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Os caminhos da boca

Este texto foi aprovado pelo Conselho Regional de Odontologia do Rio de Janeiro

Salviano Alves Benício Júnior  CRORJ 13336

 

        A preservação de todas as partes do corpo intactas é importante porque tudo que afeta uma parte também afeta as outras.

 

        O sorriso, além de ser relaxante é agradável às vistas. Essa afirmativa já é suficiente para convencer as pessoas sensatas da importância da Prevenção Oral, que tem por objetivo a manutenção da Saúde Bucal. Assim sendo, a moderna Odontologia Brasileira, através de seus profissionais de saúde - os Cirurgiões Dentistas - insiste na necessidade de cuidados com os dentes, recomendando hábitos rigorosos de higiene e limpeza, pois este é o caminho certo para evitar cáries, doenças gengivais e perda de dentes.

 

        Os dentes naturais são infinitamente superiores aos artificiais, pois são órgãos vivos, cujos tecidos duros - dentina e esmalte- recebem nutrição e enervação através de prolongamentos celulares que se insinuam por dentro deles. Os dentes foram anatomicamente concebidos para desempenhar sua importantíssima função de cortar e estraçalhar os alimentos, possibilitando uma ação efetiva das enzimas digestivas contidas na saliva e ao longo do tubo digestivo. Um ligamento, que se constitui de inúmeras fibras, prende cada raiz de dente ao osso, amortecendo os impactos e distribuindo ordenadamente as poderosas forças desenvolvidas pelos músculos sobre os dentes durante a mastigação. As gengivas protegem as delicadas estruturas subjacentes.

 

        Para se entender melhor a importância da conservação da Saúde Bucal, é preciso saber que os dentes não são estruturas isoladas do corpo humano, mas componentes de um sistema muito complexo e de múltiplas funções - porém bastante sensível às variações do normal. Tal, é o denominado Sistema Estomatognático. Suas partes são tão intimamente relacionadas que um distúrbio ou má função leva todo o sistema ao desequilíbrio, provocando sua deterioração acelerada. Entretanto, a exemplo das demais partes do corpo, ele deveria funcionar durante a vida inteira do indivíduo.

 

        Além dos dentes, ossos e músculos, outra parte importantíssima do Sistema Estomatognático é a Articulação Têmporo-Mandibular ou A.T.M. ("dobradiça" da face), que pode ser sentida à frente dos ouvidos. Sem dúvida, é a articulação mais complexa do corpo, pois a harmonia de seus múltiplos movimentos está na dependência de uma correta disposição dos dentes. O osso mandibular é sustentado, e seus movimentos delimitados por superfícies articulares e densos ligamentos da A.T.M. Para a mandíbula funcionar, ou seja movimentar-se para cima, para baixo, para o lado, etc., são necessárias contrações e relaxamentos coordenados de um engenhoso arranjo muscular - a musculatura da mastigação. Impulsos nervosos são captados desde os dentes e músculos e mensagens são conduzidas por neurônios ao nervo trigêmeo - já no crânio. Este se integra às estruturas superiores do cérebro até o córtex cerebral, este com funções sensitivas e motoras. Forma-se uma intrincada rede de circuitos, onde impulos elétricos vão e voltam em velocidade espantosas, interligando todas as partes do sistema através de inúmeras conexões nervosas; o objetivo final é sincronizar precisamente os movimentos da mandíbula. Quando em repouso os dentes se afastam precisamente, permitindo à A.T.M. ocupar uma posição favorável ao descanso dos músculos


UMA DESTRUIÇÃO LENTA, PORÉM CONTINUA

 

        Entretanto, toda a harmonia fisiológica do Sistema Estomatognático pode ser quebrada - tomando lugar o envelhecimento acelerado e patológico- se fatores causadores de deterioração estão presentes.

 

        Um dos fatores destrutivos é a tensão (stress) oclusal, capaz de produzir lesões traumáticas nos dentes e suas estruturas de suporte, já que as forças mastigatórias não são devidamente distribuídas. Daí a sobrecarga, pois determinados dentes são submetidos a forças maiores do que podem suportar. Disso, podem resultar dentes desgastados ou afrouxados pelo trauma constante. As interferências, grandes responsáveis pela tensão, são assim denominadas porque interferem na harmonia de movimentos da mandíbula que deveria se fazer à custa de deslizes suaves. Interferências são irregularidades da própria superfície dentária, que impedem a engrenagem ideal dos dentes, fazendo-os tropeçarem uns nos outros durante a função. Como os dentes não se engrenam, ou encaixam, adequadamente, a mandíbula é obrigada a manter-se em uma posição não fisiológica, que esforça excessivamente os músculos, podendo levá-los à fadiga e transformar suas contrações em espasmos dolorosos. O desequilíbrio e a fadiga, podem afetar o sensível complexo neuromuscular conduzindo ao irritante "ranger de dentes" - também conhecido por Bruxismo. O Bruxismo pode gastar severamente os dentes ou afrouxá-los. É interessante que, a maioria dos portadores desse hábito não está consciente do mesmo, e costumam se levantar pela manhã com os dentes e músculos doloridos sem entender porque.

 

        O desequilíbrio dos músculos da mandíbula pode afetar os músculos da cabeça e do pescoço. Os sintomas que se associam com a tensão oclusal podem variar de leve desconforto na área da A.T.M. e músculos à uma dor insuportável. Pode se manifestar como uma dor de ouvido ou uma dor de cabeça crônica, que leva a vitima sofredora à buscar alívio através de medicação analgésica constante - sem saber que seu problema poderia ser diagnosticado e tratado pelo dentista. Os estalidos ou "clicks", ouvidos quando a boca é aberta, são sinais que indicam comprometimento da articulação. A tensão emocional assume importante papel, porque pode agravar ainda mais a tensão muscular e seus sintomas.

 

        O outro importante fator de deterioração é a presença de microorganismos. Estes se aderem às superfícies do dente. formando uma colônia denominada Placa Bacteriana. Auxiliados pelos açúcares e detritos alimentares que permanecem na boca, eles produzem ácidos capazes de descalcificar os tecidos duros do dente, iniciando o processo destrutivo conhecido como Cárie Dental. Com a formação de uma cavidade de cárie, o exército de bactérias encontra facilidade de penetração e vai ampliando o "buraco" até atingir a polpa ("nervo") do dente. Seguem-se a inflamação, infecção e morte da polpa. A dor que acompanha os processos agudos é tão violenta e torturante, que é capaz de levar a vítima ao desespero. Se presente, a infecção pode se alastrar através da corrente sangüínea, acarretando graves problemas à saúde geral.

 

        Infelizmente, a agressão bacteriana não se limita aos tecidos duros, pois a massa microbiana se infiltra entre a gengiva e o dente. Dai, a placa bacteriana penetra sob a gengiva que incha e sangra com facilidade. para depois formar uma espécie de bolsa recheada de bactérias. Liberando substâncias tóxicas. elas continuam sua marcha, destruindo progressivamente osso e ligamento periodontal - estruturas que mantém o dente no lugar. Finalmente, a placa bacteriana envolve todo o dente, destruindo todos os tecidos circundantes. O dente, agora sem suporte, solta-se com facilidade.


O MELHOR É PREVENIR

 

        Diante de todos esses problemas que afetam a integridade física e psicológica do homem, a Odontologia - como profissão de saúde - investiu muito até alcançar o avançado nível de desenvolvimento técnico-científico atual. Hoje, os Cirurgiões Dentistas contam com um avantajado arsenal terapêutico que os possibilitam reduzir todos os estímulos nocivos a um grau que não sejam destrutivos. A detecção e remoção da placa bacteriana interrompe o ataque microbiano. A restauração de partes atacadas pela cárie restitui a forma e a função dos dentes, além de resolver os problemas de estética quando ela foi envolvida. A reposição de dentes ausentes evita as consequências desastrosas de sua ausência. O tratamento dos tecidos moles restabelece a saúde gengival. A detecção e remoção das interferências, através do ajuste oclusal, permite à mandíbula ocupar uma posição confortável e livre de tensão. Os músculos "agradecem" quando sua função volta ao normal; também os dentes se vêem livres de traumas ou desgastes excessivos. A eliminação das causas dos problemas, alivia definitivamente as dores e tormentas. Enfim, é permitido ao Sistema Estomatognático restabelecer a totalidade de sua harmonia funcional, e os objetivos de saúde ótima, estética, eficiência mastigatória e conforto serem alcançados.

 

        Entretanto, apesar de todos os progressos da Odontologia como ciência, muito pouco os dentistas terão a oferecer se as pessoas não se conscientizarem da sua responsabilidade na manutenção da saúde bucal. Uma boca coberta de placa bacteriana, não pode ser chamada de saudável, pois essa boca está em plena degeneração. E apesar do assombrador número de 2 bilhões de cáries no Brasil, a maioria das pessoas ainda prefere ignorar os cuidados de higiene e limpeza. Alguns se contentam em simplesmente "esfregar" uma velha escova nos dentes vez ou outra. Outros, esperam seus estados bucais agravaram a tal ponto - só recorrendo ao consultório quando a dor os torna inválidos, que sua reabilitação torna-se uma tarefa difícil, desafiando os mais sofisticados instrumentos e técnicas. Depois vão reclamar do dentista os custos inerentes ao tratamento, como se a culpa não fosse de seu desleixo e sua preguiça. Não seria muito mais simples prevenir-se de tais transtornos?

 

        Seguindo-se corretamente as técnicas de escovação - ao acordar, após as refeições e antes de dormir os riscos de contrair cáries e doenças gengivais é mínimo. As escovas dentais são importantes instrumentos na Prevenção Oral. A escova correta possui tufos de cerdas macias e de extremidades arredondadas para não traumatizar as gengivas. Deve-se trocar de escova pelo menos de três em três meses, pois com o uso as cerdas se abrem, tornando-as inúteis. Um programa eficiente de higiene exige ainda o uso de fio ou fita dental pelo menos uma vez ao dia. Esses atingem as superfícies do dente que são inacessíveis para as escovas. Soluções anti-sépticas e anti-bacterianas também são auxiliares no combate aos microorganismos.

 

        O programa de prevenção é completado com a visita periódica ao consultório dentário, para exame de rotina e detecção de possíveis processos patológicos em sua fase inicial e tratá-los, antes que mais estruturas sadias sejam danificadas.



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