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Entrevista com o flautista Emmanuel Pahud

Entrevista com o flautista Emmanuel Pahud 
 Maio de 2001
por Marcos Kiehl e Sávio Araújo


O flautista Emmanuel Pahud esteve juntamente com a Orquestra Filarmônica de Berlim no Brasil em Maio de 2001, oportunidade em que também deu um masterclass a convite da ABRAF na FAAM . Logo após, poucas horas antes do concerto da Filarmônica no Teatro Municipal de São Paulo, Pahud concedeu esta entrevista a Marcos Kiehl e Sávio Araújo :

Sávio: Qual foi sua impressão sobre a master class e sobre os alunos brasileiros que você ouviu hoje?

Pahud: A natureza humana tem aspectos muito interessantes. Qualquer que seja o idioma ou o país, nós sempre vemos alunos que fazem aquilo que pedimos para que façam ou estão interessados em fazer e também em perguntar. Há também aqueles que já sabem o que querem e muitas vezes não aceitam o que está sendo proposto. É claro que, neste ponto, faz parte do trabalho do professor encontrar um modo correto de falar com o aluno, uma maneira de fazer com que ele faça aquilo que se está pedindo e movê-lo na direção correta. No que diz respeito ao nível de execução dos brasileiros, não somente dos flautistas, mas também de outros instrumentistas que conheço (há muitos deles estudando e tocando na Europa), todos tem um perfil muito alto, tendo como base o nível de execução internacional. Então, eu não sinto que há uma falta de preparação dos músicos deste país. Eu sinto que a vontade e o fato de que a música é parte da vida dos brasileiros desde a mais tenra idade definitivamente ajuda no desenvolvimento musical aqui no Brasil, especialmente se comparamos com a França, com a Inglaterra e outros países do norte da Europa.

Sávio: Você tem um jeito muito charmoso de trabalhar com os alunos, assim como sua maneira de tocar é muito elegante. Ao mesmo tempo, você tem muita energia e vigor, que também é bastante visível na sua maneira de tocar. O que você poderia nos falar a respeito?

Pahud: Esta é a maneira como eu convivo com as coisas em minha vida. A maneira como eu toco é uma representação da maneira como eu vivo. Alguma coisa que eu faça, digamos, de uma maneira mais incisiva, é somente porque eu acho que esta deve ser a melhor maneira para abordar o assunto. Por outro lado, em outras situações, seja tocando ou com as pessoas, eu posso ter essa atitude mais charmosa - como você disse - de me relacioonar com as coisas. Eu acho que na música e no seu caráter, ela tem que estar viva, representando algo vivo ou alguém que esteja vivendo. O tempo que passamos juntos numa aula, num concerto ou em qualquer outra situação, é um tempo onde a música está viva, como ela estava, por exemplo, quando um compositor a escreveu num pedaço de papel. Se tocamos um estudo, uma sonata ou um concerto, significa dizer que estamos compartilhando com a platéia, conosco, por meio do instrumento, uma parte da vida desse compositor. A abordagem é reviver estes momentos. Portanto, algumas vezes temos que ser mais agressivos, outras mais relaxados, em outros temos que tocar mais intensamente, alguns precisam ser tristes e outros felizes e assim por diante. Acredito que o contraste é uma maneira muito simples, fácil, de lidar com as coisas; dentro destes dois extremos, o que procuro fazer é alcançar o maior número possível de nuances, sutilezas; há muitos degraus entre estes dois pontos, como nas dinâmicas, nas expressões, na velocidade do vibrato. Na realidade, eu não gosto da palavra vibrato, prefiro me referir a uma vibração. O ar está vibrando dentro da sala, isto é a música, o som; o som é tão somente o ar em movimento. Se tocamos uma nota lisa, ela não é interessante, assim como não é interessante uma vibração muito ampla, chacoalhando as notas; não é uma vibração, é alguma outra coisa; eu prefiro um tipo de vibração, digamos, mais dentro do som.

Marcos: Você poderia nos dizer um pouco sobre como você começou a tocar flauta, com que idade?

Pahud: Ok, eu comecei a estudar flauta em 1976, com seis anos de idade. Dois anos antes, nossa família mudou-se para Roma, onde vivemos por quatro anos. Nossos vizinhos do andar de cima eram também franco-suíços, assim como nós, e músicos. O pai era um flautista que estudou na mesma época de Nicolet e Larde, no Conservatório de Paris, com Marcel Moyse. Eu passei a freqüentar a casa deles e ter aulas de flauta.

Sávio: Então foi uma coincidência ou não?

Pahud: Foi absolutamente coincidência. Vocês sabem, eu nasci no dia 27 de Janeiro, que é o dia do nascimento de Mozart. Quando chegamos a Roma, o terceiro filho desta família (que também era flautista) estudava o Concerto em Sol maior para seu exame e eu então falei a meus pais, eu tinha quatro ou cinco anos, que eu queria tocar aquela peça. Eu não sei se eu estava impressionado com o pai ou com o filho, mas de qualquer maneira foi a minha escolha. Então, quando eu tinha cinco anos, meus pais me deram uma flauta doce para primeiro aprender as notas e depois eu ganhei minha primeira flauta transversal, uma Yamaha 281-S. Eu estava tão feliz a primeira vez que peguei essa flauta, sorrindo o tempo todo, que não conseguia tocar nada, nenhuma nota. Então, no primeiro ano, passei a ter aulas com esse terceiro filho, que estava se formando. Depois ele mudou-se para estudar física ou matemática e eu passei a estudar com seu pai, quando então, comecei a estudar com os métodos do Moyse. E isto tem me acompanhado a vida toda: o primeiro concerto que eu toquei com uma orquestra ou o primeiro concurso que ganhei foi com o Concerto em Sol de Mozart. Foi a peça com a qual consegui a posição em Berlim; foi também o primeiro CD de concertos que gravei. Então, acredito, tenho sido guiado por este bom começo, desde a coincidência de meu nascimento na mesma data do nascimento de Mozart até o Concerto em Sol maior. A última parte desta história é que eu estava tocando em Salzburg, no último dia 27 de Janeiro, durante as comemorações da semana Mozart e era exatamente o Concerto em Sol, justamente no dia em que completei 30 anos. Bem, esta foi a maneira como eu comecei a estudar flauta, com aulas particulares. Depois nos mudamos para Bruxelas onde passei a ter aulas numa escola de música. Tínhamos uma assinatura para a Ópera de Bruxelas e constatamos que havia um novo flautista tocando na orquestra, Carlos Bruneel. Passei a estudar com ele e foi muito importante, pois foi ele quem me ensinou a ter uma grande flexibilidade com o som, como relaxar, usar a parte alta do corpo e controlar melhor a respiração, como deixar a sonoridade fluir, como manter um suporte no piano, etc. Eu aprendi muito com ele. Ele era bem jovem e eu mais jovem ainda, mas de alguma forma eu estava seguindo seus passos cinco ou seis anos mais tarde. Ele me levou a participar de alguns concursos que ele mesmo havia participado e vencido cinco ou seis anos antes. Num certo momento, quando eu estava completando 17 anos, já havia terminado a escola normal e decidi me inscrever no Conservatório de Paris e também no Conservatório de Basel, para estudar com Peter-Lukas Graf. Em junho daquele ano passei no teste de Basel e iniciei meus estudos lá, mas em outubro passei no exame de Paris e abandonei Basel, o que resultou em meu primeiro confronto diplomático. Não que eu tenha ficado em um má situação com Peter-Lukas - ainda tenho um bom relacionamento com ele, inclusive estarei participando das comemorações de seu 70o aniversário, não tenho certeza se no final de maio ou início de junho. De qualquer maneira, no Conservatório de Paris tive aulas com Michel Debost até sua saída, quando então passei a estudar com Alain Marion, durante meu terceiro ano no Conservatório. Ao mesmo tempo, eu havia ganhado alguns concursos na Holanda, na Itália e no Japão, e obtive meu primeiro emprego em uma orquestra - a Orquestra Sinfônica da Rádio de Basel, em 1989 - o que foi muito importante, pois ainda estava estudando e não tive que enfrentar o grande problema de procurar emprego após o término dos estudos. Em Basel, por outra coincidência, fui vizinho de Aurèle Nicolet.

Sávio: Você fez menção à concursos. Como você vê a participação em concursos e como os concursos o ajudaram no desenvolvimento de sua carreira ou até mesmo em obter as posições nas orquestras?

Pahud: Os concursos são bons para duas coisas: primeiro, você tem que estudar muito para estar em forma, tem que estar com uma técnica bem aprimorada ou então a gente enfrenta problemas. A segunda é que se a gente ganha, acaba tendo muitas oportunidades para tocar concertos. O dinheiro não o mais importante - é claro que precisamos ganhar uns quatro ou cinco concursos para podermos comprar uma excelente flauta de ouro ou talvez um outro instrumento mais barato - mas é um dinheiro que se ganha uma só vez e acaba, como qualquer outro recurso. Mas o que realmente me ajudou foram as experiências dos concertos. Muitas pessoas ganham concursos mas não suportam as pressões depois dos concursos. Elas estão preparadas para suportar estas pressões durante os concursos e acabam não indo bem no concerto de gala e nas oportunidades de concertos após os concursos. E então ninguém mais as contrata para outros concertos. Isto é muito comum nos concursos e eu fui muito feliz e tive muita sorte, porque antes de participar dos concursos internacionais, eu tive muitas oportunidades de tocar concertos por ter vencido muitos concursos locais na Bélgica, que também é um país que incentiva muito a participação dos alunos em concertos - ainda enquanto estão estudando em conservatórios - antes mesmo deles atingirem um alto nível de performance. Então, desta forma, eu estava um pouco à frente de muitos flautista de minha geração e até mesmo dos de gerações anteriores, porque eu tive muitas oportunidades de tocar concertos. Eu estava mesmo à frente porque quando eu parei de fazer concursos, com 22 anos, os flautistas de minha geração começaram. Um outro fato que pode ter me ajudado a vencer os concursos foi que comecei a estudar flauta ainda criança. Apesar de não ter tido um desenvolvimento tão rápido - meus professores impuseram um ritmo correto, sem forçar, digamos, sem colocar o motorista à frente do carro - tive uma formação bem sólida e que me permitiu estar bem preparado quando a oportunidade chegou. Acredito que esse fator foi determinante em minha formação musical.

Marcos: E sobre o teste de Berlim? Você fez esse teste logo após ter ganhado o concurso de Genebra.

Pahud: Bem, acho que isso foi também por causa dos concursos. Eu consegui o emprego em Basel logo após o concurso de Kobe (Japão) e o emprego em Berlim logo após Genebra. Entre esses dois concursos eu participei de pelo menos sete testes para orquestras e em alguns deles eu nem mesmo passei da primeira fase.

Sávio: Quais foram essas orquestras?

Pahud: Várias orquestras, como a de Luxemburgo, Paris, Bavarian Radio Orchestra, Orquestra de Colônia e também a Filarmônica de Munique, onde eu passei no teste, mas como logo após venci o concurso de Genebra e passei em Berlim, nem cheguei a assinar o contrato.

Marcos: Então essas experiências com os concurso o ajudaram nos testes.

Pahud: Perfeitamente. E também eu tive muita sorte, pois estava trabalhando em Basel e era vizinho de Nicolet, com quem eu passava muito tempo. Eu devo dizer que Nicolet e sua esposa foram realmente muito importantes para mim, pois me ajudaram muito. Eu estava tendo esta experiência de tocar na orquestra e parecia que tudo estava dando muito certo e de um modo muito fácil. Eu não estava realmente tocando do modo certo e precisava de alguém para me colocar novamente no caminho certo, para fazer um bom trabalho, saber o que era válido, me passar uma visão musical, me mostrar uma outra dimensão. E acredito que Nicolet foi muito importante durante minha preparação para o concurso de Genebra e o teste da Orquestra Filarmônica de Berlim , na qual ele também teve uma experiência. Ele me falou que era uma experiência que me ajudaria por toda minha vida, esta experiência nesta orquestra - e agora que estamos falando destas experiências eu entendo o que ele queria dizer; eu estou tendo esta experiência; ele esteve lá por oito anos e eu já estou há sete: a maneira como tocamos uma frase musical, que pode ser feito somente daquele jeito; um tipo de evidência que a frase musical tem.

Sávio: Esse era um outro assunto que gostaria de abordar: como a experiência com a Filarmônica de Berlim o influencia?

Pahud: Esta comunicação do tempo, de um naipe para outro, de tocar junto, com uma excelente orquestra como Berlim, de saber como é estar dentro de um conjunto como este, é extremamente importante para um músico. A oportunidade de estar junto a grandes músicos como Abbado, Baremboim, Osawa, Marta Argerich, Polini, Simon Rattle, Carlos Kleiber... não só como músicos mas também como seres humanos... peço desculpas àqueles que eu não mencionei, mas todos estes grandes músicos; é uma grande experiência musical e eu tenho aprendido muito mesmo.

Marcos: Você não se arrepende de estar deixando a orquestra?

Pahud: Não. Não sou o tipo de pessoa que se arrepende. Eu estou casado há sete anos, nos conhecemos há dez anos; estou em Berlim há sete anos, estive em Basel por três anos, ou seja, já estou tocando em orquestras há dez anos. O que será que vou fazer depois? Eu sou o único flautista no planeta, no momento, com um contrato com uma grande gravadora. Talvez isso não seja tão importante, talvez o futuro não seja o mercado de gravações, alguma outra coisa, mas eu sinto que eu possa ser um dos últimos a representar esta geração de músicos. Ainda, quero ter mais liberdade, com vistas ao futuro da produção musical. Uma vez que eu assinei este contrato com a EMI e as coisas estão caminhando bem, com muitas propostas de concertos, ótimas turnês e convites para voltar novamente - a coisa mais importante para o músico é ser convidado a voltar, o que significa que o público o quer de volta. Também nós decidimos que era tempo de termos nossos filhos e hoje eu tenho dois filhos pequenos, um e três anos, e estou enfrentando uma situação onde minha relação com o tempo e minha profissão é diferente e eu preciso de mais tempo para matar minhas curiosidades. Preciso aprender novas músicas, novas culturas. Vocês sabem que a flauta, como um instrumento étnico, é representado por duzentas formas diferentes no planeta. Quero aprender os modos de tocar os instrumentos. Basicamente, já passei por tudo o que foi escrito para a flauta tradicional, seja na orquestra, como solista ou em grupos de câmara. É claro que há muitas obras que eu não experimentei, mas por uma boa razão. Eu também quero me aprofundar ainda um pouco mais em nossa música clássica, especialmente a música barroca, que eu não tenho feito muito até agora, mas eu preciso do instrumento certo para isto, talvez uma com tubo cônico e afinação em 415, para eu poder tocar música barroca com os grupos barrocos. Hoje eu não tenho o tempo necessário, ou mesmo a flexibilidade para aprender um novo sistema de dedilhado para poder usar a flauta barroca, então eu prefiro tocar com a flauta moderna. A afinação não é um problema para mim, pois é o instrumentista que faz a afinação e não o instrumento.

Sávio: Voltando um pouco à experiência com a Filarmônica de Berlim , como você vê as críticas que muitos solistas fazem em relação aos músicos de orquestra que também seguem uma carreira como solista?

Pahud: Acredito que a experiência com a Filarmônica de Berlim ajuda muito. Se olharmos para as carreiras de Nicolet e Galway e também para a situação em que estou agora, podemos ter uma boa visão do porquê de nós três termos sentido que este passo era necessário em um certo momento. Nós fizemos isso por razões diferentes, de maneiras e em épocas diferentes. Isso tem muito a ver com a situação individual de cada um e suas atitudes face à música e à orquestra. Já ouvi muitos de meus colegas da Berlim ou de outras orquestras tocarem como solistas e, algumas vezes, fiquei um pouco desapontado porque eu achei que eles tocavam muito melhor na orquestra. Algumas outras vezes eu achei que eles realmente tinham esta "coisa" especial que nós temos nesta orquestra, na Filarmônica de Berlim , que nos ajuda a fazer a música com um fundamento, que tem um tipo de evidência musical que a gente não pode negar, não passa despercebido.

Sávio: Quais são seus projetos para o futuro? Com a morte de Rampal e o fato de que Galway está reduzindo o número de suas apresentações, você acredita que, de alguma forma, você será mais requisitado para concertos, além do que você já vem fazendo?

Pahud: Bem, no ano passado, só para vocês terem uma idéia do quanto eu viajo, três das cinco companhias aéreas que utilizo regularmente alteraram meu status para o "Silver Club" dentro de seus programas de milhagens. Eu acho que eu estive em cento e vinte vôos. Toquei cento e sessenta concertos, sendo oitenta e cinco como solista ou camerista e setenta e cinco com a orquestra. Agora, o fato de que eu estou deixando a orquestra fará com que eu tenha, pelo menos, setenta e cinco noites livres em minha vida, as quais eu pretendo passar junto à minha esposa, sair para jantar e passear, enfim, procurar uma qualidade de vida melhor. Isto, é claro, fará com que eu possa relaxar um pouco mais e me ajudará a aprender novas coisas, já que estou num ponto onde tenho tocado o mesmo repertório que aprendi até os 25 anos, mais o repertório sinfônico, mas não aprendi nada realmente novo, somente alguma coisa de música de câmara. Mas, vocês sabem, quando a gente pega uma música e sabe que o concerto é no dia seguinte ou no próximo, a gente acaba trabalhando muito rápido, de uma maneira muito eficiente, mas, de alguma forma, isto não me satisfaz. Eu gostaria de poder despender um pouco mais de tempo e estabelecer um elo maior com a música e com a interpretação. Este é um dos objetivos. Por outro lado, eu me sinto muito triste e, de alguma forma, sinto-me como um órfão, pelo fato de Jean-Pierre ter nos deixamos há alguns dias atrás. É como se uma chama de musicalidade e do universo flautístico tivesse desaparecido. Foi como quando Oistrach nos deixou ou ainda como se Rostropovich nos deixasse. É muito triste para a música francesa, para a flauta e para o universo musical como um todo. Algumas pessoas podem pensar um pouco assim, que o fato de Jimmy estar diminuindo seu ritmo, que Nicolet não está mais tocando e que Rampal nos deixou, isto pode liberar um pouco o espaço para a próxima geração. A próxima geração é representada por nomes como Adorjan, Galois, entre outros. Eu não acredito que há um vazio a ser preenchido. Estas pessoas são o que são porque são grandes artistas e estão nestas posições por causa daquilo que eles são. Eles são insubstituíveis. Talvez não haverá, nos próximos cinqüenta anos, um outro grande flautista como eles foram; eu espero que não. Até agora, eu tenho uma vida profissional muito intensa e de muito sucesso. Eu pretendo, através de minha interpretação, trabalhar no sentido de fazer aumentar a curiosidade que existe em torno da flauta e da execução deste instrumento nos próximos anos, seja na música clássica ou não. Meu objetivo, meu desejo, é que, quando eu estiver com cinqüenta anos, eu possa estar tocando da mesma forma, pelo menos no mesmo nível de quando eu fiz o teste para Berlim; que eu ainda seja capaz de conseguir o emprego nessa idade. Para isto, é necessário um estudo diário, uma certa disciplina, que não é facilmente compatível com uma vida nos aeroportos, tocando cento e sessenta concertos por ano.

Marcos: Você tem gravado bastante, não é? Você acaba de gravar os quartetos de Mozart.

Pahud: É verdade. Até o momento eu já gravei uns onze ou doze CDs. Eu não gosto de todos eles. Os quartetos de Mozart foram gravados no ano passado e meu último trabalho já deve ter sido lançado na Europa na semana passada, com obras de Prokofieff, Debussy, e outros compositores. É um CD com inspiração mais moderna.

Sávio: Você é artista contratado de alguma fábrica de flautas específica?

Pahud: Não, eu não sou porque não pretendo comprar nenhum instrumento novo. Tenho tocado com minha Brannen Cooper e com um bocal Sheridan por onze anos e só tenho a agradecer à este instrumento, pois ele tem me ajudado muito e estou muito feliz. Se eu, um dia, experimentar um novo instrumento ou um novo bocal e eles me ajudarem a transpor, diretamente para a música, todas as minhas idéias, então eu possa mudar. Eu acredito que todos os tipos de melhorias ou inovações são bem vindas, mas eu não estou procurando por um novo instrumento, a não ser uma flauta barroca.

Marcos: Então você acredita que o instrumento não é tão importante para o flautista?

Pahud: Desde que ele esteja funcionando tecnicamente, que não esteja vazando, está tudo bem. No entanto, o bocal é muito importante, porque ele tem que compensar para algumas habilidades. Por exemplo, se você tem um som muito grande no grave, você precisa de um bocal que torne este som mais compacto; no mesmo sentido, se a sonoridade é muito fina nos agudos, precisamos de um bocal que torne-a mais aberta. Então, o bocal é o ponto de equilíbrio entre o instrumentista e o instrumento. Uma vez estabelecido este equilíbrio, não há razões para mudanças. Muitos de meus colegas posam para fotos para alguns fabricantes, mas na realidade eles tocam com outras marcas. Eu não vejo um sentido nisto. Também, eu enfrentei algumas dificuldades quando eu troquei instrumentos, e olha que só fiz isso quatro vezes. Não era porque os instrumentos eram melhores do que os anteriores. Eles me ajudaram a desenvolver novas habilidade e qualidades, mas é que nas primeiras semanas era tudo maravilhoso e depois de dois ou três meses comecei a ter que descobrir muitas coisas novamente, tinha que fazer música neles e não foi muito fácil. Não acho que trocar de instrumento seja muito seguro para um músico. Alguns estão sempre buscando um novo instrumento ou experimentando novos bocais. Muitas vezes é porque eles estão tentando resolver alguns problemas; se encontram algo que não faça aumentar os problemas, então tudo bem. Mas eu tenho uma outra visão sobre isso. Prefiro trabalhar meus próprios problemas e resolvê-los. É uma atitude que tenho em relação à minha vida também; fui ensinado assim e vou procurar ensinar meus filhos dessa forma.

Sávio: Sendo ainda tão jovem e com uma carreira tão brilhante como a sua, você sente algum tipo de pressão em termos do que é esperado de você e de como você pode influenciar novas gerações de flautistas?

Pahud: Bem, primeiramente obrigado por dizer que ainda sou jovem. Já tenho trinta anos e acredito que boa parte de minha carreira profissional já passou. Espero, no entanto, que os melhores anos ainda estejam por vir. Se houvesse um jeito de manter os flautistas vivos e tocando até os cento e vinte anos, eu ficaria muito feliz. Espero que eu seja capaz de não tocar as peças como eu estava tocando antes, não que eu não gosto do que fiz, mas há a necessidade de se crescer, amadurecer, e eu espero por isso também. Eu reconheço que o fato de ter estado na Filarmônica de Berlim me proporcionou uma grande exposição na mídia, assim como as gravações que já fiz. Tudo isto traz uma certa responsabilidade, ainda mais agora como professor do Conservatório de Genebra , terei uma responsabilidade maior com meus alunos e com a escola. No entanto, isso não exerce nenhum tipo de pressão sobre mim. Estou fazendo meu trabalho da melhor maneira que posso. Se as pessoas estiverem felizes comigo, vierem aos meus concertos e quiserem me ouvir tocando novamente, então tudo bem. Mas se isso não acontecer, então não há porque continuar, é melhor parar e será melhor para todos. Isso é importante para mim e para minha família. O que eu faço no palco é importante para que eu e minha família tenhamos uma vida honesta e positiva. Se, tocando, eu puder proporcionar coisas boas para o público que me assiste e para minha família, então estarei muito satisfeito e feliz. Esse é meu objetivo. Não vejo nenhuma responsabilidade face ao sucesso ou aos flautistas, seja os do passado ou ainda para com aqueles que estão por vir. Isso não é relevante para mim.

Marcos: Soubemos de uma história de que você foi concebido no Rio de Janeiro. Você pode nos falar um pouco sobre isso?

Pahud: Essa é uma história engraçada, pois eu poderia ter nascido no Brasil ou na Argentina, caso meus pais tivessem ficado por estes lados do mundo mais tempo. Eu fui concebido aqui, durante a época em que meus pais moravam no Rio, no Jardim Botânico. Mas como meu pai trabalhava no ramo de telecomunicações e viajava muito, se mudaram para Buenos Aires durante a gravidez e logo depois para Genebra, onde nasci. Eles ficaram no Brasil durante um ano. Depois vivi um ano em Bagdá, um ano em Paris, um ano em Madri, quatro anos em Roma, nove anos em Bruxelas, três anos em Paris, dois anos em Basel, um ano pela Europa, entre Paris e Munique, e sete anos em Berlim. Até Bruxelas eu vivia com meus pais, mas depois de lá viajei desse jeito devido aos meus estudos e meu trabalho. Portanto, viajar e mudar não é um problema para mim.

Sávio: Uma última pergunta. Uma curiosidade. Como você está encarando sua carreira e o fato de ser pai de dois filhos agora?

Pahud: Muito bom. Tem proporcionado muitos momentos interessantes e também fez com que eu mudasse minha atitude face à vida profissional. Antigamente, eu não era capaz de dizer não e agora acredito saber o que é bom e importante e o que não é ou que, pelo menos, eu sinto que eu tenho esta responsabilidade, para com meus filhos. Definitivamente, esta é uma atitude que é completamente diferente de como era antes e, certamente, o é no caso de minha vida profissional.

Sávio: Fantástico. Obrigado por este tempo juntos e também pela aula de hoje a tarde, que foi incrível para todos nós.

Pahud: Foi um enorme prazer para mim e eu espero voltar outras vezes. Quero voltar e participar de um Festival aqui no Brasil. Ainda não deu certo por causa da agenda da orquestra. No próximo ano não acredito que seja possível porque meus filhos ainda estão muito pequenos, mas talvez em dois anos possamos vir todos pra cá, numa turnê, participar do Festival e passarmos uma semana curtindo este país.

Ouça e assista as grandes perfomance de Emmanuel Pahud no Blog Estudantes de Flauta.

Entrevista realizada por Marcos Kiehl e Sávio Araújo




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