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Jalapao. Santuario da Aguas 1.

ENSAIOS EXPERIMENTAIS EM PSICOLOGIA
AMBIENTAL FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 4.

 

JALAPÃO
SANTUÁRIO DAS ÁGUAS 1

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

O que é o Jalapão?

Esta pergunta subjaz a um interesse cada vez maior pelo Jalapão. E a uma oferta de informações fragmentárias e sumárias, não raro distorcidas, ou francamente errôneas.

De longe às vezes não é fácil de discernir.

Uma coisa é ponto pacífico, e indo pela ordem de prioridades, e direto ao assunto: o chamado Jalapão é em seu subsolo um imenso aqüífero, situado na região de ecótone entre as Caatingas dos Sertões do Sudoeste do Estado Piauí, do Sul do Estado do Maranhão, e do Extremo Oeste do Estado da Bahia, por um lado; por outro, o Cerrado e a Amazônia do Sudeste do Estado do Tocantins.

Uma região[1] que tem, como limites Ocidentais, a Chapada das Mangabeiras (antiga Chapada da Tabatinga); como limite Oriental Meridional, a Cidade de Ponte Alta, no Estado do Tocantins; e como limite Oriental Setentrional a Cidade de Novo Acordo, também no Estado do Tocantins.

De forma que, grosso modo, a região do Jalapão forma um triângulo. Tendo como vértice Oriental a Chapada das Mangabeiras; como vértices Ocidentais as cidades de Novo Acordo, ao Norte; e a cidade de Ponte Alta, ao Sul.

Fitogeograficamente a região guarda características intermediárias da flora, com a concomitante fauna, do Cerrado, e do Sertão; com características, igualmente, da Amazônia.

Da Chapada das Mangabeiras, nasce, de um lado, o Rio Parnaíba, pelo Rio Parnaibinha; de outro lado, nascem os afluentes do Rio São Francisco, como o Sapão e o Preto; de outro lado, nascem os afluentes do rio Tocantins, como o Rio Galhão e o Rio Formoso, que vão desaguar no Rio do Sono, depois no Rio Novo; o Rio Ponte Alta, e o Rio das Balsas. De modo que nascem na Chapada das Mangabeiras, no Jalapão, rios que vão se contribuir com as águas de três importantes bacias de rios brasileiros: a do Parnaíba, ao Norte; a do São Francisco, a Leste; e a do Tocantins, a Oeste.

No âmbito do Jalapão, inclusive, misturam-se, em suas origens, águas originárias da bacia do Rio Tocantins e da Bacia do São Francisco, caracterizando o que se conhece em hidrologia como o fenômeno de águas emendadas.

 

As areias quartzosas da Serra do Espírito Santo fazem com que ela se desfaça lentamente, sob a ação da erosão eólica e pluvial[2]. As areias conduzidas pelo vento se acumulam diante da Serra, ganhando a forma de dunas. O que confere a esta área do Jalapão uma aparência de deserto.

A aparência de deserto é também conferida pelo ambiente seco, arenoso e poeirento de Cerrado e de Sertão, de uma superfície geológica decorrente da decomposição de pedra de areia vermelha. E do fato de que as águas descem para o subsolo de imensa receptividade, e capacidade de armazenamento, aflorando nos cursos determinado dos riachos e rios, lagos e brejos.

Por outro lado, as areias que se desprendem da Serra do Espírito Santo, formam as famosas dunas do Jalapão. Que lembram dunas de deserto. Mas, nada mais equivocado. A água abundante, inclusive em torno das dunas, e subterrâneas.

Mas é por isso que se pensa, freqüente e equivocadamente, que o Jalapão é uma espécie de deserto. Na verdade, apesar da aparência ressequida da superfície de Cerrado, ou mesmo de Caatinga, o Jalapão é mesmo um portentoso aqüífero, que verte uma impressionante quantidade de águas, pelos seus rios, riachos, lagos, fervedouros. Águas que contribuem de um modo importante, como dissemos, para a constituição das mencionadas bacias.

 

A região foi ocupada, desde a pré-história, por paleo-índios. Que precederam os Indígenas, em particular pelos índios Croas.

Mateiros, o povoado conhecido como “a capital do Jalapão”, foi fundado, segundo a sua história, por caçadores vindos do Piauí, do Maranhão, e da Bahia.

Com a colonização, brancos e mestiços chegaram à região, dizimando os indígenas.

Durante a febre da borracha, na primeira metade do século XX, a região foi invadida por colonos do Maranhão, em busca do látex, produzido pelas mangabeiras da Chapada da Tabatinga (depois denominada de Chapada das Mangabeiras), para a fabricação de borracha. Até que a demanda pela produção da borracha brasileira entrou em declínio, o que certamente levou mais habitantes para a região, em função do enorme drama social decorrente da decadência da produção de borracha na Amazônia.[3]

Nos tempos de formação geológica da Terra, toda a região do Jalapão, e do Brasil Central, foi o fundo de um mar interior. Mar este que adentrava o continente na região amazônica, e se espalhava pelo Brasil Central; novamente se conectando ao oceano externo na altura do Rio da Prata.

As idas e vindas desse mar -- e sua ida definitiva, em função da elevação da Cordilheira dos Andes -- deixou na região do Jalapão um subsolo de arenito. Este tipo de rocha é altamente permeável à água, podendo captá-la e reter com uma enorme capacidade de armazenamento. Podendo, assim, acumulá-la em enormes proporções, vertendo-a subsequentemente em águas superficiais.

No solo superficial da região pode-se perceber o relevo modelado pelos movimentos do mar. Seja nas rochas, seja nas curiosas terras em formato de conchas, ou de bacias, com córregos atapetados de fina areia branca, que coletam as águas das chuvas, e conduzem-nas aos riachos e aos rios; e, certamente, ao aquífero subterrâneo.

O sub-solo do Jalapão caracteriza-se, assim, e caracterizou-se, ao longo dos milênios, como um subsolo com uma imensa capacidade de receber, armazenar e verter a água armazenada; um imenso aquífero. Muita água já é perenemente armazenada neste subsolo. As chuvas anuais, no período de Setembro-Outubro a Abril, anualmente, repõem a água vertida. De modo que o Jalapão é sempre um portentoso aqüífero. Cognominado por alguns como Caixa D’Água do Brasil. O que efetivamente é pouco enquanto designação.

As chuvas cuidam assim, anualmente, de regenerar e re-plenificar a enorme e impressionante capacidade de absorção e de armazenamento de águas desse subsolo aqüífero. De modo que as águas mantêm lagos, rios e regatos perenes. E o aquífero se mantém como um impressionante fenômeno hídro ecológico, em que as águas brotam do solo abudantíssimas, freqüentes e intensas, tanto por sua força eruptiva como pela força da gravidade na descida para os rios que vão se constituir nos afluentes do Parnaíba, do Tocantins e do São Francisco.

Localmente, estas águas configuram um impressionante fenômeno hídrico, compondo uma infinidade de rios, riachos e regatos, que cruzam toda a região, com suas quedas d’água, cachoeiras e corredeiras, mais ou menos intensas; lagos, e brejos. Muitos dos laguinhos se formando a partir de águas que brotam com tal força e intensidade que nelas boiando uma pessoa não consegue afundar, tal é a pressão com que essas águas brotam da terra. São os chamados fervedouros, nos quais a água borbulha vigorosa, a partir, do chão em branca e finíssima areia. Em alguns locais os rios podem ser tão torrenciais que permitem a prática do rafting, em locais que podem ser considerados como dos melhores do mundo para tal prática.

 

Muito diferentemente do modo como frequentemente se pensa o Jalapão, como um deserto, em função da aridez da maior parte de sua superfície, e em função das dunas de areias quartzosas, decorrentes da decomposição da Serra do Espírito Santo, muito diferentemente, o Jalapão é, especificamente, um imenso fenômeno hídro ecológico – um imenso e belíssimo aquífero. Que reivindica, de um modo irrecusável, a nossa admiração e perplexidade, o nosso respeito, carinho, e decidida proteção e conservação.

 

Bibliografia

BEHR, .M.  JALAPÃO – SERTÃO DAS ÁGUAS, São Bernardo do Campo, Somos,.

HELLER, Agnes SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA, ,Madrid, Taurus.

 

 

 



[1] BEHR, .M.  JALAPÃO – SERTÃO DAS ÁGUAS, São Bernardo do Campo, Somos,.

[2] BEHR, . op.cit

[3] BEHR, Op. Cit.

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