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* Discurso de Sidrack - Inauguração Escola

Proferido na ESCOLA MUNICIPAL CÍCERO FRANKLIN CORDEIRO.

Exmo. Sr. Prefeito de Recife – Dr. Gustavo Krause

Meu irmão – Secretário de Educação do Estado – Joel de Hollanda Cordeiro

Exmo. Sr. Secretário de Educação do Município – Dr. José Neves

 Meus amigos:

É quando se alcança a madurez da vida, quando os desenganos vão conosco à frente e as esperanças vão ficando atrás, quando se viu morrer entes queridos, quando todas as vaidades pessoais entram em declínio, quando se quere viver bem com tudo e com todos, quando se tenta compreender o mundo e o homem, é nesse momento que se lança um olhar para o passado distante, para tudo que já se foi e que não volta mais e, então, invade a alma da gente uma catarse, isto é, uma ânsia infinita de agradecimento e reconhecimento aos que nos fizeram bem, nos ajudaram nas dificuldades, nos ampararam nas fraquezas e nos apontaram o caminho para seguir – o nosso pai.

Sr. Prefeito, a homenagem que V. Exa. está fazendo ao meu pai, dando a esta Escola o nome de Cícero Franklin Cordeiro, sensibilizou bastante a nossa família.

Acho que devemos ter sempre o cuidado de procurar, ao menos, escolher bem o nome para as Escolas, partindo do princípio de que o nome de Escola faz parte do processo de educação.

Sinto, neste momento, uma certa dificuldade, um certo constrangimento para falar sobre o meu pai, pois tenho que guardar um certo comedimento e uma justa medida de expressão que, procurando ser a mais verdadeira, não se mostre muito exagerada pela condição de filho mais velho, falando pela família, nem menos fiel pelo receio de o ser.

Meu pai nasceu de uma família humilde e numerosa de agricultores, num sítio em Belo Jardim, Pernambuco. Seus pais só puderam oferecer-lhe como educação os instrumentos para trabalho no campo. Logo cedo ele se deslocou para a cidade a fim de exercer a função de vendedor ambulante de panos e chitas no interior. Viajando de burro ou jumento, as malas cheias de fazenda, pelas estradas ruins, empoeiradas e ensolaradas dos sertões, brejos, num esforço intimorato para sobreviver, como dizia o poeta: “saindo de casa o dia mal nascido, voltando pra casa o dia em escurudão”.

Ao regressar à casa, no sítio, cansado e exaurido, tanto pelo trabalho como pela viagem, ia para a escola nournana cidade, particular, onde pagava o professor com o dinheiro sofrido, ganho na mascateação, numa ânsia incontida para aprender e voltava, altas horas da noite, para o sítio.

Em sendo assim, trabalhando e estudando, passou da condição de “mascate”para de comerciante  estável.

Esse fato do meu pai ter lutado muito para estudar foi marcante em toda sua vida. Mais tarde, casou-se com uma moça educada da tradicional família Hollanda e tornando-se protestante, posteriormente, teve necessidade de estudar mais, comprar livros e ler muito a fim de interpretar a Bíblia, bem como enfrentar os padres doutores, em discussões e polêmicas acirradas a respeito de religião.

Ele vibrava com os artigos de Vidal de Freitas e Jerônimo Gueiros e, sempre que vinha ao Recife, procurava ouvir grandes oradores
sacros da época para aprender, o que ele chamava “beber na fonte”.

Dentre as grandes qualidades do meu pai, ressurgem duas de real valor. Preocupação máxima com a educação; costumava repetir “a maior dádiva que um pai deixa para um filho é a educação”. Quando em férias em Arcoverde, dormíamos demais, ele nos acordava dizendo:  “Nunca o sol encontrou Rui Barbosa na cama”.

Nos estimulava a escrever, a falar, pois não acreditava em “cultura embutida”.

Desse modo, como pequeno comerciante, ele conseguiu educar todos os seus 12 filhos, 7 homens e 5 mulheres, entre eles, professores, médicos, engenheiro, odontólogo e economista, apoiando-se na orientação segura da sua companheira, minha mãe, aqui presente, Noêmia de Hollanda Cordeiro.

Dele herdei minha paixão pelos livros.

Meu pai acreditava em Deus e na religião. Acreditava na oração, como uma força tão poderosa como a força gravitacional que derruba os objetos.  Sempre orava e lia a Bíblia, antes de qualquer refeição.

Essa crença no transcedente e a sua completa alienação dos bens materiais, ou do bezerro de ouro, fizeram com que meu pai não saísse da condição de um pequeno negociante ou comerciante, enquanto outros colegas da época se tornaram milionários.

Havia um dia, na semana, em que ele se deslocava de casa à pé, Bíblia na mão, para confortar e ajudar os doentes e necessitados.

Num desses dias, quando regressava para casa, numa rua calma, foi atropelado por um carro, dirigido por um irresponsável...vários meses em coma profundo, trabalho exaustivo da família e o fim de tudo.

Para mim, esse acidente não tem explicação racional e nunca o consegui compreender à luz do cristianismo. Ele foi fazer o bem, não importando a quem e sofreu morte violenta.

Para terminar, lembro Anatole France quando afirmou em “O Jardim de Epicuro”: “Se dependesse de mim, eu poria a Juventude no fim a existência do homem” e eu acrescentaria: a fim de que os homens bons não morressem.
Sidrack
 
 
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