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Capítulo 1: Despertar

O despertador tocava insistentemente. De todas as desvantagens de seu trabalho, aquela era a pior. Draco Malfoy detestava acordar cedo. Sempre associara isso aos pobres mortais. Um Malfoy não precisa acordar cedo, porque não precisa trabalhar para viver. Pode simplesmente dormir e dormir e dormir que, quando finalmente resolve que está com vontade de levantar, os elfos domésticos estão com tudo pronto - comida, roupas, banho - esperando. Infelizmente, contudo, para Draco Malfoy aquele não era mais o caso.

Contrariado, ele abriu os olhos e sentou-se na cama, colocando os pés no chão. Imediatamente, o despertador se calou. Era enfeitiçado para ficar quieto assim que seu dono estivesse desperto e com os pés para fora da cama. Se Draco voltasse a deitar, entretanto, ele voltaria a gritar. Tendo tido experiências ruins suficientes com isso no passado, Malfoy não arriscou. Apenas desfez-se das cobertas e saiu do quarto para o banheiro.

Primeiro, ligou a água para deixá-la esquentar enquanto lavava o rosto e escovava os dentes. Depois, tirou a roupa mecanicamente e colocou-se embaixo do chuveiro, deixando o banho terminar de acordá-lo. Todas as suas manhãs eram mais ou menos a mesma coisa. Levou aproximadamente quinze minutos debaixo da ducha. Quando terminou, enxugou-se bem. Odiava sair do banho ainda pingando pela casa. Enrolou a toalha ao redor da cintura, fez a barba em frente ao espelho e voltou para o quarto, abrindo o armário. A roupa que deveria usar já estava separada, impecável, num cabide. Draco, então, tirou a toalha e vestiu primeiro a cueca, depois abotoou a blusa cinza de manga comprida. Colocou a calça preta e, por fim, pôs a gravata, que também era cinza, mas mais escura do que a camisa, ao redor do pescoço e fez o nó com mãos hábeis. Estava acostumado com aquilo.

Dobrou as mangas da camisa até o meio do antebraço e voltou ao banheiro. Penteou cuidadosamente os cabelos para trás. Quando eles secassem, acabariam inevitavelmente por cair um pouco para frente, mas, por enquanto, estavam impecáveis. Certificando-se de que tudo estava certo, Draco voltou para o quarto e pegou no armário o paletó do terno e as suas vestes pretas. Não arrumou a cama. Para quê faria isso, na realidade? Não, desse jeito, quando ele voltasse à noite, já encontraria tudo pronto.

Deixando o paletó e as vestes penduradas na pequena sala do apartamento, entrou na cozinha e acendeu o fogão. Pegou a frigideira, derramou um pouco de óleo nela e, depois, quebrou dois ovos e os despejou sobre o óleo. Com um garfo, mexeu os ovos para que eles não ficassem inteiros e, colocando a frigideira no forno, enfeitiçou-a para virar sozinha e não deixar seu conteúdo grudar. Isso feito, pegou um pouco de água na geladeira e a colocou para ferver numa chaleira. Checou o relógio e, em seguida, abriu a janela da cozinha. Precisamente na hora certa, uma coruja parda pousou no parapeito. Draco retirou o exemplar d'O Profeta Diário das suas patas e colocou algumas moedas na pequena bolsinha que ela carregava. Automaticamente, a coruja levantou vôo, deixando Malfoy de novo sozinho na cozinha.

Ele sentou-se, então, na mesa que ficava ao lado da geladeira e abriu o jornal. Era imprescindível que se mantivesse a par de tudo o que acontecia no mundo mágico.

Passando os olhos rapidamente pelas notícias principais, mal pôde conter um suspiro cansado. Não havia nada de realmente novo ali: os duendes do Gringotts pressionavam o Ministério para aumentar as taxas de juros, uma nova poção do sono fora descoberta na França e Harry Potter, o Menino-Que-Sobreviveu-Várias-Vezes jogaria mais uma Copa do Mundo de Quadribol pela Inglaterra. Isso quase fazia com que Draco desejasse ter nascido na Irlanda.

Descartando a sessão de esportes, Malfoy abriu o jornal e se preparou para ler mais profundamente as notícias quando foi subitamente interrompido pelo toque estridente do telefone. Xingou mentalmente o aparelho. Detestava aquela coisa e só a utilizava por pura necessidade. Era outra desvantagem do seu trabalho.

Levantou-se ainda extremamente contrariado - também não suportava ser interrompido durante a leitura matutina do jornal - e foi para a sala atender a ligação.

- Malfoy - ele falou assim que pegou o fone, a título de identificação.

- Malfoy, eu sei que é você. Estou ligando para a sua casa, não estou? - perguntou a voz conhecida do outro lado - Que outro homem poderia atender?

- O que você quer? - perguntou de mau humor.

- Isso é jeito de tratar o seu informante?

- O que você quer? - ele repetiu ignorando o último comentário.

- Tenho algo para você.

- O quê? Até agora eu não vi nada de interessante no jornal.

- Mas essa notícia ainda não foi publicada pelo Profeta. Nem os aurores sabem.

- Você não vai me fazer perder meu tempo, vai?

- Tem a ver com a Gina, Malfoy. Eu brincaria com isso? - o outro respondeu sério. Draco demorou alguns segundos para falar de novo.

- Nos encontramos para o almoço. Meio-dia no local de sempre.

- Okay. Até mais - o outro concluiu e desligou em seguida, sem esperar por uma resposta. Draco colocou o fone de volta na base e demorou alguns instantes para digerir o que ouvira antes de sair da sala e entrar na cozinha de novo.

A chaleira estava apitando. Ele não tinha percebido.

- Merda! - exclamou correndo quando viu que a água já estava transbordando. Desligou o fogo e, segurando um pano, tentou pegar a chaleira. Esqueceu momentaneamente que a frigideira ainda estava ali e esbarrou nela com a mão direita - Merda! - exclamou de novo por causa da dor. Pegou a frigideira com a mão queimada e jogou ambas as coisas na pia - Merda! Merda! Merda! - repetiu chutando o armário uma, duas, três vezes. Jogou o pano que estivera segurando contra a parede com raiva - Merda de vida - disse por fim, ofegante, fitando as mãos, cansado. Uma delas estava queimada e a outra ainda carregava no anular a aliança de casamento. Draco estava se sentindo particularmente perdido naquele dia. Mais do que o normal.

Passou a mão esquerda pelo cabelo nervoso, despenteando-o sem querer. A queimadura ainda doía, então, ele ligou a água para lavá-la e, em seguida, murmurou um feitiço para curá-la. Já eram sete horas. Ele ainda tinha algum tempo antes de sair de casa, mas perdera toda a vontade de comer ou de olhar as notícias. Desligou, então, a boca do fogão que ainda estava acesa, desdobrou as mangas da camisa, vestiu o paletó e as vestes e aparatou para o trabalho, murmurando que aquele dia tinha tudo para ser infernal.

O andar ainda estava vazio. O prédio onde Draco trabalhava era um anexo ao prédio do Ministério, onde ficavam concentrados todos os escritórios centrais da força policial bruxa. Assim como a polícia trouxa, a bruxa possuía vários departamentos diferentes. Malfoy começara a trabalhar com eles dois anos depois da sua formatura em Hogwarts. Sua primeira intenção havia sido se tornar um auror, mas ele acabou mudando de idéia. Aurores investigavam somente crimes que utilizavam artes das trevas e eram considerados a elite da força. Cansado, Draco caminhou por entre as mesas vazias até chegar à sua pequena sala que era separada dos outros por divisórias de vidro, de forma que ele pudesse ver tudo o que acontecia ao seu redor o tempo todo.

Sentando-se na sua mesa, Malfoy fitou através do vidro por um longo período a parede do outro lado do escritório. Ela estava cheia de fotografias penduradas - fotografias de pessoas felizes, sorridentes, acenando. Eram fotos das pessoas que eles haviam recuperado. Draco chefiava o Departamento de Pessoas Desaparecidas. Na maioria das vezes, eles faziam o trabalho rápido: uma criança perdida no Beco Diagonal, alguém que, por algum motivo, demorou mais do que planejava para voltar pra casa, um adolescente que fugiu. Casos simples. Havia outros mais complicados, claro: raptos, seqüestros, feitiços que não deram certo, bruxos que se perderam em outras dimensões, poções para encolher, viagens no tempo, mortes. Cada pessoa sã e salva ganhava uma foto na parede. Os casos não resolvidos, contudo, acumulavam-se nos arquivos e nas prateleiras. Trabalhando ali, você aprendia rápido a ficar feliz com o que conseguira fazer e seguir em frente quando simplesmente não havia mais o que ser feito. Draco encorajava seus investigadores a não se prenderem a casos passados, a esquecerem as pessoas que eles não puderam encontrar. Ele mesmo, contudo, não era muito bom em seguir o seu próprio conselho. E a maior prova disso é que ele ainda estava ali e não havia feito os testes de admissão para se tornar um auror. As pessoas achavam que era porque o Ministério não aceitaria um Malfoy na posição de investigar crimes ligados às artes das trevas e Draco nunca dissera que elas estavam erradas. Apenas ignorava os comentários e seguia em frente.

O trabalho daqueles bruxos era pouco valorizado, claro. Os aurores eram as estrelas e os outros, na maioria das vezes, ficavam esquecidos. Em geral, as pessoas só paravam para pensar no quão difícil é encontrar alguém quando esse alguém realmente está sumido. E, na maioria das vezes, não era nem possível usar feitiços localizadores. Para que eles funcionassem, seria preciso que a pessoa que se quer achar carregasse um tipo de amuleto que funcionava como uma espécie de bóia sinalizadora para o feitiço. Não é possível simplesmente encontrar alguém só com uma varinha e um mapa. Os investigadores não contavam com métodos muito diferentes dos policiais trouxas e, se você levar em consideração que eles não tinham computadores com banco de dados de impressões digitais e DNA, pode mesmo dizer que eles estavam em desvantagem em vários aspectos. Isso era outra coisa que Draco odiava sobre seu trabalho: a consciência de que muitas vezes um simples trouxa era capaz de encontrar alguém mais rápido do que eles. Isso e, é claro, o fato de que eles eram provavelmente o departamento da polícia que mais tinha que trocar informações com os trouxas. Afinal, uma pessoa desaparecida pode muito bem estar em qualquer um dos dois mundos. Por esse motivo, Draco tinha que se vestir com roupas trouxas, carregar uma credencial do governo trouxa, usar um telefone e, a pior parte, conversar e conviver com trouxas. Ele detestava, mas ainda assim fazia seu trabalho. E fazia bem.

Há um ano e meio ele assumira a chefia do departamento e, desde então, eles estavam com um índice de sucesso acima de 85%. Ele se sentia orgulhoso disso. Muito orgulhoso, mas não podia deixar de se revoltar com a ironia da situação.

- Senhor - ele ouviu sua secretária chamando da porta. Estivera tão perdido nos seus próprios pensamentos que não percebera o tempo passar. Sua secretária já chegara e alguns outros investigadores já começavam a se espalhar pelas mesas.

- Sim, Anne - ele respondeu.

- Eu queria lembrá-lo da reunião de nove horas... - ela começou.

- Eu sei. Não me esqueci. É só isso? - Malfoy perguntou seco. Anne já estava mais que acostumada com ele para ficar ofendida.

- Sim. Aqui está sua correspondência - ela falou, colocando alguns envelopes sobre a mesa - Com licença, senhor - concluiu, saindo da sala.

Assim que ela fechou a porta, Draco pegou as cartas, passando os olhos pelos remetentes. A maioria não tinha importância alguma: propagandas, cartas de agradecimento, memorandos. Todas foram para a gaveta, teoricamente para serem lidas mais tarde. Ele sabia, contudo, que isso dificilmente aconteceria.

Apenas duas sobraram: a primeira tinha a caligrafia calma e perfeita da sua mãe. Não era a primeira carta dela que ele recebia. Na realidade, Narcisa tinha o incômodo hábito de escrever com freqüência. Ele poderia tê-la colocado junto com a pilha que nunca seria aberta, mas, de alguma forma, não achava que era suficiente. Sem hesitar e sem abrir a carta sequer para ter uma idéia do que ela dizia, Draco a colocou sobre o cinzeiro de pedra que havia na sua mesa e, com a varinha, conjurou uma pequena chama que não demorou a consumir o envelope.

Por fim, restava apenas uma carta. Ela continha a insígnia do Ministério Bruxo dos Estados Unidos. Draco mantinha-se em contato com eles há algum tempo e recebia regularmente informes vindo do Departamento de Pessoas Desaparecidas de lá. Por alguns instantes, ele segurou o envelope entre seus dedos. Sabia que aquilo era tolice, que não tinha sentido, que era uma tortura inútil; mas não conseguia evitar. Sabia o conteúdo da carta antes mesmo de abri-la e ainda assim não podia simplesmente ignorá-la como as outras.

Com um suspiro final, rasgou o papel e abriu a missiva, passando os olhos rapidamente pelas palavras já tão familiares - "sinto muito informar... não fomos capazes de localizar... continuaremos tentando e..." Ele estava cansado daquilo. Jogou a carta no cinzeiro junto com a da sua mãe que, a esta altura já praticamente virara cinzas e pegou uma pasta de documentos na gaveta inferior da escrivaninha. Tinha trabalho a fazer. Não podia se dar ao luxo de perder tempo com besteiras. A reunião começaria em meia hora e ele queria repassar mais uma vez os planos que deveria discutir com seus investigadores.

Concentrando-se nos problemas reais e palpáveis que tinha de enfrentar, Draco conseguiu esquecer todo o resto. Ele tinha um trabalho a fazer e era isso que importava.

- Você está atrasado - disse o outro assim que ele se sentou na mesa do pequeno restaurante trouxa - Eu já estava quase chamando o Departamento de Pessoas Desaparecidas! - completou, com ironia. Sabia que Draco raramente se atrasava.

- Muito engraçado - Malfoy respondeu de mau humor. Realmente detestava se atrasar, mas não tivera opção. A reunião do departamento demorara bem mais do que ele imaginara. Eles estavam no final do mês de julho. Logo, o Beco Diagonal estaria infestado de pais e crianças comprando material escolar para Hogwarts. A única época pior para o Departamento de Pessoas Desaparecidas era o Natal. Com tantas pessoas nas ruas, sempre havia casos de crianças que se perdiam dos pais, e sempre havia quem estava disposto a se aproveitar da situação. No ano anterior, um menino que entraria para o primeiro ano sumira. O garoto havia se perdido e, na última vez em que foi visto, estava perigosamente próximo à Travessa do Tranco. Eles ainda não haviam encontrado-no. E Draco odiava casos assim. Era por isso que ele propusera uma operação especial naquele ano para evitar coisas do gênero e seus investigadores passaram a manhã inteira discutindo os planos.

- Vejo que seu humor está radiante como usual, não, Malfoy?

- Será que dá pra gente ir direito ao ponto? - ele perguntou, lançando na direção do outro um olhar mortal. Já era ruim o suficiente estar atrasado, mas ter que caminhar pelo Beco Diagonal e depois pelas ruas trouxas e ver todas aquelas pessoas sorrindo e casais de mãos dadas e crianças felizes entre seus pais era sempre mais que suficiente para deixar Draco louco.

- Está bem. Veja - disse, entregando-lhe um recorte de jornal cuja manchete dizia 'Mistério na Escócia' bem em cima de uma foto preto-e-branca e estática de uma árvore que parecia ter sido atingida por um raio.

- Mas o que diabos...?

- Leia. Apenas leia, okay, Malfoy? - o outro falou sério. Draco voltou os olhos para a notícia e começou a ler as palavras, interrompendo-se apenas para fazer o pedido do almoço à garçonete - E então? - perguntou quando o outro finalmente levantou os olhos do recorte.

- Aonde você conseguiu isso?

- Saiu num jornal trouxa. Você realmente deveria parar de ler apenas o Profeta.

- Por que diabos eu deveria me interessar pelo que acontece com esses trouxas suj...

- Shhh! Será que dá pra falar mais baixo?

- Será que dá pra você ir encher o saco de outro?

- Sinceramente, Malfoy, eu realmente não sei por que ainda te ajudo.

- Corta essa, Creevey. Você sabe muito bem porque me ajuda - Draco respondeu sério. O outro não falou nada. Apenas o encarou mais calmo. Sabia que ele tinha razão.

- Está bem. Agora, você vai me dizer que não achou isso interessante?

- Se tudo aconteceu como está descrito e não foi invenção de algum trouxa maluco - murmurou Malfoy - sim, é bem interessante e definitivamente há magia envolvida. Mas eu não sei por que é interessante pra mim. Você deveria ter levado isso direto pros aurores, não? Ou então, publicado no Profeta.

- Agora é a minha vez de falar: corta essa, Malfoy. Você sabe muito bem por que eu te mostrei isso antes de qualquer outra pessoa!

- Eu não vi nenhum indício... - Draco parou quando a garçonete voltou com o almoço dos dois - de que isso tenha alguma coisa a ver com ela - completou depois que a mulher se afastou.

- Você está brincando, né?

- Claro que não!

- Preste atenção nos detalhes! A porcaria da árvore nasceu de um dia pro outro há pouco menos de onze anos. Menos de onze anos, Malfoy! Isso foi um pouco antes de...

- Eu sei muito bem! Você não tem que soletrar pra mim!

- E o triângulo? Você não leu a parte do triângulo?

- É uma merda de um triângulo, Creevey! Uma merda de triângulo! Você quer que eu persiga todos os malditos professores de geometria, agora?

- Eu só estou dizendo, Malfoy, que é uma grande coincidência - o outro respondeu, com um suspiro cansado. E, após uma pausa - Olhe, a polícia trouxa ainda não conseguiu identificar a mulher: eles não conseguiram pelas digitais, nem pelo DNA, nem pelos seus arquivos de pessoas desaparecidas...

- Você não está querendo dizer...

- Sim, eu estou querendo dizer exatamente isso: que talvez haja um motivo pra ela não estar nos arquivos deles e esse motivo é que ela está nos nossos!

- Você não acha que essa mulher é... - Draco começou, subitamente sem fome nenhuma - que ela é...

- Eu cogitei a possibilidade, Malfoy. Eu cogitei, mas...

- Isso é ridículo - Draco jogou o guardanapo na mesa, se preparando para levantar. Não queria ouvir mais.

- Será que dá pra você parar de ser uma criança mimada por alguns segundos e simplesmente escutar, seu infeliz? Ela era minha amiga também, você acha que isso é fácil pra mim?

- É, Creevey, ela era a sua amiga. Ela não era a sua mulher, então não venha me falar de fácil, okay? - perguntou Draco, seus olhos faiscando.

- Não é ela, Malfoy - Colin disse rapidamente, antes que o outro fosse realmente embora - Não é ela.

- Você tem certeza?

- Tenho. Um contato meu na polícia trouxa me deu isso - e ele entregou uma pasta para o outro. A pasta continha apenas uma folha - Eles fizeram uma reconstituição do rosto dela no computador.

- Eu não me lembro desse rosto.

- Ela sumiu há onze anos, Malfoy...

- E eu já trabalhava no Departamento, não trabalhava? Eu me lembraria de um caso desses, Creevey. Isso foi uma grande perda de tempo - Draco completou, levantando-se.

- Você não vai sequer investigar? Checar os arquivos? Bom, então eu já posso publicar...

- Não - Malfoy respondeu por fim, dando o braço a torcer - Eu vou mandar alguém procurar nos casos antigos. Satisfeito? - completou, deixando na mesa o dinheiro para pagar pela sua parte da conta - Não publique nada ainda - e saiu do restaurante, deixando sua comida praticamente intocada. Estava com fome, mas, depois do que ouvira, perdera realmente toda a vontade de comer.

Voltou direto para o escritório, segurando firmemente a pasta com o retrato da mulher e o recorte de jornal. Por mais que não quisesse admitir, aquela história havia deixado-o intrigado. Principalmente a parte do triângulo. Ele tentou repetir para si mesmo que não era nada, que era só um triângulo, mas havia algo no fundo da sua mente que não lhe deixou acreditar nisso.

Assim que chegou no departamento, procurou Anne. Ela já estava sentada à sua mesa, mexendo em alguns papéis.

- Eu preciso que você procure algo nos arquivos para mim - ele falou, sem perder tempo cumprimentando-a.

- O quê? - ela perguntou, levantando os olhos.

- Essa mulher - ele respondeu, entregando a pasta a ela - Quero que você procure nos arquivos se há algum caso com ela. Procure entre os desaparecimentos que aconteceram entre doze e dez anos atrás. O que quer que você tivesse que fazer hoje à tarde não importa, okay, Anne? Documentos, relatórios, corujas e memorandos podem esperar até amanhã. Isto não pode.

- Está bem, Sr. Malfoy - ela respondeu, pegando a pasta e se levantando enquanto o outro abria a porta da sua sala e entrava.

O resto da tarde passou num segundo. Draco consultava o relógio de tanto em tanto, imaginando por que Anne estava levando aquela eternidade toda, mas acabou se convencendo de que devia haver mais arquivos daquele período do que ele imaginara a princípio. Finalmente, contudo, por volta das seis da tarde, quando ele já estava preparado para ir atrás dela, Anne apareceu na sua sala.

- Até que enfim! - ele falou ao vê-la.

- Desculpe, Sr. Malfoy, mas a coisa não foi tão simples quanto parecia - ela respondeu, colocando sobre a escrivaninha a pasta que ele lhe entregara.

- Não importa - ele a interrompeu enquanto colocava as vestes para ir embora - Apenas me dê o arquivo.

- Esse é o problema. Eu não encontrei.

- Não existe um arquivo? - ele perguntou, de alguma forma aliviado com isso.

- Eu não sei.

- Como assim você não sabe, Anne? A coisa é simples: ou o arquivo existe ou ele não existe!

- Eu não o encontrei, mas isso não significa que ele não exista - e após uma pausa - Eu descobri que seis arquivos do período que o senhor mencionou estão sumidos.

- Sumidos?

- Sim, sumidos. Esses são os números dos arquivos - ela entregou a ele um papel com alguns números anotados. Passando os olhos pela lista, Draco reconheceu um deles imediatamente:

- O arquivo 15782 não está sumido. Ele está na minha casa - falou, sério - E quanto aos outros? Ninguém os retirou?

- Creio que não, senhor. É proibido retirar os casos...

- Eu sei, Anne, eu sei - ele a interrompeu de novo, lançando-lhe um olhar de aviso.

- Talvez eles estejam guardados na biblioteca central.

- E por que diabos eles estariam lá? Arquivos de pessoas desaparecidas ficam aqui embaixo.

- Eu não sei, senhor. Apenas sei que eles não estão aqui.

- Está bem, Anne. Você pode ir - Draco disse, finalmente. A mulher não tinha culpa nenhuma afinal. Um minuto depois que ela saiu, Malfoy deixou a sala, mas, ao invés de aparatar para casa, subiu as escadas em direção à biblioteca central. Ela concentrava a maior parte dos arquivos da polícia. Apenas os dos aurores - por na maioria das vezes envolverem assuntos confidenciais - e os de pessoas desaparecidas - por nunca se poder saber exatamente quando eles seria necessários - ficavam separados.

Intrigado, Draco parou no balcão e tocou a campainha. Riscou da lista o número do caso 15782 enquanto esperava a velha bruxa que cuidava dos arquivos aparecer para atendê-lo. Quando ela veio, empoeirada e com um par de óculos pendurados no pescoço, ele pediu, da maneira mais educada que pôde, para que ela procurasse as pastas daqueles casos. Esperou depois mais alguns minutos. Mais alguns vários minutos. Deveria ser rápido achar os arquivos. Os bruxos podiam não utilizar computadores, mas costumavam manter essas coisas com um mínimo de organização. A bruxa, contudo, acabou demorando mais de trinta minutos para voltar e, quando o fez, Draco soube somente pela sua expressão confusa que ela não tinha conseguido o que procurava.

- Esses arquivos não estão aqui, Sr. Malfoy - ela falou.

- Tem certeza?

- É claro que eu tenho certeza - respondeu, ofendida - São casos de pessoas desaparecidas, não são? Não deveriam estar lá embaixo, no seu departamento?

- Deveriam, mas não estão.

- Não é minha culpa se o senhor não consegue manter seus próprios arquivos organizados. Agora, se puder me dar licença, eu tenho mais o que fazer.

Malfoy sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. Sentiu a resposta mal criada chegar à ponta da sua língua, mas, na última hora, conseguiu se controlar. Ele não podia simplesmente xingar aquela mulher já que as chances de que ele viesse a precisar dela no futuro eram grandes. Engolindo, então, todos os insultos que estivera prestes a cuspir, Draco deu meia volta e saiu. Estava com raiva, sim, mas, acima de tudo, estava intrigado e curioso. A história que Creevey contara era estranha e, por mais que ele não quisesse acreditar, o outro podia muito bem ter razão.

Malfoy gostaria de ter certeza de que aquele arquivo simplesmente não existia, mas agora isso não era possível. E pior: pastas de casos raramente sumiam no mundo bruxo. Elas eram enfeitiçadas para não sumirem. A única razão pela qual ele conseguira retirar o caso 15782 do departamento é que ele pegara os documentos antes deles terem sido enfeitiçados, dez anos atrás. E agora, subitamente, ele descobrira cinco arquivos sumidos. Cinco. E a chave para desvendar todos os mistérios da sua vida poderia estar em um deles.

Cansado, Draco resolveu voltar para casa. Aparatou na sala e largou o retrato da mulher junto com o recorte que ainda estava carregando sobre a mesa. Pendurou as vestes e o paletó na cadeira e dobrou as mangas da camisa. Estava com fome. Na cozinha, encontrou a mesma bagunça que deixara pela manhã. Olhou para o fogão e para a pia e não encontrou ânimo para arrumar nada. Deixando tudo como estava, voltou para a sala e jogou um pouco de pó-de-flu na lareira.

- Boa noite, Fredo - ele disse, ao ver o rosto do bruxo italiano conhecido do outro lado.

- Ah, boa noite, Senhor Malfoy. O de sempre? - ele perguntou.

- Sim, o de sempre - Draco respondeu, sentindo-se patético. Ele pedia comida tão constantemente naquele restaurante que já estava até conhecido.

Pouco depois, o italiano voltou com a refeição e a entregou pela lareira a Draco, enquanto este lhe dava o dinheiro.

Deixando o jantar sobre a mesinha de centro, Malfoy pegou os talheres na cozinha. Depois, sentou-se no sofá e começou a comer. Estava faminto e cansado. Olhou de soslaio para os papéis sobre a mesa. Aquele realmente havia sido um dia infernal. E agora ele sabia que provavelmente não conseguiria dormir direito. Ficaria acordado, imaginando, pensando. Dormir naqueles dias lhe trazia pouco prazer. Principalmente se ele acabasse por sonhar com ela e depois tivesse que encarar a dura realidade de que ela não estava ali, dormindo ao seu lado.

Cansado demais até para lutar contra o inevitável, Draco terminou de comer e foi para o quarto. Tirou a gravata, desabotoou alguns botões da camisa e pegou em uma das prateleiras superiores do armário a pasta do caso 15782. Ele não mexia naqueles papéis há algum tempo. Achava que era um sinal de melhora, que estava conseguindo deixar aquilo tudo para trás, mas agora, diante de tudo o que acontecera naquele dia, sabia que não era verdade. Ele não estava nem um pouquinho melhor do que há um, dois, cinco ou dez anos atrás. Estava tão perdido quanto antes.

Voltou para a sala e, sentando-se de novo no sofá, abriu o arquivo na mesinha de centro. Ainda estava tudo lá, exatamente como ele se lembrava: o formulário de pessoa desaparecida preenchido com a sua própria letra, os relatórios dos investigadores responsáveis, fotos do local, uma foto dela... a foto que ele entregara para que ela pudesse ser identificada. Ela estava tão bonita naquela foto! Draco ainda se lembrava daquele dia como se houvesse acabado de acontecer: ele a havia levado para um piquenique no parque em Londres. O parque na Londres dos trouxas. Ele não estivera muito feliz com isso, mas sabia que a faria feliz. E ele queria fazê-la feliz. Isso era tudo o que ele desejava e, no fim, havia sido tudo sua culpa.

Ele sentiu as lágrimas começarem a encher seus olhos e apoiou a cabeça no sofá, olhando para cima para evitá-las. Detestava chorar. Malfoys não choram! "Malfoys não choram", repetiu baixinho enquanto uma lágrima silenciosa escorria pelo canto de seus olhos. Estava cansado. Cansado daquilo tudo. Cansado de viver cada minuto infeliz com a consciência dolorosa de que ela não estava ali e, pior, sabendo que era tudo sua culpa.

Enxugando com raiva a lágrima que escorrera e xingando-se por deixar as coisas chegarem àquele ponto, Malfoy se levantou e juntou de novo os documentos na pasta. Estava a ponto de voltar para o quarto e guardá-la quando foi pela segunda vez naquele dia interrompido pelo toque estridente do telefone.

- Mas que merda! - exclamou pensando que fosse Creevey de novo para perturbá-lo - O que você quer agora? - perguntou furioso quando atendeu o aparelho. Tudo o que queria era alguém em quem descontar sua frustração.

- A questão, Sr. Malfoy, não é o que eu quero. É o que você quer - respondeu do outro lado uma voz calma, controlada e completamente desconhecida. Draco gelou. De alguma forma, ele sabia sobre o que se tratava.

- Quem é você? - perguntou num tom urgente e desconfiado.

- Isso é exatamente o que o você tem que descobrir, não é mesmo? Você não pode esperar que eu lhe dê todas as respostas assim, de mão beijada - respondeu a voz sem se alterar.

- Olha aqui... - Draco começou, enfurecendo-se. Não estava nem um pouquinho no clima para jogar.

- Você aceitaria um conselho, Sr. Malfoy? - o homem do outro lado da linha o interrompeu - Não fique com raiva tão facilmente. Ela não vai te levar a lugar algum.

- Quem é você? - Draco repetiu, tentando se controlar - O que você quer de mim?

- De você? Nada. Eu apenas fiquei sabendo que você demonstrou um certo interesse em encontrar determinados arquivos...

- O que você sabe sobre aqueles arquivos?

- Tudo - respondeu a voz com uma risada seca - Tudo, Sr. Malfoy, tudo.

- Você pegou os arquivos?

- Você ainda não entendeu, não é mesmo?

- Entender o quê? Como eu posso entender qualquer coisa quando estou falando numa merda de telefone com a porra de um maluco que sequer me disse o seu maldito nome?

- Você beija a sua mãe com essa boca?

- Eu não tenho mãe.

- Nós dois sabemos que isso não é verdade.

- Será que dá pra nós voltarmos pra droga do assunto aqui? A minha mãe não tem nada a ver com a história.

- E você sequer sabe qual é a história?

- Que tipo de maluco é você?

- O tipo que está sempre certo. E eu já falei: o meu nome é exatamente o que você precisa descobrir. Acredite, eu estava esperando que isso acontecesse. Cedo ou tarde, você teria que se interessar pelos arquivos certos...

- Pelos arquivos certos?

- Sim. Eu tenho que dizer, contudo: já estava quase desistindo de você, mas finalmente, parece que o dia chegou.

- Que dia?

- O dia em que os seus piores pesadelos se tornam realidade.

- O que você sabe sobre os meus malditos pesadelos, seu filho de uma puta desgraçado? - Draco estava furioso. Do outro lado da linha, a voz respondeu novamente com uma risada seca:

- Mais do que você pensa, Sr. Malfoy... mais do que você pensa...

- Seu des...

- Por favor, será que nós poderíamos manter essa conversa num nível civilizado?

- Não, não poderíamos porra nenhuma! Eu quero saber quem você é e eu quero saber agora!

- Então, Sr. Malfoy, infelizmente eu devo decepcioná-lo. Na vida, nem sempre nós conseguimos o que queremos. Mas, na realidade, você já deve saber disso, não é mesmo? Sim, eu tenho certeza de que você tem plena e dolorosa consciência desse fato...

- Ah, seu...

- Acredite: você não quer me insultar.

- Ah, é? E por que não? Você está do outro lado da merda do telefone! Insultar você é basicamente a única coisa que eu posso fazer!

- Sim, eu concordo, mas pode ser que eu resolva revidar e você não vai gostar do que eu tenho para dizer...

- Por que você não experimenta?

- Talvez um outro dia, Sr. Malfoy. Agora, eu preciso ir. Foi um prazer - e, sem esperar uma resposta, o homem simplesmente desligou o telefone.

Draco ainda ficou alguns instantes parado, atônito, assustado com o que acabara de acontecer. Quando conseguiu se recuperar um pouco, colocou o aparelho de volta na base e fitou de longe o retrato da mulher encontrada na árvore. Pegou o recorte e leu novamente a notícia. Sua mente estava em polvorosa. Quem era aquela mulher? O que acontecera com ela? E, principalmente, o que ela tinha a ver com a Gina? Quem quer que fosse o homem no telefone, ele sabia. Sabia e ligara apenas para provocar Malfoy, para jogar. Draco racionalmente tinha consciência de que não deveria entrar naquele jogo, porque ele não conhecia nem as regras nem as cartas disponíveis. Ele não deveria deixar-se tentar, não deveria deixar-se envolver. Olhando de novo para o arquivo sobre a mesinha de centro, contudo, ele percebeu que, de um jeito ou de outro, já estava envolvido. Não tinha como escapar, não tinha para onde fugir. Ele estava enterrado naquela história até o pescoço e a única coisa que poderia fazer era tentar desvendar o mistério. Simplesmente, não é possível evitar o inevitável.

Naquela noite, Draco Malfoy deitou-se na cama com a cabeça cheia de dúvidas. Não conseguiu dormir direito. Na realidade, mal pregou os olhos. Não sabia o que estava acontecendo, não sabia o que estava por acontecer. Sua única certeza era que ele pegaria, no dia seguinte, a primeira chave de portal que pudesse para a Escócia. De um jeito ou de outro, não descansaria enquanto não descobrisse toda a verdade.


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