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Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial. Para uma História.

Apontamentos para uma história da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial -- dita humanista.

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

 

Não pretendo traçar aqui uma história ou uma descrição exaustivas dos desenvolvimentos das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, chamadas de humanistas. Mas destacar o que parecem ser linhas fundamentais de seu processo de constituição.

Recebemos, no Brasil, e na América Latina, uma Psicologia Humanista que decorre de intensas fermentações de certas tendências da psicologia, da filosofia, e da cultura em geral, no interior das Culturas européia e norte americana, no início do século, e até a década de setenta. Na verdade, anteriormente, estas correntes de filosofia e de psicologia, e da cultura em geral, surgiram e se desenvolveram na Europa. Constituindo-se, freqüentemente como clássicos do pensamento humano.

Se observarmos com atenção, há como que um encontro de águas filosófico, de teoria psicológica, e de tendências culturais.

Num primeiro momento, encontros de vertentes da filosofia, da psicologia e da cultura européias. -- num período cultural e politicamente agitado, que vai desde os finais do século XVIII, até os anos do século XX anteriormente, durante e depois das duas guerras mundiais.

As resultantes desses encontros, por sua vez, encontrar-se-ão, de um modo massivo, com vertentes da filosofia, da psicologia e da cultura norte americanas. Este momento particular de encontros destas vertentes, desdobra-se, desde o período anterior à segunda guerra, até os anos setenta. E constitui a formulação básica das psicologias humanistas.

Num segundo momento, e vendo o processo de nossa perspectiva particular, resultantes dos encontros das vertentes européias e norte-americanas transbordam para a América Latina, e para o Brasil.

São, inicialmente, recebidas de um modo um tanto quanto acrítico e impessoal, digamos, como talvez não poderia deixar de ser. E constituem-se como alternativas no campo das psicologias, das psicoterapias, das pedagogias e de outras abordagens das relações humanas.

Progressivamente, entretanto, as realidades e as perspectivas psicológicas, filosóficas e culturais latino americanas, e brasileiras, em particular, em nosso caso, começam a marcar uma presença crítica diferenciada, e a reivindicar perspectivas próprias, no processo de constituição destas abordagens em nosso meio. Desenvolve-se um movimento vigoroso neste sentido, a partir do início da década de oitenta. Movimento que até hoje perdura, e ganha corpo.

Podemos falar, assim, pelo menos em nosso meio, de uma vertente brasileira, e latino americana, no processo de constituição da chamada Psicologia Humanista entre nós. De modo que a recepção dos produtos do encontro de uma vertente européia com uma vertente norte americana não mais se dá de um modo passivo. Há a constituição de uma perspectiva brasileira e latino americana, e que participa diferenciadamente do encontro das águas que constituem a psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial, dita humanista.

 

 

 

1. A Vertente Européia.

A vertente européia se constitui do conhecimento e posturas de certas correntes filosóficas antigas, e de cultura, que se desenvolveram na Grécia e nas filosofias do Renascimento. Estas perspectivas são recuperadas por filósofos do século XVIII na constituição das poderosas perspectivas filosóficas de F. Nietzsche, da Fenomenologia, e do Existencialismo.

Assim, desde a Grécia antiga, pelo menos, que as raízes das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais são européias.

De um modo certamente arbitrário, podemos traçar um limite ao nível da influência dos médicos hipocráticos, e na influência dos pensadores pré-socráticos.

Com o seu empirismo, com o seu relativismo, com o seu privilégio da afirmação do corpo, do vivido e dos sentidos, os médicos hipocráticos exerceram uma influência poderosa, e seminal, sobre filósofos fundamentais para o desenvolvimento das psicologias e psicoterapia fenomenológico existenciais, como Aristóteles (384 –322 ac) , F. Brentano (1838 - 1917) e F. Nietzsche (1844 - 1900), determinando aspectos básicos de suas obras. De hipocráticos e pré-socráticos, Aristóteles recebeu o empirismo e o relativismo. Empirismo que ele dedicou às ciências naturais, e que, depois, concebeu aplicar à consciência, a anima, preconizando uma metodologia empírica, similar a das ciências naturais, para a abordagem da consciência. Com isso, talvez não seja exagero dizer que Aristóteles criou a Fenomenologia.[1]

Fenomenologia da tradição de Franz Brentano. Uma vez que Brentano foi um diligente estudioso de Aristóteles, e resgatou a perspectiva deste, de um empirismo da consciência, na constituição da Fenomenologia de sua tradição. Brentano terá uma influência marcante no desenvolvimento da Fenomenologia de E. Husserl (1859 – 1938), no desenvolvimento da Fenomenologia de Heidegger (1889 –1976), e no desenvolvimento da Fenomenologia da Psicologia da Gestalt, da Escola de Berlim (1916 – 1933).

A Escola de Berlim da Psicologia da Gestalt sofrerá ainda uma grande influência de filósofos, físicos, músicos, e psicólogos pioneiros, como Ernest Mach (1838 – 1916) e Crhistian Von Ehrenfels (1856 – 1932), e constituir-se-á como uma mediação fundamental da influência da Fenomenologia e das concepções desses filósofos na constituição da psicologia e da psicoterapia. Em particular através dos trabalhos de Kurt Goldstein (1878 – 1965) e de Max Wertheimer (1880 – 1943), destacados e pioneiros membros da Psicologia da Gestalt. Ambos emigrados para os EUA, posteriormente a uma vida acadêmica muito produtiva na Alemanha.

Heidegger será a raiz fundamental da fenomenenologia existencial da análise existencial de Medard Boss (1903 – 1990) e de Ludwig Binswanger (1881 – 1966), psicoterapeutas fenomenológico existenciais europeus pioneiros. Pioneiros estes que, por sua vez, marcam profundamente a gênese e o desenvolvimento, da concepção e do método dos paradigmas de Carl Rogers (1902 – 1987) e de Fritz Perls (1893 – 1970), e de toda a psicologia fenomenológico existencial norte americana.

Kierkegaard (1813 – 1855) antecipou-se a Nietzsche em cerca de quarenta anos, na crítica ao universalismo e ao idealismo hegelianos, em privilégio da perspectiva existencial de privilegiamento da singularidade, da subjetividade, da existência. Ainda que muito importantes, suas idéias enveredaram por uma perspectiva religiosa ascética.

Criticando, igualmente, ao universalismo e ao idealismo hegelianos, Nietzsche auferiu suas fontes de inspiração nas perspectivas pré-socráticas de privilegiamento do corpo, do vivido, e dos sentidos. Mais que isto, Nietzsche recupera o sentido de afirmação do corpo, de afirmação do vivido e dos sentidos, mesmo, e em particular, como afirmação do sofrimento e da finitude. Como modo natural de potencialização da vida, e de promoção de uma super abundância de suas forças, pela afirmação da potência do retorno da vida.

Nietzsche exercerá uma profunda influência sobre as idéias de Martin Buber (1878 – 1965), de Martin Heidegger, e de um psicanalista nietzscheano, Otto Rank (1884 – 1939). Via Martin Buber, via Heidegger, via Otto Rank – dentre outras vias, como o Expressionismo, por exemplo -- F. Nietzsche exercerá uma profunda e poderosa influência no desenvolvimento da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, chegando de um modo seminal às concepções e metodologias de Carl Rogers e de Fritz Perls.

Todos estes podem ser entendidos como Humanistas. No sentido de que buscavam sair da esfera do idealismo e do universalismo hegelianos para recuperar a experiência, a vivência humanas, como referência. Neste sentido, buscavam recuperar o Humanismo dos filósofos do Renascimento, e as perspectivas de valorização do referencial do empirismo da experiência e da vivência humana dos gregos antigos.

a. A Filosofia da Vida de F. Nietzsche (1844 -- 1900).

 

Falar da vertente européia de constituição da Psicologia Humanista é remontar, inevitavelmente, à contribuição de F. Nietzsche ao processo de constituição da cultura da Civilização Ocidental. Porque foi Nietzsche, na segunda metade do século XIX, quem, opondo-se às tendências predominantes nas religiões, na filosofia, na ciência, na moral, afirmou o valor incondicional do corpo, dos sentidos e do vivido, da vida e da vivência humanas, tal como elas se manifestam em sua espontaneidade. Necessitou, para isto, se antagonizar com a religião, com a filosofia, com a ciência e com a moral da civilização ocidental, pesadamente animadas por uma perspectiva socrática, de desvalorização do corpo e da vida.

O ideal ascético, em suas formas religiosa, filosófica, científica ou moralista, sempre foi um dos grandes algozes do corpo e da vida, do vivido e da autonomia humana no âmbito da cultura da Civilização Ocidental. Sempre com o pressuposto de um além, de uma vida além, à qual a vida do aquém deveria se sacrificar. Nietzsche diria, acerca do ideal ascético, a criação de um ‘mundo do além’ para melhor difamar o ‘mundo do aquém’. Afirmar o valor incondicional da vida do aquém e da perspectiva do vivido, foi um mérito da filosofia Nietzscheana. Nietzsche precisou confrontar-se, desta forma, com uma filosofia idealista, e uma moral socrática, que, fundadas no ideal ascético, desmereciam a perspectiva do vivido, do corpo e dos sentidos, em privilégio de uma verdade universal, conceitual e abstrata.

Em sua crítica da cultura ocidental, Nietzsche fez mesmo a crítica da ciência como modo de produção da verdade. Entendendo-a como subalterna à arte neste sentido. Na medida em que a arte privilegia o vivido em suas intensidades e fluxos, e compromete-se, desta forma, com a afirmação deste vivido, da vida, e com a criação, com a criatividade expressiva de uma superabundância de forças de vida[2].

Nietzsche busca fazer uma crítica do que ele chamou de inversão socrática. Como inversão perpetrada pela filosofia de Sócrates com relação à perspectiva de valor da mentalidade da cultura pré-socrática.

Os pré-socráticos valorizavam fundamentalmente o corpo, os sentidos e o vivido. Enquanto que Sócrates expressa os fundamentos de um tipo de cultura que os despreza, e que passa a valorizar o abstrato e o teórico. Com isto, Nietzsche re-lança, na cultura moderna da civilização ocidental, os fundamentos da perspectiva ética de afirmação do vivido, de constituição dele como fundamento do verdadeiro e dos valores. Perspectiva ética de afirmação do corpo e dos sentidos, que vai constituir, posteriormente, um fundamento básico das psicologias e psicoterapias fenomenológico-existenciais, ditas, e freqüentemente não entendidas como, humanistas.

 

 

b. Soren Kierkegaard (1813 – 1855).

Anos antes de Nietzsche, que viveu na Alemanha, Kierkegaard contrapõe-se, na Dinamarca, a perspectivas filosóficas que desvalorizam a perspectiva do indivíduo, e da subjetividade. Desenvolve toda uma reflexão em que afirma o valor da perspectiva da subjetividade, e do indivíduo, criticando em particular a perspectiva universalizante, sistematizante, de privilégio da objetividade e conceitual da filosofia de Hegel (1770 – 1831).

Jean Wahl[3], comentando a filosofia de Kierkegaard, observa:

À procura da objetividade que encontramos em Hegel, à paixão e ao desejo da totalidade, Kierkegaard vai opor a idéia da verdade como subjetividade. (...) À força do conhecimento, afirma, esqueceram-se do que era existir. (...)

‘É necessário procurar uma verdade que não é uma verdade universal, mas uma verdade para mim’. Uma idéia para a qual eu quero viver e morrer’.

Ao pensamento hegeliano vai, portanto, Kierkegaard opor a paixão. O perigo do pensamento hegeliano é fazer-nos perder a paixão.(...)

O hegelianismo comete o erro de querer explicar todas as coisas. As coisas não devem ser explicadas, mas vividas. Assim, em vez de querer aprender uma verdade objetiva, universal, necessária e total, Kierkegaard dirá que a verdade é subjectiva, particular e parcial (...). O pensamento nunca pode atingir senão a existência passada ou a existência possível; mas a existência passada ou a existência possível são radicalmente diferentes da existência real.

(...) onde há existência não pode realmente haver conhecimento.

 

Diferentemente de Nietzsche, entretanto, Kierkegaard assume uma perspectiva eminentemente religiosa, cristã, à qual dedica a sua reflexão filosófica. Não obstante, sua reflexão vai se constituir como uma das mais importantes fontes do Existencialismo moderno.

O existencialismo kierkegaardiano vai, assim, desde esta origem, constituir-se como uma vertente religiosa – ilustrada, por exemplo, por Gabriel Marcel e outros. Esta vertente se desdobra, ao lado de outras vertentes do Existencialismo, que, especificamente, se afastam de qualquer perspectiva religiosa, e se configuram, mesmo, como anti-religiosas. E que, com certeza, descendem da influência das perspectivas da filosofia da vida de Nietzsche. Como são, por exemplo, os casos de Heidegger e de Sartre.

Como, em sua origem, muitos psicólogos e psicoterapeutas vinham de um formação religiosa -- Rogers é, talvez, o melhor exemplo --, Kiekegaard é, ainda no meio religioso, assim como Buber, eventualmente, o primeiro meio de contato deles com a perspectiva existencialista.

Se são, todavia, claramente identificáveis as influências de F. Nietzsche, e de S. Kierkegaard nas origens das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, já não é tão nítida uma contribuição de outros existencialistas.

 

 

c. Wilhelm Dilthey (1833 – 1911)

Wilhelm Dilthey foi um filósofo alemão que ofereceu contribuições fundamentais para o desenvolvimento das ciências humanas. Dilthey combateu a dominação do conhecimento pelas ciências naturais ‘objetivas’. Observava que as ciências humanas dependiam da interpretação pessoal do pesquisador. Estabeleceu as distinções entre explicação e compreensão – condição de desenvolvimento de uma hermenêutica (a arte da interpretação) fenomenológica compreensiva, desenvolvida posteriormente, sob a sua influência, por M. Heidegger -- e tentou desenvolver a perspectiva da interpretação compreensiva como base da metodologia das ciências humanas (Direito, Religião, Arte, História, Sociologia, Antropologia, Psicologia...). Para ele, as ciências humanas pressupõem a vivência da interação entre a experiência pessoal e uma expressão do espírito, nas palavras, gestos, arte. Teríamos assim a Dilthey como um dos grandes precursores do Expressionismo?

Dilthey, a partir destas suas perspectivas, constituiu as bases de uma hermenêutica compreensiva, que vai ser o logos metodológico básico das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. A partir do termo vida, em alemão, Dilthey criou os termos vivido, e vivência, para referir-se à vivência compreensiva, imediata, pré-teórica, fenomenológica.

Dilthey tem, assim, uma influência fundamental no desenvolvimento da Fenomenologia como hemenêutica existencial, de M. Heidegger. Tem, igualmente, um papel central no desenvolvimento da Fenomenologia, das ciências humanas, e das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.

 

d. A Fenomenologia

A Fenomenologia teve, naturalmente, uma profunda influência nos desenvolvimentos das vertentes da Psicologia que deságuam na constituição da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, desde os trabalhos pioneiros de F. Brentano e de C. Stumpf (1848 – 1936). Na verdade, podemos entender as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais como dimensões específicas do movimento da Fenomenologia.

Brentano foi, como observamos, um grande estudioso de Aristóteles. E resgatou a perspectiva metodológica que este constitui, em seu tratado De Anima, de uma abordagem empírica da consciência[4]. Brentano, igualmente, entendeu que a consciência se constitui num nível mais básico do que o nível da dicotomização sujeito-objeto. Ou seja, a consciência constitui-se anteriormente a qualquer cisão sujeito-objeto, o que ele designou de caráter intencional, a intencionalidade, da consciência, reatualizando perspectivas da filosofia medieval.

A radicalidade das perspectivas de Brentano faz com que ele se constitua como um dos importantes ontologistas da humanidade, contrapondo-se às perspectivas socrático-platônica, kantiana e hegeliana. Na perspectiva de sua Fenomenologia intencional em que o mundo se constitui unitariamente como fenomeno intencional.

Brentano pode também ser considerado o pai da Psicologia, tal como se atribui a Wundt. Com quem ele sustentou acirrada polêmica, nos primórdios da psicologia dita científica[5].

Brentano criticava a concepção elementarista que Wundt tinha da consciência. A consciência enquanto composta por elementos que se associariam na sua constituição. Brentano criou a Psicologia da Gestalt, ao explicitar que os elementos, as partes, da consciência só podem ser entendidas enquanto pertencentes à totalidade da consciência. Consciência esta que, a cada um de seus momentos, se configura como ato de consciência. A configuração, articulação das partes, tem, é, um sentido próprio; diferente da mera associação, ou soma, de seus elementos constituintes, como o queria o elementarismo associacionista wundtiano.

Desta forma, Brentano, contrapondo-se a Wundt, constitui uma psicologia dos atos da consciência intencional, que pode ser vivida, percebida vivencialmente, mas que não pode ser observada por um outro.

Igualmente, Brentano compreendeu e explicitou o caráter especulativo do ser. Dado a cada momento apenas no movimento de uma variação de perspectivas. Assumiu, assim, um método aporético. Que privilegia a vivência das perspectivas até o seu limite (aporia), e a abertura para as perspectivas que daí emergem.

Brentano teve assim um papel fundamental e fundador no desenvolvimento da Fenomenologia. Em particular, no desenvolvimento da Psicologia da Gestalt, tal como esta se constitui nas obras de Max Wertheimer, Kurt Goldstein, Kurt Koffka, e Wolfgang Köhler. Foi influência seminal no desenvolvimento da obras de Edmund Husserl* e de Martin Heidegger. Influência esta nem sempre percebida ou explicitada. De modo, assim, que Brentano tem uma enorme, e desproporcional, influência nas raízes tanto da Fenomenologia, da Fenomenologia Eidética e da Fenomenologia Existencial – Husserl e Heidegger --, da Ontologia Fenomenológica, de Sartre; como uma influência fundamental na constituição das raízes das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais. Uma influência que em muito está, ainda, por se esclarecer em termos de história, e de história conceitual. Ao mesmo tempo em que é, ainda hoje, uma inspiração muito rica, e fecunda, para os desdobramentos dessas abordagens. O seu método aporético, o seu empirismo fenomenal da consciência intencional, são fundamentais, e fundadores, das concepções e metodologias destas abordagens.

A obra de Edmund Husserl criou, a partir dessas influências, toda uma revolução nas perspectivas de produção do conhecimento na Civilização Ocidental. Husserl partiu de uma crítica da metafísica, e de uma crítica do positivismo, para constituir uma abordagem epistemológica, e uma ontologia, fundamentadas não em pressupostos teóricos, mas na própria vivência de consciência pré-reflexiva do sujeito cognoscente, em sua correlação intrínseca com o mundo. Elege assim a vivência de consciência pré-reflexiva, o mundo vivido, como o critério de produção do conhecimento.

Esta postura de Husserl tem efeitos imediatos na psicologia, ajudando a desenvolver, junto com posturas fenomenológicas anteriores e posteriores, e junto com as posturas existencialistas, uma alternativa aos modelos psicanalíticos e comportamentais.

Todo um conjunto de abordagens psicológicas e psicoterápicas originais vão se desenvolver a partir da perspectiva da Fenomenologia, conjugada com as perspectivas do existencialismo. Dentre elas a Escola da Psicologia da Gestalt, desenvolvida pelos alemães W. Kohler, K. Koffka e M. Wertheimer, que vai se propor explicitamente o desenvolvimento de uma psicologia fenomenológica, servindo, assim, como importante suporte para o desenvolvimento de linhas de psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais, em particular da psicologia organísmica desenvolvida por K. Goldstein.

Estas psicologias e psicoterapias vão ter, fundamentalmente, como método a valorização de uma atitude fenomenológica, e mesmo como objetivo o desenvolvimento da habitualidade de uma atitude fenomenológica. O privilegiamento empírico da vivência de consciência, do vivido, da consciência pré-reflexiva.

Como pano de fundo estará sempre o pressuposto de que é a perda desta habitualidade de uma atitude fenomenológica o fator preponderante no desenvolvimento dos distúrbios e desajustes humanos, assim como na perda de seus potenciais criativos.

Uma epistemologia e uma ontologia fenomenológicas, e uma afirmação existencial da vivência de consciência, do vivido, passam a constituir-se, assim, como um eixo fundamental das abordagens fenomenológico-existenciais em psicologia e psicoterapia.

 

 

e. Psicologia da Gestalt

Max Wertheimer era um psicólogo de origem tcheca. Era músico. Inicialmente estudou, Direito, mas optou pela Psicologia. Passou a parte inicial de sua vida acadêmica entre Praga, Berlim e Viena. Estudou Fenomenologia com Karl Stumpf, principal discípulo de Franz Brentano. No que foi acompanhado por W. Köhler e por Kurt Koffka. Juntos eles desenvolveram a Escola de Berlin de Psicologia da Gestalt, inspirada na Fenomenologia da tradição de Brentano, e que buscava desenvolver uma Psicologia de cunho fenomenológico.

Wertheimer e companheiros, estudaram fenomenologicamente a percepção, inspirados nos princípios de Brentano, em sua polêmica com a perspectiva elementarista de Wundt Neste sentido, Wertheimer estabeleceu como princípio da nova escola a idéia de que: A tese básica da teoria gestáltica pode ser formulada assim:

Existem contextos em que o que está a acontecer no todo não pode ser deduzido das características das partes separadas, mas, ao contrário, o que acontece com uma parte do todo é, em casos claros, determinado pelas leis da estrutura interna de seu todo.

A eles veio a juntar-se o neuro psiquiatra Kurt Goldstein, que com eles compartilhou o desenvolvimento da Psicologia da Gestalt. Goldstein se destacou desenvolvendo a psicologia organísmica, uma perspectiva fenomenológica da psicologia, do ponto de vista da integração corpo-mente, o organismo. Desenvolvida a partir dos princípios da Psicologia da Gestalt. As concepções de Goldstein foram fundamentais para o desenvolvimento das idéias de Fritz Perls, e de Carl Rogers. Goldstein também se refugiou nos EUA, onde viveu e trabalhou até o fim de sua vida.

Wertheimer realizou, a partir de suas concepções fenomenológico gestálticas, estudos críticos de psicologia, da educação e da pedagogia. Perseguido pelos nazistas, em 1933, refugiou-se nos EUA, onde se juntou à New School of Social Research, aí lecionando até o fim de sua vida. Seu principal, livro, Productive Thinking, foi editado em 1945, após a sua morte em 1943. Teve uma grande influência sobre os psicólogos humanistas, fenomenológico existenciais norte americanos.

 

f. Martin Heidegger (1889 –1976)

Com uma obra importantemente originada a partir das influências da Filosofia da Vida de F. Nietzsche, e da Filosofia da Vida e tradição hermenêutica de W. Dilthey; no empirismo fenomenoativo de Brentano, e na Fenomenologia Eidética de E. Husserl; Martin Heidegger preocupa-se com o desenvolvimento de uma Ontologia Fenomenológica, de uma Fenomenologia Existencial Hermenêutica, de uma Hermenêutica Fenomenológico Existencial. Para tal, trabalha intensamente a questão do ser, a partir de uma analítica fenomenológico existencial.

Reconstitui a concepção de interpretação, a partir da tradição hermenêutica de Dilthey. Entendendo a interpretação (hermenêutica é a arte da interpretação) de um ponto de vista fenomenológico existencial, como o próprio desdobramento compreensivo da possibilidade vivida[6], ao nível da vivência fenomeno existencial, que ele sempre entendeu como vivência de ser-no-mundo.

Heidegger alertou contra o desenvolvimento da tecnização do homem e do mundo, e o afastamento humano, na cultura da civilização ocidental, do modo ontológico do humano, a sua vivência de ser-no-mundo.

Heidegger se enrredou em atitudes polêmicas, ou francamente deploráveis, ao assumir o cargo de reitor de uma universidade do estado em plena vigência do nazismo na Alemanha. O que o fragilizou e a sua obra, empanando muito do seu brilho. É difícil isentá-lo de responsabilidades neste sentido, ainda que Hannah Arendt, que lhe era próxima, assegurasse que Heidegger não era nazista. De qualquer forma, não se pode confundir sua obra com os gestos e momentos deploráveis de sua biografia. Em particular diante da importância qualitativa desta, e quando se entende que a sua contribuição é o prolongamento de influências da tradição hermenêutica fenomenológico existencial, aí incluídas as influências das obras de Nietzsche e de Dilthey. A obra de Heidegger não é, assim, uma propriedade de Heidegger. E não pode ser descartada em função da necessária repulsa e reprovação por atitudes covardes de sua biografia.

Apesar de não ter uma participação especificamente nas raízes das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, Heidegger constitui a sua obra, de um modo brilhante, a partir das fontes importantes destas. Quais sejam, as concepções de Brentano, de Dilthey, e de Nietzsche. De modo que a sua Fenomenologia Hermenêutica Existencial é uma rica possibilidade de esclarecimento de concepções e posturas das abordagens de psicologia e de psicoterapia fenomenológico existencial. Concepções e posturas intoleravelmente pouco claras, freqüentemente confusas, ou equivocadas. Assim como uma rica fonte de recursos para o desdobramento das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, juntamente com concepções e obras como as de Brentano, de Nietzsche, de Buber, por exemplo.

 

 

g. Martin Buber (1878 – 1965). Filosofia do Diálogo e do Dialógico, Dialógica do Inter Humano.

À medida que a psicologia e a psicoterapia vão ganhando colorações francamente fenomenológicas e existenciais, desenvolve-se um questionamento acerca do papel, da auto-concepção e da qualidade da atuação do psicólogo e do psicoterapeuta. Passam estes por um crítica severa, e pela redefinição da relação do psicólogo e do psicoterapeuta com o cliente. O psicólogo e o psicoterapeuta já não podiam ser mais agentes meramente objetivistas ou metafísicos. Nesta linha, o qualitativamente grande Ronald Laing, um psicoterapeuta fenomenológico-existencial inglês, diria, taxativa e claríssimamente: “Ninguém encontrará a pessoas estudando-as meramente como objetos...”

Na dialógica inter humana, Laing captava a questão em seus fundamentos. Ele não falava meramente dos clientes, falava igualmente dos profissionais. Se o cliente, humano que é, tal como o tereapeuta, não pode ser concebido, e metodologicamente abordado, meramente como objeto; o psicólogo, o psicoterapeuta, igualmente, não podem meramente se entender como sujeitos. Muito menos como sujeitos técnicos e práticos, que aplicam aos clientes, ou supostos objetos de conhecimento e de intervenção, uma certa tecnologia.

Valorizou-se fundamentalmente, em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, a perspectiva de que o psicólogo e o psicoterapeuta são, fundamentalmente, parceiros dialógicos de relação. Parceiros numa correlação inter ativa intrínseca e ativa, que vivencialmente os envolve no encontro, dentro dos limites da instituição em que este encontro ocorre.

Mais que isto, constatou-se o poder da valorização desta relação no sentido do desenvolvimento do cliente, e, claro, do terapeuta.

Em um dado momento, em 1957, Carl Rogers e Martin Buber se encontraram em Ann Arbor, para um debate público. O Buber que profundamente compreendia a mística, em especial a mística hassídica, e a mística do extremo Oriente; depositário de antigas sabedorias, e de mundos tão antigos; o Buber que vinha da Europa dos progroms, do desenvolvimento da Universidade Hebraica de Jerusalém, na Palestina, anteriormente a 1948; da constituição do estado de Israel, depois de 1948... Rogers, o psicólogo moderno, original e ascendente, na afluência de poder internacional, cultural, econômico e militar dos EUA.

A transcrição deste debate causa uma certa estranheza, e até mesmo incômodo e angústia. Paradoxalmente, passa a impressão de que eles não conseguiram se sintonizar, não conseguiram se comunicar, como se estivessem em freqüências diferentes. Não sei se Buber teria percebido desta forma, mas a imaturidade de Rogers, e uma certa arrogância, fez com que ele se colocasse, num certo sentido, em pé de igualdade com o Buber...

Naturalmente que Buber jamais acusaria isto, não sei nem se teria se dado a perceber. É algo na direção da possibilidade de que Rogers dialogasse com Lao Tse, e se colocasse em pé de igualdade com ele. E na verdade, achasse certas posições de Lao Tse meio antigas e antiquadas. Não quero colocar Buber no nível de um Lao Tse, enquanto um clássico da humanidade. Nem fazer comparações “de nível”. Mas parece-me que faltou humildade a Rogers. Até porque o que seria a abordagem rogeriana sem a dialógica elucidada por Buber. Talvez Rogers estivesse, então, esquecido... Aparentemente, faltou que Rogers reconhecesse isso explicitamente; atribuísse todos os créditos devidos a Buber. E, depois, certamente que podia até discordar de Buber, mas não sem antes se colocar no seu lugar com relação a ele, colocar a sua abordagem no seu lugar, com relação ao trabalho de Buber, e colocar as coisas em seus devidos lugares.

De um modo importante, a Filosofia da Relação, de Martin Buber, estava por trás dos desenvolvimentos que deram, origem às psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, na medida em que ele exercia forte e direta influência sobre os psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico-existenciais pioneiros. Rogers certamente o conheceu ainda no seminário teológico. Laura Perls, que tanta influência exerceu no desenvolvimento da Gestalt Terapia, foi, por muito tempo, aluna de Buber. E Fritz Perls lhe era próximo.

Por outro lado, a filosofia de Buber serve como importante perspectiva de esclarecimento da natureza de processos que se desenvolvem com a prática do modelo fenomenológico existencial de psicologia e de psicoterapia. Inclusive para quem, praticando este modelo, não estava familiarizado com as perspectivas desta filosofia.

 

A filosofia da relação, de Martin Buber, tematiza a ontológica da coisificação natural, e não natural, da condição humana, e do mundo. O modo eu-isso de sermos. E a possibilidade ontológica sempre latente da superação da coisificação, pela afirmação do modo de sermos (eu-tu) que nos engaja na concretude de nossa existência; seja na esfera da relação com a natureza não humana, na esfera da relação inter humana com os outros seres humanos, ou na esfera da relação com o sagrado.

Buber nos oferece uma perspectiva de vivência e de compreensão das possibilidades naturalmente transformadoras da vivência do modo eu-tu de sermos. Em especial no encontro dialógico, encontro inter-humano, do qual fazem parte o encontro e a dialógica inter humanos, do encontro com o cliente, que privilegiamos em psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.

Com Buber, a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial aprendeu que é na entrega afirmativa à concretude da existência, com suas finitudes e sofrimentos, que se abrem as possibilidades do modo ontológico humano de sermos, a que ele chamou de eu-tu.

A cotidianidade, a naturalidade, a utilidade, de nosso modo coisificado, objetual e utilitário, de sermos (eu-isso), pode – e, na verdade, continuamente estimulam a fazê-lo, em especial na modernidade -- impor-se progressivamente como excludente, impedindo-nos a vivência de nosso modo regenerativo, recriativo de sermos, que é o vivido modo eu-tu.

Nosso modo vivencial, fenomenológico existencial, de ser, eu-tu, é nosso modo ontológico de ser. Modo no qual se dá o possível, a regeneração, e a sua possibilitação. Uma limitação ao nosso modo eu-isso, coisificado, de sermos. Modo este que nos confina ao acontecido, que nos aliena da possibilidade do acontecer, à medida que o acontecido cristaliza a sua mecânica inerte, cada vez mais fatalizada.

A vivência de nosso modo eu-tu de sermos permite a dissolução da mecânica, da inércia e da fatalidade do isso, do mundo e da vida tendencialmente coisificados, ao mesmo tempo em que dissolve-nos em possibilidades, e na regeneração de suas atualizações.

Degenerando o mecanicismo inerte do decurso ilimitado das coisas, e da fatalidade, e abrindo a dimensão do possível, e de suas atualizações, os momentos de vivência eu-tu requerem, não obstante, a entrega própria e afirmativa à concretude da existência, à concrescência da existência, como condição de suas possibilidades. O que significa, a entrega afirmativa ao existencial em seus sofrimentos e finitudes contingentes e inevitáveis, como retorno a este nosso modo ontológico de sermos.

O privilegiamento deste modo ontológico, potente e regenerativo, envolve em seu momento próprio um descompromisso com um modo metafísico de sermos. Na medida em que a vivência ontológica e fenomenal é inteiramente física, e sensível e imediatamente vivencial enquanto tal.

Envolve um descompromisso com o repetitivo comportamental, na medida em que, naturalmente, nos abrimos, então, para a atualização da possibilidade do irrepetível, do novo, do único e inédito.

Fundamental ainda considerar que a vivência dialógica dá-se sempre como vivência fenomenológico existencial de dualidade, como tensão de relação de alteridades, eu-tu; mas, especificamente, como modo de ser diverso do modo de sermos que se constitui na dicotomização da relação sujeito-objeto. Não a sujeito, nem objeto no momento de vivência eu-tu. A vivência dialógica, ontológica, eu-tu dá-se caracteristicamente num modo de sermos no qual não vigoram nem objetividades nem subjetividades.

A entrega à concretude da existência, no momento pontual de sua vivência, a entrega vivencial afirmativa à presença, e aos desdobramentos de possibilidades, em especial de sofrimentos e finitudes inevitáveis e efetivamente vividos, é uma premissa fundamental da concepção e metodologia das abordagens fenomenológico existenciais. Nesta perspectiva do modo de uma vida afirmativa, Buber teve em Nietzsche, dentre outros, um significativo precursor.

 

 

h. A Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein (1878 – 1975).

Kurt Goldstein foi um médico neuropsiquiatra, cujas concepções se fundamentavam na teoria fenomenológica da Gestalt. Goldstein se desconstruiu a si próprio enquanto médico, no sentido da constituição de uma psicologia e de uma psicoterapia fenomenológica. De um eminente neuropsiquiatra e pesquisador, Goldstein morreu estudando fenomenologia e existencialismo.

Antes disto, entretanto, estabeleceu com o seu trabalho as bases da psicologia organísmica, fundamentado nas concepções da psicologia fenomenológica da gestalt, e em seus estudos neurológicos com pacientes que haviam sofrido lesão cerebral decorrente de traumatismo de guerra.

Seus estudos em pesquisa neurológica deram-lhe o fundamento para insurgir-se contra a psicologia cartesiana institucional de então, em particular contra a psicologia de Wundt. Goldstein contrapôs os seus estudos, no âmbito da revolução da Gestalt, a uma psicologia fundamentada na dicotomização corpo-mente, e na compartamentalização do corpo e do psiquismo humano, em funções independentes. Sem uma consideração adequada para com os importantes aspectos de seu funcionamento necessariamente sistêmico. Em particular, sem uma consideração adequada para com as capacidades de auto-regulação e de auto-atualização sistêmicas do organismo.

Influenciado por W. Reich, Goldstein valorizou fundamentalmente estas capacidades de auto-regulação e de auto-atualização do organismo, como fundamentos de sua compreensão do ser humano, e de sua psicologia organísmica.

E é esta sua psicologia organísmica que oferecerá um importante fundamento para as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, em particular tal como elas se constituem nos trabalhos de A. Maslow, F. Perls e Carl Rogers.

 

 

i. O Expressionismo

Dado o caráter especificamente existencial das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, não é de estranhar a forte presença do movimento artístico e cultural, fortemente existencial, do Expressionismo, nas raízes destas abordagens. As raízes das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais são geradas importantemente, na modernidade, nos finais do Século XVIII, e primeira metade do Século XIX. Período de intensos conflitos sociais e culturais, que confluíram nas duas guerras mundiais do Século XX.

As psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais desenvolvem-se nestes tempos. Da mesma forma que o movimento artístico e cultural do Expressionismo.

O Expressionismo, como movimento artístico e cultural, buscava se afastar das perspectivas culturais, e da arte, que enfatizavam a impressão da realidade objetiva, da objetividade, sobre o artista. E a constituição de sua obra de arte a partir desta impressão.

O Expressionismo entendia que a fonte ontológica do humano não estava na supervalorização da objetividade. Nem mesmo era da ordem da realidade. Mas da ordem do que podemos chamar de vivência fenomenológico existencial, pré-reflexiva, pré-conceitual. E que se constitui, especificamente, como vivência de possibilidade, como vivência da potência expressivante, expressivativa, da potência do possível.

De modo que eles, os expressionistas, querem, então, privilegiar esta vivência. E, assim, privilegiar a vivência fenomenal do possível potente, e do desdobramento do possível que lhe é inerente, como processo próprio de produção artística na constituição de sua obra de arte, e da vida.

Esta postura de privilégio da vivência fenomenal, vivência da potência do possível que lhe é inerente, e que a projeta expressivamente em seu desdobramento, tem como premissa a abolição do império do princípio de realidade, do positivismo do real, da realidade objetiva, da realidade, mesmo; já que o possível não é da ordem do real. Para privilegiar o momento da vivência fenomenal de atualização de possibilidades.

O Expressionismo se constitui, assim, como uma postura de privilegiamento da vivência existencial, em suas propriedades de atualização de possibilidades, e, inclusive, de geração e regeneração do real, de sujeitos, objetos, subjetividades e objetividades.

Naquele difícil momento histórico, era a perplexidade e o desespero humano que buscava expressão. O que ficou representado dramaticamente pelo quadro patético de E. Munch, denominado de O Grito.

O Expressionismo se originava nas -- ao mesmo tempo em que encaminhava e antecipava as -- perspectivas da Fenomenologia existencial, e do existencialismo. Em particular encaminhava e antecipava as perspectivas conceituais e metodológicas das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Em seu estilo explicitava inequivocamente o que Heidegger viria a colocar, depois, em palavras: A possibilidade é mais importante do que a realidade.

Psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico existenciais entenderam a radicalidade e a importância existencial das teses e posturas, do método, expressionistas. Em especial, como atualizações criativas e geniais de posturas da Fenomenologia e do Existencialismo. Fritz Perls foi, talvez, dos que mais vivenciaram o estilo expressionista, mesmo antes de ser um psicoterapeuta. Desde os quatorze anos de idade participou de grupos de teatro experimental expressionista, nos experimentos teatrais de Max Reinhardt. Sua abordagem foi profundamente marcada por esta vivência. E ele disseminou de um modo importante a postura expressionista para outras abordagens de psicologia e de psicoterapia.

O Expressionismo é, assim, uma matriz fundamental das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. E merece ser entendido, e estudado, neste sentido tanto quanto as outras abordagens teóricas e filosóficas.

 

 

j. Psicoterapeutas Fenomenológico Existenciais Europeus

Freud ainda era vivo quando a Fenomenologia e o Existencialismo começaram a insinuar-se em certos segmentos do movimento psicanalítico. Isto ocorreu tanto na Alemanha, como na Suíça, na França, e nos Estados Unidos. Alguns psicanalistas começaram a ser influenciados pelas perspectivas da fenomenologia, de Heidegger, da filosofia da vida de F. Nietzsche e do existencialismo de S. Kierkegaard, e passaram a criticar os aspectos deterministas e biologizantes, e o papel fortemente tecnicista do terapeuta na concepção psicanalítica.

Foram os primeiros psicoterapeutas fenomenológico existenciais formais de que se tem notícia. Ludwig Binswanger fundou um instituto de Psicanálise na Suíça. Era bastante próximo de Freud, e assim continuou. Mas desviou-se dos conceitos psicanalíticos, e desenvolveu uma abordagem ligada às perspectivas fenomenológicas e existenciais de Heidegger. Com interesse fundamental não na análise, no sentido psicanalítico do termo, mas na análise da estrutura da existência do cliente em sua facticidade e afetividade próprias. M. Boss e E. Minkovski foram dois outros expoentes deste momento pioneiro do desenvolvimento das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais.

Estes pioneiros da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial européia exerceram importante influência sobre os psicoterapeutas e psicólogos fenomenológico existenciais norte americanos.

Momento marcante deste processo, foi a publicação nos EUA da tradução do livro Existence, de autoria dos primeiros. Empreendimento patrocinado por Rollo May, com a colaboração de Abrahan Maslow, e de Carl Rogers.

 

 

k. Dissidentes do Movimento Psicanalítico

Outros dissidentes do movimento psicanalítico, e que desenvolveram sistemas próprios tiveram uma marcada influência no desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial, em particular sobre o seu momento norte-americano. Dentre estes podemos destacar a C.G. Jung, W. Reich, S. Ferenczi, O. Rank, e os Culturalistas E. Fromm, K. Horney e H.S. Sullivan.

Com a sua psicologia profunda, C.G. Jung assenta uma crença na benignidade da natureza humana, crença esta que vai potencializar, e reforçar, de dentro da psicanálise, idênticas perspectivas da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.

Com a sua concepção de individuação, como uma apropriação, cada vez mais plena, pelo homem, das camadas progressivamente mais profundas de seu ser, e de sua vinculação com o universo; e com uma compreensão deste processo como o desdobramento da própria saúde do ser humano, Jung se contrapôs ao modelo psicanalítico freudiano. Que bipartia a pessoa nas pulsões de morte e de vida, e que entendia uma necessidade de coação social na constituição do ego e da pessoa, para que o ser humano não realizasse justamente aquilo que ele seria mais profundamente, e que, para Freud se constituía como um poço de instintos destrutivos e anti-sociais.

Para Jung não. Na integração de seus níveis mais profundos de ser é que residia, para ele, a saúde do ser humano, e o desdobramento desta saúde era exatamente, para ele, a apropriação e integração em sua personalidade, pela pessoa, dos níveis mais profundos de seu ser.

 

Além de ter marcado a história da psicanálise tradicional, através de seus estudos sobre a análise das resistências, W. Reich configurou-se como um dos seus mais notórios dissidentes. Reich trouxe o corpo para a psicoterapia. Através de suas reflexões, a psicoterapia, e a própria concepção da condição humana em psicoterapia, passou a valorizar o corpo, e a deslocar-se da limitação a uma perspectiva de super-valorização, e reificação, do psíquico.

Foi Reich um dos primeiros a sustentar a perspectiva de uma auto-regulação organísmica como processo fundamental da regulação do organismo. Influenciou de um modo importante assim no desenvolvimento desta concepção, que vai, através da mediação da Psicologia Organísmica de Kurt Goldstein, constituir-se como um dos conceitos fundamentais da Gestalt Terapia e da Abordagem Rogeriana.

S. Ferenczi e O. Rank marcaram um momento forte, dentro da Psicanálise. Momento de descrença com relação à aplicação de técnicas. Momento de valorização da relação imediata entre o terapeuta e o cliente, como fator de potencialização deste. Foram explícitos em sua crítica a uma postura eminentemente técnica.

Mais que isto, O. Rank foi profundamente influenciado pelas perspectivas de F. Nietzsche. E buscou, num segundo momento de sua obra, integrar estas perspectivas como fundamento de seu sistema de psicoterapia. Dizia estar, ele próprio, para Freud assim como Nietzsche estava para Schopenhauer.

É esclarecedora, neste sentido, a passagem de Deleuze[7], comentando a relação de Nietzsche com Freud. Deleuze observa o seguinte:

Do que precede, deve-se concluir que Nietzsche exerceu influência sobre Freud? Segundo Jones, Freud negava-o formalmente. A coincidência da hipótese tópica de Freud com o esquema Nietzscheano explica-se suficientemente pelas preocupações ‘energéticas’ comuns aos dois autores. Seremos ainda mais sensíveis às diferenças fundamentais que separam suas obras. Pode-se imaginar o que Nietzsche teria pensado de Freud: aí ainda ele teria denunciado uma concepção muito ‘reativa’ da vida psíquica, uma ignorância da verdadeira ‘atividade’, uma impotência em conceber e em procurar a verdadeira ‘transmutação’. Isto pode ser imaginado com mais verossimilhança, visto que Freud teve entre seus discípulos um nietzscheano autêntico. Otto Rank devia ter criticado em Freud ‘a idéia insípida e terna de ‘sublimação’. Ele reprovava Freud por não ter sabido liberar a vontade da má consciência ou da culpabilidade. Queria apoiar-se nas forças ativas do inconsciente, desconhecidas para o freudismo, e substituir a sublimação por uma vontade criadora e artista. Isto o levava a dizer: sou para Freud o que Nietzsche era para Schopenhauer. (Cf. RANK, A Vontade de Felicidade).

 

Otto Rank emigrou para os EUA. Teve lá forte influência, a partir de suas perspectivas -- que valorizavam a relação espontânea entre o terapeuta e o cliente, e a potencialização da criatividade --, sobre o meio do qual emergiria a psicologia humanista norte americana, em particular sobre Rogers.

Exerceu sobre Perls, na Europa, ainda, uma significativa influência. Que se prolongou nos Estados Unidos.

 

Os psicanalistas chamados de Culturalistas  -- Erich Fromm, Karen Horney, e H.S. Sullivan -- foram, dentre os psicanalistas, importantes fontes de inspiração para a psicologia humanista. Traziam consigo da Europa -- para os Estados Unidos, no caso, em particular de Fromm e Horney -- toda a densidade teórica e institucional da psicoterapia psicanalítica européia. Mas se desviavam dos fundamentos biologistas de Freud, para desbravar a nova perspectiva da reflexão cultural, no âmbito da psicologia e da psicoterapia.

Fromm, enfatizou explicitamente a benignidade do potencial humano, e a sua tendência natural a uma explicitação produtiva e saudável, num meio que atendesse a suas necessidades básicas[8].

Sullivan enfatizou o papel da relação entre o terapeuta e o cliente como um dos fatores fundamentais da produtividade do processo terapêutico. Teve, desta forma, assim como S. Ferenczi e O. Rank, marcante influência sobre o desenvolvimento das linhas de psicoterapia humanistas que desconfiaram do primado da técnica, e escolheram privilegiar a relação imediata e natural com o cliente no processo do trabalho psicológico e psicoterapêutico, constituindo a perspectiva relacional em psicoterapia.

 

Estamos aqui, já, na interface entre as vertentes Européia e Norte Americana. Fromm, Horney (assim como Wertheimer, Goldstein, Rank...) emigraram da Europa para a América do Norte, e aí viveram grande parte de suas vidas, elaborando o seu trabalho e suas obras. Naturalmente que suas idéias foram marcadamente influenciadas pelo meio no qual passaram a viver, trabalhar e escrever.

 

 

l. Gestalt Terapeutas

Ainda na interface entre as vertentes Européia e Norte Americana, não podemos deixar de mencionar os Gestalt Terapeutas.

A Gestalt Terapia tanto influenciou e foi influenciada pela psicologia humanista Norte Americana que se tornou uma de suas correntes reconhecidas. Na verdade, a Gestalt Terapia e o modelo rogeriano desenvolveram-se no sentido de uma forte e interessante convergência, convergência esta que se manifesta de um modo mais claro em países como o Brasil.

Estas convergências poderiam ser entendidas como convergências anunciadas, uma vez que raízes fundamentais da Gestalt Terapia são igualmente raízes da Psicologia Humanista norte americana, tais como a psicologia organísmica de K. Goldstein, a fenomenologia e a filosofia da vida de F. Nietzsche. Não podemos esquecer o poderoso vinculo que representa para estas abordagens a raiz na filosofia do diálogo e do dialógico de M. Buber.

É importante destacar, todavia, que, não obstante as convergências, há particularidades teóricas, culturas de escolas, histórias, distintas, e... distintas “panelas”.

A Gestalt Terapia tem um embrião totalmente concebido na Europa, diferentemente das demais abordagens da chamada psicologia humanista. Esteve muito mais próxima, nas figuras de seus fundadores, das fontes originais da Fenomenologia, do Existencialismo, da Filosofia do Diálogo de Buber, da Psicologia Organísmica, da Mística Judaica, da cultura e dos conflitos da Europa.

De modo que, incorporada ao meio da Psicologia Humanista norte americana, trazia muito fortemente marcada a influência destas suas origens européias, no estilo de Fritz Perls, na formação de Laura Perls, e de outros gestalt terapeutas.

Sofreu, e sofre, influências marcadas da vertente Norte Americana, mas igualmente a influenciou e influencia, a partir destas suas peculiaridades.

Fritz Perls e Laura Perls fundaram o Instituto de Gestalt Terapia de Nova York, e aí deram início à formação de Gestalt Terapeutas pioneiros, como Paul Goodmann, Isadore From, Paul Weiss e outros.

Em seguida, junto com Paul Goodmann e Isadore From, Perls deu início ao Instituto de Gestalt Terapia de Cleveland, no Estado de Ohio. Em seguida, Perls foi para a Flórida, indo fixar-se por um tempo, depois, na Califórnia. Onde ajudou a criar o Esalen Institute, e desenvolveu uma intensa atividade como gestalt terapeuta, e como divulgador da Gestalt Terapia.

A partir destes núcleos a Gestalt Terapia disseminou-se por vários países.

 

 

2. Encontro das águas I.
O encontro das águas europeu.

 

Há, na constituição da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial -- que depois redundará na psicologia humanista -- o que, talvez, possamos chamar de um primeiro encontro das águas. Um encontro das águas especificamente europeu.

Acredito que este encontro das águas realiza-se, em primeiro lugar, na Psicologia Organísmica de K. Goldstein, na medida em que esta, partindo de sólidos fundamentos neurológicos, vai incorporar as idéias de auto-regulação do organismo. Estas idéias são, em grande medida, devidas a W. Reich, e às perspectivas da Fenomenologia, através da mediação da Psicologia da Gestalt de Kohler, Kofka e Wertheimer.

Por outro lado, a pioneira Psicoterapia Existencialista européia também corporifica, nos trabalhos de Binswanger, Boss, Minkovski e outros uma importante dimensão do encontro das águas europeu, na medida em que recebe os influxos diretos da filosofia da vida de F. Nietzsche e de W. Dilthey, das filosofias de Kierkegaard, de Heidegger e da fenomenologia de Brentano, e de Husserl, além de importantes inspirações da psicologia organísmica de K. Goldstein.

Não podemos esquecer, igualmente, que a Gestalt Terapia originária é fundamentalmente parte deste processo de encontro das águas europeu. Dentre outras raízes, a Gestalt Terapia originária, sintetizada por F. Perls, integra as influências originais da Fenomenologia e do Existencialismo europeus, aí incluídas as perspectivas da filosofia da vida Nietzsche. Integra perspectivas de W. Reich, de C. G. Jung e Otto Rank; e perspectivas do Expressionismo.

Um lugar de destaque na constituição deste encontro de águas europeu estará reservado à influência da Filosofia da Relação Dialógica, de M. Buber, na medida que, por exemplo, Laura, esposa de Fritz Perls, e uma das pioneiras, poderosa influência, na configuração da Gestalt Terapia, foi aluna de Buber. Fritz Perls foi igualmente influenciado pelas perspectivas de Buber, perspectivas estas que se expressaram na constituição da concepção e método de sua abordagem.

A Gestalt Terapia originária integra igualmente as perspectivas da Fenomenologia através das obras dos teóricos da Escola da Gestalt, com um diferenciado lugar para a teoria de campo. Em especial, a Teoria de Campo fenomenológico original, anterior às concepções de K. Lewin. A Psicologia Organísmica de Goldstein é, igualmente, uma importante raiz no processo de constituição da Gestalt Terapia, que integra, também através desta, as perspectivas fenomenológicas da Psicologia da Gestalt.

A Gestalt Terapia, na pessoa de seus sintetizadores, é, em seguida, transplantada para os EUA, depois de uma escala na África do Sul.

 

 

3. A Vertente dos EUA

As perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo, como possibilidades de abordagens de psicologia e de psicoterapia, foram recebidas com reservas, de um modo polêmico; mas, igualmente, com muito entusiasmo nos Estados Unidos. Para certo tipo de psicoterapeuta e de psiquiatra, e, a seguir, de psicólogo, norte americanos elas caíram como uma benção, já que configuravam uma nova e potente alternativa para o impasse oriundo na dicotomia entre a abordagem psicanalítica e a abordagem comportamental.

Com a grande capacidade da cultura dos EUA para assimilar a novidade que comporte possibilidades produtivas, as linhas gerais da Fenomenologia e do Existencialismo foram entusiasticamente incorporadas pela cultura da psicologia e da psicoterapia norte americanas. Nos EUA estas perspectivas foram intensa e criativamente trabalhadas e elaboradas, amalgamando-se com perspectivas próprias da cultura local. O que resultou numa revolução sem precedentes na história da psicologia e da psicoterapia; resultando, em particular, na consolidação teórica e prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e de psicoterapia.

Temos como elementos originais da vertente dos EUA:

 

 

a. William James (1842 – 1910) e a Psicologia Científica Pragmático Empirista Norte Americana

A psicologia científica universitária norte americana desenvolveu-se fortemente influenciada pelas idéias pragmático empiristas de W. James. Foi no âmbito desta psicologia que aportaram as idéias da Fenomenologia e do Existencialismo, como possibilidades de abordagens de psicologia e de psicoterapia. Um grupo de psicólogos, como observamos, buscava alternativas para os excessos do behaviorismo e para as perspectivas fortemente biologizantes, teorizantes e tecnicistas da Psicanálise.

No que pesem todas as diferenças e conflitos entre a mentalidade vigente na psicologia universitária científica norte americana -- herdeira das idéias pragmáticas de James, e dos filósofos empiristas ingleses -- e as perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo, houve uma profícua, ainda que ambígua, integração entre ambas as perspectivas. Pelo menos até certo ponto, o que resultou na constituição da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial organísmica, dita humanista, nos EUA.

Por outro lado, é interessante observar que certas perspectivas da filosofia de James potencializavam este encontro. Muito especialmente a sua crítica e aversão a perspectivas e concepções absolutistas e aprioristas em filosofia, representadas, para ele, pelo hegelianismo. James contrapunha-se ao elementarismo psicológico da Psicologia Experimental de Wundt, confrontado, igualmente, pela Fenomenologia, desde Brentano e Stumpf; e em particular pela Teoria da Gestalt; em privilégio de uma valorização da experiência fenomenal.

A concepção de verdade de James permitia uma integração com as perspectivas fenomenológico existenciais, em particular ao nível da psicologia e da psicoterapia, ainda que suscitassem conflitos a níveis filosóficos mais profundos. Para James[9]:

 

A verdade (...) deixa de ser concebida como adequação entre o pensamento e o pensado, a mente e a realidade exterior, ou então como coerência de idéias entre si, para tornar-se funcional. Nessa ordem de idéias, uma proposição é considerada verdadeira na medida em que possa orientar o homem na realidade circundante e conduzi-lo de uma experiência até outra. A verdade -- para James -- não é algo rígido e permanente; pelo contrário, modifica-se e expande-se sempre.

(...) A verdade deve satisfazer a duas condições diferentes. Em primeiro lugar o pragmatismo de James salienta a necessidade de as proposições exigirem comprovação para serem admitidas como verdadeiras. Neste sentido a verdade seria a verificabilidade. (...) Essa primeira condição da verdade, estabelecida pelo pragmatismo entende ‘conseqüência prática’ como um modo de ‘conseqüência teórica’. A segunda condição estabelecida por James para a identificação de uma verdade consiste no seu valor para a vida concreta. Esses dois modos de conceber a verdade unem-se na concepção de verdade como algo essencialmente ‘aberto’ e em constante movimento. Em síntese, para William James, a verdade não é algo feito ou dado; é algo que ‘se faz’ dentro de uma totalidade também em constante processo de ‘fazer-se’.

Ao nível de uma reflexão filosófica mais particularizada, esta concepção certamente choca-se com perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo. Em particular em torno das questões relativas à supervalorização da prática. E a supervalorização deste princípio de utilidade da verdade na existência. Princípio que já animava as críticas de Nietzsche à perspectiva dos filósofos empiristas objetivistas, e dos evolucionistas ingleses.

Mas, no encontro das águas da vertente européia com a vertente norte americana de psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, estas perspectivas da filosofia pragmática de W. James serviram como um poderoso gancho de integração entre a mentalidade da psicologia pragmática norte americana e as influências fenomenológico existenciais que lhe chegavam, então, da Europa.

A verdade não era absoluta, como queriam as correntes filosóficas a que ambas as tendências se opunham. A verdade era produto de construção e estava intimamente associada à existência e ao vivido, a verdade, sobretudo, não era teórica. (Vale dizer que, nem prática, para os psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico existenciais).

Esta integração de perspectivas pragmáticas com perspectivas fenomenológico existenciais forneceu importantes e preciosos suportes e possibilidades para o trabalho psicológico e, em particular, para as urgências e emergências do trabalho psicoterápico. Com clientes em crise existencial, em sofrimento intenso, e carentes de transformação e de superação de seu status-quo. Carentes de construção de verdades novas, a partir dos dados de suas vidas, de seus sentidos e potencialidades, e das urgências de suas existências.

 

 

b. Psicoterapeutas Existencialistas Norte Americanos

Abrahan Maslow (1908 – 1970), Rollo May (1909 – 1994), Andras Angyal constituíram destacadamente um segmento e um núcleo pioneiro de psicoterapeutas fenomenológico existenciais norte americanos. Médicos psiquiatras, foram profundamente influenciados pelas idéias de K. Goldstein e pelas perspectivas e posturas dos psicoterapeutas fenomenológico existenciais europeus, como L. Binswanger, Medard Boss e E. Minkowski, e pelas inovações da Fenomenologia e do Existencialismo em psicologia e psicoterapia.

Maslow foi um importante pesquisador e teórico da psicologia norte americana, realizando estudos sistemáticos acerca das necessidades humanas, e acerca da auto-atualização da personalidade, do que ele veio a chamar, seguindo a K. Goldenstein, de personalidade auto-atualizante. Através de seus estudos, cursos, palestras, se contrapôs a um predomínio da Psicanálise, e do Comportamentalismo, no meio da Psicologia Norte Americana. Seus trabalhos estenderam-se à psicologia organizacional. Suas concepções humanistas terminaram por ser um dos fundamentos do que hoje entendemos como a filosofia do Controle Integrado da Qualidade, no gerenciamento empresarial.

Junto com May, Angyal e Rogers, Maslow constituiu um núcleo pioneiro em torno do qual a Psicologia Fenomenológico Existencial Organísmica norte americana começou a organizar-se com o movimento da Psicologia Humanista.

May foi um importante dinamizador da psicologia e psicoterapia existencial norte americana. Foi um dos organizadores do pioneiro livro Existence, que pela primeira vez trazia aos Estados Unidos as concepções de psicoterapeutas existenciais europeus, como Binswanger, Boss, Minkovski, Stauss e outros. Autor de profícua obra literária no âmbito da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial[10].

 

 

c. Carl R Rogers

Rogers foi um dos mais produtivos e ativos epígonos da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial norte americana. Foi um dos revisores do livro Existence, editado por May e outros. Sendo influenciado pelas idéias de psicoterapeuta fenomenológico existenciais europeus como L. Binswanger e Medard Boss.

Fez parte destacada do movimento da psicologia humanista, desencadeado, dentre outros, por A. Maslow. Trabalhou por uma perspectiva própria no campo da psicologia e da psicoterapia, desenvolvendo nestas áreas uma abordagem produtiva e com características próprias, que se difundiu por todo o mundo, servindo de suporte para o desenvolvimento de abordagens peculiares no âmbito da pedagogia, do trabalho com grupos e do manejo da relações humanas em geral. Comento mais a seu respeito ao longo de alguns dos próximos capítulos, e em trabalhos anteriores[11].

Rogers sofreu uma significativa influência de livre pensadores norte americanos e europeus, como Ralph Emerson. Sofreu uma profunda influências de filósofos existencialistas, como Soren Kierkegaard e Martin Buber. Sofrendo posteriormente a influência de Otto Rank e de Kurt Goldstein, que lhe traziam a influência forte da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial européias.

 

 

d. Fritz Perls

Fritz Perls, alemão, formou-se em medicina, na Alemanha, e especializou-se em psiquiatria, praticando inicialmente a Psicanálise.

Desiludido com a Psicanálise, dedicou-se a desenvolver a Gestalt Terapia como uma nova abordagem de psicoterapia, a partir da influência de certos dissidentes da Psicanálise, como W. Reich e Otto Rank, da Psicologia Organísmica de Goldstein e das concepções fenomenológicas da Psicologia da Gestalt, do Existencialismo e do movimento expressionista, em especial no Teatro.

Ainda como psicanalista, viveu na África do Sul. Voltou à Europa brevemente, e emigrou em seguida, definitivamente, para os Estados Unidos. Lá encontrou, no fervilhante meio da cultura norte americana do início dos anos cinqüenta, o ambiente mais do que propício para a apresentação de uma abordagem fenomenológico existencial de psicoterapia. Com a experiência que trazia da Europa, atuou intensamente na constituição e divulgação de sua abordagem, integrando-se, desta forma, como um dos principais elementos na emergência da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial humanista dos EUA.

 

4. Do Encontro das águas II:
Da vertente européia com a vertente norte americana.

Muito do fundamental deste encontro parece estar no que descrevemos acerca do encontro e articulações da psicologia científica pragmática norte americana com a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, e com a própria Fenomenologia e Existencialismo, que nos Estados Unidos aportavam, vindos da Europa.

Deste encontro brotou a possibilidade prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicoterapia, e o seu desenvolvimento efetivo de um modo até então insuspeitado na Europa. Pragmatismo, Fenomenologia e Existencialismo, apesar de suas distinções, conflitos, contradições e incompatibilidades, produziram e produzem um agenciamento prático que parece interessante desvendar e promover em suas possibilidades.

Do lugar cultural e histórico em que estamos hoje, não podemos negligenciar os pontos conflitantes, e mesmo as distorções que se desenvolveram neste processo.

É interessante observar que a chegada do Existencialismo nos EUA representa, em grande medida, a chegada de uma corrente filosófica de cunho fortemente antagônico com relação às tendências fortemente religiosas, e mesmo puritanas, predominantes na Sociedade Norte Americana. A valorização do corpo, dos sentidos, do vivido, não poderiam ser assimiladas, em uma tal sociedade sem atritos.

Isto é particularmente verdadeiro no que concerne às figuras e às idéias de F. Nietzsche, fortemente críticas com relação à perspectiva da tradição religiosa da civilização ocidental. Há que se acrescentar, ainda, que estas perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo aportavam nos EUA, vindas, em grande parte, da Alemanha, com a qual os EUA se encontravam em hostilidades, hostilidades que redundaram na Segunda Guerra Mundial.

Curiosamente, vinham trazidas por exilados, que na Alemanha também antagonizavam e eram perseguidos pelo Nazismo.

As idéias trazidas da Europa para os Estados Unidos, por intelectuais exilados, antes, durante e depois da segunda guerra, provocaram forte reação cultural na Sociedade Norte Americana. Em particular porque, além de se configurarem como corpos estranhos, fundavam-se, basicamente, em grande medida, nas idéias de Freud, Marx e Nietzsche, associados a sexo, amoralismo, ateísmo e oposição à propriedade privada. Desnecessário dizer que eram os três, então e ali, “as besta feras do apocalipse”.

No âmbito da Fenomenologia, e do próprio Expressionismo, e do Existencialismo, podemos dizer que estas idéias aportavam numa sociedade de mentalidade fortemente empirista. Empirismo num sentido objetivista, empirismo contra o qual se insurgiram a própria Fenomenologia, o Existencialismo e o Expressionismo, em suas origens, na busca de fundar uma ontologia, uma epistemologia e uma ciência humana que partissem, exatamente, da vivência fenomenal, desprezada pelo empirismo objetivista.

Assim, ainda que, do ponto de vista prático, a associação de Fenomenologia e Existencialismo com Pragmatismo e Empirismo tenha se revelado muito produtiva, no processo da criação e desenvolvimento de abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e psicoterapia, existiram, e existem, problemas nesta integração...

Muita gente nos EUA adotou as perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo com a avidez de quem abocanha uma batata quente. E, conseqüentemente, em seguida, com o sentimento de urgência de quem dela precisa se livrar. Este parece ter sido o procedimento de amplos setores da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial norte americana.

Num primeiro momento, a Fenomenologia e o Existencialismo, rudimentarmente compreendidos, a princípio, e ainda hoje, de um modo geral, se revelavam como um manancial com enormes possibilidades. Mas a compreensão de suas implicações, em particular com relação a uma perspectiva religiosa, foram se revelando incômodas. Houve tendências de “mitigar”, ou mesmo de expurgar, então, os aspectos “negativos” do Existencialismo e da Fenomenologia. Isto implicou num certo tipo de “cristianização” do Existencialismo, não religioso e mesmo anti religioso, que inspira as origens da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. E num certo tipo de objetivização da Fenomenologia.

Estes processos distorsivos, evidentemente, resultaram e resultam, freqüentemente, na perda da originalidade criativa da abordagem.

No caso da perspectiva religiosa, existe sempre o recurso aos existencialismos religiosos, que são uma realidade desde Kierkegaard. De meu ponto de vista particular, parece-me difícil conceber a psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial sem a importante contribuição da crítica de F. Nietzsche, e a perspectiva de sua filosofia da vida. Mas compartilho da idéia de que cada um deva encontrar os seus próprios caminhos.

Um aspecto do paradigma fenomenológico existencial, conflitante com a perspectiva do pragmatismo, na verdade bastante antagônico, e que Rogers e Perls pareceram integrar de um modo radical, é a característica de constituir-se como uma abordagem não prática, não pragmática do paradigma fenomenológico existencial.

 

 

5. Encontro das águas III: encontro das vertentes européia/norte americana com a vertente latino americana.

 

De nossa perspectiva particular, um momento crucial é o do encontro dos resultados do encontro da vertente européia/norte americana da psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial humanista com a vertente latino americana.

Podemos falar de uma vertente latino americana?

Muitos certamente responderiam imediatamente que não. Muitos até que acham que deveríamos receber exatamente e preservar o que foi produzido anteriormente.

Isto seria impossível e impertinente, além de se configurar como uma desonestidade para com o passado da Abordagem, e com relação a nós próprios. Primeiro porque o que se produziu no encontro das vertentes européia e norte americana não é uma totalidade acabada, fechada, e que possa ser eleita ao estatuto de dogma ou de ortodoxia. Muito pelo contrário, pela postura básica de seus produtores pioneiros, esta abordagem rejeita qualquer tipo de fechamento e de dogmatização, e entende a realidade, natural e desejável, de que ela seja continuamente criada e recriada, na atualidade de sua vivência concreta. Qualquer tendência a um dogmatismo, ou ortodoxia, além de impertinente e retrógrada, despreza esta saudável postura.

Ao recebermos esta abordagem de um outro contexto, necessariamente, na realidade, a estaremos interpretando. Nossas escolhas giram em torno de fazermos uma interpretação rica e potente, ou uma interpretação fraca e impotente. Há muito de interessante por aprender com o que foi produzido, ainda que isto tenha seus limites. Mas, meramente reproduzir, “papagaiar” o que foi produzido em outros contextos, parece ser o modo pobre e impotente de interpretação.

Por outro lado, para recebermos os bons produtos formulados pela Abordagem, não poderíamos anularmo-nos como agentes ativos. Não poderíamos negar a singularidade de nossas perspectivas e de nossos interesses comuns. Nunca se aprende exatamente o que se ensina, a aprendizagem, como sabemos, envolve, para bem ou para mal, o dialógico, e a reinvenção, e é, em sua efetividade, a inter-atuação de alteridades criativas.

E, o que é muito importante, a realidade tem negado uma recepção meramente passiva no processo de encontro das vertentes européia/norte americana com a vertente latino americana.

Quero deter-me mais no que se refere à Abordagem Rogeriana e à Gestalt Terapia.

Os resultados do encontro europeu/norte americano chegaram-nos originalmente através dos livros de Rogers, e da recepção de colegas pioneiros que participavam de atividades nos EUA ligadas à abordagem, e que iniciavam núcleos formadores. Muito tempo depois, chegaram os livros de Gestalt Terapia – através do trabalho editorial pioneiro de Paulo Barros --, e de profissionais a ela ligados.

Na década de setenta, e uma vez mais na década de oitenta, Rogers e colegas que com ele trabalhavam, em particular John Wood e Maureen Miller O’Hara, estiveram no Brasil, trazidos por Eduardo Bandeira e companheiros, realizando palestras, entrevistas e workshops, residenciais, e não residenciais, com grandes grupos de participantes.

Já aí, o Brasil e a América Latina tinham um papel significativo no desenvolvimento da abordagem, na medida em que Rogers e seus colegas estavam aprendendo intensamente sobre este tipo de grupo, e mesmo reformulando, a partir de seus trabalhos, a concepção de seu modelo de trabalho com grupos, e de facilitação, e, na verdade, toda a concepção de sua abordagem.

Estas experiências brasileiras, das quais os brasileiros foram parceiros muito participantes, tiveram uma importância muito grande neste processo.

Alberto Segrera, do México, com o decidido estímulo de Rogers, foi um pioneiro de um momento pós-Rogers da Abordagem Rogeriana, quando organizou o Primeiro Forum internacional da Abordagem, em Oaxtepec, no México, em 1983. A abordagem passou a ter, para bem ou para mal, um forum efetivo, que tem se constituído como a referência mais abrangente da abordagem. Mais formal que efetivo.

Neste forum, no México, os Latino Americanos afirmaram as diferenças de sua perspectivas, realidades e necessidades, com relação aos europeus, e com relação aos norte americanos. Foi criado o ‘Encontro Latino Americano da ACP’, como instância que pudesse reunir os praticantes da abordagem da América Latina, para que pudessem compartilhar, inventar e reinventar as suas perspectivas.

O encontro ocorre a cada dois anos desde então. E se constituiu inicialmente como uma vigorosa referência e um vigoroso fator de dinamização e de desenvolvimento da Abordagem, e de integração de profissionais nela interessados, em toda a América Latina. A comunidade de praticantes da Abordagem na América Latina tem se integrado e se desenvolvido, em grande parte, graças ao influxo do Encontro Latino.

Na América Latina, a comunidade de profissionais praticantes da abordagem superou sem grandes traumas a morte de Rogers, em função, em grande parte, da referência em que se constituiu este encontro. Processo que não ocorreu nos EUA e na Europa, onde a carência da presença física de Rogers, e a falta de um núcleo consensual de integração tem causado muita perplexidade e desorientação.

O Encontro Latino da abordagem rogeriana deu origem a outros encontros pela América Latina. Surgiram o Encontro do Nordeste do Brasil da ACP, o Encontro Argentino, o Encontro Uruguaio, o Forum Brasileiro da ACP, O Encontro do Sudeste e o do Norte, cogita-se o Encontro Carioca da ACP, e a lista tende a crescer*.

Estes encontros forneceram, num primeiro momento, o apoio para um amalgamento entre as perspectivas, realidades e necessidades da América Latina, e os produtos do encontro das vertentes européia e norte americana da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.

Houve, num primeiro momento, uma reflexão crítica com relação aos fundamentos da prática da abordagem rogeriana. Uma reflexão com relação a uma concepção de pessoa, no âmbito da abordagem, tradicionalmente reificada, e conceitualmente aniquiladora da realidade humana de grandes setores de populações da América Latina. Uma concepção de pessoa que não integra a socialidade, a historicidade, a cultura, a transindividualidade da pessoa; uma pessoa definida não de uma forma genericamente humana, mas segundo as realidades sociais e humanas, culturais, das sociedades de Primeiro Mundo.

Desde a atividade do Grupo Latino, no primeiro Forum Internacional da ACP, que foi colocada uma crítica vigorosa contra uma tal concepção de pessoa. Assumir esta concepção reificada de pessoa na América Latina é alienar das possibilidades da abordagem amplos segmentos da população, e colaborar com o processo de sua aniquilação, já a um nível conceitual.

Esta crítica tem se desdobrado nos Encontros Latinos e nos outros encontros da abordagem rogeriana na América Latina, e tem potencializado o desenvolvimento de concepções da pessoa que integrem a diversidade de sua cultura, de sua socialidade, a sua transindividualidade. Isto se refere, igualmente, à própria pessoalidade do profissional.

Por outro lado, tem se desenvolvido um movimento vigoroso de reflexão acerca dos fundamentos filosóficos fenomenológico existenciais da abordagem, e acerca do modo como eles se constituem na sua teorização e prática. Este movimento passa, em primeiro lugar, por uma crítica de uma distorção objetivista que os fundamentos fenomenológico existenciais sofreram nos EUA. Há um movimento de recuperação dos fundamentos da Fenomenologia e do Existencialismo, em particular da filosofia da vida de F. Nietzsche, que forneceram o substrato básico para o desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial humanista.

Recuperada a perspectiva dos fundamentos fenomenológico existenciais organísmicos da abordagem, parece importante preservar uma atitude pragmática, uma valorização existencial da prática e da ação, que foram tão importantes contribuições da Cultura Norte Americana, e que permitiram os importantes desenvolvimentos da abordagem nos EUA e a sua propagação pelo mundo.

Os encontros da abordagem rogeriana têm sofrido um certo esvaziamento, na medida em que não têm, ao longo dos anos, conseguido se disseminar a uma população mais ampla de interessados na abordagem. Em particular porque, encontros residenciais, caracterizaram-se como encontros economicamente caros, inacessíveis para a maior parte dos interessados.

 

A Gestalt Terapia constituiu-se intensamente, no Brasil, como uma opção forte no âmbito das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. O vigor das posturas de Perls chegaram-nos através da literatura. Ainda que o que foi publicado inicialmente no Brasil tivesse um caráter excessivamente fragmentário, e carente, até recentemente, dos textos básicos de Perls, como o Gestalt Therapy e o Ego Hunger and Agression.

Profissionais norte americanos, como Maureen Miller O’Hara, tiveram uma importante contribuição pioneira no desenvolvimento da Gestalt Terapia no Brasil. No caso de Maureen, sempre intimamente associada à abordagem rogeriana.

O antigo Centro de Estudos de Gestalt Terapia de São Paulo, no que pese suas limitações, teve um importante papel na difusão das idéias e práticas da Gestalt Terapia, colaborando junto com o programa de formação do Instituto Sedes e Spaientiae, como o mais importante núcleo pioneiro de formação de profissionais de várias partes do país. Thérèse Tellegen teve um importante papel como uma referência fundamental em todo este processo.

Talvez a contribuição mais significativa à disseminação da Gestalt Terapia no Brasil tenha sido o trabalho editorial de Paulo Barros junto a Summus Editorial, na publicação de livros de Gestalt Terapia no Brasil.

A Gestalt Terapia passa também, no Brasil, por todo um processo de resgate de seus fundamentos fenomenológico existenciais dialógicos, e de recriação dos referenciais de sua prática.

Desenvolveu-se o Encontro Brasileiro de Gestalt Terapia, que tem reunido, bi anualmente os profissionais interessados na abordagem, e servido como palco para a apresentação de desenvolvimentos da abordagem no Brasil e discussão de idéias. O que é preocupante, todavia, é que freqüentemente estes encontros têm adquirido um caráter extremamente formal e burocrático, distanciado da experiência mais vital e pessoal dos participantes, ao mesmo tempo em que não raro são parasitados por tentativas de desenvolvimento de culto de personalidades.

Os encontros de Gestalt Terapia se constituíram mesmo assim como uma consistente área de esfera pública -- que não se constituiu significativamente no âmbito da abordagem rogeriana no Brasil --, esfera pública esta que tem permitido um vigoroso desenvolvimento da abordagem gestáltica no Brasil.

 

Vemos, assim, que o encontro das águas da filosofia e da psicologia que constitui, na Europa e nos EUA, as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais, transbordam para o Brasil. E no Brasil constituem uma alternativa de psicologia e de psicoterapia que tem uma interessante relevância entre nós na medida em que oferecem produtivas concepções e metodologias para a prática do trabalho psicológico e psicoterápico entre nós.

 

 

 



[1] ALBERTAZI, Liliana, LIBARDI, Massimo, POLI, Roberto (Editores) THE SCHOOL OF FRANZ BRENTANO, Dordrect, Kluwer, 1996.

[2] MACHADO, Roberto NIETZSCHE E A VERDADE, Rio, Rocco, 1984.

[3] WAHL, Jean AS FILOSOFIAS DA EXISTÊNCIA, Lisboa, Europa-América, 1962. pp. 24-5.

[4] Op. Cit.

[5] SCHULTZ, HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA. São Paulo, Cultix,.

* Max Wertheimer, Kurt Koffka, Wolfgang Köhler, Edmund Husserl e Sigmund Freud foram alunos do principal discípulo de Franz Brentano, Carl Stumpf.

[6] HEIDEGGER, Martin SER Y TIEMPO, México, Fondo de Cultura.

[7] DELEUZE, G. NIETZSCHE E A FILOSOFIA, Rio, Ed. Rio, 1976. p.95.

[8] cf. FROMM, Erich O MEDO À LIBERDADE, Rio, Zahar, 1971. e ANÁLISE DO HOMEM, Rio, Zahar, 1973.

[9] Abril Cultural, William James, Vida e Obra, Consultoria de Pablo Rubén Mariconda in WILLIAM JAMES -- OS PENSADORES, São Paulo, Abril, 1979.

[10] MAY, R, ANGEL,E., ELLENBERGER, H.F. (Eds.) EXISTENCE. A new Dimension in Psychology and Psychotherapy, New York, Basic Books, 1958.  Edição espanhola:  EXISTENCIA. Nueva Dimensión en Psiquiatria y Psicologia, Madrid, Editorial Gredos, 1967.

[11] Ver em particular FONSECA, A.H.L. da - TRABALHANDO O LEGADO DE ROGERS. Sobre os Fundamentos Fenomenológico-Existenciais, Maceió, Pedang -- Centro de Estudos de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, 1998.

* Este texto foi escrito em 1991. De lá para cá vários desses encontros se esvaziaram. O Brasileiro passou por oscilações.

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