da sociedade: imobilizar e conduzir. Nunca estrangular!

Acontecimentos como esse do vigilante não são cotidianos, mas ocorrem com alguma frequência.

Um homem foi estrangulado e morreu; mas, outras mortes podem ser evitadas.

Os dirigentes de organizações públicas e privadas são, ainda que moralmente, responsáveis pelo que seus agentes fazem. Prudentemente, devem realizar mudanças no treinamento de seus profissionais.

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*Coronel QOR e Presidente do Conselho Superior da Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais

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