O que significa trabalhar a escrita com função social?

    Uma das maiores  "pedras" na trajetória da proposta de ensino da língua através do texto é a produção escrita do aluno.
    Todos os esforços envidados, até agora, parecem não terem sido suficientes para clarear esta questão: sobre o que escrever em sala de aula?
    Não bastou afirmar que a "nossa realidade social" seria uma ótima geradora de bons textos escritos, pois faltando a visão de um dos três elementos que sustentam a significação do texto (o interlocutor), a produção continua vazia, arficial na escola. É como se, realmente, fosse impossível, no bojo da escola, utilizar escrita para se comunicar com o mundo exterior a ela.
    O fato de tamanha dificuldade, vem também comprovar o quanto os adultos se relacionam mal com esse conhecimento produzido e tão bem utilizado  pelo homem.
    Fica, então, evidenciado, o quão pouco de importância se dá à escrita e o quanto esta fica relegada na vida prática. Não é à toa que somos formadores de uma país não-leitor, não-escritor.
    Muitos autores já afirmaram com elevada propriedade que a escola esvaziou a função da escrita em seu interior e criou situações artificiais para seu ensino.
    Pois bem. É mais do que o momento de reverter esse placar. Urge correr atrás do prejuízo. Ainda há tempo para acrescentar no mercado (de trabalho) milhões de leitores/escritores competentes. Basta para isso que se inicie esse processo com alicerces profundos e "concretos".
    E isso, pode-se afirmar convictamente, não é difícil. Se se entender que a vida das pessoas baseia-se no ato interativo e, consequentemente, para isso, imprescinde da linguagem, por que não provarmos que essa interação pode ultrapassar os limites da oralidade e efetivar-se através da escrita?
    Também é notório que nenhuma instituição, além da escola, é responsável por essa tarefa. Logo, é no âmbito escolar que essa prática social deve ser exercida.
    Muitas escolas já trilham esse caminho através da editoração de periódicos, tablóides, resultado de concursos dos mais variados gêneros literários. Todavia, caso não se tenha estrutura para esse tipo de veiculação das idéias por escrito, não há impeditivo para tal propósito.
    Ainda que apenas com canetas, papel e principalmente ideias, é possível extrapolarmos as paredes da sala de aula ou os muros da escola.
    Indispensável, porém, é a clareza de quem está dirigindo esse processo: o professor. É a ele que cabe a responsabilidade de mostrar e de verdadeiramente ensinar o importante papel da escrita num mundo cada vez mais  complexo.
    Para isso, é necessário, num primeiro momento, que o professor chame a atenção do aluno para a importância da escrita e onde ela é utilizada na sociedade, para então, através das práticas da leitura e produção, inserir o aluno no seu universo, trabalhando a escrita em suas diferentes funções.
    Tal trabalho implica a tarefa não somente de levar para reflexão em sala de aula textos de diferentes gêneros (informativos, lúdicos, literários...), mas principalmente, encaminhar a produção dentro desses parâmetros.



(SANDRA BOZZA. Trabalhando com a palavra viva. Curitiba: Renascer, 1996).


Comments