- Danças Circulares

O QUE SÃO AS DANÇAS CIRCULARES SAGRADAS?                                                                                                                            Por Estela Gomes

As Danças Circulares fazem parte de um movimento iniciado pelo bailarino, coreógrafo e artista plástico alemão Bernhard Wosien que, ao resgatar as Danças dos Povos que eram dançadas nos diferentes grupos sociais, observou o sentido de irmandade, alegria e união partilhados por todos que dançavam. As Danças Circulares foram levadas para a Comunidade de Findhorn, no norte da Escócia em 1976 e daí se espalharam por todo planeta juntamente com muitas outras danças contemporâneas que foram incorporadas ao repertório conhecido atualmente como “Danças Circulares Sagradas”, “Danças Circulares dos Povos” ou simplesmente “Danças Circulares”.

No Brasil as Danças Circulares chegaram inicialmente através da experiência do arquiteto Carlos Solano Carvalho (Minas Gerais) que, em meados da década de 80, após residir um período em Findhorn e participar de um treinamento com Anna Barton, voltou ao Brasil e começou a oferecer vivências e cursos em Belo Horizonte. Logo a seguir ancoraram no Centro de Vivências Nazaré em São Paulo (hoje Uniluz) trazidas pela fundadora Sarah Marriot, que também havia residido em Findhorn e foram utilizadas nos cursos e atividades promovidas no local a partir do final da década de 80. Em 1994, Renata C. Lima Ramos, que havia conhecido as Danças Circulares em Findhorn, começa a oferecer cursos e disponibilizar os materiais existentes (tapes e livretos explicativos traduzidos para o português) através da Editora e Livraria TRIOM, em São Paulo. Após a I Clínica de Jogos Cooperativos organizada por Fábio Otuzzi Brotto no CEPEUSP com a participação de Renata C. Lima Ramos, as Danças Circulares experimentaram uma grande expansão, pois muitos professores da área de Educação estavam envolvidos e perceberam o potencial de união, integração grupal e ampliação da consciência através da prática das danças.

A partir daí o movimento das Danças Circulares ampliou-se imensamente no Brasil por todos os estados e em várias áreas tais como educação, saúde e empresas. Um dos locais onde as Danças encontraram campo fértil para a participação popular foram os parques públicos. Vários focalizadores, através de ações voluntárias e inspirados pela iniciativa de Bia Esteves, que no início dos anos 90 implantou rodas abertas no Parque Trianon e posteriormente no Parque da Água Branca, perceberam o potencial harmonizante das Danças Circulares praticadas junto à natureza em espaços abertos. Estas rodas trouxeram muitas pessoas para o movimento das Danças Circulares proporcionando uma convivência saudável entre os seres humanos e destes com a natureza. Lembramos que esta ação relembra o mesmo caminho de Bernhard Wosien que recuperava e recolhia as danças nas praças, campos e festas freqüentados pelas comunidades que através das expressões de suas danças buscavam alegria, comunhão, fortalecimento da convivência e da vida em grupo.

Os povos antigos dançavam para celebrar as mudanças de estações, os casamentos, as colheitas e em vários momentos importantes do grupo a referência era o círculo e a comunidade reunida em torno de um centro comum. O centro determinava um espaço de equidistância entre cada pessoa e o grupo como um todo; os integrantes da comunidade, independentemente de sua faixa etária, compartilhavam os valores daquele grupo e de sua realidade. Dançar fazia parte da vida das pessoas e conferia saúde, ritmo, união e harmonia a todos. Revisitar as danças inspiradas nas culturas “dos povos da tradição” é compreender o que era importante para aquela comunidade, trazendo ao presente valores preciosos e tantas vezes esquecidos como respeito, generosidade, união, cooperação e produzindo novos sentidos para a vida e o viver.

Educar a sensibilidade e a expressão corporal através do gesto simbólico nos permite o contato com o “espaço sagrado” de conexão com o outro e com a vida: nosso coração. As habilidades presentes em nosso coração de generosidade, ouvirmos para compreender, estarmos atentos às questões ambientais requer trabalho diário e desenvolvimento de atenção plena sendo que a dança e as atividades corporais que nos sentimos convidados a experenciar podem ampliar o autoconhecimento e o reconhecimento de nossas atitudes diárias.

O caminhar acontece um passo após o outro. Segundo Wosien, B (2000) “o passo é um salto à frente, numa sincronicidade com o meu movimento de corpo e com aquilo que acontece em mim.”  Na medida em que dançamos, e esta é uma experiência intransferível, o que ocorre fora de nós reflete-se internamente e nosso interior se espelha para fora de nós num movimento de ir e vir constante como ocorre com as ondas do mar.

Pelo movimento das Danças Circulares Sagradas redescobre-se que os passos que são realizados nas danças ao sabor da harmonia das músicas refletem como pensamos, sentimos e agimos em nosso dia. Caminhamos de modo leve e solto? Andamos tensos? Apertamos a mão de nosso vizinho? Como lidamos com o erro do vizinho? Como lidamos com nosso erro ou a dificuldade em entrar no ritmo? Nos sentimos fazendo parte da grande teia da vida? Ao observar a interdependência que ocorre no círculo nos motivamos a modificar nossas ações no dia-a-dia? Conseguimos mudar facilmente de ritmo seguindo a música proposta pela vida? Como utilizar a tolerância ao nos encaixarmos numa estrutura pré determinada? Observamos a grande diversidade da vida na roda da dança? Somos criativos ao realizar os gestos propostos? Usamos nossa experiência passada no presente???...

As Danças Circulares Sagradas nos convidam a aprender juntos a caminhar pela vida, a nos abrirmos para o processo de ensino/aprendizagem, a caminhar a jornada do autoconhecimento, a cultivar a harmonia interior, os valores éticos, a cooperação e a meditação no círculo da dança e da vida.