A crônica na sala de aula

PLANO DE AULA – CRÔNICA

À beira-mar

Stanislaw Ponte Preta

Por que será que tem gente que vive se metendo com o que os outros estão fazendo? Pode haver coisa mais ingênua do que um menininho brincando com areia, na beira da praia? Não pode, né? Pois estávamos nós deitados a doirar a pele para endoidar mulher, sob o sol de Copacabana, em decúbito ventral (não o sol, mas nós) a ler “Maravilhas da Biologia”, do coleguinha cientista Benedict Knox Ston, quando um camarada se meteu com uma criança, que brincava com a areia.

Interrompemos a leitura para ouvir a conversa. O menininho já estava com um balde desses de matéria plástica cheio de areia, quando o sujeito intrometido chegou e perguntou o que é que o menininho ia fazer com aquela areia.

O menininho fungou, o que é muito natural, pois todo menininho que vai na praia funga, e explicou pro cara que ia jogar a areia num casal que estava numa barraca lá adiante. E apontou para a barraca.

Nós olhamos, assim como olhou o cara que perguntava ao menininho. Lá, na barraca distante, a gente só conseguia ver pares de pernas ao sol. O resto estava escondido pela sombra, por trás da barraca. Eram dois pares, dizíamos, um de pernas femininas, o que se notava pela graça da linha, e outro masculino, o que se notava pela abundante vegetação capilar, se nos permitem o termo.

― Eu vou jogar a areia naquele casal por causa de que eles estão se abraçando e se beijando-se muito – explicou o menininho, dando outra fungada.

O intrometido sorriu complacente e veio com lição de moral.

― Não faça isso, meu filho – disse ele (e depois viemos a saber que o menino era seu vizinho de apartamento). Passou a mão pela cabeça do garotinho e prosseguiu: ― Deixe o casal em paz. Você ainda é pequeno e não entende dessas coisas, mas é muito feio ir jogar areia em cima dos outros.

O menininho olhou pro cara muito espantado e ainda insistiu:

― Deixa eu jogar neles.

O camarada fez menção de lhe tirar o balde da mão e foi mais incisivo:

―Não senhor. Deixe o casal namorar em paz. Não vai jogar areia não.

O menininho então deixou que ele esvaziasse o balde e disse: ―Tá certo. Eu só ia jogar areia neles por causa do senhor.

― Por minha causa? Estranhou o chato. ― Mas que casal é aquele?

― O homem eu não sei – respondeu o menininho. ― Mas a mulher é a sua.

 

Preta, Stanislasw Ponte. O gol do padre & outras crônicas. Ática: 1997.

 

Público – alvo: alunos do 1º ano do Ensino Médio;

Sugestões de atividades:

1-                  Leitura da crônica pelo professor, com entonação adequada a fim de despertar interesse pelo texto;

2-                  Explicar sobre o gênero textual crônica: características, origem, principais escritores; Dica de link: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/cronicas/index.htm;

3-                  Diferenciar crônica argumentativa (a crônica que apresenta a visão pessoal do escritor sobre um fato, provavelmente no noticiário jornalístico) da crônica de observação de um fato do cotidiano. Classificar o texto.

4-                  Levantamento dos tipos de crônicas existentes: humor, jornalística, esportiva, política... Escritores que os alunos conhecem.

5-                  Falar a respeito do cronista: biografia, principais temas explorados pelo escritor. Dica de link: http://www.releituras.com/spontepreta_bio.asp

6-                  Relacionar o período em que o escritor viveu com a linguagem usada.

7-                  Observação da linguagem usada na crônica: informalidade, expressões em desuso ( doirar, matéria plástica), justificar a linguagem usada no 5º parágrafo do texto.

8-                  Foco narrativo: 1ª ou 3ª pessoa. A importância do tipo de narrador para justificar se é crônica argumentativa ou crônica de observação de fatos.

9-                  Observar a cronologia interna do texto: “e depois viemos a saber que o menino era seu vizinho de apartamento” no 7º parágrafo.

10-              Uso do discurso direto e indireto.

11-              Como sugestão de produção textual, dar continuidade ao texto.

 


     VIDA E OBRA

SÉRGIO PORTO/STANISLAW PONTE PRETA

    Nascido em Copacabana, no Rio de Janeiro, em pleno verão de 11 de Janeiro de 1923, Sérgio Marcus Rangel Porto, filho de Américo Pereira da Silva Porto e de D. Dulce Julieta Rangel Porto, ficou conhecido pelo heterônimo de Stanislaw Ponte Preta, criação inspirada na personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Um autor empírico, um literário, homem do teatro, do cinema, da música e, „nas horas vagas‟, funcionário público do Banco do Brasil, durante 22 anos, quando decidiu abandonar o trabalho bancário para dedicar-se exclusivamente às atividades literárias. Casou-se com Dirce Pimentel de Araújo, com quem teve três filhas: Gisela, Ângela e Solange.

    Muitas das suas histórias eram protagonizadas por seu alter ego – Stanislaw Ponte Preta, irreverente e insuperável, que retratava o coloquial do Rio de Janeiro em jornais, revistas e livros. Seus estudiosos afirmam que “as melhores crônicas são aquelas onde a disposição de desfazer o sentido de uma palavra ou de uma situação não se manifesta apenas no final do enredo, mas parece atingir a estrutura da narrativa;” (NOGUEIRA JR., 1996), ou seja, conduzida por pistas falsas, a história tem um final totalmente inesperado.

    "Pode-se dizer que Ponte Preta é o cronista brasileiro por excelência, pelo fato de ter registrado as manifestações e atitudes que o Rio de Janeiro começava a importar das modernas sociedades de consumo.” (SANTOS, 2008) Assim, suas crônicas são interessantes e prazerosas, tornando-se atuais por conservarem uma temática contemporânea.


    Stanislaw Ponte Preta, em 1951, no Diário Carioca, nasceu para responsavelmente reger uma coluna social diferente do colunista provinciano que se praticava. Portanto, considerava o colunista social Ibrahim Sued seu maior desafeto, porque, em sua concepção, ele não se preocupava com os problemas políticos, sociais, culturais e econômicos do Brasil, primava pela futilidade.

    Ao todo, o heterônimo publicou sete coletâneas de crônicas, recolhidas pela Editora Olímpia, em 1989, numa espécie de antologia. Um autor muito observador, meticuloso, irônico e crítico. Marcou presença na literatura por ser capaz de se comunicar com todo tipo de leitor, desde o mais frenético e leviano até o mais reflexivo e aprimorado. Ponte Preta, então, tem a função de fazer verdades emergirem de maneira bem humorada.

    “Criador de tipos humanos – o que é difícil e também raro na crônica, criou Tia Zulmira, „a sábia ermitã da Boca do Mato‟, o Primo Altamirando, „cínico e gozador‟, o distraído Rosamundo, o Dr. Data Vênia, „manipulador feroz dos lugares-comuns‟, entre outros.” (SANTOS, 2008) Com seu Festival de Besteira que Assola o País – FEBEAPÁ 1 (1966), lançado na época do golpe militar de 1964, alçou grande sucesso, seguido de outras obras: FEBEAPÁ 2 (1967), FEBEAPÁ 3 (1968), Garoto Linha Dura (1964), além dos já citados acima: Tia Zulmira e Eu (1961), Tio Altamirando e Elas (1962), Rosamundo e os Outros (1963).

    Como Sérgio Porto publicou: A Casa Demolida (1963) – Reedição ampliada e revista de O Homem ao Lado, As Cariocas (1967).
    No dia 29 de setembro de 1968, ao sofrer seu último infarto, aos 45 anos, declarou: “Tunica, eu tô apagando!”. Deixou a imagem de um sujeito feliz com a vida, afável e vivaz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOGUEIRA JR., Arnaldo. Projeto Releituras, 1996. Disponível em: http://www.releituras.com/spontepreta_bio.asp. Acesso em 14 de Março de 2011.
SANTOS, Paula Perin dos. InfoEscola Navegando e Aprendendo, 2008. Disponível em: http://www.infoescola.com/biografias/stanislaw-ponte-preta Acesso em 27 de março de 2011.

PDP - A crônica humorística como um recurso no processo cognitivo na formação do leitor

Professora PDE 201o - Luciane Aparecida Lopes Justini




 


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Eliziane Coração,
26/09/2013 05:15
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