Introdução

Encontrei nos arquivos digitais coisas que escrevi nos últimos dez anos. Essas “coisas” que estiveram mofando em gavetas binárias, hoje exponho aos que têm tempo e suficiente amor ao diletantismo. Já que está decidido agora só me resta sair por ai constrangendo minhas vítimas de afeto a lê-las. A escolha do título faz silêncio, mas eu canto reflete um pouco como me sinto vivendo um tempo em que as coisas se mostram tão iguais...


Esse texto eu escrevi para o blog de meu amigo Otávio Segala... Essa é a capa do seu disco Mokambo.

Do que é feito o artista?

     Do que é feito o artista? Em todos nós repercute os tambores da arte, o que não nos torna artistas. Artista é aquele que rói o pão duro da sua essência. Nele, por vezes, grita a vontade de ser outra coisa: algo que doa menos, que trepide menos, que lhe adormente os sentidos, que, indômitos, sugam da humanidade suas mais íntimas necessidades. O artista é o olho d’água das nossas humanidades. Sua testa lateja enquanto nossa barriga ronca. Do que é feito o artista? Talvez ele seja a partícula ativa do Big Bang primordial; nós, apenas o gado pastando na savana. No entanto, arrisco dizer, o artista é o pêlo que se arrepia no cangote da humanidade, respondendo aos avisos emitidos dos nossos incomensuráveis átomos, navegando em minúsculas galáxias. Escrevo isso pensando em Otavio Segala, o artista que é feito do que o artista é. Fremem em suas veias tambores brasileiros. Do vento que lhe chega à Boca em seu Monte, sopram flautas pampeanas. Da caixa de madeira, com cabelos fios de náilon, desce todo um povo, com suas baterias, suas alas fantásticas de passistas, baianas, velhas guardas e alegorias. É a concentração de tempos da nossa música dando um salto de qualidade: donde a pedra caiu, seus círculos se expandem em ondas de força e harmonia... A bênção, Mestre Segala!   

Giovanni Mesquita

Porto Alegre, março de 2007.

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Alexandre Florez
Essa música exprime a poesia do caudaloso Rio Jacuí.

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Nosso Senhor Antônio Carlos Brasileiro Jobim


Tom por Pansica

Sasha Cavalcante é músico e jornalista. Ele escreveu, não me lembro onde, acho que no Vaia, um texto onde ele faz a bondade de colocar Tom a lado de dois músicos estadunidenses. Na sua opinião, eles foram, no XX,  os melhores músicos populares do mundo. O texto é bom, mas, me irritou um pouco por isso mandei uma mensagem eletrônica para o cajo que nunca me respondeu. Achei o escrito e coloco aqui esse texto perdidos nos meus alfarrábios 01001000100110001.

28-05-2011

 Oi, Sasha Cavalcante!

 

Quero começar dizendo que achei de grande importância seu artigo "Um certo senhor Jobim”. Começo por aí porque vou fazer umas críticas; você afirma que “Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim se tornou, juntamente com Cole Porter e George Gershwim, um dos três maiores compositores de música popular do século XX”. Acho essa declaração um tanto voltada para os EUA, explico: o Pelé nunca foi escolhido o melhor jogador do ano, como Ronaldinho por exemplo, por que? Porque nunca jogou na Europa. No mesmo sentido cabotino os estadunidenses nos convenceram que o seu universo musical, os EUA, é o universo da música. E se Tom nunca tivesse ido para lá? Sera que colocarias ele em sua lista. Parece que ele só entrou ai depois de ser ungido na sacristia da "Metrópole".  Acho que nós músicos de profissão ou de coração devemos nos libertar desse monopólio da cultura mundial. Não estou dizendo que está proibido admirar músicos estadunidenses, como os dois citados, o que estou dizendo é que para fazer afirmação que fizeste haveria necessidade considerar um universo maior de músico. Por exemplo, os compositores populares de Cuba, Argentina, Chile, México... conhecemos estes? Ataualpa Yupanqui, Violeta Parra... bem esses são folcloristas? Tudo bem! E que tu me diz de Pixinguinha, ERNESTO NAZARETHA lista  é interminável. Quanto à honra de Tom ter gravado com Frank Sinatra. De quem foi a honra? Eu realmente acho que o nosso país esta atrás de vários países numa série de coisas. Entretanto, em futebol e música nós damos de relho.

    Tua homenagem a Jobim é correta e merecida, mas neste ano teremos que voltar nossas atenções para Radamés Gnattali, visto os 100 anos de seu nascimento. Eu também fico triste e ver o Brasil esquecer seus gênios e estou particularmente envergonhado em ver que nós gaúchos ignoramos a obra de Radamés enquanto todos os grandes músicos vivos fazem loas ao nosso conterrâneo. Jards Macalé em entrevista no Conversa de Botequim deixou bem claro: Tom se considerava discípulo de Radamés. Achei a declaração um exagero. Fui pesquisar e descobri que quem diz isso não é o Jards é o próprio Tom.



Radamés que nasceu no Bom Fim, Porto Alegre

            Desculpe o tom excessivamente intransigente é de minha natureza. Teu artigo me instigou. Todos os pontos que não critiquei é porque gostei ou seja a maioria do texto. Gostei também dos que critiquei...

Sem mais,

Abraços 

Giovanni Mesquita  

Compositor e Chato de plantão

 

O conto do Descobrimento

ENSAIO 1

Os quarenta dias de calor próximos a linha do equador eram grudentos. O duro linho das camisas causavam coceiras lancinantes e, mesmo que as unhas viessem com sangue do pescoço, elas não passavam. Ao contrário, o suor escorria pelas fissuras da pele enlouquecendo a todos no convés.  Bebiam só vinho para fugir à pauta imensa de tormentos. A água salobra com gosto de podre, o calor, o fedor de vômito dos grumetes de primeira viagem. A coceira, e principalmente, a certeza de que alguma desgraça não os permitiriam  voltar a sua terra

Era um dia como outros no convés liso do navio, que não permitia sombras, só o queimar do sol e o jogar constante das ondas embalando a rotina. Foi com estranheza de embriaguez que os homens ouviram uma voz celeste. Se ela não tivesse um timbre tão fuleiro, colocaria a todos de joelhos a pedir absolvição dos pecados. Trocaram olhares perguntativos, mas, ao repetir da voz etérea, todos lembraram da gávea, um ninho de madeira no mastro principal, onde sempre havia um coitado sofrendo dobrado em incômoda posição. Quase sempre um miúdo grumete com olhos ainda não danificados pelo brilho do espelho marinho, banhado pelos raios do narciso mor. Mais uma vez, o menino esquelético berrou de seu tonel: “terra à vista”. E então chegou até o descobridor o alarido vindo de baixo, carregando seus olhos para lá. A correria frenética lhe trazia a louca lembrança das brincadeiras com seus amigos, quando destruíam morrinhos de formigas e viam-nas em correrias sem destino. Lá estavam formigas no convés sob a cera quente de suas palavras.

Chegamos - pensou o comandante. Pegou sua capa,  a luneta e saiu de sua cabine. Por um estreito corredor, subiu uma escada de madeira. Rompeu no tombadilho e sentiu a dor nos olhos, sua conhecida, que dessa vez o pegou de surpresa. Será que isso é algum tipo de expectativa? - pensou consigo - quero só tomar posse desse pedaço de nada e seguir o rumo do que interessa. Contemplava a areia branca onde as ondas iam parar. Mais adiante, uma densa mata de um verde distinto. Á direita, como á esquerda, numa simetria curiosa, duas mãos de rio se molhavam no mar. Bem, pelo menos tem água doce - desdenhou intimamente. Entretanto,  algo lhe apertava o estômago - Aquele bacalhau! Eu disse ao Pero... Engraçado, Pero é pena em espanhol... Balançou a cabeça para recompor a sobriedade.  Ou será essa terra inútil não tocada pela mão de um cristão? Ela é tão…- vasculhou mentalmente seu vocabulário de cortesão e o que lhe saiu fugido pelos lábios soou a seus ouvidos como uma blasfêmia - ...bela.

 

 

II

Itapeví já vira demais, onça prá três guerreiros carregarem, tatú do tamanho de anta, Sucuri tão grande de se perder no trilho entre as árvores, mas canoa tão grande e parecendo uma casca de castanha e com largas folhas na cor de leite pendurada em troncos nús aquilo só de ouvir falar. Nas noites de lua que clareava o terreiro da aldeia e ninguém sentia vontade de dormir na beira do fogo os mais velhos haviam falado dessas grandes troncos. Mas ele não conseguia atinar como aquilo podia ficar sobre as águas principalmente do grande rio. O grande rio sempre empurrava com suas mãos de espuma tudo para o fundo e depois vomitava na praia. Itapeví estava ali olhando o mar e aquele pedaço grande de árvore insistia em não sair do lugar.

Itapevi sabia que aquilo mudava tudo. Ele compreendia que tudo era feito de mudança, que todo o tempo as coisas se transformavam. Entretanto ele conseguia ver o fio de continuidade nas coisas transformada. Mas, aquilo nunca estivera ali, não estava de acordo com a vida das pessoas em nem um estágio. Não era igual a pessoa onças, ou a pessoal tartaruga, ou a pessoas pedra. De onde viera aquilo? O dia clareara pegando Itapevi prisioneiro destes pensamentos. Da grande pedra onde estava e observava o objeto que se comportava de maneira estranha e que havia vindo do ponto em que o céu encontra-se com o grande rio. Foi trazido ao mundo com a impressão que vira sair da grande árvore pequenas manchas. O primeiro sol da manhã brilhava por detrás das pequenas forma que se despregavam da primeira como uma cobra que põe ovos. Mas, em breve Itapevi começou a entender algo. O que vinha para a praia eram canoas. Dentro delas movia-se pessoas.não pessoas comum mais pessoas com pele que refletia o sol. Itapevi  já vira coisa demais, mas aquilo Itapevi nunca tinha visto.

                                                                                                                                                        Giovanni Mesquita

                                                                                                                                                                Postado no dia 29-05-2011

    Essa música de Antônio Nóbrega, Chegança, expressa a mesma ideia que a do Conto do descobrimento e foi a música da minha formatura.

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O Grilhão da Ideologia

 

            Por 388 anos a escravidão foi parte do cotidiano do povo brasileiro – a escravidão indígena e principalmente a negra. É como se em 24h de um dia vivêssemos 19h de escravidão.

            Escrever sobre o assunto é muito difícil, pois envolve não só o passado: a discriminação ainda é uma constante. Essa herança de nossos antepassados serve a todo tipo de exploração social, assim como a discriminação sobre a mulher. Sempre que um tema histórico encontra-se tão vivo por suas conseqüências presentes, mais complicado é discuti-lo e, sem dúvida, mais essencial. Um tema que dói na carne deixa as pessoas propícias a achar que qualquer opinião que escape ao mantra politicamente correto cheira a reacionarismo. Mas quem não se arrisca, não faz história.

A “imparcialidade científica” é muito mais do que um mito. Na realidade trata-se de uma falácia, de um ardil de controle ideológico. Parece claro que os historiadores comprometidos com as elites procuram suavizar e/ou justificar a escravidão como necessária para o processo de desenvolvimento do continente americano. Como denuncia Maestri em A Servidão Negra:

 

A escravidão é o calcanhar de Aquiles da historiografia nacional-burquesa norte-americana.

(...) O quase total controle ideológico do mundo acadêmico, os imensos recursos técnicos e financeiros postos à disposição das ciências sociais (...) permitiram não desprezíveis resultados a esta operação ideológica (p.08).

 

A metástase desse controle estadunidense se fez sentir em toda América Latina. No Brasil tem fórum privilegiado nos meios pós-modernos da nossa historiografia.

            A atuação conservadora reflete e, ao mesmo tempo, é refletida na postura dos teóricos “progressistas” brasileiros que, por sua vez, na refrega política, se olvidam da imensa complexidade e diversidade que a realidade histórica impõe ao tema. Se é fato que a escravidão é a forma de exploração de trabalho mais abjeta produzida pelo homem, não é menos fato que o principal meio de controle das massas escravizadas não era o açoite ou os grilhões e sim o controle ideológico e o desterro. O escravista compreendia muito bem a importância do mecanismo de coerção ideológica, os laços familiares, a utilização das rivalidades tribais, dos estranhamentos étnicos, da falta de consciência antiescravista da maioria escravizada. Não raro um escravizado que conquistava sua liberdade, logo que possível, adquiria o seu próprio escravizado de ganho. Um dos principais artífices da destruição de Palmares foi o Quinto de Henrique Dias que era composto de vários negros, sendo ele mesmo, Henrique Dias, negro. O açoite, o grilhão é reservado para a minoria rebelde, para os fujões inveterados, para os indolentes.

Como de resto é em qualquer sociedade. Nenhum poder se mantém pelo simples uso da força e do terror, mecanismos vitais em qualquer sociedade de classes. A principal forma de opressão sempre é a ideológica, que cria um consenso social poderoso e difícil de destruir. Esse controle é tão presente, que se torna invisível. O único organismo produzido pelos trabalhadores escravizados que fez frente ao escravismo foi o quilombo. Nem sempre esses organismos ofereceram perigo de fato aos escravistas, mas eram, em si, a mais poderosa arma antiescravista e anticolonialista. O grande exemplo, sem dúvida, foi Palmares, sendo, por muitas décadas o cutelo negro sobre o pescoço escravista.


            Daí duas conclusões: primeira, o trivial não era o uso do pelourinho e dos ferros, mas a submissão de classe; segunda, a principal arma antiescravista não era a identidade de cor e sim a consciência, a fuga e o quilombo.

            Gilberto Freire (em Casa Grande e Senzala) diz que os portugueses buscaram a miscigenação não apenas por lascívia, mas principalmente para constituir um segmento intermediário entre eles e os escravizados. Os índios catequizados e os negros forros faziam parte desse importante segmento de controle social. A experiência haitiana de expulsão dos franceses e de criação de uma república negra deixou clara a importância dessa camada intermediária. Nesse ponto os portugueses se mostraram grandes mestres na arte da dominação.

            Os primeiros estudos sobre escravizados, mais especificamente os de engenho de açúcar, geraram essa imagem de controle absoluto que foi passado erroneamente como regra geral do escravismo no Brasil. Com o estudo sobre os negros nas cidades, essa visão começa a vazar. Mesmo admitindo que os trabalhadores escravizados iam e vinham perambulando pelas ruas das cidades brasileiras, muitos historiadores vacilam na hora da conclusão, talvez por temor de parecerem reabilitadores da escravidão.

            Mas, se o principal controle era o ideológico, por que se diz que nos engenhos o controle era absoluto? Como pode?

Bem, em qualquer sociedade, as rotinas laborais são determinadas pelas características especificas do trabalho a ser realizado. Os engenhos, como as charqueadas ou minas eram indústrias capitalistas na forma de organização de suas atividades, a divisão do trabalho, a produção intensiva e extensiva e o controle do ritmo desse trabalho. O engenho era um complexo industrial rural, onde se plantava, transportava e moía a cana, produzia e embalava o açúcar. A charqueada recebia das estâncias a matéria prima – o gado – e todo resto do processo era feito naquele espaço, obedecendo aos mecanismos do trabalho dividido e organizado. Nesses dois casos o controle absoluto não era um produto da mente sádica do feitor e sim uma necessidade do tipo de produção de ambas as mercadorias. Em geral, nos sistemas capitalistas típicos, esse controle do ritmo de produção é feito através da constante ameaça do desemprego. O exército de reserva serve principalmente para dois fins: como mecanismo de pressão para manter o ritmo da produção e como maneira de desvalorização da mercadoria “trabalho”. Como no escravismo não há desemprego, os métodos de coerção para manter ritmos de produtividade eram as ameaças e o açoite.

Já nas cidades, o predomínio da mão de obra escravizada era a de ganho. O pequeno burguês conservava com zelo a tradição da vagabundagem herdada da nobreza européia. Os bons católico consideravam qualquer esforço físico, no sentido de trabalho, como uma indignidade que ameaçava seu status social. Maestri conta que um cidadão branco não podia ser visto carregando pacotes. Havia negros para isso. O que me lembra a canção A Banca do Distinto, de Billy Blanco:

 

Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho
(...)

           

Cada cristão desses, tendo algum recurso, possuía cinco ou seis cativos. Eles saíam de manhã pelas ruas da cidade à procura de trabalhos. No fim do dia, levavam “o ganho” para o seu Senhor. Uma espécie de gigolagem “distinta”.

                                                                                                                                                                                   Giovanni Mesquita

Bibliografia:

SANHUDO, Ary Veiga. Porto Alegre. Crônicas de Minha Cidade. Vol.1. Porto Alegre: Sulina, 1961.

Maestri, Mário. (1988) A servidão negra. Porto Alegre: Mercado Aberto.

SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). Belo Horizonte, Ed. Da Universidade de São Paulo e Itatiaia Ed., 1974.

Novembro de 2011

A escravidão não era, como diz o texto acima, uma perversão individual ou um ato ilícito tudo era previsto em lei e abençoado pela Igreja. No texto abaixo veremos um trabalho baseado em, entre outro, processos policiais. Nesse caso um dos envolvidos no caso é personagem conhecido entre os heróis da elite gaúcha.

 

“O primeiro auto de corpo de delito em Rosalina feito pelos doutores Inácio Manuel Rodrigues e Raimundo Cateano da Cunha encontrou inúmeras marcas de ferimentos que justificavam a pronúncia Criminal. Segundo eles, ela apresentava equimoses nas costas, coxas, braços e principalmente na nádega esquerda, “bastante escoriada e sua maior parte com arrancamento da epiderme, em estado de supuração e queimada no 2º grau em toda a extensão, a nádega direita equimoseada em diferentes pontos”” trecho do livro “Os cativos e os homens de bens” Paulo Roberto Staudt

O ponto que nos interessa é que Rosalina era uma escravizada pertencente a Gaspar Silveira Martins. Os maus tratos foram atribuídos a mulher de Gaspar. Rosalina tinha 17 anos...

Apresentação de “País Tenente”

Fiz esse texto respondendo a um artigo que li no Jornal (se é que pode ser chamado assim) Zero Hora. Aproveitei um trabalho que havia feito para a universidade e coloquei outras coisas. Ele é a base da minha análise de um filme chamado "País tenente". Esse filme tem como protagonista um velho General que servindo a ditadura e a interesses de grupos privados lembra de seu passado. Ele era um dos comandantes da épica Coluna Prestes. Ele e vários companheiros fizeram parte da história do país até pelo menos a década de oitenta.


 

O País dos Tenente


Em 1999 o jornal Zero Hora editou uma série de artigos sobre o movimento tenentista que me deixou indignado. A jornalista Eliane Brun, apresentando cartas e documentos denunciava os soldados e comandantes da coluna Prestes por desmando à população civil, rotulado-os de bandidos, assassinos…

     Afinal por que ficar indignado com as “denúncias” da jornalista Eliane Brun? Não conheci nenhum dos ““ tenentes”” são apenas personagens de uma outra época, de um outro Brasil. O fato é que esses artigos me fizeram pensar sobre o assunto. Um bom entendimento do processo histórico exige de nós um distanciamento, emocional e moral do objeto que estudamos, para que  esses elementos, subjetivos, não embaciem nossa avaliação. O desligamento do subjetivo por completo, entretanto, me parece uma impossibilidade. Por mais anacrônicos que sejam nossos sentimentos em relação a determinados fatos eles sempre estão presentes. Acostumei-me, antes de fazer o curso, de história na UFRGS, a ver o movimento Tenentista sob um prisma heróico, de gestos arrebatados de amor ao País. Quantos de nós marcharíamos para a morte certa como os jovens soldados do Forte de Copacabana? Quantos de nós trilharíamos 25000 Kilômetros à cavalo por  caminhos tortuosos e enfrentando inimigos impiedosos por um objetivo, seja qual for, de mudança social no País? Pois, apesar de hoje compreender que o movimento Tenentista possuía uma série de contradições, que era elitista, autoritário e confuso, mesmo assim quando olho para nós nessa conjuntura de dilapidação do patrimônio público, desemprego estrutural, concentração brutal de renda, luta aberta da burguesia contra a Reforma Agrária…. Bem, quando olho tudo isso, penso nos “tenentes” e sinto inveja de sua disposição, de sua vontade de ferro e de sua consciência que algo precisava ser feito. E me envergonho das “denúncias”. As críticas da jornalista refletem, além de uma repulsa a quem tenta mudar o sistema, um erro cometido por nós, os historiadores, quando transformamos o movimento tenentista num conto de fadas cheio de herói e bandidos. Eu diria, se já erramos no passado em transformar Prestes e seus soldados em cavaleiros encantados de armadura rutilante salvando o país, agora cabe a nós não torna-los facínoras ou patéticos. Vejamo-los como foram, brasileiros que lutaram, mataram e morreram pelo que acreditavam. Eu os respeito.

     O texto acima, com algumas modificações, é um recorte que escrevi para um trabalho universitário e reproduzo aqui por achar que ele esclarece meus sentimentos em relação aos brasileiros que estavam envolvidos nesse nosso passado épico. Compôs a música País Tenente  no período de minhas leituras autodidatas sobre o movimento tenentista, em especial da Coluna Preste. Foi espirado pelo fervor, pela força e obstinação apresentadas por esses moços, eram na maioria jovens com menos de 30 anos, e especial por Siqueira Campos que era todo coragem e determinação. Hoje retomo esse trabalho com o apoio e parceria de Washington Goulart que trabalhou brilhante e arduamente para colocar na minha singela homenagem um manto épico que nossos heróis merecem, ao contrario do texto cientifico no texto poético não existe razão para reprimirmos nossos sentimentos. Washington Goulart colocou ritmos, arranjos e adaptou harmonias que elevaram a canção a um nível que nos orgulha e por isso gostaríamos te compartilha-la com todos.

 

 

O MOVIMENTO TENENTISTA

 O evento que ficou conhecido como Movimento Tenentista agitou o cenário da política brasileira no período de 1922 a 1935. Apesar do movimento se esgotar politicamente em 1935 suas principais liderança permaneceram ativas nas mais variadas posições políticas da história nacional. O movimento que começou numa querela sobre a sucessão presidencial em 1922 degringolou rapidamente. O marechal Hermes da Fonseca, chefe da oposição militar a Epitácio Pessoa, se manifesta contra a escolha de Artur Bernardes como novo presidente no sistema de eleição com cartas marcada. Em 1922 Hermes protesta contra a intervenção federal em Pernambuco onde sua posição política é forte. A 03 de julho é preso a 05 do mesmo mês estoura a revolta, os jovens “tenentes” bem mais afoitos que a alta oficialidade resolvem dar um basta nos “desmandos” da camarilha civil no governo. Rebelam-se O Forte de Copacabana, Escola Militar do Realengo, O Primeiro Batalhão de Engenharia… As conseqüências dessa sedição talvez não pudessem ser previstas por ninguém naquele momento. Abriu-se a caixa de Pandora todas as insatisfações das gerações das famílias oligárquicas empobrecidas vieram á tona. A truculência autoritária do governo das oligarquias centrais colocou mais lenha na fogueira. O período aberto em 22 termina com a vitória do Movimento de trinta, que foi a aliança da jovem oficialidade revoltada com setores das oligarquias regionais há muito alijadas do poder. A débil plataforma política, contra a corrupção e os desrespeitos com o exército, que uniu os “tenentes” no período de luta pelo poder não foi suficiente para impedir sua cisão quando no poder no pós-trinta. A fragmentação, que começou a surgir com a polêmica do apoio ou não ao Movimento de Trinta, acabou com o Tenentismo em 35. O esfacelamento do Movimento Tenentista e a posterior adesão de seus quadros aos mais diversos campos ideológicos da sociedade é mais um sinal da tremenda confusão política que havia entre eles.

 

 

Antônio de Siqueira Campos nasceu em Rio Claro (SP), em 1898.

Militar, concluiu o curso da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, em 1918. Foi um dos líderes, em julho de 1922, da revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, contra o governo federal. Nessa ocasião, foi gravemente ferido.

Em 1924 sublevou uma guarnição do Exército em São Borja (RS). Em seguida, juntou-se a Luís Carlos Prestes que insurgiu a tropa sob o seu comando, no mesmo período, 1º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo. em abril de 1925, surgiu a Coluna Prestes, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil em campanha contra o governo de Artur Bernardes. A Coluna dividia-se em quatro destacamentos, cabendo a Siqueira Campos o comando de um deles.

Em fevereiro de 1927, após quase dois anos de marcha, os revolucionários resolveram interromper a luta armada e se internaram em território boliviano.

Morreu em maio de 1930 quando retornava ao Brasil para juntar-se a Vargas no movimento de 30. o avião em que retornava ao Brasil caiu nas águas do rio da Prata

 

Porto Alegre 06/06/2003

Homenagem a Siqueira e aos membros da Coluna Prestes

Minha admiração pela geração dos tenentes, e por Siqueira Campos em expecifico, me levou a compor uma música chamada "País Tenente". Fiz letra e música. O músico uruguaio Washington Gularte interessou-se pela música e fez um arranjo para ela mudando um pouco também a parte melódica. A composição é de 1997 um ano depois conheci Prestes pessoalmente por acasião das festividade do seu aniversário de noventa anos que ele comemorou aqui em Porto alegre.


País Tenente

 

Washington Gularte/Giovanni Mesquita


 

Enxugando o sangue

Na areia branca

De Copacabana

Vendo um céu à paisana

Um céu tão civil

 

Deitaram-se os 18 combatentes

E adormeceram contentes

Sonhando um país diferente

O sangue quente

Consagrou o tempo

Em que o Brasil

Se vestiu de tenente

 

Vai, soldado,

Não esquece

Daquela flanela

Cravada em tua lapela

Retirada da bandeira

 

Cruzaste terras e fronteiras

Encurralando o inimigo

Nestas terras brasileiras

 

 

 

Teu comandante

Um jovem disposto

De tristeza marcada

A ferro no rosto

 

Teu comandante ainda se mexe

Teu comandante Luís Carlos Prestes

 

Tu, valente guerreiro,

Quase mártir no Rio de Janeiro

Como um vento cruzando

O Triângulo Mineiro

Te internaste no Paraguai

 

Siqueira, jovem obelisco,

Tua força só é comparada

Com a do Rio São Francisco


 


Zé da Terreira, dosmeus confirmado



    Zézão? Cara bacana, papa areia... de Rio Grande ele. Visse no carnaval? Chegou ele, lá. Surdão, sandália, bermuda cheio de teatralidade. Cantor popular, sonoridade tipo anos quarenta, meio opereta sabe? Mas, cheio de jinga. O que? Não, passa a mão na barba, não sei se nasceu no Cedro... Mas devia. Grande fulano! Como vai? Tudo certinho. Olha o Zezão ai gente, “disseram que ele não vinha, olha ele ai”.

            Sonhei com o Zé essa noite, acordei de madrugada e resolvi escrever. Sonhei que ele resolveu me ensinar a pintar. Tava lá eu, já dando minhas primeiras pinceladas, numa bela flor (espécie que nunca vi) amarela com umas nesgas vermelhas e de farta cabeleira. Chega o Mestre, legal, gostei mas, tem que arrumar o traço...vou arranjar umas tintas pra ti, um azul, olha em roda vê um azul, não, coloca os óculos, não, tem que ser mais claro. Sei lá o que isso significa, nunca vi o Zé pintar. Mas, era ele. O amigo, solidário, o artista popular cheio de seriedade e delicadeza.

            Eu via o Zé subindo a Borges, com o resto da Tribo, seu inseparável surdão. Lá nos anos oitenta. Era um bando de peles vermelha sempre prontos para escalpelar alguém do governo. Artistas de rua, com aquele negócio de se misturar com o povão. “O artista tem que ganhar a grana dele, viver na boa, mas tem que ir pra rua levar aquela mensagem pro povo, incomodar os poderosos da política, botar a mão na moleira deles”. 

            O Zé é uma charanga inteira um universo em extinção ou talvez um planeta singular. Nós, outros, nos parecemos com esse, com aquele já o Zé se parece com o Zé. Ele diz que é atriz e trabalhou no Hair. O Zé é artista! Parece que todo mundo já foi alguma coisa antes, depois ou junto, mas o Zé vive eternamente atracado no cais da sua arte. Tu queres ver que ele vai tirar a roupa e deitar no chão, dizia Clarice, o que maldade com Zézão... No meio do show - Eu não te disse? E solta a gargalhada de Clarice. Fiquei pensado por que será que o Zé tem essa mania (tara?) de se deitar no chão e tirar a roupa? E a luz se fez! Claro não é o palco sua casa? E não é o povo a sua amada? Então é claro que ele vai querer deitar e se desnudar, pois o show é a hora do sexo. E ele se deleita nas performances e goza nos aplausos. Se não fossem esses vícios mundanos, que acometem todos nós, comer, beber, morar o Zé não precisaria de mais nada.

O que? (sílaba por sílaba) Tu nã o co nhe ces o Zé da Ter rei ra?!

veja o Zé.

Vídeo do YouTube




Giovanni Mesquita

Manhã 23/10/2007

Carta mandada  à alguém que nunca respondeu

Comentário para “Mineira” cantado por João Nogueira

 

Devolvo-lhe a cortesia convidando-o para ver esse vídeo. Nele o Clube do Samba chora a morte de uma das maiores cantoras brasileiras desde sempre Clara Nunes. Nele João Nogueira, provavelmente o maior interprete de samba de todos os tempos, canta “Mineira” dele e de Paulo Cezar Pinheiro, viúvo de Clara. Aqui vemos os sambistas saudar com samba seus sambistaS. É uma grande carga humana como a despedida a Afonsina ou a La Negra.

Abraços

Giovanni Mesquita

 

João Nogueira canta “Mineira” no clube do samba após a morte de Clara,com Luciana Rabello o irmão dela no violão e mais um pessoal da pesada. quem faz a introdução é Bibi Ferreira.

É a nossa tradição, nosso legado é o que temos que repassar. O compromisso é muito...

Mineira de Paulo Cesar Pinheiro por João Nogueira