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Como os textos bíblicos podem ser mal interpretados

por Adriano Ribeiro dos Santos

 
Vamos nos concentrar em erros que os evangélicos cometem ao interpretar a Bíblia, pois o incrédulo não possui condições de compreender o sentido exato das Escrituras (1Co 2.14).  Separamos cinco situações onde a Bíblia pode ser mal interpretada, entretanto, mesmo reconhecendo que esta lista não é exaustiva, sabemos que muitos dos erros teológicos surgem da negligência de alguma(s) dessas áreas. São elas:

 

Quando a Bíblia não é usada para responder a própria Bíblia. Muitos teólogos tentam usar fontes extra-bíblicas como a emoção, a razão, a tradição ou a experiência para responder às questões doutrinárias expostas na Escritura. Isso nos leva ao relativismo teológico, visto que a resposta está na experiência e cada ser humano possui uma imensa variedade delas. Sendo assim, a Palavra de Deus torna-se uma mera coadjuvante, pois está à mercê da experiência humana. O que na verdade deve ser feito é o uso intenso das Escrituras e, quando há um texto que é mais complexo, procura-se respondê-lo com textos mais claros relacionados ao mesmo tema.

 

Quando a Escritura não é interpretada de forma literal. A Bíblia não é um livro escrito em códigos -  ela é a Palavra de Deus “viva e eficaz” (Hb 4.12), capaz de transformar a vida do ser humano. Quando a Escritura é interpretada de forma a se tentar desvendar algo de oculto que exista no texto, chega-se às mais variadas interpretações do Texto Sagrado. Novamente cai-se no relativismo doutrinário, visto que um ministro que encontra os irmãos de Golias nas cinco pedras carregadas por Davi e outro ministro encontra em cada pedra uma das letras que formam o nome Jesus e ainda outro que está disposto a lançar o diabo (5 letras) da sua vida. Entretanto, no grego, o nome Jesus possui seis (6) letras em mais de quinhentas ocorrências (Iesous ou Iesoun) e, na maioria das vezes “diabo” possui oito (8) letras (diabolos ou diabolou). Sendo assim, o ministro peca por não interpretar literalmente o texto e por não atentar para o sentido histórico gramatical do texto. Para aqueles que já estão prontos a esbravejar e sentindo o desejo de citar textos como Salmo 98.8, Mateus 5.29-30, João 6.53, entre outros, minha resposta é que, a Bíblia só não deve ser interpretada literalmente quando ela demonstra essa impossibilidade, como fazemos em nossa lingua. Ou será que alguém interpreta literalmente quando uma pessoa afirma que sua “cabeça está explodindo” (de dor), ou que o mundo inteiro foi à festa de aniversário ou até que alguém está à beira da morte porque não comeu seu chocolate de preferência. Portanto, a Bíblia deve ser interpretada literalmente, dentro dos parâmetros da linguagem inserida no texto[1].

 

Quando não se atenta para o sentido Gramático-Histórico do texto. Deve-se estudar as particularidades da língua (Grego e hebraico) e a cultura envolvida no momento em que o autor escreveu para se chegar a uma conclusão correta do texto. Isso porque o estilo dos livros proféticos são diferentes dos poéticos que por sua vez são diferentes da cartas paulinas e assim por diante. Trata-se de uma questão natural, pois quando entramos em contato com qualquer outra literatura, a leitura de um livro poético é diferente de um romance, que é diferente de um suspense, etc. Portanto, estilos diferentes possuem particularidades diferentes e, para serem corretamente interpretados, é necessário a identificação do seu estilo.

 

Quando o contexto é deixado de lado. Pegar versículos isolados do contexto imediato (versículos anteriores e posteriores e o livro como um todo) e do contexto geral (Bíblia) é uma grande armadilha para cometer graves erros doutrinários. Por contexto também podemos dizer a situação da sociedade e/ou igreja envolvida naquele momento onde o livro ou carta foi escrita. Por exemplo, por que Paulo diz à igreja filipense que “nossa pátria está nos céus” (Fp 3.20)? Resposta: Porque os filipenses eram colônia romana e desfrutavam de privilégios do império. Paulo ressalta que a pátria (cidadania) dos filipenses não era Roma mas algo muito superior, o céu, na presença do Senhor (Kyrios) Jesus, que é superior ao kyrios terreno, que era César.

Inúmeros textos são mal interpretados por serem “pinçados” do seu contexto para “criar” uma nova doutrina. Alguns deles servem para embasar a maldição hereditária (Êx 20.5), não admitir que o crente fique doente (Is 53.4), a liberdade cristã para fazer o que quiser na igreja (2Co 3.17), o triunfalismo cristão (Fp 4.13) entre muitos outros. Esses e outros textos serão tratados em outros artigos.

 

Quando textos doutrinários são deixados de lado, dando preferência aos textos históricos. Devemos lembrar que ambos têm seu valor e são inspirados por Deus. Entretanto, o texto histórico não pode contrariar o texto doutrinário. Podemos exemplificar com textos doutrinários que afirmam que Deus “odeia o repúdio” (Ml 2.16) e “o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.6) e ainda outros textos muito claros com relação à preservação do matrimônio (Rm 7.2-3; 1Co 7.10-16). Por outro lado, existem na Bíblia relatos onde líderes da nação obrigaram muitos a se divorciarem (Ed 10.9-11, 19; Ne 13.23-31).

Esses textos históricos não poucas vezes são usados para argumentar que Deus aprova o divórcio e o recasamento. Se Deus não está aprovando o divórcio com estes textos, qual é a interpretação real do texto? Temos que olhar para a intenção autoral e perceber que esse livros foram escritos com o intuito de mostrar a restauração do povo de Israel que outrora estava no cativeiro devido a sua desobediência à Deus. O povo estava voltando para a terra que Deus havia prometido, e era necessário que, além do povo reerguer os muros, o Templo e suas casas, era essencial que o povo fosse restaurado espiritualmente. A promessa da terra era ao povo judeu e não aos povos pagãos. O que Deus estava fazendo era manter a promessa de uma terra ao Seu povo, que não deveria se descaracterizar em casamentos pagãos, assumindo um papel de rebeldia contra Deus, visto que um casamento misto provavelmente resultaria em adoração pagã (Dt 7.3-4; Ml 2.11). Portanto, a ênfase do texto está na pureza espiritual do povo diante de Deus e não numa permissão para o divórcio.

 

Quando a intenção autoral é negligenciada – a Bíblia possui apenas um sentido na sua interpretação. Quando líderes concentram-se em procurar sentidos ocultos no texto, eles deixam de analisar a intenção do autor, concluindo que o texto possui significados diferentes em diferentes épocas. Não somente isso, mas o texto pode ter significado distinto para os ouvintes.

Isso tudo é resultado da interpretação alegórica que, ao tentar achar um significado além do literal, abre um leque de falsas interpretações. Para buscarmos interpretação correta do texto devemos nos preocupar em descobrir a intenção do autor ao escrever aquela passagem. Para fazer isso, é necessário que a interpretação seja feita de forma literal, a não ser que o autor indique o contrário. A intenção autoral pode ser descoberta através do estudo da lingua usada para escrever a passagem, as circunstâncias que rodeavam o autor quando este escreveu, a geografia do local, etc.

 

BIBLIOGRAFIA

A Bíblia Anotada. Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada. Notas de Charles Caldwell Ryrie: Tradução de Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, -São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, 2a. ed., 2 vols. São Paulo: Vida Nova, 2000.

JUSTINO, Rodrigo dos Santos. Apostila de Hermenêutica. Atibaia-SP. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 2003.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

ZUCK, Roy B.. A Interpretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1994.

 

Programas de computador

Bíblia on-line 2.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.

e-sword, versão 2008 (programa gratuito disponível no site www.e-sword.net).

 

 



[1] Para maiores detalhes leia o resumo sobre “Figuras de linguagem na Bíblia”.

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