Dificuldades de Aprendizagem

 
 
DEFINIÇÃO

A expressão dificuldades de aprendizagem é actualmente usada para descrever uma perturbação que interfere com a capacidade para guardar, reter, processar ou produzir informação. O IDEA define dificuldades de aprendizagem como "uma perturbação num ou mais dos processos psicológicos básicos envolvidos na compreensão ou no uso da linguagem falada ou escrita, a qual se pode manifestar através de uma capacidade imperfeita para escutar, pensar, falar, ler, escrever, soletrar ou realizar cálculos matemáticos" (Centro Nacional de Informação para Crianças e Jovens com Deficiências, 1992). De acordo com a lei citada, as dificuldades de aprendizagem não incluem problemas de aprendizagem resultantes, principalmente, de deficiências visuais, auditivas ou motoras, de deficiência mental ou de desvantagens ambientais, culturais ou económicas.

 

INFORMAÇÕES DE CARÁCTER GERAL

Pela análise da literatura existente neste campo, verifica-se que são usados vários termos para referir as dificuldades de aprendizagem. Este estado de coisas não é surpreendente, se se considerar que o problema em questão envolve múltiplas áreas, incluindo a educação especial, a psicologia, a correcção da fala, o desenvolvimento infantil, a neurologia e a clínica geral.

O facto de os valores estatísticos relativos ao número de crianças com dificuldades de aprendizagem apresentarem uma grande variação - entre 1 a 30% da população geral - reflecte a não coincidência de parâmetros que definem este problema. Em 1987, o Comité Inter agências sobre Deficiências de Aprendizagem concluiu que 5 a 10% poderiam ser considerados valores razoáveis. Em 1991, o Departamento de Educação dos Estados Unidos referiu que cerca de 5% de todas as crianças em idade escolar eram alvo de serviços de educação especial. No ano lectivo de 1989/90, mais de 2 milhões de crianças com dificuldades de aprendiza­gem recebiam os referidos serviços.

Uma criança cujos resultados académicos não são satisfatórios pode parecer preguiçosa ou emocionalmente perturbada. No entanto, os problemas que regista podem ter origem em dificuldades de aprendizagem e necessitar, por isso, do recurso à intervenção. É essencial que estes alunos sejam identificados o mais precocemente possível, a fim de evitar ou de suavizar a frustração e a sensação de insucesso de que tais alunos sofrem. Uma abordagem levada a cabo por uma equipa multidisciplinar ajudará a potenciar o desenvolvimento global da criança.

É necessário determinar o QI do aluno, de forma a poder avaliar se o seu desempenho corresponde ou não ao seu potencial. A existência de uma discrepância entre capacidade e desempenho do aluno pode ser factor indicativo de dificuldades de aprendizagem. Dado que as estratégias de aprendizagem a adoptar para cada aluno dependem do tipo de dificuldade de aprendizagem diagnosticada, é essencial que se proceda a uma avaliação do aluno em causa. Com base nessa avaliação, obter-se-á informação precisa que se revestirá de grande importância para os alunos, para os pais e para o professor, uma vez que permitirá a estes últimos compreender e apoiar o aluno a aprender e a ultrapassar os efeitos da dificuldade em questão. Para identificar estes alunos, pode ser necessário recorrer à avaliação formal e informal, avaliação que caberá tanto aos profissionais da educação como aos da saúde.

 

CARACTERÍSTICAS

Os indivíduos com dificuldades de aprendizagem podem registar problemas na compreensão do que é lido, na fala, na escrita e na capacidade de desenvolver raciocí­nios. As características que se seguem podem, portanto, ser detectáveis nestes alunos:
 
manipulação estranha de lápis e tesouras

suppordistracção

hiperactividade

problemas de coordenação a nível da percepção

impulsividade

 falta de competências organizacionais

pouca tolerância a frustrações e a problemas

 dificuldade em desenvolver raciocínios

 dificuldade numa ou mais áreas académicas

auto-estima diminuída

problemas a nível de relações sociais

 dificuldade em iniciar ou em completar tarefas

 desempenho irregular e imprevisível em situações de avaliação formal

 défice de memória auditiva sequencial

défice de memória visual sequencial

 dificuldades de processamento auditivo

problemas de coordenação visual-motora

 disfunções no sistema neurológico

As características aqui apresentadas podem variar de indivíduo para indivíduo. No entanto, há um factor comum a todos: o seu QI está dentro da média ou mesmo acima desta. Regista-se, também, uma discrepância, já referida, entre capacidade intelectual e resultados obtidos em uma ou mais áreas académicas. Dependendo da natureza da dificuldade de aprendizagem, o aluno pode adquirir rapidamente algumas competências e mostrar-se extremamente lento na aquisição de outras.

Infelizmente, os alunos com este tipo de problema são por vezes erradamente considerados lentos, em termos de aprendizagem, sendo ainda vistos como exibindo uma fraca evolução académica. É importante que os registos académicos do aluno sejam verificados e que se avalie os dados que o seu perfil académico revela. Um aluno cujo processo de aprendizagem se desenvolve lentamente apresentará, a nível de evolução, um perfil regular mas baixo, enquanto o perfil do aluno com dificuldades de aprendizagem revelará um padrão marcadamente irregular de progressos e regressões na aquisição de competências. As competências na área da linguagem, no primeiro caso aqui em análise, não se adequam à idade do aluno, enquanto muitas vezes tal não acontece com alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem.

A área do comportamento pode também ajudar o professor a identificar a diferença existente entre os dois casos referidos. No primeiro caso, o aluno pouco compreende as consequências advenientes de um comportamento imaturo, o que estabelece contraste directo com o aluno que se enquadra no segundo caso. Este aluno pode agir inadequadamente mas tem plena consciência das consequências do seu comportamento. Infelizmente, tal compreensão poderá não ter qualquer influência no seu comportamento.

O recurso à intervenção não produzirá alterações significativas no ritmo de aprendizagem do aluno que se revela lento neste campo, enquanto tal não acontece com o aluno que tem dificuldades de aprendizagem. As técnicas de intervenção, com estes alunos, podem, em alguns casos, produzir progressos académicos regulares, próximos dos padrões usuais.

 

ESTRATÉGIAS A ADOPTAR

O aluno com dificuldades de aprendizagem pode apresentar um ou mais dos problemas abordados neste livro. Portanto, o professor necessitará de saber quais os problemas específicos que o aluno tem. Só a partir daí será possível dar res­posta às necessidades educativas do aluno. Por exemplo, se este regista uma disfunção visual, seria contraproducente recorrer a métodos de carácter marcadamente visual. O professor deverá, pois, ter conhecimento da modalidade de aprendizagem em que o aluno melhor funciona, a fim de poder explorar os seus pontos fortes. É, no entanto, de notar que, de forma a dar resposta às necessidades de todos os alunos da classe, a opção ideal residirá numa abordagem multi sensorial.

O aluno que apresenta dificuldades de aprendizagem necessita de estar inse­rido num ambiente bem estruturado. De forma geral, o rendimento dos alunos melhora quando o professor esquematiza no quadro as actividades a realizar ao longo do dia ou da aula e apresenta, segundo o mesmo processo, os objectivos a atingir. Uma revisão de factores como tempo e regras associados a cada nova actividade ajuda igualmente o aluno com dificuldades de aprendizagem a fazer a transição entre uma actividade e outra.

Algumas actividades realizadas na sala de aula ou a existência de constantes e múltiplos diálogos simultâneos conduzem facilmente alguns alunos com dificuldades de aprendizagem a um estado de estimulação excessiva. Nestas condições, estes alunos apresentam frequentemente um comportamento inadequado, o qual pode perturbar toda a classe. O professor, neste caso, tem a seu cargo a responsabilidade de ajudar os alunos em questão a recuperar o comportamento adequado. O professor pode criar um espaço na sala de aula ao qual o aluno se pode dirigir para fazer uma pausa, afastando-se das actividades em curso. Pode ainda, por exemplo, pedir ao aluno que vá realizar uma qualquer tarefa fora da sala de aula, ou poderá mesmo encaminhá-lo para a biblioteca da escola. Tais acções, porém, nunca devem ter um carácter punitivo, servindo tão-só como oportunidades para o aluno poder usufruir de momentos de sossego e assim recuperar a calma perdida.

A modalidade de aprendizagem de muitos alunos com dificuldades de aprendizagem é uma modalidade cinestésica. Estes alunos têm maior facilidade em aprender, quando podem ver e tocar objectos concretos relacionados com os conteúdos que estão a ser leccionados. Conseguem também produzir uma imagem cinestésica, se, com os dedos, formarem as letras e os números no espaço. Dependendo da idade do aluno, o recurso a areia e a lixa para formar letras e números produz o mesmo efeito. No entanto, na classe regular, uma abordagem deste tipo isolará o aluno, a menos que todos estejam a usar o mesmo método. O recurso à manipulação de objectos em que toda a classe ou um pequeno grupo está envolvido resulta menos intimidativo e todos os alunos serão beneficiados.

O professor precisa de ser flexível, no que diz respeito aos trabalhos que distribui. Se um aluno tem dificuldade em produzir um relatório escrito, deve ser considerada a hipótese de o substituir pela versão oral ou gravada. Os computadores são ferramentas extremamente úteis neste campo, existindo mesmo vários tipos de programas destinados a facilitar a produção escrita. Pode também ser necessário reduzir a extensão dos trabalhos escritos, de forma a que o aluno com dificuldades de aprendizagem possa ser bem sucedido na total realização do exercício em causa.

Acima de tudo, o professor deverá assinalar os sucessos obtidos por estes alunos, ainda que eles possam ser reduzidos. Tal como deve acontecer com todos os alunos, o feedback deve ser positivo e imediato. O recurso a técnicas de modelação do comportamento pode também estimular o desejo que o aluno tem de ser bem sucedido.

É essencial que o diagnóstico das dificuldades de aprendizagem e dos problemas que acarretam tenha lugar o mais precocemente possível. Se se não tiver conhecimento dos factos e se se não apoiar o aluno, este sentir-se-á cada vez mais frustrado e perturbado pelo seu recorrente insucesso. Em fases posteriores da sua vida académica, o aluno pode mesmo desistir de tentar ser bem sucedido. As crianças cujos problemas são detectados precocemente e que, por essa razão, são submetidas a intervenções adequadas, podem desenvolver estratégias que compensem as suas dificuldades e que lhes permitam ter sucesso.

 

 

In Nielsen, L. (1999) Necessidades Educativas Especiais na Sala de Aula: Um Guia para Professores, Porto Editora, Porto.
Comments