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GESTALT TERAPIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

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GESTALT TERAPIA

FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL

 

  

 

 

Fonseca, Afonso Henrique Lisboa da

Gestalt Terapia Fenomenológico Existencial

Maceió: Pedang -- Programa de Publicação do Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial. 2005.

163 pp. 21 cm.

ISBN

 

 

 

ISBN

 

Direitos desta edição

Afonso H Lisboa da Fonseca

R. Alfredo Oiticica, 106. Farol

57050-012 Maceió AL.

Fones: 82 3770054/82 2218175/ 82 93061050.

affons@uol.com.br

2005.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

afonso h lisboa da fonseca

GESTALT TERAPIA

 FENOMENOLÓGICO

EXISTENCIAL

 

 

 

 

·               DIALÓGICA

 

·               EXPERIMENTAL

 

·               HERMENÊUTICA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedang

Programa de Publicação do
Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia
Fenomenológico Existencial

 

Maceió AL. Brasil

2005

 

 


© Afonso H Lisboa da Fonseca

Pedang

Programa de Publicação do Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.

Rua Alfredo Oiticica, 106. Farol.

57050-012 Maceió AL.

2005.

  

 

 

Para minha família,
em cujo seio sempre aprendí e reaprendo
 sobre a saúde na retidão da força.


Prefácio

 

 

 

 

 

A perspectiva da Fenomenologia, a perspectiva da Psicologia Fenomenológica, tal como elas se configuram no empirismo fenomenológico de Brentano, e da tradição fenomenológica que ele originou -- da qual é herdeira a tradição da Gestalt --; a perspectiva da Filosofia da Vida de F. Nietzsche, em termos próprios e, em particular, tal como ela se configura na perspectiva do Expressionismo, do teatro, da dança e do trabalho corporal expressionistas; a perspectiva da dialógica de Buber; a perspectiva do Existencialismo, da psicoterapia existencial; o Zen; sem esquecer, evidentemente, a Otto Rank e a C. G. Jung, constituem o berço original, e da originalidade, da Gestalt Terapia.

Passageira de mundos tão diversos, tais como a Europa, a África do Sul, a América do Norte, e do Sul; transiente de modelos de Ontologia, de epistemologia; e, em particular, pelo desconhecimento do que é, e do que significa, este berço histórico, epistemológico, ontológico, e de filosofia da vida, a possibilidade de mal entendidos, e mesmo de falsificações, da Gestalt Terapia foram, e são sempre, significativas.

Não que não possa haver interpretações novas, e particulares da Gestalt Terapia. Pelo contrário, elas são desejáveis, e importantes. Em particular dado o seu caráter tão inacabado.

Mas há, decididamente, algo de errado (e não apenas no “Reino da Dinamarca”) quando se quer que uma jaqueira interprete uma manga; ou que um limoeiro produza uma maçã.

Reinterpretações, novas contribuições, são uma coisa... Distorções, e até falsificações, por conveniência, desconhecimento ou, eventualmente, esperteza, são outra coisa... Contra eles precisamos ser críticos, em paralelo e em complementação a uma atitude anti dogmática. Em particular, no sentido da responsabilidade de transmitirmos aos iniciantes interpretações ricas da semente que nos legaram os Perls e companheiros.

Os ensaios que constituem o presente volume – e são apenas isso, ensaios -- visam tematizar certos aspectos fenomenológico existenciais da Gestalt Terapia. Seu intento maior é o de contribuir para a troca de idéias, e para o aprendizado dos que se iniciam. Resultam de anos de estudo e de prática da Gestalt Terapia. Do contato regular e intensivo com alunos inteligentes, interessados, de boa vontade; e prática da supervisão de terapeutas e psicólogos iniciantes. Como a Gestalt Terapia, os ensaios que se seguem não são acadêmicos. Não são científicos, não se pretendem verdadeiros, nem instituintes, acerca da teoria. Se puderem participar da troca de idéias, e ajudar a colegas e alunos iniciantes a compreender e praticar o logos da Gestalt Terapia, terão atingido seu objetivo.

É certamente uma redundância falar de uma Gestalt Terapia Fenomenológico Existencial. Dada a importância de um resgate das fontes fundamentais da Gestalt Terapia, dados os riscos de distorção, parece interessante reiteração.

O primeiro ensaio trata de um sentido fundamental da filosofia da vida de F. Nietzsche, que se configura na constatação de que a criatividade cria e transforma, inclusive e em especial, os sentidos do passado, supostamente “dados”. O segundo ensaio trata dos nexos entre psicoterapia e arte, de um ponto de vista fenomenológico existencial. O terceiro, da concepção, especificidade, e importância, da interpretação fenomenológico existencial, e de sua concepção e método, para a concepção e método da Gestalt Terapia. O quarto ensaio trata da experimentação fenomenológico existencial, de seu lugar seminal na originalidade conceitual e metodológica da Gestalt Terapia. O quinto, da caracterização do âmbito fenomenológico existencial da improvisação, como dialógica e arte dramática, tão importante para a concepção e prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e de psicoterapia. E o sexto trata da especificidade fenomenológico existencial da concepção de contato.

Esperamos assim contribuir para o diálogo acerca dos fundamentos fenomenológico existenciais da Gestalt Terapia.

Enseada da Pajuçara, Maceió.

Maio de 2005.

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

 

 

 

 

 

1. O Criar e a Plasticidade do Passado.....09

2. Psicoterapia & Arte.

Considerações sobre um nexo desencontrado......25.

3. Interpretação Fenomenológico-Existencial

Sobre o Sentido do Interpretativo na Concepção e método da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial     41.

4. A Experimentação Fenomenológico Existencial em Gestalt Terapia.....66.

5. Dialógica e Arte Dramática da Improvisação. Vislumbre-e-Ato do Possível Propulsivo.

Sobre o sentido e importância do improvisativo na concepção e método da Gestalt Terapia e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.....90.

6. Contato é vívido vivido. Não é relação sujeito objeto, nem relação de causa e efeito... também o contato não tem utilidade.

Sobre o sentido e lugar do Contato e de sua concepção na concepção e método da Gestalt Terapia.....99.

 

 

1. O CRIAR

E A PLASTICIDADE

DO PASSADO

 

 

Poeta, advinho e redentor do acaso, ensinei-lhes a trabalhar o futuro e, criando, a libertar tudo o que já foi.

Libertar o passado no homem e transformar o 'era' até que a vontade possa dizer: 'Mas foi assim que eu quis! É assim que eu quero!'

Foi isto que eu chamei a sua salvação, isto só que eu lhes ensinei a chamar salvação[1].

 

 

O presente e o passado na terra -- meus amigos! Eis para mim, a coisa mais intolerável; e eu não conseguiria viver se não fosse ao mesmo tempo um vidente do que deve fatalmente acontecer.

Um vidente, uma vontade, um criador, um futuro e uma ponte para o futuro... e -- oh!, sorte! -- de certo modo também um doente que se encontra nesta ponte.

'Caminho entre os homens como entre fragmentos de futuro, desse futuro que contemplo. E tudo o que faço e me proponho a fazer destina-se a realizar e a reunir numa única coisa o que está fragmentado e tudo o que é enigma e acaso cruel.

E como aceitaria eu ser homem, se o homem não fosse também poeta e decifrador de enigmas e o redentor do acaso!

Libertar os homens passados e transformar todos os 'Aconteceu' em 'Foi assim que eu quis' -- eis o que, antes de qualquer coisa chamo redenção[2].

 

Pelos meus filhos quero resgatar o facto de eu ser o filho de meus pais: e por todo o futuro -- este presente![3]

 

 

 

Um dos aspectos mais curiosamente interessantes da filosofia da vida de F. Nietzsche é, em contraste com a perspectiva do senso comum, o desvelamento de uma perspectiva, e a ênfase em uma perspectiva, perspectiva muito realista do real, segundo a qual o passado é eminentemente plástico.

Decorrente da criatividade inerente a uma atitude de identificação com, e de afirmação, do ser, da vida, em sua totalidade -- o que envolve a aceitação e a afirmação do acaso, do sofrimento e da finitude -- a plasticidade do passado configura-se como uma relativização e trans-form-ação de seus sentidos, de seus valores, e de seus efeitos. A criatividade da ação afirmativa desloca, assim, os sentidos e efeitos, e valores do passado, e constitui-se como trânsito do devir.

Não se trataria, evidentemente, do simplorismo ingênuo de afirmar que os fatos efetivos não aconteceram. Mas fundamental e profundamente a compreensão conseqüente de que a facticidade dos  fatos configura-se, na verdade, em sua efetividade, nos sentido e valores deles, e nos seus efeitos. E estes, por mais pesados e impositivos, são, efetivamente, plásticos, e submetem-se à atualidade. Em especial, à modalidade afirmativa-criativa desta.

Uma das ousadias, assim, da Filosofia da Vida de F. Nietzsche é exatamente, num certo sentido, a de propor nada menos que um modo de ser dedicado à reinvenção do passado, e a uma libertação da tirania do peso de sua inércia.

Contrapõe-se esta perspectiva à pesada e dolorosa perspectiva do sofrimento, da finitude e da perda, tragicamente exposta, por exemplo, na citação de Hilda Hilst, em seu poema fúnebre para o amado Lorca:

(...)

Muitos dizem: 'mas está vivo, não vês? Está vivo!

Se todos o celebram, se todos o cantam!? (...)'

 

Estás morto!

Sabes porquê?

'El pasado se pone su coraza de hierro,

Y tapa sus oídos com el algodón del viento

Nunca se podera arrancarsele un secreto. *

(...)

No seu todo, o poema expressa de um modo forte a perspectiva trágica diante da catástrofe. Neste seu trecho, não obstante, ele expressa todo o peso monolítico e desesperante do factual, do passado constituído.

 

O segredo do passado, não obstante, que a perspectiva de Zaratustra vem a nos mostrar, não bate, como é próprio da diversidade das perspectivas, com a pesada sabedoria que o verso revela. O segredo de Zaratustra é o de que o passado está aberto, é o de que ele não se encerrou, é o de que os seus segredos são, mesmo assim, apesar de tudo, infinitos e eternos, e multiplicam-se infinita e eternamente, enquanto estamos vivos.

Se é verdade que ele adquiriu as características de um túmulo, é também verdade que ele é perfeitamente violável, devassável. É verdade, em particular, que ele pode ser, ainda agora, feito e refeito, à medida da criação decorrente da força criativa de uma existência afirmativa. É verdade que ele se metamorfoseia, ainda, sob o influxo da vontade criativa, sob o influxo da força criativa da vontade afirmada.

 

O ACASO E A PLASTICIDADE DO PASSADO. Trabalhar o futuro e, criando, libertar tudo que já foi.

Quem quer que leve a vida a sério, e jogue o seu jogo e brinque a sua brincadeira, carece, naturalmente, de assumidamente confrontar-se com o acaso, com o dado, com que não foi por si próprio constituído, mas que configura-se como uma imposição de sua realidade existencial. Carece, naturalmente, de confrontar-se com o foi, com o acontecido.

E o tema do acaso, do foi, do aconteceu, é um tema nobre e crucial da Filosofia da Vida de Nietzsche.

Assim é, exatamente, pelo fato de que o foi, o aconteceu, o dado, numa palavra: o acaso, é um incontornável e fundamental elemento de nossa condição.

Nietzsche é um afirmador, um afirmador da totalidade da vida. E isto é especialmente verdadeiro com relação ao acaso. Com relação ao acaso, ele não poderia ter uma outra atitude que não fosse uma atitude de aceitação e de afirmação, a afirmação da afirmação. É inevitável o acaso, e, na verdade, ele é elemento da riqueza do real, constituinte nobre de suas possibilidades.

Um pouco de sabedoria é bem possível: mas encontrei em todas as coisas esta certeza feliz: é que elas gostam ainda mais de dançar com os pés do acaso![4]

 

Em verdade abençôo e não blasfemo quando ensino: 'Acima de todas as coisas há o céu do acaso, o céu da inocência, o céu do mais ou menos, o céu da exuberância.'

‘Por acaso' -- é a mais antiga nobreza do mundo, doei-a a todas as coisas, libertei-as da escravidão do fim.

Esta liberdade e esta alegria do céu coloquei-as como uma campânula azul sobre todas as coisas, ensinando que acima delas e através delas nenhuma 'vontade eterna' -- afirmava a sua vontade[5].

 

(...) a minha palavra é: 'Deixai vir a mim o acaso: ele é inocente como uma criança[6].

 

De modo que é, assim, inconfundível em Nietzsche a atitude receptiva e afirmativa do acaso.

 

Mas, não nos enganemos, não há possibilidade de engano: a aceitação, o reconhecimento, a consideração, a afirmação, do acaso, por parte de Nietzsche -- radicais como são -- não o levam, de modo algum, à possibilidade de uma submissão a ele.

A submissão ao acaso, seria mais própria da Mula, do Camelo, primeiro momento das metamorfoses do Zaratustra. Encarnações do pré-além do homem (o Artista, a Criança), encarnações do homem superior, companheiro de Zaratustra -- que ainda gravita entre a subida para o além do homem e a queda no despenhadeiro em direção ao desesperançado homem, o pesado e pouco criativo homem da Modernidade.

É próprio da Mula, o burro, o camelo, deixar-se carregar com os fardos, e fados dados; e, resignado, caminhar para o deserto. É próprio deste pesado tipo de homem superior, que, moralista, não cria, que ainda não assumiu a atitude afirmativa da vontade -- atitude característica do além do homem nietzscheano --, carregar-se com os valores dados, carregar-se com as realidades dadas, carregar-se com o foi, com o aconteceu, com o por acaso; e, resignadamente, contentemente, caminhar para a vastidão insossa, para o deserto, de uma vida carente de criação, de vigor e de alegria. Assumir e carregar os fardos e os fados da realidade, dos valores dados, paralisia da vontade e da criação, paralisia da vida, vitimização pelo passado.

O Leão, segunda figura da metamorfose do Zaratustra, coloca os homens superiores (a mula incluída) em polvorosa, um dia, quando estes com ele eventualmente se encontram, à porta da caverna de Zaratustra. Vigoroso e ativo, o Leão é, não obstante, ainda demasiado feroz e impulsivo. Ama-o Zaratustra. Não obstante, quer ainda mais uma metamorfose, além da que vai da Mula ao Leão...  Além da metamorfose que vai da Mula ao Leão, Zaratustra quer a metamorfose que conduz à Criança, ou seja, ao Artista. E aí está aquele que pode comentar:

 

O passo de cada um revela se ele se encontra já no seu próprio caminho. Vede-me, portanto, caminhar! Mas aquele que se aproxima do seu fim... esse dança.

E, na verdade, não me transformei em estátua, ainda não estou entorpecido, pesado, petrificado, colocado como se fosse uma coluna; gosto da corrida veloz.

E, ainda que na terra haja pântanos e uma profunda tristeza, aquele que tem os pés leves corre por cima da lama e dança como sobre gelo polido.

Corações ao alto, meus irmãos, ao alto, ainda mais alto! E não esqueçais as pernas! Levantai as pernas, bons dançarinos, e, melhor, ainda: sabei aguentar-vos sobre a cabeça!

(...)

Mais vale ainda ser louco de felicidade do que louco de infelicidade, mais vale dançar pesadamente do que arrastar a perna. Aprendei, portanto, comigo, a minha sabedoria: mesmo a pior das coisas tem dois lados bons.

Mesmo a pior das coisas tem boas pernas para dançar: aprendei, portanto, vós próprios, homens superiores, a manter-vos direitos sobre as vossas pernas!

Esquecei, portanto, a melancolia e toda a tristeza da gentalha![7]

 

E que por nós seja considerado perdido o dia em que não dançamos! E que por nós seja considerada falsa a verdade que não é acompanhada por uma risada![8]

 

 

Nietzsche é, assim, inconfundível, desta forma, com relação ao acaso. Não nega a sua nobreza, a sua inevitabilidade, não o nega. Na verdade acolhe-o radicalmente, e afirma-o.

Mas, igualmente, não se nega, não faz concessões, nem tergiversa enquanto senhor do acaso. Que venha, sinceramente bem vindo, o acaso. Mas não será senhor. Será, antes, alimento da vontade e do futuro. A vontade, afirmada, é a senhora do acaso. É a afirmação da vontade que permite a transformação e a redenção do acaso, o resgate do passado, e a criação do futuro, a trans-form-ação do passado. E é assim que pode, em sua audácia, Zaratustra dizer (Fazei o que quiseres, mas sede, antes, daqueles que podem querer...):

Sou Zaratustra o ímpio: e também cozinho na minha marmita todos os acasos. E, somente quando o acaso está bem cozinhado, eu o acolho de bom grado e ele se torna meu alimento.

E, realmente, muitos acasos vieram ao meu encontro como senhores: mas minha vontade falou-lhes mais imperiosamente ainda -- e punham-se de joelhos suplicando-me:

- Suplicavam-me que lhes desse asilo e conforto dentro de mim e dirigiam-me palavras de elogio: ‘Vê, Zaratustra, só o amigo vem ver o amigo![9]

 

... toda a minha arte, e a finalidade de todas as minhas pesquisas: condensar e reunir num o que no homem é fragmento e enigma e terrível acaso.

Poeta, advinho, e redentor do acaso, ensinei-lhes a trabalhar o futuro e, criando, a libertar tudo o que já foi.

Libertar o passado no homem, e transformar o 'era', até que a vontade possa dizer: 'Mas foi assim que eu quis! É assim que eu quero!’'

Foi isto que eu chamei a sua salvação, isto só que eu lhes ensinei a chamar salvação.[10]

 

...tudo o que faço, e me proponho a fazer, destina-se a realizar e a reunir numa única coisa o que está fragmentado, e tudo o que é enigma e acaso cruel.

E como aceitaria eu ser homem, se o homem não fosse também poeta e decifrador de enigmas e o redentor do acaso!

Libertar os homens passados e transformar todos os 'Aconteceu' em 'Foi assim que eu quis' -- eis o que, antes de qualquer coisa, chamo redenção.[11]

 

 

VONTADE. Querer liberta, porque querer é criar

Vontade -- assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria[12].
(op. cit. p137)

 

Grande anfitriã e trans-formadora do acaso, a vontade (força existencial), não obstante, lhe é soberana,

E, realmente, muitos acasos vieram ao meu encontro, como senhores: mas minha vontade falou-lhes mais imperiosamente ainda (...)[13].

Para Nietzsche, todo o ser, todos os seres, coisas, pessoas, vivências, situações, compõem-se de forças, vontades, vontade. Forças ativas, forças reativas, segundo Deleuze[14]. Vontade de potência.

Vontade de potência que pode assumir a sua forma de auto-negação e vingança, como niilismo, vontade de nada, vontade negativa de potência. Mas que, nas suas formas ativas, é vontade afirmativa de potência, força criativa, que conquista, que e-labora, inventa, constrói, futuriza-se, devir.

Na sua forma negativa, niilista, a vontade configura-se, no limite, como uma loucura vingativa. Não pode querer-se a si mesma, desfrutar-se, não pode valorizar-se, e abonar-se a si mesma e a sua potência. Porque é auto-negação. Para valorizar-se e abonar-se, necessita constituir continuamente o outro, particularmente o forte, como mau: de modo que, por comparação com este outro constituído como mau, possa entender-se como boa. Constitui-se desta forma, a vontade, como ressentimento; niilista, conseqüência da impotência para afirmar-se diante dos efeitos e sentidos do passado. Impotente para criar. Constitui-se particularmente como vingança, vingatividade insaciável, na medida em que, para abonar-se, necessita constituir algo, alguém, como mau. E, evidentemente, buscar destruí-lo.

Num segundo momento, esta forma da vontade se volta, enquanto tal, contra o próprio ressentido. Constituindo-o, a ele próprio agora, como objeto específico de sua vingatividade, vingatividade agora retrofletida: mau: agora ele próprio o culpado e a culpa.

Niilista, ao ressentimento só sobra a vingatividade característica da necessidade do seu modo de ser. E o azedume e o peso da vontade incapaz de criar e libertar-se. Zaratustra comentará a este respeito com os homens superiores:

Vontade -- assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: foi isso que vos ensinei, meus amigos! Mas agora aprendei também: a vontade, ela própria, ainda é prisioneira.

'O querer liberta: mas como chamar o que mantém o próprio libertador acorrentado?

'Aconteceu': tal é o nome do ranger de dentes da vontade e da sua mais solitária tristeza. Impotente relativamente a tudo que está feito -- a vontade é muito mau público para todo o passado.

A vontade não pode querer voltar atrás: ela não pode quebrar o tempo e o desejo do tempo -- e isto é a sua tristeza mais solitária.

O querer liberta: que imagina a vontade para se libertar da sua tristeza e desprezar o seu cárcere?

Oh!, todo prisioneiro se torna louco! A vontade prisioneira liberta-se também pela loucura!

E a sua raiva é que o tempo não volta atrás; ‘Aconteceu’, assim se chama a pedra que ela não pode deslocar.

E, por raiva e por despeito, levanta pedras e vinga-se naquele que não experimenta como ela raiva e despeito.

Deste modo a vontade que liberta torna-se malfeitora: e vinga-se em tudo o que pode sofrer, pelo facto de não poder voltar atrás.

Isto, e somente isto, é a própria vingança: a antipatia da vontade a respeito do tempo e do seu ‘Aconteceu’.

Na verdade, a nossa vontade é habitada por uma grande loucura; e para maldição de tudo o que é humano, esta loucura aprendeu a ser espírito.

O espírito de vingança: foi este, meus amigos, até ao presente, o melhor pensamento do homem; e onde quer que tenha havido sofrimento sempre se tornou necessário um castigo.

‘Castigo’, na realidade é o próprio nome da vingança: simula uma boa consciência com uma palavra mentirosa.

E como há sofrimento naquele que quer, porque não pode querer voltar atrás, a própria vontade e toda a vida deveriam ser -- um castigo!

E eis que as nuvens se acumularam sobre o espírito: até que finalmente a loucura proclama: ‘Tudo morre porque tudo é digno de morrer!

E esta lei que quer que o tempo devore os seus filhos é a própria justiça: assim proclamou a loucura.

‘As coisas estão ordenadas moralmente segundo o direito e o castigo. Oh!, onde está a libertação do curso das coisas e do castigo da existência?’ -- assim proclamou a loucura.

‘Poderá haver uma libertação se há um direito eterno? Oh!, ninguém pode levantar a pedra do que aconteceu; e todos os castigos devem ser eternos!’ -- assim proclamou a loucura.

Nenhum acto pode ser destruído; como poderia o castigo anulá-lo? Isto, isto é o que há de eterno no castigo da 'existência'; que a existência tenha que continuar eternamente a ser acto e falta!

A menos que a vontade acabe por se libertar a si própria e se transforme em não-querer; mas vós conheceis, meus irmãos, a fábula da loucura!

 

Zaratustra reitera, a seguir, os seus segredos e os seus caminhos na afirmação da vontade. E reitera a sua crítica a uma cultura ainda prisioneira da vontade negativa: do ressentimento e da culpa, do niilismo.

Eu vos levei para longe dessas fábulas ao ensinar-vos: ‘o querer é um criador’.

Todo o 'Aconteceu' é um fragmento, um enigma, um terrível efeito do acaso -- até ao momento em que a vontade criadora acrescente: 'Mas foi assim que eu quis!

Até ao momento em que a vontade criadora acrescenta: 'Mas é assim que eu quero! Assim que hei-de querer!’

Mas alguma vez falou assim? Quando o fará? A vontade deixa de estar atrelada a sua própria loucura?

Tornou-se já a vontade o seu próprio redentor e mensageiro da alegria? Esqueceu ela o espírito de vingança e todo o ranger de dentes?

E quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e alguma coisa de maior que qualquer reconciliação?

A vontade que é vontade de poder deve querer alguma coisa de maior que todas as reconciliações: mas como o irá fazer? Quem lhe ensinou a querer restabelecer o passado?[15]

 

Na sua forma criadora, livre de sua loucura vingativa e auto negativa, a vontade afirmada, a afirmação afirmada, é passagem para o futuro, é trans-form-ação do passado. É o querer que liberta. Senhora do acaso, que pode recebê-lo, afirmá-lo e metabolizá-lo, no engendramento criativo e efetivo do futuro. Que pode não só engendrar este futuro, com a digestão do acaso e dos valores, sentidos e efeitos do passado. Mas re-engendrar, re-generar, o passado, conferindo-lhe outros valores, outros sentidos e outros efeitos. Valores, sentidos e efeitos agora feitos e afeitos à força da vontade em sua afirmação.

De modo que o grande segredo da plasticidade do passado é a afirmação da vontade, a afirmação da força de ser, o tornar-se o que se é, re-tornar, e tornar o mundo. É a possibilidade de engendramento de novos valores, de novos sentidos e de novos efeitos do passado, a possibilidade de engendramento do futuro, a possibilidade de criação, e de engendramento dos filhos próprios desta criação, tendo como matéria prima a potência de devir, o acaso e os consagrados valores, sentidos e efeitos do passado.

Todos os sentimentos em mim sofrem e estão prisioneiros: mas a minha vontade aparece sempre como libertadora e mensageira da alegria.

Querer liberta: tal é a verdadeira doutrina do querer e da liberdade (...)

Não mais querer, não mais julgar e não mais criar. Ah!, que esta imensa fadiga fique sempre longe de mim[16].

 

O próprio conhecimento submete-se aos influxos da vontade e configura-se como uma super abundância de forças, expressão de uma virtude que dá:

No próprio conhecimento, o que sinto não é ainda senão a alegria de minha vontade a gerar e a crescer; e, se há inocência no meu conhecimento, é porque há nele a vontade de gerar[17].

 

 

Querer liberta: porque querer é criar: é isto o que eu ensino. E não deveis aprender senão para criar!

E é unicamente de mim que deveis aprender a aprender, a bem aprender! -- Quem tem ouvidos, ouça![18]

 

 

SÓ AMAR O PAÍS DOS PRÓPRIOS FILHOS

 

Deste modo só amo o país dos meus filhos, a terra desconhecida no mar mais longínquo: é ela que eu mando procurar à minha vela.

Pelos  meus filhos quero resgatar o facto de eu ser o filho de meus pais: e por todo o futuro -- este presente![19]

 

A vontade afirmada é movimento de devir ativo, de vir a ser. A vontade afirmada é anseio do movimento de si mesma em sua criação

Em sendo assim, na afirmação da vontade, da força do ser/devir, não se vive em seu próprio lugar, não se vive no país de seus próprios pais, não se vive em seu próprio país. Na afirmação da vontade, afirmação da vida, está-se sempre e sempre a caminho do país de seus próprios filhos. Vive-se em movimento no sentido dos sentidos do lugar e do tempo de suas próprias criações; de vontade, acaso e passado inventadas.

Sou de hoje e de ontem (...), mas há em mim alguma coisa que é de amanhã e de depois de amanhã e dos dias futuros[20].

 

Ó meus irmãos, consagro-vos e destino-vos para um nova nobreza: para mim sereis os progenitores, os semeadores do futuro,

na verdade não vos destino uma nobreza que possais comprar como os comerciantes fazem com o seu ouro de comerciantes: porque o que tem o seu preço tem pouco valor!

Daqui para o futuro o que para vós há de constituir motivo de honra não será a vossa origem, mas o vosso fim! A vossa vontade e os vossos passos que vos ultrapassam a vós próprios -- que isso seja a vossa nova honra!

(...)

Ó meus irmãos, a vossa nobreza não deve olhar para trás, mas para fora! Deveis ser exilados longe das vossas pátrias e dos países de vossos antepassados!

Deveis amar o país de vossos filhos: este amor será a vossa nobreza -- ilha inexplorada no mais longínquo dos mares! Procurá-la e continuar a procurá-la é o que ordeno a vossas velas!

Pelos vossos filhos repareis o erro de serdes os filhos de vossos pais: será desse modo que salvareis todo o passado! Ponho por cima de vós esta nova tábua[21].

 

O segredo do Além-do-Homem Nietzscheano, o erronemente entendido Super-Homem, é, precisamente, esta vida no movimento a caminho do país dos próprios filhos, propiciada pelo modo de ser de uma existência afirmativa-criativa.

Curiosamente, além do contínuo deslocamento do passado, a vivência na afirmação da vontade é movimento profundamente motivado e alegre, a alegria da criação, em direção ao futuro.

 

 

PERECIBILIDADE, SOFIMENTO E CRIAÇÃO

(Dedicado a Deleuze, pela criação da sua vida e pela irresignada criação e coragem de sua morte. E em desagravo pelos mal-entendidos).

 

Perecibilidade, superação e sofrimento são temas caros à Filosofia da Vida de Nietzsche, e a suas considerações sobre a criação e a metamorfose do passado.

Justamente porque a vida, a possibilidade da afirmação, configuram-se no âmbito do perecível. A afirmação e a superação, inerentes à criação, são a própria configuração do perecível. Precisamente na configuração da perecibilidade configura-se o a força do possível, e a afirmação da vontade, a possibilidade de criação, e de vida, vale dizer. A possibilidade da superação criativa, e do retorno da vontade.

E a própria vida me confiou este segredo: 'Olha', disse-me ela, 'sou o que sempre se deve ultrapassar-se a si próprio.'[22]

A força da vida manifesta-se em todos os seus aspectos, assim, não exatamente como força de conservação e de adaptação, mas, mais precisamente, como força de auto-superação, vontade de potência, devir e criação, geração.

Unicamente onde se encontra a vida se encontra também a vontade: não a vontade de vida, mas -- este é o meu ensinamento -- a vontade de poder[23].

 

Deste modo, pois, são inevitáveis, no contínuo processo de auto-superação da vida, a finitude e o sofrimento. E, como tal, a força que se manifesta também como força, vontade, na finitude e no sofrimento, especificamente como a vontade própria, força, da finitude e do sofrimento, que são inerentes aos momentos vitais e aos ciclos da superação.

Não obstante, não propriamente como melancolia, mas como momento de devir afirmativo.

Porque é perecível, e ama o perecível, afirma o que é perecível e a perecibilidade, e na perecibilidade encontra a eternidade -- que venera --, a vida é, assim, afirmação igualmente intensa, em seu momento próprio, da perecibilidade, da finitude e do sofrimento.

Afirmação da afirmação, a Filosofia da Vida de Nietzsche, afirmando sempre a vida, o ser-devir em sua totalidade, afirma-a igualmente quando ela é sofrimento e finitude -- de modo particularmente alegre, porque os entende como movimentos da travessia e da superação.

Esta valorização radical do perecível e da perecibilidade, esta afirmação, alegre mesmo, da força, vontade, da finitude e do sofrimento que impregnam a vida e seus momentos é, exatamente, a valorização radical da vida em sua potência, e como possibilidade de criação e de superação. Como possibilidade, assim, de salvação e de redenção, de superação e de criação. De modo que a afirmação da vida em sua plenitude -- afirmação que, como vimos, desloca o passado e engendra um país de filhos -- implica a afirmação do sofrimento e da finitude, a valorização plena de tudo aquilo que na vida é perecível.

Criar -- é a grande libertação da dor e o alívio da vida. Mas, para que exista o criador, é preciso muito sofrimento e muita metamorfose.

Sim, são precisas na nossa vida muitas mortes amargas, ó criadores! Assim vos tornareis os defensores e os justificadores de tudo o que é perecível.

Para que o próprio criador seja a criança que renasce, é preciso que queira ser também a que gera e as próprias dores do parto[24].

 

A criação, na medida em que agiliza o devir, projeta-se sempre e projeta o criador em direção ao futuro. Mas seria inteiramente enganoso pensar que eles vivam no idealismo de um futuro, que vivam no futuro, que vivam de um futuro, que vivam, em particular, para um futuro. A única e contínua tarefa que os desafia, e a que se dão e se dedicam, é a da conquista do presente*. O presente da afirmação de ser a vida, o vivido que afirma-se em si, de tornar-se o que se é, tornando-se o que se pode.

É aí, na afirmação da potência, que é a afirmação da atualidade de ser/devir, e na afirmação da superação, da finitude e do sofrimento, que Zaratustra vai encontrar a redenção, a salvação. Que vai encontrar -- definitiva e decididamente longe, da melancolia, sobretudo -- a leveza e a dança, o riso, como critérios alegres da exuberância de uma super abundância de forças de vida.

Aproximar-se, pois, da finitude em plenitude, e afirmativamente; aproximar-se da finitude dos momentos, da finitude da existência, da finitude do eu, aproximar-se da finitude de um modo de ser e perspectiva que não integram afirmativamente a finitude, a perecibilidade e o sofrimento, é celebrar a maturidade e a invenção, a superação, que submetem o acaso, e engendram o movimento e a trans-form-ação, que deslocam e relativizam os sentidos, valores e efeitos do passado.

Todas as coisas boas aproximam-se de seu fim por caminhos tortuosos. Tal como os gatos, arqueiam o dorso, ronronam interiormente ao pensarem na sua próxima felicidade -- todas as coisas boas riem.

O passo de cada um revela se ele se encontra já no seu próprio caminho. Vede-me, portanto, caminhar! Mas aquele que se aproxima do seu fim... esse dança.

E, na verdade, não me transformei em estátua, ainda não estou entorpecido, pesado, petrificado, colocado como se fosse uma coluna; gosto da corrida veloz.

E, ainda que na terra haja pântanos e uma profunda tristeza, aquele que tem os pés leves corre por cima da lama e dança como sobre gelo polido.

Corações ao alto, meus irmãos, ao alto, ainda mais alto! E não esqueçais as pernas! Levantai as pernas, bons dançarinos, e, melhor, ainda: sabei aguentar-vos sobre a cabeça."

(...)

Mais vale ainda ser louco de felicidade do que louco de infelicidade, mais vale dançar pesadamente do que arrastar a perna. Aprendei, portanto, comigo, a minha sabedoria: mesmo a pior das coisas tem dois lados bons.

Mesmo a pior das coisas tem boas pernas para dançar: aprendei, portanto, vós próprios, homens superiores, a manter-vos direitos sobre as vossas pernas!

Esquecei, portanto, a melancolia e toda a tristeza da gentalha![25]

(...) E que por nós seja considerado perdido o dia em que não dançamos! E que por nós seja considerada falsa a verdade que não é acompanhada por uma risada![26]

 

Na afirmação -- afirmação do perecível, mesmo da finitude e do sofrimento -- Zaratustra, a filosofia da vida Nietzscheana, vai encontrar, assim, a alegria, a dança, a superabundância de forças de vida, a criação.

Justamente aí, na afirmação da afirmação, que é afirmação da força do vir a ser, Nietzsche vai descobrir uma virtude que, caracteristicamente, é uma virtude que dá, que é abundância de ser, transbordamento e dádiva gratuita. Que enriquece a todos e a tudo com que entra em contato.

Como que eu falei de oferta! Eu gasto o que me deram, eu, que gasto com mil mãos: como permitiria ainda chamar a isso -- oferta!

(...)

É a minha própria felicidade que eu espalho e disperso ao longe, entre o nascente, o meio dia e o poente, para ver se muitos peixes-homens aprendem a apanhar e a morder a minha felicidade, (...).

Porque eu sou isso em plenitude e desde sempre, puxando, atraindo, levantando e educando, um criador, um domesticador e um director, que não disse para si mesmo em vão: ‘torna-te naquele em que tu és!’[27].

 

A mais alta virtude é rara, inútil, esplendorosa e brilha delicadamente: uma virtude que dá é a mais alta das virtudes[28].

 

Zaratustra, caracteristicamente, não se perde do sentido desta virtude e de suas condições, o sentido do corpo, o sentido da terra, sentido este avesso a qualquer além mundo.

 

- Meus irmãos, permanecei fiéis à terra com o poder de vossa virtude! Que o vosso amor que dá e o vosso conhecimento sirvam o sentido da terra! Isso peço-vos e vos conjuro.

Não permitais que a vossa virtude deixe as coisas terrestres e se afaste para os muros eternos! Oh!, houve sempre tanta virtude desencaminhada!

Tal como eu faço, trazei de novo para a terra a virtude desencaminhada no seu vôo -- trazei-a para o corpo e para a vida: para que ela dê à terra o seu sentido, um sentido humano![29]

 

A ousadia na aceitação da vida e do ser em toda a sua plenitude, uma aceitação e uma afirmação do acaso. Mesmo naquilo que eles têm de difícil e problemático. A ousadia na aceitação e afirmação do sofrimento e finitude inevitáveis.

Nietzsche entende que naturalmente a vida, o homem, estão vocacionados e propensos à afirmação, mesmo diante dos aspectos sombrios da existência. Temos a coragem natural para assumir e afirmar mesmo o ônus de estar vivo, condição da afirmação, da criação, do engendramento do futuro, delocamento do passado e submissão do acaso.

A covardia e o caráter mofino não são a nossa condição. E Zaratustra faz, assim, um ato de fé:

Porque o medo é a vossa excepção. Mas a coragem e a aventura e o gosto do que é incerto, do que ainda não foi tentado... a coragem parece-me ser toda a história primitiva do homem.

Invejou e roubou todas as suas virtudes aos animais mais corajosos e mais selvagens: foi só assim que ele se tornou... homem[30].

 

  

 

 

2. PSICOTERAPIA & ARTE
Considerações Sobre um Nexo Desencontrado

 

 

A arte não é um narcótico; a arte é um tônico. O sentimento do belo é um aumento do sentimento de potência, da vontade de potência. Se a arte é o grande estimulante da vida, isto é, se cria uma superabundância de forças e um sentimento de prazer para com a existência, é porque é uma aceitação total da vida, sem instituir valores superiores; se a arte se opõe à ciência -- possuindo  mais valor que ela – e tem profundo parentesco com a vida, é porque valoriza a vida integralmente, é porque é um sim triunfante mesmo ao que nela existe de “terrível”, “problemático”, e “pavoroso”. Dionisíaco significa consentir na vida em sua totalidade, sem nada negar, ou, de modo mais explícito, é um sim que fortalece que tem como conseqüência um não ao que enfraquece. A preponderância do sim sobre o não é uma característica fundamental do excesso de força do dionisíaco que pronuncia o juízo do ‘belo’ mesmo a respeito de coisas e situações em que o instinto de impotência só saberia apreciar como ‘odiento’, como feio.

(R Machado/F Nietzsche)

 

... radicalização, através da aparência, de um parentesco entre arte e vida. (...) única possibilidade de vida: na arte. de outro modo nos desviamos da vida.

(idem)

 

... Edificação de um novo tipo de vida em que os direitos da arte, que foram confiscados pela racionalidade científica, sejam reconstituídos, reconquistados.

(idem)

 

... A existência é culpada... ou inocente? Então Dionísio encontrou sua verdade múltipla, a inocência, a inocência da pluralidade, a inocência do devir e de tudo que é.

(G. Deleuze)

 

 

 

Menciona-se com freqüência a conexão entre psicoterapia, psicologia, e arte. Na prática, a conexão é cada vez mais tentada -- de modos mais ou menos competentes. A emergência e o desenvolvimento da Arte-Terapia, e de múltiplos recursos expressivos no âmbito das metodologias das psicoterapias, evidencia de um modo objetivo esta vinculação, e aponta para a importância da questão.

Não pretendo comentar aqui a Arte-Terapia, ou o uso destes recursos expressivos no âmbito das psicoterapias. Meu intuito é apontar, a partir de algumas perspectivas da Filosofia da Vida de F. Nietzsche, o nexo necessário entre um certo modo de existência afirmativa e a arte, a proteção, libertação e intensificação da vida, de suas forças e potenciais criativos e regeneradores.A partir do esclarecimento desta vinculação entre existência afirmativa e arte, quero ressaltar a perspectiva de orientação da metodologia de prática da psicoterapia fenomenológico existencial por este modo ser afirmativo da existência. Na pontualidade do instante vivido no curso da experiência terapêutica; na dialogicidade da relação do cliente com o seu mundo e com os seres de seu mundo; na dialogicidade inter humana da relação entre as pessoas do cliente e do terapeuta. Daí o nexo entre psicoterapia e arte. O nexo necessário entre arte, existência e psicoterapia.

Para linhas de psicoterapia de inspiração fenomenológico-existencial, e que têm a filosofia da vida de F. Nietzsche como uma de suas influências fundadoras, este nexo é simplesmente óbvio e natural. Por uma série de razões, entretanto -- razões que estão no centro de importantes conflitos e tensões da chamada Civilização Ocidental --, ocorre uma perda substancial, e mesmo uma negação sistemática, dos vínculos da chamada Psicologia Humanista com esta sua fonte fundamental.

O resultado é que, apesar de a Filosofia da Vida de Nietzsche enraizar-se na fundamentação filosófica das psicoterapias ditas humanistas, não é explicitada como tal, criando uma curiosa situação, na qual a sua influência, histórica e conceitualmente evidenciada, não pode ser ignorada; ao mesmo tempo em que é amplamente desconhecida, negada, camuflada, escondida, distorcida. Raramente apenas, entretanto, é assumida e explicitada.

O fato, não obstante, é que a influência da Filosofia da Vida de F. Nietzsche é facilmente evidenciável histórica e conceitualmente, e permanece potente e determinante no âmbito das Psicologias -- fenomenológico-existenciais -- ditas humanistas. Tendo contribuído decisivamente para a gênese da particularidade dessas linhas de psicoterapia, aponta, agora, no sentido de alternativas, de saídas, para os impasses teóricos, práticos e filosóficos, para a impotência e para o niilismo que, sob múltiplas formas -- algumas bastante enfeitadas --, grassam no âmbito dessas, e de outras, linhas de psicoterapia.

 

O MODO DE SER DA EXISTÊNCIA AFIRMATIVA COMO FUNDAMENTO DA ARTE DE VIVER

O nexo entre psicoterapia e arte decorre, natural e evidentemente, de um certo modo de existência, de um certo apreço pela, e vontade de afirmação da existência, de um certo modo de concebê-la e vivenciá-la no instante vivido.

Esta parece ser, desde Nietzsche, na verdade desde os pré socráticos, a questão central: a do valor que se atribui à existência, enquanto espontaneidade do ser no mundo; a questão do valor que se atribui ao corpo, ao vivido e aos sentidos, a questão do apreço pela existência e por sua afirmação. No limite, interessa assumir a existência como arte, afirmativa, e criativamente, e a psicoterapia como exercício de atualização desta arte. A existência assumida como facticidade e afetividade do vivido, como atualização do ser no mundo. Ou seja, do que devém e supera-se como vida vivida no instante, como vivência organísmica.

É a afirmação, em toda a sua plenitude, da facticidade do vivido, e da afetividade que lhe é inerente, em sua multiplicidade, processo e incerteza próprios; em suas intensidades próprias, em seu caráter eminentemente experimental e potencialmente alegre, que configura a possibilidade da existência como arte, como criação e produção de vida, de força de vida, e do mundo.

Há que se esquecer o verdadeiro como algo outro que não seja o vivido, e privilegiar o vivido. Instalá-lo como critério do verdadeiro, do real, e como critério ético do bom. “Neutralizar a questão epistemológica”, como diz Roberto Machado[31]. E privilegiar a facticidade e a afetividade do existir. Afirmá-los enquanto tais, em sua multiplicidade, caráter processual e incerteza criativa inerentes, em suas finitudes e sofrimentos inevitáveis, como processos de potencialização e usufruto de seu retorno com retorno da vontade de viver.

Sem dúvida, pois, que, assumindo-se esta postura, ter-se-á que enfrentar conscientemente a inevitabilidade, e, em particular a própria facticidade, do sofimento e das finitudes, da mortalidade, inerentes à condição humana... Que possamos, talvez, aprender com os versos de Cazuza:

(...) Senhoras e Senhores, Eu trago boas novas
Eu vi a cara da morte e ela estava viva...

O sofrimento e a finitude – físicos, ou meramente existenciais --, são, como sabemos, dados inevitáveis à facticidade da existência. Tão radicais e fundamentais, em sua natureza, e em sua pertinência à vida, que o modo como lidamos com eles, e os assumimos -- ou não -- determina a possibilidade da própria vida, e da psicoterapia, vividas artisticamente, vividas como arte, como processos produtivos de criação do mundo, dos objetos, das condições, das situações, dos recursos, como processos de co-laboração na invenção e na criação e re-criação de outras pessoas, como afirmações e criações de força de vida.

A negação da vida, como modo de lidar com o sofrimento e com a finitude, determina, por outro lado, a possibilidade da existência e, da psicoterapia, como auto-negações da vida, como involuções -- na perspectiva vital --, como difamação da vida, como decadência, como um jeito impotente e niilista de ser, de ser com os outros. Com a implicação de uma proporcional aniquilação da vitalidade, da saúde, da criatividade existencial.

O Sentido do Trágico, que Nietzsche recupera dos Gregos Pré-Socráticos, da Grécia trágica, nada mais é do que a postura filosófica de integração da inevitabilidade do sofrimento, e da finitude, em nossas vidas. E a afirmação da intensidade própria deles, em seus inevitáveis e próprios momentos, como dimensões, próprias e legítimas, da totalidade de uma vida em que nada é negado, tudo é afirmado, inclusive a própria negação, que, afirmada, transforma-se em afirmação. Postura esta que garante o retorno da força da vida, como criatividade, numa intensidade diretamente proporcional ao modo da afirmação desta finitude e sofrimento inevitáveis.

Assim, a inevitabilidade do sofrimento e da finitude, da mortalidade, obrigam-nos incontornavelmente a encará-los e a considerá-los em nossa atitude para com a vida em sua globalidade e em cada um de seus momentos.

Um ponto central pois da aguda crítica cultural de Nietzsche a nossa Cultura Ocidental diz respeito exatamente a esta questão da apreciação pela existência, na qual está intrínsecamente contida a inevitável eventualidade do sofrimento e da finitude. Ao tipo de consideração pela vida que, vivida, afirmada, implica, dentre outras possibilidades, na possibilidade incontornável do sofrimento e da morte.

Vale à pena?

A resposta de Nietzsche é um único, enfático e entusiasmado sim! O sim dionisíaco. A facticidade da existência, a contingência do vivido, dos sentidos, do corpo, a vida, merecem ser afirmados enquanto tais, em sua totalidade, levando-se mesmo em consideração a inevitabilidade, e a atualização da eventualidade, do sofrimento e da finitude. Inquestionavelmente a vida, o vivido, merecem ser vividos, e afirmados enquanto tais, em sua facticidade própria, ainda quando esta facticidade seja simplesmente a facticidade do sofrimento e da finitude.

Não é esta, desde Sócrates a atitude que predomina no desenvolvimento e manutenção da mentalidade da civilização ocidental.

Confrontando-se, por um lado, com a perspectiva da mentalidade da Grécia arcaica -- que considerava a existência como criminosa, um excesso criminoso, roubado aos deuses, e carente de punição --; e confrontando-se, por outro lado, com a perspectiva religiosa tradicional de nossa Cultura Ocidental -- que entende a existência com culpada, e intrinsecamente carente de remissão, pela sina do pecado original --, Nietzsche indaga-se sobre a culpabilidade ou inocência da existência: e recupera e conclui pela perspectiva dionisíaca da Grécia Trágica: nem criminosa nem culpada, a existência é inocente.[32]

Nisto, Nietzsche choca-se de frente com a tradição religiosa Judaico-Cristã de nossa Cultura Ocidental. Para a tradição religiosa, a mortalidade e o sofrimento atestam a menos valia da existência como um valor em si mesma. O valor da existência, da vida, consiste, para esta tradição, em remeter-se necessariamente a uma vida além de si, a um além mundo. É o ideal ascético de uma vida depois da vida. O ideal ascético que impregna tanto a religião, como a filosofia e a ciência.

Em si, para o ideal ascético, esta vida factual e contingente é apenas “passagem”, sem maior valor em si do que o da prática do sofrimento, como condição de conquista do valor de uma vida depois da vida.

Para a perspectiva nietzecheana, e existencialista, a proteção e a libertação da vida, mais que isto, as possibilidades da criação, da força de viver, da alegria e da saúde, demandam, a sua afirmação, na plenitude de sua contingência, de sua facticidade. Sem que se exclua nenhuma das múltiplas dimensões de sua atualidade, de seu devir, da emergência de sua outridade, como possível. Mesmo quando isto implique, eventualmente, como observamos, na afirmação do sofrimento inevitável e das finitudes, da mortalidade e da própria morte. O que é condição do retorno da vontade de viver, como retorno da força de viver. Neste sentido, Nietzsche afirmava: “Eu abençôo todo sofrimento”.

Assumir o sofrimento e a mortalidade nas intensidades próprias de cada um de seus momentos é o caminho particular de potencialização do Retorno da Vida, como retorno da vontade de viver, como superabundância das forças de vida, como criatividade de produção do mundo e do sujeito, como outridade criativa que emerge do vivido vívidamente vivido.

A vida retorna eternamente! Este é um segredo fundamental da Filosofia da Vida de Nietzsche. O retorno da vida dá-se, fundamentalmente, como retorno da vontade de viver. Não são os fatos e os dados da vida, os processos específicos, que retornam, é a vontade, força, de viver que se manifesta como superabundância de forças de vida.

A potência do retorno da vida, não obstante, é diretamente proporcional à vivência afirmativa da intensidade própria e natural do sofrimento e das finitudes, das mortes, que são inevitáveis. Não se trata de praticar, de buscar, o sofrimento e a finitude, como pregam algumas posturas religiosas ascéticas. Na verdade, o sofrimento, e a finitude, inevitavelmente nos encontram. Trata-se de assumi-los em sua plenitude, quando eles são inevitáveis.

É este o modo por excelência de proteção e de libertação da vida: afirmá-la, vivê-la na intensidade de cada um de seus momentos, em particular no sofrimento e na finitude, e potencializar-se, desta forma, para o seu retorno, como criatividade, como o novo em nós, como o diferente, como outridade expressiva da superabundância de forças da vontade de viver, como possibilidade e força de criação de si mesmo e do mundo.

Afirmar assim integralmente a vida, afirmar portanto o sofrimento, as finitudes, a perecibilidade, longe de leviandade, ou masoquismo, é o próprio fundamento de potencialização da inevitabilidade de seu retorno. O sofrimento e a finitude são inevitáveis, mas igualmente inevitável é o retorno da vida que os supera.

A vida retorna eternamente. E é o retorno da vida que movimenta o seu processo, o seu contínuo devir, vir a ser, e auto-superação. O que devém com o devir é o retorno...[33]

É na vivência afirmativa do retorno da vida, como vontade de viver, que se enraízam as possibilidades criativas da existência., as suas possibilidades contínuas de autoplastia e de heteroplastia, de contínua criação do mundo e de si própria, de ajustamento criativo, de modificação de si mesmo e do mundo, no processo de criação do mundo e das condições de sua própria auto-atualização. Afirmar a existência, é entregar-se afirmativamente ao dispêndio da intensidade própria do momento vivido. É entregar-se ao retorno da vida em sua multiplicidade e intensidade próprias, e em seu inevitável devir como outridade, como permanente possibilidade de ser outro criativa e afirmativamente, diferente, no confronto incontornável com a diferença.

 

É esta entrega ativa à existência, em sua facticidade, esta entrega a suas possibilidades criativas, que configura a possibilidade da vivência da existência como arte. A entrega ativa ao vivido, em sua facticidade e afetividade, às finitudes inerentes ao seu contínuo devir, às configurações das possibilidades de ser outro, como encarnação do novo, do retorno da vontade de viver.

Ser ator é ser outro...[34] (Ser outro é ser ator...)

 

Afirmar a existência em sua contingência e intensidades factuais é afirmar o que se configura na atualização como, irrupção, aparecimento de si mesmo no mundo. É eleger e afirmar esta “aparecência” de si mesmo como critério do verdadeiro. É identificar-se com ela, e atualizá-la (atuá-la) como ser no mundo.

É precisamente este o fundamento do artístico, da criação de “mundos novos”, e outros.

Não é interessante para o artista indagar sobre, ou questionar, a emergência vivencial de si mesmo, aquilo que emerge, que aparece como ele próprio, encarnado em sua inspiração. ele identifica-se com a emergência vivencial, eksistencial, de si mesmo. Interessa-lhe vivamente ser esta aparecência, atualizar o ser de seu devir, identificar-se com ela e com o seu fluxo. E criar, pela expressão desta configuração vivencial, uma nova form(ação) no mundo. Algo de absolutamente novo, e marcado por sua autoria, no fluxo da dinâmica de seu ser no mundo.

É a postura fundamentalmente diferente da postura do epistemólogo, do cientista, do metafísico e do moralista. Estes acreditam na verdade. E não só acreditam, como estão profundamente animados por uma vontade de verdade. A força que busca o verdadeiro como algo de essencial e absoluto, que existiria para além do nível meramente aparencial da realidade. E dedicam-se, meticulosamente, a buscar, como tal, o verdadeiro.

Para eles, o nível da emergência vivencial da aparência -- no qual configura-se simplesmente a emergência espontânea e factual e afetiva do ser no mundo -- deve ser negado, e subordinado à busca da verdade essencial, que não é imediatamente aparescente. Para eles, a aparência é falsa e ilusória, há que se buscar, para além dela, a essência do verdadeiro.

Desta forma, pelo impulso epistemofílico, vontade de verdade, não apreciam, desvalorizam e difamam o nível vivencial da aparência, ao mesmo tempo em que se colocam na empreitada de busca da verdade.[35]

 

Ora, como observava Nietzsche, o verdadeiro não existe em si, e não tem critérios que não sejam os do vivido, da sua atualização de possibilidades e craição. O verdadeiro, a verdade, são criados, produtos sempre de criação.

Buscar, então, o que se pode criar? O que, em especial, só nos é dado pela criação, que de nós depende fundamentalmente para autuar-se?

Não! Criar o que se pode, querer o que se cria!

A existência afirmativa é identificação com, e atualização ativa (atuação) do que se configura momentâneamente como emergência vivencial de si mesmo no mundo. Na integridade de sua multiplicidade e processualidade de seu devir. É, por isto, a alegria da criação, a alegria plural (Deleuze) do engendramento do novo, da outridade de si mesmo, na espontaneidade ativamente aparescente do vivido, como expressão de uma superabundância de forças.

A arte de viver tem a ver, pois, com esta identificação, com a intensidade, com a multiplicidade espontânea e criativamente configurada, e com o devir, e fluxo, do vivido, com a sua ativa atualização. É esta identificação com o vivido e ativa atualização de suas ativas possibilidades que permite a criação do novo, que potencializa a configuração da novidade, como vivência, e como coisas e processos do mundo. Que potencializa o libertar-se da mesmidade, do niilismo, da impotência para ser com o devir. É esta identificação apreciativa com a emergência da vida vivida no instante que permite a proteção e a libertação da vida, a sua intensificação, a proliferação de uma super-abundância de suas forças.

A arte de viver radica-se, pois, na identificação com, e ativa atualização do, aparescente vivido no instante. Para esta arte de viver, nada, nenhum valor é mais criterioso do que este vivido, do que a sua vívida vivência. É ele o critério ético do bom, a fonte dos valores, e o critério do verdadeiro.

A este vivido deve subordinar-se -- contrariamente à orientação socrática -- a vontade de verdade, a crença no valor de uma verdade absoluta e essencial, o impulso epistemofílico da busca de verdades, e os valores ‘superiores’ e abstratos, com este vivido desconectados. O vivido, a existência, são inocentes, estão livres de culpa, e são a fonte dos valores e da verdade. A vívida vivência, a afirmação da vida, na intensidade própria de seus momentos, é a forma por excelência de proteção da vida, e o caminho próprio e natural da potencialização e intensificação de suas forças.

A afirmação da vida, da realidade, que caracteriza a arte trágica, é afirmação da aparência porque a própria vida é aparência. Se a arte, diferentemente da ciência está do lado da vida, é porque a vida quer a aparência, não despreza seus véus e ilusões. O que era característica da arte apolínea torna-se condição indispensável de toda arte digna deste nome, isto é, da arte dionisíaca; radicalização, através da aparência, de um parentesco entre arte e vida(...) Única possibilidade de vida: na arte. De outro modo nos desviamos da vida(...) se não houvesse arte a conseqüência seria o quietismo.[36]

A vivência afirmativa do vivido, em suas intensidades, multiplicidade e devir próprios, é sempre, e necessariamente, auto-superação. Em particular, superação da individualidade, da consciência e do eu individuais. É, intrínseca e necessariamente, afirmação e superação da individualidade.

Como implicação desta superação da individualidade, a afirmação do vivido caracteriza-se também como vivência de dissolução, nos fluxos da vida. É morte da individualidade e vivência do retorno da vontade de viver, como expressão intensa de uma vida que transcende a individualidade, o limitado, o dado, o estabelecido, o factual. Ao mesmo tempo recria as condições para a reconstituição original da forma individual original e única.

A vida não é humana. o Dionisíaco, que é o impulso humano básico de superação da individualidade, caracteriza-se como um retorno à unidade primitiva de um ser original.

Dionísio (...) retorna à unidade primitiva, destrói o indivíduo, arrasta-o no grande naufrágio e absorve-o no ser original; assim ele reproduz a contradição (unidade primitiva-individuação) como dor da individuação, mas resolve-as num prazer superior, fazendo-nos participar da superabundância do ser único ou do querer universal.[37]

Nietzsche enfatiza como os Gregos Pré-Socráticos souberam muito bem disto. E elaboraram o trágico, a tragédia, a arte trágica, a partir deste imbricamento necessário entre a afirmação e a superação da individualidade, entre vida e morte do individual, como auto-superação e como condição da potencialização do retorno da vontade de viver.

Apolo, o deus da bela forma, da escultura, do limite bem definido, da consciência individualizada e lúcida, da individualidade, é representativo dos impulsos humanos relativos à preservação do princípio de individualidade, da medida humana, da consciência e do eu individual. Dionísio, o deus do vinho, da música, da embriaguês, é representativo dos instintos humanos relativos à desmesura, à superação da medida, à superação dos limites individuais, da individualidade e da consciência individual.

Excludentemente, Apolo é a individualidade progressivamente tóxica e mortífera. Sozinho e selvagem, Dionísio é a desagregação, a dispersão extrema, a destruição.

Cumpre conjugá-los, para neutralizar os respectivos potenciais destrutivos. E isto foi feito pela Cultura Grega Pré-Socrática. A conjugação do Apolíneo com o Dionisíaco configurou-se como Arte Trágica, como a Tragédia Grega, e como o Sentido do Trágico. Como se Apolo ensinasse a Dionísio a medida; e como se, reciprocamente, Dionísio ensinasse a Apolo a desmesura (Nietzsche).

Por fim, esta conjugação do Apolíneo com o Dionisíaco configurou-se, para Nietzsche, como o Dionisíaco Artístico, ou simplesmente o Dionisíaco. Afirmação e superação da individualidade, do momento, confronto e afrontamento da finitude, e potencialização do retorno da vontade, da força, da vida, da forma e individualidade apolíneas.

Dionísio e Apolo não se opõem como os termos de uma contradição, mas antes como duas maneiras antitéticas de resolvê-la: Apolo, mediatamente, na contemplação da imagem plástica; Dionísio, imediatamente, na reprodução, no símbolo musical da vontade. Dionísio é como a tela sobre a qual Apolo borda a bela aparência; mas, sob Apolo, é Dionísio quem ruge. A própria antítese precisa ser resolvida, transformada em unidade. (...) A tragédia é esta reconciliação, esta aliança admirável e precária dominada por Dionísio. Pois, na tragédia, Dionísio é o fundo do trágico.[38]

Vida e morte da individualidade, do eu e da consciência individuais, no instante do momento vivido, no dispêndio de sua força e de seu seu sentido, o trágico é o acesso ao querer e à vontade universais. É a potencialização do retorno da vida, da própria vida, como querer, como vontade de viver, como força ativa e afirmativa. Finitude, morte e sofrimento, sem dúvida; mas condição de possibilidade do retorno da vida como criatividade, como criação.

Diante da multiplicidade simultânea inerente à facticidade do instante vivido, o individual afirma-se em seus limites como unidade do múltiplo; mas perde-se, esboroa-se; da mesma forma que perde-se e esboroa-se no fluxo do intrínseco devir do existente. A perda e o esboroamento, a superação do individual, é, no entanto, possibilidade da entrega ao “querer universal”, ao retorno da vontade de viver, à vida como emergente.

A afirmação vívida, do vivido, no limite do instante, atoalizativa, superativa, é, assim, o Sentido do trágico.

Ainda que esteja assim impregnado de inevitáveis finitude e sofrimento, -- Eu abençôo todo sofrimento (Nietzsche) -- o sentido do trágico não é, por fim, triste, melancólico, mórbido, como se entende vulgarmente a palavra. Da mesma forma que não o é, também, o existencialismo que deriva da filosofia trágica de Nietzsche. O Sentido do Trágico é libertador, pois é o caminho natural do retorno, e da força, da vida, como retorno da vontade de viver, como superabundância de forças. O trágico é, assim, alegre[39]...

 

A arte de existir afirmativamente é uma arte animada pelo sentido do trágico, neste sentido que Nietzsche recupera aos Gregos Pré-Socráticos. (Nada a ver, pois, com o sentido comum da palavra “trágico”. Cumpre mesmo diferenciar que “tragédia” nada tem a ver com o “catastrófico”).

Pré-Socráticos porque, a partir de Sócrates, a Cultura Grega, e as vertentes predominantes na Cultura Ocidental, abandonaram progressivamente o sentido do trágico, o sentido do vivido como sentido e compromisso de vida. A vivência vívida do vivido, o sentido do trágico, radicam-se no corpo, nas forças organísmicas instintivas, nos sentidos, no instante. E foram justamente estas dimensões do humano que Sócrates e o Socratismo vieram a desqualificar como inferiores, “animais”, em privilégio de uma pretensa superioridade do espiritual abstrato, do conceitual, do intelectual, da racionalidade teórica, do ideal, do abstrato, do a priori.

Desta forma, distanciamo-nos do corpo, do vivido, dos sentidos. E mesmo atribuímos a eles uma valoração negativa. Distorção que se espalha pela religião, pela filosofia e pela ciência, pela mentalidade ocidentais.

Recuperar o sentido do trágico, de uma arte trágica de viver, ou seja, de uma arte de viver que afirme e potencialize a vida em sua integridade, em sua multiplicidade, devir, outridade emergente, sofrimento e finitudes alegria e força, é recuperar o sentido do corpo, de seus instintos, sentidos, vivência. É recuperar o sentido do vivido no instante, é apreciar a vivência afirmativamente vívida, na integridade da configuração de sua multiplicidade, na plenificação intensa do fluxo de seus devires.

A arte da existência, ou a existência como arte, configura-se, assim, como afirmação e re-afirmação inquestionáveis da existência, do vivido enquanto tal, da vida em sua integridade e processos factuais. De sua multiplicidade e devir, do sofrimento e das morte que lhe são inerentes no limite do instante vivido. Configura-se, desta forma, como potencialização, afirmação e re-afirmaçã do eterno retorno da vida, como elemento fundamental de dinamização de seu fluxo.

Qual é o ser inseparável do que está em devir? Tornar a vir é o ser do que devém. Tornar a vir é o ser do próprio devir. O eterno retorno como lei do devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.[40]

E é, precisamente, no factual que o devir afirma-se como retorno.

Nietzsche faz do acaso uma afirmação. O próprio céu é chamado ‘céu acaso’, ‘céu inocência’; o reino de Zaratustra é chamado de ‘grande acaso’. ‘Por acaso, esta é a mais antiga nobreza do mundo, eu a restituí a todas as coisas, eu as libertei da servidão da finalidade... Encontrei em todas as coisas esta certeza bem aventurada de que elas preferem dançar sobre os pés do acaso”[41]

Assim: identificação com a emergência de si no mundo, com o fenomenal, afirmação da existência, da vida em sua facticidade instantânea? Ou negação? Afirmação do vivido, ou niilismo?

A vontade de potência é a própria potência da vida no sentido de sua auto-expansão, da plenificação de seus possíveis no instante, e superação. A vida não é, simples e unicamente, a vida devém, a vida é vir a ser, devir. A vontade de potência é, segundo Nietzsche, a tendência intrínseca da vida para expansão plena do possível de seus fluxos, em suas intensidades próprias, e para a plenificação de seu devir. ‘O ser não é, tudo está em devir; (...) o ser é o ser do devir enquanto tal’.[42]

Só existe o devir, que é impulsionado pelo retorno da vida. A vontade de potência é a sua tendência e movimento no sentido da plenificação de suas possibilidades.

Mas, além de configurar-se assim, como vontade positiva, afirmativa, de potência, a vontade de potência não é una, e pode manifestar-se, também, como vontade negativa de potência, como niilismo, como vontade de nada. Ou seja, como vontade de permanência em um ser abstrato, ao invés da identificação com o devir efetivamente vivido e encarnado.

A vontade afirmativa de potência é a vida como tendência à plenificação de suas possibilidades no instante, e auto-superação. A vontade negativa de potência é a vontade de permanência no ser. Ora, O ser não é, tudo está em devir. O ser é o ser do devir enquanto tal. Não há ser além do devir.”[43]

De modo que o ‘ser’, enquanto estrutura estável alcançada é puro abstrato, e, como tal, é nada: nihil. O Niilismo é a vontade negativa de potência, ou seja, é a vontade em negação da efetividade do ser em seu devir, a vontade de permanência no ser, e, como tal, a vontade de permanência no nada, a vontade de nada, de pretensa abstração do vivido em sua multiplicidade e devir.

Vontade, ainda, de potência, porque a vontade na vida é tão forte que quer, neste caso, o nada, mas não pode deixar de querer: vontade negativa de potência.[44]

Assim, afirmação da existência como afirmação do vivido, inclusive do sofrimento e da mortalidade, afirmação da multiplicidade, devir e finitude do instante, e potencialização do retorno da vida como outridade, como diferença, criativa? Ou negação do vivido, entendido como culpado ou criminoso, privilegiamento de uma vida ‘depois’ ou além  do efetivamente vivido, reação e ressentimento, em lugar da ação afirmadora?

Apreciação ou desqualificação e difamação da vida vivida no instante? Afirmação ou negação da existência?

 

A existência como arte de viver fundamenta-se, assim, na apreciação pelo vivido, na identificação com ele como devir, e potencializa-se, desta forma para a criação, como expressão de uma superabundância de suas forças de vida, de sua potência. Afirmadas.

 

A EXPERIÊNCIA DA PSICOTERAPIA COMO VIVÊNCIA ARTÍSTICA

É no contexto de uma tal concepção da existência que se pode conceber a experiência da psicoterapia -- experiência do cliente e do terapeuta, na dialogicidade de sua relação inter humana, concepção filosófica, teórica e metodológica -- como experiência artística.

A psicoterapia como arte é -- em seu momento próprio -- momento irrestrito de aceitação incondicional, e de afirmação, do vivido, da aparência emergente de si mesmo no mundo: momento de uma atitude de aceitação incondicional e de estímulo e abertura à afirmação do vivido do cliente, a partir da contingência de sua atualização existencial, na pontualidade do momento da sessão dita terapêutica. Por outro lado, é aceitação incondicional e afirmação do vivido do terapeuta, em relação dialógica com a outridade do cliente, no fluxo da pontualidade da sessão terapêutica.

A psicoterapia é, assim, em seu momento próprio, um laboratório, ou uma oficina (ou um ateliê) experiencial, existencial e experimental.

O que idealmente interessa é a vivência vívida do vivido como vivência de consciência organísmica, e o seu desdobramento ativo. É a afirmação da atividade e expansão do vivido, mesmo, e em particular, enquanto sofrimento ou conflito. É a aceitação e o privilegiamento do caráter ativo e da intensidade própria deste vivido, a sua expansão e superação plenas, e o fascínio pelo conseqüente movimento de retorno da vida como outridade criativa de nós próprios. É a aceitação incondicional dessa outridade de nós próprios em suas próprias possibilidades criativas, a atualização de seus fluxos enquanto atualização, e atuação, do si mesmo no mundo.

Daí decorre o caráter fundamentalmente experimental da psicoterapia. Caráter experimental este que se configura como relação dialógica com a outridade do outro -- cliente, terapeuta --, e com a outridade emergente de si próprio, pela afirmação do vivido no contexto do espaço dito terapêutico. Quando possível, a emergência desta outridade é a fina flor do retorno da vida.

Assim, como aceitação e privilégio da vivência vívida do vivido, a psicoterapia é uma atividade fluída e eminentemente plástica, no sentido existencial do termo, na qual a afirmação do devir do vivido potencializa a criatividade na existência do cliente e a possibilidade de seu processo de mudança, no enfrentamento das questões críticas de sua atualidade existencial, e no processo de atualização de suas potencialidades, no processo de seu crescimento.

A identificação com o vivido, com seus fluxos e refluxos de potência, exaustão e retorno, permite o desdobramento de configurações existenciais absolutamente novas, que no fluxo de seus processos transcendem o status quo da pessoa do cliente, e transcendem a ele , objetivando-se na atualização e constituição de seu mundo.

O mundo ‘dado’ do cliente, o seu mundo material e de relações sociais, pode sofrer a influência desta ação criativa. Perde, desta forma, o seu caráter de mundo meramente dado, à medida que se constitui ele próprio, também, como produto ativo e assumido de criação.

A originalidade do vivido, a sua aceitação e afirmação, definem as possibilidades plásticas da criatividade da ação da pessoa em sua existência, em relação a si próprio e a seu mundo. Ou seja, as possibilidades de sua criatividade na produção de si mesmo, das condições de sua auto-atualização e de criação de seu mundo.

De forma que o nexo entre psicoterapia e arte passa assim, necessariamente, por um certo modo afirmativo da existência, do vivido, em sua totalidade contingente. No seu sentido particular, é especificamente um nexo entre psicoterapia, existência afirmativa e arte, que potencializa a criatividade do cliente no enfrentamento das questões relevantes de sua atualidade existencial. O que define a existência afirmativa, artística, é exatamente a aceitação e a identificação com a aparência emergente do vivido, com a aparência emergente do si mesmo no mundo. Identificação esta que permite a potencialização das possibilidades da originalidade e da criatividade do si mesmo no mundo, das possibilidades de criação original e potente tanto do si mesmo como do mundo.

A psicoterapia entendida como arte assume esta perspectiva, e é espaço por excelência para o vivido, caracteristicamente definido em seus níveis pré-conceituais e pré-teóricos. Espaço de aceitação incondicional e de afirmação do vivido e de desdobramento pleno de suas possibilidades no instante.

Valorizar a aparência é afirmar a força; é porque a arte é uma afirmação da vida como aparência que ela cria uma superabundância de forças[45]

Edificação de um novo tipo de vida em que os direitos da arte, que foram confiscados pela racionalidade científica, sejam restituídos, reconquistados.[46]

  

 

 

 

3. INTERPRETAÇÃO

FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

Sobre o sentido do Interpretativo na concepção e método da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial

 

 

 

Há canções e há momentos /Eu não sei como explicar/Em que a voz é um instrumento /Que eu não posso controlar

Ela vai ao infinito, /Ela amarra todos nós /E é um só sentimento /Na platéia e na voz

Há canções e há momentos/Em que a voz vem da raiz/Eu não sei se quando triste/Ou se quando sou feliz

Eu só sei que há momento/que se casa com canção/De Fazer tal casamento/Vive a minha profissão

(Milton Nascimento e Fernando Brant
 Canções e Momentos)

 

 

Do invisível brotam efeitos visíveis...

I Ching.

 

 

Não existe explicação que possa levar à compreensão.
(Takuan Soho. in A Mente Liberta)

 

 

Numa boa observação da concepção, prática e desdobramentos das Psicoterapias fenomenológico-existenciais – e aqui referimo-nos especificamente à Gestalt Terapia e à Abordagem Centrada na Pessoa – não podemos nos furtar à constatação de que a valorização, a priorização, de um certo tipo de interpretação tem sido sempre um seu pressuposto e elemento fundamental: quer seja do ponto de vista de sua fundamentação filosófica, de sua teoria ou do seu método.

Neste sentido, parece perfeitamente correto dizer e assumir que estas abordagens: as abordagens fenomenológico-existenciais, em particular a Gestalt Terapia e a Abordagem Rogeriana, são, em sua prática, abordagens eminentemente interpretativas. Hermenêuticas. Entendo hermenêutica, como arte da interpretação. Neste sentido, interpretação fenomenológico existencial.[47]

Mais que isto, é fundamental resgatar e afirmar este sentido da interpretação, e o seu papel germinal na concepção e logos metódico das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia.

Evidentemente que não estamos aqui nos referindo ao termo interpretação no seu sentido psicanalítico. Ou, mais especificamente, não estamos nos referindo aqui ao termo interpretação no seu sentido explicativo, que é tão comum e contumaz. Nem estamos tentando desvendar ou definir qualquer sentido novo desta utilização psicanalítica ou explicativa do termo interpretação.

Trata-se, mais especificamente, de ressaltar o sentido e a concepção especificamente fenomenológico existenciais, radicais, deste termo na concepção e prática das abordagens fenomenológico existenciais em Psicologia e Psicoterapia. Para ressaltar a sua concepção específica, enquanto tal, como um fundamento filosófico, teórico e metodológico.

 

De início, é necessário observar algo bastante claro, e que é curiosamente negligenciado, ou obscurecido, seja no âmbito da vida cotidiana, no âmbito da psicologia ou da psicoterapia em geral, ou no âmbito da academia, ainda que obviamente evidente: o termo interpretar não tem apenas o seu sentido psicanalítico-explicativo, ou um sentido meramente explicativo. Na verdade este parece ser um de seus sentidos mais pobres. O termo interpretar tem uma outra área de sentido que lhe é bastante específica e própria, e que é a do seu sentido especificamente fenomenológico existencial compreensivo.

De um ponto de vista fenomenológico existencial, interpretação é o “desdobramento das possibilidades da compreensão”, como Heidegger[48] o definiu. Entendida aqui a compreensão como a própria constituição do vivido de ser no mundo. O estar afetivo do ser no mundo constitui-se como o vivido que se dá como compreensão. Como compreensão constitui-se assim a dimensão do possível do ser no mundo. A interpretação é o desdobramento das possibilidades que assim se constituem e se desdobram.

De modo que a concepção fenomenológico-existencial de interpretação é umbilicalmente ligada à concepção da compreensão no seu sentido especificamente fenomenológico-existencial. Compreensão esta que se configura como a  própria constituição fenomenal do vivido.

Desta forma, a interpretação fenomenológico existencial é, eminente e caracteristicamente, uma interpretação compreensiva.

Trata-se, então, para uma compreensão do sentido e concepção do interpretativo, e de seu valor, no âmbito das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais, de mudar o referencial.

Ao invés do referencial explicativo da hermenêutica de uma interpretação naturalista, a interpretação compreensiva do vivido, como o desdobramento das possibilidades que se dão como pré-compreensão ao devir de ser no mundo.

 

De certa forma, este sentido é bastante difundido, e compreensível, quando é aplicado, por exemplo, à interpretação de atores de teatro, ou de cinema, ou das artes cênicas em geral.

Curiosamente, não obstante, queda-se em geral negligenciada e obscurecida a fonte da analogia. Ou seja, o fato de que os seres humanos vivem de interpretar as possibilidades de seu ser no mundo, vivem da interpretação fenomenológico existencial de seu vivido, na criação de si e do mundo que lhe diz respeito, e na potencialização de seus devires.

Nietzsche[49] já observava neste sentido:

Em torno de todo espírito profundo brota sem cessar uma máscara, só podemos progredir mascarados...”“.

Maffesoli[50], igualmente, indicará:

O verdadeiro teatro é portanto o da cotidianidade (...) Assim, tudo o que diz respeito à ‘dramaturgia’ é, de início, uma realidade cotidiana.

 

Os psicoterapeutas fenomenológico existenciais perceberam profundamente esta dimensão da realidade existencial. E a importância existencial, regeneradora e propiciadora da criatividade, e do crescimento humanos, das possibilidades da potencialização da interpretação fenomenológico-existencial, como modalidade natural de interpretação e de potencialização da própria existência. E foram profundamente conseqüentes com relação a esta constatação da importância da interpretação fenomenológico-existencial como perspectiva de filosofia da vida, como princípio de concepção e de método de suas abordagens de psicologia e de psicoterapia.

De modo que, por dentro de suas reflexões teóricas, filosóficas, especulativas, a criação de condições (condições hermenêuticas) para o privilegiamento metódico da interpretação intensiva do vivido do cliente, pelo próprio cliente (evidentemente) -- interpretação compreensiva fenomenológico existencial -- constituiu-se sempre como o logos metodológico de suas abordagens.

Ainda que nem sempre tenha ficado especificamente explícito desta forma, isto se esclarece de um modo bastante evidente na concepção da psicoterapia e do trabalho psicológico como aparentados da arte, e mesmo nos desdobramentos destas abordagens, com a arte-terapia, por exemplo, com o modelo de trabalho com sonhos e a prática da Gestalt Terapia, e com o desdobramento dos recursos na prática da abordagem rogeriana.

Neste ensaio buscamos caracterizar e discutir a interpretação no seu sentido fenomenológico-existencial. Precisando este seu sentido, e distinguindo-o do sentido da interpretação explicativa. Comentamos, também, o modo como este sentido da interpretação fenomenológico-existencial constituiu-se, e constitui-se, como fundamento de filosofia da vida, de concepção e método das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e de psicoterapia.

 

 

EXPLICAÇÃO, COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO

 

Para o entendimento da concepção e do método das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, e do sentido e valor do interpretativo no seu âmbito, é da mais alta importância a distinção entre as concepções de Explicação e de Compreensão.

A concepção de Compreensão, mormente a partir da influência do desenvolvimento da Fenomenologia em Fenomenologia Hermenêutica heideggeriana, caracteriza-se especificamente como o próprio processo de constituição do vivido.

Ou seja, o vivido em sua natureza especificamente pré-conceitual, pré-reflexiva, pré-teórica, como intuição originária da vivência de consciência. O vivido nada tem de empiria objetivista, de coisa do mundo natural, e nos é dado pela intuição imediata, fenomenal, vivencial, anteriormente a qualquer forma de reflexão ou de conceituação. É empírico, na medida em que é vivencial e não teorizante, mas não é objetivista. Para privilegiar este vivido desenvolveu-se a Fenomenologia como Ontologia Hermenêutica Existencial.

De modo que a compreensão, num sentido fenomenológico existencial, é a própria constituição imediata do vivido no ser no mundo. A interpretação é o desdobramento das possibilidades de ser da compreensão.

A explicação, não tem esta imediatez do vivido. Ela é da ordem da abstração reflexiva. A explicação é da ordem da retórica, da ordem do discurso[51], e articula relações entre elementos do mundo natural. Empiria fenomenal, e não objetivista, a compreensão não se dá na dimensão da dicotomia sujeito-objeto, e das relações de causa e efeito. A explicação se dá no modo de ser das relações sujeito-objeto, e das relações de causa e efeito, constituindo nexos teóricos entre as causas e os efeitos. Assim, a explicação fundamenta a Ciência objetivista; ao tempo em que a compreensão funda a Hermenêutica. A explicação origina o dis/curso e a reapresentação. Enquanto que a compreensão constitui-se como apresentação, e funda a ação.

Sobre a concepção da compreensão Heidegger observa:[52]

El encontrarse es una de las estructuras existeciarias en que se mantiene el ser del ‘ahí. Com igual originalidad que ella constituye este ser el ‘compreender’. El encontrarse tiene en cada caso su comprensión, aunque sólo sea sofrenándola. El comprender és siempre afectivo. (...) concebimos el fenómeno como un modo fundamental del ‘ser del ahí’.

(...) Lo que se puede en el compreender enquanto existenciario no es ningun ‘algo’, sino el ser enquanto existir. En el comprender reside existenciariamente la forma de ser del’ ‘ser ahí’ como ‘poder ser’. El ‘ser ahí’ no es algo ‘ante los ojos’ que posea además como dote adjetiva la de poder algo, sino que es primariamente ‘ser posible’. El ‘ser ahí’ es en cada caso aquello que él puede ser y tal qual él es su possibilidad.*

 

(O ‘estar’* é uma das estruturas existenciarias na quais mantém-se o ser do ‘aí’. Com a mesma originalidade, este ser constitui o ‘compreender’. O estar tem, em cada caso, a sua compreensão, ainda que seja apenas reprimindo-a. O compreender é sempre afetivo.
(...) concebemos o fenômeno como um modo fundamental do ‘ser do aí’.

(...) O que se pode no compreender enquanto existenciário não é nenhum ‘algo’, mas o ser enquanto existir. No compreender reside existenciariamente a forma de ser do ‘ser ahí’ como ‘poder ser’. O ‘ser aí’ não é ‘algo ante os olhos’ que possua como adjetivação o poder algo, mas é, primariamente, ‘ser possível’. O ‘ser aí’ é em cada caso aquilo que ele pode ser; e, tal como ele é a sua possibilidade.)**

Num outro momento, Heidegger[53] já observa:

El ente constituído esencialmente por el ‘ser-en-el-mundo’ es él mismo en cada caso su ahí.

 

(O ente constituído essencialmente pelo ‘ser no mundo’ é ele mesmo, em cada caso, o seu aí.)**.

De modo que, de um ponto de vista objetivista, explicamos o mundo natural; compreendemos o mundo efetivamente vivido, o vivido do mundo, o ser no mundo.

Daí que o termo interpretação adquire os dois de seus sentidos que nos interessam. Radicalmente diferentes. Ou seja: o sentido da interpretação como interpretação explicativa, que caracteriza-se por uma atitude naturalista diante de objetos do mundo, na busca de suas relações, de seus nexos de causa e efeito, e de aclararmento conceitual; e o outro sentido de interpretação que é o seu sentido fenomenológico existencial, como interpretação compreensiva. Processo da interpretação que se constitui como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão que se dão na facticidade e afetividades do vivido[54].

 

 

INTERPRETAÇÃO EXPLICATIVA E INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

 

Tão impregnado na cultura da Civilização Ocidental é o uso do termo interpretar no sentido de ajuizar a intenção, (ajuizar) o sentido de (...) explicar, explanar ou aclarar o sentido de (...)[55], que perdemos, paulatinamente, no âmbito da cultura da vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e no âmbito acadêmico, o sentido de interpretar como (...) representar(...)[56]

Entendido aqui representar como

(...) tornar presente; patentear, significar (...) levar à cena; exibir, encenar (...) figurar, aparentar (...) desempenhar (...), apresentar-se, oferecer-se ao espírito (...), aparecer (...)[57]

Ao lado das práticas e estratégias de poder, as concepções e perspectivas psicanalíticas contribuíram decisivamente para esta consolidação da hegemonia do sentido explicativo do termo interpretar na vida cotidiana, no âmbito da psicologia, da psicoterapia e do meio acadêmico. De modo que o sentido de interpretar como  representar, presentificar, exibir, figurar, aparentar, apresentar, aparecer foi ficando num plano secundário, tendendo a ser relegado não simplesmente ao campo das artes, como lhe é bem próprio, mas relegado, mais restritivamente ainda, ao palco, no sentido restrito e formal, de desempenho da arte teatral, ou das artes cênicas em geral.

Não obstante, a interpretação fenomenológico-existencial, que é própria, num certo sentido, das artes dramáticas, é, especificamente, própria de qualquer arte. Em especial da arte da existência, da existência como arte.

Qualquer artista interpreta no desempenho de sua arte, no processo artístico específico da produção de suas obras, na medida em que apresenta, figura, faz aparecer, presentifica, o vivido de sua inspiração. O artista engendra no mundo a existência da originalidade absoluta e sutileza de sua inspiração.

Mas, mais que isto, isto só é assim na medida em que as artes em geral são apenas condensações e particularizações de uma arte maior, que é a arte humana de viver criativamente. De viver criando, efetivamente, no afrontamento e enfrentamento de nossas questões existenciais.

É a compreensão que se constitui como vivido, e a identificação com esta compreensão, ou seja, com o desdobramento das suas possibilidades ativas de ser: a sua afirmação, que se configura como interpretação do vivido, e como possibilidade de nossa originalidade e de nossa criatividade como seres no mundo. Vivemos, desta forma, na nossa melhor forma, da interpretação de nosso vivido, da interpretação fenomenológico-existencial do possível de nosso ser no mundo.

 

Como disciplina, a interpretação explicativa tem uma longa história. Remonta aos primórdios da hermenêutica e da exegese religiosas, como atividades de explicação dos textos sagrados.

A Psicanálise insere-se na perspectiva de sua tradição. Avocando-se a capacidade da exegese e da hermenêutica, da interpretação explicativa, não de textos, sagrados ou não, mas de pessoas. E desta forma constitui a sua postura, teoria e metodologia clínica. Nessa linha, não seria muito pensar que a Psicanálise lida com o psiquismo do cliente como se este fosse um texto, a ser desvendado em sua verdade, e explicado.

A Psicanálise, pelo menos em algumas de suas formas mais comuns, passa a ser um tremendo reforço à hegemonia da interpretação explicativa. Na verdade esoteriza-se, em suas popularizações, como a instância interpretativa do humano, por excelência, no contexto da sociedade moderna. Instância esta que se configura como uma patrona de peso da interpretação explicativa, amplamente hegemônica na perspectiva desta.

A interpretação fenomenológico-existencial vai sendo depreciada. O que é compreensível, no âmbito de uma sociedade que deprecia o corpo, o vivido, os sentidos, que deprecia a existência, a vida, em sua peculiaridade e forças próprias. Em particular uma sociedade que tende a repudiar e a depreciar, o possível, a possibilidade e sua possibilitação, em favor do status quo. Com efeito, tende-se a entender a interpretação no sentido fenomenológico-existencial como relegada e restrita aos palcos, ao mesmo tempo em que a própria atividade artística vai recebendo da sociedade em geral, e da Psicanálise, um estatuto marginal patologizado, similar ao do funcionamento neurótico. Consideração que, de um modo geral, recebe a própria vida em sua espontaneidade, na medida em que, inclusive, o pathos é identificado ao doentio.

A Filosofia da Vida, a Fenomenologia e o Existencialismo iniciam um vigoroso movimento de resgate do valor existencial e ontológico da espontaneidade originária do vivido, e da interpretação fenomenológico existencial. Nietzsche[58] consagra a perspectiva de que tornamo-nos algo que somos em existência, na medida em que tornamo-nos, ou podemos tornar-nos, a nossa possibilidade. E preconiza, desta forma, a importância da afirmação da interpretação fenomenológico-existencial como um estilo de viver, que, entendendo a vida como efetivamente inocente, afirma-a irrestritamente.

No desenvolvimento de sua hermenêutica ontológica, Heidegger[59] precisa, o sentido da interpretação fenomenológico-existencial como desdobramento das possibilidades ativas de ser da compreensão:

En cuanto comprender, el ‘ser-ahí’ proyecta su ser sobre possibilidades. Este comprensor ‘ser relativamente a possibilidades’ és él mismo, por obra de la repercussión de las possibilidades enquanto abiertas sobre el ‘ser-ahí’, un ‘poder ser’. El proyectar del comprender tiene la possibilidad peculiar de desarrollarse. Al desarrollo del compreender lo llamamos ‘interpretación’. En ella el comprender se apropia, comprendiendo, lo comprendido. En la interpretación no se vuelve el comprender outra cosa, sino él mismo. La interpretación no és el tomar conocimiento de lo comprendido, sino el desarrollo de las possibilidades proyectadas en el compreender.*

(Enquanto compreender, o ‘ser-aí’ projeta seu ser sobre possibilidades. Este compreensivo ‘ser relativamente a possibilidades’ é ele mesmo um ‘poder ser’, por obra da repercussão das possibilidades enquanto abertas sobre o ‘ser aí. O projetar do compreender tem a possibilidade peculiar de desdobrar-se. Chamamos de interpretação ao desdobramento do compreender. Nesta (na interpretação), compreendendo, o compreender apropria-se, do compreendido. Na interpretação o compreender não se torna algo outro que ele mesmo. A interpretação não é o tomar conhecimento do compreendido, mas o desdobramento das possibilidades projetadas no compreender.)

O sentido, assim, da interpretação fenomenológico existencial, é o de desdobramento das possibilidades de ser da compreensão. Compreensão esta que se constitui origináriamente como vivido de ser no mundo.

A arte humana de viver, a criatividade existencial, que nos permite criar a originalidade de nossa vida, que nos permite produzir respostas criativas para nossas questões existenciais, que nos permite ajustarmo-nos criativamente na relação com o mundo que nos diz respeito, deriva do exercício desta capacidade de podermos identificarmo-nos, e sermos, intérpretes (fenomenativo-existenciais) de nosso próprio ser no mundo, no desdobramento de suas possibilidades de ser.

Analogamente à forma como um artista interpreta a sua inspiração, na produção de sua obra de arte; ou como um ator interpreta o seu próprio vivido de seu personagem, é a interpretação das possibilidades que se dão em nosso próprio vivido -- a ativa e original interpretação de nossa existência -- que nos potencializa existencialmente, que potencializa a nossa criatividade existencial, e que nos permite a elaboração de uma super abundância de forças de vida, que é própria do funcionamento artístico, e da riqueza da existência.

Michel Maffesoli[60] observa:

(...) a teatralidade, o espetáculo, não são acréscimos relativamente secundários, mas o cimento capaz de permitir que o conjunto social seja um todo contraditório mas ordenado. Numa tal perspectiva, o que se pode dizer é que a poesia não constitui um domínio separado, mas que, ao contrário, encontra-se estreitamente imbricada na vida de todos os dias. O verdadeiro teatro é, portanto, o da cotidianidade (...). Em relação a uma expressão ‘natural’, a arte como entidade separada não passa de uma criação recente; o teatro é de início o da rua, antes de se tornar uma construção específica, e, além disso, as regras que regem essa construção específica existem certamente de maneira latente na representação da vida corrente. (...) Assim, tudo que diz respeito à ‘dramartugia’ é, de início uma realidade cotidiana (...). A sociedade enquanto interação de elementos heterogêneos que negociam sua presença mútua nada mais é do que uma vasta e complexa ‘representação’, onde os ‘papéis’ se trocam, se sucedem, se opõem, se eliminam etc.

    Toda atividade individual e social provém do domínio teatral. O que chamamos de ‘encontro’ na relação afetiva ou na linguagem poética, mais simplesmente, tudo que possui o traço da vizinhança, ou que é da ordem da relação, sem falar deste complexo altamente trágico que é a família, tudo isto constitui uma encenação mais ou menos consciente onde se misturam, num conjunto fragmentado, o grotesco, a tragicomédia ou mesmo o patético e o épico.

 

De modo que, longe de estar restrita ao palco, a interpretação fenomenológico existencial é a matéria prima de nosso cotidiano ser no mundo, de nosso ser com os outros. Ser no mundo e ser com os outros que dependem de nossa liberdade e capacidade para interpretá-los em sua riqueza, potência, sutilezas, necessidades e carecimentos próprios.

Alternativamente, é em função da incapacidade, da impotência, por múltiplos fatores possíveis, para a rítmica  interpretação fenomenológico existencial de nós próprios que perdemos em originalidade, em força. Que perdemos em criatividade, em saudável e necessária agressividade, no afrontamento e enfrentamento das questões relevantes de nossa atualidade existencial. Que perdemos em brilho e vitalidade, e criamos eventualmente uma vida embotada, aquém de nossas possibilidades de ser, dolorida, estagnada, deprimente e depressiva, obsessiva, compulsiva, desequilibrada.

 

 

COMPORTAMENTO, AÇÃO E INTERPRETAÇÃO.

 

 

Se constatamos, por um lado, a importância existencial e valor ontológico da interpretação fenomenológico existencial, constatamos, por outro, no desenvolvimento da sociedade das culturas da civilização ocidental, a restrição progressiva de suas condições de possibilidade. Hannah Arendt[61] já observava que a cultura da sociedade contemporânea favorece o comportamento e desprivilegia a ação, ação que se possibilita na Interpretação.

Um fator decisivo é que a sociedade, em todos os seus níveis, exclui a possibilidade da ação (...). Ao invés da ação, a sociedade espera de cada um dos seus membros um certo tipo de comportamento, impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a ‘normalizar’ os seus membros, a  fazê-los ‘comportarem-se’, a abolir a ação espontânea ou a reação inusitada.

(...) Esta igualdade moderna, baseada no conformismo inerente à sociedade (...) só é possível porque o comportamento substitui a ação como principal forma da relação humana (...)

É o mesmo conformismo, a suposição de que os homens se comportam ao invés de agir, que está na base da moderna ciência econômica (...) que, juntamente com o seu principal instrumento, a estatística, se tornou a ciência social por excelência.

O comportamento é a atividade previsível e padronizada da pessoa, definida e ancorada nos padrões sociais, nos hábitos e nas expectativas. A ação envolve os níveis mais vivenciais da pessoa, mais subjetivos, singulares, irrepetíveis e originais. A ação é, assim, única e original. E é exatamente a ação que vai sendo progressivamente extinta, em privilégio do conformismo do comportamento dos particulares de uma sociedade que se automatiza cada vez mais, automatizando inclusive a atividade das pessoas que a ela compõem. De modo tal que ganha interesse a observação de que

Num mundo de máquinas cada vez mais exatas e perfeitas ganha sentido cada vez mais valioso a capacidade humana de errar*.

A ação, tal como a define Arendt, caracteriza exatamente a interpretação fenomenológico-existencial. E é exatamente a possibilidade desta modalidade de vida, desta modalidade de interpretação, que perde espaço e é desqualificada na vida cotidiana, no âmbito da psicologia e da psicoterapia, e do meio acadêmico, à medida que são privilegiadas formas da socialidade que valorizam o comportamento em detrimento da ação. A conseqüência é que as pessoas perdem, cada vez mais, a humana condição de ser atores de si mesmas, de sua existência, de seu ser no mundo, atores de suas realizações. E transformam-se, cada vez mais, em espectadoras da realidade e de si próprias, enquanto crescem como autômatos conformados, como indicava Fromm[62]. Mais que isto, com a redução das possibilidades da ação, e da interpretação fenomenológico-existencial, as pessoas perdem as suas capacidades de regeneração, de auto criação e recriação, de potencialização e re potencialização de suas forças de vida.

Paralelamente hipertrofia-se o lugar da interpretação explicativa, como recurso de dominação e de controle social, a níveis, inclusive, ridículos, com as óbvias implicações de poder que isto comporta.

A interpretação explicativa é normativa. E, facilmente, recurso de dominação, ligada com freqüência à promoção do comportamento e à extinção das possibilidades da ação. De modo que as estratégias dos poderes vigentes tendem a sobrevalorizar a interpretação de hermenêuticas explicativas, à medida que se negligencia e obscurecem-se as possibilidades especificamente existenciais, e terapêuticas, da interpretação compreensiva de uma hermenêutica fenomenológico-existencial.

 

 

RESGATE E POTENCIALIZAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL COMO UMA CONCEPÇÃO E PRÁTICA DE PSICOTERAPIA.

 

As Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais compreenderam profunda, e praticamente, as observações ligados a estas questões que vinham dos campos da Filosofia da Vida, do Existencialismo, da Fenomenologia e da Filosofia Política, e os valores por estes elaborados a partir dessas observações. De modo que apreenderam, e derivaram daí uma compreensão e uma concepção do valor fundamental da interpretação fenomenológico existencial, como perspectiva de filosofia da vida, como princípio teórico e de método na prática de seus modelos de psicologia e de psicoterapia. Desenvolveram-se, assim, essas psicologias e psicoterapia, fundadas importantemente na elaboração de concepções, de práticas e de modelos de relação ligados sempre à potencialização das possibilidades da interpretação fenomenológico existencial de seus clientes. Neste sentido, ainda que não o tenham, às vezes, enfatizado e especificado suficiente e adequadamente em sua teoria, vivem, em seu método, teoria e filosofia, da possibilidade da criação de condições para a potencialização da interpretação na primeira pessoa, da interpretação como representação, figuração, da interpretação como desdobramento das possibilidades de ser da compreensão, como desdobramento das possibilidades de ser do vivido.

Estas abordagens buscaram situar-se, assim, numa perspectiva heterogênea, com relação às tendências em nossa cultura de desqualificação da humana possibilidade da interpretação ativa e eminentemente vivida de ser no mundo.

Compreenderam, desde o início, os seus formuladores a impertinência e a improdutividade fenomenológico-existencial da postura de uma hermenêutica explicativa do psiquismo do cliente, de uma postura de explicação da estrutura de personalidade e de suas disfunções, dos padrões de comportamento e atos, do cliente. Em particular diante da flagrante redução da criatividade e da força existencial, e da automatização das pessoas, à medida que o comportamento tendia e tende a substituir progressivamente a ação.

O desenvolvimento, e desdobramento, da Fenomenologia e do Existencialismo ofereceram a estas abordagens poderosos elementos filosóficos, teóricos e metodológicos para a formulação de perspectivas que ressaltavam a importância da afirmação do vivido pré-reflexivo, e do processo de sua compreensão intensiva, e intensiva interpretação, por parte do cliente. Isto derivava, naturalmente, da descoberta do valor terapêutico, digamos, valor de potencialização das forças de vida e de propiciamento do crescimento, desta prática intensiva e natural da humana atividade de, ativa, vivida e vívidamente, interpretar-se a si mesmo. Não de um ponto de vista explicativo, mas a interpretação compreensiva, como desdobramento das possibilidades do vivido factual e afetivo.

Foi na prática, experiencial, experimental, estritamente existencial, desta forma de interpretação fenomenológico-existencial que os pioneiros dessas abordagens foram descobrir as ricas possibilidades de potencialização dos mecanismos de auto-regulação do organismo.

Isto é trabalho de pioneiros como Rogers, Perls, Moreno. E nem sempre é bem compreendido por contemporâneos seus e sucessores. Freqüentemente, ainda hoje, muitos destes entendem a necessidade de uma compreensão empática do cliente, compreendem algo da importância de uma consideração positiva incondicional pela experiência do cliente, mas não entendem o valor existencial, organísmico, conceitual e metodológico da interpretação fenomenológico-existencial. E o valor fundamental da psicoterapia e do espaço da prática psicológica e psicoterapêutica como espaços, existencialmente experienciais e experimentais, de privilegiamento de uma intensa atividade hermenêutica de interpretação fenomenológico-existencial de si por parte do cliente, a partir da intuição do vivido de sua atualidade e da atualidade de suas eventuais crises existenciais.

Na verdade a Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial entendeu, desde os seus primórdios, em Otto Rank, por exemplo, a importância de abrir mão do poder de diagnosticar na prática psicoterápica, a inutilidade e o potencial danoso deste poder, a esterilidade de uma hermenêutica explicativa do cliente. Em privilégio do interesse por um outro paradigma de psicoterapia, que tinha os seus fundamentos na prática intensiva da interpretação fenomenológico-existencial e era mais aparentado da atividade artística. Não é à toa que Otto Rank, um fundamental inspirador da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial, vai valorizar uma compreensão artística do homem, e aproximar da arte as possibilidades de sua prática psicoterapêutica.

Numa cultura, não obstante, em que habitualmente se dá um desprivilegiamento do corpo, do vivido e dos sentidos, um desprivilegiamento da vida, uma cultura na qual muitos poderes enraízam-se exatamente neste desprivilegiamento e na heteronomia, nem sempre é fácil abrir mão dos poderes de diagnosticar o outro, de interpretar o outro explicativamente, de “terapeutizar” o outro.

Daí que há, freqüentemente, dentro da própria Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial inclusive, uma dificuldade de entender a radicalidade de sua fundamentação. E da fundamentação de sua prática, na criação de condições hermenêuticas de potencialização da interpretação fenomenológico existencial por parte do cliente, nas próprias condições de sua atualidade e atualização existenciais. Em parceria ativa, atenta e interessada com o terapeuta, intérprete fenomenológico-existencial, também, do seu próprio vivido, na pontualidade do seu encontro dialógico com o cliente.

 

 

PRINCÍPIO DE FILOSOFIA DA VIDA

 

Quando a atitude de viver,/é uma extensão do coração/é muito mais que um prazer,/é toda a carga da emoção/que era um encontro com o sonho, /que só pintava no horizonte,/e de repente diz presente,sorri, e beija nossa fronte,/e abraça e arrebata a gente,/é bom dizer, viver valeu!/Ah! Já não é nem mais alegria,/já não é felicidade/é tudo aquilo num sol riso/é tudo aquilo que é preciso/é tudo aquilo paraíso, /não há palavra que explique/é só dizer: viver valeu!

 

ah! Eu me ofereço a esse momento/que não tem paga e não tem preço/essa magia eu reconheço,/aqui está a minha sorte,/me descobrir tão fraco e forte,/me descobrir tão sal e doce/e o que era amargo acabou-se,/é bom dizer viver valeu,/é bem dizer: amar valeu, amar valeu!

 

(Gonzaguinha. Viver, Amar, Valeu)

 

 

 

Por baixo de toda abordagem de psicologia e de psicoterapia subjaz as perspectivas de uma filosofia da vida. Isto sempre esteve muito forte (ainda que nem sempre explicitamente referenciado) no caso das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, na medida, em particular, em que elas constituíram-se importantemente no âmbito, e como dimensões significativas dos movimentos da Fenomenologia e do Existencialismo. Movimentos estes que se caracterizam como movimentos de ruptura com certas perspectivas dominantes na filosofia e na cultura da Civilização Ocidental: ruptura, dentre outras, com perspectivas de super valorização do abstrato, do conceitual, do reflexivo e do teórico, em detrimento da valorização do corpo, do vivido e dos sentidos.

É, assim, na afirmação da concrescência da existência (Buber), portanto --, afirmação que se constitui como afirmação do corpo, do vivido fenomenal pré-reflexivo e dos sentidos, como afirmação do mundo --, que vai deitar as suas raízes mais profundas a psicologia e a psicoterapia fenomenológico-existencial. Para estas psicologias, de um modo geral, interessa o privilegiamento e priorização conceitual e metodológica do vivido, e a constituição dele como referência básica de orientação e de avaliação do comportamento da pessoa. Interessa efetivamente uma identificação da pessoa com o seu próprio vivido, ao invés de uma definição de si e de seus comportamentos a partir de perspectivas conceituais e abstratas. Sob o pressuposto de que é esta identificação que permite uma potencialização das forças da existência, a promoção da criatividade existencial e de uma super abundância de forças de vida.

Esta perspectiva constitui-se de um modo marcante, na filosofia moderna, nas perspectivas e concepções da filosofia da vida de F. Nietzsche[63]. Que elege o vivido como critério superior de produção da verdade e dos valores. Uma vez que é a verdade produzida a partir desta identificação com o vivido que permite a potencialização da vida, a promoção de uma super abundância de forças de vida e a potencialização da criatividade.

Assim, ao impulso epistemofílico, de busca teórica e abstrata, desencarnada, da verdade, que anima a ciência e a moral, Nietzsche, elege a perspectiva artística de criação do verdadeiro, engendrada pela afirmação e identificação com o vivido, pela afirmação da afirmação que o vivido já é, em sua multiplicidade e devir ativos. Nietzsche elege, desta forma, a arte ou seja, o modo artístico da existência, como critério superior de produção da verdade. Superior à ciência e a um modo científico da existência, uma vez que o modo artístico da existência afirma a vida, e promove a potencialização da vida como potencialização da criatividade, aventurando-se na criação do verdadeiro e da realidade, como realização, atualização, ao invés de propor-se a meramente buscá-los.

Não é que a ciência e o teórico não sejam critérios importantes. Eles o são. Mas são, do ponto de vista da vida, critérios subalternos à arte e ao modo artístico da existência.

Não se trata simplesmente, evidentemente, da eleição da arte formal como critério. Mas da eleição da raiz desta como critério existencial. Ou seja: da eleição de um modo ativo da existência, que afirma a afirmação que o vivido configura, que afirma o mundo, o corpo e os sentidos em sua espontaneidade, que identifica-se com o vivido e que potencializa-se como tal e como criativo.

Nietzsche faz, assim, a sua eleição entre o homem teórico e o homem artístico, elegendo a este como um modo superior da existência.[64], pelo fato de que este afirma a existência e cria.

É esta identificação com, e expressividade do vivido, afirmação do vivido, em suas intensidades, possibilidades e devir, que constitui e configura a opção pela interpretação fenomenológico-existencial como um modo existencialmente superior de vida. A atualização da condição hermenêutica do humano. A afirmação, e afirmação da afirmação do vivido, o desdobramento ativo de suas possibilidades de ser, que configuram a compreensão e a interpretação fenomenológico-existencial.

 

 

SOBRE A CONCEPÇÃO E MÉTODO DE UMA PSICOTERAPIA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL

 

A Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existenciais modernas têm, pois, esta perspectiva da Filosofia da Vida como um dos elementos fundamentais de sua concepção e de sua metodologia. No que pesem teorias diversas, de acordo com cada uma de suas linhas, elas ressaltam e convergem na eleição da identificação com o vivido, da afirmação e expressividade do vivido como perspectivas conceituais, como critérios de valor e de método.

No limite, a saúde é definida, no âmbito destas psicologias e Psicoterapias, como a habitualidade desta identificação com, afirmação e expressividade do vivido, que caracterizam um estilo de vida que privilegia a habitualidade da interpretação fenomenológico-existencial, da atualização do possível, como critérios existenciais de orientação e de avaliação do comportamento e da ação da pessoa no mundo. A saúde constitui-se na criatividade existencial daí decorrente.

A impotência, o desequilíbrio e o desajuste advindo e desenvolvendo-se, segundo a perspectiva destas abordagens, a partir da perda da habitualidade deste modo de funcionamento existencial, substituído, então, por um modo de orientação e avaliação da existência a partir de perspectivas conceituais e reflexivas, abstraídas do vivido.

De forma que a idéia dessas Psicoterapias e Psicologias é a de constituírem-se, elas próprias, em suas práticas, como espaços e tempos de criação, para o cliente, de condições para o privilegiamento, e afirmação, de seu próprio vivido. Através de um privilegiamento da prática de momentos de vivência centrado na sua própria compreensão vivencial, e nos desdobramentos pontuais de sua compreensão existencial. Momentos de privilegiamento de seu próprio processo de interpretação fenomenológico existencial, nas circunstâncias de sua atualidade e atualização existenciais.

É a idéia de constituírem-se fundamentalmente, assim, para o cliente, como espaços e tempos de privilegiamento da constituição da sua compreensão intensiva de seu ser no mundo, com a aceitação, e afirmação, das possibilidades de ser que neste se constituem.

Isto não quer dizer que o cliente precise interpretar o seu vivido utilizando-se necessariamente da forma do artista. A conversação inter-humana expressiva entre o terapeuta e o cliente, ao longo da sessão e do trabalho psicoterapêutico e psicológico, impõe-se e pode configurar-se como um meio privilegiado de propiciamento do desempenho fenômeno interpretativo por parte do cliente. Evidentemente que, apesar de sua excelência, a fala e a conversação não são as únicas dimensões possíveis da interpretação fenomenológico-existencial. Ao lado desta possibilidade da fala e da conversação genuína (Buber), abre-se a possibilidade, também, de inúmeros recursos e possibilidades fenomenativas e expressivas, verbais e não verbais, que podem, ao lado do diálogo inter humano, e em complementação dele, desdobrar as possibilidades da interpretação de seu vivido por parte do cliente em seus processos de tornar-se o que é.

A idéia, enfim, dessas abordagens é a de constituírem-se como espaços de potencialização, através do desenvolvimento da habitualidade da interpretação fenomenológico existencial, de um certo tipo de saúde. Tipo de saúde de que já falava Nietzsche, comentado aqui por Maria Cristina Franco Ferraz[65]:

(...) capacidade de rir da comédia da existência e de si mesmo. Somente uma saúde que, sempre posta à prova, se torne cada vez mais resistente possibilita uma tal aventura.

Ter uma ‘grande saúde’ é, para Nietzsche, a condição necessária para se poder experimentar um amplo leque de valores, de aspirações (...)

Trata-se de uma saúde que permite tirar proveito da própria doença, como Nietzsche mostra quando descreve seu próprio caso (...). Aí ele explica que para alguém ‘no fundo sadio’ até mesmo a doença pode vir a se tornar ‘um enérgico estimulante para a vida, para o mais viver’ (p.47). Como doente ‘tipicamente são’ Nietzsche é ao mesmo tempo um décadent e ‘também o seu contrário’ (p.47) (...) No mesmo parágrafo de Ecce Homo também afirma que a capacidade de encontrar seus próprios remédios, de não se deixar ‘cuidar, servir, socorrer por médicos duvidosos (bearzteln)’ constitui uma prova decisiva da segurança de um instinto que trabalha em silêncio a serviço da saúde. Uma vez que a idéia nietzscheana de ‘grande saúde’ se opõe a qualquer idéia de conforto e de bem-estar relativos à conservação de si mesmo, a própria doença passa a ser positivamente avaliada. Sobretudo quando é ela que permite que alguém, como no caso de Nietzsche, se liberte paulatinamente dos obstáculos que o impediam de ‘se tornar o que ele era’* . (...)

Segundo Nietzsche, a diferença entre um ser tipicamente mórbido e alguém basicamente são consiste no fato de que apenas este último é capaz de se curar, o que exige o exercício incessante de um princípio de seleção bastante rigoroso (cf. ‘Porque sou tão sábio’, parágrafo 2). Tal tipo de saúde supõe riscos constantes, na medida em que, estando associada a seres que vão cada vez mais longe na exploração de suas próprias almas, nunca é alcançada de uma vez por todas (...).

 

O privilegiamento da possibilitação -- da compreensão, e dos desdobramentos das possibilidades que se constituem na compreensão, na interpretação compreensiva -- labora para o processo do cliente de potencialização de sua saúde, de potencialização de sua grande saúde.

a grande saúde... aquela que não basta ter, a que se adquire, que é necessário adquirir, constantemente, por ser sacrificada sem cessar, por ser necessário sacrificá-la sem cessar!... Então, no termo das nossas viagens, nós, argonautas do ideal, mais corajosos talvez do que aquilo que é prudente, freqüentemente contusos, ainda mais freqüentemente naufragados, mas de melhor saúde do que se gostaria talvez de no-lo permitir, perigosamente, sempre de melhor saúde, parece-nos que, em recompensa, nos encontramos em face de uma terra inexplorada, de que nenhum olhar jamais apercebeu os limites, num além de todas as terras e de todos os recantos do ideal, em mundo tão pródigo de beleza, de desconhecido, de problemas, de terror e de divino que a nossa curiosidade e a nossa avidez se deliciam fora de si próprias, e que, ah, nada mais nos poderá saciar.[66]

 

 

O CARÁTER INTERPRETATIVO, HERMENÊUTICO, DA GESTALT TERAPIA

 

O aspecto interpretativo das Psicoterapias fenomenológico-existenciais é bastante patente e explícito em alguns aspectos da Gestalt Terapia. De fato, a Gestalt Terapia assume intensamente este aspecto hermenêutico. Em particular na medida em que se constitui sob a influência forte do Expressionismo.

A vida boêmia de Perls, no ambiente artístico e intelectual da Alemanha dos anos 20, fortemente impregnada pelo Expressionismo e pelo teatro expressionista, e pela presença das idéias de Nietzsche, fizeram-no entender profundamente não só a importância da arte no seu sentido formal, mas, em particular, a importância e valor propriamente existencial para a pessoa do modo artístico de funcionamento: a importância do interpretativo e hermenêutico.

Uma das definições dos objetivos do gestalt terapeuta, segundo Perls[67] é a de que este quer, e esforça-se, para que o cliente possa tornar-se ele mesmo, e possa expressar-se desta forma na sua relação com o mundo.* Não por acaso, é esta a mesma perspectiva do outro Fritz, o Nietzsche, quando constata que a sua tarefa foi a de tornar-se o que se é[68].

Esta perspectiva da Gestalt Terapia ganha toda a sua evidência no seu modelo de trabalho com sonhos. À medida que compreendemos o sentido da interpretação fenomenológico existencial, damo-nos conta do caráter, neste sentido, eminentemente interpretativo e hermenêutico deste modelo. No qual o sonho é entendido em cada um de seus componentes como projeção da atualidade existencial do cliente de um modo essencial, de forma que a interpretação fenomenológico-existencial intensiva do sonho por parte do cliente pode permitir-lhe a reidentificação com, dimensões alienadas de seu self, e a reintegração do conjunto deste.

Mas isto só é assim na medida em que o modelo de trabalho com sonhos da Gestalt Terapia desenvolveu-se como tal no momento em que a Gestalt Terapia, distanciando-se da concepção da psicoterapia psicanalítica e dos modelos de metáfora médica, dos quais se impregnava em suas origens, ganha efetivamente o caráter maior de sua originalidade. Ou seja: a sua consolidação como uma abordagem fundamentalmente fenomenológico existencial, centrada na acentuação do vivido do cliente e de sua compreensão, e na expressividade deste vivido. Uma abordagem de prática eminentemente interpretativa, hermenêutica, no sentido fenomenológico-existencial.

É esta acentuação do vivido, do vivencial devir de seus desdobramentos, e de sua expressividade imediata -- tanto na terapia como na cotidianidade, como atitudes provedoras das dinâmicas de auto regulação organísmica da pessoa -- que se constitui como o núcleo da concepção teórica e filosófica da Gestalt Terapia, e de sua metodologia. E que caracterizam-na como uma abordagem eminentemente interpretativa, no sentido fenomenológico existencial hermenêutico. Ao gestalt Terapeuta interessa que o cliente possa potencializar-se como intérprete ativo da atividade de seu self em sua relação de contato.

De modo que não dá para confundir o sentido fenomenológico-existencial do “interpretativo”, do hermenêutico, em Gestalt Terapia com um sentido psicanalítico ou explicativo, sempre impertinentes, portanto, em seu âmbito.

 

 

O LUGAR PRÓPRIO DO PSICOTERAPEUTA NA PRÁTICA DE UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL INTERPRETATIVA.

Quando se fala das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, trata-se, de um modo geral, do cliente. É, evidentemente, importante, não obstante, compreender o lugar específico do psicoterapeuta (psicólogo, pedagogo, facilitador, com as suas particularidades próprias) na prática destas abordagens. Sabemos que muito do que se refere ao papel do terapeuta é tratado de um modo implícito. Além do que, muita confusão, omissão, desconhecimento ou obscurecimento vigora em termos da concepção e fundamentação do papel do terapeuta. Daí, a necessidade de uma ênfase ainda maior no esclarecimento, melhor concepção e fundamentação deste papel.

Sabemos que, ainda que o terapeuta dedique-se a uma abertura para o cliente, na pontualidade da sessão terapêutica; e disponibilize-se para uma relação inter humana com o cliente, o seu papel e a sua competência, certamente, não dizem respeito a compreender o vivido do cliente. O vivido do cliente é privado, e especificamente a vivência de seu próprio ser no mundo. E só a ele, cliente, é acessível. O que o terapeuta pode é privilegiar, estimular, incrementar, a partir do poder de sua condição e prática, a priorização da criação de condições para um privilegiamento e acentuação do seu próprio vivido por parte do cliente, e o desdobramento das possibilidades de ser desta vivência.

Igualmente, evidentemente, não é o papel do terapeuta o de interpretar o vivido do cliente, mesmo no seu sentido fenomenológico e existencial. O terapeuta só pode compreender e interpretar fenomenológico-existencialmente, evidentemente, o seu próprio vivido. E isto não parece ser possível de superação na concepção e prática da psicoterapia, e, digamos, na condição humana.

Tudo que o terapeuta pode é garantir, a partir de seu lugar de poder e competência específicos, as condições para que o cliente possa entregar-se à perspectiva do vivido de sua atualidade existencial, e expressá-lo, interpretá-lo, fenomenológica existencialmente no tempo e espaço da sessão terapêutica.

Como elemento fundamental de condições ótimas que o terapeuta busca criar para que o cliente possa entregar-se, afirmar e interpretar as perspectivas do seu vivido, o terapeuta busca disponibilizar-se, efetivamente, para a relação momentânea e imediata, mais ou menos intensiva, com o cliente. Disponibilizar-se para o desdobramento e afirmação do âmbito da dialogicidade da relação inter humana entre ele e o cliente[69]. Disponibilizar-se para uma abertura e respeito para com o cliente, e para com a comunicação de si e de seu vivido por parte dele. O terapeuta constitui-se assim como um parceiro no processo hermenêutico do cliente, um co-ator, co-adjuvante. Co-ator e coadjuvante este que vivencia e interpreta o seu próprio processo hermenêutico, no fluxo dos momentos da dialogicidade da relação com o cliente.

Traço marcante, é que o terapeuta disponibiliza-se para uma atitude experimental no âmbito da dialogicidade deste processo, privilegiando, e afirmando, o desdobramento, a interpretação, experimental das possibilidades de seu próprio vivido, na pontualidade da relação com o cliente.

Cabe ao terapeuta, a partir de seu poder e competência específicos, cuidar para que o cliente disponha, ao longo do processo terapêutico, de tempo e espaço no qual ele pode dedicar-se, intensa e intensivamente, à compreensão e ativa interpretação das possibilidades imediatamente iminentes e propulsivas de seu vivido, no âmbito das especificidades e dos limites institucionais da prática da psicologia e da psicoterapia. Mas, mais que isto, assim, como observamos, cabe especificamente ao terapeuta diponibilizar-se a si próprio para a relação inter humana e imediata e experimental com o cliente, abrindo-se pontualmente para a diferença e alteridade específicas e pontuais dele (cliente), ao longo de sua vivência, no espaço e no tempo da sessão terapêutica. Cabe ao terapeuta respeitar e confirmar incondicionalmente esta diferença e alteridade com a qual ele interage pontualmente. E interpretar fenomenológica, existencial e experimentalmente o seu próprio vivido desta relação, como parte ativa de sua disponibilização para ela.

De modo que a prática efetiva da psicoterapia configura-se então como um fluído e dinâmico jogo e inter jogo de interpretações, no âmbito da dialogicidade da relação entre terapeuta e cliente. No qual ao cliente é facultada a possibilidade de centrar-se no, compreender e interpretar, fenomenológico existencialmente, experimentalmente, o vivido emergente de sua própria atualidade existencial. Em parceria inter-interpretativa com um terapeuta que se interessa, quer e busca garantir, para o cliente, a efetividade deste espaço como tal, entendendo-se a si próprio, e ativamente configurando-se a si próprio, como parceiro inter-interpretativo, que se centra na compreensão e interpretação fenomenológico existencial experimental de seu próprio vivido, na relação pontual.

Fundamental neste processo é o respeito incondicional, por parte do terapeuta, pela integridade ativa e dinâmica da vivência e da expressividade interpretativa da vivência do cliente. Sua valorização do vínculo inter humano entre ele e o cliente pressupõe, mais ainda que um respeito incondicional, um interesse e fascinação por esta integridade e expressividade.

Este interesse e fascinação mobilizam naturalmente o terapeuta no sentido de uma abertura para a diferença específica da interpretação alteritária pontual e imediata do ser no mundo do cliente. O terapeuta recebe esta presença e expressividade do cliente não de uma perspectiva conceitual e reflexiva, mas de uma perspectiva privilegiadamente fenomenal, pré-conceitual e pré-reflexiva. De modo que potencializa-se, assim, como vivido do terapeuta, a presença alteritária do cliente, vivido que o terapeuta busca privilegiar, atualizar, compreender, e interpretar fenomenológico existencial e experimentalmente, enquanto tal, na atualidade do encontro a pessoa do cliente.

Este processo de dedicação a uma intensiva compreensão e interpretação fenomenológico existencial inter humana, de seu vivido da relação com o cliente, por parte do terapeuta, pode configurar a este, terapeuta, como um parceiro muito especial para o cliente no processo da terapia. Um parceiro inter humano que possibilita a “intersubjetivação”, na verdade a dialógica, das particularidades, sutilezas e dificuldades vividas na atualidade existencial do cliente, muitas delas nunca expressadas, e eventualmente desconhecidas e em processo de configuração.

Por outro lado, o terapeuta pode constituir-se como um elemento existencialmente forte, e especificamente pro-vocativo[70], na relação com cliente, na medida em que a sua atitude e atuação sensivelmente experimentais, no setting da terapia, podem levar o cliente à intensificação, multiplicação e potencialização das possibilidades, e do desdobramento das possibilidades, de seu vivido. Da mesma forma que pode potencializar as possibilidades de sua ação e criação enquanto tal. Neste sentido, o terapeuta atua facilitando e potencializando os mecanismos de auto-regulação e auto atualização do cliente.

 

Desta forma, é absolutamente secundária a explicação, em termos de fundamento filosófico, de filosofia da vida, de concepção e de método, das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais. Neste sentido, somos “discípulos” de Takuan Soho, o mestre zen dos samurais, e privilegiamos o seu ensinamento de que não há explicação que possa levar à compreensão. Estamos interessados na compreensão, e no seu desdobramento como interpretação.

Isto não quer dizer que a explicação esteja inteiramente proscrita do espaço da Psicologia e Psicoterapia-Fenomenológico Existencial. Ou que, em cem por cento do tempo da prática, cliente e terapeuta dediquem-se exclusivamente à compreensão, interpretação e inter-interpretação fenomenológico-existenciais intensivas de seu vivido. Apenas é esta perspectiva especificamente compreensiva e interpretativa a perspectiva específica e explicitamente privilegiada na prática de terapeuta e cliente, e é esta a natureza do processo em seus melhores momentos. A explicação é definitivamente secundária. Porque não é ela que pode propiciar os processos de auto-atualização do cliente, de sua auto regulação organísmica, de seu ajustamento criativo, de afirmação de seu vivido e de promoção nele de uma super abundância de forças de vida, como é próprio da afirmação da compreensão, e da afirmação da interpretação fenomenológico-existencial.

 

 

Assim, a compreensão do sentido e da especificidade própria da interpretação fenomenológico-existencial é um momento fundamental da compreensão da fundamentação filosófica, concepção e metodologia das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, notadamente a Gestalt Terapia e a Abordagem rogeriana. O fundamento fenomenológico e existencial dessas abordagens valoriza basicamente uma priorização e uma acentuação, afirmação efetiva, da perspectiva do vivido do cliente, a priorização de uma efetiva compreensão deste vivido. Compreensão não exatamente pelo terapeuta – para quem isto seria impossível, em termos do vivido do cliente – mas pelo próprio cliente. Esta priorização, acentuação, afirmação da perspectiva própria do vivido do cliente implica uma consonância com a natureza própria do vivido enquanto ser no mundo, o seu caráter efetivo como desdobramento de possibilidades de ser (Heidegger). De modo que a priorização, a acentuação e afirmação do vivido pressupõem efetivamente a interpretação – fenomenológico-existencial – como desdobramento efetivo das possibilidades de ser deste vivido.

É no privilegiamento da interpretação compreensiva enquanto tal que os formuladores das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais foram encontrar um princípio e valor fundamental da filosofia da vida de suas abordagens, da sua concepção, método e prática efetivos. Isto porque é a interpretação fenomenológico-existencial que permite o respeito e a afirmação da singularidade e singularização da pessoa, que permite a efetividade da potencialização de uma super abundância de forças de vida, na forma de criatividade existencial e de ajustamento criativo, no campo das relações entre ela e o mundo que lhe diz respeito. Que permite a potencialização e efetivo desdobramento dos mecanismos de sua auto regulação orgnísmica nas tensões, dores e delícias de sua atualidade existencial.

Apesar de ter estado sempre subjacente à formulação das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico-Existenciais, e na verdade, de ganhar um sentido cada vez mais importante e interessante no conjunto de sua fundamentação filosófica, concepções e práticas, esta peculiaridade, importância e interesse pela interpretação fenomenológico-existencial nem sempre é adequadamente compreendida ou explicitada no âmbito dessas abordagens. De modo que nos parece cada vez mais importante e interessante, para uma compreensão e clareza de formulação das concepções, valores e métodos das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais, uma compreensão e uma explicitação cada vez mais claras e evidentes do sentido, da importância e interesse do interpretativo, no seu sentido fenomenológico-existencial, para essas abordagens.

  

 

 

4. A Experimentação

Fenomenológico Existencial

em Gestalt Terapia

 

 

O motivo de um ato vivo só adquire realidade no próprio ato.
(Thomas Merton,
Mensagem aos Poetas.)

 

Aqui, como em qualquer lugar, a única solução para um problema humano é a invenção experimental.

(Fritz Perls)

 

 

 

Talvez nada haja de tão próprio, e característico, em termos do sentido da Gestalt Terapia, quanto o seu caráter especifica e eminentemente experimental.

A prática da Gestalt Terapia, o sentido de suas raízes mais vigorosas, sua história e cultura, as formulações de Perls, tudo isto aponta para um certo caráter decididamente experimental. Este sentido nem sempre fica muito claro. Em alguns momentos quase que se perde, ou distorce-se profundamente, na história, e em certas interpretações, da Gestalt Terapia.

A afirmação do sentido da Gestalt Terapia, a criação e a recriação de seu sentido conceitual, e do sentido de sua prática, requerem, de um modo fundamental, o resgate e a afirmação da especificidade de seu sentido experimental. O sentido do experimental e da experimentação fenomenológico existencial.

O presente ensaio busca contextualizar e caracterizar o sentido fenomenológico existencial experimental da Gestalt Terapia, a partir das influências históricas que atuavam no momento de seus desenvolvimentos originais. Buscamos assim comentar as implicações da crítica fenomenológica de Franz Brentano à Psicologia Experimental de Wundt, na constituição da Fenomenologia Moderna e na constituição do caráter experimental da Gestalt Terapia; e a constituição deste caráter a partir da concepção do sentido profundamente experimental da perspectatividade da filosofia da vida, da gaya ciência, nietzscheana. Comentamos, além disso, o modo como as concepções da fenomenologia hermenêutica de Heidegger podem contribuir para uma elucidação e desdobramento deste sentido experimental da Gestalt Terapia.

Queremos destacar como este sentido fenomenológico existencial experimental oferece um consistente fundamento filosófico para a Gestalt Terapia e o substrato básico para a sua concepção teórica e metodologia.

 

 

SOBRE AS RAÍZES DO SENTIDO DO EXPERIMENTAL EM GESTALT TERAPIA

O caráter basicamente experimental em Gestalt Terapia funda-se numa disposição para assumir afirmativamente o vivido, e o processo hermenêutico de seu desdobramento, como referencial básico de criação, e de afirmação da vida, de avaliação e de orientação. Em especial, como um referencial de promoção da alegria, de uma super abundância de forças de vida, e do que Nietzsche chamava de grande saúde. Esta disposição, no desenvolvimento da civilização ocidental, já está presente na perspectiva da mentalidade trágica da Grécia pré-socrática. Mentalidade que é resgatada pela filosofia trágica de Nietzsche. Esta mentalidade vai ser o fundamento básico da perspectiva do Expressionismo, importante movimento das artes, originalmente na Alemanha e na França, no início do Século XX, espalhando-se depois pelo mundo. Podemos dizer que Gestalt Terapia é expressionismo em psicoterapia.

Tanto pela influência direta e indireta da Filosofia da Vida de F. Nietzsche, como pela direta influência do Expressionismo, a perspectiva da experimentação fenomenológico existencial passou de um modo forte para a concepção da condição humana, para a concepção e logos metódico da Gestalt Terapia.

O logos metódico e as concepções de Brentano são uma influência pouco conhecida, mas fundamental e incontornável, no desenvolvimento da perspectiva experimental da Gestalt Terapia. Brentano desenvolve a ontologia fenomenológica, e a referência no vivido, como postura fenomenológica. Mais que isto, Brentano entende o caráter argumentativo do Ser, o valor da aporia, num sentido existencial, e desenvolve o seu método e postura aporéticos como postura básica. A metodologia aporética de Brentano é uma raiz maior do caráter experimental da Gestalt Terapia. O logos metódico da Gestalt Terapia é, por influência de Brentano, eminentemente aporético. Somos eminentemente aporetófilos, privilegiamos a aporia, e a resistência à aporia, como modo de passagem, e de superação do limite.

É interessante observar que Perls, e os seus companheiros pioneiros no desenvolvimento da Gestalt Terapia, desenvolveram em si próprios como pessoas um profundo e arraigado sentido existencialmente experimental de ser. Tanto a partir das influências culturais, intelectuais, científicas e artísticas dos movimentos de que participavam na Berlim das primeiras décadas do Século XX, como a partir de suas próprias experiências de vida, no efervescente, tenso e conturbado ambiente da Alemanha de então. Foram pessoas que passaram por experiências extremas de perseguição genocida, de emigração em condições extremamente precárias e perigosas, de passagem por mundo nos quais não tinham crescido, e de imigração difícil mas excitante num mundo completamente novo. Para tal, apesar das dificuldades, estavam preparados para a superação e a criação, a partir, dentre outros fatores, da arraigada postura existencialmente experimental que haviam desenvolvido, e que vai ter um papel fundamental no desenvolvimento dos fundamentos filosóficos, da concepção e método da Gestalt Terapia.

Na medida em que aqueles movimentos intelectuais, científicos e artísticos, a efeverscência cultural da Alemanha de então, foram destroçados pelo desenvolvimento do Nazismo, Perls e os pioneiros da Gestalt Terapia emigraram, e foram, no Novo Mundo, como que sobreviventes de um naufrágio, náufragos desses movimentos destroçados. Traziam arraigado em si o sentido de transmiti-los à nova realidade em que aportavam.

De modo que os fundamentos de sua própria postura, profunda e decididamente experimental, num sentido especificamente fenomenológico e existencial, contribuíram vigorosa e decididamente para o desenvolvimento da formulação e da prática da Gestalt Terapia.

Uma das características mais fundamentais desta postura fenomenológico existencial experimental é a de ser ela um empirismo. Um empirismo num sentido particular, é certo, uma vez que não é um empirismo objetivista, não é um empirismo do objeto, mas um empirismo do vivido.

A concepção de empirismo diz respeito[71] a uma abordagem da realidade a partir da própria vivência da tal realidade, e não a partir de pressupostos teóricos. Empirismo é a abordagem da realidade na própria vivência da realidade, ao invés de uma abordagem a partir da teoria.

Como abordagem da realidade na própria vivência fenomenal dela -- modo de ser pré-reflexivo, pré-conceitual, pré-teórico -- a Fenomenologia, tal como desenvolvida na tradição de Brentano, é especificamente um empirismo. Mas um empirismo que parte da perspectiva inalienável da intencionalidade da relação sujeito-objeto, consciência-mundo. Diversamente do empirismo objetivista, que não só privilegia a dicotomização sujeito-objeto, como instâncias em si, como privilegia o pólo objeto, em contraposição com a consciência.

Seguindo a Aristóteles, e se distinguido de outras tendências do Empirismo, em especial dos empirismos objetivistas, a particularidade das concepções de Brentano é a de que elas constituem um empirismo da consciência. Um empirismo do vivido.

Retomando a Aristóteles, Brentano funda, assim, a Fenomenologia como um empirismo do vivido, e a psicologia de um ponto de vista empírico, como psicologia do ato.

O caráter especificamente fenomenológico do empirismo da Fenomenologia não foi, em geral, bem entendido, em sua especificidade, pela cultura da Gestalt Terapia, pela cultura da Psicologia Fenomenológico Existencial, e da Psicologia Humanista Norte Americanas. Desta forma, foi freqüentemente mal entendido o caráter do empirismo fenomenológico da perspectiva da experimentação fenomenológico existencial, própria a Gestalt Terapia. O empirismo fenomenológico foi amplamente confundido com o empirismo objetivista do empirismo inglês e do Pragmatismo. Isto levou a má interpretações e a distorções de todo tipo, como, por exemplo, entender a Gestalt Terapia como um comportamentalismo fenomenológico. A Gestalt Terapia é, na verdade, um empirismo fenomenológico, e não um comportamentalismo fenomenológico. (O que se configura como uma contradição em termos. E, evidentemente, que não apenas em termos).

Em se tratando de Perls, como sintetizador da Gestalt Terapia, por outro lado, não é de se negligenciar o fato de que tratava-se de um médico, não de um filósofo ou psicólogo. Ou seja, tratava-se de alguém treinado na prática de um empirismo objetivista, e na Medicina, com uma certa dificuldade para entender a sutileza das especificidades da Fenomenologia.

Além de ser um escritor com sofrível, e com dificuldades com o inglês.

De modo que, apesar de compreender e vivenciar profundamente o sentido de um empirismo fenomenológico, aprendido em particular por vias não acadêmicas, como o teatro e arte em geral, por exemplo; e de este modo empírico de ser ter se tornado para ele um imperativo não só intelectual, mas um imperativo profundamente existencial, Perls não poderia tratá-lo em profundidade e especificidade teórica e filosófica; alheias a sua formação profissional. De modo que o sentido especificamente fenomenológico e existencial do caráter experimental particular da Gestalt Terapia permaneceu muito mais implícito do que explicitado em suas formulações. Caindo num meio de um empirismo fortemente objetivista, e pragmatista, a possibilidade de mal entendidos e confusões foi profunda.

 

Do lugar, histórico, geográfico, cultural, de nossa recepção particular da Gestalt Terapia, podemos ver em perspectiva a sua genealogia e o seu desenvolvimento, a partir do sentido da perspectiva da experimentação fenomenológico existencial. Podemos compreender melhor os fundamentos da Fenomenologia, na medida em que só posteriormente vieram a se desenvolver e explicitar. Mais que isto, acredito, precisamos compreender esta genealogia e este desenvolvimento, para recebermos a herança da Gestalt Terapia e a ela fazermos jus, em nosso tempo e lugar.

Tudo que vimos comentando sobre o sentido do experimental na perspectiva fenomenológico existencial aplica-se, assim, de um modo muito especial e específico à Gestalt Terapia. Ou seja, é da evolução deste sentido fenomenológico existencial do experimental que se desenvolve o sentido do experimental próprio à Gestalt Terapia*.

Buscar entender, assim, o sentido do empirismo fenomenológico, e do método aporético, e o relativismo da ciência natural aristotélica, é, certamente, entender o sentido especificamente experimental da Gestalt Terapia. Em particular tal como eles são apropriados por Franz Brentano, no desenvolvimento empirista e aporético da abordagem de sua Fenomenologia, e de sua Psicologia Fenomenológica Empírica.

Aristóteles e Brentano, juntamente com Nietzsche, Buber e Kierkegaard são definitivamente os precursores mais remotos e mais proeminentes da Gestalt Terapia. No caso da Psicologia da Gestalt, não podemos deixar de entender ser Brentano o seu fundador, tendo transmitido a sua inspiração inicial a Carl Stumpf, que, por sua vez, transmitiu-a a Max Wertheimer, a Kurt Koffka e a Wolfgang Köhler. Kurt Goldstein uniu-se a Max Wertheimer e aos outros, e certamente através deles Fritz Perls inteirou-se das perspectivas da Psicologia da Gestalt, e do experimentalismo aporético de Brentano.

Brentano, como observamos[72], contestou o sentido do experimental, e o próprio sentido da Psicologia de W. Wundt. Se, por um lado, Brentano não nos legou uma concepção alternativa da Psicologia Experimental – em particular porque foi cauteloso com o sentido de uma ciência experimental em psicologia[73] -- a ele devemos um novo sentido, fenomenológico e empírico, da psicologia, e do método em psicologia. Mais que isto, Brentano nos legou, e à Filosofia, um método empirista e aporético de abordagem da consciência, aparentemente aparentado da perspectatividade aporética nietzscheana, e que pode, acredito, ser entendido, num sentido fenomenológico e existencial, como um método experimental. Já bem distante, agora, da concepção do experimental de Wundt.

A metodologia aporética funda-se no caráter especulativo, argumentativo[74] do ser, do vivido, do fenômeno, da palavra. Na ato alização de uma possibilidade do ser, esta possibilidade em atualização perde cada vez mais em sentido, na medida em que realiza-se: e perde em possibilidade, passando possibilitar e a significar cada vez menos. Porque, a possibilidade em atualização significa cada vez mais, potencializa-se, na medida em que constitui o seu sentido, na atualização, ao mesmo tempo em que este sentido, livre de um ensimesmamento, constitui-se na tensão com possibilidades de sentido pré-configuradas, pré-compreendidas e ainda não explicitadas, o que potencializa-lhes a explicitação. A disposição do método aporético segue a atualização do sentido da possibilidade de ser, na sua configuração, mas não mergulha no abismo de seu en si mesmamento, no qual ela perde progressiva e inexoravelmente todo o seu sentido. A disposição do método aporético reconhece que o poder do sentido do explícito, do vivido, do dito, do fenômeno, do ente, vincula-se necessariamente ao poder (poietico) do não explicitado, do não vivido, do não dito, possibilidade do ser. De modo que a disposição aporética configura-se no movimento da explicitação, atualização, do sentido da possibilidade do ser; e, igualmente, no movimento da pregnância da possibilidade do vir a ser, que potencializa o sentido da possibilidade atualizada, na configuração de seus possíveis. Assim, o método aporético prima por seguir o explicitado, no fluxo de suas forças próprias de explicitação, de atualização, ao mesmo tempo em que, no limite da sua afirmação, abre-se para as novas possibilidades, aceitando e afirmando o fluxo do devir.

Na verdade, trata-se do movimento e percurso no círculo hermenêutico, nos quais a parte esclarece-se, e constitui-se, não apenas na sua partidade e no sentido atualizado de sua partidade, mas, igualmente, na pertinência às possibilidades do todo – todo que é diferente da soma das partes. No círculo hermenêutico, o movimento aporético configura a explicitação da parte, mas “retorna” às possibilidades da configuração do todo, que constitui novas partizações, que potencializam e refundem o sentido das partes atualizadas.

Pablo Neruda[75] lida primorosamente com esta questão, na intensa afirmação, aparentemente ambígua, de sua declaração, ao abordar a força do sentido inefável de amar:

 

Saberás que te amo e que não te amo,
Posto que de dois modos é a vida.
A palavra é uma asa do silêncio,
O fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
Para recomeçar o infinito
E para não deixar de amar-te nunca:
Por isso não te amo todavia.

Te amo e não te amo como se tivesse
Em minhas mãos as chaves da fortuna
E um incerto destino desditoso.
Meu amor tem duas vidas
Para amar-te
Por isso, te amo quando não te amo
E te amo quando te amo.

(Pablo Neruda)

 

Assim sendo, em Gestalt Terapia, por exemplo, o cliente “é”, intensamente, a montanha de seu sonho, em toda a sua majestade, solidez e altitude, que alcança as nuvens... a enormidade de suas dimensões e quietude... Mas também não é... E “é”, igualmente, com alegria e intensidade, comovido, o pequeno caminho que ele trilha por algum pequeno lugar naquela mesma montanha... E intensamente é, mas igualmente não é... É ele próprio no seu sonho, diferente do que ele “na verdade”, na “vida real”, é, na sua vida cotidiana, vestido de um modo diferente, em alegres tons de amarelo... Ele “é” o tigre que caminha soberbo e sem pressa pelo bosque acima do caminho, e do qual ele não tem medo... ele “é” um não ter medo, um não ter medo de um animal tão forte e feroz, a m e d r o n t a d o r, ...o tigre, animal que ele igualmente “é” ...e não é só, e não é mais, e é diferente... Ele é bosque, tranqüilo e ensombrecido, onde vive o tigre, tapete de folhas caídas, luz cristalina que se filtra intensa pelas brechas no teto de copas...

Montanha, caminho, o próprio cliente no sonho, o tigre, o não ter medo, o bosque, são qualitativos e irredutíveis. Cada um tem a importância do seu sentido e lugar próprios. Mas nenhum faz sentido de per si, cada um convoca necessariamente outro, ou outros, na tensão da multiplicidade atual de sua configuração; cada um, e a configuração de sua atualização, convocam a dimensão de um não explicitado, de um não atualizado, fonte que não cessa de fluir e explicitar, atualizar, novidades de possibilidades (poiese).

De modo que o sentido que se engendra no aporético, e o próprio sentido da parte, não pode estar no exclusivismo da viagem da parte. Uma vez que ele se constitui organísmicamente na aquiescência com os outros, e com a tensão com os outros, sentidos que se configuram e que emanam da configuração do sentido das outras partes, e da configuração do sentido da multiplicidade do todo. A aporese é a afirmação plena do interesse do sentido de uma possibilidade, e a aquiescência com a emergência da força dos sentidos que emanam das totalidades de que ela é partícipe.

Esta consideração por este caráter argument ativo, especul ativo, da consciência, da vivência, do ser no mundo, da palavra, e a disposição de configurá-lo em suas dinâmicas e movimento propriamente pré-reflexivos e pré-conceituais, sem o concurso de pressuposições teóricas, é própria do empirismo aporético de Brentano em filosofia e psicologia. Abordagem que ele preferiu designar de Empírica, ao invés de “experimental”. Uma vez que ele não acreditava, que dado a sua natureza própria, a consciência pudesse ser objeto de experimentação, ao modo das ciências físico-químicas e biológicas, como pretendia Wundt.

Parece, assim, evidentemente, da maior importância atentar ao empirismo aporético brentaniano da consciência, na compreensão e desdobramento do sentido específico do experimental em Gestalt Terapia, uma vez que este empirismo está na base do desenvolvimento da Psicologia da Gestalt e da própria Gestalt Terapia. E, em particular, diante do fato de que o empirismo aporético de Brentano em muito se assemelha à experimentação e à perspectatividade nietzscheanas, que tanto influenciam a filosofia da vida, a concepção e o logos metódico da Gestalt Terapia.

De um modo tal, que não parece nada impróprio dizer que a Gestalt Terapia é um empirismo aporético -- e experimental, diríamos -- da consciência.

M. Wertheimer, K. Koffka e W. Köhler, os conhecidos fundadores da Psicologia da Gestalt – e K. Goldstein foi certamente influenciado decisivamente --, foram alunos de Karl Stumpf, o mais dileto discípulo de Brentano. Conhecendo-se o empirismo brentaniano da consciência, facilmente se identifica e entende como o sentido deste empirismo se constitui no estilo da Gestalt Terapia, e da chamada Psicologia Humanista em geral.

Muitas, e significativas, contribuições outras de Brentano – tais como, a concepção de consciência como totalidade diferente da soma das partes, a concepção do modo de abordar a consciência a partir da percepção interior, e não da introspecção; as concepções relativas às relações entre parte e todo na totalidade da consciência; etc. – tudo isto passou para os Perls a partir da contribuição de Brentano, via Stumpf, Wertheimer e Goldstein.

 

Por outro lado, é definitivamente fundamental a presença específica das perspectivas de Nietzsche na concepção especificamente experimental da Gestalt Terapia. Falecido quase que anônimo, em 1900, a sua presença tornou-se rapidamente poderosa no meio intelectual e artístico da Alemanha entre esta data e o início da década de 30 do Século XX. 

Além de uma influência filosófica direta, e através dos desenvolvimentos do Existencialismo, a influência de Nietzsche alcança os Perls tanto diretamente como através do Movimento do Expressionismo alemão, que foi profundamente influenciado por Nietzsche. O Expressionismo teve em Nietzsche o seu principal e mais influente filósofo[76] -- e, mais especificamente, neste movimento, o Movimento do Bauhaus, influenciado por Nietzsche[77], e que teve uma marcante influência sobre os Perls.

Por outro lado, Nietzsche passou a freqüentar a Psicanálise e as concepções de psicoterapia através da aquiescência de Otto Rank, que passou a orientar-se profundamente a partir da perspectiva nietzscheana, na constituição de suas idéia de uma psicoterapia da vontade. Rank teve uma profunda influência sobre Perls (igualmente sobre Rogers). E, através desta influência, as perspectivas de afirmação irrestrita da vida e do experimentalismo perspectivativo nietzscheano chegaram fortemente, também, à Gestalt Terapia.

Otto Rank, como um psicoterapeuta de raiz nietzscheana – Estou para Freud assim como Nietzsche está para Schopenhauer, costumava dizer[78] --, teve, assim, uma grande influência sobre Perls, e é também um canal através do qual a influência da atitude experimental nietzscheana se constitui na Gestalt Terapia.

Assim, a Filosofia da Vida de Nietzsche está presente de diversas formas seminais na disposição experimental específica da Gestalt Terapia. Na atitude básica de aceitação e de irrestrita afirmação da vida, em seu caráter experimental próprio --  o estilo experimental de uma vida que experimenta (Fink) --; a compreensão e afirmação da finitude inevitável, e do seu sofrimento, no sentido do trágico, caminho da criação, da potencialização do devir e da promoção de uma super abundância de forças de vida, como potencialização do retorno da vontade de viver; a compreensão da vida como perspectivativa, e a disposição experimental perspectivativa para a sua vivência, como raiz da criação do verdadeiro e da humana avaliação.

 

Certamente que não podemos esquecer a Buber. Buber constitui-se como um nexo fundamental para a compreensão, concepção e prática da Gestalt Terapia, uma vez que foi uma de suas fontes mais básicas. Tanto Fritz quanto Laura, esta em particular, sofreram uma profunda influência de Buber na constituição de suas idéias. Buber sofreu uma marcante influência de Nietzsche, que era uma de suas fontes primordiais, no esforço de revitalização da vida judaica na Alemanha e na Europa, no início do Século XX[79]. A contribuição de Buber para a ontologia dialógica do humano é fundamental para a concepção e método da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial. Aparentemente, ainda longe de revelar os seus melhores frutos neste sentido.

Não parece tematizado, todavia, o caráter experimental imanente à atitude dialógica. Este, não obstante, parece irrecusável, e parece ter marcado profundamente a fundamentação, concepção e método da Gestalt Terapia. Na verdade, para Buber, não só o momento ontológico da relação eu-tu, mas toda a vida humana no mundo e a relação com espiritualidade transcendente, ganham um caráter dialógico e experimental – ... o simples todo vivido na sua possibilidade do diálogo[80].

A incorporação de uma atitude afirmativa dos momentos dialógicos da vida implica a afirmação de uma abertura para a revolução experimental da cotidianidade do mundo do Isso. A vivência habitual do dialógico, implica uma vulnerabilização da estagnação deste mundo da cotidianidade do Isso à transformação emergente da escolha das possibilidades latentes de sua atualização. Entre decurso das coisas e re-volta, a afirmação do o dialógico e do seu desdobramento configura-se inevitavelmente como transformação experimental, a partir de uma afirmação da concretude da existência.

A entrega à concretude da existência faz parte fundamental da situação hermenêutica da Gestalt Terapia. A Gestalt Terapia configura-se como uma pedagogia do dialógico, que, a partir do privilegiamento de uma entrega à concretude da existência, potencializa a abertura ao dialógico, e á habitualidade da revolução da vida do Isso em nossa vida.

A aquiescência dialógica tematizada por Martin Buber[81] parece assim compor, de um modo relevante, também, o sentido do experimental em Gestalt Terapia. A aquiescência afirmativa nos momentos dialógicos permite a auto regeneração e a re gen era ação experimental da vida e do mundo que nos dizem respeito, a partir das possibilidades disponibilizadas, e das possibilidades escolhidas, nas nossas determinações.

Assim, é marcadamente através da contribuição de Buber, também, do privilegiamento das condições de uma atitude experimentalmente dialógica, que se constitui o caráter experimental da Gestalt Terapia, na medida em que os Perls são profundamente influenciados por sua Filosofia do Dialógico.

 

A Fenomenologia Hermenêutica de Heidegger, ainda que possivelmente não tenha influenciado diretamente o desenvolvimento da concepção da Gestalt Terapia, pode, certamente, oferecer muito boas possibilidades para a compreensão e desdobramento da concepção do caráter experimental da Gestalt Terapia. Em particular, porque esta fenomenologia hermenêutica é um desdobramento do mesmo movimento fenomenológico e hermenêutico que dá origem a Psicologia da Gestalt e ao caráter peculiar da Gestalt Terapia, a tradição fenomenológica de Brentano. Mesmo em Ser e Tempo, Heidegger[82] aponta para a possibilidade de uma perspectiva que creio que podemos entender como eminentemente experimental, no sentido em que temos falado, do ser no mundo.

Diferente das, e anteriormente às, possibilidades de uma analítica da existência, em particular em Psicologia e Psicoterapia, é o próprio desdobramento imediato das possibilidades da ontológica pré-compreensão do vivido (ontológico mas pré-ontologização, pré Ontologia num sentido formal, pré analítico, sobretudo), que constitui, como vimos, a interpretação fenomenológico existencial[83], no sentido heideggeriano.  A existência só se resolve existencialmente... (em particular, não analiticamente...).

Ontológica pré ontologização, a afirmação desta interpretação do vivido é, em si mesma, eminentemente experimental:

El ‘ser ahí’ se comprende sempre a sí mismo partiendo de su existencia, de una possibilidad de ser él mismo o no él mismo. [84]

Y el ‘ser ahí’ es mío en cada caso, a su vez, en uno o otro modo de ser. Se ha decidido ya siempre de alguna manera en qué modo es el ser ahí mio en cada caso. El ente al que en su ser le va este mismo se conduce relativamente a su ser como a su mas peculiar possibilidad. El ‘ser ahí’ es en cada caso su possibilidad, y no se limita a ‘tenerla’ como una peculiaridad, a manera de los entes ‘ante los ojos’. Y por ser en cada caso el ‘ser ahí’ essencialmente su possibilidad, puede este ente en su ser ‘elegirse’ a si mismo, ganarse y también perderse, o no ganarse nunca, o solo ‘parece ser’ que se gana. Haberse perdido y aún no haberse ganado sólo lo puede en tanto es, por su esencia misma, posible, ‘ser ahí’ ‘proprio’, es decir, apropriado por si mismo y para si mismo. [85]

 

(O ‘ser aí’ se compreende sempre a si mesmo partindo de sua existência, de uma possibilidade de ser ou não ser ele mesmo.

E o ‘ser aí’ é meu em cada caso, por seu turno, de um ou outro modo de ser. Se há já decidido sempre de alguma maneira de que forma é meu o ser aí em cada caso. O ente aí ao qual em seu ser dá-se este mesmo conduz-se relativamente a seu ser como com relação a sua mais peculiar possibilidade. O ‘ser aí’ é em cada caso a sua possibilidade, e não se limita a tê-la como uma peculiaridade, à maneira dos entes ‘ante os olhos’. E por ser essencialmente o ‘ser aí’ a sua possibilidade em cada caso, pode este ente em seu ser ‘eleger-se’ a si mesmo, ganhar-se e também perder-se, ou não ganhar-se nunca, ou só parecer ser que se ganha. Só pode  haver-se perdido e  ainda não haver-se ganhado na medida em que é, por sua própria essência, possível, ‘ser aí’ ‘próprio’, quer dizer, apropriado por si mesmo e para si mesmo).

 

Afirmar esta pré compreensão e, desdobrando-a, interpretar a possibilidade de ser ele mesmo, a ousadia de interpretar-se, “coragem de ser”, como concebeu Tillich, podem ser entendidos como a configuração no ser aí da possibilidade de uma hermenêutica experimental, no sentido que temos falado. E, aqui, longe de qualquer analítica:

...el ‘ser ahí’ se comprende en su ser, de un modo más o menos expreso. A este ente lhe és peculiar serle, con su ser y por su ser, abierto éste a él mismo. La comprensión del ser és ella misma una ‘determinación de ser’ del ‘ser ahí’. Lo onticamente señalado del ser ahí reside en que este és ontológico.

’Ser ontológico’ aún no quiere aqui decir desarollar una ontologia. Si reservamos, por ende, el título de ontologia para el perguntar en forma explicitamente teorética por el sentido de los entes, hay que designar este ‘ser ontológico’ del ‘ser ahí’ como ‘preontológico’. Pero esto no significa tan sólo ser ónticamente sino ser en el modo de un comprender el ser.

(...)

El ‘ser ahí’ se comprende sempre a sí mismo partiendo de su existencia, de una possibilidad de ser él mismo o no él mismo. Estas possibilidades, o las ha elegido el ‘ser ahí’ mismo, o este ha caído en ellas o crecido en cada caso ya en ellas. La existencia se decide exclusivamente por obra del ‘ser ahí’ mismo del caso en el modo del hacer o el omitir. La questión de la existencia nunca puede liquidarse sino por medio del existir mismo*. La compreensión de si mismo que lleva la dirección en esto la llamamos ‘existencial’. La questión de la existencia es una ‘incumbencia’ óntica del ‘ser ahí’. Para liquidarla no se ha menester de ‘ver a través’ teoreticamente’ de la estructura ontológica de la existencia.”[86]

 

(...o ‘ser aí’ compreende-se em seu ser, de um modo mais ou menos expresso. É peculiar a este ente ser com o seu ser e por seu ser, aberto este a ele mesmo. A compreensão do ser é ela mesma uma ‘determinação do ser’ do ‘ser aí’. O ontologicamente distinto  no ser aí reside no fato de que ele é ontológico.

‘Ser ontológico’ ainda não quer aqui dizer desenvolver uma ontologia. Se reservamos este título de ontologia, por fim, para o perguntar em forma explicitamente teórica pelo sentido dos entes, há que designar-se este ‘ser ontológico’ do ‘ser aí’ como ‘pré-ontológico’. Mas isto não significa tão somente ser onticamente, mas ser no modo de compreender o ser.

(...)

O ‘ser aí’ compreende-se sempre a si mesmo partindo de sua existência, de uma possibilidade de ser ou não ser ele mesmo. Estas possibilidades, ou às elegeu o próprio ‘ser aí’, ou nelas caiu ou cresceu já, em cada caso. Decide-se a existência exclusivamente por obra do ‘ser aí’ mesmo do caso, no modo do fazer ou do omitir. A questão da existência não pode resolver-se senão por meio do próprio existir. A compreensão de si próprio que leva em direção a isto chamamo-la de ‘existencial’. A questão da existência é uma ‘incumbência’ ôntica do ‘ser aí’. Para resolvê-la não se há necessidade de ‘ver’ teoricamente “através’ da estrutura ontológica da existência).

 

De modo que parece claro que Heidegger aponta especificamente as possibilidades existencialmente experimentais, no sentido que estamos falando, de uma hermenêutica fenomenológico existencial: Propiciando, assim, interessantes possibilidades para uma contextualização, compreensão, esclarecimento e desdobramento, do sentido especificamente fenomenológico existencial experimental da Gestalt Terapia.

Historicidad quiere decir la ‘estructura del ser del gestarse’ del ser ahí..

El ‘ser ahí’ ‘es’ su pasado en el modo de su ser que, dicho toscamente, ‘se gesta’ en todo caso de su ‘advenir’. El ‘ser ahí’, en su modo de ser en todo caso, y segun esto también con la comprensión del ser que lhe es inerente, está envuelto en una interpretación tradicional de él y se desenvuelve dentro de ella. Partiendo de ella se comprende imediatamente y dentro de cierto círculo constantemente. Esta comprensión abre las posibilidades de su ser y las regula. (...)

Esta elemental historicidad del ‘ser ahí’, puede  permanercele oculta a este mismo. Pero también puede descubrirse de cierto modo y experimentar un peculiar cultivo.[87]

(Historicidade quer dizer a ‘estrutura do ser do gestar-se’ do ser aí.

O ‘ser aí’ ‘é’ seu passado no modo de seu ser que, dito toscamente, ‘se gesta’ em todo caso de seu ‘devir’. O ‘ser aí’ , em seu modo de ser em todo caso, e segundo isso também com a compreensão do ser que lhe é inerente, está envolto em uma interpretação tradicional dele e dentro dela se desenvolve. Partindo dela compreende-se imediatamente e dentro de certo círculo constantemente. Esta compreensão abre e regula as possibilidades de seu ser. (...)

Esta historicidade elementar do ‘ser aí’ pode permanecer-lhe oculta. Mas pode também ser de certa forma descoberta, e experimentar um cultivo peculiar.).

 

Não sabemos se Perls teria tido alguma influência direta da Filosofia de Heidegger, é possível que não. Estas influências, todavia, chegaram-lhe certamente através de Ludwig Binwanger e de Medrard Boss. Mas as concepções heideggerianas, desenvolvidas na mesma tradição da fenomenologia de Brentano, que dão origem à Psicologia da Gestalt, estão de um modo importante nos fundamentos da concepção e do logos metódico da Gestalt Terapia. E certamente oferecem importantes subsídios para o seu esclarecimento e desdobramentos.

 

Assim sendo, a Gestalt Terapia, tal como formulada por seus pioneiros, é uma tributária emérita de uma certa reconfiguração e recontextualização específicas da concepção do experimental, que se constitui a partir das obras de Brentano e de Nietzsche, tendo a Buber e a Heidegger como significativas vertentes. Reconfiguração e recontextualização estas que remontam a  Aristóteles, na medida em que Brentano e Nietzsche participam de um movimento de retomada dos Gregos, e em específico de Aristóteles, na busca de uma superação da Escolástica, do hegelianismo e do Idealismo Alemão, que foi própria do ambiente intelectual da Alemanha e da Europa Continental do Século XIX[88].

 

 

O SENTIDO EXPERIMENTAL DA GESTALTERAPIA EM PERLS

 

É de raiz bastante profunda, arraigada e consistente, portanto, o sentido do sentido experimental na fundamentação filosófica, na concepção teórica e método da Gestalt Terapia. E justamente assim, em termos de fundamentação filosófica, de concepção, e de, digamos, método. A Gestalt Terapia fundamenta-se e enraíza-se, desta forma, no leito consistente da fenomenologia existencial e de uma filosofia da vida, e da existência, eminentemente afirmativa experimental, perspectivativa. A filosofia da vida de Nietzsche e o existencialismo.

Nesta concepção, como vimos, a vida, a própria vida, é compreendida como eminentemente experimental. O estilo experimental de uma vida que experimenta... Cumpre-nos aprender, afirmar, e viver este sentido experimental inerente à vida, como forma de afirmação, e de desdobramento, de potencialização, da super abundância de forças do modo de existência artístico de uma vida afirmativa criativa.

 

Para a teoria da Gestalt Terapia, neste sentido, a própria vivência, o vivido e seus desdobramentos em devir, constituem-se, e afirmam-se, como dominâncias organísmicas. Bem nietzscheanamente[89], as dominâncias, configuram-se, não só como a intrínseca motivação para a ação, no processo do contato/auto regulação/ajustamento criativo, mas, igual e simultaneamente, como fundamento do verdadeiro, e como fundamento ético do que fazer. A vivência, o vivido, eminentemente experimentais, e suscetíveis à afirmação experimentativa, perspectivativa, na ação, no campo organismo-meio, configuram-se no processo do contato no sentido da mobilização da consciência e da ação do organismo no meio, para a efetivação e desdobramento do contato, da auto regulação e do ajustamento criativo. Na perspectiva da Gestalt Terapia, assim como na perspectiva da filosofia da vida de Nietzsche, e do existencialismo, o vivido suas dominâncias e desdobramentos são, assim, reconhecidos como critério ético, e como critério do verdadeiro e do real: ... o núcleo do real é a ação[90].

 

As dominâncias espontâneas são avaliações do que é importante na ocasião. Elas não são avaliações adequadas, mas são evidências básicas de um tipo de hierarquia de necessidades numa situação atual. Elas não são ‘impulsivas’ e necessariamente vagas, mas são antes sistemáticas e muito específicas freqüentemente, uma vez que elas expressam a sabedoria do organismo acerca de suas próprias necessidades e uma seleção no ambiente daquilo que satisfaz estas necessidades. Elas fornecem uma ética imediata, não são infalíveis, mas estão, ainda assim, numa posição privilegiada. O privilégio vem simplesmente disto: aquilo que parece espontaneamente importante de fato dirige a maior parte da energia do comportamento; a ação auto regulativa é mais brilhante, mais forte e mais sagaz. Qualquer outra linha de ação que é presumida como “melhor” procederá com força diminuída, com menos motivação e com uma vivência mais confusa; e deve também envolver o devotamento de uma certa quantidade de energia, e a distração de uma certa quantidade de atenção, no sentido de conter o self espontâneo, que busca expressar-se na auto-regulação.[91]

“Qualquer conjunto ordenado de tais dominâncias em situações atuais é capital para a ética e para a política. (...) a teoria da natureza humana é a ordem da auto-regulação ‘saudável’”.[92]

A postura de afirmação auto-reguladora do vivido na ação contactante, própria à postura da Gestalt Terapia, funda-se, assim, numa compreensão das dominâncias deste vivido como éticas, como critério do verdadeiro, como guias efetivas na efetivação do contato, na atualização de possibilidades, na auto regulação organísmica e ajustamento criativo de uma existência criativa.

Desta forma, a postura metodológica da Gestalt Terapia orienta-se no sentido simplesmente da potencialização da afirmação experimental, na atualização, das dominâncias do vivido, enquanto tais, no âmbito de uma perspectiva de concepção experimental da própria vida, e da psicoterapia:

(...) psicoterapia não é a aprendizagem da teoria verdadeira sobre si –  como aprender contra a evidência dos próprios sentidos? A psicoterapia é antes um processo de situações experimentais de vida que têm um caráter aventureiro como as explorações do obscuro e do desconhecido, que, ainda assim são, ao mesmo tempo, seguras, a ponto de possibilitar que a atitude deliberada possa ser relaxada.[93]*

 

Perls, Hefferline e Goodmann definem a Gestalt Terapia desta forma:

Deveremos argumentar que realidade e valor emergem como resultado da auto-regulação quer seja saudável ou neurótica; e deveremos discutir o problema de como aumentar, no referencial da auto-regulação neurótica, a área de contato. Deveremos responder a isto definindo psicoterapia como auto-regulação em emergências seguras experimentais*.”[94]

 

E, a seguir, observarão:

(...) Vimos razões em todas essas considerações para concentrarmo-nos na estrutura da situação atual como a tarefa do ajustamento criativo; tentar uma síntese inteiramente nova e fazer disto o ponto central da sessão.

(...) propomos como estrutura da entrevista: excitar uma emergência segura pela concentração na situação atual (...). Considere uma situação algo como se segue:

(...) O paciente, como um parceiro ativo no experimento* concentra-se sobre o que ele está presentemente sentindo, pensando, fazendo, dizendo (...)[95]

 

Perls Hefferline e Goodmann comentam a seguir a insegurança implicada no processo do ajustamento criativo e da auto regulação experimentais, próprios da vida, e o próprio caráter experimental da resolução da insegurança que dele pode decorrer:

O processo do ajustamento criativo a novos materiais e circunstâncias envolve sempre uma fase de agressão e de destruição, porque é através da abordagem, da apropriação e alteração de velhas estruturas que o dessemelhante é feito semelhante. Quando a nova figura emerge, tanto o velho hábito elaborado pelo organismo contactante quanto o estado anterior do que é abordado são destruídos no interesse do novo contato. Tal destruição do status quo pode gerar medo, interrupção e ansiedade, proporcionalmente maiores à inflexibilidade neurótica da pessoa; mas o processo é acompanhado pela segurança da nova invenção experimentalmente emergente. Aqui, como em qualquer lugar, a única solução para um problema humano é a invenção experimental. * A ansiedade é “tolerada” não por um força espartana – embora a coragem seja uma bela e indispensável virtude – mas porque a energia perturbadora flui para a nova figura.[96]

 

 

EXPERIMENTAÇÃO, CONTATO, AUTO REGULAÇÃO, AJUSTAMENTO CRIATIVO

 

Aqui, como em qualquer lugar, a única solução para um problema humano é a invenção experimental.

(Fritz Perls)

 

A Gestalt Terapia é, assim, congenitamente experimental, no sentido do viés da tradição da experimentação fenomenológico existencial. Este sentido de seu caráter experimental é perfeitamente coerente com a sua concepção da natureza humana, e com as posturas e objetivos de seu logos metódico. Mais que isto, acredito, a Gestalt Terapia, enquanto tal, parece ser neste sentido uma proeminente vertente da fenomenologia existencial hermenêutica, na medida em que tem buscado uma prática efetiva desta, nas situações não raro existencialmente densas da psicoterapia. Neste sentido, acredito que a Gestalt Terapia pode escrever já um capítulo especial.

Evidentemente que se há que considerar a constituição múltipla da Gestalt Terapia, a partir de diferentes fontes. O que, em certos momentos, pode, circunstancialmente, distanciá-la deste seu caráter de hermenêutica fenomenológico existencial experimental. Mas não compromete a adesão de sua fundamentação, de sua concepção e metodologia básicas, a esta perspectiva. Mais que isto, isto aponta para uma necessidade de esclarecimento, de depuração e decantação dos fundamentos da Gestalt Terapia, e mesmo de novos desenvolvimentos, filosóficos, conceituais e metodológicos.

De qualquer forma, na formulação de Perls, é nítido o caráter fenomenológico existencial experimental da Gestalt Terapia.

Aqui, como em qualquer lugar, a única solução para um problema humano é a invenção experimental.[97]

Na medida em que, como observa Heidegger, a existência só se resolve ekistencialmente, o contato, e, vale dizer, a auto regulação organísmica e o ajustamento criativo, só se resolvem experimentalmente. Em particular porque é na efetivação do contato, efetivamente cultivado, que se resolvem a auto regulação organísmica e o ajustamento criativo.

Isto implica entender que o ser no mundo só se resolve experimentalmente. Contato efetivo é o ser no mundo, é o cultivo conseqüente do cuidado do ser no mundo (Quattrini). A ato alização do ser no mundo. E cuidar é experimentar. O cuidar é experimental.

Que descuido que é o medo, a covardia e a acomodação!

É da condição humana que só existe cuidado com a ousadia da ato alização -- que é experimental, na medida em que é ousadia de atualização de possibilidades, que só podem vir a ser por força desta ousadia -- do ser no mundo. Sem uma disposição e uma ato aliz/ação experimentais não existe o cuidado do ser no mundo. E a ato aliz/ação experimental do ser no mundo é a coragem de ser (Tillich) aquelas possibilidades de que Heidegger diz

El ‘ser ahí’ se comprende sempre a sí mismo partiendo de su existencia, de una possibilidad de ser él mismo o no él mismo.[98]

O contato cuidadoso, diverso do descuidado, implica a interpretação, a hermenêutica, a ato aliz/ação, do ser no mundo, a partir da prepotência e inquietação de suas prementes possibilidades de ser.

De modo que a Gestalt Terapia é a instigação, o cultivo, da experimentação no contato, a potencialização do contato cuidadoso, ativamente hermenêutico. A efetivação do contato, da consciência e da ação criativas, efetivamente poiéticas, permite – numa linguagem da Psicologia Organísmica – a auto regulação organísmica nas situações experimentais da terapia, e a potencialização do ajustamento criativo nas relações organismo-meio.

O contato cuidadoso, efetivamente experimental, que atualiza as possibilidades prementes do ser no mundo, é passagem criativa – pela linha de menor resistência, diga-se --, é criatividade, criação, ato aliz/ação de ser no mundo.

 

 

O EXPERIMENTO GESTÁLTICO

 

Desta forma é que a Gestalt Terapia caracteriza-se como uma abordagem eminentemente experimental. O espaço de sua prática, e o seu método, são eminentemente experimentais, num sentido fenomenológico existencial.

Esta perspectiva é que constitui a tradição do experimento em Gestalt Terapia.

Em primeiro lugar, é necessário entender, a partir do que temos exposto, que Gestalt Terapia é uma abordagem fenomenológico existencial experimental, e não um abordagem técnica. Que não existem técnicas gestálticas. Que em Gestalt Terapia não se aplica técnicas.

Como hermenêutica existencial, a Gestalt Terapia não aplica técnicas, mas busca centrar-se na potencialização da própria eventualidade do vivido, no processo do seu acontecer. A questão da existência só se resolve existencialmente (Heidegger), de modo que não são os recursos da técnica, alienígenos à natureza própria do vivido, que podem dar resolução à existência. Apenas a própria afirmação experimental da existência pode dar-lhe resolução.

O caráter experimental da vivência da Gestalt Terapia, do experimento em Gestalt Terapia, constitui-se intrinsecamente no próprio caráter experimental da afirmação da existência e desdobramento do vivido, em si mesmo, e não a partir da aplicação de técnicas. O experimento nasce necessariamente do próprio vivido. Enquanto que as técnicas lhe são alheias, na medida em que não são adequadas para abordá-lo..

É necessário entender, assim, que a concepção de experimento em Gestalt Terapia tem uma ampla e consistente contextualização e fundamentação fenomenológico existencial. Que se assenta numa compreensão experimental da vida, como vida afirmativa, animada por um espírito experimental, que anima uma atitude e um estilo afirmativos experimentais. O estilo experimental é, antes de mais nada, em Gestalt Terapia, uma filosofia da vida, uma atitude afirmativa, decididamente hermenêutica, diante da premência existencial, da potência e inquietação das possibilidades do ser no mundo. É com esta postura que o Gestalt terapeuta recebe e acolhe o cliente. É esta atitude que ele oferece ao cliente como experiência terapêutica.

 

 

O GRANDE EXPERIMENTO EM GESTALTERAPIA

No que depender do terapeuta, e no que ele puder mobilizar no cliente, o encontro terapêutico é, todo ele, experimento e experimentação -- no sentido fenomenológico existencial. Com maiores ou menores gradações de concentração. Assim, são experimentais o todo e as partes do encontro terapêutico.

Podemos chamar de Grande Experimento, assim, a esta totalidade do encontro terapêutico em Gestalt Terapia, na medida em que ele é um contexto e substrato experimental para o desdobramento experimental da vivência do cliente, a partir das premências de sua atualidade existencial. Na medida em que todo o espaço e o tempo da sessão estão dedicados a um privilegiamento do vivido, e de seu desdobramento, interpretação, todo o tempo e espaço da sessão constitui o que chamamos de Grande Experimento.

Em sendo assim, busca-se uma centração vivencial experimental nas questões da atualidade existencial do cliente, eventualmente críticas. Não, evidentemente, a partir da reflexão, da teorização, da conceituação, da moralização, ou da aplicação de técnicas. Mas, nos melhores momentos, como desdobramento imediato das possibilidades da vivência delas por parte do cliente, como desdobramento – interpretação – das possibilidades de ser do seu vivido imediato – pré reflexivo, pré conceitual.

Nessas condições, fica delicado mesmo falar em método. Na medida em que o método é o investimento da sensibilidade, do poder, da habilidade do terapeuta, no sentido de criar com o cliente uma situação fenomenológico existencial hermenêutica experimental, baseada na dialogicidade experimental, que se caracteriza pela afirmação do vivido pessoal e inter-humano entre ele e o cliente. O que demanda o desdobramento do vivido do cliente, na relação com o terapeuta, no âmbito da instituição psicoterapia. Este processo se dá, naturalmente, sem a necessidade de que se recorra a recursos outros que não sejam os recursos humanos expressivos básicos do cliente e do terapeuta. Naturalmente aí entendidos os recursos atitudinais do terapeuta para privilegiar a dialogicidade experimental na relação inter humana com o cliente.

 

O PEQUENO EXPERIMENTO EM GESTALTERAPIA

Por outro lado, a vivência experimental do cliente, no tempo e no espaço da terapia, pode ensejar a possibilidade de que certos recursos, materiais ou não, possam ser usados no sentido de potencializar a expressividade, a interpretação, e a atualização de possibilidades vivenciais na vivência intrínseca e hermenêutica do cliente.

O terapeuta pode, assim, lançar mão do trabalho com sonhos, da dramatização de situações existenciais carregadas de um sentido crítico para o cliente, de jogos de diálogo, de meios e recursos expressivos, etc., que possam potencializar a vivência, a expressividade e a atualização de possibilidades na vivência do cliente. O uso desses recursos caracteriza o que se pode chamar em Gestalt Terapia de Pequeno Experimento.

É importante que fique claro o caráter fenomenológico existencialmente experimental do pequeno experimento. Ele jamais é uma técnica[99], uma vez que ele brota, necessariamente, da vivência imediata do cliente, configurando-se no seu mais puro sentido como experimentação fenomenológico existencial, na medida em que abre-se para o fluxo espontâneo do desdobramento da vivência do cliente. A técnica, por seu lado, tem uma definição a priori, pressupõe um aplicante definido como técnico, e procedimentos padronizados, bem dentro da referência sujeito-objeto, alheia dialogicidade fenomenológica.

Caracteristicamente, o pequeno experimento nasce fundamental e necessariamente a partir do grande experimento, que constitui-se como vivência do cliente, a partir da premência das questões de sua atualidade existencial, no espaço fenomenológico existencial experimental contextual da sessão e da relação com o terapeuta. Apenas as questões abordadas  e desdobradas vivencialmente podem ser enquanto tais objeto do pequeno experimento, que visa então potencializar a sua afirmação e desdobramento.

Na verdade, o pequeno experimento configura-se como uma diferenciação e intensificação de aspectos prementes da vivência espontânea do cliente no âmbito do grande experimento. De modo que diferencia-se afirmativamente, necessariamente, a partir da vivência do cliente, e não se afasta da afirmação do caráter experimental desta vivência.

 

CONCLUSÃO

O sentido experimental da Gestalt Terapia é, certamente, o seu sentido mais característico e definidor. Não obstante ter sido, e ser, não raro, mal entendido -- a partir de perspectivas de compreensão oriundas dos referenciais da Psicologia Experimental, ou do Comportamentalismo --, o caráter experimental da Gestalt Terapia tem uma definição e uma filiação muito claras e específicas, no seio da perspectiva existencialista de raiz nietzscheana, e no seio da Psicologia Fenomenológica e da Fenomenologia da Tradição de Brentano. É interessante observar, igualmente, o caráter existencialmente experimental da concepção e da natureza da dialogicidade, na perspectiva de M. Buber, que teve uma importante influência sobre a concepção, desenvolvimento e prática da Gestalt Terapia.

Dentro da Tradição da Fenomenologia de Brentano, e no sentido de um esclarecimento e desdobramento da concepção do experimental em Gestalt Terapia, é igualmente interessante atentar para os desdobramentos da Ontologia Hermenêutica Fenomenológico Existencial de M. Heidegger, na medida em que esta oferece importantes subsídios neste sentido.

A especificidade da contribuição de Franz Brentano constituiu uma concepção da consciência, uma concepção de filosofia e de psicologia fenomenológica, e uma metodologia, da qual é tributária distinta a Psicologia da Gestalt, a concepção do experimental em Gestalt Terapia, e a própria Gestalt Terapia em sua especificidade. Mais que isto, a contribuição de Brentano livrou a Psicologia dos equívocos teóricos e metodológicos da Psicologia Wundtiana, abrindo o caminho para os desdobramentos da filosofia e da psicologia fenomenológica, e fenomenologicamente experimental.

Cremos que a Gestalt Terapia não existiria -- e não existiria, em particular, em seu caráter específica e própriamente experimental -- sem a contribuição da Filosofia da Vida de Frederich Nietzsche. A concepção de uma vida afirmativa, desta filosofia – “...e eis o que segredou-me a vida, eu sou aquilo que se auto supera indefinidamente[100] --, a sua atitude de irrestrita afirmação da vida, o seu amor fati e o sentido experimental de seu sentido do trágico, o sentido experimental de sua gaya scienza, a sua perspectatividade e o perspectivismo de seu caráter experimental, tudo isto faz parte de um modo muito íntimo, específico e intrínseco da fundamentação filosófica, da concepção teórica, e da metodologia, da Gestalt Terapia. De modo que o manancial nietzscheano tem na Gestalt Terapia um tributário muito próprio específico.

 

  

 

5. LUZ DO REPENTE.

DIALÓGICA E ARTE DRAMÁTICA DA IMPROVISAÇÃO

VISLUMBRE-E-ATO DO POSSÍVEL PROPULSIVO

Sobre o sentido e importância do improvisativo na concepção e método da Gestalt Terapia e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

 

Os segredos da arte da espada consistem na criação de uma certa disposição mental que se faz sempre pronta para responder instantaneamente, quer dizer, i-mediatamente ...Na medida em que o treino técnico é de grande importância,ele é, no final de contas, algo de acrescentado e adquirido artificialmente, conscientemente, calculativamente. A menos que a mente que se vale da habilidade técnica sintonize-se com um estado de máxima fluidez e mobilidade, qualquer coisa adquirida ou superimposta perde a espontaneidade do desenvolvimento natural. Este estado prevalece quando a mente está desperta para o satori. O que quis o espadachim foi fazer com que a disciplina ativesse-se a esta concepção. Esta concepção  não pode ser ensinada por nenhum sistema especialmente desenvolvido para este fim, ela deve crescer de dentro simplesmente. Na verdade, o sistema do mestre não era de fato um sistema no sentido próprio do termo. Mas existia um método “natural” em sua aparente loucura (...).
D.T Suzuki in ZEN AND JAPANEASE CULTURE.

 

 

 

Centradas no privilegiamento do vivido, da consciência pré-reflexiva, fenomenológico existencial, e nos seus desdobramentos, a Gestalt Terapia -- e qualquer abordagem fenomenológico existencial -- tem a improvisação, a soberania da valorização do momentum improvisacional, como uma de suas características fundamentais.

Fundamental porque, em particular, é a im-pro-vis-ação, este modo de ser ativo, que provê um vislumbre (Heidegger diria pré-compreensão) do possível e da possibilidade de seu desdobramento. Uma condição básica da perspectiva existencialista, da ontologia, da fenomenologia existencial, da concepção e método da Gestalt Terapia, e de uma abordagem de psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.

Grosso modo, o empirismo do vivido fenomenal é, e permite, a improvisação. Como âmbito dialógico no qual o possível, o ato, a ato ação, se vislumbram, são possíveis e, efetivamente, se desdobram. De fato, apenas no âmbito da improvisação, o vivido e o seu empirismo, e o desdobramento vivido de possibilidades, a interpretação e hermenêutica fenomenológico existenciais, são possíveis.

Daí ser interessante qualificar o que significa, e a importância, desta característica da improvisação na fundamentação filosófica, concepção e método da Gestalt Terapia e das abordagens fenomenológico existenciais de psicologia e psicoterapia..

 

 

Nos círculos sérios e respeitáveis, moralistas em geral, a idéia em geral de improvisação é vista com um respeitável e sério balançar de cabeças, olhares reprovadores, bocas tronchas, e risos sarcásticos...

E, diga-se de passagem, não há como não concordar, diante de uma concepção de “improvisação” num sentido vulgar e pobre. Ou seja, não estar preparado, não estar pronto diante de uma tarefa assumida. E “improvisar”, como lançar mão de capacidades ou recursos impróprios, inadequados, limitados, insuficientes para a responsabilidade que se tem diante, e para a qual não se teve o cuidado de se preparar, ou de saber, ou não, se podia estar preparado...

É certamente por isto que num certo momento o I Ching comenta, “...tudo o que importa é estar preparado...”

De passagem, também se diga, que é uma soberba forma de incompetência o recurso habitual, mecânico, ao premeditado, ao meramente repetitivo comportamental, aí incluído o técnico; ou ao reflexivo, evitativo, quando a ação é requerida, a atualização, atu ação que interpreta o possível, e que só se possibilita no âmbito do improvisacional

Não é à improvisação num sentido vulgar que nos referimos.

A improvisação, tal como ela se configura existencialmente, e na prática de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, exige preparo...

O sentido vulgar de improvisação, e o moralismo, não podem obscurecer o sentido germinal da idéia de improvisação, e a fundamental importância não apenas deste sentido maior, mas, em particular, desta modalidade de ser na condição humana, em particular no desdobramento de suas questões existenciais. E, portanto, na fundamentação filosófica, concepção e método de uma abordagem de psicologia e de psicoterapia fenomenológico existencial.

Não é certamente exagero, nem impróprio, dizer-se que só existe ação na vivência da improvisação. E ação especificamente entendida como o vir-a-ser, ato ação, do possível vivido fenomenalmente como pré ser, na vivência de ser no mundo...

Nietzsche chama a atenção para isso. Ele observa[101] que, em geral, pensamos que premeditamos uma ação, e agimos de acordo com o premeditado. A premeditação, não obstante, é uma coisa -- que pode inclusive não ser da ordem da ação, pode ser da ordem do comportamento, ou da reflexão, por exemplo -- que efetivamente não são ação. A ação é outra coisa. Ou seja: a ação é um outro modo de ser.

A ação é um mistério..., diria Nietzsche.

Como modo de ser, a reflexão, já é um re-torno à memória de um vivido, que em seu momento próprio foi ativo, mas que já se foi como vida vivida, ativa, encarnada; digo, não abstrata... É re-presentação, e não presentação...

O comportamento, aí incluída a técnica, é atividade estruturada passadamente. É repetição de formas padronizadas, condicionadas de atividade, para a qual já se pode ter uma expectativa.

O que deles, do comportamento e da reflexão, distingue a ação é o vir a ser de possibilidades, o re-torno, re-volta do possível. A ação, atu ação, é este re-torno, esta re-volta, do possível, a ação atu aliza o possível propulsivo.

Assim, o que caracteriza o especificamente ato, a ação, é que neles (uma) possibilidade(s) se atualiza (m), desdobra(m)-se, vem (vêm) a ser. Possibilidade que está extinta já ao nível dos modos de ser do comportamento ou da reflexão.

E aí é que está a questão. Carecemos vitalmente da reflexão e do comportamento. E eles são como “estar com os calcanhares no chão”. Nossa vida cotidiana carece do reflexivo afastamento. Afastamento da vivência do modo de ser do vivido. Para instrumentar-se, e contingenciar novas formas e possibilidades de ação. Necessitamos em nossa vida cotidiana da atividade padronizada e repetitiva do comportamento, e da reflexão, no desdobramento de funções igualmente padronizadas e repetitivas.

Num dado momento a ação seria, metaforicamente, como levantar-se na ponta dos pés. Não podemos permanecer na ponta dos pés. Daí que precisamos da reflexão e do comportamento.

No momento, todavia, da ação, da atuação, atualização de possibilidade, a reflexão e o comportamento não dão conta.

Por mais que estejamos adestrados neles, por mais que tentemos o seu modo específico de ser, inclusive (no que chamamos de) neuroticamente. Na reflexão e no comportamento ocorre como na metáfora de Buber[102]: por mais que embaralhemos um baralho: as cartas permanecerão sempre as mesmas. Apenas a repetição.

O momento da ação é o momento da necessidade do possível, o momento da criação e da atualização do novo. Da experimentação que lhes permite. A ação não apenas embaralha as cartas, ela as refunde e recria, refunde e recria o baralho, vira a mesa...

Daí que Fritz Perls observa: as questões existenciais humanas só se resolvem experimentalmente. O âmbito da improvisação é o âmbito próprio da experimentação fenomenológico existencial.

Ou seja, pelo modo de ser do vivido e do desdobramento do vivido, no qual o possível, como incontornável dimensão ontológica, é possível e se desdobra. Em especial porque o comportamento e a reflexão, exteriores ao nosso modo de ser vivencial, não acessam a nossa dimensão ontológica do pré-ser, do possível “em nós”, e do seu desdobramento. O comportamento e a reflexão não acessam, por impróprios, esta dimensão ontológica vivencial de nosso ser em que o possível é possível e se desdobra; a dimensão de nosso ser onde vigoram as possibilidades e a possibilidade de sua atualização e desdobramento. Possibilidade esta cuja vivência chamamos de experimentação.

O modo de ser da ação está fora, assim, do modo de ser da reflexão e do comportamento. De forma que o modo de ser próprio da ação, da atuação, atualização de possibilidades, é pré-reflexivo, vivido, e não comportamental.

Por definição, a ação, que atualiza possibilidades, e ao atualizar possibilidades, não é reflexiva, e não é comportada. O novo, a ação, não são da esfera do comportamento. A ação não é reflexiva, não é da esfera da reflexão. A ação, como atuação de possibilidade, como lhe é próprio, é própria deste modo de ser que é pré-reflexivo, o vivido, ser no mundo, o fenomenal, fenomenativo.

Neste modo de ser que é o vivido constitui-se, como pré ser, pré compreensão[103], a dimensão do possível humano, a possibilidade.

A cada uma de suas emergências, a possibilidade surge, aparece, brilha, como pré-compreensão.

A possibilidade é um modo particular de existência, na medida em que é existência que não é realidade, mas que efetivamente existe como possum, como brilho da vivência de um possível. Esta vivência da emergência, do brilho (lumbre), da possibilidade, é dada como pré compreensão, como pré ser se (Heidegger): Vivência na qual brilha o possível em sua emergência e força de desdobramento, vivência na qual o possível se vislumbra, ou seja, é pré compreensão e exercício de pré ser se. Vivência na qual o possível, em seu caráter propulsivo, em sua emergência, é vislumbre, é brilho (lumbre) que se vislumbra como pré ser e pré compreensão. O desdobramento deste possível é a hermenêutica fenomenológico existencial, como arte da interpretação fenomenológico existencial, o desdobramento deste possível é interpretação, é a ação.

A emergência, portanto, e desdobramento, do possível que impregna a ação dá-se, desta forma, em seu modo de existência particular, como vislumbre, pré compreensão, pré ser, pré ser se.

Assim, o que é próprio deste modo de ser -- que não é reflexão, nem é comportamento, e que é o vivido, fenomenal, pré-reflexivo, e pré-conceitual --, é que ele, caracteristicamente, além de ser vivido, pré-reflexivo e pré-conceitual, não comportamental, e ativo, é sempre (vis) lumbre, lumbre (brilho, aparecimento, acontecimento), da emergência e/ou urgência vivida do possível, da possibilidade. Que se apresenta como emergência e/ou urgência de uma alteridade, de uma outridade, com relação ao nós mesmos, na qual estamos indissociavelmente, intencionalmente, vinculados...: Pré-ser, como diria Heidegger, possibilidade vislumbrada, e que, em sua força de possum, se desdobra como possível propulsivo em nosso ser no mundo...

É essa vislumbrada, vislumbre, vislumbração, da outridade, possível (possibilidade, potente, em sua emergência e/ou urgência, como vivência da possibilidade propulsiva que se desdobra como o “nós” mesmos/mundo, enquanto somos/vimos a ser) que se configura especificamente o como o vis vislumbre -- da improvisação. (É interessante observar como vislumbre é uma palavra intencional, fenomenal. Como ela integra o ver com o brilho do visto, o vis e o lumbre).

Ou seja: esta vislumbração do possível, que favorecemos (prol) na improvisação, é própria deste modo de ser, que é visação, ação vis-a-vis com a outridade do possível, pré-compreensão, que se dá como e na im pró vis ação, e que é ação, ato de possibilidade, no âmbito deste nosso modo de ser vivencial, fenomenal, fenomenativo.

Na verdade, a improvisação é mais propriamente improvislumbração do possível vivido, e, como tal, desdobrado em sua urgência/emergência. Mais especificamente, como vivência que é -- não reflexão, não teorização, não comportamento --, a improvisação, impróvislumbração, é o modo de ser que propriamente favorece e provê o modo de vivência, o âmbito, o momentum, no qual o possível é possível, e se desdobra. No qual é possível a experimentação fenomenológico existencial, a interpretação fenomenológico existencial, a hermenêutica fenomenológico existencial, o contato. E, diga-se de passagem, de um modo mais sumário, a criação, a criatividade.

Uma das características qualitativas mais fundamentais do vislumbre do possível é a propriedade da sua temporalidade peculiar, de seu ritmo sui generis, deslumbrante (decaente?) e singular. Um ritmo que, se nos dispomos a atualizá-lo, é soberano e insubmisso, autônomo, em seu ciclo de vislumbre e deslumbre. Não é à toa que Heidegger falará de Ser e Tempo... E que Octavio Paz comentará:Diante de nós algo passa com o ritmo, e somos nós próprios que passamos...

Este alumbre, vislumbre, deslumbre da outridade, da alteridade do possível, só se nos é dado na propriedade deste modo de ser que é o vivido do ser no mundo (não na reflexão e/ou no comportamento). De modo que é especificamente na vivência de ser no mundo que se constituem este vislumbre e desdobramento da possibilidade do que somos em ser no mundo.

Privilegiar, favorecer, este modo de ser do vivido de ser no mundo, esta vivência de ser no mundo, pré-conceitual, pré-reflexiva, é um modo de ser em prol da vislumbração, emprovisação, é improvisação, improvislumbração. (Num certo sentido, vivência e improvisação são termos intercambiáveis em seus sentidos).

Daí que a existência, a resolução de questões existenciais, como ato ação do possível, a interpretação e a experimentação fenomenológico existenciais, a empathia, só se dêem no âmbito deste modo de ser que tão propriamente, e tão inconscientemente já, designamos como improvisação.

A condição de possibilidade da ação, de ser ator (que é ser outro, possibilitado/possibilitando-se), a condição de possibilidade de atuar, agir, vivenciar e atualizar possibilidades -- criar/criar-se, resolver/resolver-se, e ao mundo que nos diz respeito -- é situar-se (im) neste modo de ser, e privilegiar (pró) este modo de ser, no qual podemos prefigurar e prover, vislumbrar e provisionar -- na improvisação -- e possibilitar o desdobramento desta alteridade possível, desta outridade emergente e/ou urgente como o nós mesmos/mundo. E que é possível apenas na vivência de ser no mundo. No vivido, que é improvisacional.

Agir, ser ator, ser outro, a ação, o contato, só se dão no âmbito deste modo de ser que é vislumbre do possível, no quando agora em mim; como diria Caetano. Que é ex-peri-ment-ação, e desdobra, possibilita, é hermenêutica da, interpreta a, alteridade do possível no nós mesmos/mundo ; no quando agora em mim. Ou seja, agir, ser ator, ser outro, a ação, dão-se própria e especificamente no âmbito deste modo de ser do vivido, pré-reflexivo, ser no mundo, empático, pático, patético, peripatético, pathoslógico (nada a ver com doença, naturalmente, apenas o logos do pathos), experimental, espiritual, que se configura no âmbito e momentum próprio do vivido improvisacional, da improvisação.

 

É este o modo de sermos, a improvisação, no qual o possível é possível e possibilita-se, desdobra-se. Mas não como objeto.

Este modo de sermos do vivido de ser no mundo, este modo de ser da improvisação, não vigora, como vimos, no modo de ser do comportamento e da reflexão. Nos quais vigoram a não intenção de sujeitos e objetos, de causas, efeitos e realidades realizadas.

Este modo de sermos é dialogicidade, é encontro vivenciado, relação imediata, e improvisação, com a alteridade de mim mesmo, com o outro inter humano ou natural, com o sagrado, enquanto alteridades vivas e presentes, que pontualmente se desdobram em suas diferenças e diferenciações, no âmbito apenas do dialógico momentâneo, no âmbito dialógico da improvisação. Não como sujeitos ou objetos, causas ou efeitos, realidades realizadas.

Ainda que este modo de ser seja, como ação, na definição de Perls,não menos que o núcleo do real.

O dialógico improvisacional, a alteridade do possível, enquanto alteridade do mim mesmo, enquanto outro inter humano, enquanto outro natural não humano, ou sagrado, que são possibilidades que posso atualizar, ou não, me demandam e me provêem, pessoal e intransferivelmente, pontualmente, no quando agora em mim, como outro possível e emergente e/ou urgente, como ator, em minha perdida diferenciação deles, e de mim mesmo. (...meu desafio maior seria ser ‘o outro dos outros’, e o ‘outro dos outros’ era eu... Clarice Lispector) (caminho por onde há espaço, meu tempo é ‘quando’... Vinícius).

Não como um sub-jectum, mas como um jectum que pro-jecta-se na imediaticidade, im-pro-vis-ação de seus possíveis emergentes e/ou urgentes, propulsivos, projetativos. Na imediaticidade da dialogicidade da relação eu-tu, diria Buber.

Importa valorizar, afirmar, ser em prol (impro) deste modo de ser que permite o vislumbre e a sua ação, o possível e o seu desdobramento, que nos convocam, e que se projeta como nossa vivência de ser no mundo.

Meramente porque é este o modo de ser em que o possível é possível e se desdobra, o modo de ser em que o possível se atualiza, o modo de ser em que, enquanto tal, agimos e somos atores. E, em particular, o modo de ser em que, em sendo atores, somos outros e criativos.

A identificação com o vivido e com o seu desdobramento, a identificação com o possível que lhe é inerente, e com o seu desdobramento, configuram, na momentaneidade da improvisação, uma arte dramática. Drama significa ação; e ação, atu, atu ação, definem-se pela especificidade de serem vir a ser de possibilidade. De modo que o momentum vivido, dialógico, do vir a ser do possível, é momentum dramático. É arte, arte dramática.

Na concepção e método da Gestalt Terapia, de uma abordagem fenomenológico existencial de psicologia e psicoterapia, os momentos peculiares de sua prática são assim momentos de uma arte dramática, e que se dão, portanto, no âmbito da improvisação. De modo que elas se configuram como o privilégio de uma dialógica e arte dramática da improvisação.

Valorizar, afirmar, favorecer, provisionar este modo de ser que é o vivido do ser no mundo é que é o sentido de improvisação, é o que nos é dado pela improvisação.

Favorecemos, assim, este modo de ser da improvisação na concepção e método da Gestalt Terapia, e da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial, simplesmente, como dissemos, porque é nesse modo de ser que o possível é possível e se desdobra, que vislumbramos o possível em nosso pré-ser, e podemos ser, e afirmar, em ação, a sua potência, e o seu desdobramento, em que podemos ser atores e outros.

Não é outro o sentido de Contato em Gestalt.

Contato, e o método da Gestalt Terapia -- como uma metodologia que visa uma otimização do processo do contato --, só se dão no âmbito da improvisação, neste sentido. Daí ser Gestalt uma abordagem eminentemente improvisacional, de provisão, e provisação, no âmbito de sua concepção e método, de uma dialógica e arte dramática da improvisação. Tanto para o profissional como para o cliente, como atitude e método de provisação do possível emergente e/ou urgente, e de seu desdobramento. Como atitude e método de otimização do processo do contato.

 

6. CONTATO É VÍVIDO VIVIDO.

NÃO É RELAÇÃO SUJEITO OBJETO,

NEM RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO...

TAMBÉM O CONTATO NÃO TEM UTILIDADE

 

Sobre o sentido e lugar do Contato e de sua concepção na concepção e método

da Gestalt Terapia

 

 

 

 

 

Este ensaio visa desenvolver uma interpretação da concepção e da importância da concepção de Contato na formulação e método da Gestalt Terapia, de um ponto de vista fenomenológico existencial. Em particular, a partir da perspectiva da intencionalidade da vivência de ser no mundo.

 

 

 

E lá vou eu, gesto no movimento...
Paulo Leminsky

 

 

Uma preciosa contribuição de Fritz Perls, e da tradição que se prolonga na Gestalt Terapia, decorre da sua dedicação, teórica e prática, à questão do que se convencionou chamar de Contato. Do contato e do como do contato, na condição humana, na disfunção, no que metaforicamente podemos entender como “adoecer”, e na concepção e prática da psicoterapia.

Originalmente de cunho eminentemente fenomenológico, e existencial, a noção de Contato ficou algo prejudicada, não obstante, no desenvolvimento da Gestalt Terapia.

Aparentemente, pelo próprio nível, e conflitos, do desenvolvimento da Fenomenologia, e do Existencialismo, que lhe embasavam. Igualmente, em função de conflitos culturais da cultura da Humanidade, na sua época e lugares. E, em particular, pelas próprias limitações de Perls no trato com abordagens filosóficas que lhe eram tão importantes, e que de um modo decisivo contribuíam para a originalidade e fecundidade de suas práticas e teorizações. Perls era um médico. Uma outra dimensão sua era a de um artista expressionista experimental. Desta surgiu, efetivamente, a sua prática e o seu desenvolvimento da Gestalt Terapia. Mas, em se tratando de uma terapia, o modelo médico, no qual se embasa, inclusive, a prática e concepções psicanalíticas, de onde vinha Perls, teve um peso grande, a limitar o desenvolvimento do caráter e teorização especificamente fenomenológico existenciais da Gestalt Terapia de Perls.

Neste sentido, cumpre compreender as limitações de Perls. Não se tratava de um filósofo, fenomenólogo, ou mesmo de um psicólogo, mas de um médico, situado na ótica do empirismo objetivista, vigorante no modelo médico. Por mais que a Psicologia Organísmica Gestáltica de Kurt Goldstein, e outras influências fenomenológico existenciais houvessem amaciado, corroído, comprometido, e mesmo subvertido, o objetivismo deste empirismo oriundo do modelo médico.

Podemos, e precisamos, hoje em dia, creio, retornar a, e repensar, a concepção de Contato, especificamente a partir das bases da Fenomenologia e do Existencialismo. Em particular, com uma perspectiva que Perls não poderia ter em sua época. No sentido de continuarmos desdobrando a fecundidade da noção de Contato para a concepção e exercício experimental da condição humana, para a concepção de distúrbios, e para a concepção e prática de condições e recursos terapêuticos.

Para, inclusive, vermo-nos livres da omissão; ou, inversamente, vermo-nos livres da  avalanche de bobagens que se fala e escreve a respeito de tão importante noção.

 

1.     Contato é especificamente a vivência de atualização de possibilidades, (a partir da projetatividade pré-compreensiva destas) ao nível da vivência de ser no mundo. O desdobramento do contato é a dinâmica vivencial hermenêutico dramática, fenomenológico existencial experimental, de desdobramento das possibilidades que se dão, ontologicamente, na vivência de ser no mundo

 

O contato dá-se e desdobra-se, especificamente, como atualização de possibilidades ao nível da vivência de ser no mundo.

A vivência de ser no mundo, o vivido, dá-se como vivência, fora, portanto, do modo de ser em que vigoram a relação sujeito-objeto.

Como desdobramento e atualização de possibilidade, por outro lado, a vivência de ser no mundo constitui-se como presentificação poiética, fora das relações de causa e efeito.

Quando, em nosso modo de ser, nos afastamos do desterritório da vivência fenomenológico existencial de ser no mundo – vivência pré-reflexiva e pré-teórica, pré-conceitual, presentativa e não re(a)presentativa -- e do contato, portanto --, constituímo-nos, então, num modo de ser no qual vigora a dicotomia e relação sujeito-objeto, e as relações de causa e efeito.

Assim, o mundo e os seres do mundo podem ser objetos, e nós, sujeitos. Condição para que os objetos possam se constituir em sua utilidade, e serem efetivamente usados pragmaticamente.

Nos momentos do vivido de ser no mundo, no processo do contato, estamos num modo de vivência no qual compartilhamos com o mundo um âmbito em que se diferenciam consciência e mundo, eu e realidade objetiva, sem que se dicotomizem em sujeito e objeto, na medida em que se dão como vivência fenomenal intencional. Este âmbito é um âmbito poiético, de brotamento da realidade e atualização, a partir das possibilidades de ser no mundo, vividas fenomenalmente, no qual não vigoram as polarizações e relações sujeito-objeto, nem as relações de causa e efeito, nem as relações de utilidade.

Ao nível deste modo de ser que é a vivência de ser no mundo, constitui-se assim o possível, a possibilidade em nossa vivência. Possibilidade que se projeta em seu processo de atualização e desdobramento, constituindo o que Heidegger[104]  entendeu como interpretação.

Entendo o Contato como o processo de desdobramento de possibilidade como vivência de ser no mundo. O Contato é a interpretação, o Contato é hermenêutico.

De modo que Contato é, eminentemente, vivência de ser no mundo. Ou seja, desdobramento de possibilidade ao nível da vivência de ser no mundo.

Existe dialogicidade e inter ação no Contato. Mas não existe uma objetividade da vivência de contato, nem uma pragmática objetivista do processo do contato. O contato se dá propriamente pela experimentação fenomenológico existencial. Experimentação vivencial. Vivência, que se encontra, como tal, fora das relações sujeito-objeto, e das relações de causa e efeito, sendo da ordem da hermenêutica poiética.

 

 

2.     Assim, o contato se dá, e se desdobra, como vivência fenomenológico existencial intencional do ser no mundo. De modo que não há relação sujeito-objeto, nem relação de causa e efeito, ao nível da fronteira de contato, do contato, e do seu desdobramento, do ajustamento criativo e da auto regulação organísmica...
No modo de ser em que se dão a dicotomia sujeito objeto, as relações de causa e efeito, e a utilidade, dá-se, especificamente, não o contato, mas a sua impossibilidade e impossibilitação, a interrupção do contato e de seu desdobramento.

 

Como observamos, um dos principais limites das formulações de Perls está numa certa ambigüidade e carência com relação ao seu fundamento fenomenológico e existencial. Herdeiro indiscutível, num certo sentido, da Fenomenologia Hermenêutica Existencial da tradição de Brentano, e das Filosofias da Vida de Nietzsche e Dilthey, Perls, aparentemente, encontrava-se tolhido nesse sentido por uma outra vertente de sua formação: a de um background médico, calcado num empirismo objetivista, diverso do empirismo especificamente fenomenológico da tradição fenomenológica e ‘existencialista’ da Fenomenologia e da Filosofia da Vida.

Ainda que em sua prática Perls fosse menos ambíguo, esta ambigüidade configurou-se nas formulações e indicações de sua concepção de Contato. No limite, esta ambigüidade vai aparecer na formulação de uma concepção de contato que é eminentemente fenomenológica e existencial[105], ao mesmo tempo em que se perde na perspectiva de uma concepção objetivista e não fenomenológica de contato, como contato entre um sujeito e um objeto, ao nível da Fronteira de Contato.

O objetivismo pragmatista do meio norte americano em que a Gestalt Terapia se desenvolveu perpetuou a ambigüidade. Ou tendeu freqüentemente a resolvê-la no sentido do objetivismo pragmatista, afastando muitas vezes a Gestalt Terapia norte americana de sua originalidade fenomenológico existencial.

Em Gestalt Terapia as noções são em geral confusas quando se busca precisar a concepção de Contato ou de seu processo. A concepção se perde em geral num confusional, que não raro dá margens a interpretações que seriam cômicas, se não fossem catastróficas. Isto decorre, naturalmente, das buscas e tentativas de explicação de noções que são eminentemente fenomenológicas e existenciais sem que, para isso, se recorra às perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo, tentando-se, às vezes, evitá-las e contorná-las assepticamente... O resultado é o que vemos...

As limitações de Perls somaram-se a uma profunda e duradoura incompreensão, e até aversão -- no âmbito da cultura norte americana, para onde foi transplantada, e onde se desenvolveu a Gestalt Terapia – do e pelo caráter fenomenológico e existencial experimental do seu empirismo original. Este confundido, de um modo geral, de modos mais ou menos ingênuos, com a perspectiva de uma experimentação e de um empirismo objetivistas.

Fenomenológicos e existenciais, como observamos, o Contato e o processo de seu desdobramento não se dão, ao nível da dicotomização sujeito-objeto. A sua materialidade objetiva, ou subjetiva, é derivada. Da mesma forma que não se dão no âmbito do modo de ser das relações de causa e efeito. O contato e o seu desdobramento se dão fenomenológico e existencialmente, ao nível de vivência de ser no mundo, que é eminentemente intencional. De diferente dimensão, portanto, da ordem da dicotomização sujeito-objeto.

O aparecimento e a vigência do sujeito, e do objeto, e de sua dicotomização; a possibilitação das relações de utilidade, e de causa e efeito, representam especifica e propriamente um afastamento do modo de ser do contato, um afastamento do modo de ser da vivência de ser no mundo, e do processo de seu desdobramento como desdobramento de suas possibilidades.

Ou seja, o modo de consciência, reflexivo, ou comportamental, que permite a diferenciação sujeito-objeto, e as relações de causa e efeito, é uma dimensão, exatamente, da impossibilidade ou da impossibilitação do contato, e do seu desdobramento. Ainda que seja, também, evidentemente, uma dimensão natural do ritmo do ser da existência.

 

 

3.     Igualmente, a Fronteira de Contato não se dá como relação sujeito-objeto. A Fronteira de Contato é a tensão vivencial da projetação da possibilidade: projatação do pré ser compreensivo da possibilidade.

Impressionado, talvez, pelos desenvolvimentos iniciais da Citologia, a concepção de Perls de Fronteira de Contato parece ter tomado como paradigma básico o modelo de concepção da membrana celular. A membrana celular que se constitui a partir da influência dos meios extra e intracelular, como organização de elementos que pertencem a ambos os meios.

A questão da fronteira de contato, não obstante, não é e não cabe em sua especificidade nesse paradigma citológico, biológico e objetivista. A fronteira de contato é, evidente e especificamente, fenomenológica e existencial, e não biológica. Oriunda, certamente, na problematização de Brentano relativa à questão das fronteiras entre as partes e o todo; e nas questões relativas ao possível e a sua atualização. Evidentemente que somos o que entendemos como seres biológicos e fisiológicos. Mas fenomenológico e existencialmente vivenciais e vividos como ser no mundo.

A Fronteira de Contato, que se dá no âmbito próprio da intencionalidade da vivência de ser no mundo, não é exatamente, nem de modo algum, a fronteira entre um sujeito e um mundo, entre sujeito e objetos, por mais sutil que fosse a conexão e integração. A fronteira de contato, o contato, e o seu desdobramento, como se dão ao nível da intencionalidade de ser no mundo, não são da ordem da interação entre um sujeito e um objeto.

Fenomenológica e existencial, a Fronteira de Contato é, assim, a tensão entre o ser no mundo e o seu possível. Por um lado, a pressão (do mundo e do sujeito constituídos, decaídos), e a ex-pressão da força da possibilidade, no desdobramento do ser no mundo, poiesis (ou seja, ‘ger ação’ e ‘re gene r ação’) do ser no mundo. E, na verdade, derivadamente, poiesis do mundo e do sujeito constituídos, da realidade. Experimentados enquanto tais, em si, de modo diverso do modo da vivência de ser no mundo, do contato, e do processo de seu desdobramento.

Num sentido mais próprio, então, a Fronteira de Contato dá-se, assim, não como uma articulação sujeito-objeto, mas como vivência de tensão dialógica entre, (no âmbito entre, inter, inter pré ação, inter ação), entre, a vivência de ser no mundo e a atualização da(s) possibilidade(s) de ser, atualização de um pré-ser, que lhe é inerente. Tensão, no âmbito vivencial, entre a possibilidade e o seu desdobramento, entre a possibilidade e a sua interpretação.

Assim, o processo do contato, e do seu desdobramento (interpretação), configura-se eminentemente como um processo fenomenológico existencial -- dialógico, hermenêutico e poiético -- de tornar-se o que se é enquanto possibilidade, ao nível da vivência de ser no mundo. A ato-aliz-ação de um pré-ser-se no mundo, imediatamente dado como possibilidade na vivência de ser no mundo, um processo de engendramento e de atualização de possibilidades de ser a cada momento ontologicamente inerentes, enquanto tais, ao ser no mundo. A Fronteira de contato é a tensão da possibilidade de ser, em seu movimento de ato ação.

 

 

4.     Contato (ser no mundo, possibilidades e pré-ser-se) e o seu desdobramento (interpretação fenomenológico existencial experimental), hermenêutica experimental, (situação hermenêutica, experimentação fenomenológico existencial).

 

Como Perls[106] indicou, o contato é a realidade mais básica, que nos é dada como a própria vivência da condição de ser no mundo, entranhada, inerente e ontologicamente, de possibilidades de ser.

 

Fenomenológico existencialmente, enquanto vivência, não seria o contato, a vivência de ser no mundo, subjetivos, e carentes de mundo?

Precisamente, não! Porque se dão, especifica e propriamente (como nosso modo de ser mais básico), no âmbito dialógico da intencionalidade no qual sujeito e mundo correlacionam-se co-originalmente, anteriormente a qualquer possibilidade de separação. No vivido, na vivência de ser no mundo, no contato, nós mesmos e o mundo estamos inevitavelmente presentes, e co-originalmente articulados.

Isto significa que nos momentos de vivência deste modo de ser, não se dá a dicotomia sujeito/mundo (objeto).

A possibilidade, o pré-ser-se do ser no mundo, a ato ação, atoalização, são, assim, precisamente, possibilidade e pré-ser-se do ser no mundo. Envolvem o que seriam (e que são, enquanto afastamento) o sujeito e o mundo/objeto, enquanto tais. Mas não são possibilidades respectivas do sujeito em si, e/ou do mundo/objeto em si, ou de uma interação de suas instâncias respectivamente ensimesmadas.

Quando mudamos, na atualização, desdobramento, da possibilidade de ser, na atualização do pré-ser-se do contato, e de seu desdobramento, somos ser no mundo, em vivência de emergência de ato ação, em mudança, em desdobramento de possibilidade. Vivência de ato ação de emergência momentânea, rítmica, cíclica, regular, enquanto tal. De diferente dimensão, e que não comporta a dicotomia sujeito/objeto (mundo).

Quando aparecemos sujeito, quando o mundo/objeto aparece em si, como tal, já não estamos mais, no momento, momentum, rítmico, cíclico, regular em sua constituição, do processo do contato na vivência de ser no mundo, e de seu desdobramento.

O contato envolve, assim, um mergulho na vivência do pré ser do possível propulsivo, imediata e compreensivamente presente e emergente na vivência de ser no mundo. Mergulho a que chamamos de ex peri ment ação. E um desdobramento ativamente vivencial de suas forças de possibilitação, a que chamamos de interpretação. De modo que, realizando assim o hermenêutico da nossa condição humana, criamos a nós mesmos, as nossas condições, e ao mundo que nos diz respeito, numa hermenêutica experimental, poiética.

A Gestalt Terapia propõe-se a ativar esta dimensão da condição humana, como logos metódico de potencialização de nossa criatividade existencial.

 

 

5.     O contato, o seu desdobramento, e a integridade e integração corpo/mente, self/mundo externo. Atualização. Espontaneidade. Ajustamento criativo. Auto regulação. Crescimento.

 

Da mesma forma, ao nível próprio da intencionalidade da vivência fenomenal de ser no mundo, de suas possibilidades e desdobramentos, o contato e o seu processo de desdobramento não se dão ao nível de uma dicotomização corpo/mente. E igualmente não se dão ao nível da dicotomização self/mundo externo[107]. Ou seja, ao nível próprio da vivência de ser no mundo, de suas possibilidades, possibilitações e desdobramentos (interpretações); ao nível do contato e do desdobramento de seu processo, dão-se uma integridade, uma integração gestáltica e organísmica, e fruição de corpo-mente, self-mundo externo. Ou seja, não vigora nesta dimensão uma dicotomia corpo-mente e self-mundo externo...

À medida que se desdobra o processo do contato, as dicotomias corpo/mente, self/mundo externo tendem a reduzir-se e a dissiparem-se, na absorção própria e especificamente dialógica (pré-reflexiva, presentativa, antes que re apresentativa), da vivência fenomenal (intencional) de ser no mundo, da ‘ato ação’ espontânea, na qual naturalmente integram-se e dialogicamente dançam self-e-mundo externo, corpo-e-mente. .

Pense numa dança, a dois, ou não, interpretada com entusiasmo...

A momentaneidade da vivência da interpretação, do dançar, ou seja: a momentaneidade da interpretação, hermenêutica, desdobramento, poiese, de suas possibilidades -- enquanto desdobramento de processo de contato -- constitui-se, própria e especificamente, como a momentaneidade de uma redução da dicotomização corpo/mente, e absorção vivencial do vivente dançante (de cada um dos parceiros). Momentaneidade de uma redução da dicotomia entre os dois parceiros como entes isolados em si. E redução da dicotomização entre ele(s) -- e o ambiente, e o chão, e os sons da música, e a gravitação... -- que coalescem na dialógica tensional das diferenciações em ato, na interpretação, hermenêutica, do desdobramento das possibilidades do contato enquanto ritmos dançantes.

E, de passagem, enfatizando o valor da afirmação da intensificação da interpretação da força do possível, perecível, diria Nietzsche, na fala de Zaratustra:

O passo de cada um revela se ele se encontra já no seu próprio caminho. Vede-me, portanto, caminhar! Mas aquele que se aproxima do seu fim... esse dança.

E, na verdade, não me transformei em estátua, ainda não estou entorpecido, pesado, petrificado, colocado como se fosse uma coluna; gosto da corrida veloz.

E, ainda que na terra haja pântanos e uma profunda tristeza, aquele que tem os pés leves corre por cima da lama e dança como sobre gelo polido.

Corações ao alto, meus irmãos, ao alto, ainda mais alto! E não esqueçais as pernas! Levantai as pernas, bons dançarinos, e, melhor, ainda: sabei aguentar-vos sobre a cabeça!

(...)

Mais vale ainda ser louco de felicidade do que louco de infelicidade, mais vale dançar pesadamente do que arrastar a perna. Aprendei, portanto, comigo, a minha sabedoria: mesmo a pior das coisas tem dois lados bons.

Mesmo a pior das coisas tem boas pernas para dançar: aprendei, portanto, vós próprios, homens superiores, a manter-vos direitos sobre as vossas pernas!

Esquecei, portanto, a melancolia e toda a tristeza da gentalha!

(op. cit., pp. 294-5)

 

"E que por nós seja considerado perdido o dia em que não dançamos! E que por nós seja considerada falsa a verdade que não é acompanhada por uma risada!"

(op. cit. p.209)

 

A vivência do contato e do seu desdobramento implica sempre neste aleviamento na redução da dicotomização, e desenvolvimento de uma integração momentânea e diferencialmente tensa, entre corpo/mente, self/mundo externo. Vivência que é poiética, hermenêutica, regeneradora, e potencialmente alegre, por sua promoção de uma super abundância de forças...

 

Momentânea a integração -- ainda que de rítmica e de vital presença em nossa existência --, as dicotomizações corpo/mente, self/mundo externo; e/ou o desenvolvimento momentâneo, circunstancial, de uma integração difícil, de uma disintegração, são próprios de nossa cotidianidade, na medida em que o modo de ser no mundo da vivência é momentâneo e circunstancial. Vivência de intensidades e de intensificações, de mudanças e transformações, na medida em que atualiza possibilidades, a vivência de ser no mundo, a vivência do contato não poderia perdurar como modo de ser. De modo que a nossa cotidianidade se configura em sua normalidade como modo de ser dela diverso. Distanciadamente da vivência de ser no mundo, distanciamento, descanso, num certo sentido, do processamento do contato e do seu desdobramento.

Os momentos desta vivência integrada corpo/mente, self/mundo externo, na interpretação, no desdobramento das possibilidades de ser do ser no mundo, no desdobramento do contato, permite uma otimização da criatividade, que pode, existencialmente dar-se então como ajustamento criativo, e como auto regulação organísmica, redundantes no que Perls[108] veio a chamar de crescimento.

 

 

6.     Momentaneidade do afastamento do contato, dificuldades no desdobramento do contato, desintegração corpo/mente, self/mundo externo, funcionamento mental, mente (consciência reflexiva), deliberatividade (arbitrariedade).

 

Assim, por dentro de uma cotidianidade não fenomenológica, não contactante, somos latentemente ser no mundo, contato, como nossa realidade (realiz ação, atu ação) ontológica mais básica. Latência esta impregnada de possibilidades de ser, sempre dispostas à atualização, e fazendo-o, efetivamente, nas oportunidades de nosso modo atoativo de ser.

Mas as possibilidades, em seu pré-ser-se e desdobramentos atoalizantes, têm os seus ritmos e processamentos próprios. Seus critérios, dificuldades, potencializações, facilitações, oportunidades.

Emergem, configuram-se, constituem-se, adensam-se, pro-põem-se orgânica e paulatinamente, em sua vontade, força, projetativa, em particular a partir dos movimentos de nossa ação. Até os momentos em que estão maduras, prestes a reivindicar a sua ato ação, a sua atualização, a sua interpretação, a sua contact-ação.

De modo que, ainda que existamos em contato, vivenciado, própria e especificamente, ao nível do nosso modo de ser de nossa vivência de ser no mundo, como nossa condição ontológica mais básica, o desdobramento do contato, da atualização das possibilidades de ser, são cíclicos, paroxísticos, e momentâneos, em seus momenta de manifestação, a partir da latência crescente de suas possibilitações.

No distanciamento, na insensibilidade e dessensibilização para o nível da vivência de ser no mundo, estamos distanciados desses momenta da possibilitação, e da movimentação da atualização do contato/possibilidades de ser.

Este afastamento da vivência de ser-no-mundo/contato e de seu desdobramento, significa uma abstração deles, estão suspensos, ‘inter ditos’, na verdade ‘inter des ditos’, ou até ‘inter dis ditos’.

Na medida em que a sua concretude vivida é da ordem da vivência fenomenal pré-reflexiva, ‘present ativa’, imediata, intuitiva, ‘atu ativa’, a sua abstração significa a abstração desta vivência. E, em conseqüência, o desenvolvimento da ‘re flexão’, da consciência re flexiva, re(a)presentativa, o desenvolvimento, como tal, da mente e do mental. Ou o desenvolvimento do comportamento e do comportamental, domínio de ser do habitual e do mecânico, do ‘re petitivo,com a consciência dessensibilizada e diferente do modo de ser do domínio fenomenológico eksistencial das possibilidades de ser e das possibilitações do vivido.

Abstração, este modo de ser, o que é abstraído, suspenso, é a concretude, a concrescência, do vivido do ser no mundo, integridade e integração (que é mais do que a soma das suas partes) do que, na re(a)presentação da consciência reflexiva, teórica, conceitual, explicativa, aparece como dicotomia mente-corpo, self-mundo externo, sujeito-mundo(objeto). O que é abstraído é a vivência de ser no mundo, somente na qual o possível é possível, e se desdobra.

 

Afastando-nos do modo de ser da vivência de ser no mundo, podemos, assim, evitar o desdobramento do contato, como evitação do desdobramento das possibilidades de ser que lhe são inerentes, na intencionalidade da vivência de ser no mundo.

Mas não podemos evitar sermos contato, como nossa condição mais básica, latente e sempre acessível no modo de ser da vivência. Podemos nos afastar desse modo vivido de sermos, e do seu desdobramento. Mas não podemos optar pela não existência de nosso modo vivido de ser no mundo. Podemos evitar o desdobramento do contato, mas não podemos evitar o contato enquanto possibilidade, força de vir a ser.

Podemos, assim, afastarmo-nos de nosso modo de ser da vivência de ser no mundo – basta dedicarmo-nos à reflexão e ao comportamento, mecânico e repetitivo, sem o engendramento do novo, à objetivização. Afastarmo-nos assim do contato, e da possibilidade do desdobramento de suas possibilidades. Mas não podemos abstermo-nos de sermos contato, como dimensão ontológica de nossa condição existencial mais básica. Podemos evitar o desdobramento das possibilidades de ser inerentes ao ser no mundo: podemos nos recusar ao, ou evitar o desdobramento do contato, como recusa e evitação do desdobramento das possibilidades de ser inerentes ao ser no mundo. Mas não podemos evitar sermos contato, na intencionalidade da dimensão mais básica de nossa existência como ser no mundo. Não temos, ontologicamente, a opção de evitar o contato, e enclausurarmo-nos na mônada subjetiva.

Regularmente, o ritmo da existência dá-se, quantitativamente no modo de afastamento do contato. Qualitativamente a emergência dos momentos fenomenais criam e recriam, pela atualização de possibilidades, o ser de nossa existência.

 

O afastamento naturalmente reversível do modo fenomenológico existencial do vivido de ser no mundo, o afastamento do contato, este afastamento da dramática da interpretação das possibilidades vividas de ser no mundo/contato, é momento natural e saudável de retração e de repouso, momento natural também do ritmo do processo de adensamento e de potencialização das possibilidades de ser/contato.

Nesse modo de ser do afastamento, em particular, pode se constituir a reflexão e o comportamento. O provimento de dimensões de nossa vida que requerem o modo reflexivo ou o modo comportamental de funcionamento

Naturalmente reversível na saúde, o prolongamento deste afastamento inevitavelmente implica, todavia, na fragmentação partitiva progressiva do vivido, fragmentação do modo de ser da vivência, da integridade e da integração da totalidade ‘totalizativa’ da vivência de ser no mundo (que é mais do que a soma de suas partes). Implica na fragmentação do vivido da integridade e da integração corpo-mente, self-mundo externo.

Susta-se, na tendência ao afastamento do modo de ser vivencial do contato e de seu desdobramento, a integração e a integridade vividas no contato.

A reversibilidade, não obstante, aos momenta da vivência de ser no mundo é natural, e faz parte de nossa saúde, e capacidade para a auto regulação e para o ajustamento criativo, no chamado campo organismo-meio. Não se atualizando, todavia, esta reversibilidade, o corpo e a mente, o self e o mundo externo, o sujeito e o mundo (objeto), progridem em sua fragmentação e disintegração da integração e da integridade da vivência do contato no ser no mundo.

 

O afastamento da dramática da vivência do contato, da interpretação, desdobramento, das possibilidades vividas de ser no mundo, é, assim, momento natural do ritmo desdobramento/retraimento/condensação do processo do contato. Eventualmente potencializa o momentum da interpretação e do desdobramento. Ou atua seletivamente, evitando a atualização/desdobramento de possibilidades/contato insignificantes, desinteressantes, inconvenientes, dolorosas, perigosas...

Às vezes mesmo, a possibilidade tem efetivamente força de possibilidade, mas vem de bunda... Ou é feia, ou é doída, doída, sofrida... Às vezes insuportavelmente... Às vezes ela assusta e amedronta... nas implicações do ser outro que ela traz, na atualização de finitudes e sofrimentos (ainda indizíveis) que contém e implica, na força da novidade que carreia... Ou seja, a atualização e desdobramento da possibilidade pode exigir tempo de elaboração...

A bem da verdade, não existe possibilidade atualizada que não atualize ou possibilite, também, a ato ação, a atu alização de um término, de um final, de uma finitude, de uma “morte”, ou mesmo uma Morte mesmo...

No final, existe sempre a possibilidade da força, da alegria. Mas, no meio, às vezes, é como “cagar um osso atravessado...” Ou, talvez pior, abrir a porta, dar força, “dar luz a cego”, para um sofrimento indizível, intolerável... indesejado, para uma morte não querida, resistida, amaldiçoada, para a qual não se está ainda pronto.

 

A evitação significa um afastamento da concretude da vivência, e da atu ação de ser no mundo. Significa a abstração desta vivência, pelo privilegiamento da consciência reflexiva, teórica, conceitual, onde nos refugiamos da ameaça do desdobramento da possibilidade, do contato, de que estamos já grávidos e incumbidos, incubados. A evitação é abstração da vivência de ser no mundo, do contato e seu desdobramento, pelo privilegiamento da dessensibilização da fronteira do possível, e pela opção pelo reflexivo, deliberado, arbitrário, habitual, mecânico, ao mesmo tempo em que o corpo retrai-se e fragmenta-se do mundo que lhe é indissociável...

A Evitação eventual do Contato, do desdobramento, a evitação da atualização, das possibilidades de ser, pelo afastamento do modo de ser da vivência da ato ação das possibilidades de ser do ser no mundo, não são, assim, sem sentido, ou inorgânicas... Fazem parte natural da saúde da gente... Permite-nos o repouso, ou evita o desdobramento do contato, a atualização prematura ou mesmo indesejada, ou indesejável, de possibilidades de ser... Ou susta o processo assustado do desdobramento de uma possibilidade de ser, para potencializá-lo. Ou dá um tempo, por uma questão de timing... 

É preciso dar um tempo, e a evitação eventual sai do ‘tempo’, e serve a esta função, através do afastamento da vivência fenomenal, pré-reflexiva, da atualização e desdobramento da possibilidade de ser do contato no ser no mundo: o mero sustenido do contato, e do seu desdobramento, potencializa este desdobramento, e configura-se como arte do contacto, e da atualização do possível... Dá-se pela saída, retirada (às vezes até como fuga, saudável), do seu desterritório: especificamente o ser no mundo de sua vivência, e da ato ação das possibilidades de seu pré-ser-se. Pela abstração deles.

Na abstração da vivência do ser no mundo, e do inerente processo de ato ação das possibilidades de seu pré-ser-se, na abstração da integração e da integridade corpo/mente, self/mundo externo, encontramo-nos no abstrato, abstraído, deles. Ou seja, no sem-corpo, sem-vivido, sem-sentidos, sem-ação, sem-possibilitação, sem-ato ação, atualidade sem-atualização. (E há quem ainda queira, sobre tudo, a Ciência e a Técnica...).

Estamos no reflexivo, na reflexão, na teorização, na conceituação, na ekstase, stase, estagn ação da eksistencia. Ou no cotidiano do mecanicismo do comportamento, habitual, mecânico, padronizado e previsível, sem ato ação, sem atu aliz ação, sem ação. Que, como momento rítmico da existência, como momento processual... faz parte...

Como momento do ritmo da existência, é aí que vivemos a nossa cotidianidade normalizada, de que, também carecemos (mas sem exagero, né?). Ou é aí que nos refugiamos, que nos retraímos, e repousamos, do contato e de seu desdobramento. Que nos refugiamos e repousamos do assédio das possibilidades, que delas nos protegemos, que a elas regulamos, enquanto sujeitos, sujeitados (às vezes deliciosamente...), que delas protegemos o nosso mundo. Imaginemos, por exemplo, que temos a todo tempo a possibilidade de morrer... e a ela evitamos, e dela nos protegemos com os outros, e dela protegemos o nosso mundo com os outros...

Momentaneamente, assim, a interrupção pode atuar como sustação do contato, como sustação da atualização da possibilidade de ser, por uma questão de seleção, ou de momento oportuno, para, em seguida, enfatizá-la e efetivá-la, desdobrá-la, atualizá-la.

Sustém-se o contato -- às vezes, assim, no mero e saudável susto do que ele implica --, saindo-se do âmbito do seu desterritório. Ou seja: saindo-se do âmbito próprio da vivência do ser no mundo, e da desdobração do pré-ser-se, possibilidade de ser, que lhe são inerentes. Eventualmente como recurso de potencialização desta desdobração, ou como pressentida inabilidade de lidar com o que ele implica, e dando-se tempo para a habilitação, no melhor dos casos; uma vez que o pré-ser-se é sempre já e inevitavelmente uma incumbência, um incumbido, um íncubo, uma prenhez. Que se pode, até a ferro e fogo, interromper, mas que não se pode extirpar, e que permanece, inclusive, na impregnação de sua interrupção, ou nos diversos níveis de sua ininterrupção, como pré-ser-se, pronto, como tal, a re-tornar e a rebentar...

Como tal, quando é o caso, pois, a interrupção do contato não evita o sofrimento da finitude, incubados, incumbidos, visceralmente já, em um pré-ser-se que já se é, como tal, naquilo que nos existe de mais inamovível.

Trata-se, nesse caso, do dilema que Nietzsche aponta -- e que diante dele não vacila: entre sofrer de superabundância de forças de vida, ou de sofrer de uma falta de forças de vida:

Eu abençôo todo sofrimento, dizia Zaratustra, acerca do sofrimento inevitável...

A vida merece ser plenamente afirmada, mesmo quando ela é sofrimento, mesmo quando ela é finitude... E é esta afirmação própria da finitude, e do sofrimento que lhe são inerentes, como afirmação irrestrita da vida, mesmo no que ela tem de mais problemático, que potencializa o retorno da vontade, força, da possibilidade de ser, como vontade, força, da vida, atu ação do possível.

Na saúde, grande saúde, o desdobramento do contato/possibilidades de ser dominantes ao nível do ser no mundo, atualiza-se, mesmo após os momentos, estratégicos certamente, de afastamento. Assim, o contato e o seu desdobramento desdobram cíclica e periodicamente, ritmicamente, a possibilidade da vivência de ser no mundo que constantemente entranha-se, como um pré-ser, naquilo que somos. Alternativamente à mesmidade da cotidianidade de um sujeito e de um mundo, de uma mente e de um corpo constituídos, dicotomizados, e efetivamente passados, sempre em risco de aí encistarem-se.

Na saúde, a grande saúde, enfrentamos e afrontamos, heróica e naturalmente, inclusive, e em particular, o sofrimento e a finitude que nos estão incumbidos, incubados, na ato ação da possibilidade de ser. Desdobramos o contato como atualização, afirmação, de possibilidades de ser, dimensões inalienáveis de uma vida inalienável. Somos atores de um ser outro da possibilidade de ser, intérpretes da outridade de um possível ao qual podemos nos recusar, mas do qual já estamos grávidos.

E isto garante a força da vontade de outras possibilidades de contato e de desdobramento, a novidade, a força e o fluxo da existência, da criatividade, da auto-regulação e do ajustamento criativo.

 

Ritmo, é uma dimensão múltipla e crucial, crucialíssima, em termos de contato e de seu desdobramento. Na verdade, ritmo, precisão, sutileza, movimento pela linha de menor resistência...

“... e lá vou eu, gesto no movimento...” (Leminski).

O ritmo do desdobramento do contato e do retraimento. O tempo do adensamento das possibilidades e da sua madurez, os múltiplos ritmos da contactação, e do retraimento. E as múltiplas desrritmias, e disrritmias, do processo do desdobramento do contato e do retraimento... Todos eles fazem parte do processo do contato, e das dificultações e facilitações que este processo pode assim naturalmente implicar.

De modo que se afastar do contato, e do mergulho na efetiva ação de sua desdobração, faz parte, naturalmente, do movimento, do ritmo, do processo do contato. Assim como a sustentação sustenida, ótima, do silêncio imbrica-se com o som, e é natural elemento da música. Ou como na paquera a palavra (ação) inter dita, e intervivida, é sustenida, exatamente na curtição da alegria da exclusividade, e exclusivação, da movimentação e do inter jogo, do inter dito.

 

 

7.     Como atualização de possibilidade, ao nível da vivência de ser no mundo, o processamento do contato e do seu desdobramento pode ser habitualmente sustados, ou interrompidos, como estilo existencial.. Naturalmente, e ao ritmo organísmico da atualização das possibilitações, ou habitual e repressivamente.

 

Diferentemente da sustação rítmica e natural, diferentemente da interrupção, e mesmo abortamento, ou não escolha de possibilidades inoportunas, indesejáveis e/ou indiferentes, o contato, o processo do contato, pode ser interrompido regular e sistematicamente, por um estilo existencial habitual. Determinando um padrão pobre de atualização de possibilidades, e de criatividade, em particular num sentido existencial. Tendo como conseqüência uma baixa capacidade de ajustamento criativo, e de auto regulação organísmica. O desequilíbrio psicológico, configurando o que, não sem algum anacronismo, se chamava de neurose.

Como vimos, o processo do contato pode ser sustado e interrompido natural, com ampla reversibilidade, e saudavelmente. Não é o que ocorre na modalidade que ora tratamos de um estilo existencial de interrupção habitual do processo do contato e de seus desdobramentos.

Por medo, de um modo mais geral; por educação, melhor diríamos deseducação, por falta de repertório, por dificuldade de lidar com o novo, e com os sofrimentos que as finitudes que ele determina podem gerar, pode desenvolver-se um estilo existencial restritivo, ou mesmo avesso à atualização da força das possibilidades. Possibilidade que continuam a dar-se, inevitavelmente, como vivência pré-compreensiva, ao nível do ser no mundo. De modo que a atualização de possibilidades, o contato, meramente insinuados, são interrompidos ao nível da possibilidade da sua experimentação e interpretação, de um modo regular e habitual.

 Inter-des-ditos’ -- habitualmente, forçosamente, re-pressivamente , cronicamente, todavia (des-viados, na verdade...) -- a possibilidade, o contato e os seus desdobramentos, rompidos, interrompidos, emperrados, empedernidos, vão se tornando cada vez mais mal-ditos. Cada vez mais ek-stagn-ados, como uma gangrenação do pré-ser-se, como uma gangrengrenagem da possibilidade de ser: de novos ser no mundo, de novos mundos, e possibilidades de ser, de novos sujeitos, de novos eus, de novos outros...

E causando estragos. Ao ser no mundo, ao sujeito, ao objeto, ao mundo, à consciência, ao corpo, ao self...

Em primeiro lugar, num mundo progressivamente estagnante, decaente, e difícil, a criatividade existencial, a capacidades para o ajustamento criativo, minguam proporcionalmente.

Investida na sustação, na ruptura e na interrupção de seus desdobramentos, a vontade, o querer, a força, da possibilidade de ser, inerentes ao ser no mundo, investem-se na dis-integração da possibilidade da integração e da integridade do corpo/mente, self/mundo externo, próprios à dimensão da vivência de ser no mundo. Investem-se na desorganicidade, ou na disorganicidade, na desorganização (de um corpo vivido erótica e criativamente); da consciência flexível e reversível à dimensão da ex-peri-ência ex-peri-mental da vivência de ser no mundo – não inteiramente consciente, mas poiética, geradora e regeneradora. Investem-se na hostilidade ao corpo, ao self e ao mundo, investem-se no ressentimento, na culpa, na difamação do vivido e do mundo.

E tendem a diferenciar-se e a progredir paulatinamente as partes partizadas, dissociadas, dicotomizadas; e, no limite, alienadas.

A mente, ou seja, a consciência reflexiva, teórica, conceitual, cada vez mais, abstrata e abstraída, reflexiva, teórica, conceitual. A ponto de poder constituir-se como veneno -- um perigo a sua supervalorização, como diria Nietzsche... A consciência reflexiva, a mente, o mental, abstraídos da integridade e da integração da vivência de ser no mundo, distanciam-se, desintegram-se e disintegram-se do corpo, e do mundo.

O corpo que é vivido cada vez menos como vivido, e cada vez mais como objeto; ou como subjetivo, cada vez mais abstrato, cada vez mais abstraído da vivência e da vitalidade de sua espontaneidade de ser no mundo. 

A mente, o mental, e o corpo, idealizado e/ou objetificado, des integram-se e dis integram-se do corpo vivido como tal na espontaneidade da vivência de ser no mundo.

O corpo torna-se cada vez mais objetivo, e objeto, não raro alienígena e alienado, nos momentos de maior afastamento. Cada vez mais sofrido e sofrente, na medida em que se extingue o seu exercício, eminentemente ativo em sua natureza fundamental. O corpo perde, progressivamente, a sua característica de totalidade ativa, ‘atu ativa’ e ‘totalizativa’, diferente da soma de suas partes, e se fragmenta partitiva e desengonçadamente. Corpo que perde o espírito da espontaneidade e da graça da movimentação de sua vivência de ser no mundo, cada vez mais ‘des animado’, mecânico, cada vez mais enrijecido, deserotizado, incômodo, culpado, doloroso, psicossomaticamente perturbado e sofrente.

 

Por outro lado, cinde-se e partiza-se a dialógica da integração intencionalmente vivida entre consciência e mundo.

À medida que a consciência retrai-se do mundo, num subjetivismo cada vez mais enclausurado, o mundo, na direção oposta, progride em sua objetivização, afastando e inviabilizando cada vez mais o intercurso erótico e poiético, criativo, do mim mesmo-mundo, no qual, certamente, o homem é a imagem e semelhança de Deus.

Conseqüentemente, a plasticidade do mundo, a possibilidade de sua plasmação, no âmbito poiético da dialógica eu mesmo-mundo do modo da vivência da vivência de ser no mundo, desaparece paulatina e concomitantemente. À medida que o mundo afasta-se da dialógica, e vai, cada vez mais, sendo vivido como mundo objeto, mundo objetivo, cada vez mais alienado e alienígena, cada vez mais impossibilitado e impossível.

Evidentemente que isto se dá em termos do mundo e dos seus seres, e em termos das pessoas do mundo.

Nesta tendência, o mundo, seus seres e situações, já não são mais vulneráveis à poiesis da criação. Constituindo-se o sujeito como vítima, ou como destrutivo algoz, de um mundo, e dos seres de um mundo, alienígenas e alienados.

 

 

8.     Padrão da habitualidade da evitação do contato, hipertrofia da mente e do mental, da deliberatividade e da arbitrariedade da consciência. Hipertrofia do habitual, hipertonia da deliberatividade e da muscularidade, tensão muscular, estereotipia, distúrbios na fronteira, distúrbio psicossomático. Impossibilitação do contato e da atu-ação da possibilidade de ser.

 

A questão problemática, pois, para a Gestalt Terapia, é quando o afastamento da vivência de ser no mundo, e das possibilidades e possibilitações que lhe são inerentes, o afastamento da vivência do pré-ser-se que se é, e de suas possibilitações, o afastamento do contato, deixam de ser reversíveis. Perdem a sua natural reversibilidade.

Com o desenvolvimento da tendência ao predomínio, progressivamente excludente, da mente e do mental, ao predomínio da consciência reflexiva, teórica, conceitual, abstrata, sobre a vivência. A perda da sensibilidade vivencial para a situ ação  e para a ato ação de ser no mundo. O predomínio do comportamento, do habitual mecanizado, dessensibilizado e dessensibilizante da fronteira da possibilitação do ser no mundo; o corpo tenso e mecanizado. A desintegração e a disintegração corpo/mente, self/mundo externo, configurando-se como padrão habitual e modo de ser. Com a redução proporcional da capacidade para a criatividade existencial, para o ajustamento criativo, para a auto regulação organísmica e para o crescimento. E com a crescente hostilidade e violência contra o si mesmo, contra o corpo, contra o mundo e seus seres.

O problema para a Gestalt Terapia é, pois, o do congelamento do susto e da assustação da possibilidade, entranhada no contato. Pelo afastamento da vivência do desterritório que lhe é próprio: ou seja, o afastamento da vivência integrada de ser no mundo, de suas possibilidades e atualizações, de suas possibilitações...

Para a Gestalt Terapia, a questão problemática é quando a sustação da ato ação da possibilidade do contato perde regularmente a sua momentaneidade e potencialização de movimento de contactação. Quando a sua momentaneidade, o seu momentum, forçam-se e tendem para “baixo”, para o zero, para o nada, nihil... nihilização... nihilismo... Conduzindo à des-animação da vivência de ser no mundo, à des-animação do corpo vivido, de sua “mágica” inter-ação poiética com o mundo, conduzindo à prejudicação de seus processos organísmicos de auto regulação, e das possibilitações do seu ajustamento criativo, no emergido campo-organismo meio, oriundo, criado e recriado pelas possibilitações das ato ações das possibilidades da vivência de ser no mundo.

 

A consciência reflexiva determina-se pela deliberatividade, na verdade pela arbitrariedade deliberativa, em oposição à espontaneidade dialógica organísmica da vivência ‘ato ativa’ de ser no mundo. Na interrupção do contato a consciência reflexiva tende a distanciar-se, como sujeito, de um mundo que se objetiva cada vez mais, e do qual ela se ‘des integra’, e ‘dis integra’, distanciando-se cada vez mais, integrando-se de um modo cada vez mais problemático, cada vez menos orgânico, caso não possa reverter-se à vivência de ser no mundo.

Na dinâmica do contato/retraimento/adensamento da possibilitação do contato, este momento de reversão à vivência de ser no mundo é natural, e potencializa o contato e a atualização de possibilidades de ser.

Comprometida e prejudicada a reversibilidade e a dinâmica do ritmo entre o contato e o retraimento, o mundo objetifica-se progressivamente, na fragmentação, e afasta-se cada vez mais, tornando-se cada vez mais impossível, impossibilitado, alienígena, e progressivamente ameaçado e ameaçador, na medida em que vai sendo cada vez mais construído como tal.

Na irreversibilidade, o próprio corpo, distanciado do que originalmente é uma integração, desanimado de sua vivência enquanto integridade de vivência de ser no mundo, vê crescer o abismo e a desconexão entre ele e o mundo objetificado, mundo progressivamente em despossibilitação. Enquanto ele, originalmente ativo e criativo na integridade e na integração da vivência de ser no mundo, potente e dinâmico, progressivamente, igualmente, se despossibilita...

A experiência ‘da consciência’ perde-se da momentaneidade da integridade e da integr ação do ser no mundo, da vivência integrada corpo/mente, self/mundo externo, que lhe é própria, e é própria à momentaneidade do contato e do seu desdobramento, e não se oferece mais ao fluxo da espontaneidade dialógica do ser no mundo, e torna-se cada vez mais deliberada e arbitrária, tendencialmente compulsiva e histérica, cada vez menos espontânea, dialógica e vital.

Neste movimento, tendem, assim, a ser progressivamente dominantes, unilaterais, e irreversíveis, a consciência reflexiva, teórica, conceitual, com a sua deliberatividade e arbitrariedade compulsivas, teóricas e abstratas; o corpo voluntário e subjetivo (subjetado?), meramente voluntarioso e não espontâneo, e o mundo alienígena. O comportamento torna-se hegemônico, enquanto extinguem-se as possibilidades da ação, que atualiza possibilidades. No empobrecimento da movimentação do self que os integra na vivência de ser no mundo.

Num certo sentido, foi a isto que em Gestalt Terapia, ainda que um tanto quanto impropriamente, se chamou de “Neurose”[109]: A incapacidade para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio. Em função da soberania, no modo de ser, do corpo tenso, porque dissociado da vivência das possibilidades de sua ato-ação, indissociáveis e inalienáveis enquanto ser no mundo. A incapacidade para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio, em função da soberania do ser abstrato, abstraído, distanciado e excluído dos níveis mais básicos e viscerais de sua vivência de ser no mundo, e de suas possibilidades e possibilit-ato-ações (privilegiados no socratismo da cultura da Civilização Ocidental). Exatamente por isto, obsessivamente reflexivo, deliberado e arbitrário (decidindo reflexiva e arbitrariamente à revelia da espontaneidade vivencial das possibilitações do contato); a soberania do ser conceitual, do ser enclausurado na habitualidade do passado, exilado do possível.

A incapacidade, assim, para a auto regulação organísmica e para o ajustamento criativo no campo organismo-meio. A incapacitação para a vivência da espontaneidade de ser no mundo e da moviment ato ação de um corpo harmônico e efetivativo, de uma vivência de consciência poiética criativa. Em função da soberania, no modo de ser, da insensibilidade para a possibilidade, para a vivência do ser no mundo, para o contato do ser no mundo com seu possível. A incapacitação para o desdobramento de suas possibilidades, o desdobramento das possibilidades de um pré-ser-se ontologicamente inerente às possibilidades de ser humano, incubado e incumbido a cada momento na condição de ser humano.

A insensibilidade para a possibilidade de ser, e o mecanicismo gangrenengrenado de um ser desprovido de possibilidades. Que cada vez mais se abstrai e se esteriliza, se “purifica”, obsessivamente, obsessivamente se conceitua e conceitua os outros e o mundo, se reflete, se tensiona e enrijece, e, no limite, se vinga e se mata, e é querer matar tudo o que é vida e se move e é forte, e é espontâneo, e é bonito: tudo que é vida e pulsa com a prenhez do possível. Querer matar por que se é, em si mesmo, auto contraição, digo, auto contradição, do possível de que se é grávido inevitavelmente. Querer matar, basicamente, porque se é habitual e basicamente auto mortificação, passado. Incapaz e impotente para tornar-se o que se é como possível.

Não é outra a condição da “neurose” em Gestalt Terapia... Mas isso não tem nada a ver com neuro...

Existencialmente, o possível, dimensão ontológica do ser no mundo que é o humano, prescreveu-se, congelou-se. Re-premiu-se a vontade (força) do possível, pela re-pressão da espontaneidade do corpo e da vivência de ser no mundo. Em, e através de, uma consciência obsessiva e de um corpo progressivamente compulsivo, tenso e doentio. Através do comportamento compulsivo e excludente, de  uma ato ação constipada, de um sujeito prepotente, de um corpo, de uma abstrata consciência, e de um mundo, alienígenas, desmembrados de sua vivência integrada e integrativa, possibilitativa, de ser no mundo.

 

Nietzsche[110], no Zaratustra, comentando acerca do aprisionamento da vontade (da força) do possível, bastante pertinente à condição da “neurose” tal como é concebida pela Gestalt Terapia, observa:

Vontade -- assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: foi isso que vos ensinei, meus amigos! Mas agora aprendei também: a vontade, ela própria, ainda é prisioneira.

(...)

'Oh!, todo prisioneiro se torna louco! A vontade prisioneira liberta-se também pela loucura!

'E a sua raiva é que o tempo não volta atrás; ‘Aconteceu’, assim se chama a pedra que ela não pode deslocar.

'E, por raiva e por despeito, levanta pedras e vinga-se naquele que não experimenta como ela raiva e despeito.

'Deste modo a vontade que liberta torna-se malfeitora: e vinga-se em tudo o que pode sofrer, pelo facto de não poder voltar atrás.

'Isto, e somente isto, é a própria vingança: a antipatia da vontade a respeito do tempo e do seu "Aconteceu".

'Na verdade, a nossa vontade é habitada por uma grande loucura; e para maldição de tudo o que é humano, esta loucura aprendeu a ser espírito.

'O espírito de vingança’ (...) e onde quer que tenha havido sofrimento sempre se tornou necessário um castigo.

‘Castigo’, na realidade é o próprio nome da vingança: simula uma boa consciência com uma palavra mentirosa.

'E como há sofrimento naquele que quer, porque não pode querer voltar atrás, a própria vontade e toda a vida deveriam ser -- um castigo!

'E eis que as nuvens se acumularam sobre o espírito: até que finalmente a loucura proclama: "Tudo morre porque tudo é digno de morrer!"

'E esta lei que quer que o tempo devore os seus filhos é a própria justiça: assim proclamou a loucura.

'As coisas estão ordenadas moralmente segundo o direito e o castigo. Oh!, onde está a libertação do curso das coisas e do castigo da existência?’ -- assim proclamou a loucura.

 

A seguir, Zaratustra reitera os seus segredos e os seus caminhos, na afirmação da vontade, na libertação do possível e da criação, e reitera a sua crítica a uma cultura ainda prisioneira da vontade negativa: do ressentimento e da culpa, do niilismo, pela repressão da vontade, e do possível.

 

(...) ‘o querer é um criador.’

Todo o 'Aconteceu' é um fragmento, um enigma, um terrível efeito do acaso -- até ao momento em que a vontade criadora acrescente: 'Mas foi assim que eu quis!

Até ao momento em que a vontade criadora acrescenta: 'Mas é assim que eu quero! Assim que hei-de querer!

Mas alguma vez falou assim? Quando o fará? A vontade deixa de estar atrelada a sua própria loucura?

Tornou-se já a vontade o seu próprio redentor e mensageiro da alegria? Esqueceu ela o espírito de vingança e todo o ranger de dentes?

E quem lhe ensinou a reconciliação com o tempo e alguma coisa de maior que qualquer reconciliação?

A vontade que é vontade de poder deve querer alguma coisa de maior que todas as reconciliações: mas como o irá fazer? Quem lhe ensinou a querer restabelecer o passado?

 

Na sua forma criadora, livre de sua loucura vingativa e auto negativa, a vontade afirmada, a afirmação afirmada, é passagem para o futuro, é trans-form-ação do passado. É o querer que liberta. Senhora do acaso do limite, que pode recebê-lo, afirmá-lo e metabolizá-lo, no engendramento criativo e efetivo do futuro. Que pode não só engendrar este futuro com a digestão do acaso e dos sentidos e efeitos do passado, mas re-significar o passado, conferindo-lhe outros sentidos e outros efeitos. Sentidos e efeitos agora feitos e afeitos à força da vontade em sua afirmação.

De modo que o grande segredo da plasticidade do passado é a afirmação da vontade, a afirmação da força de ser, o tornar-se o que se é, re-tornar, e tornar o mundo. É a possibilidade de engendramento de novos sentidos e de novos efeitos do passado, de engendramento do futuro, a possibilidade de criação, e de engendramento dos filhos próprios desta criação, tendo como matéria prima o acaso e os consagrados sentidos e efeitos do passado. Porque são possíveis outros efeitos do passado, e um outro passado é passível de invenção e de desejo.

 

Todos os sentimentos em mim sofrem e estão prisioneiros: mas a minha vontade aparece sempre como libertadora e mensageira da alegria.

Querer liberta: tal é a verdadeira doutrina do querer e da liberdade (...)

Não mais querer, não mais julgar e não mais criar. Ah!, que esta imensa fadiga fique sempre longe de mim.[111]

O quadro típico da “neurose”, segundo a concepção da Gestalt Terapia de Perls[112]: propriocepção e percepção final subconscientes, hipertonia da muscularidade e da deliberatividade, perda da capacidade para o funcionamento espontâneo e para a auto regulação organísmica, incapacidade para o ajustamento criativo, dicotomização corpo/mente e self/mundo externo; A atuação atípica dos mecanismos de emergência, ao nível do que se entende por “fronteira de contato”, os chamados “distúrbios na fronteira”, os distúrbios psicossomáticos ..., decorrem, no limite, da inter dicção da dimensão da vivência do possível e de suas atualizações na vivência de ser no mundo.

Interdição por e para uma consciência deliberada e arbitrária, por e para um corpo tenso e inativo (ainda que compulsivamente comportamental, eventualmente). Uma subjetivação e uma objetivação desmembradas, alienadas, da dimensão e dos momenta da ato-ação das possibilidades de ser no mundo. Ou seja, da interdição e interrupção do processo do contato, do processo do desdobramento de suas possibilidades como desdobramento das possibilidades inerentes à vivência de ser no mundo.

 

 

9.     Gestalt Terapia como hermenêutica experimental do contato (situação hermenêutica e condições da situação hermenêutica). Onto poiética experimental do contato.

 

O possível, o pré-ser-se-no-mundo, condensam-se e adensam-se no sustenido e no susto do contato; mesmo no congelamento do susto do contato. O possível, as possibilidades e as possibilitações do pré-ser-se do ser no mundo, o contato e o seu desdobramento, estão sempre e inevitavelmente acessíveis, impõem-se na vivência de ser no mundo; freqüentemente de um modo imperioso, mesmo, e em particular, na sua interrupção...

Para a Gestalt Terapia, a saúde reside fundamentalmente numa identificação com o self, numa identificação com a vivência do self de ser no mundo.

Isto significa dizer, que a saúde reside em uma identificação com o vivido de ser no mundo, pré reflexivo e pré-conceitual, como a nossa experiência mais substancial, fonte eksistencial de nossa subjetividade, e fonte efetiva das dinâmicas de nosso ajustamento criativo e de nossas auto regulações organísmicas.

Esta identificação com o self comporta os momentos naturalmente rítmicos de retração da vivência de ser no mundo, e a reversibilidade rítmica, entre as duas dimensões, guardada a valorização de nosso ser hermenêutico, em nossa vivência de ser no mundo.

Como vimos, nesta vivência de ser no mundo constitui-se o processo do contato, e o processo hermenêutico fenomenológico existencial de desdobramento do contato, como desdobramento (da compreensão do ‘logos’) das possibilidades de ser inerentes à vivência de ser no mundo (interpretação fenomenológico existencial).

Do ponto de vista da Gestalt Terapia, o vigor do desdobramento experimental das possibilidades de ser, o vigor do desdobramento do contato, é um sintoma, um critério e uma condição de nossa saúde.

De modo que são dimensões naturalmente inerentes da existência os momentos de afastamento, ou mesmo de sustação, do processo do contato, e os momentos de seu desdobramento. Mas a reversibilidade rítmica entre os momentos de retração, ou de sustação, e os momentos de ato ação, de ato alização, é naturalmente imprescindível à saúde. Da mesma forma que o vigor da disposição experimental de contactação, ou seja, o vigor de atu alização, de ato ação, das possibilidades vividas constituídas na momentaneidade pontual da dinâmica da vivência de ser no mundo.

Para a Gestalt Terapia, a fragilização e o comprometimento da saúde decorrem de um comprometimento desta identificação com o self como vivência mais substancial de nosso ser. Decorrem de um comprometimento da reversibilidade naturalmente rítmica entre os momentos de afastamento, ou mesmo de sustação, do processo contato, e os momentos do processo de seu desdobramento, de sua atu ação, de sua atu alização, como atu ação e  atu alização das possibilidades de ser inerentes à momentaneidade da vivência de ser no mundo.

Assim, o sentido da estratégia da Gestalt Terapia é o de criar espaço, tempo, e condições, para o vivido da vivência de ser no mundo, na momentaneidade da atu ação, da atu alização de suas possibilidades vividas de ser e vir a ser, para que o cliente possa dar-se a eles.

O sentido da concepção e da prática da Gestalt Terapia, assim, é o da criação de um espaço, de um tempo, de condições, e de uma certa pareceirização, seja com o terapeuta ou com o grupo, para um privilegiamento inter humano das dialogicidades da vivência das possibilitações de ser no mundo. Para uma otimização do processo do contato e do seu desdobramento, para uma otimização do ritmo da reversibilidade entre os momentos de retração e sustação do contato e do seu desdobramento, e os momentos de sua ativ-atu-ação.

Interessa-nos que o cliente possa ter tempo, espaço e condições para entregar-se ao momentum vivido de sua atualidade e de sua atualização, de sua vivência de ser no mundo. De modo que possa interpretá-lo, ou seja, que possa ser intérprete (num sentido fenomenológico existencial) de suas possibilidades e possibilitações, de acordo com o modo próprio e pontual da configuração destas.

O sentido da Gestalt Terapia é, pois, o de uma hermenêutica (a arte da interpretação) fenomenológico existencial experimental do contato. Uma opção pela, e um privilegiamento ativos, da possibilitação da inter humanidade dialógica, do espaço e do tempo próprios da ontopoiese naturalmente decorrente do desdobramento (interpretação) fenomenológico existencial do processo do contato. Da atu ação, da atualização, das possibilidades de ser no mundo, por parte de cliente e terapeuta, no contexto terapêutico.

Neste sentido, convém mencionar que a Gestalt Terapia propõe-se como logos metódico o de criar condições para a afirmação da condição humana, na medida que[113] o próprio ser no mundo é hermenêutico, na medida que sua própria eksistencia é interpretação fenomenológico eksistencial – mais ou menos artística, vale dizer. Na medida em que se gera e regenera através da ato ação, atualização, desdobramento (interpretação) de suas possibilidades de ser.

Como observamos, o contato, como o entendemos é a própria ato ação momentânea e monumentual da possibilidade de ser. Que pode ser sustada, eventualmente, ou de modo mais ou menos habitual, e crônico.

A interpretação, ousada, e naturalmente a/venturesca, artística, fenomenológica e existencial deste desterritório e tempo do vivido, da vivência, a interpretação ousada das possibilidades e possibilitações do ser no mundo – desdobramento das possibilidades do ser no mundo, desdobramento do processo do contato --, configuram o que entendemos como experimental, num sentido fenomenológico e existencial.

A Gestalt Terapia é, assim, uma abordagem eminentemente experimental, no sentido fenomenológico e existencial. É a prática de uma hermenêutica (“arte da interpretação”) fenomenológico existencial experimental das possibilidades de ser do ser no mundo, do contato.

Daí que o modo vivido da consciência (digamos) -- e não o modo reflexivo, teórico --, o tempo e o espaço do vivido, da ruminação, e da ex-pressão, sejam as modalidades caracteristicamente privilegiadas da vivência no âmbito peculiar da Gestalt Terapia. Uma vez que é neste modo de ser que o possível é possível e se desdobra.

 Assim, para o cliente de contato assustado, sustado, interrompido; o cliente de padrão mais ou menos eventual, mais ou menos habitual, ou situacional, de interrupção do processo do contato, processo de atualização de suas possibilidades de ser no mundo, o que o Gestalt Terapeuta pode oferecer, no âmbito de seu poder, de seu espaço, de seu tempo, de sua dialógica parceria inter humana, é a abertura e a eventual concentração, na sua interpretação (hermenêutica fenomenológico existencial) da vivência imediata de seu ser no mundo. E de atualização, ato ação, de suas possibilidades de ser. Com a coragem, ousadia, e mesmo audácia, experimental que tal empreitada solicita

De modo que a qualidade do trabalho gestalt terapêutico diz respeito, específica e propriamente, à constituição de condições de potencialização da interpretação da ato ação, projetação, das possibilidades de ser do ser no mundo. Ou seja, as condições efetivas da prática de uma hermenêutica fenomenológico eksistencial, experimental, no âmbito de sua vigência, digo vivência.

Para o cliente que desenvolveu um padrão mais ou menos crônico, mais ou menos eventual e situacional de interrupção do processo do contato, a Gestalt Terapia oferece assim as condições hermenêuticas experimentais de uma potencialização da ontológica ontopoiese experimental própria à ousadia do desdobramento do contato em suas possibilidades e possibilitações.

Se propomos para o cliente momentos de vivência de uma hermenêutica experimental das possibilidades e possibilitações de seu ser no mundo, vale dizer que é exatamente esta, igualmente, a disposição do terapeuta gestáltico, na dialogicidade da relação inter humana com o cliente, ao longo do processo terapêutico. A disposição do gestalt terapeuta é uma disposição eminentemente experimental.

 

Neste sentido, creio, teremos interpretado aqui uma cartografia, ainda que esquemática, da Gestalt Terapia em sua concepção original. Própria e especificamente fenomenológica e existencial.

Alguns aspectos são fundamentais, e carecem de uma maior problematização e formulação, no contexto específico da concepção e da prática da Gestalt Terapia. Quais sejam: o caráter do contato como hermenêutica fenomenológico existencial experimental; a situação e as condições desta hermenêutica fenomenológico existencial no contexto da prática Gestalt Terapêutica; a poiese, ontopoiese, constituinte desta hermenêutica. A natureza de seu caráter especificamente experimental, num sentido fenomenativo existencial. E o próprio papel do psicoterapeuta.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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 Ophycina do Livro

2005

 

 



[1] NIETZSCHE, Fredrich - Assim Falou Zaratustra, Mira-Sintra, Europa-América, 1978. p.196.

[2] op. cit. p137.

[3] op. cit. p.118.

[4] op. cit p.162.

[5] op. cit. 161.

[6] op. cit. 171.

[7] op. cit. pp294-5.

[8] op. cit. p. 209.

[9] op. cit. p. 167.

[10] op. cit. p. 196.

[11] op. cit. p. 137.

[12] ibid.

[13] op. cit. p.167.

[14] DELEUZE, Gilles - Nietzsche e a Filosofia, Rio, Ed. Rio, 1975.

[15] NIETZSCHE, F. op. cit. pp.137-9.

[16] op. cit. p.82.

[17] ibid..

[18] op. cit. p.205.

[19] op. cit. p.118.

[20] op. cit. p.126.

[21] op. cit. pp.201-2.

[22] op. cit. p.112.

[23] ibid.

[24] op. cit. p.81.

[25] op. cit. pp. 294-5.

[26] op. cit. p.209.

[27] op. cit. p.235.

[28] op. cit. p.71.

[29] op. cit. p.73.

[30] op. cit. p.303.

[31]MACHADO, Roberto - Nietzsche e a Verdade Rio: Rocco, 1984.

[32]DELEUZE, Gilles op.cit.

[33]op cit p.

[34]MAFFESOLI, Michel A Conquista do Presente. Rio:Rocco,.

[35] cf. MACHADO, Roberto. op.cit.

[36]MAFFESOLI, op.cit. p.45

[37]DELEUZE, G. op. cit. p.09

[38] op.cit. p.10.

[39] op.cit. p.15.

[40] op. cit p.20.

[41] op. cit. p.21.

[42] op. cit. p.19.

[43] op. cit. p.

[44] op. cit. p.

[45]MACHADO, Roberto op.cit. pp. 51-2.

[46] op.cit. p.49.

[47] PALMER, Richard Hermenêutica. Lisboa: Edições 70. 1999.

[48] HEIDEGGER, Martin El Ser y el Tiempo. Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1984. P.167.

[49] cf. MAFFESOLI, Michel op. cit. p.136.

[50] ibid.

[51] PALMER, Richard op. cit pp 92-105.

[52] HEIDEGGER, Martin - Op. Cit. pp. 160-1.

* Grifos nossos.

* “Estado de ânimo”.

** Versão do Espanhol do autor.

[53] Op. Cit. p.149.

[54]  ibid.

[55] FERREIRA, Aurélio Buarque de H Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio: Editora Nova Fronteira, 1ª Edição. p.777.

[56]  ibid.

[57] op. Cit. p. 1220.

[58] NIETZSCHE, Fredrich - ECCE HOMO, São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

[59] HEIDEGGER, M. op. cit. P.167.

* Grifos nossos.

[60] MAFFESOLI, Michel - op. cit. pp.136-7.

[61] ARENDT, Hannah - A Condição Humana, São Paulo-Rio, Forense Universitária, Salamandra, EDUSP, 1981. Pp.37-59.

* Vi esta observação em uma revista, fico em débito com o autor, uma vez que não tenho disponível a referência.

[62] FROMM, Erich O Medo à Liberdade. Rio: Zahar, 1973.

[63] MACHADO, Roberto – Nietzsche e a Verdade, Rio, Rocco, 1984.

[64] FINK, Eugen – A Filosofia de Nietzsche. Lisboa: Presença, 1983.

[65] Cf. FERRAZ, Maria C. Franco - Nietzsche, o Bufão dos Deuses. Rio, Relume-Dumará, 1994. Pp. 111-2.

* Grifo nosso.

[66] NIETZSCHE, Friedrich - A Gaia Ciência. Lisboa, Guimarães, 1984. p. 297.

[67] PERLS, Fritz – Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, Rio, Zahar, 1977.

* É interessante observar como a definição por Perls desta perspectiva para a Gestalt Terapia coincide com a perspectiva Nietzscheana. Nietzsche chegou a colocar esta perspectiva no subtítulo de sua autobiografia: Ecce Homo. Como alguém torna-se o que é. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

[68] NIETZSCHE, Frederich. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[69] cf. BUBER, Martin – Elementos do inter-humano in Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo, Perspectiva.

[70] ver Fonseca, Afonso H.L. da Gestalt Terapia, Dialógica da Provocação. Revista de Gestalt Terapia de São Paulo, 1997.

[71] LALANDE, André Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

* Sobre o sentido do “Experimental” em Gestalt Terapia, ver neste livro o capítulo Perspectivações Acerca da Experimentação Fenomenológico Existencial em Gestalt Terapia. Ver, também o livro FONSECA, Afonso H L Experimentação. Maceió, Pedang, 2005.

[72] Ver o capítulo A Tradição Fenomenológica do ato, de Brentano, e a Experimentação em Psicologia e Psicoterapia.in FONSECA, Afonso H L Experimentação. Maceió, Pedang, 2005.

[73] ALBERTAZZI, Liliana. LIBARDI, Massimo, POLI, Roberto The School of Franz Brentano. Dordrecht: Nihoff, 1996.

[74] op.cit.

[75] NERUDA, Pablo

[76] CARDINAL, Roger O Expressionismo. Rio, Jorge Zahar, 1984.

[77]  ibid.

[78] DELEUZE, Gilles Nietzsche e a Filosofia. Rio, Editora Rio, 1976.

[79] GOLOMB, Jacob Nietzsche and Jewish Culture. New York, Routledge, 1997.

[80] BUBER, Martin – ENCONTRO – FRAGMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS. Petrópolis, Vozes, 1991.

[81] BUBER, Martin – Eu e Tu. São Paulo, 1982. e Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo, Perspectiva, 1985.

[82] HEIDEGGER, Martin op cit. p.22

[83] HEIDEGGER, Martin op cit. pp. 147-99.

[84] op cit. P.

[85] HEIDEGGER, M. op cit. pp. 54-5.

* Grifo nosso,

[86]  HEIDEGGER, M. op cit. p 22.

[87] op cit. p.30.

[88]  LIBARDI, Massimo Franz Brentano (1838 – 1917) in ALBERTAZZI, L. LIBARDI, M. POLI, R. op. cit. pp.25-79.

[89] MACHADO, Roberto – NIETZSCHE E A VERDADE, Rio: Rocco, 1985.

[90]PERLS, F, HEFFERLINE, R, GOODMANN, PAUL, op.cit. p. 353.

[91]op.cit. p.321.

[92] op cit. P.325.

[93] p.312.

* Grifo nosso.

* Grifo nosso.

[94] op. cit p.320.

[95] op cit. pp 334-5.

* Grifo nosso.

[96]  Op. Cit. 274.

[97] op.cit. p.103.

[98]  ibid.

[99] ZINKER, Joseph – THE CREATIVE PROCESS IN GESTALT THERAPY New York: The First Vintage Books, 1977.

[100] NIETZSCHE, Fredrich op.cit,

[101] NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência Lisboa: Guimarães, 1984.

[102] BUBER, Martin op. cit. p.

[103] HEIDEGGER, M. ibid.

[104] op. cit. pp. 147-99.

[105] PERLS, Frederick s., HEFFERLINE, Ralph F, GOODMANN, Paul Gestalt Therapy. Excitement and Growth in Human Personality. New York: Penguin Books, 1969.

[106] PERLS, F. S. op. cit pp. 320-78; p.353.

[107] PERLS, F. S. op. cit. pp.299-319.

[108] PERLS, F.S. op.cit. pp.467-500.

[109] PERLS, F.S. op.cit. pp.267-98.

[110] NIETZSCHE, F Assim Falava Zaratustra, Lisboa: Europa América, 1978. pp. 137-9.

[111] NIETZSCHE, F. op cit. p 82.

[112] PERLS, F.S. ibid.

[113] HEIDEGGER, M. op. cit. pp.18-24.




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Afonso Fonseca,
28 de mar de 2014 22:16
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