As Danças Circulares como caminho de autoconhecimento

AS DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS COMO CAMINHO DE AUTOCONHECIMENTO (primavera, 2011) Por Estela Gomes

O autoconhecimento é um dos portais fundamentais do acesso à transformação e evolução espiritual. Deveria ser buscado antes mesmo de sairmos em busca do conhecimento externo, pois diz respeito à nós mesmos, ao caminho de dentro, de nossas origens e do encontro com a essência, aquilo que existe de mais sagrado em nós e na vida. Na cosmovisão de várias culturas dos povos existem pelo menos três questões básicas que nos movem: de onde viemos, quem somos e para onde vamos?

Conhecer a nós mesmos é uma das chaves essenciais que abre as portas para a autorealização plena, para o encontro com nosso centro e a essência que habita em nós, para o caminho em busca da paz e felicidade. Eu encontro nas Danças Circulares Sagradas este caminho de autoconhecimento, da conexão com o centro, de “religação” com o aspecto transcendental da vida, da busca da harmonia das relações comigo mesma, com o outro e com toda a comunidade de vida.

Vejo nas Danças Circulares Sagradas uma das possibilidades de trilharmos o caminho do autoconhecimento por muitos motivos: por ser uma atividade de convivência em grupo ao mesmo tempo em que gera a consciência individual; por propor o movimento do corpo todo no espaço do círculo e de formas maravilhosas que carregam um potencial simbólico como o próprio círculo, triângulos, espirais, linhas onduladas e outras; por ter como natureza o potencial participativo, que inclui a todos, que traz através da música e da dança o ser humano mais próximo do que é; por trazer símbolos da cosmovisão dos povos, símbolos universais que podem ser acessados e promover “insights” para a vida atual; por nos colocar para aprender sempre novos passos e por nos fazer dançar muitas vezes os mesmos passos, dançar a diversidade de ritmos dos povos; por encontrar o outro, por buscar manter a conexão com os vizinhos, às vezes trocando de lugar com o parceiro; por buscar a harmonia e expressão da gestualidade; por propor a leveza, a alegria, a rapidez, a soltura, a serenidade, a busca, o encontro, a meditação ativa, o silêncio...

A partir do momento em que as Danças Circulares Sagradas nos convidam a nos colocarmos em círculo, equidistantes do centro, para percebermos a nós mesmos e nossas conexões com os eixos vertical e horizontal, nosso lugar na roda da dança como na roda da vida propondo a escuta ao aprendizado da dança, podemos ir ao encontro de nossos pensamentos e sentimentos diante do novo e do processo que envolve o aprendizado. Podemos nos abrir para fazer as conexões com o passado, o presente e o futuro.

Ao percebermos como damos nossos passos na Terra podemos observar o esforço ou a leveza e relacionar esta caminhada com nosso dia-a-dia, com a forma de estarmos presentes no momento atual, os desafios que a vida nos apresenta e as atitudes que expressamos. Como estou fazendo minha jornada?

O passo desafiante é aquele que observo que mais pode nos ensinar e revelar o que é necessário transformarmos antes de aprênde-lo, apreendê-lo, capturá-lo...muitas vezes nem percebemos que não estamos realizando o passo de acordo com o solicitado ou proposto, precisamos de um tempo para nos observar e aceitar, enfrentar que estamos errando e buscar transformar o movimento. A experiência em realizar novos movimentos que nosso corpo parece pedir que realizemos para nos conectarmos com a “alma do povo”, com a sabedoria do passo e do gesto daquele lugar nos transforma por dentro. O que preciso fazer para modificar o meu movimento? Que outros movimentos posso experenciar em mim?

Outro ponto muito interessante neste despertar é trocar de lugar com o parceiro durante a dança. Reconhecermos nossa capacidade de tolerância e paciência se faz necessário neste momento. Como o Mestre Jesus disse há muito tempo atrás é somente quando calçamos o sapato de nosso parceiro e caminhamos com ele que podemos reconhecer o quanto ele é diferente de nós e enfrenta também seus desafios e dificuldades, como podemos aprender com isso! Somente ao enxergar a vida e as situações da perspectiva do outro nosso olhar se modifica e se amplia imensamente e conhecemos mais sobre o outro e sobre nós mesmos.

O caminho de dentro nos conduz para o reconhecimento da sombra. Sabemos que quanto maior a luz tanto maior a sombra. Quantos lugares escuros dentro de nossos pensamentos e no mar de sentimentos possuimos para reconhecer, enfrentar, clarificar, transmutar, perdoar. No espaço das Danças Circulares Sagradas reconhecemos muitas vezes estes lugares escuros ao encontrar no outro um pouco de nós mesmos, o outro como um reflexo de nós mesmos. O quanto o aperto da mão vizinha nos incomoda, o peso do braço elevado nos convida a tolerar e quantas vezes “carregar” o peso do outro além do nosso, o erro dos passos nos perturba, a falta de ritmo do outro nos atrapalha em nossa dança. Compreender como lidamos com estes desafios, o que pensamos e sentimos é o primeiro passo para a transformação de nossos padrões. O tecido de nossa vida pode apresentar coloridos e formas maravilhosas, mas depende da possibiliddae de buscar maior consciência mental, física, emocional e espiritual. Como estou lidando com a minha sombra? Estou trazendo luz aos aspectos sombrios? Reconheço meus limites? Posso transformar em mim alguma atitude que me incomoda?

Conhecer o potencial do nosso corpo físico e suas expressões nos movimentos também pode ser maravilhoso! Observar que o movimento de nossos passos pode se encaixar no ritmo que toca (base que nos sustenta todos os dias), que podemos acompanhar o fluxo mais lento ou mais rápido e até o muito diferente do nosso nos ensina que a capacidade que possuimos de adaptação ao que a vida coloca em nosso caminho pode nos trazer uma enorme tranquilidade e confiança no trilhar a vida. Observar que o movimento dos braços revela o pulsar do coração, a abertura, a contração, a amplitude, a tensão e o encontro com a vida e o outro, pode nos convidar a ampliar a gestualidade dos braços, a abrir para todos os lados, para cima – o Céu, para baixo – a Terra, para o lado – o outro, para o coração – de volta a si mesmo. Como movimento meus braços e como se encontra meu coração?

Observar que o movimento de nossas pernas e pés são como as raízes de uma árvore que buscam alimento, sustentação no solo existente e força para crescer e subir ao alto pode nos auxiliar a perceber onde estamos colocando nossas raizes, em que “serviço” ou trabalho, em que relacionamentos pessoais, em que atividades coloco meu precioso tempo em minha vida atual? Como e onde está a minha sustentação?

Observar como se apresentam nossos movimentos: fluidos e flexíveis, entrecortados e rígidos... a busca da harmonia do movimento exterior pode auxiliar o encontro com a harmonia interior. Como estou me movendo em minha vida? Para onde estou indo? Olho para dentro e para fora de mim num movimento de abrir e fechar como o de uma flor?

Buscar o gesto mais expressivo em meu movimento pessoal é exteriorizar os sentidos que dou à minha vida, é revelar quem eu sou verdadeiramente no mundo e ao outro. É encontrar meu lugar na roda da dança e nos círculos da vida.

Observar como ocupo meu lugar na roda também pode revelar como me coloco nas situações diárias, se ultrapasso meus vizinhos em direção ao centro como se não me importasse com eles, se incluo o outro, se permaneço “fora” da roda preferindo não ocupar meu lugar (seja por medo, timidez, etc), se respeito o espaço que me é oferecido, se utilizo as possibilidades que a vida me apresenta, se busco novos espaços e possibilidades...como estou ocupando meus espaços?

Como é meu processo de aprendizado, eu preciso ver para aprender? Eu preciso escutar as orientações? Eu preciso experimentar e sentir os passos e os gestos? Eu preciso conhecer a história da dança, do povo, do lugar? Eu preciso conhecer os símbolos vivenciados na dança? Eu preciso escutar a música? Eu mantenho padrões de aprendizagem ou estou aberto a novas possibilidades e formas de aprender? Eu faço uso de minhas habilidades? Eu busco desenvolver os potenciais adormecidos que nunca experimentei? Nos desfazermos de velhos hábitos e do que não nos serve mais faz-se muitas vezes necessário para nos abrirmos ao novo e criarmos novas conexões em nossas vidas. Como a forma de aprender se encaixa em meu dia-a-dia?

A busca pelo autoconhecimento e a permanência no centro é uma jornada de um vida inteira e as Danças Circulares Sagradas podem nos auxiliar no processo do caminhar, em cada passo da jornada. A dança me faz refletir e surgem perguntas, eu percebo o fluxo entre o movimento e a serenidade e danço em busca das respostas.

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