HISTÓRIA E FILOSOFIA DO AIKIDO

    O Aikido, fundado no Japão na primeira metade do século passado pelo grande filósofo e mestre de várias artes marciais, Morihei Ueshiba, é uma arte marcial defensiva, uma atitude filosófica diante da violência, e uma procura de autoconhecimento físico e mental.

Como arte marcial, destina-se a proporcionar defesas de gestos agressivos em situações reais, através da harmonia proporcionada pelos movimentos circulares, distinguindo-se, consequentemente, das modalidades esportivas de combate.

Como atitude filosófica, suas técnicas (quer em treinamentos, quer em situações reais) somente se iniciam após um movimento agressivo de outrem. É, consequentemente, uma luta contra a violência e jamais uma luta violenta.

Finalmente, como procura de autoconhecimento, busca o desenvolvimento do “Ki“, a força do espírito que unifica a mente e o corpo.

Suas técnicas podem ser percebidas genericamente em três grandes grupos: Tai Jitsu (arte corporal _ a mãos livres_), Ken Jitsu (arte da espada, segundo método próprio, denominado Aikiken), e Jo Jitsu (arte do bastão, segundo método próprio, denominado Aikijo).

Originaram-se as técnicas de Aikido do Ken Jitsu (arte da espada), do Aikijitsu (fundado no século IX da Era Cristã), e de várias formas de Jiu Jitsu (que surgiram no século XVI), embora o fundador tenha estudado todas as artes marciais de seu tempo.

Literalmente, significa : “O caminho (Do) para harmonizar (Ai) a energia vital _(Ki)”, ou “ O caminho da harmonia física e espiritual”, ou simplesmente "O caminho da harmonia".

Para compreendermos como nasceu o Aikido, é necessário sintetizar a história de seu país de origem, o Japão, em quatro períodos: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, e Idade Contemporânea.

Conforme se verá, esses períodos não correspondem a seus correlatos do ocidente.

O REGIME MONÁRQUICO NA ANTIGUIDADE JAPONESA

Por Antiguidade Japonesa podemos compreender um tempo de origens imemoriais, e que se estendeu até o ano 1186 de nossa era.

A principal característica desse tempo era a plenitude de poderes do Imperador, numa monarquia centralizada.

Era grande a influência da cultura chinesa nas letras, e nas artes. No século VI fôra introduzido o budismo no Japão, e era grande a sua influência sobre o pensamento religioso e a conduta ascética do povo.

Entre os anos 710 e 794, a capital do Japão havia sido Nara, e de 794 a 1186, Heian Kyo (atual Quioto).

Teria sido ali que, no século IX, o jovem príncipe Teijun Sadazumi, 6º  filho do imperador Seiwa, fundou uma poderosa arte militar, a partir das posturas básicas da espada (Ken) e da necessidade de tirá-la das mãos de um inimigo, ou impedir que esse se apoderasse dela, além de várias formas de controle por torções e imobilizações, à qual chamou Aikijitsu, e cujos segredos somente foram revelados aos integrantes da própria família, ou àqueles diretamente ligados a ela, o clã Aizu.

No século X, tais segredos estavam sob controle de Shinra Saburo Yoshimitsu, que os treinava na Mansão Daito, ocasião em que a arte passou a ser chamada Daito Aikijitsu, ou Aikijitsu Daito Ryu.

O segundo filho de Yoshimitsu vivia em Takeda e, tendo adotado o nome da cidade, passou a chamar-se Yoshikyo Takeda.

O REGIME FEUDAL (Xogunato) NA IDADE MÉDIA JAPONESA

Em 1186, iniciou-se a Idade Média do Japão, com o Xogunato.

O Xogunato era um sistema político, com estrutura feudal, que desenvolveu uma aristocracia rural, na qual os senhores das terras (Daymio) detinham força militar, através de guerreiros (Bushi) organizados em duas castas: os que andavam a pé (Kachi), e os que compunham a cavalaria (Samurai).

Esses guerreiros abandonaram aos poucos o Budismo Mahaiana, e desenvolveram a seita budista Zen, que os libertava do medo da morte.

Não havia passado, nem futuro: somente o presente importava (Tada Ima: “Somente agora”).

Treinavam o corpo até a exaustão, fazendo-o um obediente instrumento da vontade do espírito, que era fortalecido através da postura zazen (uma posição em que o Samurai ficava sentado, com as pernas flexionadas e cruzadas: "postura de lotus"), segundo uma lógica singular: uma vez executado todo treinamento possível pelo corpo, uma técnica somente poderia ser aprimorada através do aperfeiçoamento do espírito!

Mas, os feudos iam se tornando autônomos, na medida em que declinava a autoridade real, passando o imperador a conceder o título de Xogun (Generalíssimo) ao mais poderoso dos Daymio, tendo como conseqüência o Xogunato vindo a tornar-se hereditário.

Cabia ao Xogun governar o Estado, enquanto ao imperador restava liderar espiritualmente a nação: a lógica da coerção impunha a prevalência do mais forte!

Era o Xogun todo poderoso: contava com milhares de Bushi, submetia a nobreza, e utilizava-se do regime feudal segundo sua vontade, inclusive controlando os atos e as despesas do imperador.

Durante o Xogunato Kamamura (até 1332) foi instituído o Bushido (“o caminho do guerreiro“), um código _ não necessariamente escrito _ de ética dos Samurai: em caso de falha no cumprimento do dever, um desvio do caminho, o Samurai deveria expiá-la através do Sepuku (suicídio), levado a efeito através do Hara Kiri (corte da barriga com a própria espada, para libertar o espírito), procedimento esse que foi mantido até 1868.

O Bushido consiste em dominar a virtude das armas, e aceitar resolutamente a morte” (Miyamoto Musashi-   Samurai)

O Bushido impunha quatro juramentos, a saber:

“(1 ) Nunca faltarei ao respeito com o Bushido;

(2) Serei útil ao meu senhor;

(3) Respeitarei meus pais;

(4) Irei além da alegria e da tristeza: existirei pelo bem da humanidade.”

De 1332 a 1392 (Xogunato Nambokucho) não ocorreram alterações significativas, com relação às artes marciais, e o espírito daqueles guerreiros, que se exercitavam no Ken Jitsu (arte da espada), no So Jitsu (arte da lança), e no Kiyu Jitsu (arte do arco).

No Xogunato Muromachi (1392 a 1603) porém, entre os Kachi nasceram várias formas de combates a mãos livres, e que passaram a ser chamadas de Jiu Jitsu (arte da ligeireza, ou arte da suavidade), as quais eram, no entanto, desprezadas pelos Samurai, que as consideravam indignas de sua casta.

Em 1603, o poder caiu nas mãos da família Tokugawa, iniciando-se o Xogunato Tokugawa (que foi o último Xogunato do Japão). O Japão fechou-se para o resto do mundo. A capital passou a ser Edo (atual Tóquio) onde residia o Xogun, enquanto o imperador permanecia em Quioto.

Nesse período, os Samurai passaram também a adestrar-se nas diversas formas de combates a mãos livres, e o termo Samurai teria se estendido a todos os Bushi.

Aquelas formas de lutas, porém, constituíam segredos das famílias dos Samurai, e naqueles tempos difíceis e incertos não fazia sentido ensiná-las a terceiros, potenciais inimigos do dia seguinte.

Destarte, também o Daito Aikijitsu continuou sendo mantido como segredo da família Takeda, e do clã Aizu.

A RESTAURAÇÃO Meiji, NA MODERNIDADE JAPONESA

Em 1868, os portos nipônicos foram forçados pela marinha ocidental, que impôs um tratado comercial ao Japão, e criou um ambiente favorável a uma revolução, com uso de armas de fogo, a qual extinguiu o Xogunato, e restituiu o poder ao Imperador, período esse denominado Restauração Meiji.

O Imperador Mutsu Hito, que governou até 1912, liderou a introdução da cultura e de costumes ocidentais no Japão.

Desse modo, deixaram de existir os senhores feudais (Xogun e Daymio) a serem servidos. Os Samurai perderam a razão de ser. Muitos assumiram cargos no novo governo; mas, outros tornaram-se mestres em escolas, clubes, e academias, levando ao povo os antigos segredos das artes guerreiras, as quais eram genericamente denominadas Jitsu ( Jiu Jitsu, So Jitsu, Ken Jitsu, Kyu Jitsu,etc).

Foi assim que o jovem Jigoro Kano (1863/1938) pôde ter acesso a dois estilos de Ju Jitsu (Tenshinyo Ryu, e Kito Ryu) e fundar, em 1882, na escola que chamou de Kodokan, o Judo.

Outro jovem, Morihei Ueshiba (1883/1969) pôde estudar e receber o certificado de mestre, entre 1901 e 1908, dos estilos: Tenshinyo Ryu, Kito Ryu, e Aioi Ryu de Ju Jitsu (luta a mãos livres); Yagyu Ryu ,  Shinkage Ryu, e Kashima Shin Ryu de Ken Jitsu (espada), Musso Ryu Jo Jitsu (Bastão), além de Hozoin Ryu So Jitsu (lança), Kendo (esgrima com espada de Bambu), e até mesmo o então recem fundado Judo (com o professor Kiyoichi Takaji), com os quais, porém, não se sentia realizado.

A IDADE CONTEMPORÂNEA JAPONESA

O descendente do clã Aizu, Sokaku Takeda, mudara-se para Hokkaido, onde passara a ensinar o Daito Aikijitsu (nesse tempo também já conhecido como Jujutsu Daito Ryu).

Em 1915, Ueshiba conheceu Takeda, e iniciou com ele o treinamento.

Durante o ano de 1916, Ueshiba manteve o mestre Takeda em sua residência, construiu para ele uma casa, e pagou-lhe de 300 a 500 Yen (150 a 250 US$) para cada nova técnica que aprendia.

Em 1916, recebeu o certificado de mestre de Aikijitsu (ocasião em que Takeda ter-lhe-ía devolvido todo o dinheiro que pagara)!

Em 1920, passou a ministrar, em Ayabe, seus conhecimentos em Dojo próprio, com apenas 18 tatami, sob o nome Ueshiba Juku e, em 1922, sob a denominação de Aikibujitsu ( mas, as pessoas referiam-se a esse budo como Ueshiba Ryu Aikibujitsu).

Em 1924, ao retornar  de uma expedição na Mongólia, foi desafiado por um oficial da Marinha, para um combate, estando este armado de espada. A mãos livres, Ueshiba enfrentou aquele espadachim, evitando, com movimentos circulares, todos os seus ataques, até que o agressor rendeu-se exausto.

Ueshiba conheceu, naquela oportunidade, o sumi kiri (a iluminação da mente e do corpo, pela unificação do ki individual e o ki universal): ao sair do Dojo, sentiu-se envolvido por uma imensa luz dourada e parte da própria natureza, compreendendo-a portanto a partir de uma visão de seu interior, logo devendo dedicar-se à sua proteção como um todo, e dos seres humanos especialmente.

Foi este o marco do desenvolvimento espiritual de seu budo, que o levou à seguinte reflexão:

o verdadeiro budo é o caminho da grande harmonia e do grande amor por todos os seres.

Em 1930, Ueshiba recebeu a ilustre e honrosa visita de Jigoro Kano (fundador do Judo), que, após assistir a uma demonstração, declarou ser aquele o budo ideal.

Em 1936, o fundador concluiu ser necessário mudar a denominação de sua arte, visando acentuar a clara diferença entre ela e as antigas artes marciais, considerando a essência filosófica daquela. Suprimiu, então, o termo bujitsu, e deu-lhe o nome Kobukan Aiki Budo.

Finalmente, em Fevereiro de 1942, denominou  a arte que fundara, em caráter definitivo, como forma original e distinta de budo, como Aikido.

Assim definiu Ueshiba o Aikido:

O Aikido não é uma técnica para lutar contra um inimigo ou derrotá-lo. É uma maneira de conciliar as diferenças que existem no mundo e fazer dos seres humanos uma família. Isto quer dizer que o segredo do Aikido é a busca da harmonia com o universo, é tornar-nos unos com o universo. Seus praticantes devem buscar esse entendimento por meio do treinamento diário.

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