O que é a língua escrita?

    Os interessados em avançar nos estudos sobre o processo de aquisição da língua escrita devem, antes de mais nada, ter clara a forma clara de como se concebe a linguagem, que é o pressuposto maior de todo encaminhamento metodológico.
    Ao afirmar-se que a escrita representa a fala, é preciso entender a fala também como produção humana, isto é, não se pode tomá-la como dote especial concedido ao homem por divindades ou por fatores biológicos. É preciso entender a linguagem como instumento criado pelo homem, o qual foi gerado pela necessidade deste viver em comunidade para poder garantir sua sobrevivência.
    O fato do ser humano criar símbolos que possibilitassem a comunicação entre seus iguais concedeu-lhe a liberdade de poder pensar e agir mesmo sem ser na presença do objeto. Criou-se, então, a instância das idéias, da abstração, ou seja, para cada ser concreto haveria também um som (grito, gesto ou ação) que o simbolizaria.
    Assim, hoje pode-se entender a fala como uma representação de primeira ordem: ela é a representação direta das idéias que se tem sobre o mundo físico.
    Por isso diz-se que a escrita é a representação de segunda ordem, pois ela representa os sons da fala, que por sua vez já é (a fala) uma forma de representação.
    Esse conceito precisa ser amplamente trabalhado com o alfabetizando, pois só assim ele conferirá à língua escrita a importância e a função que ela ocupa em nossas vidas.
    Dizer simplesmente que a escrita é um sistema de representação, apesar de verdadeiro, em nada auxilia. É preciso, desde muito cedo, mostrar à criança como a escrita se organiza, bem como o que vem a ser representar.
    Os métodos tradicionais de ensino apresentam meias verdades sobre a organização do nosso sistema gráfico.
    A primeira delas é, sem dúvida, o fato de abordarem a escrita como se os únicos elementos componentes fossem as letras do alfabeto, ignorando completamente o fato de que, para veicularmos qualquer idéia, necessitamos de outros sinais gráficos, como os de pontuação e acentuação, por exemplo.
    Outro grave equívoco é iniciar o processo de aquisição apresentando sílabas simples, como se um sílaba fosse formada apenas por duas letras.
    Mas o mais crasso erro linguístico desses métodos é fazer com que a criança abstraia, durante pelo menos seis meses, o conceito de que cada sílaba representa um único som.
    A criança alfabetizada sob esta perspectiva, aprende no terceiro bimestre letivo, mais ou menos, que a sílaba SI representa determinado som. Só muito mais tarde é que ela poderá questionar: como é que no nome do meu país, ela representa outro som?


    Ela observa a mudança de som mais profunda apresentada na sílaba XA. Para escrever XALE, ela usará a letra X, que, por analogia, poderia também representar o som inicial da palavra " XAVE". Por outro lado, ao escrever a palavra  EXAME,  não é o X somente que muda de som, mas a vogal A por sofrer a nasalização dada pelo M, também é pronunciada de forma diferente. Logo, em


os valores fonéticos das sílabas destacadas são completamente diferentes.
    Vem daí a necessidade do professor dominar a organização do Sistema Gráfico da Língua Portuguesa para poder melhor dirigir essa mediação.
    É importante que o professor clarifique, para os alunos, que nem sempre os sons da fala são representados pelas mesmas letras (relação grafema X fonema). Na verdade, são pouquíssimos os casos onde isso ocorre.
    Na maior parte das vezes esses sons podem ser representados por diferentes letras.
    Tomemos como exemplo o som sibilante da letra S. Ele pode ser representado de várias maneira:
SIMONE
ASSINATURA
   CIRANDA
NASCI
DEA
EXCELENTE
FELIZ
CAÇA
    Esse conceito pode ser refletido imediatamente a partir do ingresso do aluno na escola quando se analisa a diferença na grafia dos nomes da turma:
   
JUSSARA    ALESSANDRA    LUÍS

ou

JUÇARA    ALEXANDRA    LUÍZ
ALEXSANDRA

    Já a letra P e o dígrafo NH têm relações únicas, isto é, sempre que quiser grafar os sons /p/ e /ŋ/, serão utilizados o do P e do NH.
    Para maior compreensão dessas questões, é preciso o entendimento de uma regra básica:
  " Nosso sistema de escrita parte de um princípio alfabético (cada som é representado por uma letra e vice-versa), que é quebrado pela memória etimológica (respeito à grafia de origem das palavras)."
    Como exemplo de recorrência mnemônica (memória), podemos citar o que ocorre com o fonema /Z/ nas palavras a seguir:

GIRAFA = dialeto africano
MONGE = grego
JIPE = aportuguesamento do inglês: JEEP
JIBOIA = tupi-guarani

    O quadro a seguir não tem a pretensão de explicar assunto tão complexo como esse. Para aprofundamento sugere-se a leitura das obras: Escrita e Alfabetização, (FARACO, C. A. ) e Guia Teórico do Alfabetizador, (LEMLE, M.) Seu objetivo é dar um pano de fundo para o professor melhor compreender como está estruturado nosso sistema ortográfico e, com isso, não só refletir sobre esse sistema adequadamente com os alunos, como também ele auxilia a entender as tentativas de escrita de seus alunos nas produções textuais.

RELAÇÃO GRAFEMA (letra)  X FONEMA (som)



    Passa-se agora a encaminhar o trabalho com a ideia de representação, pois para se abstrair a escrita como tal sistema, é condição sinequa non que esse conceito seja amplamente trabalhado pelo professor.
    Mesmo para os adultos letrados, por se encontrarem mergulhados num mundo extremamente simbólico, fica difícil discorrer sobre a ideia de representação.
    Em quase todas as propostas curriculares encaminhadas sob a perspectiva sócio-histórica, encontra-se o trabalho com logotipos, sinais trânsito e outros símbolos. Mas  o mais importante é que o professor tenha claro o porquê de se desenvolver tais atividades.
    Não é com o objetivo de interpretar tais signos que isto é proposto. O que se pretende é solidificar um conceito bem mais amplo a respeito do que venha a ser representar: utilizar uma determinada "coisa" por outra.
    Isso a criança já faz em suas brincadeiras de faz-de-conta. Cabe, entretanto, ao professor, a tarefa de ampliar esse conhecimento já adquirido pelo aluno em situações de aprendizagem com o mundo social e sistematizá-lo de forma tal que eles consigam perceber sozinhos que uma única ideia ou um único objeto pode ser representado de inúmeras formas diferentes.



(SANDRA BOZZA. Trabalhando com a palavra viva. Curitiba: Renascer, 1996).


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