O Hunsrück


A região Hunsrück e sua língua

 

 

            O Hunsrück se situa dentro da região franco-renana (Figura 1) e é cercado pelos rios Mosel, Nahe, Rhein e Saar (Figura 2). Por ser cercado de rios, e as margens desses oferecerem terras férteis, o Hunsrück é povoado principalmente nos vales por onde eles correm. É interessante lembrar que a região é bastante acentuada, há muitos morros e rochas. Por isso, cultivam e produzem, também, bastante vinho. Acredita-se que esse aspecto geográfico do Hunsrück tenha favorecido a instalação e a adequação dos imigrantes no Rio Grande do Sul.

 

FIGURA 1: Alemanha - em destaque a região sudoeste.

 

FIGURA 2: Mapa da região do Hunsrück na Alemanha.

 

FONTE: Hunsrückkarte, Hunsrück - www.hunsrueckreise.de (01.03.2006)

 

 

  • A origem da variante Hunsrückisch

 

Sobre as origens do nome Hunsrück, há diversas opiniões. Alguns autores dizem, como explica KRUG (2000, p. 6), que a origem se deve à região montanhosa que se assemelha às costas de um cachorro. Portanto, “Huns” = cachorro e “rück” deriva da palavra “Rücken” = costas. Outros autores, como ALTENHOFEN (1996, p. 8) e HORST (2001, p. 15), ainda preferem dizer que a palavra em questão remete aos povos hunos, em alemão Hunnen. Os hunos viviam nessa região e a chamavam de Hunsrück, ou seja, recanto dos hunos. Além disso, eles remetem a outras interpretações como: hoher Rücken = costas altas e Hünenrücken = costas de galinha. Como pode ser observado, a controvérsia etimológica é vasta.

 

Discussões acerca do nome do dialeto também são encontradas. É correto dizer Hunsrück ou Hunsrückisch? Ou ainda Hunsbucklisch? Todas elas são aceitáveis, porém, a mais correta, partindo de uma visão lógica, seria Hunsrückisch. Essas denominações surgem porque a maior parte dos imigrantes alemães, nas décadas de 20 e 30 do século XIX, vieram da região sudoeste da Alemanha, mais precisamente da região do Hunsrück. Por isso, Hunsrückisch e Hunsbucklisch. É importante lembrar que, na Alemanha, esse dialeto possui outro(s) nome(s), ou seja, nas décadas mencionadas anteriormente, o maior grupo chegado ao Brasil era o de falantes do Mosel- e Rheinfränkisch e Pfälzisch. Em terras brasileiras, essas denominações foram substituídas pelas já citadas: Hunsrückisch e Hunsbucklisch. Além disso, esses nomes substituíram as demais expressões referentes às línguas faladas na região do Rio Reno e do Rio Mosela, fazendo, assim, com que se aderisse a essas duas formas e as atribuísse a todos os franco-renanos e a seus vizinhos. O grupo dos Hunsrücker, por ser grande e forte, através das migrações dos povoados, enfraqueceu ou eliminou as demais variantes, criando, assim, uma língua “única”. Essa idéia concorda com o que diz FAUSEL (1959, p. 7): “Das in Brasilien gesprochene Hunsrückisch: es enthält den Niederschlag aller im Hunsrück gesprochenen Mundartformen[1]”.

 

O correto seria, então, dizer Hunsrückisch quando nos referimos à língua, já que, Hunsrück é o nome dado à região donde provinham os Hunsrücker. Mas o nome Hunsrück é igualmente muito usado pelos falantes quando se referem à língua. Esse uso fez com que essa expressão se tornasse uma variação de Hunsrückisch. Podendo, assim, ser usado também quando nos referimos ao idioma. Esse é também um tema de discussão no Orkut[2]. Há nesse site uma comunidade com o título de “Eu falo Hunsrück!”. Criou-se, então, um tópico de discussão a fim de ver qual expressão, quando se trata da língua, é correta. O “dono” da comunidade, vendo esse debate virtual, decidiu pôr entre parênteses o sufixo –isch. Isso mostra o desconhecimento ou a insegurança dos falantes com as definições e os usos dessas expressões.

 

Outros autores, como HORST (2001, p. 13), dizem que, com a denominação Hunsrückisch, acontece o fenômeno da polissemia[3]. Mas a idéia de se tratar apenas do dialeto é bastante aceitável, uma vez que temos o sufixo –isch na maioria dos dialetos, como exemplo: Pommerisch, Schwäbisch, Westfälisch etc.

 

 

  • A língua alemã e o Brasil

 

O Brasil foi colonizado por povos oriundos dos mais diversos lugares do mundo. Os primeiros foram os portugueses e os espanhóis; depois os franceses. Ele ficou sob domínio português durante décadas. No início do século XIX, o Brasil era regido por Dom Pedro I, casado com Dona Leopoldina, que era de origem austríaca, detalhe este que favoreceu a imigração alemã para o Brasil.

 

O governo brasileiro procurou atrair os europeus, de acordo com anotações feitas em aula[4], oferecendo-lhes diversas vantagens as quais poderão ser conferidas no próximo capítulo. A imperatriz D. Leopoldina apoiava e incentivava a idéia do governo. Até mesmo o imperador D. Pedro I se interessou bastante pela imigração alemã. Assim, ele poderia assentar as terras do sul e se utilizar desses imigrantes para atacar os problemas enfrentados com os habitantes da fronteira espanhola. Com isso, as terras da região sul também deixaram de ser reservadas apenas para a pecuária em latifúndio. Houve, com a chegada dos imigrantes, um crescimento bastante favorável, o que transformou o Rio Grande do Sul num considerável centro agrícola.

 

Com a chegada dos alemães, aparece, também, no Brasil, a língua alemã. Essa teve seus altos e baixos em terras brasileiras. Em épocas remotas, foi até proibida. Em outras, teve uma significação importantíssima no que se refere à cultura de um povo que deixou para trás as terras de origem.

 

No início, os imigrantes alemães escolhiam aquele que apresentava maior capacidade entre os moradores de uma determinada colônia para exercer a profissão de professor. No momento em que era escolhido para desempenhar essa atividade, o professor se tornava, muitas vezes, líder comunitário e até auxiliar do pastor.

 

O ensino da língua alemã era realizado em alemão padrão. Os imigrantes, especialmente os filhos destes, falavam dialeto nas suas casas e aprendiam o alemão culto na escola. Isso era um aspecto de grande relevância, pois era o meio de ligação, conforme anotações do autor do presente texto, entre as comunidades que falavam a língua alemã, porém, em dialetos variados.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, os alemães, no Brasil, consoante FAUSEL (1959, p. 11 – 12), ficaram “envergonhados” de sua terra natal. Aos poucos, com influência do patriotismo brasileiro, eles foram se orgulhando dela novamente. Nessa época, eles foram proibidos de falar alemão ou praticar qualquer atitude que envolvesse esse idioma, como por exemplo: ler, escrever etc. Segundo relatos dos moradores mais antigos de Linha Imperial, localidade de Nova Petrópolis – RS, eram realizadas, inclusive, vistorias nas residências à procura de livros e quadros que fossem em língua alemã. Os imigrantes chegavam a enterrar seus livros e a colocar fotos de família sob as imagens ou os escritos dos quadros.

 

Surgiu, aos poucos, a necessidade de se saber a língua portuguesa. Assim que os professores sabiam o básico, era inserido o português nas escolas, porém, como língua “estrangeira”. Os professores sentiam dificuldades para lecionar o idioma oficial do Brasil, tampouco receberam auxílio do governo nessa tarefa, ou melhor, o governo não demonstrou interesse algum na área da educação.

 

É interessante salientar que as escolas, ainda segundo apontamentos do autor dessa pesquisa, eram também acusadas de sentimento pátrio e de traição, principalmente na época das guerras mundiais.

 

            Mas não foram somente os alemães que sofreram acusações ou eram vítimas de deboche, por falarem dialetos. Os italianos, os poloneses e outros grupos minoritários que habitavam o Rio Grande do Sul, também sofriam esse tipo de zombaria. A sociedade via, muitas vezes, o dialeto como “a língua dos colonos”. 

 

 

  • O Hunsrückisch falado no Rio Grande do Sul

 

A língua alemã no Rio Grande do Sul oferece campo amplo para estudos e pesquisas dialetológicas. Segundo FAUSEL (1959, p. 7), todos os dialetos alemães estão representados no Brasil. Esse fato mostra a importância da pesquisa nessa área, pois só o Hunsrückisch já apresenta uma diversidade lingüística enorme e, ainda, existem inúmeras outras variantes minoritárias a serem estudadas.

 

            Como já foi relatado, o maior grupo que emigrou para o Brasil são os falantes do Mosel- e Rheinfränckisch e Pfälzisch. Em segundo lugar, aparecem os falantes de Pommerisch, que vêm do nordeste alemão. Esses se estabeleceram, principalmente, no Espírito Santo, em Santa Catarina e no sul do Rio Grande do Sul. Logo depois desses, vêm os imigrantes que falavam o Westfälisches Platt. Esse é, até hoje, falado na região do Vale do Taquari e é conhecido aqui, no Brasil, como “sapato de pau”. Na Alemanha, eles se localizavam no noroeste, na região onde fica o estado de Nordrhein-Westfallen.

 

            Algumas variantes como: Sächsisch, Österreichisch, Hessisch, Alemannisch e Berlinisch, são faladas raramente. Conforme FAUSEL (1959, p. 9), apenas algumas pessoas ou famílias falavam esses dialetos. Por serem um grupo muito pequeno e, por isso, fraco, praticamente desapareceram com o decorrer dos anos. Aqui entra a questão do grupo dos Hunsrücker, por ser um grupo grande e, conseqüentemente, forte; através das migrações dos povos entre as colônias, acontece a eliminação, ou melhor, o enfraquecimento das demais variantes.

 

            O Hunsrückisch seria, então, uma língua que possui traços de todos os dialetos germânicos. Já que o surgimento de novas colônias no Rio Grande do Sul favorecia a migração dos povos e, conseqüentemente, a mistura entre os falares, acredita-se que surgiu uma nova língua. Essa seria uma língua que uniu e pegou características de todos os dialetos falados no Sul do Brasil e, por isso, crê-se que o Hunsrückisch é uma língua coiné, ou seja, uma língua comum, resultado do contato entre idiomas.

 

Fábio Anschau

Licenciado em Letras: português/alemão pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

ALTENHOFEN, Cléo Vilson. Hunsrückisch in Rio Grande do Sul: ein Beitrag zur Beschreibung einer deutschbrasilianischen Dialektvarietät im Kontakt mit dem Portugiesischen. Stuttgart: Franz Steiner Verlag, 1996.

 

ANSCHAU, Fábio. O Hunsrückisch: uma variante da língua alemã falada em Linha Imperial – Nova Petrópolis/RS. São Leopoldo: Trabalho de Conclusão de Curso, 2006/1.

 

DICIONÁRIO MORFOSSEMÂNTICO DA LÍNGUA PORTUGUESA. São Leopoldo: UNISINOS, 2006.

 

FAUSEL, Erich. Die deutschbrasilianische Sprachmischung. Berlin: Erich Schmidt, 1959.

 

HORST, Cristiane. Der Dialektale und Portugiesische Einfluss in der Schriftsprache: Analyse von Schüleraufsätzen der 8. Klasse der Schule “Escola Municipal de Colinas” in Colinas – Mit Vorschlägen für den Unterricht Daf. São Leopoldo: Trabalho de Conclusão de Curso, 2001/2.

 

KRUG, Marcelo Jacó. O Hunsrück: uma variante da língua alemã falada na região de Lajeado, Forquetinha e Marquês de Souza. São Leopoldo: Trabalho de Conclusão de Curso, 2000/2.

 

SCHWARZ, Ernst. Die deutschen Mundarten. Göttingen: Hubert & Co., 1950.

 

 



[1] Tradução do autor: O Hunsrückisch falado no Brasil contém aspectos de todos os dialetos falados no Hunsrück.

[2] Segundo o Dicionário Morfossemântico da Língua Portuguesa (2006), Orkut é uma ferramenta de interação social, criada por um analista de sistemas do Google, o cidadão turco Orkut Buyukkokten.

[3] Uma palavra é polissêmica quando possui várias acepções, ou melhor, quando permite mais de um significado.

[4] Anotações feitas durante a disciplina Seminário Temático V: imigração alemã na América Latina, que é oferecida pelo Curso de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS.

 

 

 

Rheinland-Pfalz

 Início